terça-feira, 22 de julho de 2014

Rubem Alves entrevista Nietzsche tocando flauta




Rubem Alves


Rubens Alves entrevista Nietzsche tocando flauta


     “O meu nome é Zaratustra, e me espanto de que você me tenha pedido para tocar uma "variação filosófica" na minha flauta. Com certeza você não me conhece. Sou músico. Mas a música que toco não agrada aos filósofos. Basta que eu comece a tocar para que os filósofos comecem a correr.

     A flauta que tenho na mão é a flauta de Dionísio, o deus grego da alegria. Ela tem poderes mágicos, semelhantes aos da flauta do flautista de Hamelin. Quem ouve a sua música fica alegre e se põe a dançar. (FN III, p.(II) 1146; Ecce Homo, " O Caso Wagner", #1).

     Por isso os filósofos correm: eles têm medo de que eu, com minha música, os faça dançar. A dança é o que mais os amedronte. Porque dança é coisa que se faz com o corpo inteiro. Mas os filósofos não têm corpo. Eles só têm cabeça e olhos. É dos seus olhos que nascem os seus pensamentos. Não sabendo dançar, nem mesmo pensar eles sabem. Porque pensar é dançar com os pensamentos. Os pensamentos dos filósofos não dançam. Eles marcham, como soldados em ordem unida.

     Por muitos séculos esta flauta esteve enterrada. Desde Sócrates, quando a razão triunfou sobre o instinto. Foi nesse momento, quando a flauta de Dionísio foi enterrada, que a decadência do mundo grego começou. (FN-III (II) p. 1109, Ecce Homo, Prefácio, 2 ).
     Essa flauta tem o poder mágico de acordar o instinto. Aqui já aparece o meu conflito com os filósofos: falei em magia. Para os filósofos magia é superstição. Os filósofos não acreditam que as palavras tenham o poder de criar. As palavras são, para eles, apenas "ferramentas" na oficina da razão. Eles "usam" as palavras. Suas palavras pertencem ao mundo da "utilidade". Mas magia é, precisamente, criar pelo poder da palavra.

     Em oposição aos filósofos, as palavras para mim são música. Eu as uso como quem toca um instrumento, porque elas são belas, porque elas são diáfanas pontes coloridas sobre coisas eternamente separadas, pelo prazer que me dão. As palavras fazem amor. Minhas palavras pertencem ao mundo do deleite, da fruição.

     Faço isso não só por puro prazer, mas porque acredito que a beleza e a alegria são divinas. São elas que dão ao homem o poder de contemplar e viver a tragédia sem serem destruídos por ela. Foi assim que os gregos triunfaram sobre a tragédia: eles a transformaram em beleza. E ainda há alguns que me acusam de impiedade, de não acreditar em Deus. Como dizer isso, se a beleza existe? Acredito em deus, sim, num deus que dança...

*[ “Eu poderia crer somente num deus que dançasse. E quando vi o meu demônio eu o encontrei sério, rigoroso, profundo e solene: era o espírito da gravidade – por ele todas as coisas afundam. Não se mata por meio do ódio. Mata-se por meio do riso. Venham, vamos matar o espírito de gravidade! Agora estou leve! Agora eu vôo! Agora um deus dança através do meu corpo.” ( FN II ( II ) p.307 , Assim falou Zaratustra, “Sobre o ler e o escrever” ]*

     É verdade que, vez por outra, eu uso as palavras como ferramentas, por vezes como diapasão, para testar a afinação, às vezes como fogo, havendo alguns que chegaram a me acusar de incendiário, como martelos e marretas, para destruir e até mesmo como pimenta....

     Mas, se faço isso, eu o faço da mesma forma como o cozinheiro usa a faca e os fogos, da mesma forma como o escultor usa o martelo e o cinzel, da mesma forma como o jardineiro usa as cavadeiras e as enxadas, da mesma forma como o parteiro usa os fórceps: para que uma coisa nova, bela e alegre possa nascer. Todo criador tem de ser um destruidor.

*[ “Entre as condições para a tarefa dionisíaca estão, de uma forma decisiva, a dureza do martelo, a alegria mesmo em destruir. ... Todos os criadores são duros... ( FN III (II), p. 1140. Ecce Homo, “Assim falou Zaratustra”, #8) ]*

     Não é assim que os filósofos usam as palavras. A oficina deles só tem instrumentos de ótica: óculos dos mais variados tipos, lentes, microscópios, telescópios, prismas, velas, lanternas, lâmpadas, holofotes, e especialmente espelhos. Muitos espelhos. Os filósofos desejam ser espelhos, espelhos de cem olhos. Todos os outros instrumentos existem por causa dos espelhos. A filosofia deseja ser um reflexo, um reflexo apenas. A isso os filósofos dão o nome de verdade. ( PN II ( II ) p. 652, Assim falou Zaratustra ).

     Stendhal descreveu com precisão o caráter do filósofo. "Para se ser um bom filósofo", ele disse, "é preciso ser seco, claro, sem ilusões. Um banqueiro que fez fortuna tem uma parte do caráter exigido para se fazer descobertas em filosofia, ou seja, para ver com clareza dentro daquilo que é". ( FN-III, (II)p. 603; Além do Bem e do Mal, 40).

     Houve um outro pensador que disse que a única coisa que os filósofos profissionais queriam era interpretar o mundo. Ora, interpretar é refletir, produzir uma imagem. Mas até mesmo as mulheres vaidosas que passam o dia contemplando a sua imagem nos espelhos o fazem para ver se há formas de ficarem mais belas. De forma alguma se conformariam com uma imagem feia. O mundo pede para ser transformado.

     O deserto deseja ser um jardim. "Faça amor comigo!", diz o mundo. A que o filósofo responde: "Isso eu não posso. Para isso falta-me o órgão apropriado... Mas trago comigo uma câmera fotográfica. Que tal, ao invés do amor, uma foto colorida?"

     Os filósofos desejam ver. Mas a minha alma é de músico. O mundo, para mim, é um instrumento cósmico onde dormem as mais belas melodias. Os filósofos dizem que estão em busca da verdade. Mas a verdade, para eles, é o que é. Mas aquilo que é não pode não pode ser a verdade. A verdade do piano não é o piano: são as músicas que ele pode tocar. A verdade é o possível. Onde estava a sonata antes de ser tocada no piano? Estava no sonho do compositor. A verdade do universo está nos corações dos homens, no lugar dos seus sonhos. " Todos aqueles que tiveram de criar tiveram também os seus sonhos proféticos e sinais astrais – e fé na fé." Quem só reflete, como espelho, sem sonhar, é estéril. ( FN – II – (II), p. 378) Em que lugar do mundo se encontram as peças de Schumann, para serem refletidas? Em lugar algum. Daí minha tristeza, ao contemplar os meus contemporâneos. Escrevi, para eles, palavras amargas e tristes.
 

*[ “Esta, na verdade, é a amargura das minhas entranhas, que eu não posso suportar vocês nem nús e nem vestidos, vocês, homens de hoje. Tudo o que é sinistro no futuro e tudo o que jamais fez pássaros fugitivos tremer é certamente mais confortável e familiar que a sua “realidade”. Pois assim vocês falam: “ Somos reais, inteiramente, sem crenças ou superstições.” E assim vocês estufam os peitos - mas eles são ôcos! (...). Nos seus espíritos todas as eras tagarelam umas contra as outras; mas os sonhos e a tagarelice de todas as eras são mais reais que a sua vigília. Vocês são estéreis: essa é a razão por que vocês não têm fé. Porque todos os que tiveram de criar também tiveram seus sonhos proféticos e sinais astrais - e tiveram fé na fé. Vocês são portas semi-abertas onde os coveiros esperam. E essa é a sua realidade: “ Tudo deve perecer”.]*

     A evidência de que o possível foi atingido, ainda que num momento fugaz, está na experiência de alegria. Na alegria o corpo, encantado, está dizendo: " É isso mesmo! Assim é, assim deve ser!"*

     Tive essa experiência muitas vezes. Com a flauta de Dionísio eu desejo acordar o possível, fazer o mundo vibrar, como música. Não me basta ver sem tocar. Quero sentir o mundo estremecer de amor, ao sentir o toque mágico das minhas palavras.

     É isso que me separa dos filósofos: sou um amante. Tenho uma caso de amor com o universo...

     Eu toco a flauta de Dionísio para acordar o instinto. Instinto é a fonte transbordante de vida que borbulha dentro do corpo. Foi aí, nessa fonte de vida, dentro do corpo que encontrei a flauta de Dionísio.
 
    Mas não salte para conclusões precipitadas, imaginando que eu pertenço ao rebanho dos psicanalistas. É verdade que também eles descobriram os instintos. Mas, tendo vergonha de tocar a flauta de Dionísio, por medo de que os filósofos os acusassem de feitiçaria, ao se aproximarem da fonte borbulhante de vida as suas palavras agitam o lodo, e a água cristalina fica suja. Basta que falem para que as flores se transformam em esterco e a felicidade se transforme em infelicidade.

     Nisto eles revelam seu parentesco com seus ancestrais, os sacerdotes que, como disse o poeta William Blake, à semelhança das lagartas que escolhem as folhas mais belas para nelas botar os seus ovos, escolhem as nossas alegrias mais belas para nelas botar suas maldições ( William Blake, The Portable Blake, p. 254).

     Comigo é diferente: quando eu toco a minha flauta os monstros se põe a rir. Eu gostaria que os psicanalistas ouvissem o que eu disse de Édipo, o seu herói: "Ele subjugou monstros, decifrou enigmas: mas é preciso que ele redima ainda os seus próprios monstros e enigmas, transformando-os em crianças celestiais. Até agora o seu conhecimento não aprendeu a sorrir e a ser sem inveja; até agora a sua paixão torrencial não encontrou a tranquilidade da beleza." ( FN II (II), p. 374; Assim Falou Zaratustra, II, " Sobre aqueles que são sublimes").

     Concordamos, os psicanalista e eu, em que o corpo é um mar e " a consciência é a superfície" ( FN-III - p.(II)1095; Ecce Homo # 9). Mas, em oposição às suas funduras sinistras, " o fundo do meu mar é tranquilo: quem poderia imaginar que nele vivem monstros brincalhões? Minhas profundezas são imperturbáveis. Mas elas cintilam com enigmas e risos nadantes." (FN-II (II) p.372; Assim Falou Zaratustra, II, " Sobre aqueles que são sublimes").
 
    Dentro de todos os abismos eu ainda levo comigo o meu "Sim" abençoante... - Mas isso, de novo, é o conceito de Dionísio. ( FN -III, . (II), p. 1136).

     Os psicanalistas desconfiam dos instintos e chegam mesmo a falar de um instinto de morte. Para eles o instinto é burro, irracional, só quer prazer. Daí o nome de "princípio do prazer" que o fundador da psicanálise deu ao princípio mais fundo da alma humana.

     Eu concordo: o prazer, em si mesmo, é burro e irracional. Mas, para mim, o que se encontra no fundo da alma humana, ali no lugar onde brotam as fontes das águas da vida, não é o desejo do prazer mas o desejo da alegria. A alegria está ligada à beleza. A alegria é a marca da beleza. A alegria é a prova dos nove...Sempre que se tem alegria pode-se saber que a beleza se mostrou. Freud falou no “princípio do prazer”. Eu digo “princípio da beleza”...

     Ah! Você pede uma imagem... É assim. Prazer é a experiência do orgasmo puro. Pode ser produzido até por masturbação. Alegria é o que sente o amante na simples memória do rosto da pessoa amada. O orgasmo, como todas as experiências de prazer, uma vez acontecido, esgota-se. Não se deseja mais. Prazer é descarga. A alegria, ao contrário, não se cansa. A alegria, pela simples memória do rosto da pessoa continua suavemente. A alegria é a experiência de união com objeto amado. O prazer tem a ver com o corpo só. A alegria, ao contrário, é uma experiência de amor: o corpo em harmonia com o mundo. Também eu desejo a razão. Mas, por oposição àqueles que pensam que a razão é um espelho do real, eu afirmo que a razão é um artista que toma o real como matéria prima para transformá-lo, de sorte a produzir a beleza e a alegria. "A única felicidade está na razão. Mas a razão mais alta está na obra do artista, ( que em tudo se assemelha) a gerar e educar um ser humano" ( The Portable Nietzsche , p. 50).

     Vou fazer uma confissão que não deveria fazer, porque sei que os "filósofos" vão usá-la contra mim. Foi num longo período de doença que a minha filosofia nasceu. Foi então que "eu descobri de novo a vida, inclusive a mim mesmo. Foi então que provei todas as coisas boas, mesmo as pequenas, de uma forma que os outros não podem provar com facilidade. Transformei então a minha vontade de saúde, a minha vontade de vida, numa filosofia". (FN-III, p. (II) 1072; Ecce Homo, " Por que eu sou tão sábio" #2.). " Somente a minha doença me trouxe à razão" (FN - III, (II) p. 1072; Ecce Homo, p.(II)1086, " Por que eu sou tão esperto" # 2).

     É preciso estar na iminência de perder as coisas para tomar consciência delas. A possibilidade de perder aguça a capacidade de sentir o gosto. Assim aconteceu comigo. Minha filosofia, assim, nasceu da mais alta afirmação da vida, "da abundância, da exuberância, do Sim sem reservas, mesmo ao sofrimento, mesmo à culpa, mesmo a tudo aquilo que é questionável e estranho na existência" ( FN-III- (II) p. 1109, Ecce Homo, " O Nascimento da Tragédia" # 2).

     Isso foi coisa que aprendi com os Gregos: para se enfrentar o trágico é preciso que o corpo esteja possuído pela Beleza.

     A doença, com a possibilidade da perda, transformou os meus olhos. Não me bastava espelhar o mundo dentro dos meus olhos. Eu queria possuí-lo, sentir o seu gosto bom. Isso que digo me apareceu "num sonho, no último sonho da manhã...
 
" ... eu me encontrava ao pé das colinas - além do mundo; tinha uma balança nas minhas mãos e pesava o mundo... Com que certeza meu sonho olhava para esse mundo finito - não fazendo perguntas, não querendo possuir, sem medo, sem mendigar... - era como se uma maçã inteira se oferecesse à minha mão, maçã madura e dourada, de pele fresca, macia, aveludada, assim esse mundo se ofereceu a mim... - como se uma árvore me acenasse, galhos longos, vontade forte, curvada como um apoio, lugar mesmo de descanso para o caminhante cansado, assim estava o mundo ao pé das minhas colinas;
-como se mãos delicadas me trouxessem um escrínio, um escrínio aberto para o deleite de olhos tímidos, olhos que adoram, assim o mundo se ofereceu hoje a mim; -não um enigma que assusta o amor humano, não uma solução que faz dormir a sabedoria humana: uma coisa boa, humana: assim o mundo foi, para mim, hoje, embora tanto mal se fale dele..." ( FN- II, (II),p. 435).

     Mas aqui é preciso ter cuidado. Nem todos aprenderam o segredo da alegria. "A vida é uma fonte de alegria; mas ali, onde a plebe também bebe, todas as fontes ficam envenenadas" ( (FN-II- (II) p. 346; Assim falou Zaratustra, II, "Sobre a Compaixão"). A estes, os mais desprezíveis, plebe, incapazes de dar à luz uma estrela, solo onde nenhuma árvore alta cresce - a estes eu apelidei de " os últimos homens" (FN II (II) p.284; Assim falou Zaratustra, I, #5).

      Eles dizem haver inventado a felicidade. Pensam que felicidade é ficar assentados num charco, onde os naufrágios são impossíveis. Pensam que felicidade é conforto. Sonham com a "terra da Cocanha", a terra onde o vinho corre no leito dos rios, as paredes das casas são feitas de bolo, e os leitões e aves assados correm para a boca dos preguiçosos. Engordam, indolentes e estéreis, sob a sombra das árvores, incapazes de ficar grávidos e dar à luz Jamais sobem as montanhas; jamais se arriscam pelos desertos; jamais navegam por mares desconhecidos.

      Minha felicidade é outra. "Você nunca viu a vela que entra no mar, redonda, tensa e trêmula com a violência do vento? Como aquela vela, tremendo com a violência do espírito, a minha sabedoria entra no mar - minha sabedoria selvagem". ( FN-II-(II) p.362; Assim falou Zaratustra, II, " Sobre os Sábios Famosos").

     Há uma felicidade que só se experimenta quando se vive "como os ventos fortes, vizinhos das águias, vizinhos da neve, vizinhos do sol: assim vivem os ventos fortes. E como um vento forte eu desejo soprar..." (FN-II (II) p.356; Assim falou Zaratustra, II, "Sobre a Plebe")]*. "O segredo da maior fertilidade e do maior gozo da existência é: vivam perigosamente! Construam as suas cidades debaixo do Vesúvio! Enviem os seus navios aos mares desconhecidos! Vivam em guerra com seus iguais e com vocês mesmos! Sejam ladrões e conquistadores...!" (FN-II-(II) p. 166; CA ( Ciência Alegre), # 283).)

      Aos filósofos bastam os reflexos num espelho. Mas eu preciso de risos, de dança, de beleza. Por isso eu conto parábolas, faço aforismos, escrevo com sangue. ( FN-II- (II) p. 305)

     Concordo com Kierkegaard, filósofo que nunca li: a verdade do coração, morada da alegria, não se encontra na letra; ela se encontra na música, além das palavras. Ensinar a alegria: é isso que eu desejo.

     Escrevi que os sacerdotes são meus inimigos. “E, no entanto, meu sangue está ligado ao deles, e eu desejo saber que o meu sangue é honrado mesmo no deles" ( FN-II- (II) p. 348; Assim falou Zaratustra, II, "Sobre os Sacerdotes")

      Pois eles usavam boas palavras para falar dos mistérios dos seus sacramentos, sem saber que sacramentos são parábolas. Diziam que o pão e o vinho eram acidentes onde se escondia uma substância sagrada, o corpo de Deus. Digo o mesmo dos meus sacramentos: os meus saberes são apenas acidentes; a substância divina é alegria, o corpo de Deus que mora neles. Nessa eucaristia eu acredito. Essa eucaristia eu celebro. Os saberes são taças que transbordam de alegria. A minha escrita são as minhas mãos que se estendem, à procura de amigos.

      Desejo aqueles para quem escrevo. Quero que eles dancem ao som da flauta de Dionísio, que é o símbolo da afirmação incondicional da vida, mesmo com todo o seu sofrimento e terror. É assim que entendo as palavras, meus brinquedos. "Palavras e sons: que são eles senão diáfanas pontes iridescentes entre coisas eternamente separadas?" ( " Sind nicht Worte und Töne Regenbogen und Schein-Brücken zwischen Ewig-Geschiedenen?") " Não foi para isso que os nomes e os sons foram inventados, para que o homem encontrasse refrigério nas coisas? Falar é uma deliciosa loucura; por meio da fala o homem dança sobre todas as coisas. Que adorável é toda fala e o engano dos sons! Por meio dos sons o nosso amor dança sobre arcor-iris coloridos..." ( FN-II-(II) p.463); Assim falou Zaratustra, III, " O Convalescente" # 2) .

     " Da minha beleza cresce uma fome...Dentro de mim há algo insaciável, que deseja poder ser dito. Um desejo de amor está mim, desejo que fala a linguagem do amor" ( FN-III, (II) p. 1137), Ecce Homo, "Assim Falou Zaratustra", # 7)]*
. E o que ela diz é que " vida é uma fonte de alegria", " e que o nosso pecado original é que temos tido muito pouca alegria. (FN-II-p.(II) p.354, 346) Para isso eu escrevo: para ensinar a alegria.

     Porque escrevo para fazer rir, para brincar, para mostrar a beleza, filósofo não sou. Sou bufão, sou criança, sou poeta..."

Assim, para fora
da minha verdade-loucura
eu mergulhei,
para fora
da minha nostalgia pelo dia,
-cansado do dia, doente da luz,-
mergulhei para o fundo,
para a noite,
para a sombra,
-queimado pela verdade,
e sedento:
Tu te lembras ainda,- te lembras, coração ardente,-
de como tinhas sede?
Que eu seja exilado
de toda a verdade,
somente um tolo!
Somente um poeta!
( FN II ( II) p. 810, Assim falou Zaratustra )

     Ditas essas palavras ele se pôs a rir. Tomou a flauta de Dionísio, começou a tocar e, à medida que tocava, foi ficando leve, leve, até que flutuou, dançante, no ar...


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Livro: RUBEM ALVES, Variações sobre o prazer: Santo Agostinho, Nietzsche, Marx e Babette. Ed. Planeta,2011, pp.113/122.

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