domingo, 8 de novembro de 2009

As guerras no olhar das crianças (ensaio)








As guerras no olhar das crianças


(ensaio)

A desumanidade do homem para com o homem,
e ainda pior, para as crianças”
(“Man's inhumanity to man and worse still,
to child”)(The Cranberries)

e ainda: “Mais de dois milhões de crianças foram mortas em guerras nos
últimos dez anos, enquanto seis milhões ficaram mutiladas, 12 milhões
perderam suas casas e mais de 10 milhões sofreram danos psicológicos
irrevesíveis. O trágico quadro foi denunciado pela ONU e os dados
mostram que estamos diante de um novo holocausto de inocentes
.”
(Estado de Minas, 13 de outubro de 1998)


Crianças jogadas no furor da guerra dos adultos imaturos,
crianças que não sabem o que sejam certo ou errado (e
os adultos sabem?), não importa sedo 'lado certo' ou do
'lado errado' – precisam se defender e atacar...

Que liberdade tinha a Anne Frank? Ou o Shmuel de “O
Menino do Pijama Listrado
”? Ou a Zlata em Sarajevo,
campo de batalha urbano?

Que liberdade há? Os arautos da liberdade (existencial, política,
social) não sabem... O que Sartre queria dizer com “condenados
à liberdade
”? Ou com “fazermos algo do que fizeram de nós”?
Ou textualmente: “O importante não é aquilo que fazem de nós,
mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram
de nós.”

A liberdade é escolher entre cartas já marcadas? E quando se
nasce num campo de concentração? Ou num campo de batalha?
Nascemos num dado contexto histórico, aprendemos um idioma,
servimos a umapátria, além de um patrão... Os líderes 'formatam'
seus seguidores desde criança – vide a Juventude Leninista,
o Komsomol, ou a Juventude Hitlerista, a Hitlerjugend.


Está na moda (e no mercado) os livros best-sellers sobre crianças
nas guerras, ou melhor, sobre as guerras vivenciadas pelas
crianças. A referência é um dos livros mais famosos (e clássicos)
sobre a temática – o “Diário de Anne Frank”, publicado após
a Segunda Guerra Mundial, pelo pai da menina, ela que não
sobreviveu ao campo de concentração. Trata da invasão da
Holanda, em 1940, a perseguição aos cidadãos judeus,
obrigados a buscar refúgio em porões, em sótãos, a viverem
em dependência de vizinhos, que driblam as políticas nazistas
de prisão e extermínio.

Tamanho é o poder do testemunho de Anne – que praticamente
passou de criança à adolescente num sótão abafado, a lidar com
a puberdade entre os conflitos internos (dos pais, dos vizinhos)
e externos (a guerra entre os Aliados e os nazistas), e tentando
descrever tudo isso numa prosa que evidencia a grande escritora
que perdemos.

Depois, em pleno pós-Guerra Fria, com o fim do 'socialismo real'
(que o capitalismo real festejou!), com a implosão da URSS e com
a guerra civil na Iugoslávia, fez alarde um “Diário de Zlata” (1993),
aqui no Brasil, em edição traduzida o exemplar francês, “Le Journal
de Zlata
”, onde a menina Zlata Filipovic descreve a capital bósnia,
Sarajevo, sob ataque das forças sérvias, em 1992. Zlata foi mesmo
considerada uma “Anne Frank de Sarajevo”, versão moderna do
drama “criança no teatro de guerra.”

Estão bombardeando, as granadas caem. É mesmo a GUERRA.
Papai e mamãe estão muito preocupados; ontem à noite eles
ficaram acordados até tarde, ficaram conversando muito tempo.
Estão tentando descobrir o que fazer, mas está difícil ter bom senso.
Será que devemos partir e nos separar, ou ficar aqui todos juntos?
(...) Percebo que a coisa vai mal. A paz chegou ao fim. A guerra
entrou de repente em nossa cidade, em nossa casa, em nossas
cabeças, em nossas vidas. É horrível. Tão horrível quanto ver mamãe
arrumar minha mala.”
(trad. Antonio de Macedo Soares &
Heloisa Jahn)

Outro best-seller do momento aborda a temática: “A menina que
roubava livros
” (A Book Thief, 2005), do australiano Markus Zusak,
de ascendência germânica, a abordar o bombardeio das cidades
alemãs e o drama do Holocausto – a perseguição nazistas aos
judeus – sob o olhar de uma menina que adora surrupiar livros
alheios, e sobrevive aos golpes da morte ao redor. (Tanto que a
Morte passa a se interessar pela menina e narra a vicissitudes
da protagonista...)

Novamente abordando o Holocausto (já havendo toda uma
literatura, aceita ou não, acadêmica ou não, ficcional ou não,
sobre o tema Shoah...), temos – na perspectiva infantil – a obra
best-seller “O Menino do pijama listrado” (“The Boy in the
Striped Pyjamas
”, 2006, do irlandês John Boyne, onde Bruno,
filho de comandante nazista faz amizade com Shmuel, judeu
(de pijama listrado) na cercanias (e nas cercas) do campo de
concentração de Auschwitz. É uma fábula (diz a propaganda)
sobre a amizade no tempo de guerra, sobre as crianças que
desconhecem o que seja 'inimigo', e morrem inocentes do
perigo ao lado.

O garoto era menor do que Bruno e estava sentado no chão com
uma expressão de desamparo. Ele vestia o mesmo pijama listrado
que todas as outras pessoas daquele lado da cerca, e um boné
listrado de pano. Não tinha sapatos ou meias, e os pés estavam
um pouco sujos. No braço ele trazia uma braçadeira com uma
estrela desenhada
.” (trad. Augusto Pacheco Calil)

O livro gerou tamanha repercussão que já virou filme, em
2008, sob direção de Mark Herman, com o jovem ator
(nascido em 1997) Asa Butterfield, no papel do protagonista
Bruno, que no livro tem nove anos. A inocente criança moída
e consumida pelas engrenagens da guerra. Para muitos, uma
criança 'inocente até demais', que não percebe morar ao lado
de uma enorme prisão, onde as pessoas de pijamas listrados
gradativamente desaparecem...

Como uma alegoria do ex-patriado temos a obra “Memórias
de um menino que se tornou estrangeiro
”, de 2007, do paulista
Marcos Cezar de Freitas, que mostra um menino-narrador,
em fuga, dentro da própria cidade bombardeada, em ruínas,
perdendo as referências, depois seguindo para terras estrangeiras,
onde a guerra ainda não chegou, e vendo-se 'estranho', a
reconstruir sua identidade (dada coletivamente, na família, na
pátria, no mundo), enquanto a guerra cria um imenso muro a
separar as pessoas, os povos. Quem é o estrangeiro? Quem é
o inimigo? A guerra rotula e segmenta, cria abismos sociais e
perpetua preconceitos.

De que país eu era, então? Meu país era um navio?” Indaga-se
o protagonista-narrador, ao ver-se partindo para o exílio, junto
aos refugiados, os cidadãos de outrora, agora obrigados a
depender a boa-vontade de outros cidadãos de outros países,
além das agências internacionais que trabalham para amenizar
os traumas das guerras. Mas em outra cidade de outro país,
serão sempre os estrangeiros, com outro idioma, outro modo
de vida, sempre em guettos, sempre temendo os 'pogroms',
pois a xenofobia é um vírus encubado a espera de uma
ocasião explosiva para se disseminar, atrás de novas vítimas.


Hoje as crianças na guerra são as africanas. O Primeiro-Mundo
vendeu seus arsenais (já ultrapassados!) para o Terceiro Mundo –
e agora são os pobres que se matam. Não há uma Guerra Mundial
entre imperialistas, mas Guerras Regionais entre tribos e etnias rivais,
entre interesses comerciais, entre crenças díspares, entre fronteiras
incertas. Como podemos ver no filme “O Senhor das Armas
(Lord of War, USA, 2005, com Nicolas Cage), que mostra os
conflitos na Libéria, na Serra Leoa, no Sudão, no Líbano, que se
alimentam de armamentos contrabandeados do Leste europeu,
dos Estados Unidos, num grande mercado obscuro de armamentos,
Não importa onde você vá, lá vai haver uma arma.”, diz, irônico,
o protagonista, traficante de armas.

As crianças hoje são soldados-mirins, que empunham armas e
disseminam minas, vitimadas e vitimando, sofrendo ao lado dos
adultos e lutando ao lado (e contra) os exércitos, as guerrilhas,
os terroristas, em nome de deuses e etnias, de crenças e ideologias,
perdendo todas as promessas de um futuro.


Out/09


Leonardo de Magalhaens

domingo, 1 de novembro de 2009

NIETZSCHE - O louco (in Gaia Ciência)





FRIEDRICH NIETZSCHE



in: A Gaia Ciência

125 – o louco

Nunca ouviram falar do louco que acendia uma lanterna em pleno dia
e corria pela praça, gritando: "Eu procuro Deus! Eu procuro Deus!"
Mas aqueles que não acreditam em Deus, ficavam rindo, e diziam:
"Estará perdido, tal uma criança?", "Estará escondido? Estará com
medo de nós?", "Terá viajado?"

O louco então gritou:
- Para onde foi Deus? o que vos direi!
Nós o matamos! Vós e eu!
Somos nós, nós todos, os assassinos!
Mas como fizemos isso?
Como esvaziamos o mar? Como apagamos o horizonte?
Como tiramos a terra de sua órbita? Para onde vamos agora?
Não estamos sempre caindo? Para frente, para trás, para os lados?
Mas haverá ainda um acima, um abaixo?
Não estaremos vagando através de um infinito Nada?
Não sentiremos na face o sopro do vazio? O imenso frio?
Não virá sempre noite após noite? Não acenderemos lâmpadas
em pleno dia?
Não podem ouvir o barulho dos coveiros - enterrando Deus?
Ainda não sentiram o fedor da decomposição divina?
Os deuses também apodrecem! E Deus morreu!
Deus está morto! E nós o matamos!
Como poderemos nos consolar? Nós, os assassinos dos assassinos?
O que havia de mais sagrado sangrou sob o nosso punhal,
quem nos limpará deste sangue?
Que água nos poderá lavar?
Que sacrifícios devemos sofrer?
A grandeza deste ato é demasiado grande para nós,
não será preciso que sejamos deuses para
sermos dignos desta grandeza?

O louco ficou calado, e também todos os outros.
Atirou fora a lanterna, que se quebrou.
E dizem que entrava nas igrejas e entoava os funerais de Deus,
e era expulso e interrogado.
Sempre dizia o mesmo: -O que são estas igrejas além de túmulos e
monumentos funerários de Deus?

Trad. adpt. Leonardo de Magalhaens


FRIEDRICH NIETZSCHE

Die fröhliche Wissenschaft (1882)
(la gaya scienza)


125

Der tolle Mensch.— Habt ihr nicht von jenem tollen Menschen gehört, der am hellen Vormittage eine Laterne anzündete, auf den Markt lief und unaufhörlich schrie: "ich suche Gott! Ich suche Gott!"—Da dort gerade Viele von Denen zusammen standen, welche nicht an Gott glaubten, so erregte er ein grosses Gelächter. Ist er denn verloren gegangen? sagte der Eine. Hat er sich verlaufen wie ein Kind? sagte der Andere. Oder hält er sich versteckt? Fürchtet er sich vor uns? Ist er zu Schiff gegangen? ausgewandert?—so schrieen und lachten sie durcheinander. Der tolle Mensch sprang mitten unter sie und durchbohrte sie mit seinen Blicken. "Wohin ist Gott? rief er, ich will es euch sagen! Wir haben ihn getödtet,—ihr und ich! Wir Alle sind seine Mörder! Aber wie haben wir diess gemacht? Wie vermochten wir das Meer auszutrinken? Wer gab uns den Schwamm, um den ganzen Horizont wegzuwischen? Was thaten wir, als wir diese Erde von ihrer Sonne losketteten? Wohin bewegt sie sich nun? Wohin bewegen wir uns? Fort von allen Sonnen? Stürzen wir nicht fortwährend? Und rückwärts, seitwärts, vorwärts, nach allen Seiten? Giebt es noch ein Oben und ein Unten? Irren wir nicht wie durch ein unendliches Nichts? Haucht uns nicht der leere Raum an? Ist es nicht kälter geworden? Kommt nicht immerfort die Nacht und mehr Nacht? Müssen nicht Laternen am Vormittage angezündet werden? Hören wir noch Nichts von dem Lärm der Todtengräber, welche Gott begraben? Riechen wir noch Nichts von der göttlichen Verwesung?—auch Götter verwesen! Gott ist todt! Gott bleibt todt! Und wir haben ihn getödtet! Wie trösten wir uns, die Mörder aller Mörder? Das Heiligste und Mächtigste, was die Welt bisher besass, es ist unter unseren Messern verblutet,—wer wischt diess Blut von uns ab? Mit welchem Wasser könnten wir uns reinigen? Welche Sühnfeiern, welche heiligen Spiele werden wir erfinden müssen? Ist nicht die Grösse dieser That zu gross für uns? Müssen wir nicht selber zu Göttern werden, um nur ihrer würdig zu erscheinen? Es gab nie eine grössere That,—und wer nur immer nach uns geboren wird, gehört um dieser That willen in eine höhere Geschichte, als alle Geschichte bisher war!"—Hier schwieg der tolle Mensch und sah wieder seine Zuhörer an: auch sie schwiegen und blickten befremdet auf ihn. Endlich warf er seine Laterne auf den Boden, dass sie in Stücke sprang und erlosch. "Ich komme zu früh, sagte er dann, ich bin noch nicht an der Zeit. Diess ungeheure Ereigniss ist noch unterwegs und wandert,—es ist noch nicht bis zu den Ohren der Menschen gedrungen. Blitz und Donner brauchen Zeit, das Licht der Gestirne braucht Zeit, Thaten brauchen Zeit, auch nachdem sie gethan sind, um gesehen und gehört zu werden. Diese That ist ihnen immer noch ferner, als die fernsten Gestirne,—und doch haben sie dieselbe gethan!"—Man erzählt noch, dass der tolle Mensch des selbigen Tages in verschiedene Kirchen eingedrungen sei und darin sein Requiem aeternam deo angestimmt habe. Hinausgeführt und zur Rede gesetzt, habe er immer nur diess entgegnet: "Was sind denn diese Kirchen noch, wenn sie nicht die Grüfte und Grabmäler Gottes sind?" —

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

WALT WHITMAN - A Base de toda Metafísica





WALT WHITMAN


The Base of All Metaphysics

A base de toda Metafísica


E agora, cavalheiros,
eu digo algo para permanecer nas mentes e memórias de vocês,
como princípio e fim de toda metafísica.

(Igual ao professor aos estudantes
ao término seu curso lotado.)

Tendo estudado os novos e os antigos, os sistemas gregos e germânicos,
Tendo estudado e atento a Kant e Fiche e Hegel,
Situado o discurso de Platão, e Sócrates maior que Platão,
E outros maiores que Sócrates buscados e referidos, inclusive o
divino Cristo,
Eu vejo hoje reminiscências daqueles sistemas gregos e germânicos,
Vejo todas as filosofias, templos e dogmas cristãos observo,
E mesmo abaixo de Sócrates eu vejo claramente,
e abaixo do divino Cristo, eu vejo
o puro amor do homem por seu camarada, a atração do amigo pelo amigo,
de uma mulher pelo marido, de filhos pelos pais,
de uma cidade por outra, de uma terra por outra.


Trad. Leonardo de Magalhaens
Jan/08



WALT WHITMAN

The Base of All Metaphysics


And now gentlemen,


A word I give to remain in your memories and minds,


As base and finale too for all metaphysics.




(So to the students the old professor,


At the close of his crowded course.)




Having studied the new and antique, the Greek and Germanic systems,


Kant having studied and stated, Fichte and Schelling and Hegel,


Stated the lore of Plato, and Socrates greater than Plato,


And greater than Socrates sought and stated, Christ divine having studied long,


I see reminiscent to-day those Greek and Germanic systems,


See the philosophies all, Christian churches and tenets see,


Yet underneath Socrates clearly see, and underneath Christ the divine I see,


The dear love of man for his comrade, the attraction of friend to friend,


Of the well-married husband and wife, of children and parents,


Of city for city and land for land.






sábado, 24 de outubro de 2009

A dama da rua Espinosa (conto)



Conto

A Dama da Rua Espinosa

Mezzanotte. Desço na Pedro II, avenida morta. Noite
de sexta-feira, de agitos obscuros. Ao deixar um sarau
de poemas calientes e corpos desnudos, já de todo
indiferente às sombras dos mendigos abrigados sob
casebres de papelão sob a marquise de loja de auto-peças.

Antevejo um vulto que diria feminino, mas cultivei
prudente dúvida, a considerar a fauna de
quase-mulheres que tem habitat natural nas penumbras
da Pedro II, para a inglória do Imperador...

Mas não posso estar enganado! O olhar é de mulher,
de promessas de luxúria! Assim, a querer dizer algo,
oferecer algo, ou a si-mesma. Mas não a mim! Eis
que ouço meus passos furando a rua morta, ladeira
acima, a Espinosa, prevendo a torre da Igreja, o
inebriante aroma de dama-da-noite no jardim do sacristão.
Prevejo o horário futuro, os ponteiros indicando meia-noite,
ou mais, não sei ainda, tudo está ladeira acima, meus
passos nada mais fazem do que me conduzir.

Mas a dama da rua Espinosa não olha para mim! Mas
para o primeiro carro a parar no sinal fechado. Ao volante
um jovem baladeiro, a desfrutar a fortuna familiar, mas não
tão generoso – não paga o preço, “você está doido?”, a
voz feminina me alcança, o carro já se afasta, a mulher
cambaleia. Depois endireita-se e espera o próximo veículo.
Que passa por mim.

Ao volante vejo um senhor careca, sóbrio e sério, que durante
o dia (e o resto da semana) é pai de família ou desquitado,
dono de mercearia ou vendedor de seguros, mas nas noites
de sexta-feira, ele mesmo, ou seu clone, sai de carro a
admirar - e caçar – as damas da noite, ali no sinal da
rua Espinosa, ou outra rua escura qualquer. E ele paga o
preço! Ela contorna o carro e se vai, os faróis se derretem no
escuro.

Quanto a mim, o que fazer além de seguir ladeira acima? A
ouvir meus passos, com ou sem moralismos, a admirar a ousadia
do trabalho, a oferta do próprio corpo!, da dama da noite, aquela
de olhos faiscantes, de pele brilhante e mini-saia que entrou
no carro e agora a se debruçar sobre a calça do senhor velho
proprietário, agora não tão sério assim...

Os olhos cintilantes ali na esquina da Espinosa, a prometer prazer
e coisitas mais, naquela noite de sexta-feira, onde vultos se excitam
e se seduzem, se arrastam para antros de desejos, desde que
alguém pague o preço.

23/24out/09

Leonardo de Magalhaens

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Octavio PAZ - La Poesia / A Poesia



Octavio Paz

La Poesia / A Poesia

Chegas, silenciosa, secreta,
e desperta os furores, os gozos,
e esta angústia
que acende o que toca
e engendra em cada coisa
uma avidez sombria.

O mundo cede e se derrete
como metal ao fogo.
Entre minhas ruínas me levanto,
sozinho, desnudo, despojados,
sobre a rocha imensa do silêncio
como um solitário combatente
contra hostes invisíveis.

Verdade abrasadora,
Para o que me empurras?
Não quero tua verdade,
tua imensa pergunta.
Para o que esta luta estéril?
O homem não é criatura capaz de conter-se,
avidez que somente na sede se sacia,
chama que todos os lábios consome,
espírito que não vive em nenhuma forma
mas faz arder todas as formas.

Sobes desde o mais fundo de mim,
desde o centro inominável de meu ser,
exército, maré.
Cresces, tua sede me afoga,
expulsando, tirânica,
aquilo que não cede
a tua espada frenética.
Já somente tu me habitas,
tu, sem nome, substância furiosa,
avidez subterrânea, delirante.

Teus fantasmas golpeiam o meu peito,
despertas o meu tato,
congelas a minha face,
abres os meus olhos.

Percebo o mundo e te toco,
substância intocável,
unidade de minha alma e de meu corpo,
e contemplo o combate que combato
e minhas bodas de terra.

Imagens opostas nublam os meus olhos,
e as mesmas imagens
outras, mais profundas, estas negam,
ardente balbuciar,
águas que inundam de água mais oculta e densa.
Em suas úmidas trevas vida e morte,
quietude e movimento, são iguais.

Insiste, vencedora,
porque assim sozinho sou porque existes,
e minha boca e minha língua se formaram
para dizer tão somente a tua existência
e tuas sílabas secretas, palavra
impalpável e despótica,
substância de minha alma.

És tão somente um sonho
porém em ti sonha o mundo
e sua mudez fala com as tuas palavras.

Roço ao tocar o teu peito
a fronteira elétrica da vida,
as trevas do sangue
onde pactua a boca cruel e enamorada,
ainda ávida para destruir o que ama
e reviver o que destrói,
com o mundo, impassível
e sempre idêntico a mim mesmo,
porque não se detem em forma alguma
nem se demora sobre o que engendra.

Leva-me, sozinha,
leva-me meios aos sonhos,
leva-me, minha mãe,
despertai-me de todo,
fazei-me sonhar os teus sonhos,
untai os meus olhos com óleo,
para que ao conhecer-te me conheça.

Trad. Leonardo de Magalhaens

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Jorge Luis BORGES - Inscrição em qualquer Sepulcro





Jorge Luis Borges

Inscrição em qualquer sepulcro

Não arrisque o mármore temerário
tagarelas transgressões ao todo-poder do esquecimento,
enumerando todo prolixo
o nome, a opinião, os eventos, a pátria.
Tanto enfeite bem exibido está às escuras
e o mármore não fale do que calam os homens.
O essencial da vida fenecida
- a trêmula esperança,
o milagre implacável da dor e o assombro do gozo -
sempre vai perdurar.
Cegamente reclama duração a alma arbitrária
quando a tem segura em vidas alheias,
quando tu mesmo és a real continuação
dos que não alcançaram o teu tempo
e outros serão (e são) tua imortalidade na terra.

Tradução: Leonardo de Magalhaens



Jorge Luis Borges

INSCRIPCION EN CUALQUIER SEPULCRO
No arriesgue el mármol temerario
gárrulas infracciones al todopoder del olvido,
enumerando con prolijidad
el nombre, la opinión, los acontecimientos, la patria.
Tanto abalorio bien adjudicado está a la tiniebla
y el mármol no hable lo que callan los hombres.
Lo esencial de la vida fenecida
---la trémula esperanza,
el milagro implacable del dolor y el asombro del goce---
siempre perdurará.
Ciegamente reclama duración el alma arbitraria
cuando la tiene asegurada en vidas ajenas,
cuando tú mismo eres la continuación realizada
de quienes no alcanzaron tu tiempo
y otros serán (y son) tu inmortalidad en la tierra.


INSCRIPTION ON ANY TOMBSTONE
translated by Roberta GouldWest Hurley, New York

Let not the brash marble risk
prattling infractions against all-powerful oblivion
tediously commemorating
the name, opinion, events, and country.
Such beads are best ascribed to darkness
and the marble should not say what man forgets.
The essence of the departed life
--tremulous hope, the implacable miracle of pain and the shock of pleasure
will always endure.
The arbitrary soul blindly demands duration
when it has it assured in the lives of others,
when you yourself are the realized continuation
of those who didn't reach your time
and others will be (and are) your immortality on earth.

In: http://www.languageandculture.net/gallery-summer-fall-2008.html

sábado, 17 de outubro de 2009

Cansaço / Cansancio - Oliverio GIRONDO



OLIVERIO GIRONDO

CANSAÇO

Cansado.
Sim!
Cansado
de usar um só baço,
dois lábios,
vinte dedos,
não sei quantas palavras,
não sei quantas lembranças,
grisalhas,
fragmentárias.

Cansado,
muito cansado
deste esqueleto frio,
tão pudico
tão casto,
que quando se desnuda
não saberei se é o mesmo
que usei enquanto vivia.

Cansado.
Sim!
Cansado
por precisar de antenas,
de um olho em cada omoplata
e uma calda autêntica,
alegre
desatada,
e não este rabo hipócrita,
degenerado,
nanico.

Cansado,
sobretudo,
de estar sempre comigo,
de invocar-me a cada dia,
quando termina o sono,
ali, onde me encontre,
com as mesmas narinas
e com as mesmas pernas;
como se não desejasse
esperar a maré-baixa com uma cútis de praia,
Oferecer, ao orvalho, dois seios de magnólia,
acariciar a terra com um ventre de lagarta,
e viver, alguns meses, dentro de uma pedra.


Tradução: Leonardo de Magalhaens
(revisão: Sebastián Moreno)


OLIVERIO GIRONDO

CANSANCIO
Cansado.
¡Sí!
Cansado
de usar un solo bazo,
dos labios,
veinte dedos,
no sé cuántas palabras,
no sé cuantos recuerdos,
grisáceos,
fragmentarios.
Cansado,muy cansado
de este frío esqueleto,
tan púdico,tan casto,
que cuando se desnude
no sabrá si es el mismo
que usé mientras vivía.
Cansado.
¡Sí!
Cansado
por carecer de antenas,
de un ojo en cada omóplato
y de una cola autentica,
alegredesatada,
y no este rabo hipócrita,
degenerado,
enano.

Cansado,
sobre todo,
de estar siempre conmigo,
de hallarme cada día,
cuando termina el sueño,
allí, donde me encuentre,
con las mismas narices
y con las mismas piernas;
como si no deseara
esperar la rompiente con un cutis de playa,
ofrecer, al rocío, dos senos de magnolia,
acariciar la tierra con un vientre de oruga,
y vivir, unos meses, adentro de una piedra.