segunda-feira, 24 de junho de 2013

+ Próximos Ensaios em MEU CÂNONE OCIDENTAL +




Próximos Ensaios sobre Obras clássicas
em


MEU CÂNONE OCIDENTAL


Notas do Subsolo [ Memórias do Subterrâneo ] -
F. Dostoiévski [Rus]


Fome – K. Hamsun [Nor]


O Lobo da Estepe – H. Hesse [Ale]


Pergunte ao Pó – J. Fante [EUA]


Angústia – Graciliano Ramos [Bra]


A Náusea – J.- P. Sartre [Fra]


O Estrangeiro – Albert Camus [Fra]


O Grande Gatsby – F. Scott Fitzgerald [EUA]


Herzog – Saul Bellow [EUA]


A Consciência de Zeno – I. Svevo [Ita]


O Livro de Daniel – E. L. Doctorow [EUA]


Complexo de Portnoy – P. Roth [EUA]


Pedro Páramo – Juan Rulfo [Mex]


A Laranja Mecânica – A. Burgess [UK]




& outras




LdeM

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Sociologias (ou: conversa com meu professor) - conto LdeM






Sociologias (ou: Conversa com meu professor)


Isso foi o que o Thalis me contou. Vou anotar tudo. Ele fala demais, eu vou resumir. Vou ouvindo “Everyday is like Sunday” do Morrissey. Vai ser um conto. Isso. Ordenar as ideias, direto ao ponto. Para ele não dizer que mulher é que fala demais.

Thalis recebe um telefonema de um amigo. O Denio. Sobre um documentário lá no Palácio das Artes. Sobre a África, cultura africana, literatura.

Era uma noite chuvosa. E Thalis está sem carro, logo vai de ônibus. E ele vai e erra o ônibus, não era o itinerário da Afonso Pena, mas o da Amazonas. Foi isso. Quando ele percebeu ele já estava ao lado da praça Raul Soares. Desceu. Tratou de atravessar a praça, sozinho sozinho, a admirar o chafariz, as silhuetas dos edifícios, o letreiro no alto do Edifício JK, quantas horas, etc.

Aí o Thalis segue a Augusto de Lima, e vai que vai, a admirar o ar greco-romano do Minascentro, os reflexos no lençol d'água, as palmeiras, etc. E as ladies e os gentlemen junto às colunas e pilares. Era noite de gala. Formatura, certamente.

Quem é o Thalis? Um professor de História. Mestrado em História do Século 20. O chamado 'Era dos Extremos'. Um sujeito de classe média, solteirão, por mais que tenha alunas de olho nele. Não gosta de pobreza e despreza a riqueza. Ou melhor, não quer que os pobres continuem pobres, não quer dever nada aos ricos. Gostaria que o mundo fosse mais uniforme economicamente. É um socialista reformista – não apoiaria qualquer revolução. Entenda-se: algum levante armado, subversivo. Ele acredita nos meios políticos. É um cara com pé no chão. Seu passado é que é utopista.

Pois o Thalis seguia a Augusto de Lima, avenida da Imprensa Oficial, e do Edifício Maletta, por isso ele olha ao redor, procura conhecidos nos bares. Algum boêmio a iniciar a jornada noturna de bar em bar. Do Edifício Maletta ele poderia chegar à Rua da Bahia, aos bares, a ladeira que sobe para a Praça da Liberdade, passando pela porta da Academia de Letras. Mas ele segue rumo a Faculdade de Direito, passa diante do 'Castelinho', hoje um Centro de Cultura. Algo de gótico e exagerado no mini-castelo que já foi Câmara Municipal e Museu de Minerologia. Cartão-postal, claro.

Thalis passa diante da Faculdade de Direito, e desce na lateral do Automóvel Clube. Ali estão mais ladies e mais gentlemen, sim, damas e cavalheiros andando sobre tapete vermelho, ao som de orquestra, não!, de uma bossa nova, e lá estão os porteiros, corvos elegantes, enormes afro-descendentes mal-encarados, os homens-guarda-roupas, sim!, ali os pobres a protegerem os privilégios dos ricos. Palavras de Thalis, que acrescentava, Agora os burgueses estão mesmo posando de nobres, o que mais tem é madame com pose de Maria Antonieta, “que comam brioches”!

Ele seguia e seguia, passou assim diante da figura neo-clássica do Conservatório de Música. Diante do Palácio das Artes. Enfim, o Palácio. O centro da Arte burguesa, ele dizia. Ali a fila para os ingressos. Aquelas figuras de nobres, de burgueses e de plebeus. Alguns proletários e estudantes desgarrados. Uma classificação não apenas sócio-econômica, ele se dizia. Um tipo pode ser pobre, mas carregado de um ar, digamos, aristocrático. E outro sujeito pode ser rico, e ser um tremendo de um vulgar.

E os burgueses podem ser de dois tipos, ele dizia. Aqueles integrados, de família tradicional, em pena carreira. E aqueles descolados, que são mais jovens, com dinheiro mas aparentam um ar marginal, como se fossem todos uns artistas boêmios, afro-culturalistas ou neo-hippies, ou neo-beatniks, sabe-se lá.

Já os nobres, Thalis assim dizia, bem, estes são os de porte nobre, óbvio assim! Mantêm um ar digno, olham de cima para baixo, são superiores, independentes, não ficam se mostrando como os burgueses, mas preferem perambular, observando, sim, apenas observam. Enquanto os plebeus são os inquietos, os irônicos, os que chamam atenção – junto com os jovens burgueses descolados. Uma teoria e tanto, a do Thalis. Ele amava as aulas de Sociologia, percebe-se.

Assim a tipologia social e assim a decadência, ele continuava, sem se empolgar, como se fosse uma aula. Os nobres são motivos para ironias, os burgueses dispensam a dignidade, pensam apenas em ostentar, e os plebeus passam a querer o poder – daí ocorre o rodízio das elites. Acho que ele esta lendo Pareto... E ele pensava tudo isso enquanto esperava na fila para conseguir o tal ingresso. Ele estava sozinho mesmo rodeado de gente. (Sentiria saudades da Mayara? Ela que foi a antiga baby dele... Uma aluna da Pedagogia, segundo ele me disse uma vez...)

Ele continuava, como bom leitor de Sociologia. Na França, os nobres e o clero foram derrubados pela burguesia e pela plebe não-burguesa; enquanto na Rússia czarista, os nobres e o clero derrubados pela burguesia, principalmente os intelectuais, e os plebeus comunistas, e depois os comunistas do Partido-Estado derrubaram a burguesia. Ele repassava toda uma aula, ali na fila do ingresso, convenhamos.

Então o rodízio de elites, quando a elite A não sustenta o poder, perde a seriedade e a dignidade, e então é substituída pela elite B, e antes irônica, sarcástica, crítica mesmo, então torna-se base da 'nova ordem', da nova moral e das novas leis. A elite precisa se levar a sério – senão quem vai levá-la a sério? Ou os dominantes acreditam em si mesmos ou são derrubados pelos dominados. Thalis esboçava uma aula excelente ali, sério.

Entrou para ver o documentário, mas não tinha mais cabeça para isso. Não que o tema não fosse interessante. Literatura africana, por exemplo. Os autores africanos não separavam escrita de ideologias, não viviam em torres-de-marfim, mas descreviam as realidades de seus países colonizados pelos europeus, e o triste cotidiano com lutas de classes, guerras civis, preconceitos, apartheids, massacres, limpezas étnicas, etc, coisa triste mesmo. Como ele poderia ficar ali a digerir tudo aquilo? A ideia do Denio fora boa, excelente até. Mas o humor de Thalis não ajudava.

O jeito seria se explicar com Denio depois. Afinal, o amigo era da pós-graduação e sabia tudo de África e Ásia, e descolonização pós-Segunda Guerra, e novas Elites, e estatismos e comunismos, e totalitarismos. Ainda mais sobre colonização portuguesa na África. Leitor assíduo de Mia Couto e Agostinho Neto. Um sujeito e tanto, o Denio. Muito cabeça! Mas não tem a sedução do Thalis, claro.

Então o Thalis voltou para casa. Só fui encontrar o professor no dia seguinte, mas ele continuava ruminando o lance todo. Volta pra casa sem carro em Belo Horizonte é um drama. Belorizontinos que o digam. As meninas que o digam, é o sufoco! Primeiro sair em busca do ponto de ônibus perdido, e do ônibus perdido. E tropeçando na escória noturna – gente oferecendo coisas, ou o próprio corpo. Mendigos, ambulantes, poetas, ladrões, loucos, policiais, seguranças, porteiros, famílias que voltam para casa, e famílias que perderam o rumo de casa, traficantes, jovens sem eira nem beira, mocinhas sem rumos, travestidos em busca de parceiros, em suma, uma galera de refugos que a noite revela.

Thalis chegou em casa após uma hora de perambulações e se jogou na cama. Vestido e etc. A meditar: como fazer uma sociedade melhor com tanta indignidade? Com um povo que não se percebe explorado? Como criar um socialismo digno não totalitário? Um socialismo edificado de baixo para cima? Como educar o povo? Quem educaria o povo?

E como converter os cultos burgueses sem revolução? Como salvar a civilização pela educação? Como evitar os conflitos que derrubam as melhores mentes aprisionados em masmorras e torturadas até a morte? Como fazer? Thalis, segundo ele dormiu pensando nisso. De jeans, colete e tudo. Com o fardo da noite e do mundo nas costas. Como criar um novo sistema se as pessoas esquecem de algo vital : a própria dignidade?


No dia seguinte chamei o professor para sair. Ele todo desanimado. Nem escrevia, queria que eu escrevesse. Que eu encontraria as palavras. Não sou uma boa aluna? E só agora tive tempo. Vou ouvir mais Smiths e relaxar. Depois termino isso. Ele não terminou. E a História ainda não teve um fim.



mai/12

[primeira versão: nov/08]



Leonardo de Magalhaens






quarta-feira, 24 de abril de 2013

2 poemas de Affonso Romano de Sant'Anna






OS POEMAS QUE NÃO TENHO ESCRITO


Os poemas que não tenho escrito
                                                 porque
trabalhando num banco me interrompiam a toda hora
ou tinha que ir à venda e à horta
                      — quando o poema batia à porta,
os poemas que não tenho escrito
                                                 por temer
descer mais fundo no escuro de minhas grotas
e preferir os jogos florais
                 de uma verdade que brota inócua,
os poemas que não tenho escrito
                                                porque
meu dia está repleto de alô como vai volte sempre obrigado
e eu tenho que explicar na escola o verso alheio
quando era a mim próprio
                                     que eu me devia explicado,
os poemas que não tenho escrito
                                                porque gritam
ou cochicham ao meu lado
                        ligam máquinas tocam discos e ambulâncias
passam carros de bombeiro e aniversários de criança
                                   e até mesmo a natureza solerte
se infiltra entre o papel e o lápis
                          inutilizando com sua presença viva
                          minha escrita natimorta,
os poemas que não tenho escrito
                                                                    porque
na hora do sexo jogo tudo para o alto
e quando volto ao papel encontro telefonemas e prantos
a exigência de afetos, planos e reencontros
me deixando lasso o pênis e um remorso brando no lápis
esses poemas que não tenho escrito
como um ladrão escapando pelas frestas
ou covarde devorado por seus medos
                                                     e persas
esses poemas que não tenho escrito
                                                      esses poemas
estão lá dentro
                      me espreitando
alguns já ressecados
                               outros ressuscitando
outros me acudindo
                             muitos me acenando
                                                            batendo à porta
                                                            — me arrombando
                             me invadindo a sala
                             com falas corretoras
                             enciclopédias e planos
esses poemas estão lá dentro
                                            latentes
                                            me apertando
                                            atando
                                            sufocando
e qualquer dia me encontrarão
                                            roxo e acuado
                                            senão boiando e afogado
— numa sangria de versos desatada.




Affonso Romano de Sant'Anna


...


O HOMEM E O LIVRO


                                               1

Deixando a sala acesa, aberto o livro,
venho para a clara noite escura.

-Quantas horas gastei sobre essas letras?
   enquanto lá em cima se inscrevia o tempo
   no inalcançável sentido dos cometas?

Uma por uma as estrelas me iluminam e me sufocam.
Eu pareço uma traça
                     fazendo furos pelas páginas e trevas
                     para chegar ao branco céu
                                                  -inscrito no papel.

-Quantas manhãs perdidas
                            e dessangrados crepúsculos no mar!

-Quanto tempo esvaído
                        com os olhos na mesa, no livro, na escrita
me furtando ao sol da pele,
                        à luz das montanhas,
                        à vida se escoando entre insetos
                        e águas na ramagem,
                        sem que, na sala,
                        corpos e objetos dialogassem.

Sem que meu corpo e outros se tocassem,
sem que o corpo de si mesmo apercebesse,
só esta cabeça
                      - férvida cratera
derramando lavas frias de um vulcão boquiaberto.


                                               2

Sempre invejei a pedra,
                           a água,
                               as árvores,
                                      as coisas
                                             sobre o tempo.

Estáticas umas,
alheias outras,

                      sorvendo interna-dura-e-eternamente
                      a sua passiva/idade,
                                               enquanto os homens

brotam cogumelos nas peles carcomidas,
mineram seus pesadelos com a garganta ressequida,
desfolham rubra angústia e se esboroam num árido gemido.

Formigas não escrevem poemas para se salvar no tempo.
Por isto as esmagamos com os passos, iguais àqueles
com que nos esmagam os deuses, alheios
aos versos que escrevemos contra a morte na parede.

Não posso dizer que não tenha visto o mundo
a sua sordidez,
                    as flores da manhã,
                                  o estonteante entardecer,
alguns dos mais belos corpos do meu tempo,
alguns dos mais nobres gestos sem história.

Mas às vezes
                     invejo
                            aquele homem de mármore
                                talhado no terno branco,
que só
           na mesa
                         toda  tarde
                                         sorve sua cerveja
                                         como um artesão
                                         ante sua obra,

                                         alheio ao caos da rua,
                                         alheio ao caos do bar,

                                         e alheio ao caos urbano
                                         que nos devora a urbe e o orbe.




                                        3


E noite adentro abro livros de poesias
e pasmo e sôfrego, deslumbrado:
-  esses que ontem (me) escreviam, mortos!
-  esses ignorantes antigos,
como sabiam das coisas!

Já nem me refiro a Empédocles escolhendo a morte num vulcão
ou à invejável intuição de Espartacus
conduzindo milhões de escravos na guerra da libertação.

Olho naquele canto ali
                              - os mestres mineiros
                              e a fina pedra de toque da ironia.

A grande poesia desce as montanhas de Minas:

Murilo, Rosa E Drummond
- meus dispenseiros -
abastecem-me de eternidade.





Affonso Romano de Sant'Anna



in: Que País é Este? e outros poemas / RJ, 1980




mais info & poemas






video / entrevista


sexta-feira, 19 de abril de 2013

2 poemas de Claudio Willer






Claudio Willer


A Palavra
(de 'Estranhas Experiências')


vocês não entenderam nada, vocês não sabem nada
poesia não é querer escrever bem
poesia é o que eu ainda irei relatar em prosa
poesia é o que ainda pretendo escrever
para depois reler e dar risadas, imaginando o espanto de quem vier a ler o que
escrevi
poesia é velocidade
do disparo de revólver verdadeiro, da janela, no automóvel que ia passando
por aquele alvo escolhido ao acaso,
poesia é som,
o áspero ruído do gume de diamante sendo testado por dois especialistas em
arrombamento na vitrina daquela loja de armas a 80 m. de distância de uma
delegacia (eu esperava no carro) (se houvesse cedido, levávamos tudo)
poesia é luz
daquelas janelas abrindo-se todas ao mesmo tempo, todo mundo acordando
para ver que espécie de confusão era essa, o que aquele bando de malucos
fazia na rua àquela hora
poesia é noite
a outra noite, aquela (no HC, minha pressão caiu, e depois ainda tive que dar
a notícia aos amigos)
poesia é dizer
é ela dizer: "como você me revoluciona por dentro"
poesia é escrever
com um cuidado enorme, pesando cada palavra, para não me declarar réu
confesso
poesia é névoa
de fumaça enchendo o quarto, todo mundo a dar risadas sem conseguir parar
poesia é porrada
algo bem melhor do que briga de
scholars, aqueles da outra universidade
contra esses desta,
poesia grossa (cacete rombudo, que tal esta imagem?)
poesia é isso, é isto, também é aquilo, é agora
poesia é o que sempre soubemos
o conhecimento animal
um núcleo raivoso anterior à Queda
- Gnose
estou falando de filosofia, de essência,
uma exploração do desconhecido pelo corpo, através do corpo,
o Marquês de Sade nem precisava daquele teatro todo
o que sei é onde penetrei,
- o telefonema que me traz lembranças de trinta anos atrás, de ontem, de agora, seu
som a vibrar neste ar parado de noite antes de mais uma tempestade -
nada me interromperá
sempre usei uma linguagem direta,
Prometeu, Fausto
não quero falar, quero ser dito
sejamos densamente humanos
como a chuva
no ar saturado de excesso
parto ao encontro do núcleo selvagem de qualquer coisa
diamante ou lágrima perdida no fundo do bosque
ex-deusa
assim me despeço
mas eu a reencontrarei
lunar
resta saber o sonho, parábola da vida



…




POÉTICA


1

então é isso
quando achamos que vivemos estranhas experiências
a vida como um filme passando
ou faíscas saltando de um núcleo
não propriamente a experiência amorosa
porém aquilo que a precede
e que é ar
concretude carregada de tudo:
a cidade refletindo para sua hora noturna e todos indo para casa ou então
marcando encontros improváveis e absurdos, burburinho da multidão circulando
pelo centro e pelos bairros enquanto as lojas fecham mas ainda estão iluminadas,
os loucos discursando pelas esquinas, a umidade da chuva que ainda não passou,
até mesmo a lembrança da noite anterior no quarto revolvendo-nos em carícias e
expondo as sucessivas camadas do que tem a ver – onde a proximidade dos
corpos confunde tudo, palavra e beijo, gesto e carícia
TUDO GRAVADO NO AR
e não o fazemos por vontade própria
mas por atavismo


2
a sensação de estar aí mesmo
harmonia não necessariamente cósmica
plenitude muito pouco mística
porém simples proximidade
da aberrante experiência de viver
algo como o calor
sentido ao lado de uma forja
(talvez devesse viajar, ou melhor, ser levado pela viagem, carregar tudo junto,
deixar-se conduzir consigo mesmo)
ao penetrar no opalino aquário
(isso tem a ver com estarmos juntos)
e sentir o mundo na temperatura do corpo
enquanto lá fora (longe, muito longe) tudo é outra coisa
então
o poema é despreocupação


...

mais poemas de

Claudio Willer

em




quinta-feira, 11 de abril de 2013

4 poemas de Geraldo Carneiro





GERALDO CARNEIRO



in: Poemas Reunidos – RJ, 2010




balada do impostor


sou um impostor, um dia saberão
que simulei tudo o que sempre fui.
sou uma ficção, meu sangue é só linguagem
meu sopro é uma explosão que vem de dentro
em forma de palavra.
quando já não foi mais, serei eu mesmo.
enquanto tardo, trapaceio contra o tempo,
a máquina que vai me devorando,
e vou passando como tudo passa
em busca de uma graça que ultrapasse
o círculo da minha circunstância
o espelho que não seja senão o outro
esse que me habita e que me espreita
e, não sendo eu, me acata os meus espantos



in: balada do impostor [2003-2006]


...


a penúltima fantasia


como dizia o Frederico Nietzsche,
falando a propósito de si mesmo,
sou uma nuvem que navega a esmo,
cheia de relâmpagos que dizem sim.
às vezes sou cumulus-nimbus,
às vezes desço ao rés-do-chão dos limbos,
onde me embriago de ópios e cronópios;
às vezes desço mais, até os infernos
e provo dos horrores pós-modernos;
outras vezes, enfim, ascendo ao empíreo
sob o império do amor e vejo estrelas,
sonho vias-lácteas, tantas coisas belas;
nesses instantes, minha caravela
parece navegar por ultramares
as velas enfunadas pelos olhos teus
ou pelo sopro de um provável Deus.




In: lira dos cinquent'anos [1996-2002]



…



abaixo a realidade


já recebi a safra da poesia
que me cumpria receber da vida.
vivo instalado no meu minifúndio
(o João Cabral é um latifundiário)
tramando extravagâncias que ainda hei
de cometer ou não,
depende só das dúvidas dos deuses,
por que uma coisa é líquida e incerta:
não há razão por trás da natureza.
Camões falava já do desconcerto
diante das coisas podres deste mundo,
destes poderes ainda cá prestantes
pra nos prestar serviços tão infames.
não vou gastar a minha poesia
celebrando os canalhas do poder.
as musas foram feitas para o sonho,
a dança, a escultura, as coisas belas,
no máximo a volúpia da epopeia.
o resto é resto, terra devoluta
onde esses vermes nunca se revoltam
mas se revolvem nessa lama abjeta.



In: lira dos cinquent'anos [1996-2002]


…



Maldoror


a dor do mundo dói dentro de mim.
ressoam no meu céu todas as dores
de torturados e torturadores.
a dor do amor perdido e reencontrado
as dores do futuro e do passado.
o fado, o enfado, o fardo da existência,
a dor do bardo, a dor de W. Shakespeare,
a dor imensa de Isidore Ducasse,
o espanto de seus cantos Maldoror.
a dor de Dante, da pátria perdida,
o horror supremo de Edgar Allan Poe,
o horror da dor, o horror do nevermore.
o horror de Conrad, pós-apocalíptico,
o horror do crítico, o horror do político.
o horror devastador e democrático.
o horror da acrópole, do bar e dos bas-fond
eu sinto o horror e sei qual é o seu som.




In: lira dos cinquent'anos [1996-2002]



…


GERALDO CARNEIRO


in: Poemas Reunidos – RJ, 2010




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by LdeM