domingo, 1 de agosto de 2010

"É proibido comer a grama" de Wander Piroli




sobre “É proibido comer a grama” (2006)
contos de Wander Piroli (1931-2008)

A Literatura enquanto anti-ajuda


A Arte enquanto mercadoria tem dominado no curto século 20,
com suas vanguardas e seus quadros valiosos, seus gênios e
loucos, seus mecenas e marchands, produzindo para mostrar,
mostrando para vender, vendendo para lucrar. Vejam Van Gogh
que, em vida, vendeu apenas um quadro, enquanto praticamente
morria de fome, e depois os quadros do holandês atingem
preços milionários!

Com a Literatura não poderia ser diferente. Ao lado de escritores
preocupados com a arte literária, os textos, a linguagem, os
enredos, assim os mestres Kafka, Proust, Mann, J Joyce, dentre
outros, haviam também os que escreviam atentos a demanda, ao
público de leitores em potencial. O mercado exigia 'pluralidade'
e também 'entretenimento' , o que atraiu a dedicação de escritores
donos de uma escrita fácil, lúdica, envolvente, com ênfase mais
no Enredo do que na Linguagem.

Ao longo das últimas décadas (desde os anos 60 e 70) o fenômeno
dos best-sellers, os mais vendidos, já é comum para o mercado
consumidor de Literatura. São aqueles autores que escrevem
bem – e recebem merecida atenção. Ou são os escritores que
escrevem o que os grupos populares querem ler (ou somente
conseguem ler, por deficiência educacional ou por lavagem
cerebral feita pela Indústria Cultural via dominância midiática)
e assim já 'conquistam' uma ampla fatia do mercado (além de
críticos já especializados em 'nichos culturais', crítica dita
especializada, em jornais, revistas e tablóides)

Outros autores ficam no meio termo: são eruditos e são populares;
são artistas e também políticos; sabem conciliar o útil com o
agradável. (No Brasil, podemos citar: Érico Veríssimo, Jorge Amado,
Fernando Sabino, Nelson Rodrigues, Dias Gomes, Chico Buarque...)
São adaptados em minisséries 'globais', são indicados para leitura
em vestibulares. São entretenimento, mas sem apelos comerciais,
ou voltados para o que é 'vendável'.

Mas os vendáveis, estes sim: já pensam como 'agradar' o leitor.
Fazer o leitor se sentir o máximo, esquecer os problemas pessoais
e sociais, anestesiar as indagações já dispondo respostas prontas.
Assim são as literatura de fantasia (bruxinhos e dragões, aliens
e vampiros, etc), de mistério ou policiais (desde Agatha Christie
e Georges Simenon até um Dan Brown), de erotismo (inúmeros
exemplos), de auto-ajuda (todo um segmento que se ampliou
monstruosamente! ), de espitualismo (com a decadência da
Religião o que não faltam são os religiosos de inúmeras seitas
e credos e crenças e superstições)

Pois bem, enquanto existe hoje a glamourosa e rentável literatura
de auto-ajuda, o fato é que sempre existiu aquela de anti-ajuda.
Aquela escrita que esmaga, sufoca, oprime o Leitor até que este
também realize uma Catarse, ao lado do Autor. Uma Escrita que
faz perguntas e não responde; faz insinuações e não explicita;
faz ameaças e nunca nos elimina de verdade. Onde não há final
feliz, onde o Mal sempre impera, onde o Caos zomba da Ordem,
onde o mocinho nunca vence (pelo menos, ao lado da mocinha).

Assim, enquanto anti-ajuda, é a obra do mineiro, belorizontino
(ali do boêmio bairro Lagoinha ) Wander Piroli, jornalista e escritor,
recém-falecido. Seus contos são narrações ao estilo jornalístico,
a lembrar aqueles tablóides ensanguentados vendidos a poucos
centavos nos semáforos. A lembrar a pressa de um Hemingway,
e a tragicidade de um Nelson Rodrigues. Uma escrita sem frescuras,
apresentando o fato desnudo, que devemos engolir cru e à seco.
O Leitor se angustia justamente pela arte não 'artística', pelo frio
tiquetaquear das teclas de uma velha Remington.

Nos contos de “É proibido comer a grama”, temos as faces
da miséria humana. Tema muito destilado em Dostoiévski (para
ficarmos no clássico), onde a miséria é fértil em gerar outras
misérias, onde penúrias geram indignidades, que geram crimes.
Mas ao contrário do escritor russo (a tecer digressões, afundando
as personagens na lama, pouco a pouco, em redemoinhos de
filosofia e psicologia), o autor mineiro se satisfaz em apresentar
o fato em manchete, o fato jornalístico, a violência que já é banal.
A morte descrita com precisão de médico-legista. (Até quando
é apenas sugerida, a morte – ou a violência que a antecede –
está assustadoramente presente, nas entrelinhas)

São narrativas curtas, centradas em poucas personagens, dramas
banais, porém demasiado humanos. Com as exceções de quatro
contos longos, o do Professor Thales, o do taxista Fernandes (e o
defunto), o do homem sério que se envolve com uma prostituta,
e do Coronel Rosendo, que lembra um pouco a 'ambiência' de
O Coronel e o Lobisomem”, de José Cândido de Carvalho
(que em se tratando de romance tem outra linguagem, enredo, etc),
os textos ferem nossa sensibilidade de 'beleza' e 'harmonia',
nossas crença na 'bondade humana', no 'homem cordial' e
no 'pacato cidadão'.

Com o predomínio da 3a pessoa, um narrador muito direto, pouco
espaço deixando aos devaneios das personagens (mais
característicos na escrita da Clarice Lispector), onde a Miséria
(quase corporificada! ) é personagem coadjuvante (e quase
protagonista! ) em todos. Aqui encontramos relatos de assaltos,
estupros, antipatias e assassinatos, acidentes, brigas em bar,
adultérios e tragédias consequentes. Tudo aquilo para golpear
o Leitor acostumado a leitura de tablóides de 25 centavos.

Então qual o diferencial: justamente esta Ironia com a Escrita!
Sem idealizar, sem emoldurar, sem divagar, sem 'encher lingüiça',
o Autor continua a empurrar os vomitórios goelas adentro; a
arrastar uma enxurrada de detritos desumanizados, os mesmos
que enchem as nossas ruas e praças. Culpa das vítimas? Não,
mas de um sistema que precisa reproduzir a miséria para garantir
o lucro de uns poucos privilegiados! Onde uns se entopem de
comidas sofisticadas e outros sentam no meio-fio para devorarem um
marmitex frio.

A miséria não dá tréguas. Assim notamos na literatura de Graciliano
Ramos ("Vidas Secas" é o relato trágico onde o humano se animaliza),
de Nelson Rodrigues ("Beijo no Asfalto" é a tragicomédia da alienação
urbana), de Rubem Fonseca ("Agosto" mostra o histórico e o trágico
lado a lado), onde a Escrita apresenta sem floreios a vida nua e crua
dos seres explorados e vitimados, dos 'humilhados e ofendidos'
(novamente Dostoiévski), para nossa edificação e catarse. Para
vomitarmos e escarrarmos na miséria do próximo – e no dia seguinte
pensarmos: antes ele(a)s do que Eu??

Quando as personagens individualizam problemas que são coletivos
(a miséria passa a ser culpa da vítima!) percebemos o grau de
alienação política (e existencial) que afetam nossos cidadãos
despolitizados, explorados pelas ânsias de lucro burro, dopados pelos
programas televisivos, com suas caixas cranianas agitadas pelo
tremor dos ônibus suburbanos. Assistimos aos dramas alheios
como filmes de Hollywood, distantes e plenos de efeitos especiais –
um espetáculo – e nada mais. O mendigo ali na esquina é um bom ator,
e nada mais. O senador corrupto também interpreta uma personagem:
a de senador honesto. Assim somo todos bons 'atores sociais'
(quem quiser pode ler Durkheim, Weber, Benjamin, Touraine
e Peter Berger)

Transitando nos bordéis da Guaicurus, ou nas ruas escuras da
Lagoinha, ou nas avenidas centrais, assaltados e violentados,
perseguidos e aprisionados, somos iguais às personagens, sozinhas
e coisificadas em seus dramas, pequenas tragédias cotidianas, em
mal-entendidos que terminam em poças de sangue e gritos de horror.
Belo Horizonte, para Wander Piroli, é igual a uma 'selva de pedra',
com tigres e onças rasgando a carne macia das ovelhas, ou
rinocerontes turbinados esmagando formigas aleijadas.
É o “salve-se quem puder!” da vida urbana.

Enquanto sobra por aí a dita 'literatura de auto-ajuda', a coletânea
de contos “É proibido comer a grama” de Wander Piroli, é a
literatura de anti-ajuda, de des-ajuda.
Não vem adular ou encantar o Leitor ávido de leitura fácil.
Não vem anestesiar o cidadão nem ignorar os dramas
sociais, não vem responder nem propor soluções. Vem desmascarar,
abrir as feridas, vomitar sobre os plebeus, ironizar os burgueses,
humilhar a dita Ordem que as autoridades, em vão, proclamam.
Ordem que somente poderá existir quando os cidadãos, plenamente
socializados, compartilharem suas riquezas, e quando, plenamente
politizados, assumirem o controle sobre as suas próprias vidas.


Ago/09
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2 comentários:

  1. ki bom hj lembrei-me de um programa de radio
    pra ser preciso na radio inconfidencia apresentadora tania alves lia semprte cronicas do wander piroli lembrei-me hj,pesquisei e caí aki no seu blog e olha q é bem recente sua paostagem,abraço

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  2. Acho que nossos governantes deveriam estar mais preocupados com oque dao aos nossos filhos ,os alunos ,pois este livro foi dado na escola estadual aonde estuda o meu filho ,e fiquei indignada ,e venho pedir as escolas,para que solicite aos nossos governos ,algo que ao menos nao denigra oque os pais procuram pregar a seus filhos dentro de casa ,pode nao ser todos ,mas no meu caso ,estou chocada .acho que realidade nós vemos todos os dias nos téle jornais de televisoes ,e cabe a nós pais ,escolhermos ,oque nossos filhos veem e compartilham no dia a dia ,e nao ter algo do genero deste livro ,dado como um trabalho escolar ,nao que isso seja culpa do professor ,que usam os livros cedidos pelo mec ,como foi o caso,talvez os professores e o corporativo da escola ,nao tenha como ler e controlar todos os livros cedidos pelo governo às escolas.fica aqui o meu protesto ,e indignação.è proibido comer a grama é um livro que segundo eu penso ,vem fazer apologia a violencia domestica,racismo falta de amor proprio ,tudo bem que ele retrate a realidade,mas nao para ser lido em uma escola de primeiro grau .

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