domingo, 7 de fevereiro de 2010

sobre "Cândido, ou o Otimismo" de Voltaire





Sobre “Cândido” (Candide ou l'Optimiste, 1759)
do escritor e filósofo francês Voltaire
(François Marie Arouet, 1694-1778)

A Literatura enquanto Alegoria/Parábola

(outras obras:
A Luneta Mágica
O Alienista
Dr. Jekyll & Mr. Hyde
Animal Farm
(já divulgado))

Já analisamos em ensaios anteriores o recurso da Paródia
e da Sátira como instrumentos literários de Narrativa,
visando obter um maior efeito sobre o Leitor ao ironizar
uma personagem ou visão-de-mundo. A Escrita seria uma
forma de 'despertar' o Leitor através de um chiste, um
mal-entendido, um mal-estar, até a risada libertadora, onde
os preconceitos seriam quebrados, e uma nova ideia – diversa
daquela ironizada – seria então apresentada.

A Alegoria – mais conhecida nas formas de Parábola, Apólogo
ou Fábula – foi sempre muito utilizada pelos autores gregos
(vide o mestre Esopo), pelos latinos (vide Apuleio e Ovídio),
pelos franceses (La Fontaine é um clássico do estilo), pelos
ingleses (vide Swift e Sterne, e depois Orwell), pelos italianos
(um exemplo é o satírico anti-fascista Trilussa (1)) para levar
uma mensagem mais moralizante através do recurso da
'fábula'. Não o chiste, mas a 'metamorfose' das personagens
em formas animalescas (quando não são os próprios animais
que falam e agem como seres humanos...) A 'moral da estória'
é sempre destacada – pois há todo um caráter de 'panfleto'
(de transmitir conteúdo moral e político) nestas fábulas
alegóricas.

A ridicularização das autoridades, a explicitação dos males
sociais, as incoerências da existência, a vaidade dos poderosos
e a inveja dos dominados, tudo serve como matéria-prima para
o estilo satírico, que através de alegorias (parábola, apólogo,
fábula) apresentam o mundo-tal-como-é de um modo caricato,
grotesco, exagerado, afetado, para ressaltar as incongruências.
Passagens bruscas de um lugar a outro, de um tempo a outro.
Situações absurdas, trocadilhos reprováveis, provocações. O
Leitor pode até rir (a sátira é mesmo para rir...) mas a alegoria
(principalmente a Parábola) deseja ensinar um conteúdo moral:
por que não agir contra esses ridículos? Por que não denunciar
o grotesco e ousar mudar a realidade?
Escrito há 250 anos, “Cândido” é um clássico da alegoria, da
sátira, do escritor e filósofo Voltaire, e por extensão do Iluminismo.
Os Iluministas adoravam disseminar suas ideias em panfletos,
alegorias, sátiras. A Literatura – fartamente distribuída em
edições simples, igual ao nosso atual 'cordel' – seria mais
um veículo panfletário – não apenas pelo formato próximo
ao panfleto – por excelência quando o escritor desejava fazer
circular suas ideias filosóficas e políticas. (Hoje é diferente:
temos o rádio e a TV)

Publicado sob o pseudônimo de Monsieur Le Docteur Ralph,
de uma suposta obra allemand (alemã), pois a narrativa inicia-
se nas terras germânicas, acompanhando a vida bucólica do
jovem e singelo Candide (Cândido), que tem tudo para ter
uma vida de realizações, sendo simplório o suficiente para não
ter inimigos em potencial (pois é a ambição que semeia
inimizades....)

O início de “Candide” já é irônico. Relaciona o nome à criança
'cândida' que vivia no castelo de um tal Barão da Vestfália
(atualmente parte da Alemanha).

Il y avait en Westphalie, dans le château de M. le baron de Thunder-ten-tronckh, un jeune garçon à qui la nature avait donné les moeurs les plus douces. Sa physionomie annonçait son âme. Il avait le jugement assez droit, avec l'esprit le plus simple ; c'est, je crois, pour cette raison qu'on le nommait Candide.
“Vivia na Vestfália, no castelo do Barão de Thunder-ten-tronckh, um jovem ao qual a natureza concedeu as maneiras mais gentis. Sua fisionomia anunciava sua alma. Combinava o jugamento correto com a simplicidade de espírito; eis, eu creio, seja a razão pela qual o chamaram de Cândido.” (trad. LdeM)
Após uma descrição igualmente irônica dos nobres alemães, o Narrador apresenta a figura caricata do Preceptor ( uma espécie de Professor particular dos filhos da nobreza) Pangloss, a educar o jovem Candide e a filha do Barão, a bela Fraulein Cunégonde. (A jovem será a 'mocinha' da estória...)

Le précepteur Pangloss était l'oracle de la maison, et le petit Candide écoutait ses leçons avec toute la bonne foi de son âge et de son caractère.
Pangloss enseignait la métaphysico-théologo-cosmolonigologie. Il prouvait admirablement qu'il n'y a point d'effet sans cause, et que, dans ce meilleur des mondes possibles, le château de monseigneur le baron était le plus beau des châteaux et madame la meilleure des baronnes possibles.
« Il est démontré, disait-il, que les choses ne peuvent être autrement : car, tout étant fait pour une fin, tout est nécessairement pour la meilleure fin. Remarquez bien que les nez ont été faits pour porter des lunettes, aussi avons-nous des lunettes. Les jambes sont visiblement instituées pour être chaussées, et nous avons des chausses. Les pierres ont été formées pour être taillées, et pour en faire des châteaux, aussi monseigneur a un très beau château ; le plus grand baron de la province doit être le mieux logé ; et, les cochons étant faits pour être mangés, nous mangeons du porc toute l'année : par conséquent, ceux qui ont avancé que tout est bien ont dit une sottise ; il fallait dire que tout est au mieux.
»
“O preceptor Pangloss era o oráculo da casa, e o pequeno Cândido escutava suas lições com toda a boa fé de sua idade e sua personalidade.
Pangloss ensinava a metafísico-teológica-cosmolonigologia. Ele provava admiravelmente que não há efeito sem uma causa, e que, neste melhor dos mundos possíveis, o castelo do senhor Barão era o mais belo dos castelos e a senhora a melhor das Baronesas possíveis.

O que demonstra, dizia ele, que as coisas não podem ser de outro jeito: pois, tudo tendia a um objetivo, tudo é necessariamente para a melhor finalidade. Observe bem que o nariz é feito para sustentar os óculos, assim temos óculos. As pernas são visivelmente formadas para usarem calcças, e nós usamos calças. As pedras são feitas para serem talhadas, e para se fazer castelos, assim o senhor Barão tem um mui belo castelo; o maior barão da província deve ser o mais louvado; e, os leitões são feitos para serem devorados, devoramos porcos o ano todo: por consequência, aqueles que asseguram que tudo é bom tem dito asneira, eles deveriam ter dito que é tudo para o melhor possível.” (trad. Livre: LdeM)
Então vivemos no 'melhor dos mundos possíveis'? Tudo é assim
porque deve ser assim – e tolice esperar algo diferente? Este
é o trunfo do Otimismo e este é o Finalismo otimista do filósofo
alemão Gottfried W. Leibniz (1646-1716), aqui visivelmente
parodiado na figura super-otimista (e oportunista) do Professor
Pangloss. (Não vamos discutir aqui a filosofia de Leibniz, até
porque não temos competência para tanto; basta informar que
Voltaire simplifica e satiriza as ideias de um dos maiores filósofos
alemães, além de virtuoso matemático)
Uma das primeiras questões relevantes é: Por que o mundo é
do jeito que é? Ou: Poderia o mundo ser diferente? É do jeito
que é porque deve ser assim? Tudo é determinado por Leis
Físicas? Leis Econômicas? Imperativos categóricos? Impulsos
fisiológicos? O 'mundo tal como é' está determinado desde a
aurora dos tempos? Nada podemos fazer para mudá-lo? Convém
apenas se resignar e aclamar a 'perfeição' do mundo?

As dúvidas de Candide logo são respondidas com o ânimo
otimista de Pangloss: “vivemos no melhor dos mundos possíveis”,
pois “tudo concorre para o nosso bem”, que anestesia as
'inquietações' num jovem tão 'cândido'. Mas não vai demorar muito
até que o mundo mostre o quanto é o 'melhor dos possíveis', pois
uma série de contratempos, conflitos, tragédias, vai assolar a
pretensa paz do mundo de Candide.

Não vamos aqui expor o enredo da Fábula e privar o Leitor do
prazer da leitura. Mas o 'melhor dos mundos possíveis' sabe
mostrar uma face tão cruel que é de se perguntar como seria
então o 'pior dos mundos possíveis'! Candide é expulso do castelo –
ao demonstrar sua afeição pela Fraulein Cunégonde – cai na mão
de recrutadores militares, marcha para a guerra – julgando-se
um 'herói' (pois se tem uma coisa que nunca faltou na Europa
essa coisa é a guerra...) entre prussianos e búlgaros, mas ele
consegue escapar durante o ferro e fogo da grande batalha,
vagueia até a Holanda, conhece outras figuras – caricaturas,
obviamente – que ora justificam, ora abalam o seu otimismo
(na verdade, a 'lábia' de Pangloss que 'lavou a mente' do
coitado...)

Em andanças, Candide reencontra o 'mestre' Pangloss, todo
'deformado', depois experimenta os tremores e temores do
Grande Terremoto de Lisboa (1755), que soterrou tanto
malditos quanto inocentes, gerando um grande trauma
popular, logo em busca de 'bodes espiatórios', as bruxas e
endemoniados para serem queimados no fogo dos 'autos-de-fé' –
e quem mais vai parar nas chamas senão o nosso 'herói'
Candide? Ou seja, tudo o que pode dar de errado – realmente
vai de mal a pior! (A “lei de Murphy”, não? “Qualquer coisa
que pode dar errado, vai dar errado
”. Pois é, esta lei Voltaire
já conhecia...)

De tormento em tormento, encrenca em encrenca, Candide
vem parar no sul da América do Sul em busca do El Dorado,
a terra de ouro, o país dos sonhos de cobiça, a “terra que
mana leite e mel
” (a 'terra prometida' das escrituras
bíblicas) – a conquista europeia está em seu auge, movendo
os colonizadores espanhóis e os bandeirantes portugueses
em expedições ao interior do continente sulamericano;
rumando às minas de prata em Potosì, entre o Peru e a Bolívia,
ou as minas de Ouro Preto, em Minas Gerais) – atraindo os
aventureiros, os degredados, os excluídos da 'ordem social'
europeia, que esperam 'fazer a américa' – enriquecer e voltar
com riquezas para se vingar das humilhações (o que, aliás,
muitos conseguiram...) El Dorado que simboliza a UTOPIA –
que também estava na moda naquels época, com os escritos
de Morus, Campanella, F. Bacon, J. Harrington, etc – o espaço
público, social, humano idealizado (com fartura de riquezas,
sem carência e penúrias, sem padres, sem reis-carrascos, etc)
Mas a busca por El Dorado reserva mais infortúnios (aos quais
nos eximimos de resumir) até que Candide se vê obrigado a
retornar ao velho mundo, a Europa, na companhia da amada
(reencontrada!) Cunégonde, e um filósofo pessimista (o contra-
ponto ao otimista Leibniz), um tal Martin, que tenta desconstruir
todo aquele discurso do 'mestre' Pangloss.

-- Mais à quelle fin ce monde a-t-il donc été formé ? dit Candide. -- Pour nous faire enrager, répondit Martin. -
-Mas por qual motivo foi o mundo formado? Disse Candide. - Para nos irritar, respondeu Martin.
E
-- Croyez-vous, dit Candide, que les hommes se soient toujours mutuellement massacrés comme ils font aujourd'hui ? qu'ils aient toujours été menteurs, fourbes, perfides, ingrats, brigands, faibles, volages, lâches, envieux, gourmands, ivrognes, avares, ambitieux, sanguinaires, calomniateurs, débauchés, fanatiques, hypocrites et sots ? -- Croyez-vous, dit Martin, que les éperviers aient toujours mangé des pigeons quand ils en ont trouvé ? -- Oui, sans doute, dit Candide. -- Eh bien ! dit Martin, si les éperviers ont toujours eu le même caractère, pourquoi voulez-vous que les hommes aient changé le leur ? -- Oh ! dit Candide, il y a bien de la différence, car le libre arbitre... » En raisonnant ainsi, ils arrivèrent à Bordeaux.
-Acreditas, disse Candide, que os homens sejam sempre mutualmente massacrados como fazem atualmente, que eles sejam sempre mentirosos, fraudulentos, pérfidos, ingratos, briguentos, idiotas, ladrões, invejosos, glutões, beberrões, ávaros, ambiciosos, sanguinários, caluniadores, debochadores, fanáticos, hipócritas e imbecis? - Acreditas, disse Martin, que os gaviões sempre devoram as pombas que encontram? -Sim, sem dúvida, disse Candide. -Pois bem!, disse Martin, se os gaviões tem sempre o mesmo caráter por que esperas que os homens mudem os deles? -Oh! disse Candide, há uma diferença e tanto, pois o livre arbítrio...” E meditando assim, eles chegaram a Bordeaux.
De volta à Europa, outras aventuras se iniciam. O Narrador da
Fábula de Voltaire prossegue com seu 'esprit de finesse'
('espírito de sutileza', segundo Pascal), sua ironia ácida, seus
epigramas, sua demolição do senso-comum, sua pregação dos
ideais iluministas (muitos dos quais são os nossos atualmente...),
mostrando que os poderosos são aqueles mais carniceiros, que
os grandes generais são os que mais assassinaram, que as
riquezas de uns são as carências de outros. Cada vez mais
desiludido, Candide volta para o seu mundo, sua terrinha,
tentando conservar o que ainda não perdeu: sua amada, seu lar
e seu jardim. Mesmo que tenha que ouvir, vez ou outra, as
lenga-lengas de Pangloss.

et Pangloss disait quelquefois à Candide : « Tous les événements sont enchaînés dans le meilleur des mondes possibles ; car enfin, si vous n'aviez pas été chassé d'un beau château à grands coups de pied dans le derrière pour l'amour de Mlle Cunégonde, si vous n'aviez pas été mis à l'Inquisition, si vous n'aviez pas couru l'Amérique à pied, si vous n'aviez pas donné un bon coup d'épée au baron, si vous n'aviez pas perdu tous vos moutons du bon pays d'Eldorado, vous ne mangeriez pas ici des cédrats confits et des pistaches. -- Cela est bien dit, répondit Candide, mais il faut cultiver notre jardin. »

E Pangloss dizia, vez ou outra, a Candide: “Todos os acontecimentos estão concatenados no melhor dos mundos possíveis; pois, afinal, se não fostes chutado do magnífico castelo por amor à senhorita Cunégonde, se fostes preso pela Inquisição, se não tiveste percorrido a América à pé, se não tiveste dado um bom golpe de espada no Barão, se tiveste perdido tuas ovelhas do belo país do Eldorado, não estarias aqui agora a desfrutar limas e pistaches. - Está certo, respondia Candide, mas é preciso cultivar o nosso jardim.”
jan/10
"Candide" (français) on line
mais sobre alegoria, parábola, paródia em
http://recantodasletras.uol.com.br/teorialiteraria/98721
Notas:

(1)Trilussa (Carlo Alberto Salustri, 1871- 1950) é poeta pouco conhecido no Brasil. Deixemos aqui uma pérola de sua lavra:
All'ombra

Mentre me leggo er solito giornale
spaparacchiato all'ombra d'un pajaro,
vedo un porco e je dico. Addio, majale!
vedo un ciuccio e je dico. Addio, somaro!

Forse ste bestie nun me caperanno,
ma provo armeno la soddisfazzione
de potè di' le cose come stanno
senza paura de fini in priggione.

da Giove e le bestie, 1932

À sombra

Enquanto eu lia um jornal de costume
relaxado à sombra de uma palha,
vejo um porco e digo: Adeus, leitão!
Vejo um burro e digo: Adeus, asno!

Talvez estas bestas não me entendam
mas, ao menos, tenho a satisfação
de poder dizer as coisas dessa forma
sem medo de acabar na prisão.

(trad. Livre: LdeM)

Mais poesia de Trilussa
em http://www.0web.it/poesia/trilussa/

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