segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

DECADÊNCIA (conto)

DECADÊNCIA


LdeM


Sim, o meu desejo por A. não se oculta. Mas sou discreto. Limito-me a observar (sinto estar levitando, contemplando-a). estamos numa casa de campo, uma festinha continua lá dentro. Aqui, na varanda, só os pirilampos. Ou os faróis de um carro que chega.

Conversamos sobre o tempo, o lugar,o cosmos, a noite. Ela atenta, possivelmente interessada (eu louco para agarra-la, mas hesitante). A. toda de preto, vestes sombrias, longos cabelos negros, pálida, espectral. Eu, não menos vampírico.

Não sei se a conversa ficou meio xarope, mas voltamos ao grupo reunido em poltronas, compartilhando taças de vinho. Entramos. Sinto-me cair das alturas, desperto de meu levitar. A luz mortiça, o ar pesado, a música melódica e opressiva, tudo nos recepciona. Ao redor continuam os flertes discretos, uma ou outra carícia ousada. Gestos lentos, lábios disformes. Ambiente ora rústico, ora high tech.

Murmúrios se diluem na massa juvenil. Alguém atira um sapato sobre a mesinha. Dois copos rolam e deixam uma mancha de cacos. Fragmentos rubros.

Comento que a festa está um tedium vitae, que aquilo tudo está valendo apenas um longo bocejo.

- Vou tirar a roupa.

Escandalizei alguém? Apenas o convidado ao lado. Mas continuo a olhar para a garota que estava comigo, lá na varanda. Sim, a linda A. E continuo a beber. Linda, ela. A A. Mas o jardim, digo, o cheiro do jardim, me atrai. Apenas para descobrir um casal entre as samambaias. Levo comigo uma taça de vinho. “Embriagai-vos!”um convidado surge ao meu lado (é aquele que ficou escandalizado com minha proposta de desnudamento). Lembro a decadência dos costumes. Ele diz que não há decadência alguma, que a humanidade foi sempre assim. Cita um filósofo francês (no original) e desliza as unhas pelo meu antebraço.

Não que eu desconfie das intenções do tal convidado, mas prefiro retornar ao aconchego do útero – a sala de jantar. Volto para a festa. Estou bêbado. Encontro a sala em meia luz, o som mais baixo e arrastado. Alguém imita Elvis. Sombrio.meninas e meninos deitados pelo chão, sobre o carpete, pelas poltronas. Vejo aquela que usurpou meus pensamentos (Julgo que seja ela. Linda., ela. A A.) deslizo sobre aquele corpo desejado, Ela, bêbada, não opõe resistência. Transamos.

É quando percebo ser outra garota. Não a da varanda, mas outra, bela desconhecida. O caso é que a A. se levanta lá do outro sofá e vem pegar a minha mão. Vultos rubros em seu olhar? Meu constrangimento revela-me meu estado de nudez. Mas não posso deixar de admirar o sorriso de gozo nos lábios da adormecida que acabei de possuir.

A garota de varanda, a linda, ela, pretende ser compreensiva. Estamos todos um tanto quanto ébrios. “Embriagai-vos!”. Alguém imita David Bowie. Sombrio. A. parece entender que eu a procurava. Que dei prazer e tive prazer com outra, mas pensando nela. A garota olha-me triste, e beija-me. Tenho sono. Dormimos nos braços um do outro.


Outra noite? Não sei. É madrugada.ando pelas ruas, sozinho. Uma menina de cabelos curtos, vermelhos, e piercings reluzentes, grita numa esquina, “Ei, cabeludo!” Não estou interessado. Não importa quem seja, ou o que ofereça. Sigo meu rumo (falta saber que rumo...) e quase tropeço em um artesão, ali vendendo anéis, braceletes, enfeites para os cabelos, adornos indígenas, enfim, quase vou pisando em sua colorida arte.

Na praça, onde a igreja matriz está isolada do real,por uma bruma de dois séculos, jovens se aglomeram, e os clãs delimitam seus espaços vitais. Alguma exigência de “Lebensraum”? Não se preocupem. Policiais arrogantes e suas viaturas modernas passam de tempo em tempo.

Caso haja pancadaria, tiroteios e agressões, logo cacetes e bombas de efeito moral surgirão na noite. Tiros para o alto. Tumulto. Policiais dispostos ao diálogo. Violência contra a violência.

Mas, na porta da matriz, a paz centenária, e as barracas da quermesse. Restos das bandeirinhas e lascas dos portais de bambu. O asfalto decorado com cruzes, imagens de um cristo sorridente, traços em giz, INRI, JHS, Paz e Fraternidade. Parece uma provocação.

Mas os jovens sombrios estão bebendo e bocejando. Um ou outro se arrisca a ir urinar nos canteiros da igreja. Afinal estão em território livre, mais internacional impossível, aqui a filial da empresa vaticano, cultos catárticos em latim.

Até as blasfêmias estão fora de moda, nada original desde os arroubos byronianos. Sigo para a esquina. Do outro lado, um posto, uma loja de conveniências. Talvez seja conveniente... rapazes deitam mocinhas sobre os capôs dos carros. O lugar é hostil. Todos parecem ser. Desprezado, eu desprezo.

Na área comercial, sob as marquises do Mercado, vejo um grupo compartilhando uma garrafa de conhaque. Ironizam as festas dos cristãos. Um deles se aproxima e pede fogo. Lamento não poder ajuda-lo. Ele resmunga. Traz no olhar paisagens de um vasto cemitério.

- “Embriagai-vos”!

Mas ninguém demonstra conhecer Baudelaire. Até por que nem me concedem atenção. Olham com cobiça a mocinha que passa abraçada ao mocinho de jeans rasgado.

Os caras não respondem. Desconfiam de mim. Como sabem? Procuro ficar à vontade. Pretendo demonstrar meus conhecimentos etílicos, minha enciclopédia musical, procuro mostrar que sou da turma, conheço o underground. Grito até umas blasfêmias. Versos de Dante.

- O cara é profano. Profano! É dos nossos.

Arrisca um do grupo, mais amistoso. Estende o conhaque, enxugando os lábios com as costas da mão. Aquele que pedira um fósforo exibe um arroto formidável.

- Aí, podreira, o cara!

E assim fugimos juntos, sob os portais, cristos e amuletos, entre as vozes entoando John Lennon e as sirenes da polícia.


Set/05


Leonardo de Magalhaens

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O NATAL A COCA-COLA COMPROU




O NATAL A COCA-COLA COMPROU

O Natal a Coca-Cola comprou
A Páscoa a Nestlé dominou
O Carnaval a Globo registrou!

Tudo está à venda!
(Estes versos estão à venda)

Todas as emoções à venda!
Papai e mamãe estão à venda!
(A família exposta na vitrina)

A felicidade em suave prestações!
Sua realização pessoal à crédito!
Todas as festas e feriados à venda!

Tudo está à venda!
(Estes versos estão à venda)

À venda todas as promessas de felicidade
Compre sua fé nos sites da Internet
Compre sua paz nas promoções midiáticas
Compre sua liberdade com cheque pré-datado!

A propaganda do novo evangelho,
A auto-ajuda para toda a baixa-estima,
A redenção de toda a ineficiência crônica,
Tudo à venda!

O Guia, o Fuehrer, o Pai dos Pobres,
O Messias dos programas de auditório!

Tudo à venda!
Até este poema!


Dez/08


Leonardo de Magalhaens
também na contraantologia PORTUGUESIA, p. 299

sábado, 19 de dezembro de 2009

conto fruto dos excessos de leituras de best-sellers...





EXCESSO DE LEITURA DOS BEST-SELLERS DO MÊS


Dedicado a Dan Brown


Lembro de fatos relacionados à minha visita ao Louvre, sim, o Museu
do Louvre
, em Paris, sob a sombra da polêmica Pirâmide de vidro,
quando permiti (e até incentivei ) Elisa a fotografar-me junto as
famosas peças da arte arquitetônica francesa, com acentos renascentistas
ou traços modernos (ou pós-modernos, como é o caso da própria
Pirâmide), num entardecer de brumas.

(Em Roma, nos domínios do Vaticano, eis que estou numa missa de
Corpus Christi e perplexo diante da adoração, do fascínio destes
sacerdotes diante de uma imagem – uma estátua! – de um corpo morto.
Coroa de espinhos e filetes de sangue.)

Procuramos ângulos inusitados. A câmera em busca de posições
panorâmicas. Agachado sob as arcadas, ou apontando para a Pirâmide
de vidro,ou focando a entrada do Louvre, imagens são coletadas para
um futuro. Um casal reclinado em sua comodidade, admirando a saúde
e os sorrisos das viagens na juventude. Depois permitimo-nos passear ao
longo das paredes de vidro da Pirâmide, notando lá embaixo, os corredores
e as paredes exibindo as coleções das mais valiosas pinturas do mundo.

(Roma – proclamando minha perplexidade, consigo votos de apoio. A
praça de São Pedro é sacudida por ondas humanas. Adorem o Deus-Vivo,
eu grito. Esqueçam o Deus-Menino, o Deus-Sacrificado! Ninguém se
interessa por um Deus de vitórias? Sou agora acusado, diante dos pilares
do templo e sob a sagrada sombra da Basílica, de ser um perturbador, ou
mais, um herege. Aquele a corromper os fiéis, a desviar o rebanho!
Esclareço que não me agradam as acusações de iconoclasta, ou pagão,
ou luterano. Alegam, com lentas palavras de fria intolerância, que o Deus
é aquele que se sacrificou pelos homens, vis pecadores. Eu lembro que
Deus é um Deus de Poder, de Glória, não um Deus-Homem-Morto,
sangrando até os dias atuais.)

Sob os arcos, sob a meia-luz do anoitecer parisiense, fotografar um
prédio, com tão vastos detalhes, exige uma dose de profissionalismo
que, infelizmente, nos falta. Aqui, onde o passado e o presente se
encontram,onde contornos floreados se encontram lado a lado com
fibras sintéticas... ah, perdoem-me minha ignorância quanto a detalhes
arquitetônicos...

(Autoridade eclesiásticas, em vestes escarlates, prenunciando o sangue,
olham-me de suas culminâncias com retinas piedosas. Sou obrigado a
novas explicações. Abatem-me sujas imprecações e vazias acusações.
É inútil apresentar claramente minhas idéias, um tanto embaralhadas
após semanas num antro escuro, a pão, bolachas e água morna. Ouço,
às minhas costas (minhas doloridas costas!) as vozes blasfemas de muitos
que se auto-apregoavam meus companheiros. Trata-se de uma armadilha.
Vozes amigas. Vozes inimigas. Traição e perfídia! Torturam-me a alma
além do corpo. Sangram-me a dignidade além dos ossos moídos.
Torturam-me. Sou condenado. Olhos anseiam pelo crepitar das labaredas.)

Abraço Elisa, depois de incluí-la em outras fotos (encontramos um italiano
muito gentil), tendo, ao fundo, a Pirâmide. Abraçados, sorrimos e nos
entregamos à noite.


Abr/06

(Revisado: jun/06)


Por
Leonardo de Magalhaens

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

sobre PETER PAN (ensaio)





sobre “Peter Pan” (ou “Peter and Wendy”, 1911)
do autor escocês Sir James M Barrie (1860-1937)


A Literatura enquanto Fantasia

Parte 3 – Peter Pan


Nas partes anteriores, foi discutido a Fantasia e o
Maravilhoso em “Alice no País das Maravilhas”, quando
fenômeno aceito sem hesitações, como algo 'natural',
também a Fantasia enquanto a realização (ou satisfação)
de um desejo de posse de algo que as personagens
possuem e nem sabem disso, na leitura de “Mágico de
Oz”. Em “Peter Pan” pode se encontrar o desejo de algo
fora, uma vontade acima do dever, a busca de outro (tal
qual na 'fantasia sexual', em busca de um Objeto de
satisfação). Assim é, pois o menino Peter, ou Peter Pan,
tem o arraigado desejo de não crescer, uma vontade
férrea de ser sempre criança.

Ser criança, conservar a infância, não ficar adulto, não
envelhecer. Fisicamente em florescência. Mas, principal-
mente, não ter responsabilidades, não entrar no 'mundo
adulto', não ser 'domesticado'. Uma criança enquanto
ser de impulsos, fartura de energia, olhar de curiosidade,
vontade de potência, egocentrismo inocente, pedantismo
ingênuo.

Ou criança para viver num mundo imaginado, re-criado
ao gosto e (in)conviniência, dado de antemão em sonhos
(e pesadelos), re-estruturado em palavras de contos e
recontos, e pronta para viajar (sim, voando!) para este
mundo imaginado. Um mundo ao qual somente as crianças,
curiosas, inventivas, inocentes, ingênuas, de pensamento
leve, enfim, raríssimas, têm acesso.

A recusa em crescer para continuar vivendo num mundo
de fantasias, eis o resumo de “Peter Pan” O menino que
vive entre fadas, sereias, índios, piratas, numa tal “Terra
do Nunca” (Neverland), feita dos sonhos (e pesadelos) de
todas as crianças. Um mundo feito dos retalhos das
imagens produzidas pelas mentes infantis adormecidas
quando acabam de ouvir 'contos de fadas'.

Não querer crescer? Eis um árduo conflito a permear as
crianças e adultos. Deixar um mundo de potencialidades,
de 'caminhos possíveis', para tornar-se um ser de caminhos
traçados, de responsabilidades e compromissos, de seguir
datas marcadas, etapa por etapa. Quem não consegue,
é reprovado, é marginalizado, é aprisionado, é exilado. E
a criança se rebela: não serei adulto!

Assim é o menino egocêntrico e convencido, o Peter Pan
que aparece (finalmente) para a menina Wendy Darling
e os irmãos John e Miguel, que adormecem ouvindo os
bons e velhos 'contos de fadas', acreditando e esperando,
conservando assim o mundo das fantasias, a “Terra do
Nunca”. Peter logo seduz todos (e primeiramente Wendy)
com planos de voar para a ilha dos sonhos.

Tendo o livro nascido de uma peça teatral (com estreia
em 1904), o aspecto cênico, ou descritivo, é muito mais
evidente. As cenas são ágeis, plenas de imagens e
símbolos que alegram qualquer criança atenta. O desejo
de voar, de chegar a um lugar onde as crianças imperam,
onde têm uma liberdade sem disciplina (nem ordens de
adultos), tudo isso é muito sedutor para qualquer coração
infantil. E o Autor Barrie soube bem narrar esta fábula,
ora na perspectiva das crianças, ora apoiando os adultos
(principalmente os pais das três crianças Darling).

O narrador vez ou outra adentra a narrativa com
digressões com britânica ironia, como por exemplo, ao
descrever a mente infantil

I don't know whether you have ever seen a map of a person's mind.
Doctors sometimes draw maps of other parts of you, and your own map can
become intensely interesting, but catch them trying to draw a map of a
child's mind, which is not only confused, but keeps going round all
the time. There are zigzag lines on it, just like your temperature on a
card, and these are probably roads in the island, for the Neverland is
always more or less an island, with astonishing splashes of colour here
and there, and coral reefs and rakish-looking craft in the offing, and
savages and lonely lairs, and gnomes who are mostly tailors, and caves
through which a river runs, and princes with six elder brothers, and a
hut fast going to decay, and one very small old lady with a hooked nose.
It would be an easy map if that were all, but there is also first day
at school, religion, fathers, the round pond, needle-work, murders,
hangings, verbs that take the dative, chocolate pudding day, getting
into braces, say ninety-nine, three-pence for pulling out your tooth
yourself, and so on, and either these are part of the island or they are
another map showing through, and it is all rather confusing, especially
as nothing will stand still. (p. 5)
fonte: http://www.gutenberg.org/catalog/world/readfile?fk_files=785840&pageno=5
“Não sei se você já viu o mapa da mente de uma pessoa. Os médicos, às vezes, desenham mapas de outras partes suas, e seu próprio mapa pode ser realmente interessante, mas tente surpreendê-los tentando desenhar um mapa da mente de uma criança! Que não apens é confusa, mas também fica girando o tempo todo. Cheia de linhas em zigue-zague, parece mais aquelas linhas de temperarura, e talvez sejam as estradas da ilha, pois a Terra do Nunca é sempre mais ou menos um ilha, com incríveis manchas de cores aqui e ali, e recifes de corais e velhos navios costeando, com selvagens e covis solitários, e gnomos que muitas vezes são alfaiates, e cavernas onde os rios correm, e príncipes com seis irmãos mais velhos, e uma cabana que vai desabando, uma velhota com nariz em forma de gancho.
Seria até um mapa fácil se fosse só isto, mas há também o primeiro dia na escola, religião, os pais, uma piscina, alguns bordados, crimes, forcas, verbos que usam o dativo, os transitivos indiretos, o dia do pudim de chocolate, armação nos dentes, um 'diga-noventa-e-nove' do médico, aquela moedinha para deixar o dente, e por aí vai, e todas estas coisas são parte da ilha ou estão em algum mapa a indicar, e é tudo um tanto complicado, ainda mais porque nada fica sossegado.” (trad. LdeM)

É realmente difícil resistir ao charme prepotente de Peter
Pan que leva tudo na esportiva, sempre sorrindo e
achando tudo muito engraçado! É uma espécie de
diabinho zombeteiro, que nem percebe que 'fazendo
graça' pode estar prejudicando alguém... O narrador deixa
claro que a narrativa não é uma ode louvatória ao
protagonista (ou um dos, afinal o título original é
duplo, “Peter and Wendy”), que tudo giram em torno
dos desejos infantis, e ninguém mais 'infantil' (com sua
personalidade arrogante e egocêntrica) que o tal menino
que se recusa a crescer.

It is humiliating to have to confess that this conceit of Peter was
one of his most fascinating qualities. To put it with brutal
frankness,there never was a cockier boy.
(p.18)

É humilhante ter que confessar que este caráter de Peter era uma
de suas mais fascinantes qulidades. A falar com franqueza, nunca
houve um menino mais convencido.

Os irmãos Darling (e principalmente Wendy) fazem tudo
para agradar o menino brincalhão e mandão, naquela
jornada avoada rumo a Terra-do-Nunca. Lá estão as mil
aventuras escutadas, esperadas, sonhadas, adormecidas,
com fadas, sereias, índios e piratas. Todos num ciclo de
mitos e fábulas que as crianças conhecem muitíssimo
bem! Lá estão os “Meninos Perdidos”(Lost Boys), as
crianças que cairam da cama (ou fugiram de casa) e
vivem na ilha das fantasias infantis, e vivem saudosos
de um bom carinho de mãe (tanto que Wendy vai se
tornar a 'mãezinha' de todos eles...) a lutarem contra
os perigosos piratas, comandados pelo pior de todos
os bucaneiros, o Capitão James Gancho (Hook) - assim
chamado por usar um gancho superafiado no lugar da
mão direita ( cortada por Peter e dada a um medonho
crocodilo, a perserguir, então, em contínuo tic-tac de
relógio, o chefe pirata).

E para que tudo exista, tudo continue a existir, no rodízio
perpétuo de fadas, gnomos, sereias, índios, piratas, é
preciso que as crianças sempre acreditem em fadas, em
fantasias, em outros mundos possíveis.

"No. You see children know such a lot now, they soon don't believe in
fairies, and every time a child says, 'I don't believe in fairies,'
there is a fairy somewhere that falls down dead." (p. 20)

“Não. Você sabe, as crianças sabem um monte de coisas, e logo não
acreditam em fadas, e toda vez em que uma criança diz: não acredito
em fadas! Então em algum lugar uma fada morre.”

O próprio voar livre precisa de crença em fadas, pó de
fadas, além de 'pensamentos amáveis', que sejam assim
leves, airosos; “Você precisa de maravilhosos pensamentos
amáveis
”, Peter explicou, “e eles vão te fazer levitar”
("You just think lovely wonderful thoughts
," Peter explained,
"and they lift you up in the air.",p. 25)
Não poderia ser mais imagética a descrição da Terra do
Nunca (Neverland), a ilha nascida da imaginação infantil,
com sua coleção de mitológicas personagens a dependerem –
para continuarem existindo! - da crença das crianças. Um
'real' imaginário a precisar de um 'imaginário' faz de conta
(make-believe). Os seres fantásticos espelham (sendo 'pro-
jeções') dos anseios infantis, com identidades desejadas,
tanto benévolas quanto perversas. (E até as fadas podem
ser más, ciumentas, como Sininho, a tilintar de ciúmes
quando Peter dá atenção a menina Wendy...) e não sabe s
er mais ou menos boa ou mais ou menos má, mas sendo
boazinha ou perversa por completo.

Aqui não será abordado o enredo (não privaremos
ninguém do prazer da leitura!) mas apenas apontar a
importância da simbologia da Obra, que influenciou
literatos e também psicólogos, pedagógos, que depois
criaram os conceitos de 'síndrome de Peter Pan' ou
'síndrome de Wendy', onde a primeira consiste no recusar-
se a crescer (puer aeternus), ser responsável e indepen-
dente, permanecendo 'socialmente imaturo', e a segunda,
caracterizada pela vontade de apoiar e proteger o outro,
fazer tudo para agradar, ser uma 'mãe e tanto'. Esta
dicotomia Peter e Wendy dá tanto enredo quanto um
encontro entre Sade e Masoch. Desde que as crianças
se retirem da sala.


Nov/09

Leonardo de Magalhaens
http://leoliteratura.zip.net/

sábado, 12 de dezembro de 2009

sobre 500 days of summer (movie)






Sobre o filme “500 days of summer” (USA, 2009)
do diretor Marc Webb

Quando o amor não passa de promessas quebradas

Raramente escrevo crítica sobre filmes, devido ao
pouco conhecimento desta arte visual e sonora. As
únicas críticas que escrevi sobre filmes foram sobre
Hannibal” (e “O Silêncio dos Inocentes”) em 2004,
e sobre “V de Vingança”, em 2006, ambas considerando
o enredo, digo a Narrativa. Afinal, é o que os filmes e
a literatura têm em comum: a Narrativa.

No mais, raramente adentro cinemas. Recebi um
convite, e não podendo negar, sentei-me diante da
telona. Uma dita comédia romântica, ao estilo norte-
americano, com um casal em encontros e desencontros.

Ao assistir o movie, cenas do meu romance (o vivido
e o escrito) vieram-me à mente. (Se eu lançar o meu
romance agora, algum crítico desavisado acusaria
este autor de audacioso plágio...
) Coincidências?
A trilha sonora incrivelmente assemelhada. As baladas
românticas que certamente inspiraram pérolas do rock
estrangeiro e nacional. Uma soundtrack que complementa
a narrativa e demonstra a atmosfera, as entranhas
emocionais dos protagonistas (principalmente do
‘mocinho’). Em pesquisa posterior, descubro que o
diretor é produtor de videoclips, sendo um expert em
música pop. Está explicado.

Realmente, trata-se de desencontros, abismos entre o
esperado e o acontecido (ou a ‘realidade’ e as
‘expectativas’, exibidos em planos paralelos na tela),
uma narrativa contrapondo o ‘estilo romântico’ dele e
o ‘estilo casual’ dela. Ele quer a ‘única’, a ‘certa’, a
‘mulher da vida dele’. Enquanto ela desacredita, e os
demais figurantes vivem ao estilo ‘divertindo-se com
as erradas enquanto não aparece a certa’.

Todos insistem que se ela não quer, então a ‘fila
deve andar’, como se os relacionamentos fossem
mesmo ‘sintomas passageiros’ ou ‘diversões descartáveis’.
Acabou o ‘tesão’ acabou o ‘falling in love’. É um estilo
cínico de narrar uma ‘comédia romântica’ (pelo menos
do modo como este rótulo ressoa...) pois não pode-se
levar à sério os protagonistas (ele: idealista X ela:
pragmática), pois o Narrador (pois há um Narrador!)
descreve as existência como um exímio anti-romântico.
(Ironiza mesmo as ‘expectativas’ do mocinho”)

A trilha sonora emoldura os aspirações e conflitos: amar
é agüentar os caprichos (ou idiossincrasias) do Outro.
É sair do Eu por um momentinho e deixar a porta aberta.
A começar pela banda preferida: ele ouvi um clássico
dos The Smiths no elevador, e ela adora, deixa-se a
cantarolar, e ele nem acredita. ( É a bela canção “There is
a light that never goes out
”)

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die

E se um ônibus de dois andares / nos esmagar
Morrer ao teu lado / será um maneira divina de morrer

Vejam a tradução completa em
http://leolyricstraduzidas.blogspot.com/

Ele, que ainda hesitava, se entrega ao que considera
um ‘chamado do destino’. Não sabe o que são
coincidências (aprenderá talvez...), e se a mocinha
adora Smiths e ele também: eis a fatalidade a unir
os corações! O esforço dele será conquistar a mocinha,
e saber se pode embarcar num relacionamento que
seja duradouro (veremos que vai durar quase 500 dias...)

Fábulas românticas à parte (pois o filme vem desconstruir
justamente este romantismo), a vida do mocinho não é
muito, digamos, marcada por qualquer ‘plenitude’. Ele
adora arquitetura, estudou arquitetura, mas vive num
emprego de escritor de frases para cartões. Cartões de
aniversário, de amizade, de namoro, de amor, de
condolências, de Natal, etc. Cria frases que as pessoas
não tem coragem de dizer às outras. Ele mesmo diz isto,
num desabafo diante do chefe e dos colegas – e se demite.

É então que ele começa a viver: ressuscita o desejo de
ser arquiteto (a real vocação) e vai procurar um emprego.
Há reencontros que são piores que a separação: promessas
de reconciliação que acabam magoando mais... Ela se
casou (ela que nem queria ser namorada de alguém...!)
e ele fica a pensar: o que foi que eu errei?

(Aqui há uma diferença básica quanto ao meu romance,
mo qual nada se resolve. A mocinha não casa, o mocinho
não se recupera. As solidões à dois voltam a ser solidões
solitárias mesmo
. ) O diretor deveria então contar porque
o casamento deu certo... Mas é que o diretor não deseja
epílogos tão pessimistas: as coisas são meras peças
de um jogo de coincidências e vão se repetir com
variações mínimas: só que agora a ‘menina dos olhos’
chama-se “Autumn” (Outono) e não “Summer” (Verão).

dez/09


Leonardo de Magalhaens


Um trailler do movie in
http://www.youtube.com/watch?v=PsD0NpFSADM

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

sobre O Mágico de Oz (L. Frank Baum)





sobre O Mágico de Oz (The Wonderful Wizard of Oz, 1900)
do norte-americano L. Frank Baum (1856-1919)


A Literatura enquanto Fantasia e Non-sense

p1 – Alice no País das Maravilhas
p2 – O Mágico de Oz
p3 – Peter Pan


Parte 2


É impressionante que as pessoas atualmente fiquem
deslumbradas com as aventuras mirabolantes do bruxinho
'gente-boa' Harry Porter, ou as aparições (ou não) da terrível
Bluxa de Blair, ou os vampiros juvenis da série Crepúsculo, e
ao mesmo temo esqueçam as fontes de onde transbordaram
estas literaturas de fantasia.

Derivadas do mundo dos sonhos (ou dos pesadelos) as Fantasias
derivam do universo das fábulas, desde a aurora da literatura oral
(aquela narrada de uma geração a outra) e sofreram metamorfoses
com as estórias de suspense e de terror, ou os contos de pseudo-
ciência (ou Ficção Científica, como queiram), usando o mesmo
método e suporte textual: as imagens oníricas.

Os sonhos nada mais são do que desejos. Aceitos ou reprimidos.
O que desejamos ser ou algo que desejamos esconder. Assim
nunca contentes com o que (ou quem!) somos, sempre desejosos
de algo mais, algo diverso. Um mundo outro onde as aspirações
possam se concretizar. Assim a literatura de Fantasia tem o seu
lugar: as nossas projeções e os nossos recalques.

Vivendo das imagens mitológicas do terror e da fantasia, a narrativa
fantástica espera um leitor que leve a estória a um outro nivel de
'verossimilhança': 'esqueça tudo o que você já viu – você vai
conhecer um mundo novo'. Assim, a protagonista cai num buraco e,
pronto!, está num outro-mundo! Ou a casa é levada na ventania,
ou um duende invade o seu quarto – e eis a maravilha: a
personagem transportada para 'outra' realidade.

A perder toda noção de 'real' e 'imaginário', nos jogos textuais
de 'alteridade' (o outro possível que não somos), ou cópias
personificadas do desejo (quem quer voar não admiraria quem
pode voar?) nos seres humanos ou pseudo-humanos (ou quase
humanos) ou ainda zoomórficos (animais que falam, por exemplo)
povoando a nova experiência existencial: a protagonista continua
a ser ela mesma?

De repente, Dorothy, a menininha de “O Mágico de Oz” (1900),
do norte-americano L. Frank Baum, está em seu mundo, lá no
árido Kansas, e no momento seguinte não está! Um ciclone
chega rodopiando e eis que leva a casa até às nuvens! Quando
aterrisa – a casa inteira! - a menina descobre sua localização
num outro mundo – o dos Mortos? De início pode-se até imaginar...
Mas chegam algumas personagens: os Michkins, baixos e
barbudos, com suas roupas azuis, além da Bruxa Boa do
Norte, a agradecer a proeza de Dorothy – ao exterminar a
Bruxa Má do Leste. Que Bruxa Má do Leste?, a menina quer
saber. E eis que ali os sapatos prateados: é que a casa caiu
justamente sobre a tal bruxa malvada!

Dorothy chegou assim num mundo alternado (ou paralelo) ao
Kansas, ao século 19 (ou 20), onde precisa se havitar com o
fenômeno do 'encantamento' (afinal, ela é mais uma das
vítimas do 'desencantamento do mundo'...) A conversa –
cheia de lacunas e lapsos surreais – entre a Dorothy e a
Bruxa Boa do Norte evidenciam esse 'desencantamento
do mundo':

The Witch of the North seemed to think for a time, with her
head bowed and her eyes upon the ground. Then she looked up and
said, "I do not know where Kansas is, for I have never heard that
country mentioned before. But tell me, is it a civilized country?"

"Oh, yes," replied Dorothy.

"Then that accounts for it. In the civilized countries I
believe there are no witches left, nor wizards, nor sorceresses,
nor magicians. But, you see, the Land of Oz has never been
civilized, for we are cut off from all the rest of the world.
Therefore we still have witches and wizards amongst us."

“A Bruxa do Norte ficou pensativa por um momento, com a cabeça
meio inclinada e os olhos fitando o chão. Depois olhou para cima
e disse, 'Não sei onde fica o Kansas, pois nunca ouvi falar deste
país antes. Mas, diga-me, é um país civilizado?

“Ó, sim!

“Então é por isso! Nos países civilizados eu creio que não há mais
bruxas, nem magos, nem feiticeiros, nem mágicos. Mas, eu acho que
a Terra de Oz nunca foi civilizada, pois estamos separados do resto
do mundo. Assim, nós ainda temos bruxas e magos entre nós.”

(trad. LdeM)

A primeira preocupação de Dorothy é voltar para casa.
Mesmo que curiosa quanto aquele mundo estranho, a
menina não vai jamais desistir do retorno para a aridez
do Kansas, lá onde está o mundo tal como ela conhece,
Não há um lugar igual a nossa casa!” (“There is no
place like home!
”) Verdadeiro lema que ela ostenta
durante toda a jornada, seguindo a Estrada de ladrilhos
dourados, rumo a Cidade das Esmeraldas, onde está
o grande e poderoso Mágico de Oz.

Nesta jornada – cheia de perigos para uma menininha de
ingenuidade rural, centro-norte-americana – Dorothy vai
encontrar outras criaturas em busca de algo mais,
ansiosas por algo que julgam não ter, sempre
confiantes no poder do Grande Oz em satisfazer seus
desejos. (A figura do Mágico de Oz é uma figura do
Grande Pai, o grande provedor, que está na base dos
sentimentos que nutrimos por um Ente Supremo, que
a religião denomina “Deus”)

O Espantalho quer um cérebro para preencher sua
cabeça cheia de palha (por mais que ele prove, para si
mesmo e para os outros, que tem boas ideias), enquanto
o Lenhador de Lata deseja um coração (por mais que
ele prove ter bons sentimentos e muita determinação).
Já o Leão Covarde quer um pouco de Coragem, para
abafar o seu medo (como se os outros não sentissem
medo, e como se ele não demonstrasse, em tantas
ocasiões, uma coragem providencial), como uma coroa
em sua cabeça de Rei dos Animais.

Nenhum dos viajantes está contente consigo mesmo –
querem algo que julgam não possuir. Somente a Posse
de algo externo poderá satisfazê-los. A cada estágio
da jornada, cada um apresenta (e atua com) o melhor
de si-mesmos, suas habilidades e potencialidades, e
acabam por superar os obstáculos. Mas não percebem,
e precisam da figura do Grande Oz para evidenciar
estas conquistas. (Que não depende da Mágica, mas do
esforço de cada um.)

As aventuras são aquelas das fábulas, com duendes
e flores gigantescas, árvores que movem os galhos,
macacos alados, etc, e cada criança (e também cada
adulto) encontra ali as suas fantasias e sonhos (como
bem retrata o filme de 1939, com Judy Garland, cheio
de inocência e encanto infantil) numa projeção de
personagens ora boas ora malvadas, dependendo de
seus interesses. Ainda bem que no Mundo de Oz há
um equilíbrio. Existem duas bruxas boas (a do Norte
e a do Sul) e duas bruxas malvadas (a do Leste e a do
Oeste), enquanto o Grande Oz busca garantir a sua
hegemonia. (Ele precisa parecer sempre Muito Poderoso
ou ao menos Mais Poderoso que as Bruxas)

Mas no fim de tantas peripécias (as quais não descreverei
para não matar o prazer da leitura) encontram este
Grande Oz que também tem lá suas limitações (tanto
que exige que Dorothy e os amigos destruam a Bruxa
Malvada do Oeste – missão que a menina cumpre
apesar de tudo), a ponto de ser 'desmascarado' como
um impostor! Atrás das cortinas a um velhinho
manipulando o cenário! E ele é do país de Dorothy (de
Omaha, Nebraska, em interessante 'preâmbulo' da
fama deste nome, pois quando da invasão da Normandia,
no “Dia D”, 6 de junho de 1944, a praia onde os norte-
americanos mais sofreram baixas chamava-se, em
código, justamente Omaha!) e deseja voltar para o
seu lar.

O ex-Grande Oz ainda consegue modos criativos (como
mau mágico que ele é”) para agradar aos amigos de
Dorothy, que percebem que já possuem dentro deles
mesmos o que tanto procuram fora! Ao Espantalho, o
mágico presenteia um cérebro de farelo, cheio de
alfinetes e agulhas. O Lenhador de Lata recebe um
coração estufado com serragem envolto em fina seda.
Já o Leão Covarde (que mostrou muito bem não ser
nada covarde!) ganha uma beberragem qualquer,
quando o mágico diz que a coragem deve estar dentro
dele! Assim o ex-Grande Oz entrega a cada um o que
eles julgavam necessitar – mas e como vai solucionar
o problema da menina Dorothy?

Se eles chegaram voando, também poderão regressar
ao cruzarem os ares! E o mágico constrói um balão,
com a ajuda de Dorothy, para que possam voltar para
o mundo do Centro-Oeste norte-americano. Mas, no
último momento, Dorothy não alcança o balão – e
este, carregando o solitário mágico, desaparece meio
às nuvens! Quem poderá então ajudar a pobre Dorothy?

A menina segue em nova peregrinação, exposta àos
novos perigos e desafios, mas ainda esperançosa, rumo
a Bruxa Boa do Sul, da terra dos Quadlings, os baixos
e gorduchos, que se vestem de tons rubros. A Bruxa
Boa, chamada Glinda, quando finalmente recepciona
os recém-chegados, fica realmente admirada! A menina
quer voltar para casa? Mas, vejam só, ela usa os
sapatos prateados, que são mágicos! E qual o poder
deles? Levar você para onde você quiser! Até para o
tal Kansas! Ora, ora! E Dorothy tinha ao alcance da
mão (ou dos pés...) o poder de voltar para casa e
não sabia!

Mas se Dorothy soubesse do poder dos sapatos prateados,
ela teria voltado logo no capítulo dois, e o Espantalho
continuaria o inteligente sem cérebro, o Lenhador, o
bondoso sem coração, e o Leão, o covarde mais
corajoso que já existiu! – e não haveria a narrativa, o
livro “The Wonderful Wizard of Oz” de um autor chamado
L. FrankBaum, que todos os leitores admiram e guardam
como uma parte admirável de seus sonhos de crianças (e
quiçá de toda a vida!)

Wizard of Oz – original
in
http://publicliterature.org/books/wizard_of_oz/xad.php

e tb. Edição ilustrada
em
http://www.archive.org/stream/wonderfulwizardo00baumiala#page/n0/mode/2up

sobre o filme Mágico de Oz (1939) em
http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Wizard_of_Oz_%281939)


nov/09

por Leonardo de Magalhaens

domingo, 6 de dezembro de 2009

45 Mercy Street / Anne Sexton





ANNE SEXTON


45 MERCY STREET

Rua Piedade, n. 45


Em meu sonho,
furando dentro da medula
de todo o meu osso,
meu sonho real,
eu perambulava pela Beacon Hill
procurando uma placa de rua –
chamada Mercy Street.
Não era lá.

Eu tentei a Back Bay.
Não era lá.
Não era lá.
E ainda sabia o número.
Rua Mercy, 45.
Eu conhecia a janela de vidro manchado
da sala-de-estar,
os três níveis da casa
com os andares de pisos de madeira.
Eu conhecia os móveis e
a mãe, a avó, a bisavó,
os criados.
Eu conhecia o armário de Spode
o barco de gelo, a prata sólida,
onde a manteiga repousa em asseados tabuleiros
iguais a estranhos dentes de gigante
em uma grande mesa de mogno.
Eu conhecia bem.
Não era lá.

Para onde você foi?
Rua Mercy, 45,
com a bisavó
ajoelhada em seu corpete de osso-de-baleia
e rezando gentilmente mas fervorosamente
para lavar bacias,
às cinco da manhã
ao meio-dia
cochilando em sua cadeira-de-balanço,
o avô tirando um cochilo na copa,
a avó empurrando a sineta para a criada escada abaixo,
e Nana balançando Mãe com uma flor exagerada
em sua testa a cobrir os cachos (do cabelo)
de quando ela era boa e quando ela era...
E onde ela foi gerada e numa geração
o(a) terceiro(a) que ela vai gerar,
eu,
com a semente do estranho florescendo
numa flor chamada Horrenda.

Eu caminho num vestido amarelo
e um livro de bolso branco estufado com cigarros,
bastante pílulas, minha carteira, minhas chaves,
e sendo vinte e oito, ou era quarenta e cinco?
Eu ando. Eu ando.
Eu seguro fósforos nas placas da rua
até escurecer,
tão escuro quanto os mortos rijos
e eu tenho perdido meu Ford verde,
minha casa nos subúrbios,
duas pequenas crianças
sugadas como pólen pela abelha em mim
e um marido
que tem enxugado seus olhos
de forma a não me ver às avessas
e vou caminhando e procurando
e não é um sonho
apenas minha vida oleosa
onde as pessoas são álibis
e a rua é infindável para uma
vida inteira.

Derrubar as sombras –
não me importo!
tranque a porta, piedade,
apague o número,
arranque a placa da rua,
o que pode interessar,
o que pode interessa para este patim barato
quem deseja possuir o passado
que foi embora num barco morto
e deixou-me apenas com um papel?

Não era lá.

Eu abri meu livro de bolso,
como ma mulher faz,
e fisguei pra lá e pra cá
entre os dólares e o batom.
E retirei, um a um
e atirei todos nas placas da rua,
e atirei meu livro de bolso
no Charles River.
Em seguida descartei o sonho
e o joguei contra o muro de cimento
do mal-feito calendário
Eu vivo,
minha vida,
e arrastando cadernos de notas.

Anne Sexton

(trad. Livre by Leonardo de Magalhaens)


Original poem in

http://www.poemhunter.com/poem/45-mercy-street/

more about Anne Sexton
http://en.wikipedia.org/wiki/Anne_Sexton


para ouvir a Mercy Street de Peter Gabriel
http://www.youtube.com/watch?v=KN6mJH_0-KY
http://www.youtube.com/watch?v=5Y5KELHc0Hw&feature=related

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

leitura de Alice no País das Maravilhas




sobre a obra Alice no País das Maravilhas
(Alice's Adventures in Wonderland, 1865)
do inglês Lewis Carroll (Charles Dodgson, 1832-98)

A Literatura enquanto Fantasia e Non-sense

Parte 1 – Alice no País das Maravilhas
Parte 2 – O Mágico de Oz
Parte 3 – Peter Pan

Parte 1

Uma das mais fascinantes experiências é a de compartilhar o olhar infantil. Como uma criança vê o mundo, como apreende os dados da nossa 'realidade' social, política, histórica, ao conquistar uma base linguística, desenvolver a audição e a fala (pois para se falar bem é preciso ouvir bem...) e tornar-se mais um(a) cidadã(o), imerso em uma cultura/civilização.

Os impulsos mentais que a civilização reprime acabam por voltar, quase sempre, em conteúdos que a extravasam dos sonhos aos devaneios, às projeções de situações e locais e personagens que não existem, mas têm um 'potencial' de existência. Existência num mundo paralelo, acima ou abaixo da realidade. Assim, um Inferno ou um Paraíso, um Futuro ou um Universo Paralelo. O Mundo Subterrâneo ou a Terra Média (aquela do Tolkien). Em suma, um profundo situar-se que a repressão – 'príncipio da realidade' – não conseguiu destruir. É o domínio do 'princípio do prazer'.

Estando as crianças ainda no início do processo de 'adequação' (aquele denominado 'socialização'), ainda não suficientemente 'reprimidas', mantêm abertas as portas da imaginação, para mundos outros, realidades outras, dentro do âmbito do desejo e da realização pessoal. Ali não há lugar para normas, regras, sentidos, conveniências, estatutos, ordenamentos, leis físicas. Tudo é possível, e nada causa estranhamento. É o ambiente do snon-sense, com uma coerência toda peculiar. Um mundo a despertar a curiosidade a cada instante.

A criança precisa ser o tempo toda incentivada, caso contrário a atenção se dispersa, ou então o ânimo adormece, levando a um sonho cheio de aventuras, aquelas que a 'realidade' nega. Assim acontece com a pequena Alice que, entediada com o livro da irmã, vai adormecendo, adormecendo... até que vê um coelho branco. Não um coelho branco qualquer, mas um coelho branco a olhar o relógio (aqueles clássicos relógios ingleses!) a preocupar-se com um certo atraso! “I shall be too late!”

Sempre preocupado, ansioso e obsequioso, o Coelho Branco vai despertar a atenção da menina Alice, logo a perseguir a apressada criatura até o fundo de um longo túnel (onde ela cai em câmera lenta!), caindo no País das Maravilhas. Onde o que ela beber ou comer tem o poder se aumentar o diminuir o tamanho! Onde as criaturas falam e se comportam como humanos! Onde até as cartas de baralho têm vida e atuam numa estranha monarquia! (espaço ideal para algumas paródias da vida aristocrática britânica!)

Aumentando e diminuindo, aflita e perplexa, curiosa e agitada, a pequena Alice de repente encontra-se numa sala de portas minúsculas, ou chorando a perda de uma chave, encolhendo a ponto de quase afogar-se nas próprias lágrimas!, perseguindo o Coelho Branco até a casa deste, mas ela acaba crescendo tanto que fica 'entalada' e não pode sair. Mil aventuras para uma menina que antes morria de tédio no mundo dos adultos.

As estranhas metamorfoses e as estranhas criaturas fazem com que Alice comece a questionar quem é e o que acontece, como se sua 'identidade' somente agora fosse colocada em evidencia – para se esfumaçar com o sem-sentido (non sense) ao redor. Afinal, o que ela vivia no mundo adulto (lá na 'realidade') não faz sentido aqui no País das Maravilhas! Assim o encontro com a Lagarta, aquela a fumar um narguilé em cima de um cogumelo, meio dopada e meio enigmática, apresenta à Alice uma oportunidade de ainda dizer 'quem' ela é. Mas não é – agora – fácil responder a questão (antes tão simples!) proposta pela Lagarta, “Quem é você?” E enquanto Alice não se decidir (afinal o que ela é agora? Tão pequena quanto uma lagarta espichada sobre um chapéu de cogumelo!) a Lagarta não vai se importar muito com aquela presença de mini-criança.

“‘I—I hardly know, sir, just at present— at least I know who I was when I got up this morning, but I think I must have been changed several times since then.’

‘What do you mean by that?’ said the Caterpillar sternly. ‘Explain yourself!’
‘I can’t explain myself, I’m afraid, sir’ said Alice, ‘because I’m not myself, you see.’
“Difícil saber, senhora, pois agora – realmente eu sabia quem era hoje de manhã, mas acho que tenho mudado muito desde então.”

“O que quer dizer com isso?” disse a Lagarta, séria. “Explique-se”

“Receio que não possa me explicar, senhora” disse Alice, “pois não sou eu mesma, veja você!”


As dúvidas de Alice quanto a sua identidade mostram o início dos questionamentos infantis: quem sou eu? Onde vivo? Quem são meus pais? O que todo mundo espera de mim? O que devo responder? O que preciso fazer para ser aceito(a)? Quem devo obedecer? Qual o sentido do mundo? Qual o sentido da minha existência? E a Lagarta não é exatamente o ser mais adequado para responder! Até porque a própria Lagarta via passar pelo estágio de larva, antes de desabrochar como uma nova criatura – a borboleta.

Assim entra em cena uma figura que deseja achar uma 'moral' para tudo: a Duquesa. Que logo veremos a buscar agradar a menina Alice, em busca de aprovação. O que muito incomoda a protagonista, que fareja ali um pouco de oportunismo e bajulação. A Duquesa surge no mesmo estágio onde apresenta-se o gato do sorriso, a aparecer e desaparecer nos momentos mais convenientes e impróprios, sempre com um sorriso enigmático, pedindo uma decifração. O Gato de Cheshire é a esfinge-fantasia que se julga o louco a observar os outros loucos. (“ Somos todos malucos aqui. Sou sou maluco. Você é maluca.” pois “se não fosse maluca não teria vindo para cá”) O único que poderia indicar um caminho – caso Alice soubesse para onde vai.

Come, it’s pleased so far,’ thought Alice, and she went on. ‘Would you tell me, please, which way I ought to go from here?’
‘That depends a good deal on where you want to get to,’ said the Cat.
‘I don’t much care where—’ said Alice.
‘Then it doesn’t matter which way you go,’ said the Cat.
‘—so long as I get somewhere,’ Alice added as an explanation.
‘Oh, you’re sure to do that,’ said the Cat, ‘if you only walk long enough.’

“Chegue perto, poderia, por favor, dizer-me qual o caminho para sair daqui?
“Depende muito de para aonde você deseja ir”
“Eu não sei bem para aonde...
“Então não importa muito qual caminho você vai seguir.
“... desde que eu chegue a algum lugar.
“Ó, sim, esteja certa disso, você vai chegar desde que caminhe o bastante.”

Todos este diálogos são novidade para Alice, aquela que não encontrava ninguém interessante no 'mundo real', onde não passava se mais uma criança. Aqui – na Wonderland – ela é a única menina, a crescer e diminuir, a conhecer os seres mais estranhos, ainda mais os que surgem no capítulo seguinte, aquele da mesa de chá (Tea-Party). Lá estão o Chapeleiro Louco, a Lebre de Março e a Marmota Dorminhoca (Dormouse), numa mapla mesa, bebendo chá o tempo todo, trocando de lugar, para não precisar lavar a louça, e então pouco à vontade quando chega a menina Alice, que deseja um lugar à mesa. Ambas as partes não chegam a qualquer consenso e os diálogos que se seguem são obras-primas da falta-de-sentido, cheio de trocadilhos, paródias, enigmas matemáticos, 'pegadinhas' de professor de lógica (o que caracteriza bem o Autor, um matemático)

Aliás, os enigmas matemáticos e de lógica surgem aqui e acolá por todo o texto. Nada é gratuito. “Alice no País das Maravilhas” é uma obra de passagens secretas e senhas e contra-senhas, onde um leitor bem atento vai colher pérolas da invenção literária, não apenas de personagens e situações. Mesmo na falta-de-lógica existe uma 'lógica', mesmo para mostrar a incoerência há uma 'coerência'. Não trata-se de uma crítica gratuita, de uma 'carnavalização' do mundo adulto, mas de apresentar a 'visão da criança' diante do mundo adulto – que (olhando-se bem) é irracional e hipócrita.

Todas as 'reuniões sociais' são ironizadas em “Alice”, pois evidenciam como as 'máscaras sociais' se apresentam. A Rainha de Copas (the Queen of Hearts) é a figura principal no capítulo seguinte, onde os nobres são meras 'cartas de baralho' que andam e falam pomposamente, sem tolerar 'vozes dissonantes', senão os monarcas “mandam cortar as cabeças”, desfilando rumo a um bizarro jogo de croquet, onde os tacos são flamingos, as bolinhas são ouriços, e os arcos eram os soldados-cartas encurvados! (Alice pensa: “and then,’ thought she, ‘what would become of me? They’re dreadfully fond of beheading people here; the great wonder is, that there’s any one left alive!’”, traduzindo: 'E então', ela pensou, 'o que será de mim? Eles adoram mandar cortar as cabeças por aqui; o que é de se espantar é que ainda exista alguém vivo!”) Ou seja, quem não se adequa é logo excluído – por mero capricho do soberano!

Nesta cena outras personagens reaparecem (o tão servil Coelho Branco, a Duquesa pronta a bajular, o enigmático Gato de Cheshire, sempre sorridente) e outras surgem, o Grifo, figura esdrúxula e mitológica, a conduzir a Alice aos rochedo à beira-mar, onde está a Falsa Tartaruga, a lamentar a perda do passado e a relembrar a 'dança das lagostas', algo bem infantil (como lembrar as 'cirandas, cirandinhas' do mundo de outrora...), pois a Tartaruga sabe que o seu destino final é virar mesmo uma sopa! Tudo isso até a que a Majestade caprichosa dá um alarme: o roubo das tortas!

A cena seguinte é então uma paródia de uma cena que os anglo-saxões adoram – o tribunal. Ali estão a maioria das personagens para investigar (será mesmo?) e culpar/condenar (quem mesmo?) o autor do terrível furto – o abominável roubo dos bens dos soberanos! (Como se os monarcas não vivem no luxo e na luxúria justamente por roubar explorar o povo, que vive na miséria!) A crítica aqui está todo envolta em sutilezas, trocadilhos, quebra-cabeças, fantasias, atos absurdos, onde a ironia faz rir ao mostrar o quanto a vida pode ser sem-sentido! (o 'mundo do absurdo' que Kafka, Beckett e Ionesco logo mostrariam no século 20) Cada personagem mostra seu real caráter – ora bajulando, ora implorando por piedade, ora fingindo indiferença, etc – mas apenas Alice se espanta com o ridículo de tudo (aquele tribunal), com seu olhar de criança ainda não 'adaptada' (isto é, ainda não enquadrada no 'modus vivendi'...)

Um capricho do monarca é acatado como autoridade, assim como toda voz 'não-autorizada' é silenciada. Em todo tribunal só existem mesmo um (literalmente!) jogo de cartas marcadas! Tanto que o Rei já quer começar pelo Veredicto! - é o coelho Branco que precisa lembrar ao Monarca que antes se processa todo um ritual processual com testemunhas, promotoria, defesa, jurados, etc (Onde a autoridade compartilhada ou dada por concenso, como argumentam Rousseau e Hobbes?, mas sim uma imposição do Soberano, personificação da suposta Nobreza da Monarquia) É o depoimento de Alice – uma menina que não é daquele 'mundo' – que acaba por romper toda a tragi-comédia. Não somente por que ela não acredita na justiça do tribunal (que não passa de uma literal 'farsa') mas também porque ela novamente volta a crescer.

‘What do you know about this business?’ the King said to Alice.
‘Nothing,’ said Alice.
‘Nothing whatever?’ persisted the King.
‘Nothing whatever,’ said Alice.
‘That’s very important,’ the King said, turning to the jury.

“O que você sabe sobre o caso?
“Nada.
“Nada mesmo?
“Nada mesmo.
“Eis algo muito importante!”

É como se o fato de Alice não saber já fosse representativo – e incriminador. Culpada por não conhecer as regras... E o Rei logo inventa leis para justificar a exclusão da incômoda testemunha. Assim também uma suposta carta do réu – o Valete de Copas, acusado de roubar as tortas da Rainha de Copas – não escrita por ele (por mais que ele negue, apens se incrimina mais aos olhos dos monarcas...) mas usada como prova, não importa que 'sentido' isso faça (aliás, 'sentido' é o que o Leitor menos encontra aqui!)

Obviamente que o julgamento vira um 'castelo de cartas' a desabar, quando Alice se revolta com tanto non-sense e se levanta, já grandinha, meio ao tumulto das cartas. Alice então desperta – são apenas folhas que caem da árvore, sob a qual ela se deitou, no colo da irmã, ainda a ler um livro. Tudo não passou – então – de um sonho estranho? Que o leitor ouse então desvendar – e responder – a lógica ilógica do Autor neste País das Maravilhas.

Nov/09

Leonardo de Magalhaens

http://leoliteratura.zip.net

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

WHITMAN - As I lay with my head...



WALT WHITMAN


AS I LAY WITH MY HEAD IN YOUR LAP CAMERADO


Quando eu reclino minha cabeça em seu peito, camarada,
A confissão que eu fiz eu assumo, o que eu disse e o estar
livre que reassumo,
Eu sei que sou inquieto e deixo os outros assim,
Eu sei que minhas palavras são armas cheias de perigo,
plenas de morte
Pois eu desafio a paz, a segurança, e todas as leis
estabelecidas, para derrubá-las,
Estou mais decidido pois todas têm negado a mim o que eu
poderia Ter sido caso todas tivessem me aceitado,
Eu não estive atento e jamais estaria à qualquer
experiência, precaução ou maioria,
nem ao ridículo,
E a ameaça do que é chamado Inferno é pouco ou nada para
mim,
E o fulgor do que é chamado Paraíso é pouco ou nada para
mim;
Querido camarada! Eu confesso que tenho desejado que você
siga ao meu lado, e ainda desejo, sem
a mínima idéia de qual seja o nosso destino,
Ou se nós seremos vitoriosos, ou completamente derrotados e
vencidos.


Trad. Leonardo de Magalhaens



original poem in





domingo, 22 de novembro de 2009

os Detetives clássicos na literatura policial (e no cinema)





Sobre os Detetives clássicos
da literatura policial
(e também no cinema)

A Verdade enquanto Investigação


O conceito de Verdade é um dos mais polêmicos da Filosofia
(ao lado do conceito de “Liberdade” - se é que existe 'conceito',
se é que existe 'liberdade'), e comumente se aceita como
'convenção social', ou seja, o que a maioria diz ser 'verdadeiro',
então é dado como 'verdadeiro' (se de repente a maioria
começar a ver OVNIs por aí, então será 'verdade' a existência
de OVNIs...), ou 'paranóia coletiva' pode ser 'verdade' para
este coletivo (exemplo, os fanáticos e fundamentalistas, que
se flagelam e se matam em nome de uma Divindade...)

Para Nietzsche, a Verdade não existe. Não há uma perspectiva
privilegiada para se ver o mundo, tudo são ângulos/pontos de
vista, e todo julgamento é parcial. Haveria uma 'pluralidade'
de 'verdades', legitimadas em cada contexto. O que é 'verdade'
para o rico, não é 'verdade' para o pobre, e vice-versa. O que
é 'verdadeiro' para o nazista, não é 'verdadeiro' para o judeu...
Assim, a 'verdade' serve aos interesses da parte mais hegemônica
(para usar um conceito de Gramsci) onde se os ricos estão no
poder, logo a 'verdade' será o que os ricos dizem ser a 'verdade'.

Mas, e se a Verdade for um processo que exige uma pesquisa,
uma investigação? Não é assim que pensam os cientistas? E não
é assim que um detetive pensa? Silogismos, lógica pragmática,
observação apurada, deduções e induções, analogias, um faro
fino e uma intuição à toda prova: eis o paradigma do detetive.
Aquele dos clássicos, primeiramente literários, agora também
do cinema. Seres que se elevam acima da média, e desmentem
a suposta 'verdade' da maoria: o fatos existem, e são explicitados.
O 'senso-comum' é desmascarado: há um 'mistério' a exigir solução.

O clássico-mor seria mesmo os 'contos de detetive' escritos pelo
norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849), com a presença
memorável e surpreendente do pensador francês Auguste Dupin,
a desvendar os “crimes da Rue Morgue”, também o “mistério de
Marie Roget
”, e encontrar uma “carta roubada”. Todos estes
contos apresentam um Narrador, dito amigo, do pensador-detetive,
que se deleita com a descoberta da 'verdade'. Verdade esta que
a polícia parisiense é incapaz de encontrar.

Tal ênfase na observação e dedução inspirou outro detetive dos
clássicos romances e contos de Sir Conan Doyle (1859-1930).
Trata-se de ninguém menos que Sherlock Holmes, o gênio
londrino, sempre acompanhado pelo amigo (e Narrador) Dr. Watson,
a desafiar os investigadores da prestigiada Scotland Yard. As obras
principais, onde Holmes atua, são “Estudo em vermelho”,
Sinal dos Quatro” e “Cão dos Baskervilles”, além de numerosos
contos, que celebrizaram o autor.

O detetive de Conan Doyle conhece e segue o estilo “whodunit
(quem fez isso? Quem cometeu o crime?) do detetive de Poe,
quando a partir do ocorrido consegue – em pensamento
retrospectivo – encontrar as causas, reconstituir a cena do crime
(quem matou, como matou, porque matou, basicamente)

O mesmo 'modelo' usado pela escritora inglesa Agatha Christie
(1890-1976) com seus detetives, o belga Hercule Poirot e a
inglesa Miss Marple, cuidadosos e fleumáticos, assombrosamente
observadores. Poirot é mais famoso, afinal de contas ele atuou
em dois clássicos: “Assassinato no Expresso do Oriente” (1934)
e “Assassinato no campo de golfe” (The murder on the links)
(1923), onde há um Narrador em 3a pessoa, ou o ponto de vista
de um certo Capitão Hastings, que guiam o Leitor (em numerosas
narrativas!) nas investigações, verdadeiras aulas de como caçar
criminosos. (Talvez essa seja a moral da literatura policial:
cuidado, criminosos, pois sempre encontramos vocês!)

Ao estabelecer um 'denominador comum', uma 'interseção'
entre os vários depoimentos, as várias testemunhas e suas
perspectivas, Poirot estabelece as 'popssibilidades do fato', onde a
realidade é dada pela 'verossimilhança' (ou o 'real' recriado pelo
'imaginário'), quando o detetive finaliza a montagem do 'puzzle',
o quebra-cabeças. Tal um cientista diante de um fenômeno natural,
o detetive está diante do mistério, e com seu método (aliado ao
seu talento) explica o que é 'nebuloso' e 'inacessível' aos leigos
(incluindo o Leitor...)

Poirot é belga, e também belga é o escritor Georges Simenon
(1903-89), criador do Comissário Jules Maigret, que atuando
em Paris, é mais 'psicólogo' do que 'filósofo', ou seja, aplica
uma maior ênfase às personalidades dos suspeitos, não
adentrando labirintos de deduções e analogias (tais aquelas 'aulas
de lógica' dadas por Dupin e Holmes). São também numerosas
as obras onde Maigret atua (os autores de 'literatura policial'
são realmente 'máquinas' de produzir mistérios e investigações),
com destaques para “La Nuit du carrefour” (1931) e “La Danseuse
du Gai-Moulin
” (1931).

Em reação ao estilo “whodunit” - que se repete em variações do
mesmo – surgiu o estilo mais 'barra pesada', mais 'brutal' e 'noir'
(sombrio) do “hard-boiled” norte-americano (a atingir um ápice
em “In Cold Blood”/ A sangue frio, de Truman Capote, mas esse
é assunto para outro ensaio...), que se destaca com as obras de
S. Dashiell Hammett (1894-1961) e Raymond Chandler (1888-
1959). Hammett é o criador do detetive Sam Spade, durão e
pronto para a ação (não é um 'pensador' exatamente...), como
se percebe em “O falcão maltês” (The Maltese Falcon, 1930), que,
no cinema, foi encarnado pelo ator Humphrey Bogart, em atuação
clássica de um personagem clássico: o detetive que se envolve
emocionalmente, ainda que não demonstre, não deixe visíveis
as emoções (que nos demais estão 'à flor da pele'...)

Assim também é o detetive Philip Marlowe, porém mais 'humano',
pois narra em 1a pessoa, a tornar o Leitor é 'cúmplice', nas obras
de Chandler, principalmente em “O Longo Adeus” (The Long Goodbye,
1953), tendo um faro para avaliar (e julgar) as personalidades,
sem muita erudição (ao estilo Dupin ou Holmes), mas sabendo agir
certo e na hora certa – um oportunismo bem pragmático, ao
estilo ianque...

A diferença em Chandler é o fato de Marlowe narrar ele-mesmo
a suas peripécias. Assim o Leitor tem acesso ao pensar e atuar
do detetive (enquanto em Poe e Conan Doyle é preciso confiar no
amigo-narrador e no Dr. Watson) E se houvesse um maior acesso ao
criminoso? Assim é em “O Silêncio dos Inocentes” (The silence of
the Lambs,
1988), de Thomas Harris (EUA, 1940-), onde a agente
do FBI Clarice Starling se depara com uma mente criminosa que
desafia todo 'humanismo': o psicopata Hannibal Lecter, que se serve
(literalmente!) de seus semelhantes. Canibal e erudito, cínico e
refinado, Lecter é um desafio para Starling (e para o Leitor!) Adentrar
a mente de Lecter é uma viagem (não-metaforicamente) arrepiante:
um senso de Übermenschen com ânsias destrutivas. (O mesmo que
caracteriza um Hitler...)

Hannibal Lecter foi para o cinema, interpretado pelo ator Anthony
Hopkins, e amedrontou muita gente (inclusive este resenhista...),
assim como no cinema é destaque o sombrio “Seven” (1995),
do diretor David Fincher (EUA, 1962-), onde o detetive W. Somerset
(interpretado por Morgan Freeman) e seu colega D. Mills (Brad Pitt)
investigam uma série de assassinatos relacionados aos sete pecados
capitais do Cristianismo (gula, luxúria, preguiça, vaidade, avareza,
soberba e ira), onde as vítimas 'pagam por seus pecados' nas
vinganças de um fanático psicopata (que acaba por 'forçar' o
policial Mills a cometer o 'pecado' da ira, ao assassinar o vilão.
Assim, o crime leva ao crime...) Não há justiça, nem verdade,
apenas 'olho por olho, dente por dente'.


Ainda citaremos dois detetives e um 'monge detetive'. Em estilo
de 'síndrome de influência' encontra-se o Erik Lönnrot, do conto
A morte e a bússola” (“La muerte y la bússola”, 1944), do argentino
Jorge Luís Borges (-1986), onde a mente (e a honra) de Lönnrot é
desafiada pelos crimes de um certo Red Scharlach, apresentando
uma interrelação detetive-criminoso que lembra muito uma
dependência (e o herói não precisa de um vilão? Um Superman
não precisa de um Lex Luthor? Batman não tem sua imagem
espelhada num Curinga?) e uma obsessão (como a perseguir um
'duplo', um 'doppelgänger': a mente criminosa que desequilibra
a mente virtuosa...)(detalhe: a cor vermelha é compartilhada
nos nomes de ambos os antagonistas!)

E também Lönnrot se baseia em Dupin (a crer-se também um “puro
raciocinador”) assim como Holmes e Watson discutem sobre as
reais capacidades do detetive de Poe (o que mostra um explícita
influência), como imagens espelhadas do 'detetive-pensador', a
re-construir o crime passo a passo. Assim também o pensador
Don Isidro Parodi, criado pela dupla Borges e (o amigo deste)
Bioy Casares, claramente inspirado em Dupin, quando a partir
da reclusão de sua cela (Parodi está encarcerado!) soluciona os
'problemas' que são confidenciados pelos amigos visitantes. Assim
é a obra “Seis problemas para Don Isidro Parodi” (1942)

Agora, ao nível da paródia (e de bom nível), destaca-se a figura do
monge detetive em “O Nome de Rosa” (Il nome della rosa, 1980),
romance medievalista do filósofo (e teórico da Semiótica) Umberto
Eco (ITA, 1932-). Gugliemo (ou William) da Baskerville, cujo
nome já é intertextual (lembra William of Occam, da famosa Navalha
de Occam
) e o livro “O Cão dos Baskervilles”, de Sir Conan Doyle),
é um inquisidor e filósofo, que muito observador e meditativo,
consegue desvendar os crimes que ocorrem num afastado mosteiro,
a abrigar um imensa e sombria biblioteca. As peripécias são narradas
pelo jovem monge estudante Adso von Melk (bem ao estilo Watson),
sempre deslumbrado com as observações e deduções do 'mestre'.

No cinema, o monge detetive Gugliemo foi interpretado pelo ator
escocês Sir Sean Connery (o mesmo Agente 007, James Bond, de
Ian Fleming, 1908-64), que também foi o pai do arqueólogo-detetive
Indiana Jones (na pele do ator Harrison Ford), no filme “Indiana Jones
e a última Cruzada
” (1989), do diretor Steven Spielberg (EUA, 1946-),
onde o erudito e exigente Sr. Henry Jones é socorrido (e às vezes
socorre) o filho protagonista. (Connery participa, como Allan
Quatermain, no filme “Liga Extraordinária” (The League of
Extraordinary Gentlemen
, 2003), cheio de heróis victorianos
(os outros são Dorian Gray, Mina Harker (de Dracula), Tom Sawyer,
Dr.Jekyll/Mr. Hyde, Capitão Nemo (do Nautilus), O Fantasma da ópera,
e o Professor Moriarty, o arqui-inimigo de Sherlock Holmes (e aqui
fecha-se o círculo...!). Ou seja, recortes de textos literários é o
que não falta neste filme!

No mais, até J. L. Borges é 'parodiado' em O Nome da Rosa na
personagem Jorge de Burgos, o monge cego e fanático, que guarda
os livros proibidos. O que evidencia que a Literatura pós-moderna
é mesmo intertextualidade, metalinguagem, dialogismo, cópia e citação,
além de síndrome de influência. Todas as personagens se misturam,
todas as experiências se intercambiam, os heróis e os vilões confusos
em paródias e citações. Não que a 'cópia' seja degradada (como diria
um Platão, pensando no 'mundo das Ideias'), mas re-escrita (e
re-contextualizada), num diálogo permanente entre textos, onde
toda escrita é (re)leitura, onde a 'verdade' se estabele pela 'escrita
compartilhada', pelo acúmulo de observações reorganizadas
em um novo (e também mais complexo) quebra-cabeças.


Nov/09


Leonardo de Magalhaens

http://leoliteratura.zip.net/

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A solidão de Idi Amin





A solidão de Idi Amin

LdeM


Fui ao Zoológico para dar pipoca aos macacos.
Logo, informaram-me que era proibido dar pipoca
aos macacos. Limitei-me a ver pastar os elefantes,
a ver matraquear as araras, a ver a sombria harpia,
as acrobacias dos chimpanzés.

De repente, uma jaula (digo, um recinto) imenso.
Não é tão imenso e ciclópico tal aquele dos elefantes.
Nem tanto. Mas é o sonho de casa própria de muita
gente... Quantos metros quadrados? Calculo uns dez
a doze lotes de bairro popular... Para quem? Nem os
chimpanzés exigiam tanto...

Palmeiras, colina, bambuzal, árvores frondosas
e arbustos retorcidos. Uma ampla janela para
observadores de câmeras ativas e celulares
engatilhados. Turmas e turmas de ladies and
gentlemen
afoitos, em gritos, em acenos, ansiosos,
a espera de uma aparição, um acontecimento...

Pois lá habita, cabisbaixo e sem-graça, o gorila, o dono
de todo esse espaço, sozinho, senhor absoluto de tudo,
o gorila, solitário, meio deprê, certamente incomodado
com toda a gente, a cercar seu paraíso tropical, a
procura de atração circense, digo, de zoológico, em
sua cela, ops, digo recinto, onde é a estrela do espetáculo,
sobre o qual sequer foi informado, pois prefere mais
roer umas cenouras em paz.

Obviamente, que o povaréu não deixa o gorila em paz.
Impossibilidade. O astro não tem sossego. Sua vida é
vigiada, fotografada, sem lacunas de privacidade. (O
que um gorila entende de privacidade?) O povaréu
segue os passos do Gorilla gorilla com flashs e risos e
deboches, e até atirariam gravetos e pedras, caso ali
não estivesse o vigia da Fundação Zoobotânica, de
comunicador em punho, a zelar pela segurança do único
gorila em zoológico na América do Sul.

Informação que obtenho do próprio vigia, que se preocupa
com a paz do pobre gorila, nada jovem parece (ele tem
35 anos! e está enjaulado – ou acomodado – aqui há
33 anos!) e tão solitário (já perdeu duas fêmeas!), que
viver só já siginifica viver (como é que é?! 24 anos só e só?),
a solidão é seu habitat natural. E até acho (isso eu ouso
comentar) que arrumar companhia para o gorila é até
arriscado. Vai que ele pode sentir outro Gorilla gorilla
como um rival a invadir o seu espaço aristocrático, ele com
nome de ditador africano sanguinário... Afinal, um macho
e (quantas mesmos?) sei lá, dez fêmeas... (Como ele vai
dar conta do ...?) Pode (ó crueldade animal!) matar a
pobre noivinha gorila...

Fico a pensar (mais não verbalizo, para não melindrar
o gentil vigia de gorila) e a matutar enquanto sigo a lixar
as unhas, pô! se esse gorilão aí, três décadas de solidão,
a sobreviver tão firme e impávido, na mais augusta solitudine,
misgorílica(!) loneliness, por que incomodar o cara agora
com uma (ou duas!) companheiras?! É verdade que a
solidão deprime, mas a companhia estressa (o inferno são
os outros.
..) O pobre Idi é bem capaz de matar a sua
companheira com uma boa cacetada na moleira...


(Moral: Antes só que egoisticamente acompanhado)


out/09


Leonardo de Magalhaens

sábado, 14 de novembro de 2009

poemas de HENRI MICHAUX





HENRI MICHAUX


Cada dia mais exangue
(Chaque jour plus exsangue)



A desgraça insufla seus pequenos e me escolhe.

“É ele, lhes diz, não o deixem mais.”

E eles não me deixaram mais.

A Desgraça insufla seus pequenos.

“É ele, lhes diz, não o deixem mais.”

Eles não mais me deixarão.


Trad. Leonardo de Magalhaens
original em
http://sycosyco.free.fr/texte_michaux_exsangue.htm




HENRI MICHAUX

Emportez-moi
Arraste-me


Arraste-me numa caravela,
Numa velha e doce caravela,
Na roda de proa, ou se venta, na espuma,
E me faça naufragar, lá longe, longe.

Na atrelagem de uma outra época.
No aveludado engodo da neve.
No fôlego daqueles cães reunidos.
Na tropa extenuada das folhas mortas.

Arraste-me sem me quebrar, aos beijos,
Sobre os tapetes de palmas e seus sorrisos,
Nos corredores dos ossos longos, e das articulações.

Arraste-me, ou antes sepulte-me.

Trad. Leonardo de Magalhaens
original em

domingo, 8 de novembro de 2009

As guerras no olhar das crianças (ensaio)








As guerras no olhar das crianças


(ensaio)

A desumanidade do homem para com o homem,
e ainda pior, para as crianças”
(“Man's inhumanity to man and worse still,
to child”)(The Cranberries)

e ainda: “Mais de dois milhões de crianças foram mortas em guerras nos
últimos dez anos, enquanto seis milhões ficaram mutiladas, 12 milhões
perderam suas casas e mais de 10 milhões sofreram danos psicológicos
irrevesíveis. O trágico quadro foi denunciado pela ONU e os dados
mostram que estamos diante de um novo holocausto de inocentes
.”
(Estado de Minas, 13 de outubro de 1998)


Crianças jogadas no furor da guerra dos adultos imaturos,
crianças que não sabem o que sejam certo ou errado (e
os adultos sabem?), não importa sedo 'lado certo' ou do
'lado errado' – precisam se defender e atacar...

Que liberdade tinha a Anne Frank? Ou o Shmuel de “O
Menino do Pijama Listrado
”? Ou a Zlata em Sarajevo,
campo de batalha urbano?

Que liberdade há? Os arautos da liberdade (existencial, política,
social) não sabem... O que Sartre queria dizer com “condenados
à liberdade
”? Ou com “fazermos algo do que fizeram de nós”?
Ou textualmente: “O importante não é aquilo que fazem de nós,
mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram
de nós.”

A liberdade é escolher entre cartas já marcadas? E quando se
nasce num campo de concentração? Ou num campo de batalha?
Nascemos num dado contexto histórico, aprendemos um idioma,
servimos a umapátria, além de um patrão... Os líderes 'formatam'
seus seguidores desde criança – vide a Juventude Leninista,
o Komsomol, ou a Juventude Hitlerista, a Hitlerjugend.


Está na moda (e no mercado) os livros best-sellers sobre crianças
nas guerras, ou melhor, sobre as guerras vivenciadas pelas
crianças. A referência é um dos livros mais famosos (e clássicos)
sobre a temática – o “Diário de Anne Frank”, publicado após
a Segunda Guerra Mundial, pelo pai da menina, ela que não
sobreviveu ao campo de concentração. Trata da invasão da
Holanda, em 1940, a perseguição aos cidadãos judeus,
obrigados a buscar refúgio em porões, em sótãos, a viverem
em dependência de vizinhos, que driblam as políticas nazistas
de prisão e extermínio.

Tamanho é o poder do testemunho de Anne – que praticamente
passou de criança à adolescente num sótão abafado, a lidar com
a puberdade entre os conflitos internos (dos pais, dos vizinhos)
e externos (a guerra entre os Aliados e os nazistas), e tentando
descrever tudo isso numa prosa que evidencia a grande escritora
que perdemos.

Depois, em pleno pós-Guerra Fria, com o fim do 'socialismo real'
(que o capitalismo real festejou!), com a implosão da URSS e com
a guerra civil na Iugoslávia, fez alarde um “Diário de Zlata” (1993),
aqui no Brasil, em edição traduzida o exemplar francês, “Le Journal
de Zlata
”, onde a menina Zlata Filipovic descreve a capital bósnia,
Sarajevo, sob ataque das forças sérvias, em 1992. Zlata foi mesmo
considerada uma “Anne Frank de Sarajevo”, versão moderna do
drama “criança no teatro de guerra.”

Estão bombardeando, as granadas caem. É mesmo a GUERRA.
Papai e mamãe estão muito preocupados; ontem à noite eles
ficaram acordados até tarde, ficaram conversando muito tempo.
Estão tentando descobrir o que fazer, mas está difícil ter bom senso.
Será que devemos partir e nos separar, ou ficar aqui todos juntos?
(...) Percebo que a coisa vai mal. A paz chegou ao fim. A guerra
entrou de repente em nossa cidade, em nossa casa, em nossas
cabeças, em nossas vidas. É horrível. Tão horrível quanto ver mamãe
arrumar minha mala.”
(trad. Antonio de Macedo Soares &
Heloisa Jahn)

Outro best-seller do momento aborda a temática: “A menina que
roubava livros
” (A Book Thief, 2005), do australiano Markus Zusak,
de ascendência germânica, a abordar o bombardeio das cidades
alemãs e o drama do Holocausto – a perseguição nazistas aos
judeus – sob o olhar de uma menina que adora surrupiar livros
alheios, e sobrevive aos golpes da morte ao redor. (Tanto que a
Morte passa a se interessar pela menina e narra a vicissitudes
da protagonista...)

Novamente abordando o Holocausto (já havendo toda uma
literatura, aceita ou não, acadêmica ou não, ficcional ou não,
sobre o tema Shoah...), temos – na perspectiva infantil – a obra
best-seller “O Menino do pijama listrado” (“The Boy in the
Striped Pyjamas
”, 2006, do irlandês John Boyne, onde Bruno,
filho de comandante nazista faz amizade com Shmuel, judeu
(de pijama listrado) na cercanias (e nas cercas) do campo de
concentração de Auschwitz. É uma fábula (diz a propaganda)
sobre a amizade no tempo de guerra, sobre as crianças que
desconhecem o que seja 'inimigo', e morrem inocentes do
perigo ao lado.

O garoto era menor do que Bruno e estava sentado no chão com
uma expressão de desamparo. Ele vestia o mesmo pijama listrado
que todas as outras pessoas daquele lado da cerca, e um boné
listrado de pano. Não tinha sapatos ou meias, e os pés estavam
um pouco sujos. No braço ele trazia uma braçadeira com uma
estrela desenhada
.” (trad. Augusto Pacheco Calil)

O livro gerou tamanha repercussão que já virou filme, em
2008, sob direção de Mark Herman, com o jovem ator
(nascido em 1997) Asa Butterfield, no papel do protagonista
Bruno, que no livro tem nove anos. A inocente criança moída
e consumida pelas engrenagens da guerra. Para muitos, uma
criança 'inocente até demais', que não percebe morar ao lado
de uma enorme prisão, onde as pessoas de pijamas listrados
gradativamente desaparecem...

Como uma alegoria do ex-patriado temos a obra “Memórias
de um menino que se tornou estrangeiro
”, de 2007, do paulista
Marcos Cezar de Freitas, que mostra um menino-narrador,
em fuga, dentro da própria cidade bombardeada, em ruínas,
perdendo as referências, depois seguindo para terras estrangeiras,
onde a guerra ainda não chegou, e vendo-se 'estranho', a
reconstruir sua identidade (dada coletivamente, na família, na
pátria, no mundo), enquanto a guerra cria um imenso muro a
separar as pessoas, os povos. Quem é o estrangeiro? Quem é
o inimigo? A guerra rotula e segmenta, cria abismos sociais e
perpetua preconceitos.

De que país eu era, então? Meu país era um navio?” Indaga-se
o protagonista-narrador, ao ver-se partindo para o exílio, junto
aos refugiados, os cidadãos de outrora, agora obrigados a
depender a boa-vontade de outros cidadãos de outros países,
além das agências internacionais que trabalham para amenizar
os traumas das guerras. Mas em outra cidade de outro país,
serão sempre os estrangeiros, com outro idioma, outro modo
de vida, sempre em guettos, sempre temendo os 'pogroms',
pois a xenofobia é um vírus encubado a espera de uma
ocasião explosiva para se disseminar, atrás de novas vítimas.


Hoje as crianças na guerra são as africanas. O Primeiro-Mundo
vendeu seus arsenais (já ultrapassados!) para o Terceiro Mundo –
e agora são os pobres que se matam. Não há uma Guerra Mundial
entre imperialistas, mas Guerras Regionais entre tribos e etnias rivais,
entre interesses comerciais, entre crenças díspares, entre fronteiras
incertas. Como podemos ver no filme “O Senhor das Armas
(Lord of War, USA, 2005, com Nicolas Cage), que mostra os
conflitos na Libéria, na Serra Leoa, no Sudão, no Líbano, que se
alimentam de armamentos contrabandeados do Leste europeu,
dos Estados Unidos, num grande mercado obscuro de armamentos,
Não importa onde você vá, lá vai haver uma arma.”, diz, irônico,
o protagonista, traficante de armas.

As crianças hoje são soldados-mirins, que empunham armas e
disseminam minas, vitimadas e vitimando, sofrendo ao lado dos
adultos e lutando ao lado (e contra) os exércitos, as guerrilhas,
os terroristas, em nome de deuses e etnias, de crenças e ideologias,
perdendo todas as promessas de um futuro.


Out/09


Leonardo de Magalhaens

domingo, 1 de novembro de 2009

NIETZSCHE - O louco (in Gaia Ciência)





FRIEDRICH NIETZSCHE



in: A Gaia Ciência

125 – o louco

Nunca ouviram falar do louco que acendia uma lanterna em pleno dia
e corria pela praça, gritando: "Eu procuro Deus! Eu procuro Deus!"
Mas aqueles que não acreditam em Deus, ficavam rindo, e diziam:
"Estará perdido, tal uma criança?", "Estará escondido? Estará com
medo de nós?", "Terá viajado?"

O louco então gritou:
- Para onde foi Deus? o que vos direi!
Nós o matamos! Vós e eu!
Somos nós, nós todos, os assassinos!
Mas como fizemos isso?
Como esvaziamos o mar? Como apagamos o horizonte?
Como tiramos a terra de sua órbita? Para onde vamos agora?
Não estamos sempre caindo? Para frente, para trás, para os lados?
Mas haverá ainda um acima, um abaixo?
Não estaremos vagando através de um infinito Nada?
Não sentiremos na face o sopro do vazio? O imenso frio?
Não virá sempre noite após noite? Não acenderemos lâmpadas
em pleno dia?
Não podem ouvir o barulho dos coveiros - enterrando Deus?
Ainda não sentiram o fedor da decomposição divina?
Os deuses também apodrecem! E Deus morreu!
Deus está morto! E nós o matamos!
Como poderemos nos consolar? Nós, os assassinos dos assassinos?
O que havia de mais sagrado sangrou sob o nosso punhal,
quem nos limpará deste sangue?
Que água nos poderá lavar?
Que sacrifícios devemos sofrer?
A grandeza deste ato é demasiado grande para nós,
não será preciso que sejamos deuses para
sermos dignos desta grandeza?

O louco ficou calado, e também todos os outros.
Atirou fora a lanterna, que se quebrou.
E dizem que entrava nas igrejas e entoava os funerais de Deus,
e era expulso e interrogado.
Sempre dizia o mesmo: -O que são estas igrejas além de túmulos e
monumentos funerários de Deus?

Trad. adpt. Leonardo de Magalhaens


FRIEDRICH NIETZSCHE

Die fröhliche Wissenschaft (1882)
(la gaya scienza)


125

Der tolle Mensch.— Habt ihr nicht von jenem tollen Menschen gehört, der am hellen Vormittage eine Laterne anzündete, auf den Markt lief und unaufhörlich schrie: "ich suche Gott! Ich suche Gott!"—Da dort gerade Viele von Denen zusammen standen, welche nicht an Gott glaubten, so erregte er ein grosses Gelächter. Ist er denn verloren gegangen? sagte der Eine. Hat er sich verlaufen wie ein Kind? sagte der Andere. Oder hält er sich versteckt? Fürchtet er sich vor uns? Ist er zu Schiff gegangen? ausgewandert?—so schrieen und lachten sie durcheinander. Der tolle Mensch sprang mitten unter sie und durchbohrte sie mit seinen Blicken. "Wohin ist Gott? rief er, ich will es euch sagen! Wir haben ihn getödtet,—ihr und ich! Wir Alle sind seine Mörder! Aber wie haben wir diess gemacht? Wie vermochten wir das Meer auszutrinken? Wer gab uns den Schwamm, um den ganzen Horizont wegzuwischen? Was thaten wir, als wir diese Erde von ihrer Sonne losketteten? Wohin bewegt sie sich nun? Wohin bewegen wir uns? Fort von allen Sonnen? Stürzen wir nicht fortwährend? Und rückwärts, seitwärts, vorwärts, nach allen Seiten? Giebt es noch ein Oben und ein Unten? Irren wir nicht wie durch ein unendliches Nichts? Haucht uns nicht der leere Raum an? Ist es nicht kälter geworden? Kommt nicht immerfort die Nacht und mehr Nacht? Müssen nicht Laternen am Vormittage angezündet werden? Hören wir noch Nichts von dem Lärm der Todtengräber, welche Gott begraben? Riechen wir noch Nichts von der göttlichen Verwesung?—auch Götter verwesen! Gott ist todt! Gott bleibt todt! Und wir haben ihn getödtet! Wie trösten wir uns, die Mörder aller Mörder? Das Heiligste und Mächtigste, was die Welt bisher besass, es ist unter unseren Messern verblutet,—wer wischt diess Blut von uns ab? Mit welchem Wasser könnten wir uns reinigen? Welche Sühnfeiern, welche heiligen Spiele werden wir erfinden müssen? Ist nicht die Grösse dieser That zu gross für uns? Müssen wir nicht selber zu Göttern werden, um nur ihrer würdig zu erscheinen? Es gab nie eine grössere That,—und wer nur immer nach uns geboren wird, gehört um dieser That willen in eine höhere Geschichte, als alle Geschichte bisher war!"—Hier schwieg der tolle Mensch und sah wieder seine Zuhörer an: auch sie schwiegen und blickten befremdet auf ihn. Endlich warf er seine Laterne auf den Boden, dass sie in Stücke sprang und erlosch. "Ich komme zu früh, sagte er dann, ich bin noch nicht an der Zeit. Diess ungeheure Ereigniss ist noch unterwegs und wandert,—es ist noch nicht bis zu den Ohren der Menschen gedrungen. Blitz und Donner brauchen Zeit, das Licht der Gestirne braucht Zeit, Thaten brauchen Zeit, auch nachdem sie gethan sind, um gesehen und gehört zu werden. Diese That ist ihnen immer noch ferner, als die fernsten Gestirne,—und doch haben sie dieselbe gethan!"—Man erzählt noch, dass der tolle Mensch des selbigen Tages in verschiedene Kirchen eingedrungen sei und darin sein Requiem aeternam deo angestimmt habe. Hinausgeführt und zur Rede gesetzt, habe er immer nur diess entgegnet: "Was sind denn diese Kirchen noch, wenn sie nicht die Grüfte und Grabmäler Gottes sind?" —