sábado, 16 de outubro de 2010

MINHA GERAÇÃO (ou O Uivo Ecoa) P2


Minha Geração
(ou O Uivo Ecoa)


e que tentaram entender a fórmula de suas moléculas orgânicas
a cada transe hipnótico e iluminação transcendental
procurando nos neurônios convalescidos algo além de
aminoácidos


e devastaram as bibliotecas a procura da prova de deus e da
alma imortal atentos as nuances da beatitude e da visão
angélica


mas pouco se importando com do preço do pão e da cerveja
esquecendo nos bares sórdidos a grana destinada ao aluguel
de suas masmorras e sótãos


entregando ao primeiro gatuno em vestes de romeiro o cheque
assinado para a vencida prestação e a dívida de droga,


concedendo generosos um terço de seus contracheques
como dízimo e oferta de penitência fazendo as fortunas dos
chaveiros do Paraíso;


jovens que estabeleceram a moda da anti-moda exibindo cabelos
longos e moicanos nas cores do arco-íris e meninas com
tatuagens e piercings na língua com suas madeixas tosadas


e desfiguraram seus corpos para figurarem nos pódios da
popularidade lutando meio as gangues pela posse da dignidade;


nunca duvidando de uma possível vitória com direito a
tratamento VIP e entrada franca nos shows de som pesado


onde se misturaram aos singelos consumistas de camisetas
de bandas e de compact discs e batatas fritas de conhecida
rede de fast-foods


proclamando em gemidos seus figurinos em trapos suas
vestes negras e sombrias suas faces pálidas e funestas
trocando beijos úmidos com os coleguinhas de escola


que passaram as noites no cemitério mais próximo e que
tentaram cortar os pulsos com os cacos de uma garrafa de
um vinho barato qualquer;


os perdidos na noite ( que jamais se encontrarão) na estrada
pedregosa das existências vás e dos olhares de bocejos
e fastio;


todos ainda sonhando com o orgulho de uma nação com o
porvir da fraternidade e o fim das desigualdades de renda e
raça enquanto aguardam o diploma


ainda que se preocupem com as medalhas das olimpíadas
e o placar do amistoso internacional consultando a nova
tabela do IDH roendo as unhas e rezando algarismos


dispostos a venderem a roupa do corpo desde que possam
ir a praia e dar uma volta em Miami no fim do ano


trocando a Avenida Afonso Pena pela imagem digital
da paulista e por um cartão-postal de Manhattan – ainda
com as duas torres gêmeas – ao crepúsculo;


desejando uma jaqueta made in USA ainda que na camiseta
deixem à mostra a carranca de famigerado terrorista


pinchando um A anarquista nos sanitários dos botecos
enquanto ouvem no discman um lançamento da maior banda
européia de todos os tempos;


os jovens que se envenenaram para esquecer que se casaram
para não se converterem que se fizeram batizar para deixarem
a cadeia e que pouco não foram reeducados nos massacres e
rebeliões


que se jogaram do alto de edifícios símbolos do progresso e
que se deixaram flagelar por sádicos homens-da-lei e que se
entregaram ao meretrício copulando com marqueteiros e
vendendo idéias arrojadas


e que não desistiram de entregar originais manuscritos ou
digitados ao mercado-negro das publicações subversivas mas
deixaram engavetadas suas críticas minuciosas sobre os
mangás pedófilos


e colecionaram apostilas de vestibular após freqüentarem todos
os cursinhos e suas salas lotadas de faces entediadas e carreiras
fracassadas


e eu se lançaram aos empreendimentos mais inusitados desde
vendedores de figurinhas de craques da seleção masculina
de futebol até entregadores à domicílio de bíblias em versão
moderna


além de técnicos de estúdios caseiros e tradutores de poesia
alemã e promotores de eventos culturais nos feriados e
datas festivas


e ousaram sobreviver ao preço do feijão e ao lançamento faustoso
de um novo tônico cerebral enquanto se mantém inalterada a
disputa pelos cargos administrativos a nível municipal;


jovens de olhares tristes e ávidos que deixaram morrer seus
sonhos dilacerados pelas hecatombes da fome pelas ameaças
de guerra total pelas imagens conservadas dos campos
de extermínio


e que pedem bênçãos aos portadores de falsas verdades que
consolam tanto quanto um barril de vinho do Porto


e que insistem em esperarem a previdência social caso
sobrevivam ao seqüestro e a matança dos menores de
dezoito nas ruas escuras e sujas dos subúrbios


e que ainda ousam marcar compromissos para daqui a oito dias
sabendo que hoje as gerações mais velhas enterram as
mais novas;


e seguem todos, vultos da decadência, rumo aos bares e templos
enquanto os bancos solicitam seus depósitos e a justiça
eleitoral ordena o salutar exercício da democracia


enquanto se erguem as vozes da propaganda oficial em
eventos patrióticos e insistem as redes de TV aberta e
mentem os professores com seus salários desajustados


sobre uma geração de bastardos do selvagem capitalismo
com a besta apocalíptica da insegurança concebida numa
noite de conhaque e tédio.


Eu vi as melhores mentes da minha geração destruídas
pela loucura, esfomeados nus e histéricos,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro ao poente
em busca de algo injetável...”

(Allen Ginsberg, Howl)


Evohé Allen Ginsberg!!



17set04

digt. em 2006



Leonardo de Magalhaens
http://meucanoneocidental.blogspot.com

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