terça-feira, 5 de junho de 2012

sobre "O RESMUNDO DAS CALAVRAS" (2005) de Marcus Fabiano



 
Sobre O RESMUNDO DAS CALAVRAS / 2005
do poeta Marcus Fabiano Gonçalves


Das síndromes do Poeta enquanto Leitor


A Escrita da Poesia nasce de uma necessidade comunicar, de dialogar. Seja o vivido, o vivenciado, ou o coletado de fontes outras, tal como a leitura. Sendo a Poesia feita de palavras absorvidas em universos de outras palavras, numa textura de referências e co-enunciações, sua singularidade (nem sempre originalidade) necessita de uma diferenciação, um plus ultra a se fazer presente.

A palavra que não é do Poeta, mas 'manipulada' pela Fala poética busca se destacar na textura de diálogos, onde palavras re-lembram palavras. O objetivo básico é a comunicação? Ou ao menos a tentativa de comunicação? Ou uma luta inglória contra a Incomunicação?

Na rede moderna de mil mídias, em mil canais e mil formatos, é necessária a diferenciação. A Poesia enquanto superação da fragmentação. Um mundo a receber Sentido pela Fala poética. Daí esperar-se uma 'seriedade' da poesia. Aquela mesma seriedade de uma tradição hispânica ou de um fado lusitano. O ser no mundo ousa falar de si-mesmo, expressar-se, comunicar-se.

Mas, segundo o prefácio do Autor, parece que a poesia encontra-se perdida em epigramas, onde as palavras são atiradas sobre a folha, em nome de vanguardismos, que geraram nada mais que um pedantismo ('metadiscurso autoral') ou malabarismos que resvalaram em publicidade.

A necessidade de ser singular já se explicita no excêntrico título da obra, O Resmundo das Calavras, título este explicado pelo Autor: “No instante exato em que as palavras calam, as calavras descem ao rés do mundo para auscultarem seu resmundo.” (Prefácio) Há um manifesto em prol das palavras que parecem não dizer mais o que DEVERIAM dizer.

O Autor exalta a oralidade, 'fala franca', de Guimarães Rosa e não J Joyce, que seria mais um fruto da 'tradição filológica', assim a destacar uma dicotomia entre a 'espontaneidade' e a 'erudição' – ainda que ambos os autores, Rosa e Joyce (de nomes femininos, percebam!), sejam eruditos. (Contrapor erudito e popular exige um contraste do tipo: Guimarães Rosa e Patativa do Assaré, por exemplo)

Destacam-se as ilustrações (ainda que não falemos destas) a representarem um elemento de sinestesia – palavras, fonemas, imagens – e um convite ao surrealismo, não como um 'complemento' aos poemas, mas uma 'encenação' não verbal das mesmas temáticas.

Quanto as temáticas, o Autor 'segmenta' o livro em blocos temáticos, isto é, sobre o mesmo assunto, tipo Metalinguagem, Língua, Tempo, Vida moderna. Em 'Poemísculos Decausais', encontramos poemas curtos epigramas, trocadilhos, em suma, poemas mais irônicos do que sérios; enquanto no 'tópico' seguinte, “A Impressão da Sensação” coleciona sinestesias, imagens, corporeidade, punição,

convoco o marceneiro da cadeira elétrica
o carpinteiro do castigo
o demiurgo do choque letal
entre a carne e a carne do inimigo

(p. 41)

Coletânea de imagens de tradição e da mitologia, os vultos espectrais de Narciso, Hermes, Penélope, etc Em “Penélopes de Nenhures” é de se indagar: os marujos esperam as 'penélopes'? Ou as 'penélopes' esperam os marujos? Os marujos não são aqueles homens do prazer imediato? Mas trocariam as Circes e Nausícaas por futuras 'penélopes'? Mas existem as 'penélopes'?

A corporeidade – não apenas sedução, mas tensão entre coisa física e ser sensível – é a presentificação do corpo = máquina, nos poemas “Ad Nutum” e “Nuca”, onde ressuscita o homem-máquina de La Mettrie, “o pescoço: / um cilindro / de cabos e dutos,” na imagem plena da 'coisificação' do corpo.

Em “Nanquim(p. 49) temos as fotografias de momentos, relances, olhares na sedução do fugaz, como aquela mulher que passa, do poema de Baudelaire (Une femme passa, d'une main fastueuse /Soulevant, balançant le feston et l'ourlet; Uma mulher passa, com mão faustosa / Erguendo, balançando a saia assim; (LdeM) “A une passante”) ou da bela Malena do filme de G. Tornatore,

Quem é essa que quando passa
armazena inteira
a noite num olhar negro?


Oparin” rememora a evolução a partir de uma fagulha, nas experiências do bioquímico russo Opárin, nos idos dos anos 30, quando buscava a 'origem da vida' através de faíscas agindo sobre gases atmosféricos para gerar os aminoácidos, “do átomo à proteína / e desta à célula'. O poema medita mais sobre o sentido da vida além de uma possível origem a partir de eletricidade e moléculas gasosas. Este poema serve até como um contraponto ao lírico “Beija-flor-do-mato' (na página anterior) que apresenta um Eu cúmplice da Natureza, assumindo a identidade de um colibri para ir fecundar a Amada, “e se te fecundo entre relva tão vasta / me disperso e me desatino / desse teu pólen de máscara”.

O corpo não é apenas aquele do homem-máquina mettriano, mas também uma coisa em movimento, propulsão em si-mesma, tal a “Bicicleta de Leonardo” (p. 53)

uma máquina / movida a homem
que quando nela é seu cocheiro
é ainda seu cavalo / e seu próprio passageiro

Esta capacidade de visão e re-criação é primorosa em O Resmundo das Calavras, com poemas que articulam jogos entre significantes e significados, entre abstratos e concretos, “o gesto extremo da pura carne no prego / a gana de sangue e o medo do morno/ que em ti tantas vezes renego” (“Carta ao pai”), “nas persiana / que cerram atividades / no dormir no gozar e no morrer... nas nascentes laterais de onde brotam / águas ablativas de dores ciscos e alegrias” (“A olhos vistos”), ou “do miolo das substâncias mais duras/ escorro o charco de meus alagados: / é um escoamento hemorrágico / morno rubro vivo e grosso” (“Areia”) o que não deixa de lembra certos simbolismos de crueldade-sublimidade em Cruz e Sousa e Augusto dos Anjos.

Neste jogo de criar e re-criar, a palavra é mesmo verbo, é 'ação', quando a fala vem agir sobre o 'real', a Efetividade (de “Wirklichkeit”, onde 'wirken” é agir sobre, operar em, trabalhar com), com um poema (“Panifico e construo”) tenso de verbos e atuações, onde o Poeta deixa claro que “panifico e construo / e meus pães eu distribuo / como quem oferece pedras / em uma ceia de banguelas”, evidenciando que tece versos que somente os 'Eleitos' terão a sapiência de degustar.

Esta noção da própria pujança poética só pode mesmo gerar mais metalinguagem, onde usa-se a poesia para falar sobre poesia. Desde os antigos gregos, com toda a força da poesia = música (enquanto hoje ainda tem gente falando em 'poesia visual'...) e não meros 'sinais gráficos', a prisão da Escrita, que limita a oralidade dos versos. Os gregos eram sábios artífices da palavra = sonoridade, pois “o discurso / tinha na voz alta a sua melhor medida / tal como os antigos gregos” (“Dois Pontos”, p. 63) O tema da poesia se reapresenta páginas adiante no “Xepa”, onde “a poesia não pode tudo / e a cada dia tira menos / do que muito já é pouco”, a radiografar os esforços do fazer poético (“nesse esforço de insetos”) extraindo (igual V Maiakóvski) e catando (igual J C Melo Neto). (1)

Já o poema “Querosene”(pp. 64-69) ousa uma re-escrita da História, na verdade uma 'ciranda sanguinária'. A História do Brasil um capítulo na História universal numa estilística verbo-cubista,

Brasil epitáfio do carvão
quem vai tirar do prego o penhor dessa igualdade?
Quem é que mama sozinho no seio dessa liberdade
e ainda desafia o nosso peito à própria sorte?

Diante de tanta barbaridade, a Voz poética acaba descrente, após frequentar igrejas, seitas, ideologias, e percebe-se resignado, “e agora / após assimilar a derrota / depois de resignado à incredulidade / já conformado à desafinidade”, mas o discurso não é de todo niilista – se fosse niilista, o Poeta escreveria?

Ao escrever o Eu poético já imagina seu Leitor, sua Leitora. O Eu acaba por fundir-se a este Tu idealizado no próprio 'corpo' da Mensagem. O uso da 2a Pessoa é explícito, “tua leveza pluma”, “te recobrindo”, “desse sol que só tu tanges”, “a dupla epifania do teu sopro”, onde ao dirigir-se ao Tu, o Eu mergulha na função conativa, apelativa, além de testar o canal de comunicação entre os interlocutores. Com todo este discurso a la Bakhtin, Jacobson e Charaudeau, queremos dizer: o Eu idealiza o Tu ao convencionar toda uma mensagem para declarar-se – e seduzir – o Outro,

no redor de teu caule / ao invés de espinhos
um fino véu de tule

te despimos desse véu

...

verte agora / esse sangue-sumo
da carne amarela / de teus gomos

(“O Sal e a Fruta”, pp. 74-75)

Sendo um Poeta Leitor, aquele que digere na Escrita as tantas Leituras, o Autor de O Resmundo das Calavras, tece referências às tantas tradições, mitológias, obras clássicas que ocupam-lhe as estantes e os neurônios. É todo umlabirinto de alusões que evidenciam o dialogismo, quando um texto fala de outros texto – consciente ou não – e ousa um diálogo intertextual, onde discursos se referenciam em discursos, imagens se espelham, o tal labirinto. Voilà.

À solidão do minotauro / pouco importa a saída

Ariadne agora aplica-se / ns suas lições de cartografia:

(“O Mapa do Labirinto”, p. 77)

Minotauro, Ariadne, o implícito Teseu, lado a lado com Iessiênin! O poeta russo em suicídio nada lírico fornece a “derradeira tinta” para dar a cor rubra do novelo que guia o herói para fora do labirinto de Creta. (2) Iessiêni pode ser inclusive uma influência para o “Enforcado”, poema vizinho, que lembra tambe a figuração da carta do tarot clássico, “The Hanged Man”, sublimando o símbolo trágico, “suspenso no desespero / que o chão não toca / o enforcado erige / a si e aos outros / a estátua do próprio corpo,” (p. 78), tema difícil e áspero, o suicídio, que é o tema filosófico por excelência, segundo o escritor existencialista Albert Camus.

A morte e o tempo são temas em “De dentro da guampa do tempo”, um tópico com algo de barroco de grotesco – afinal, sabemos o que é o tempo, mas se alguém pergunta.... quem sabe explicar? Falar em 'devir' soa até pedante (ar de teólogo diante de ateu!) quanto mais 'convulsões de um devir'! Sabemos que não se explica 'imagens poéticas' mas algumas não passam de bizarrices. Não há qualquer 'convulsão' no tempo (ou 'devir'). Nós, humanos, é que complicamos as coisas. (Ainda que a Poesia não tenha compromisso com a Verdade filosófica; mas é o Poeta que resolveu filosofar...)

As imagens do tempo – seja touro, moinho, panzer (carro blindado) – além dos chavões ('o tempo cicatriza') não conseguem convencer. Um capítulo de “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, sobre nossas impressões sobre o tempo, acabaria por eclipsar todas estas imagens de 'espera', 'apodrecimento', 'ser diante do devir', 'o touro do tempo', 'areia do tempo', 'tempo cicatiza', 'voragem da história', etc, que poeticamente soam bem, mas nada dizem de 'singular'.

Mesmo quando o Eu busca a cumplicidade do Tu – mesmo quando o Eu é uma cisão: Eu-de-hoje e Eu-de-ontem, e o Presente pode referir-se ao Passado como se fosse 3a pessoa, ou falar com o Ontem como se dirigindo a um Tu,

respiras como um fole furado.
permaneço na cama. Imóvel.
sustento o teto com os olhos.
chora a filha do vizinho.
resiste o teu sono.

(“Cata-ventos de ar comprimido”, p. 90)

Apesar de toda a solenidade e imagética e metafísica de “Mar Raso”, “A Sina dos Espelhos” e “Sono dos Espelhos”, o Autor sofre da síndrome do Poeta-Leitor: se livrar das tantas Leituras. Não estamos a reclamar 'originalidade', pérola rara, mas “fazer algo do que as leituras fizeram com ele” (parodiando Sartre, “o que fazemos a partir do que fizeram de nós”) É basicamente o problema de Borges: porque a poesia de Borges não permaneceu? Resposta: porque ele era um bom prosador. Um irônico prosador. E o contraponto disso é fazer poesia séria. O que Borges pensava de Neruda? Ou de Octavio Paz?


Os tópicos seguintes são igualmente densos e eruditos. A poesia raramente flui. “Logos lusos” e “A água da língua na régua da légua” são leituras e releituras da presença fonética e semântica da Língua Portuguesa e seus jogos poéticos e prosaicos. A “última flor do Lácio” vai sendo despetalada. A mescla de elementos não lusitanos, mas indígenas e africanos, os estrangeirismos, tudo isso distende o idioma até novos limites. Novos criadores são requisitados para a 'arquitetura das palavras' – dois nomes surgem no papel : Ferreira Gullar e Oscar Niemeyer, ambos arquitetos, o primeiro, da palavra, o segundo, do concreto. Além de uma interseção ideológica: o comunismo.

O rumo do prumo
de cidades inventadas em poemas sujos
de cimento e ferro

(“Curva do concreto”, p. 115)

Além de utopias coletivistas segue a 'língua das navegações', um Lusíadas pós-épico, sem os decassílabos heróicos da tradição, por mares ainda não navegados e poemas ainda não escritos. De Poeta para Poeta, as homenagens se seguem. Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto em diaĺogo: a lírica do primeiro versus a aridez do segundo. Os poemas 'vindos do coração' em 'excessos de lírica' sofrendo com os 'versos enxutos', 'poemas de emulsão' da faca só lâmina do sertão.

Mas as homenagens nem sempre 'dão certo'. Pode acontecer de o poema não homenagear o homenageado. Um poema para Manoel de Barros – e que cita Wittgenstein! De nada adiante “chã dizência”, ou “adâmica argila constelar” ou “poucuras de muinadas” para salvar o poema... Afinal, nada de pensamentos aqui. (Por este critério é que o Riobaldo de Guimarães Rosa não passa de personagem de ficção, pois o Rosa 'peca por excesso') O mestre de Manoel de Barros é um Alberto Caeiro, um sentivio não-pensador. O oposto de um clássico Ricardo Reis ou de um moderno-tecno-estressado Álvaro de Campos!

Uma poesia de referências é bolo de chocolate com cereja dura de engolir. Exige conhecimentos de História – já vimos em “Querosene” - as querelas entre abolicionistas, republicanos e monarquistas; exige melodias de Heitor Villa-Lobos entre músicos e músicas; exige uma fala de espontaneidade de um Patativa do Assaré em contraponto aos imperativos da Gramática. Aqui percebemos o quanto fazer um curso de Letras é até prejudicial para o Poeta-Criador que perde-se no ofício de Poeta-Leitor a sofrer as indigestões das regras e semióticas.

A metalinguagem é um mal (pós?)moderno dos Poetas-Leitores. Falam demais da própria ferramenta, da própria criação poética – e nada hora de dizerem alguma coisa, NADA dizem. É um discurso girando dentro de si mesmo, autoreferente. A metalinguagem atinge os incômodos de um 'eruditismo', de um 'pedantismo', fruto (ou erva daninha) de um 'academicismo' capaz de gerar versos do tipo: “eis aí a linguagem em seu mistério de morte” (p. 129) ou poemas cheios de oxímoros e contrapontos barrocos (vejam “O Simples e o Fácil”(pp. 130/131) e “A Lebre e o Coelho” (pp. 136/137))

A metalinguagem lembra mais aquelas personagens a procura de um Autor (em Pirandello), assim as personagens da Odisséia a comentarem sobre a futura cidade dos poetas – aqueles infelizes expulsos da República platônica – onde até Homero vê no escuro! Homero, o dito autor de Odisséia. É como se Hamlet ou o Rei Lear tecessem comentários sobre William Shakespeare!

Esse jogo de 'é poesia' e 'não é poesia' cria até mal-estar. Às vezes soa irônico, iguais aquels poemas do Manuel Bandeira (“Abaixo os puristas”, em “Poética”), Mário de Andrade (“ode ao burguês”) ou Álvaro de Campos (“estou farto de semi-deuses”), onde o Autor joga no mesmo time dos poetas loquazes que ele desafia! “basta de autores narrando / labirínticas entranhas deusadentro / como se só eles – intestinos loquazes / secretaassem tais excrementos // às favas os semideuses!” p. 134)

O Poeta precisa ficar a se explicar o que é Poesia? Igual aos escritores do Nouveau Roman, ótimos ideólogos do tal 'novo romance', mas autores de romances dos quais ninguém se lembra. Bons teóricos, bons retóricos, mas péssimos artesãos da palavra ficcional. Teorizar é mais fácil que criar ficção de qualidade. São escritores acadêmicos que escrevem para outros escritores acadêmicos, em suas 'torres de marfins'.

Ressuscitar o 'beletrismo'? Uma 'bela escrita' sem vivacidade, talvez. Mas, depois de Walt Whitman e dos modernistas e dos beatniks, voltaremos ao 'beletrismo' de Baudelaire, Verlaine, Valèry? (Parece que é justamente isso que os Poetas-Leitores querem. Vejam um Alexei Bueno, um Moacyr Félix, um Marco Lucchesi. Depois de Melo Neto, depois de Leminski, exumaremos Bilac.)

Há algo pior do que Poeta falar sobre o Ser Poeta? Coisa que até era suportável em M Bandeira, M de Andrade e C Drummond de Andrade, hoje é tédio puro, até náusea. (“O poeta entra no elevador. / O poeta sobe / O poeta fecha-se no quarto. / O poeta está melancólico.” CDA, “Nota Social”) Já bastam os poetas-ensaístas (alguns até memoráveis, a saber, Poe, Baudelaire, O. Paz, E. Pound...) que teorizam a Arte (que quando mais teoria sofre, mais hermética se enrosca). Quem imaginaria Manoel de Barros a teorizar sobre poesia. Deixando de fazer versos para dedicar-se aos ensaios. (Ou: Patativa do Assaré com diploma seria capaz de escrever o que escreveu SEM diploma?)

O que é Poesia? O que não é Poesia? Velho ramerrão. Drummond também não perdoava, “Os impactos de amor não são poesia.”, “Que é poesia, o belo? Não é poesia...”, “De que se formam nossos poemas? Onde?”, “O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia”, e etc etc, está tudo dito. Pode ser que poesia seja mesmo igual 'catar feijão' (aqui em “O Garimpo e a Cata”) ou que seja tal um tomate maduro (“a poesia é maduro tomate em sua rubra carnadura”, “Tomate”), mas sempre há um 'poeta fingidor' que “finge garimpar enquanto cata”. Há uma voz subjetiva que seleciona (mesmo implícita). Agora , não é o mesmo que dizer: 'é poesia aquilo que o poeta diz ser poesia' (em paródia ao que disse Mário de Andrade sobre os contistas, “conto é tudo aquilo que a gente chama de conto”)

Onde então a 'salvação' de O Resmundo das Calavras? Sim, há uma 'redenção' ao Poeta-Leitor. Deve ele se transmutar num Poeta-Observador. Deixar os livros na estant e ir ver o mundo. Sentar à varanda e ouvir a turbulenta música da cidade. Sofrer com os mil assaltos e atropelamentos e misérias. Comer no restaurante burguês ou ser servido com um p(rato) f(eito) num botequim da zona boêmia.

Assim, o grand finale d'O Resmundo salva a Obra. “Perambulâncias” tem todo aquele tom épico do homem das multidões, do artista moderno, das imagens de Baudelaire a percorrer as passagens de Paris. O Ser que observa o Mundo, em 'leituras e andanças' (segundo a poética de Vinícius Fernandes Cardoso, segundo ensaio anterior, a fleratar com os beatniks, a poesia marginal, de mimeógrafo – ou impressão doméstica), onde o Poeta vivencia, experimenta o contexto urbano – sem mediações. É assaltado, é atropelado, é abandonado na noite suja.

O Poeta na nova Babilônia (ou 'nova Mesopotâmia') da vida moderna, a cidade metrópole de luzes e penumbras, sofre a “Esgrima das Esquinas”, a violência urbana, ao caminhar sobre o fio da lâmina,

andar os gumes de qualquer cidade
é se cortar de ruas ao ganhar atalhos,
...

pelas cidades do como se corta
ou do quanto se perfura
cada arma reclama um estilo
e uma certa empunhadura:

As cenas urbanas se mesclam com cenas de carências e solidões (somos os 'homens vazios/ hollow men' de Eliot, somos as 'lonely souls' de Unkle [banda techno-pop], somos os 'burgueses sem religião' de Legião Urbana) numa miríade de apelos e produtos sob luzes néon. E diante de tanta opulência e tanta miséria, no paraíso da 'injustiça social' - “uns mais iguais que outros” - somente nos resta rezar uma paródia do “Pai Nosso', numa “Oração do Favelado”, “pai nosso que nos deixa ao léu / santificada seja a nossa fome”, quando a miséria coabita junto a fé, e a religião é uma forma de caridade paternalista, um consolo para as massas (“o ópio do povo”, segundo K. Marx), que mantem a mendicância da miséria (afinal, pobre e mendigo existem é para madame dar esmolas, não é?)

As cenas da vida urbana são fotografias um metrô lotado, a ineficiência dos transportes coletivos (quando o mundo se entope de carros...), ou o horror da guerra – com o bombardeio de cidades vitimando os civis desarmados, em “Londresden”. Se London foi parcialmente destruída (quase metade da área central), a cidade alemã Dresden foi paraticamente arrasada (fontes calculam de 80 a 90 %) A população não vai até a guerra – é a guerra que é entregue a domicílio.


Um mundo moderno onde o hoje repete o ontem, a burguesia repete os mesmo erros da nobreza. A tradição golpeia de volta, o medieval está aí com os latifúndios da época das capitanias hereditárias! “O Asseio do herdeiro” (p. 161) mostra perpetuação da 'ordem burguesa' que lava as mãos enquanto as epidemias se alastram, e perdem os dedos ao manterem os anéis.

Hoje reinas no banco
que foi do avô de teu avô,
que era o senhor de todos os escravos
e de todas as terras dessa freguesia

Enfim, afinal, Paris é uma festa (obra de Hemingway, amigo de Fitzgerald, aquele da 'era do jazz') e todos os burgueses brindam suas taças de champanhe. Nós, os bons pensadores, sabemos como sermos bons cúmplices, em manter nosso silêncio, enquanto pagamos as contas, os impostos, as prestações do carro e do apartemento (nessa ordem!) As cenas de Paris nos emocionam. Ah, como bons fãs de Baudelaire que somos!

Paris, és uma festa!
uma festa para quem te desfruta
na embriaguez dos instantes ebulidos
pelo champanhe dos teus séculos de civilização

Uma festa de nostalgia e cabarés, de prazeres fugazes e vulgares! Todo mundo já foi a Paris – resta saber se àquela de Stendhal, ou de Victor-Hugo, ou de Balzac, ou de Baudelaire, ou de Rimbaud, ou de Maupassant, ou de Zola, ou de Fitzgerald, ou de Hemingway, ou de Sartre, ou de Sarraute, ou de Perec, etc. Cada olhar, cada autor, recria a cidade luz, “La Vielle Lumière” a cada descrição, à medida em que a cidade é re-edificada pela Escrita.

Ao cair a cortina d'O Resmundo, esperemos que o Autor possa através observação sensível do mundo, na gradação do olho e da pele que tudo registra e decodifica em novos códigos, transmutar-se de Poeta-Leitor para Poetas-Leitores num Poeta-Observador para Poetas, leitores ou não, e Leitores, poetas ou não.


mar/abr/10

revsd: jun/12

por Leonardo de Magalhaens

http://leoliteraturaescrita.blogspot.com



BLOG do Autor Marcus Fabiano Gonçalves




Notas

(1)V. Maiakóvski compara a criação poética à extração de rádio a partir de montanhas de minério,

A poesia
é como a lavra
do rádio,
um ano para cada grama.
Para extrair
uma palavra,
milhões de toneladas de palavras-prima.
Porém
que flama
de uma tal palavra emana
perto
das brasas
da palavra-bruta.

(trad. Augusto de Campos)

vejam o poema completo em

enquanto João Cabral de Melo Neto fala de um 'catar feijão' em similitudes com o fazer poesia,

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.


(2)Quem não é expert em mitologia grega, ou Iessiêni, favor folhear a Wikipedia. http://pt.wikipedia.org/wiki/Teseu




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