segunda-feira, 1 de setembro de 2014

3 textos de Fernando Bonassi - in A Boca no Mundo


 

 




Fernando Bonassi

 



crônicas na Folha de São Paulo
 


2002 - 2006


 




9/ BREVE ESTUDO SOBRE A NORMALIDADE


 
Normalmente é um encontro. Normalmente é num tesão. Normalmente é um receio. Normalmente é uma espera. Normalmente é urgente.

Normalmente é cesariana. Normalmente o leite empedra. Normalmente as fraldas fedem. Normalmente os filhos crescem. Normalmente as tias mimam. Normalmente as mães reclamam. Normalmente os pais se mandam... normalmente é uma outra.

Normalmente dá despesa. Normalmente dá trabalho. Normalmente é sem emprego.

Normalmente o recheio é pouco. Normalmente a casca é grossa. Normalmente o buraco é fundo. Normalmente é lá pra baixo. Normalmente o mais gostoso.

Normalmente o rabo não encurta, a curiosidade não mata e nem todos que têm boca chegam à Roma.

Normalmente as camisinhas são guardadas, as contas pagas, inconfidências escapam, o estômago se revolta, o veneno é conhecido e alguém já havia pensado nisso antes.

Normalmente os últimos ficam sem. Normalmente os primeiros têm mais medo. Normalmente os do meio não levam vantagem. Normalmente é sacanagem.

Normalmente vocações são encontradas, normalmente virgindades são perdidas: os dedos apontados, as pernas abertas, as mãos estendidas.

Normalmente os calos surgem. Normalmente o sapato aperta. Normalmente o troço é mole. Normalmente o espelho alerta. Normalmente a vingança é fria. Normalmente faltam dentes. Normalmente o vizinho espia. Normalmente a orelha quente. Normalmente os mundos se fazem de surdos e os cães guiam os cegos.

Normalmente falta luz. Normalmente a água bate por aqui. Normalmente aqui é o único lugar. Normalmente os afogados comem o peixe cru. Normalmente coisas são pescadas no ar. Normalmente o ar está poluído pelas coisas que são arremessadas nele. Normalmente encanamentos e encanadores dão problemas de manutenção. Normalmente a inocência é uma explicação.

Normalmente é o passado, uma oportunidade, um sofrimento, uma esperança. Normalmente é um consolo. Normalmente se ajeita, se conversa, se aceita.

Normalmente amanhece o dia. Normalmente suaviza a noite.
Normalmente sonhos e pesadelos se confundem. Normalmente a confusão é desfeita com um pouco de consciência. Normalmente consciência é sabedoria. Normalmente a sabedoria está na escola. Normalmente os professores corrigem provas. Normalmente as provas são insuficientes.
Normalmente os curiosos são mais rápidos que a polícia; a polícia mais rápida que as ambulâncias e as ambulâncias mais rápidas que os carros funerários.
Normalmente é tiro trocado, é arma raspada, é sem testemunha.
Normalmente as leis são compridas e as letras minúsculas. Normalmente as obrigações são maiores. Normalmente os juízes não têm pena.
Normalmente os sorrisos, as piteiras, as roupas de baixo, os jornais e as fotografias amarelam.
Normalmente os mapas se complicam, os tênis se desgastam, os povos se misturam, as paixões se esgarçam, os monumentos são recobertos pela bosta das pombas e a História se repete.
Normalmente os pedestres são atropelados pelos bois, os bois são atropelados pelos carros, os carros pelos ônibus, os ônibus pelos trens e muitos aviões sobem por aqueles que caem. Normalmente as estatísticas confortam os ateus. Normalmente ateus viajam de avião. Normalmente os ateus vão à igreja.
Normalmente o Diabo tenta. Normalmente Deus perdoa.
Normalmente a carne é fraca e a vontade é grande. Normalmente é de fumar, é de beber, é de cheirar ou de comer. Normalmente é proibido. Normalmente é tudo junto. Normalmente a gente faz.
Normalmente os valores passam pelas rugas, a decência pelas blusas, os ferros pelos vincos, os prazeres pelas calças, a poesia pelas musas, as malas pelas alças e os inimigos pelas costas.
Normalmente as feridas cicatrizam e as varizes aparecem. Normalmente os sacos enchem e as bundas caem. Normalmente é cada vez mais ginástica por peso vencido. Normalmente há um sentido. Normalmente há um marido.

Normalmente não tem cigarro. Não tem pulmão. Normalmente não tem trocado, não tem espaço, não tem importância.
Normalmente é da carteira pra bolsa e da bolsa pro caixa. Normalmente é o mercado, o supermercado, o hipermercado etc.
Normalmente é uma hora e outra. Normalmente é desde sempre. É um ovo, um arroz e um feijão. Normalmente há uma razão. Normalmente só complica. Normalmente é um princípio. Normalmente um precipício.
Normalmente está lotado: um caminho é cortado, palavrões arremessados no retrovisor, milhões de mortos no televisor.
Normalmente atrás vem mais. Normalmente uma necessidade. Normalmente é outra fila, uma taxa, uma bolacha.
Normalmente a especialidade é cara, o salário é pouco, a fome é tanta, o remédio é raro... mas a morte é certa.


fonte: A BOCA NO MUNDO – 100 crônicas de Fernando Bonassi
São Paulo / Novo Século / 2007








16/ TEXTO PARA LEITURA

O que dizer por todos esses livros no zoológico das estantes?
Livros são animais sexuados: livros são metidos, livros são gestados, livros são paridos. Livros crescem, como meninos. Livros sangram, como meninas. Livros infantis com ideias de aprendiz. Livros de aventura pra estimular a travessura. Livros de iniciação pras pessoas em formação. Todo livro é um livro da vida (mesmo os livros de contabilidade, que são livros de dívidas). Livros de poesia controlam a azia. Livros de História fortalecem a memória. Livros de viagem aperfeiçoam a paisagem. Livros de religião aumentam a devoção. Livros de química servem pra misturar. Livros de teste, pra confundir. Livros de lógica, pra entender. Livros didáticos, pra explicar. Livros revolucionários são livros vermelhos espetados no ar. Livres pra reclamar, livros de arrepiar!
Mas... com quantos livros se faz uma pessoa?
Livros de tabuada pra conta calculada. Livros de auto-ajuda praquilo que não muda. Livros de lazer pra quem tem muito o que fazer. Livros de direito pra homens de respeito. Livro de reza quando a coisa pesa. Livros em liquidação para leitores sem condição. Livros de oratória, livros de ortografia, livros de culinária, livros de psicologia. Livros em orgia. Livros pornográficos levados pra cama. Livros de etiqueta pra pôr a mesa. Livros sádicos. Livros trágicos. Livros míticos. Livros pro alimento do espírito e dos editores. Livros pra vaidade dos escritores. Livros especiais. Livros espaciais. Livros de colecionadores. Livros de informática são livros de computador. Livros de condolências são livros cheios de dor. Livros ensinam a ler. Livros pro humor. Livros pra quem quiser ver. Livros loucos pra saber. Livros com ilustração auxiliam a compreensão. Livros beijados, livros mordidos. Livros apalpados, livros espremidos. Livros lambidos como frutos escorridos. Livros embebidos. Livros embevecidos. Livros abraçados como casais apaixonados. Livros são romances cultivados. São feridas, são repastos. Livros passados de mão em mão, como boas biscas. Livros de arte. Livros de artistas. Páginas arrancadas sem vergonha, livros fumados com maconha. Livros de piada. Sacos de risada. Palavras cruzadas e frases alinhavadas. Livros depenados. Livros invocados. Livros em conflito. Páginas de livros processados em juízo. Livros censurados. Livros permissivos. Os livros das sopas, os livros dos sonhos, o livro dos molhos. Livros molhados nos clubes de livros. Livros de ocorrência. Livros policiais. Livros de referência. Livros originais. Livro pra orientação num universo em expansão. Livros equivocados. Livros inquisitivos. Livros engavetados. Livros recolhidos. Livros esmagados nos ônibus lotados. Livros encoxados, livros encolhidos. Livros espalhados por baixo dos estrados. Livros deflorados. Livros chacoalhados. Livros escondidos. Livros arremessados nos divórcios acalorados. Livros feito espadas. Livros como escudos. Livros que berram e livros que são mudos. O pior livro de cego é aquele que não quer se ler. Livros na ponta da língua. Livros com a ponta dos dedos. Livros engrossam, como rapazes. Livros melhoram, como mulheres. Livros murchos, livros sujos, livros finos. Livros como manda o figurino. Livros de moda. Livros em falta. Livros de sobra. Livros que cheiram bem e livros que cheiram mal (livros de renúncia fiscal). Livros roubados. Livros comprados. Livros vendidos. Árvores de livros abatidos. Livros de cabeceira. A fertilidade dos livros de madeira. Livros exibidos como corpos oferecidos. Livros safados. Livros falados. Livros sorvidos. Livros conservadores nas gavetas dos doutores. Livros emocionais pra cólicas menstruais. Livros de regime. Livros de política. Livros de ótica. Livros de crítica. Livros diários são livros crônicos, são livros cômicos, são livros tônicos. Dicionários de livros explicados. Raciocínios apalavrados. Teses de mestrado. Bolsas de livros financiados. Tomos, tombos, citações. Parágrafos, capítulos, correções. Publicações, polêmicas, opiniões. Livros importados. Livros transportados. Livros traduzidos. Livros encomendados, livros encarecidos. Livros encardenados como faraós embalsamados. Livros aposentados. Livros comentando livros. Livros lavrados em cartórios hereditários. Livros aplicados e homens especializados. Diplomas de livros emparedados. Livros emparelhados. Bibliotecas de livros amontoados. Sebos empoeirados. Livros decorados são livros encruados são livros mal comidos. Livros devorados por vermes aculturados. Livros bichados. Livros suados. Livros vencidos. Caixas e caixas de livros caixa. Arquivos mortos em pandemônio, as fortunas dos livros de patrimônio. Livros de capas trocadas, capas disfarçadas, capas ofensivas. Livros de capas ousadas. Capas proibidas. Os livros contra capas. Os lidos pelas costas. Livros sádicos, livros cínicos, livros mágicos. Livros lívidos, livros épicos, livros bíblicos. Livros lidos como vícios. Livros de sacrifícios. Todo homem é um livro aberto. Todo livro acha que é certo. Escreveu, não leu, continua sendo livro. Já no início era verbo! Larga a mão de ser burro e leia.


fonte: A BOCA NO MUNDO – 100 crônicas de Fernando Bonassi
 

São Paulo / Novo Século / 2007



 









18 / HOMEM-BOMBA


 



(A Murilo Mendes)


O Homem-bomba, futuro inquisidor, decora o livro sagrado e soletra estilhaços do caos. O Homem-bomba prepara um discurso épico e fala sozinho com as câmeras de televisão. O Homem-bomba terá, no mínimo, assegurado seus quinze minutos de fama. O Homem-bomba recebe extrema unção em solitários estúdios isolados antes da última ceia. O Homem-bomba, independente dos nossos erros, será abençoado.

O Homem-bomba fará uma refeição simples. O Homem-bomba rezará antes dela. O Homem-bomba não comerá carne. O Homem-bomba ainda se deitará entre os vivos. O Homem-bomba, se dormir, sonhará com calcinhas diáfanas, tesouras de perna aberta, espadas enterradas e umbigos deformados. O Homem-bomba poderá acordar pensando em urinar, mas quando o Homem-bomba acordar realmente, não estará mais pensando. O Homem-bomba poderá ver o dia clarear e não mudará de ideia. O Homem-bomba, na última noite, por essas e outras, poderá fazer amor.

O despertador do Homem-bomba é infalível e ele levanta cedo. O Homem-bomba toma banho, veste seu colete sob medida e um casaco pesado por cima (faça chuva ou faça sol). O Homem-bomba faz o desjejum pela última vez, como todos os últimos dias. O Homem-bomba poderá conhecer o pão que o diabo amassou, com manteiga. O Homem-bomba poderá passar geleia por cima. O café com leite do Homem-bomba terá um significado político que paulistas e mineiros desconhecem.

Outros homens, mais ou menos bombas, também se erguerão das casas geminadas desses morros de periferia pra continuar a vida. Detalhe significante: o Homem-bomba se ergue pra continuar a morte: beija a esposa, os filhos e segue para o trabalho.

O Homem-bomba não tem carteira assinada. O Homem-bomba não bate ponto. O Homem-bomba não tem férias ou cesta básica. O Homem-bomba não requererá aposentadoria. O Homem-bomba tem pressa. O Homem-bomba deixará tudo pra trás.

O Homem-bomba tem pra onde ir (o lugar do Homem-bomba é aquele onde cair morto). O Homem-bomba é um cidadão comum disfarçado de revolução e a revolução disfarçada de terra arrasada (na mochila do Homem-bomba, os talheres batucando com a marmita também seriam meros disfarces). O almoço do Homem-bomba já se encontra colado ao seu estômago: uma dúzia e meia de bananas (de dinamite). O Homem-bomba também adora os coletivos de sardinhas enlatadas pra causar indigestão. O Homem-bomba tem vale transporte ou o dinheiro contado. O Homem-bomba tem uma ilusão. O Homem-bomba tem uma certeza. O Homem-bomba tem uma missão.

O Homem-bomba não brinca com fogos (mesmo os de artifício). O Homem-bomba desafia as buzinas, as alfândegas, os alarmes e os detectores de metais. O Homem-bomba não tem pena, não tem culpa, não tem respeito. O Homem-bomba não tem paciência pra bobagens de qualquer tipo.

O Homem-bomba defende sua causa, sua casa, suas calças, mas não lavará suas roupas sujas de sangue. O Homem-bomba é um burro de carga perigosa. O Homem-bomba é instável. O Homem-bomba não pode ficar nervoso. O Homem-bomba já não teme os outros homens, bombas ou não. O Homem-bomba é um serial killer de uma vez só. O Homem-bomba não sobreviverá a esses tempos. O Homem-bomba vai... e racha-se.

O Homem-bomba sobe pelas paredes enquanto os templos vigiados fazem o possível pra não se perderem das fundações. O Homem-bomba amplia os horizontes decapitando construções e construtores. O Homem-bomba poderá se reconhecer num kamikaze. O Homem-bomba não poderá ser reconhecido depois dos acontecimentos. O Homem-bomba terá feito História.

O Homem-bomba não pega só quem é do seu tamanho. O Homem-bomba exerce sua liberdade onde não acaba a dos outros. Pro Homem-bomba, no dos outros é puro refresco ardido!

O Homem-bomba é um desmaterialista (os nossos torturadores dirão que é romântico). O Homem-bomba tem medo do escuro. O Homem-bomba acha que é maduro, mas acredita que vai encontrar um pote de delícias no fim do arco-íris. O Homem-bomba é inimigo do Homem de Lata. O Homem-bomba é parente do abridor de garrafa, do gambá, do alicate e da serpente, invocando Deus de igual para igual. O Homem-bomba alega legítima defesa às portas do inferno. O Homem-bomba é essa porcaria de vísceras misturadas nas calçadas empoeiradas. O Homem-bomba é corajoso. O Homem-bomba é mesquinho. O Homem-bomba é espetacular! Pro Homem-bomba, quanto mais quente melhor!!! O Homem-bomba sepultará as Américas com o calor de cem sóis!!!

O Homem-bomba é um louco, é um mártir, é um bosta...

Será o Homem-bomba redimido pela cirurgia dos explosivos plásticos?

O Homem-bomba... é um homem... é uma bomba... este texto se autodestruirá em cinco segundos... quatro... três...



fonte: A BOCA NO MUNDO – 100 crônicas de Fernando Bonassi
 

São Paulo / Novo Século / 2007




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