sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

"A Terra não vale a pena" - poluir. poluir tudo...









A Terra não vale a pena


conto de Edward Wellen



“Poluir. Poluir tudo.
Tornar o ar pestilencial.
Fazer a vida impossível de ser vivida.”



“Sentado à mesa de conferência, o delegado americano percebeu um pequeno fiapo na perna de sua calça. Apanhou-o com a ponta dos dedos e colocou-o cuidadosamente no cinzeiro. Entre os que observaram esse gesto banal, a delegada soviética foi a única a sorrir. Enquanto isso o delgado israelense, do Subcomitê para o Controle da Poluição, que faz parte do Comitê de Ecologia da UNESCO, criticava violentamente o uso abusivo dos inseticidas à base de cloro.

“Esses produtos não se decompõem imediatamente. Permanecem durante anos na atmosfera, na água, fixando-se nos tecidos dos peixes, pássaros e outros animais, inclusive no homem, enquanto que, ironicamente, os animais nocivos a que se destinam adquirem resistência a eles. Da mesma forma a utilização superabundante de adubos químicos azotados modifica o ciclo natural do azoto, poluindo rios, lagos e poços. Em vez de alterar assim criminosamente o nosso meio, devemos nos empenhar a todo custo na utilização dos recursos de que dispomos. Por exemplo, o problema da irrigação. Em Israel encontramos o meio de conservar a água e reduzir a irrigação em 20%, enquanto o rendimento das colheitas aumentava em 60%.”

Barry Killebrew, o delgado americano, encontrou o olhar da delegada soviética, ergueu uma sobrancelha e esmagou metodicamente a ponta do cigarro. Nadezhda Detzach Veachab respondeu com um ligeiro aceno de cabeça aprovativo e rabiscou algumas palavras, passando-as ao delegado búlgaro.


Este, depois de ler o bilhete, pediu a palavra para uma questão de ordem.

“Não podemos tolerar de forma alguma que a propaganda dos imperialistas sionistas nos desvie do assunto em discussão, ou seja, o documento 7/15, relatório preliminar sobre a conveniência de se fazer uma pesquisa para determinar o método a ser empregado no estudo do problema da poluição.”

O delegado indiano, que presidia a sessão retirou a palavra ao israelense, para passá-la ao orador seguinte. A reunião prosseguia, monótona. Animou-se apenas quando o americano e a soviética leram cada qual um texto enérgico sobre a necessidade de não se alterar o equilíbrio natural dos ciclos biológicos. A seguir, foi encerada a sessão. Os dois delegados receberam sorridentes os cumprimentos de seus colegas.

Esperaram que todos desaparecessem nos elevadores. Entreolharam-se e só então se levantaram. Percorreram um corredor deserto até uma porta que só se distinguia das demais por ter suas fechaduras, cada um introduziu a sua chave. A porta se abriu para uma pequena sala, contendo duas cadeiras, uma mesa e um telefone.

Barry trancou a porta. A tarde mal começara, mas uma névoa espessa, enfumaçada, embaciava a janela. Nadezhda acendeu a luz. Antes de sentar-se cada um apertou um botão especial em seu relógio, para se assegurar de que ninguém os ouviria. Satisfeitos, abriram suas pastas, retirando de um compartimento secreto várias folhas de papel cobertas de cifras.

-Vamos trabalhar?

Barry aquiesceu.

-Nós dois obtivemos excelentes resultados. A temperatura média da Terra diminuiu meio grau desde 1950 e o limite da zona fria avançou cerca de 150 quilômetros para o sul.

Sua voz tornou-se mais incisiva.

-Mas, em relação ao trabalho, meu país fez mais que sua parte. O lago Erié transformou-se num esgoto, o lago Michigan, numa fossa putrefata e o lago Tahoe está quase nas mesmas condições – disse ele com orgulho. - E o que me diz do pântano da Flórida e da destruição do equilíbrio ecológico no Vietnã?

Ela estremeceu, mas sua voz soou tão firme quanto a de Barry.

-O lago Baikal é uma cloaca, graças às nossas usinas de papel. O volume de fumaça nas cidades é vinte vezes maior que o de 1950. Um zelo excessivo na drenagem dos pântanos da Bielo-Rússia fez baixar radicalmente o nível da água, transformando-os numa imensa bacia de areia. Que mais poderíamos ter feito?

-Nadya, eu compreendo suas dificuldades, mas é imprescindível que vocês produzam mais bens de consumo. Vocês estão longe de se equiparar conosco no campo dos detergentes, quantidades imensas de fósforo passam por nosso esgotos para estimular o crescimento das algas e obstruir rios e lagos. São algas viscosas e fétidas, tão perigosas que corroem a pintura das casas e dos automóveis. Nadya, há uma grande defasagem entre nós no campo dos detritos.

-Era sobre isso que queria lhe falar.

-Perfeito, mas antes de prosseguir eu devo telefonar.

-À vontade!



Ele puxou o telefone e retirou vários objetos de sua pasta. Encaixou no fone um aparelhinho especial, que tornava a ligação inaudível para terceiros. Depois discou diretamente para o chefe do Serviço Secreto do Ministério das Defesa Nacional dos EUA.

-Killebrew falando. Vocês confirmam as últimas observações soviéticas?

Ouviu a resposta, pediu a seu interlocutor para repetir e colocou o fone no ouvido de Nadya. Ela escutou uma voz grave que dizia: 'Sim, os russos os viram primeiro, mas nosso sistema de detecção é melhor que o deles. Surpreendemos o disco, quando passava próximo a Marte e seguimos sua trajetória. Parece ser o mesmo tipo de aparelho de reconhecimento da sua última visita'. Barry desligou, retirou o aparelho, recolocando-o na pasta.


-Bem, Nadya, vamos prosseguir. Eu começo. Assinalou várias indicações em sua lista.

-Na próxima semana um petroleiro gigante vai sofrer uma avaria ao largo da Flórida. O lençol de petróleo cobrirá mais de duzentos quilômetros de praias. Imagine a reação das pessoas. Contrariadas e agressivas. Não compreendem.

Ela ergueu os ombros.

-O capitalismo tem o mesmo efeito.

-Tínhamos combinado deixar de lado toda ideologia.

-Desculpe, Barry. Foi apenas uma piadinha.

Ele a encarou atônito. Nunca lhe passou pela cabeça que ela pudesse ter senso de humor. Ela enrubesceu com seu olhar. Ele também se sentiu enrubescer e se apressou em voltar à sua lista.


-Sou eu que lhe devo desculpas. Agora, a poluição das águas. Seis usinas atômicas estão sendo construídas no canal de Long Island.

Ele a olhou nos olhos – azul-claros.

-É sua vez. Se for possível, eu gostaria de ter dados precisos. Atualmente nossas auto-estradas provocam uma perda de 1,5 trilhão de litros de água por ano e nós pretendemos chegar a 5,3 trilhões de litros. Que quantidade de água potável seu país tem intenção de desperdiçar? Cada ano lançamos na atmosfera 44 milhões de toneladas de bióxido de enxofre, 106 milhões de monóxido de carbono, 27 milhões de hidrocarbonetos, 17 milhões de óxidos azotados, 21 milhões de poeira, de fumaça de carvão e de fuligem. Que quantidade de SO2 e de CO, de hidrocarbonetos, óxidos azotados, etc. Seu país produz?

-Você quer saber?

Ela começou a enumerar cifras. Ele ouvia atentamente. A construção de barragem e a do canal ao nível do mar o impressionaram, mas ele se esforçou em não demonstrá-lo. Finalmente apoiou-se no espaldar da cadeira.

-Perfeito. Isso deve bastar, no momento. Ela parecia duvidar. De repente seus olhos se encheram de lágrimas. Barry teve impressão de que isso não se devia apenas à fumaça que penetrava na sala, apesar do condicionamento do ar. Eles de levantaram e permaneceram de pé, pouco à vontade.

-Você nunca se perguntou se não é exatamente isso o que ele s querem, que nós morramos sufocados por nossos próprios detritos?

-Somos obrigados a nos ater à nossa primeira suposição. Esperamos ser capazes de inverter o processo, quando eles partirem definitivamente.


O silêncio se instalou entre os dois. Inconscientemente eles se aproximaram um do outro, como se de repente sentissem necessidade de calor, como para preencher o silêncio. Eles contemplaram o céu enfumaçado. Talvez os especialistas da Ação Psicológica dos dois campos tivessem razão. Depois de muitos anos os estranhos – quem quer que fossem – desistissem de tentar invadir a Terra.

Mas o que teria acontecido se os observadores não imaginassem que o melhor meio de defesa de um planeta contra a invasão seria exatamente fazer dele algo que não vale a pensa invadir?





fonte: revista PLANETA - jan/1973












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