terça-feira, 19 de janeiro de 2010

sobre MOBY DICK (Hermann Melville)





Sobre Moby Dick (Moby Dick, or The Whale) (1851)
romance de Hermann Melville (EUA, 1819-91)


A Literatura enquanto Narrativa de Aventuras


parte 2 – Moby Dick

Segundo a leitura anterior, abordando as vicissitudes
de Robinson Crusoé, do inglês Defoe, evidenciou-se
uma clássica aventura do ser humano sozinho consigo
mesmo, uma aventura de diálogo íntimo, de sobrevivência
sem o amparo (e coerção) da coletividade. A jornada
enquanto desenvolvimento e amadurecimento daquele
homem em busca de uma vida de aventuras.

Em “Moby Dick, ou A Baleia”, é possível encontrar um
outro tipo de aventura, que ainda que não abandonando
a 'aventura íntima', vem ressaltar a aventura do ser humano
contra as forças da Natureza, no caso um enorme
Cachalote, que não hesita em revidar os ataques dos
navios baleeiros, cujos marujos vivem da caça às baleias.
(Lembrar que o óleo de baleia era um dos combustíveis
básicos do século 19)

Publicado em 1851, o livro apresenta, em sublimações
literárias, muitas das vivências do Autor Hermann Melville,
que realmente, aos 20 anos, embarcou num whaleship /
baleeiro (o Acushnet) e viajou pelas imensidões do Oceano
Pacífico. Muitas descrições da Obra retratam essas viagens,
realisticamente emoldurando a aventura. Nada é gratuito,
ou despedaçado ao longo da Escrita.

Além de empregar o realismo para melhor causar efeito,
Melville não dispensa os simbolismos que a Literatura
usa e abusa, em metáforas e referências, intertextualidades
e paráfrases. Os nomes do navios, das personagens, os
locais onde se encontram, as decorações dos ambientes
descritos – igrejas, embarcações, tabernas – são propícios
ao Efeito, ou seja, fazer o Leitor mergulhar na Aventura.

Sabendo-se que o Estilo emoldura satisfatoriamente a
Aventura, pode-se afirmar que “Moby Dick” é uma Obra
que precisa ser lido no original. Muito se lê em traduções
e adaptações, desconsiderando-se a fonte original. A obra
densa e plenamente informativa, não apenas o relato de
mais uma viagem ou peripécia. (O mesmo pode-se dizer
em referência a “Les Misérables”/Os Miseráveis (1862), de
Victor-Hugo, como outro exemplo de Obra traduzida,
adaptada, recortada, amputada)

Assim, a própria Narrativa é objeto de análise, não apenas
os fatos narrados. A começar pelo Narrador, em 1a pessoa,
que ambienta e descreve, uma aventura que já aconteceu,
cercada de perigos e fatalidades, mas da qual ele saiu ileso
(caso contrário, não haveria a narrativa...) Se há alguém
para contar as aventuras, por mais perigosas que sejam, a
fatalidade não foi completa. (Se todos naufragassem, se
não houvesse sobreviventes, nenhum Robinson, nenhum
Ishmael, não haveria narrativa.) A outra solução usual é
o Narrador em 3a pessoa, onisciente ou não.

Este relato do jovem Ishmael (um nome bíbllico entre
vários outros nomes bíblicos) apresenta todo um
envolvimento de cativar e fidelizar o Leitor, que deseja
saber até onde poderá navegar o baleeiro Pequod, tendo
como comandante o obsessivo Capitão Ahab. Este
Capitão Ahab será observado, com toda a perplexidade
possível, pelo Narrador Ishmael (assim como Dr. Watson
observa e descreve o enigmático Sherlock Holmes), e
deixará sempre uma lacuna (que será preenchida pelo
Leitor atento).

A descrição da pesca baleeira – bem como o caráter dos
marujos que se dedicam a tal atividade arriscada – vale
como o testemunho de uma profissão e de toda uma classe,
com suas pecularidades e seus jargões, como se percebe
quando da leitura de uma obra sobre a caça às baleias,
que o narrador Ishmael transcreve e comenta.


But if, in the face of all this, you still declare that whaling has no
aesthetically noble associations connected with it, then am I ready to
shiver fifty lances with you there, and unhorse you with a split helmet
every time.

The whale has no famous author, and whaling no famous chronicler, you
will say.
...

True enough, but then whalemen themselves are poor devils; they have no
good blood in their veins.


Mas se, diante disso, você ainda declara que a caça à baleia não tem
esteticamente associações nobres, então estou pronto a apostar
cinqüenta arpões com você, e você vai cair do cavalo com o elmo
bem rachado toda vez.

'A baleia' não tem autor famoso, e a caça à baleia nenhum cronista famoso,
você vai dizer.
...

É verdade, mas então os caçadores de baleia (whalemen) são mesmo
uns pobres diabos; eles não têm sangue bom correndo nas veias.


Além da própria caça à baleia (whaling) em si mesma, as
personalidades e suas idiossincracias são descritas e
compartilhadas. As figuras dos arpoadores, dos marujos, dos
proprietários do navio, do Capitão e seu imediato, todos
personificam A obsessão é um dos temas centrais (e causará
o clímax e epílogo da narrativa), mas outros temas são
recorrentes (além dos símbolos bíblicos), tais como a
vingança, a ambição, a crença e a insanidade.

A vingança obsessiva guia o Capitão Ahab, já vitimado pela
fúria de Moby Dick, o imenso cachalote branco e indomável,
que nunca se deixa cair como presa dos ambiciosos baleeiros.
O dorso marcado por cicatrizes e restos de arpões, de
ataques anteriores, a baleia é um símbolo da força selvagem,
além dos poderes humanos. E perseguir o Indomável é
correr atrás da própria destruição. (Pode-se argumentar
que Ahab sofre com o 'demônio da perversidade' – segundo
E A Poe – ou com o 'instinto de morte' – no conceito de Freud)

A ambição move os marujos, em busca de troféus de caça,
de muito óleo e tudo o mais que conseguirem arrancar das
imensas baleias. Numa época onde a palavra 'ecologia' não
existia (pois foi inventada por E. Haeckel, em 1869), e
muito menos 'defesa do meio ambiente', os marujos
imaginam as caçadas como uma imensa colheita de óleo,
indiferentes ao equilíbrio da vida marinha e outras questões,
tão relevantes atualmente. (É preciso este 'distancimento'
para entender a obra, escrita em meados do século 19...)

Quanto a crença, pode-se citar o nativo polinésio Queequeg,
firme no arpão e a prestar devoção a um ídolo de sua tribo.
É um homem forte, mas sem fanfarronices. Pode ser um
pagão e um canibal (como Ishmael vive a temer), mas
segue períodos de meditação, em silêncio e jejum. O
comportamento de Queequeg serve mais para apresentar –
por comparação – os contrastes e incoerências do 'homem
civilizado', que não segue a moral que prega, vivendo de
hipocrisias. O pagão chega a ser mais 'devoto' que os
demais, ditos 'bons cristãos'.

A insanidade, por sua vez, é a atmosfera de toda a Aventura.
Mística romântica, peso do Destino, terrível profecia: as
tonalidades irracionais que emolduram a tragédia. A
loucura do Capitão Ahab passa contagiar os demais marujos,
passa a mesmerizar até o próprio Ishmael, que diz passar
a compreender o desejo de vingança, afinal de contas o
monstro arrancou a perna do Capitão! (Mas Ishmael não
se lembra que os navios baleeiros é que atacaram
primeiramente as baleias!)

O contágio – toda a tripulação passa a compartilhar o ódio
do Capitão - será o leitmotiv que levará a narrativa ao
desfecho: a tragédia. Não há mais como parar a fúria
vingativa do Capitão ou as estratégias bélicas do imenso
cachalote, que vai atrair a tripulação, numa retirada,
apenas para melhor ofensiva. Todas as conquistas anteriores
serão sacrificadas na jornada que se segue, numa atroz
indagação: quem vai cumprir a derradeira vingança: os
marujos ou a baleia? O obsessivo Capitão Ahab ou o
indomável Moby Dick?

A fábula do homem que perde tudo por causa da uma
vingança – e que não se completa, pois a baleia sobrevive,
para destruir outros – não foi entendida na época da
publicação. Melville é outro dos 'autores póstumos' (como
dizia Nietzsche), a ser lido e compreendido pelas gerações
posteriores, assim passando anônimo na própria geração.
Os símbolos são ora claros ora nebulosos, mas a aventura
enquanto jornada de 'auto-destruição' tem muito do terror
que inspira as obras de Mary Shelley (Frankenstein) e Edgar
Allan Poe (Histórias Extraodinárias), a serem analisadas
nos próximos ensaios.

dez/09

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