quarta-feira, 7 de outubro de 2009

PABLO NERUDA - Poema XX


PABLO NERUDA

(1904-1973)

Veinte Poemas de amor y una canción desesperada (1924)

Poema XX

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros, ao longe”.
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a desejei, e às vezes ela também me desejou.
Nas noites como esta eu a tive em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ele me desejou, às vezes eu também a desejava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Senti que a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
Minha alma não se contenta em tê-la perdido.
Como para aproximá-la o meu olhar a procura.
Meu coração a procura, e ela não está comigo.
A mesma noite faz branquear as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a desejo, é verdade, tanto quanto a desejei.
Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.
Já não a desejo, é certo, mas talvez a deseje.
É tão curto o amor, e é tão longo o olvido.
Porque em noites como esta eu a tive em meus braços,
a minha alma não se contenta com tê-la perdido.
Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Trad. por Leonardo de Magalhaens

ago/09

PABLO NERUDA

Poema XX

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo: "La noche esta estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".
El viento de la noche gira en el cielo y canta.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.

Pablo Neruda
(1904-1973)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Lorca - Ode a Walt Whitman





FEDERICO GARCÍA LORCA

ODA A WALT WHITMAN
(1933)

Ode a Walt Whitman

Através do East River e do Bronx
os rapazes cantavam mostrando suas cinturas,
com a roda, o azeite, o couro, e o martelo
Noventa mil mineiros extraíam prata das rochas
e os garotos desenhavam escadas e perspectivas.

Mas ninguém dormia,
ninguém queria ser o rio,
ninguém amava as folhas grandes,
ninguém a língua azul da praia.

Através do East River e do Queensborough
os rapazes lutavam com a indústria,
e os judeus vendiam ao fauno do rio
a rosa da circuncisão
e o céu desembocava pelas pontes e telhados
manadas de bisões empurradas pelo vento.

Mas ninguém se detinha,
ninguém queria ser nuvem,
ninguém buscava os fetos
nem a roda amarela do tamboril.

Quando a lua saía,
as roldanas rodaram para derrubar o céu;
um limite de agulhas cercara a memória
e os ataúdes levarão os que não trabalham.

Nova York de lama,
Nova York de espanto e de morte.
Que anjo levas oculto na face?
Que voz perfeita dirá as verdades do trigo?
Quem o sonho terrível de tuas anedotas manchadas?

Nem um só momento, velho e formoso Walt Whitman,
deixei de ver tua barba cheia de mariposas,
nem teus ombros de veludo gastados pela lua,
nem tuas coxas de Apolo Virginal,
nem tua voz como uma coluna de cinzas;
ancião formoso como a névoa
que gemia igual a um pássaro
com o sexo atravessado por uma agulha,
inimigo do sátiro, inimigo da vide
e amante dos corpos sob o tecido rude

Nem um só momento, formosura viril
que em montes de carvão, anúncios e ferrovias
sonhavas ser um rio e dormir como um rio
com aquele camarada que poria em teu peito
uma pequena dor de ignorante leopardo.

Nem um só momento, Adão de sangue, macho,
homem solitário no mar, velho formoso Walt Whitman
porque pelas açoteias, agrupados nos bares,
saindo em cachos dos esgotos,
tremendo entre as pernas dos chaffeurs
ou girando nas plataformas de absinto,
os maricas, Walt Whitman, te sonhavam.

Também esse ! Também! E despencam
sobre tua barba luminosa e casta,
louros do norte, negros da areia,
multidões de gritos e gestos,
semelhantes a gatos e serpentes,
os maricas, Walt Whitman, os maricas
turvos de lágrimas, carne para o açoite,
mostra a mordedura dos domadores.


Também esse! Também ! Dedos tingidos
apontam a borda de teu sonho
quando o amigo igual a tua maçã
com um leve sabor de gasolina
e o sol canta pelos umbigos
dos rapazes que jogam debaixo das pontes.

Mas tu não buscavas os olhos arranhados,
nem o pântano escuríssimo de onde submergem os garotos,
nem a saliva gelada,
nem as curvas feridas como pança de sapo
que levam os maricas em carros e terraços
enquanto a lua os açoita pelas esquinas do terror.

Tu buscavas um desnudo que fosse como um rio,
touro e sonho que junte a roda com a alga,
pai de tua agonia, camélia de tua morte,
e gemesse nas chamas de teu equador oculto.

Porque é justo que o homem não busque seu deleite
na selva de sangue da manhã seguinte.
O céu tem praias onde evitar a vida
e existem corpos que não devem se repetir na aurora.

Agonia, agonia, sonho, fermento e sonho.
Este é o mundo, amigo, agonia, agonia.
Os mortos se decompõem sob o relógio das cidades,
a guerra passa chorando com um milhão de ratazanas cinzentas,
os ricos dão às suas queridas
pequenos moribundos iluminados.
E a vida não é nobre, nem boa, nem sagrada.

Pode o homem, se quiser, conduzir seu desejo
por veia de coral ou celeste nudez.
Amanhã os amores serão rochas e o Tempo
uma brisa que vem adormecida pelos ramos.

Por isso não levanto minha voz, velho Walt Whitman
contra o garoto que escreve
o nome da garota em sua almofada,
nem contra o rapaz que se veste de noiva
na escuridão da rouparia,
nem contra os solitários dos cassinos
que bebem com asco a água da prostituição,
nem contra os homens de olhada verde
que amam o homem e queimas seus lábios em silêncio.

Mas sim contra vós, maricas das cidades,
de carne tumefacta e pensamento imundo,
mães de lodo, harpias, inimigos sem sonho
do Amor que reparte coroas de alegria.

Contra vós sempre, que dais aos rapazes
gotas de morte suja com amargo veneno.
Contra vós sempre,
Fadas da Ameŕica do Norte,
Pássaros de Havana,
Podres do México,
Sarasas de Cádiz,
Touros de Sevilha,
Cancos de Madrid,
Flores de Alicante,
Adelaides de Portugal.

Maricas de todo o mundo, assassinos de pombas!
Escravos da mulher, putas de suas camas,
abertos nas praças com febre de abano
ou emboscadas rígidas paisagens de cicuta.

Não há abrigo! A morte
emana de vossos olhos
e agrupa flores cinzas nas beiras dos cílios.
Não há abrigo! Alerta!
Que os confundidos, os puros,
os clássicos, os assinalados, os suplicantes,
fecham para vós as portas do bacanal.

E tu, belo Walt Whitman, dorme às margens do Hudson,
com a barba até o pêlo e as mãos abertas.
Argila branca ou neve, tua língua está chamando
camaradas que velem tua gazela sem corpo.
Dorme, não sobra nada.
Uma dança de muros agita as pradarias
e a América se afoga de máquinas e pranto.
Quero que o ar forte da noite mais funda
acalme flores e letras do arco onde dormes
e um garoto negro anuncie aos brancos do ouro
a chegada do reino da espiga.

Trad. livre por Leonardo de Magalhaens


ODA A WALT WHITMAN original em

sábado, 26 de setembro de 2009

As VIAGENS DE GULLIVER / Swift (parte 2)







sobre a sátira Viagens de Gulliver
(Gulliver's Travels, de 1726/35)
do irlandês/inglês Jonathan Swift (1667-1745)

(a partir das adaptações de
Clarice Lispector (1973)
Cláudia Lopes (1998, 13a ed.)
e do original inglês em

http://publicliterature.org/books/gullivers_travels/xaa.php


A Literatura enquanto paródia e sátira

(ou como educar os leitores através do riso)


Parte 2

Após novamente arriscar sua fortuna (e a própria vida) em viagens
além-mar, o narrador de Gulliver's Travels, o médico-cirurgião-
navegador Lemuel Gulliver vem descrever sua viagem aos mares
indianos, a bordo do navio Hopewell (sob o comando do capitão
William Robinson – possível referência ao “Robinson Crusoé” de
Defoe), e novamente é atingido pelas fatalidades: um ataque
pirata! Os mercenários deixam o pobre narrador numa balsa à
deriva, até que ele alcance a segurança numa ilha.

De repente, o sol desaparece. Uma nuvem? Um eclipse? Um dragão
engolindo o sol? Não, nada mais que uma ilha flutuante que se
desloca sobre a praia, onde perambula o náufrago. Tem início outra
fantástica narração: o que era aquela ilha flutuante, chamada de
Laputa. (Um jogo com o español 'la puta', 'the whore', da expressão
A Grande Meretriz”- que para Martinho Lutero, o reformista, era
a Razão, “aquela grande prostituta, a Razão”) Uma ilha de cientistas,
filósofos, astrônomos, metafísicos, que andam ensimesmados em
meditações e cálculos, a ponto de tropeçarem e caírem nas sarjetas,
a menos que sejam despertados por servos atentos (certamente
porque os proletários não se perdem em elucubrações metafísicas,
vivem o aqui e agora...)

Os reinos terrestres, dispersos, estão submetidos ao terror de
Laputa (a ilha flutuante), dominando com ameaças de bombardeio
aéreo ou eclipse artificial (a ponto de obscurecer a superfície e
frustrar as colheitas...), abafando revoltas (com destaque para a
rebelde cidade de Lindalino, numa alegoria para a resistência dos
irlandeses contra os ingleses) flutuando sobre os vassalos,
impulsionada e dirigida por enormes imãs artificiais, ora repelindo
ora atraindo a terra, assim subindo ou descendo. Um toque de
(digamos) science fiction (ficção científica), e antes de Shelley, Verne,
Wells, Clarke e Asimov!

Science fiction reforçada pelas personagens de Laputa e de Lagado.
Na ilha flutuante, a Astronomia, a Geometria, a Metafísica, são as
preocupações profissionais e existenciais, sempre no plano estético
ou teórico, a ponto de Matemática, na prática, ser desmerecida (daí
a bizarra Arquitetura do lugar, onde a Engenharia é mais abstrata
do que aplicada...). Já na cidade continental, temos a Academia dos
Sábios (paródia da Royal Society),perdidos em mil invenções e mil
pesquisas, para aprimorar as técnicas e salvar o povo (enquanto isso
o povo vai morrendo de fome e doenças...), totalmente imersos no
'mundo acadêmico', incapazes de discutir com quem pensa diferente
(a ponto de Gulliver, nosso bom narrador, ser considerado ignorante!)

O excesso de Ciência cria a mesma ignorância da falta de Ciência:
uma elite separada do povo, uma dicotomia entre Pensar e Agir, onde
os especialistas dizem ao povo até como fazer as refeições! (E querem
ir além do possível: ao cômico e risível de preparem bolachas com
equações escritas em tinta corante, para o lanche dos alunos, no
propósito de assim aprenderem a sublime Matemática! Por digestão!
Ou, quem sabe, por osmose! (como tanto desejam os nossos
estudantes...) O risível se instala quando o único cidadão sensato
naquele país, um parente do rei (por isso ainda continua vivo!), é
considerado o mais ignorante. (Ignorante, entenda-se, da 'sapiência'
da Academia...)

Temendo perder a sanidade (e a cabeça), Lemuel Gulliver resolve
abandonar aqueles sábios sapientíssimos e conseguir algum navio
com rota para as ilhas holandesas (hoje Indonésia) ou Japão; rota
que passa por outras regiões exóticas, povos estranhíssimos, como
é o caso dos feiticeiros da Glubbdrubdrib, ou Ilha dos Mágicos,
onde os serviçais são os espíritos dos mortos, invocados de todas
as eras. Quantos servos tem o Governador do lugar? “Não sei. Imagine
quantas pessoas já viveram e morreram desde o início dos tempos
...”

Apesar de assustado pelos poderosos necromantes, Gulliver aproveita
a estadia no país, até a partida do navio para o Japão, numa espécie de
'pesquisa histórica', ao solicitar a presença de certos espíritos, de
líderes e guerreiros, filósofos e poetas, para explicarem os absurdos
e desmandos de suas épocas, entrevistando as figuras polêmicas,
Homero e Aristóteles, 'colhendo as informações' na fonte, tudo para
depois ironizar os intérpretes e os historiadores de obras clássicas,
que mais distorcem do que explicam a sabedoria da Antiguidade.

Mais horrorizado Gulliver vai ficar quando conhecer os Struldbrugs,
os Imortais, na terra de Luggnagg, onde literalmente o visitante lambe
as botas do rei (além de todo o salão do trono!). Lá os Imortais são
inexplicado fenômeno – vez ou outroa ocorre, sem razão ou explicação –
quando algumas crianças (com certa mancha rubra na testa) são
notadamente imortais, contudo envelhecem. Para Gulliver a
imortalidade seria um sonho – não morrer nunca! - mas logo descobre
ser um pesadelo: a eterna velhice.“Lamentamos o senhor não ter
a permissão para levar um ou dois Imortais para o vosso país.
Certamente que em breve o vosso povo perderia o medo da morte
!”,
diz a irônica Vossa Majestade.

No final do Livro III, Gulliver faz um solene juramento de não me se
deixar seduzir para viagens, sempre tão custosas e extraordinárias.
Ingênuo o leitor que acredita. (Senão, não haveria o Livro IV.) O
mais consciente e irônico, um micro-resumo da Obra toda, não
poupando ninguém, nem nobre nem burguês. Ironizando a
ignorância sapientíssima dos Eruditos, a irracional ambição dos
burgueses e a ignorância ignorantíssima dos proletários, que sem
educação (nos dois sentidos) acabam por regredir ao estado de
subhumanos, semi-selvagens.


De repente, após um motim, Gulliver, o então capitão de navio
(o Adventure), é deixado ao mar, à deriva, até atingir a praia de
uma ilha distante, não localizada em mapas. Quem ele encontra?
Seres semi-humanos, selvagens e hostis, e belos cavalos que
parecem domesticados, mas é só aparência. É a terra dos cavalos
civilizados (os Houyhnhnm) e os quase-humanos selvagens (os
Yahoos), onde os quadrúpedes são sábios, e os hominídeos são
irracionais trogloditas. Mais sarcástico, impossível!

Os cavalos civilizados (os Houyhnhnm, 'a perfeição da natureza')
vivem tranquilos, numa vida simples, sem conhecerem a intriga,
a ambição, a má-fé, a mentira deliberada. Tranquilos, exceto pela
presença hostil e asquerosa dos Yahoos, seres quase-humanos que
vivem em conflito, em mesquinharias, em depredações. Inclusive
a palavra 'mau'(=ruim), até então inexistente, passa a ser
justamente Yahoo – a imperfeição (ainda mais em comparação
com a perfeição, os próprios Houyhnhnm. E são modestos, os
cavalos!)

O nosso bom narrador, Lemuel Gulliver passa a admirar os cavalos
sábios e gentis, e adotar os modos deles, enquanto cresce sua náusea
diante dos Yahoos (aos quais ele é ainda comparado pelos cavalos)
e de si-mesmo. “Atingi o ponto de preferir ver um Yahoo do que a
mim mesmo, tal foi a aversão que sentia por mim mesmo
.” Ao final,
os Houyhnhnm decidem – numa assembleia onde todos tem direito
a falar e a expressar opinião – que um Yahoo, mesmo que mais gentil
e civilziado, é uma ameaça a paz. Decidem que o melhor é exilar o
forasteiro.

Neste ponto da narrativa, Gulliver (e sabemos que é Swift, o Autor)
passa a horrorizar-se com a perspectiva de um retorno ao mundo
civilizado humano (que agora ele sabe ser uma pseudo-civilização)
e clama aos cavalos que permitam sua estadia no país (já quase
um Paraíso terrestre! uma Pasárgada!). Em vão. Ele precisa partir,
e é a primeira vez que não deseja retornar para a casa.

Mas, Gulliver voltou (caso contrário, não teríamos o Livro IV), não
antes de sofrer ataque de nativos e as dores de uma flechada.
Lembra seu retorno a bordo do navio do capitão português Pedro de
Mendez, navegante sério e gentil, que tenta entender o estado físico
(e psicológico) do náufrago – coisa rara! - e reanima o pobre narrador
a re-adaptar-se ao convívio com os Yahoos (sic) quase-civilizados. E
qual a primeira providência de Gulliver? Ampliar o estábulo e
adquirir belos cavalos, com os quais ele poderia conversar sem
recorrer ao uso de lisonjas e mentiras.


set/09


por Leonardo de Magalhaens


http://leoliteratura.zip.net/

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

As VIAGENS DE GULLIVER / Swift (parte1)





sobre a sátira Viagens de Gulliver
(Gulliver's Travels, de 1726/35)
do irlandês/inglês Jonathan Swift (1667-1745)

(a partir das adaptações de
Clarice Lispector (1973)
Cláudia Lopes (1998, 13a ed.)
e do original inglês em
http://publicliterature.org/books/gullivers_travels/xaa.php


A Literatura enquanto paródia e sátira

(ou como educar os leitores através do riso)

Parte 1

O uso de paródias e sátiras como um modo de educar, ao se
apresentar fatos negativos e ridículos, vem desde os clássicos
latinos, mas foi revivido pelos humanistas, após o Renascimento,
no intuito de seguir o mesmo “ridendo castigat mores” (ou seja,
rindo castigas a moral), trazendo através do riso a cura (e a
superação) dos males sociais e morais.

O 'gênero' sátira é facilmente reconhecido. Apresenta os ilustres
governantes em esboços grotescos, superlativizando as situações
bizarras, e superdimensionando as intrigas, onde todos os
protagonistas e figurantes surgem como caricaturas de defeitos
humanos, demasiadamente humanos. Os títulos são conhecidos.
Lembramos aqui os exemplos de sátiras e paródias, tais como
Don Quijote” (1604) de Miguel de Cervantes; “Pantagruel”(1532)
e “Gargântua”(1534) de Rabelais; “Cândido” (1759) de Voltaire;
os clássicos, até um “Animal Farm/Revolução dos Bichos” (1945)
de G. Orwell . Numa longa sequência de utopistas e fabulistas –
de T. Morus a S. Lem, de La Fontaine a Exupéry (autor de
Pequeno Príncipe”)(1)

Segundo a própria apresentação de Lemuel Gulliver, médico-
cirurgião e 'viciado' em viagens, sabemos que trata-se de um
narrador inquieto, observador, irônico e um tanto mentiroso
(ainda que deseje provar o contrário!), mas sem perder o charme
inglês de narrar estórias (Swift, Sterne e Defoe, são os grandes
prosadores ingleses, inspiração para toda a literatura posterior,
merecendo paródias por parte de ninguém menos que James
Joyce, nos episódios finais de “Ulysses” e na concepção labiríntica
e fragmentada de “Finnegans Wake”)

Este narrador declara ter sofrido naufrágio, e despertado numa
praia, preso por cordas poderosas (ou meros barbantes) sob o
poder de um povo de pigmeus (ou antes, seres com 1/12 do nosso
tamanho), os habitantes de Liliput, ilha-país ainda não localizado
nos mapas de navegação. Na terra dos pequenos, Gulliver é o
gigante, a causar sensação pelo tamanho e força, log o é usado
como instrumento de guerra (quando arrasta os navios da nação
vizinha – também de pequeninos – chamada Blefuscu), ou diversão
para o povo (quando as tropas desfilam sob as suas pernas, como
se ele fosse um 'arco do triunfo'!)

Vivendo entre os pequeninos e examinando o mundo deles de cima,
Gulliver percebe o problema das perspectivas. E quando os
problemas deles também são mesquinhos, insignificantes. Quem usa
salto alto ou salto baixo, ou quem quebra o ovo pela ponta maior ou
pela ponta menor. Meras insignificâncias que causam guerras. Assim
as rivalidades entre Whigs e Tories (questões partidárias), ou entre
os ingleses e os irlandeses (questões territoriais) ou entre britânicos
e franceses (questões de domínio imperialista) são ironizadas e
ridicularizadas como meras mesquinharias. (E não 'alta política'
como se vangloriam os políticos, diplomatas e líderes...)

Quando Gulliver se acostuma com seu 'tamanho' (apenas parece
'maior' em relação aos 'menores'), percebe-se no meio de uma
intriga palaciana (o rei de Liliput deseja que ele, o bom narrador,
seja o carrasco do povo de Blefuscu), e decide fugir para a ilha
vizinha. Lá, ele novamente tenta se adaptar, mas uma sorte repentina
o acolhe: um bote virado na praia é o seu transporte de volta de volta
para casa (ou pelo menos, até encontrar um navio...)

Mas, como Gulliver mesmo declara, ele é louco (literalmente?) por
viagens e desta vez encontra-se, abandonado pelos marujos em fuga,
num país onde os habitantes tem mais de 70 metros de altura!
Gigantes gigantescos, verdadeiros gargântuas e pantagruels, a
devorarem – numa refeição – lavouras inteiras daquelas dos
minúsculos liliputianos!

Aquele que foi gigante em Liliput pode ser o quase inseto em
Brobdingnag, e somente agora parece entender o que os liliputianos
sentiam sem sua presença! “Ah, como sou insignificante!” O tamanho
gigantesco também realça os mil defeitos, as mil arrogâncias daquele
povo, ainda que o rei passe a considerar – depois dos relatos de
Gulliver sobre sociedades e políticas, intrigas e batalhas de além-mar -
os europeus os “seres mais perniciosos que já rastejaram sobre a
terra”( "the most pernicious race of little odious vermin that nature ever
suffered to crawl upon the surface of the earth
." )

É esta questão das perspectivas – não há um lugar privilegiado,
uma posição ideal, para ver o mundo. O que temos é uma pluralidade
de visões: a visão do nobre versus a visão do plebeu – a visão do anão
versus a visão do gigante – a visão de cima para baixo ou a de baixo
para cima. Ora o protagnista é gigante, ora é inseto, ora é considerado
culto, ora é um mero ignorante. As referências do novo meio social
determinam seu 'status', ou seja, seu valor é social (isto é, dado
socialmente, não em si-mesmo). O que Gulliver pensa de si-mesmo
está em constante modificação, e, assim, sua sanidade está em risco.

É o custo a se pagar, pelo desejo de 'conhecer novos mundos'.
Navegar e descobrir novos mundos – é ampliar a visão que temos de
nós mesmos – as navegações trouxeram estranhamentos aos europeus
(vide os escritos de Montaigne, Hans Staden, etc, que mostrou um
outro mundo, novo e exótico – de forma que para os europeus os povos
precisavam ser 'civilizados', isto é, invadidos e explorados pela 'cultura'
europeia), que passaram a repensar o conceito formulados sobre
si-mesmos.

Enquanto a Inglaterra (e também a Espanha, Portugal e Holanda)
enviou navegadores (e piratas) ao mundo todo, o povo de Brobdingnag
não vai além da praia. Imersos em tal 'provincianismo' julgam serem
os únicos habitantes do mundo todo! (O mesmo que dizer “a terra é
o único planeta habitado no universo
”) A presença de Gulliver é a
primeira prova (que muito incomoda) de mundos outros.

Fantástico movie baseado em Gulliver's Travels
foi produzido em 1996, vejam uma apresentação em
continua...


por Leonardo de Magalhaens

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domingo, 6 de setembro de 2009

sobre ANIMAL FARM (A Revolução dos Bichos) de George Orwell





Sobre Animal Farm (A Revolução dos Bichos)(1945)
de George Orwell

Uns mais iguais do que outros

Conhecido por seu idealismo e por sua atuação prática, o escritor
britânico George Orwell, nascido Eric Blair, deixou uma obra literária
modesta, mas essencial. Ao abordar assuntos de interesse social e
político, deixou na História o seu nome como referência de luta
contra os sistemas de opressão. Celebrizado por sua obra-prima
1984”, onde o todo-poderoso e pleno-vigilante Grande Irmão,
Big Brother”, acaba de ser vulgarizado numa série de televisivos
reality shows da mediocridade midiática.

A obra literária de Orwell reflete a vivência real do autor na vida
política, além da luta física nos campos de batalha, tendo servido
na terrível e fraticida Guerra Civil Espanhola (1936-39), quando
as Esquerdas miseravelmente divididas perderam para as Direitas
heterogêneas, mas medonhamente unidas. Através de novas
experiências de organização, os Anarquistas, principalmente,
enfrentaram os 'ditos' Comunistas, centralistas e estalinizados,
enquanto os Socialistas hesitavam entre defender a República
burguesa e apoiar uma esperada (mas impossibilitada) 'revolução
proletária'. Enquanto isso, os Monarquistas, os Militares
nacionalistas, os Falangistas fascistas, os latifundiários, os clérigos
se uniam numa rebelião contra o governo democraticamente eleito
em fevereiro de 1936.

A experiência na Espanha marcou o pensamento e obra de Orwell
(assim também abalou Ernest Hemingway, que escreveu sua
obra-prima “For whom the bells tolls”/Por quem os sinos dobram,
em 1940, mostrando as perdas humanas no conflito) que passou a
defender uma espécie de 'socialismo libertário' contra o centralismo
dito comunista, enquanto resiste ao liberalismo burguês e o
autoritarismo fascista. Assim cercado por todos os lados, o homem
Orwell vem desabafar em suas obras uma série de paranóias sobre
o controle, a vigilância, as violências e sutilezas do poder. Tal um
novo Kafka, mais politizado, mas ainda alegórico, o escritor Orwell
deixa no papel suas suspeitas quanto a uma possível 'libertação
humana' caso não seja possível uma superação da exploração do
homem pelo homem.

Estas alegorias são a base de “Animal Farm”, a Revolução dos Bichos,
onde os animais se revoltam contra os patrões humanos e resolveram
gerenciar eles mesmos a Granja onde habitam. Ao ouvirem as sábias
palavras do velho porco Major (que pode ser um símbolo para Marx e
também Lenin) os animais fazem uma revolução guiada pela 'liberdade',
em prol da 'igualdade'. Mas devem aprender a 'gerenciar' as duas
instâncias metafísicas, que se limitam, que se constrangem. (O fato
de não sermos nem livres, nem iguais, é assunto para outro ensaio!)

Em Animal Farm, o Sr. Jones é a figura do opressivo poder czarista,
autocrático e atrasado, e também do capitalista explorador, que
domina a 'Granja do Solar', um espaço que podemos identificar
como a Rússia, lugar de servidão. Os animais não suportam mais
trabalhar para o conforto dos humanos e ouvem as exortações do
velho porco Major, a lembrar que todo o esforço dos bichos é roubado
pelos humanos, o inimigo de classe, isto é, dos demais animais. Num
momento de 'convulsão social', a revolução tem início, com a emoção
e idealismo a redimir as violências, até a expulsão dos exploradores.

E depois? Os grupos revolucionários podem chegar num acordo
apesar de todas as diferenças? Afinal, temos aqui porcos, ovelhas,
cães, galinhas, gansos, cabras, cavalos, burros, etc, que precisam viver
em harmonia através de regras criadas por eles mesmos e não 'dadas'
por um ser 'dito' superior. Estas regras são os Sete Mandamentos
que dizem:

"Whatever goes upon two legs is an enemy: Whatever goes upon four
legs, or has wings, is a friend; No animal shall wear clothes; No animal
shall sleep in a bed: No animal shall drink alcohol; No animal shall kill
any other animal; All animals are equal."
(O que anda sobre duas pernas é um inimigo; O que anda sobre quatro
pernas, ou tem asas, é um amigo; Nenhum animal deve vestir roupa;
Nenhum animal deve dormir em cama; Nenhum animal deve beber
álcool; Nenhum animal deve matar outro animal; Todos os animais
são iguais)

O que mostra bem que nenhuma sociedade é possível sem as leis,
os Mandamentos, desde uma tribo nômade, ou uma aldeia de
pescadores até as modernas socieades cheias de preceitos, códigos,
estatutos, leis orgânicas, constituições. O problema é: quem cria
as leis? Quem aplica as leis? Quem defende as leis? A quem as leis
acabam favorecendo? De repente as mesmas leis que 'libertam'
passam a ser novas cadeias! (É assim que Legisladores e especialistas
jurídicos se elevam acima dos demais e constituem uma 'casta
administrativa' a exigir privilégios)

As proclamações de 'todos são iguais' vem esconder que uns acabam
se tornando 'mais iguais', os porcos que se destacam por brutalidade
e velhacaria, nominalmente Napoleon, uma figura claramente
estalinista, Snowball (Bola-de-Neve), o organizador que acaba sendo
excluído, Squealer (Garganta), o relações-públicas, que usa a palavra
como instrumento de doutrinação e coerção, e assim Minimus (Mínimo),
o porco poeta, que exalta as novas regras (e os novos líderes). São
os porcos que arregimentam outros porcos (que depois serão
excluídos e condenados junto com Bola-de-Neve), além de cães de
caça (as novas forças de vigilância e repressão), para manterem
submissas as massas de produtores e proletários (as vacas, as
galinhas, as ovelhas).

Dentre os explorados, existem os que se esforçam para agradar (o
cavalo Sansão), como bons stakhanovistas, os que exercem uma
desconfiança prudente (a égua Quitéria, a cabra Maricota, o burro
Benjamin), os que seguem por vaidade ou oportunismo (a égua Mimosa,
o gato), os que buscam consolo nas crenças religiosas (ou instrumen-
talizam estas crenças, a prometer um Paraíso ou ameaçar com um
Inferno, como faz o corvo Moisés). Nesta nova “Granja dos Bichos”,
onde a liberdade e a igualdade são exaltadas, novas classes passam a
se formar, novos privilegiados se elevam assim dos demais 'iguais'.
“Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”
(“All animals are equal but some animals are more equal than others”)

Cada animal na sua função: a divisão social do trabalho possibilita
maior produção, porém cria 'nichos de especialização', de diferenciação
e poder. Uns trabalham e outros administram o trabalho. Muitos vendem
o suor, uns poucos planejam, calculam, consomem. A maioria se aliena
enquanto uns privilegiados criam novas estatísticas e metas de produção.
O operário cada vez pensa mais como operário e o administrador cada
vez como administrador. A divisão do trabalho aumenta a desigualdade.
(Se a Identidade de cada indivíduo não se prendesse a cada função
social, a cada departamento ou atividade, seria possível superar a
desigualdade e a exploração? Se uma pessoa fosse estudante num dia,
policial no outro, jardineiro no final de semana, ele seria estudante,
policial ou jardineiro? Seria uma pessoa, numa uma 'ocupação social'.
Não defenderia 'interesses de classe', pois conheceria vários tipos de
trabalho, sem se especializar, sem se alienar)

Porém tendo Napoleon se proclamado o 'líder infalível', e afastado os
demais concorrentes dentre os corruptos porcos, na lama da 'nova
classe', passa então a negociar seu 'império' com os inimigos em
potencial – os humanos! A ameaça tem nomes: o Sr. Pilkington, de
Foxwood (uma alegoria dos anglo-saxões, Grã-Bretanha e Estados
Unidos da América), e o Sr. Frederick, de Pinchfield (a representar
a Alemanha, potência imperialista, então sob o chicote nazista.)
A Revolução agora está à venda! Em acordos mediados pelo
Sr. Whymper, o negociante entre os humanos e os animais, ou entre
os capitalistas e os 'socialistas'. Napoleon dá um golpe dentro da
Revolução e negocia com Frederick (Pacto Germano-Soviético,
ou Ribbentrop-Molotov), mostrando amizade por Pilkington (os
anglo-saxões querem comércio, não?). Mas é Frederick (aqui, o
Führer) quem engana Napoleon, com fraudes, e depois vem
invadir a Granja (a invasão nazista da Rússia, a Operação
Barbarossa
), sendo derrotado na Batalha do Moinho (as batalhas
de Moscow e Stalingrado)

Mas, depois de tudo, depois de expulsar Frederick, Napoleon fica
ainda mais poderoso! Os cães fazem parte de uma ampla rede de
coerção militarizada, a inspirar suspeita e medo a todos os animais –
que se julgavam livres e iguais – enquanto as leis fundamentais vão
sendo sutilmente alteradas – para favorecer os porcos. (Quem
percebe as mudanças? Os animais mais atentos e prudentes, a
cabra Maricota, principalmente, que sabe que as coisas não são
exatamente como proclamadas pelo retórico Garganta. Por que?
Ora, os 'revolucionários' de ontem, são os 'conservadores' de amanhã.
Uma 'nova classe' de 'mais iguais que outros' sobe ao poder e
novamente aliena os 'demais iguais'.

É contra essa usurpação do poder, essa traição do ideal socialista,
que se eleva a voz de Orwell, não a favor de manter a poder dito
liberal da burguesia e sua ditadura sutil do Mercado livre (livre?
A raposa livre no galinheiro livre?) Usar as obras de Orwell como
forma de desacreditar a Revolução é uma forma de reacionarismo
burguês – vamos manter tudo igual, pois podia ser pior
! (Afinal
não 'vivemos no melhor dos mundos possíveis'? Não é assim que
insistia o Dr Pangloss a cada miséria do pobre Cândido, na obra
irônica de Voltaire?) Orwell, mesmo acreditando em 'liberdade',
insiste na igualdade de oportunidades e de acesso às rodadas de
decisão política. (Difícil é a convivência de 'livre' e 'igual' – ambas
aspirações ideais, que se inviabilizam na prática social. Ser livre
para ser desigual? Agir coletivo em funções iguais?)

O socialismo almeja ser melhor que o capitalismo – não um sistema
de produção, de estatismo, de centralismo, de planificação, de
concorrência – mas de superação da Alienação e da Mais-Valia,
dois flagelos que destroem as potencialidades humanas e reduzem
todos à condição de engrenagens servis de uma sistema mercenário
de exploração e oportunidades desiguais. Os bens já não existem
para todos (devido à carência) e para piorar um grupo se apodera
em prejuízo dos demais! Uns mais iguais do que outros, uns mais 'livres'
do que outros, uns mais 'sublimes' do que outros, de forma cruel, da
qual certamente os animais se envergonhariam, até mesmo os porcos.


Ago/09


Por Leonardo de Magalhaens

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domingo, 30 de agosto de 2009

sobre 'as pedras não morrem' - novela de Miriam Mambrini



sobre a novela “as pedras não morrem
(Bom Texto, 2004)
de Miriam Mambrini

A Permanência na Memória


Considerando-se os limites da definição 'novela' como um
romance contido, reduzido, menos extenso que as epopéias
clássicas e os calhamaços do Romantismo, quando o gênero
'novel' pode ser (para os anglo-saxões) o que é 'roman' (para
os demais, de franceses a russos), é de se esperar que quando
o autor diz 'novela' quer modestamente se eximir do 'fardo'
de escrever um 'romance'.

Talvez culpa das novelas televisivas, primeiramente globais,
e depois da concorrência, o leitor imagine que novela é um
emaranhado de personagens e situações, que uma dentro da
outra, uma ao lado da outra, até de forma confusa, faz protelar
o final do enredo, para garantir a audiência e os patrocinadores
do horário nobre. Mas 'novela', em termos literários, é um
'quase romance', um experimento de narração entre o conto
extenso e o romance propriamente dito. Não só em extensão
mas também em complexidade.

O que de forma alguma desmerece a 'novela', pois o fato de
ser conciso marca mais profundamente o leitor do que as
grandes narrativas (quem se lembra de todos os personagens
de “Guerra e Paz”? Ou de todos os lugares e situações de
Moby Dick”?) A novela facilita um entendimento e identificação
sem ser superficial, o que agrada principalmente ao público
jovem (daí a 'literatura infanto-juvenil' ser basicamente
constituída de 'novelas') Um primeiro contato com a Literatura
deve se dar por intermediação do texto mais linear, sem obrigar
o jovem a ler de imediato um “Os Maias”, ou um “Grande Sertão:
Veredas
”.

Todo este prólogo é para apresentar uma leitura da novela “as
pedras não morrem
” da autora Miriam Mambrini, que escreve
com leveza e objetividade, quase para um público jovem, mas
para além destas limitações e rotulações. Visando basicamente
'contar uma história', como muitos, hoje em dia, evitam. Se
perdem em metalinguagens, hesitações e elucubrações, mas
enredo, estória, que é bom, nada! Fiel a uma escrita narrativa
básica, mas lúdica, sedutora, curiosa, a Autora busca conquistar
por uma técnica de 'enredos dentro de enredos'.

O que seria este 'enredo dentro de enredo'? Basicamente, o
fenômeno já descrito pelo italiano Umberto Eco, com múltiplas
exemplificações, quando uma voz narrativa narra sobre si-mesma
e sobre outros, e por sua vez apresenta outra voz narrativa e
assim por diante, igualzinho aquelas 'matrioskas (mãezinhas)
russas', uma boneca sempre contendo uma menor, e outra menor...
Os níveis narrativos se encaixam, distanciados em tempo e espaço,
mas unidos por uma analogia, metáfora, identificação. É quando
uma personagem se identifica com outra, passa a observar a
vivência de outra – e o leitor ao mesmo tempo observa as
vivências de ambas.

Outras obras que usam o recurso da 'obra dentro da obra', em
paralelismo e encaixamento, onde alguém encontra (ou escreve)
um manuscrito/obra que narra uma estória, e este alguém narra
a própria vida enquanto lê a outra obra, e, por sua vez, tudo é
abarcado pela visão do Leitor, são, por exemplo, “A ilustre Casa
de Ramires
”, de Eça de Queiros; “História do Cerco de Lisboa”,
de José Saramago; “O Pêndulo de Foucault”, Umberto Eco; e
também “O dia do Curinga”, J. Gaarder), obras plurinarrativas,
metalinguísticas que recompensam o Leitor dedicado.

Em “as pedras não morrem” temos três níveis narrativos – três
enredos acontecendo – em encaixamento. Temos o jovem Gabriel,
estudante provinciano enfrentando a cidade grande, que, quando
decide comprar um computador, é incentivado a escolher um
modelo já ultrapassado (ainda mais com essa tecnologia
apressadinha, onde mal se acostuma com um modelo de
equipamento já temos outro no mercado...), o velho modelo XT, e
depois de ligar a máquina, descobre um arquivo com o sedutor
nome de “Máscara”.

Já o arquivo “Máscara” parece ser uma espécie de diário de uma
jovem, a Irene, que narra sua vida, principalmente após encontrar,
no quarto de despejo, um baú, com objetos a despertarem todo
um passado, a imagem da avó paterna, falecida em acidente, em
jovem idade. A avó também chamada Irene (“Essa Irene deve ser
minha avó de quem herdei o nome
.”) E sabemos que a jovem Irene
sofre também com a perda recente do pai – ou seja, a morte torna-se
uma espécie de 'personagem' dessa narrativa de ausentes tão
presentes!

Ao tentar 'resgatar' a avó Irene do esquecimento (que é uma
segunda morte) a jovem Irene reconstrói, nas escrita, a vida curta
da falecida, que apagou-se jovem após um acidente até banal em
Dresden, cidade alemã, em 1931. Uma viagem turística que torna-se
tragédia: a gratuidade da fatalidade. A morte do pai, a morte da
mãe do pai: a tão presente ausência dos entes falecidos. Mas Irene
sabe que os mortos somente se mantêm vivos em nossa memória.
(“eles não vivem senão em nós”, escreveu Carlos Drummond de
Andrade, em “Convívio”)


É esta permanência da Memória que interliga as personagens, nos
três níveis espaço-temporais. É um Gabriel que se identifica com
Irene, a jovem, que se identifica com a Irene, a avó, que morreu
jovem. Uma avó que nem chegou a ser a imagem tradicional da
avó: a boa velhinha que nos recebe de braços abertos. Essa perda –
de alguém que nem conhecemos – causa uma angústia imensa na
jovem Irene, que passa a conversar com este 'fantasma' do passado,
corporificado numa máscara mortuária feita de gesso. Irene, de
repente, percebe-se presa a este passado – precisa desesperadamente
reconstruir a vida breve da avó. Indiferente ao conselho materno de
não se prenda ao passado”)

Em nível metalinguístico, temos as várias referências ao ato de
escrever diário, ao lado de citações de Fernando Pessoa (ou mais
precisamente, Ricardo Reis, e seus poemas mórbidos meditativos),
o conhecido 'poeta-fingidor', que usa máscaras (ou heterónimos)
para expressar seus múltiplos Eus (“multipliquei-me para me sentir”
e “pensar em escrever-te é fragmentar-me”), onde a Poesia se
confunde com a Dramaturgia, as várias almas do Poeta soltas e
berrando e filosofando pelo palco da existência! Estas des-persona-
lizações atinge a jovem Irene: ela passa a se identificar tanto com
a avó Irene, que tenta escrever em 1a pessoa, na perspectiva da
falecida. Assim ousa 're-criar' a morta, ressucitando-a (de forma
a libertá-la!) na Escrita.

Esta 're-criação' é o que muito confunde ( e deixa ainda mais
curioso!) o jovem Gabriel, que descobre-se seduzido pela narradora,
ainda que ele comece a pensar que o 'diário' é, na verdade, um
'romance' – o que estamos lendo! - uma mera ficção, “Ela
inventara a história da moça que encontra por acaso a máscara
mortuária da avó
”. Mas Gabriel, ainda que duvidando, não deleta
o arquivo, ao contrário, pensa ainda mais na narradora, “Com raiva
de si mesmo, percebeu que, ficção ou realidade, Irene ainda ocupava
todo o seu pensamento
”) Até que, no final, Gabriel decide conhecer
a Irene 'real', a se confrontar com a realidade e se afastar da Irene
fictícia, 'virtual'.

Diante do 'real' – Gabriel encontra a mãe de Irene - ele descobre
que Irene existe mesmo!, e se casou também (!) com um geólogo,
e viajou também (!) para Dresden – isto é, ela ainda tenta repetir a
vida da avó, de forma a 'redimir' a morte precoce. Morte esta que é
rememorada em versos de poemas de Ricardo Reis, “Tão cedo passa
tudo quanto passa! ... Circunda-te de rosas, ama, bebe E cala. O
mais é nada.” A morte precoce da avó – que morreu jovem, nunca
conheceu a velhice. “Breve o dia, breve o ano, breve tudo.” e “Nada
fica de nada. Nada somos
.” Exceto a memória para os outros. Vide
o caso de Homero, o grego. Mesmo não-existente, existe para
os Leitores.


O confronto entre o vivido e o lembrado, a juventude e a finitude,
é simbolizado pela rosa que logo definha, “Coroai-me de rosas”,
diz o Poeta, a pregar em seguida o Carpe Diem, aproveitar o dia de
hoje, “Mas tal como é, gozemos o momento, Solenes na alegria
levemente, E aguardando a morte Como quem a conhece
.”, pois a
Poesia (e a Filosofia) nada mais é do que o preparar-se para a
Finitude. (De repente, nada há além disso. Só os 'deuses' hão de
saber!)

A obra 'as pedras não morrem' de Miriam Mambrini brilha pela
ausência de pretensão, pela escrita elegante e simples, seduzindo
o Leitor com um enredo ora lírico ora labiríntico, destinado a uma
ampla gama de leitores, de idades várias, classes sociais e épocas,
pois está além de rótulos e delimitações de 'estilo', desejando pura
e simplesmente contar uma história que desperte emoção a educar
nossos pensamentos alienados e anestesiados pela mesmice.



Ago/09



por leonardo de magalhaens

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Os Poetas mentem demais (Nietzsche)






Friedrich Nietzsche, filólogo, pensador e Poeta alemão
(15 de outubro de 1844 - 25 de agosto de 1900)



NIETZSCHE

ASSIM DISSE ZARATHUSTRA

DOS POETAS
(trecho)


(...)

Mas aceitemos que já tenha sido dito, seriamente, que os
poetas mentem demais: e com razão – NÓS mentimos demais.

Também pouco sabemos e mal aprendemos; assim,
precisamos mentir.

E quem dentre nós, poetas, não tem alterado o seu vinho ?
Muito veneno se misturou em nossas adegas, muito de
censurável se fez.

E por sabermos tão pouco, gostamos, de todo o coração,
dos pobres de espírito, especialmente se são mulheres jovens.

E assim somos ávidos até das coisas que as velhas, à noite,
contam uma às outras. Chamamos a isso, em nós, o eterno
feminino.

E, como se houvesse um acesso especial e secreto ao saber,
Inacessível aos que aprendem algo: acreditamos no povo e
na sua ‘sabedoria’.

Mas nisso acreditam os poetas: que aquele que, deitado
na grama ou em solitária colina, aplica o ouvido, aprende um
pouco das coisas que há entre o céu e a terra.

E, quando se tomam de ternura, os poetas sempre julgam
que a natureza se apaixonou por eles –

E que se insinua em seus ouvidos; com segredos e amados
elogios dos quais, orgulham-se e vangloriam-se diante de todos
os mortais!

Ai de nós, há tantas coisas entre o céu e a terra com que
somente sonharam os poetas !

E principalmente acima do Céu: pois todos os Deuses são
metáforas e artimanhas de Poetas!

Em verdade, algo nos guia para o alto – precisamente, para
o reino das nuvens: nelas pousamos os nossos trajes em cores
e, então, chamamos-lhes deuses e acima-dos-homens.

E deveras, todos são leves para tal sede – esses deuses e
acima-dos-homens !

Coitado de mim, estou cansado de todos esses insuficientes,
em pretenso Acontecimento. Coitado de mim, como estou
cansado dos poetas !

(...)

Assim disse Zarathustra.


Trad. livre: Leonardo de Magalhaens


Friedrich Nietzsche - Also sprach Zarathustra

Von den Dichtern

(...)
Aber gesetzt, dass Jemand allen Ernstes sagte, die Dichter lügen
zuviel: so hat er Recht, — wir lügen zuviel.
Wir wissen auch zu wenig und sind schlechte Lerner: so müssen
wir schon lügen.
Und wer von uns Dichtern hätte nicht seinen Wein verfälscht?
Manch giftiger Mischmasch geschah in unsern Kellern, manches
Unbeschreibliche ward da gethan.
Und weil wir wenig wissen, so gefallen uns von Herzen die geistig
Armen, sonderlich wenn es junge Weibchen sind!
Und selbst nach den Dingen sind wir noch begehrlich, die sich die
alten Weibchen Abends erzählen. Das heissen wir selber an uns
das Ewig-Weibliche.
Und als ob es einen besondren geheimen Zugang zum Wissen
gäbe, der sich Denen verschütte, welche Etwas lernen: so glauben
wir an das Volk und seine „Weisheit.“
Das aber glauben alle Dichter: dass wer im Grase oder an einsamen
Gehängen liegend die Ohren spitze, Etwas von den Dingen erfahre,
die zwischen Himmel und Erde sind.
Und kommen ihnen zärtliche Regungen, so meinen die Dichter immer,
die Natur selber sei in sie verliebt:
Und sie schleiche zu ihrem Ohre, Heimliches hinein zu sagen und
verliebte Schmeichelreden: dessen brüsten und blähen sie sich
vor allen Sterblichen!
Ach, es giebt so viel Dinge zwischen Himmel und Erden, von denen
sich nur die Dichter Etwas haben träumen lassen!
Und zumal über dem Himmel: denn alle Götter sind Dichter-Gleichniss,
Dichter-Erschleichniss!
Wahrlich, immer zieht es uns hinan — nämlich zum Reich der
Wolken: auf diese setzen wir unsre bunten Bälge und heissen sie
dann Götter und Übermenschen: —
Sind sie doch gerade leicht genug für diese Stühle! — alle diese
Götter und Übermenschen.
Ach, wie bin ich all des Unzulänglichen müde, das durchaus Ereigniss
sein soll! Ach, wie bin ich der Dichter müde!
(...)

Also sprach Zarathustra.