sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

sobre audito - poemas de Flávio Castro




sobreaudito(CL Edições, 2009)
poemas de Flávio Castro
(Porto Alegre, 1966-)

Quando a sugestão ressoa mais que a descrição

Intro

Em dado momento refletimos sobre o quanto se diferenciam poesia e artes plásticas, entre palavras-evocantes e imagens-representadas, quando algo é imaginado, ou representado e quando algo é visualizado, o imaginário diante do observado. Dizemos, por exemplo, a palavra 'mar' e lembramos de uma cena ou quadro onde está o que denominamos 'mar'. O mar em si-mesmo e o mar enquanto mimèsis. Ondas revoltas numa praia ou um calmo espelho azulado de águas paradisíacas. Temos um conjunto de sons e temos um cenário ou imagem.

Como pode um poema ser imagético além de evocar imagens? Como pode ressaltar as imagens além da mensagem? Antes, como pode converter a imagem na própria mensagem? Como pode o elemento plástico se sobressair ao discursivo? Faremos uma poética de substantivos moldáveis e adjetivos coloridos em sintagmas sinestésicos? Como tornar as palavras imageticamente sugestivas a ponto de esquecermos que são palavras? Como preservar a poesia enquanto expressão sonora, enquanto performática, diante da poesia imagética?

Numa época de poesia metalinguística, de poesia que fala de poesia, de poesia imagética que despeja imagens sem conexão e sem discurso, de poesia visual anti-discursiva, diz o poeta, sem preâmbulos :Penso que poesia é imagem. Sendo assim, busco em meus poemas sua realização, sua alquímica concreção.” Pois, aqui, trata-se da busca de uma imagem num flash imediato e chocante, justamente o efeito que é esperado desde Oswald de Andrade, e depois praticada iconoclasticamente na época da poesia mimeógrafo, quando os poetas (chamados 'marginais') tratavam de agarrar no cotidiano a matéria-prima para a poética anti-lírica, até prosaica, dada ao depoimento e à ironia.

Assim, a busca foi tentada, o Graal é que não foi conquistado. É a mesma questão do estilo do autor dentro do estilo de época, ou antes da marca do indivíduo dentro da cultura grupal, onde vários autores perseguem a mesma coisa (mensagem, forma, efeito, algo assim) mas de modos diversos, a deixarem 'marcas' de subjetividade (vários autores românticos, mas percebemos a diferença entre Gonçalves Dias e Castro Alves, e temos vários modernistas, mas percebemos que os rumos da poética de Mário não são os mesmos da de Oswald).

A questão do estilo foi debatida na obra do pensador francês Roland Barthes, além das considerações sobre a 'morte do autor', e nosso propósito aqui não é este. Seria mais oportuno num doutorado em Teoria da Literatura. O detalhe é mais de localizar um estilo autoral X num estilo de época onde se destaca o autoral Y. Se o desejo é uma poética do imagético temos de considerar os que foram imagéticos. Vejamos Cruz e Sousa. Mas nem precisamos seguir tão longe. Basta recorremos às poéticas Murilo Mendes e João Cabral do Melo Neto. Ambos trabalharam as palavras, esmerilaram, lapidaram os vocábulos, cortaram e reduziram a fim de encontrarem o essencial. Assim os conectivos, os elementos discursivos foram exilados da poesia. Parecia que o mais direto e lacônico seria o essencial. Nada de adjetivações, vamos para o 'mundo substantivo'.


A obra

O poeta se diferencia ao explorar a melopeia (jogos com a sonoridade, como aprendemos em Pound) agregada ao caráter imagético (aqui atua a fanopeia), em poemas lacônicos, cubistas, sugestivos, compactos, sem conectivos, onde as imagens querem ressoar, para serem ouvidas (uma vez feitas para a audição, daí Audito). É mister sugerir mais do que descrever, jogar com as palavras mais do que transmitir uma mensagem, assim mais lúdico, mais plástico do que discursivo. Reduz o texto, em enxugamento radical, ao livrar-se de conjunções, advérbios, até preposições, ao aglutinar vocábulos, ao atirar a cena diante dos olhos do leitor (que deve reconstituir a partir de fragmentos), quando é essencial a cooperação da plateia (o efeito se completa na Recepção).

Uma poética composta de fragmentos de sugestões, de alusões, de recortes superpostos, em suma, de incompletitudes que não totalizam NO texto, mas em quem recebe os fotogramas (poema-foto ao estilo de Luiz Edmundo Alves) e recompõe o lirismo possível. Até porque não encontramos o eu-lírico, aquele ser textual que tem voz nos poemas (ausência que se aproxima mais ao estilo de Cabral do que de um Murilo Mendes) no sentido de dizer algo (a mensagem) a ser transmitida (até a Recepção) num efeito que cria cumplicidade (devido ao caráter de confidência). O leitor adentra o mundo do sujeito lírico e recebe confissões e pode se identificar, se comover, ou se horrorizar (aqui a poesia enquanto choque, dissonância, como bem percebeu Hugo Friedrich).

É fato que o poeta se esforça por captar fotograficamente um momento, uma cena, e destacando-a, imprimir sua riqueza vocabular, seu olhar de câmera em pausa, recortando e retocando as cores em novas pinturas surgidas de fotografias que se desbotaram. O cotidiano, o mítico, a pequena iluminura ganha novos contornos de novas molduras, onde as palavras procuram tecer imagens.

O uso de descrição vem manter o efeito mesmo com fragmentos, ângulos díspares, ausência de conectivos, como se fossem retratos estilhaçados, assim é em 'abadia' (p. 39) onde vemos o monge copista envolto por alfarrábios e dedicado ao serviço estafante (e cegante) da cópia manuscrita, em ambiente não exatamente iluminado ou ventilado, tal qual no filmeO Nome da Rosa(baseado em romance do medievalista italiano Umberto Eco),

estante bolora malditos incunábulos
verso extravia pálpebras doentias
punho cunha bárbaras palavras
grangrenas feridas cálidas
autônomo ânimo anônimo
dactilodedos
beco soa épico eco
céu reabre quasintacto
circundante sol inconcluso
obscuro lapiscreve puído papel
árqueo dorso plumoso
tacto indaga céptico papiro
vento vaza vergadas venezianas
semblante escorre lágrima sôfrega
compasso arredonda châmeo horizonte


Em função da imagética temos toda um arcabouço de técnicas poéticas, metaforizações e metonímias, que não tem, em si mesmas, singularidade. Contudo, no esquema estrutural todas as técnicas são ampliadas, recebem apoio umas das outras, e mesmo na repetição, conseguem um efeito direto e inegável. Pululam imagens cortadas, dilaceradas, com refletidas em estilhaços de vidro, ressaltadas por uso vocabular, por jogos de sonoridade, por construtos super-realistas (nada devem ao pacto surrealista de sugerir ilogicidades) que partem de algo observado para algo dissonante, mais inesperado, mais onírico do que visualizado. Estruturalmente podemos destacar alguns elementos.

É perceptível (sonora e visualmente) uso e abuso de esdrúxulas, das proparoxítonas, muitas a lembrarem um certo vocabulário simbolista, penumbristas, pré-modernista (ver Augusto dos Anjos e Raul de Leoni), que antes era considerado antilírico (principalmente pelo cânone parnasiano), é de se pensar se seriam estas ascármicas palavras arcaicas(p. 41), algumas: glândulo, semáfora, cadavéricos, bárbaro, ôndulo, ópticas, anômalos, cárcere, empíricos, vândala, víscera, papírica, válvula, hermética, elíptica, bússola, geográfico, diálogos, monólogos, platônico, anatômica, cósmico, híbrido, sôfrega, épico, vocábulo, frásicos, claustrofóbica, trajetória, trágica, alquímico, incrédulas, gárgula, epiléptico, incunábulos, antagônicas, excêntricas, emblêmico, umbráculos, tártaras, espasmódico, autárquica, epifânico, odissélica, espórtula, apoteóticos, etc

Uso de tópicos frasais com nomes, adjetivos e verbos, com praticamente ausência de conjunções, preposições, artigos, advérbios, numa prática de paralelismos onde as ideias são dispostas sem conectivos, sem discursividades. Temos vários cortes, como o mover de uma câmera, em várias takes (tomadas). Vejamos então:rostos gêmeos / passos possessos / caos silencioso vazio(gênese),estrelas enxadristas / semáfora metáfora /amplolhotacto / estampido clarão / abstrusa luz robusta(aedo),cega fonte culta / suave azul obscuro / tristes olhos extremos / assombrosas cores vigorosas” (sombra), “desrosto / perpétua nadez / lágrimas cerúleas / andraja cortina bailarina” (cimo), “céu arborizado / tardes vespertinas / lustres contorcionistas / elipses de luzes anatômicas” (labirinto dos deuses), “saga da folha branca / mentecapta mentalização / resto poético do sol epiléptico / mognos imóveis / ponteiros poeirentos / lembranças desvanecidas” (pardieiro), “céu reabre quasintacto / circundante sol inconcluso / obscuro lapiscreve puído papel / árqueo dorso plumoso / tacto indaga céptico papiro” (abadia),


Mais exemplos aqui em: caos fisionômicos / noites resplandecentes / reflexo da sombra luminosa / palma espalma calma platibanda / branca neutralidade(espelho),órgão sustenido / corcovado enevoado / diviníssimo vidro retilíneo / restos genéticos / patéticos métodos sedutores” (metropolitano), “pombosgeômetros / arco rearco florarcos / litúrgicas ruas deserdadas / entardecer destorce edifícios” (domingo), “beatos joelhos dobrados / giro lógico relógio / brancas asas aureoladas / asfalto solta flácido vapor” (cidade), “vasta quietude panorâmica / céu bordô / espórtula solar / multiplatonalidades / sangrenta carne oceânica” (prismas),

Num movimentar lúdico das palavras, que valem mais pelo som do que exatamente por qualidades semânticas (i.e., de sentido), afinal num livro intitulado Audito, que é para aguçar a audição, é para ser dito, assim é abundante o uso das sonoridades, explicitadas em assonâncias, aliterações, rimas internas, rimas toantes, exploração maciça de melopeia para conseguir os efeitos dissonantes em : “brinquedos enlouquecidosepérfidos perfis perfilados(gênese),sólida solidão(anjo torpe),semáfora metáfora(aedo),céu cerúleo(bárbaro),suicídio súbito(noite),tropel trôpegoeinfinitivo infinito(cimo),sol sóis solstíciosevereda verseja verdes versos, além de vulva / vácuo / válvula (ideograma),memória marmóreaecarranca escancara estrábicos florlábios(exprinssionismo), plexo / placenta , fecunda /focos feixes fluxos,purpúreos / perpétuas paredes(cárceres),caricata criatura,mentecapta mentalização,ponteiros poeirentos(pardieiro),autônomo ânimo anônimoebeco soa épico eco(abadia),órbita monóloga da lua alcoólatra(escarlate),veia virgem violenta violinoerósea rubra aurora(feira),grave ave voa suave / aguda voz velozevárzea verte verde erva(arestas),barroco barraco(ritmos);

Mais amostras aqui: “chuva turva túrgida turba / azul vedado pelo cinza(círculos),sol aço solaçoesimultâneos simulacros(rotação),tortuosa torrente” (tempestade), “metáfora dos semáforos / fluxos reflexos flexionados” (divina estação), “íris idílica delira lírico estribilho” (faróis), “barco áureo abarca voz arcada” (matinal), “arco rearco florarcos” (domingo), “fêmea treme frêmito emblêmico” (inverno), “glútea fumaça fúmea” e “chão chumba rastros rubros” (quadro), “giro lógico relógio” (cidade), “navio navega vástido vazio”, “texto táctil” e “figuras falhadas” (mirante), “fulvo fluxo flúvio” e “lua pontua plácida lagoa” e “ciclos cíclicos” (espiral), “tentáculo tatuado” , “rústica ruptura” e “flâmulas inflamadas” (fluxo epifânico), “tinta isca palavras ariscas”, “ansiada enseada” e “ciclistas expressionistas” (infindolimite).

Percebemos a formação de palavras com estilo cubista com imagética aglutinação, como encontramos no estilo do irlandês James Joyce, do alemão Arno Holz (segundo apontam os irmãos Campos) e do brasileiro Guimarães Rosa, criadores de palavras, os neologismos. Aqui o poeta aglutina substantivos e substantivos, ou adjetivos e substantivos, ou adjetivos e adjetivos, até advérbios e substantivo, e assim potencializa o valor semântico. Aqui alguns exemplos:gasfixia(bárbaro),amplolhotacto,homemempalhadoesombreadolhos(aedo),floralumínia,estrelárvore,escarradefeca,mijadomuro,frutopedras,amalgamalma,verbovíscero,galocanta outraurora”, “sanguineafumeguenta chamazuladaeeuterônimo(sísifo),demonianjo(cimo),entreletras(ideograma),simbolossonoros,florlábios(exprinssionismo),arcoíris(labirinto dos deuses),alquimiando(pardieiro),quasintacto” e “lapiscreve(abadia),ciclossínteses(claustro),roseocéu violentavermelhadoecranioconcentrado(casulo),mansardocéu(feira),quasásperoepoentenfurecido(arestas),estrelua(ritmos),filteiaemultiplespelholho(rotação).

Continuam os exemplos, explorando ainda os mecanismos de formação de palavras, aglutinando, fundindo, comutando: “lagoalúgubre(metropolitano),circumbrilha,cascarogrosso rebocobarroco,ralagrama,circunflexossibilos,alviglauco,murúmidos,neblinasfaltos,turvavenidas(matinal),pombosgeômetros” (domingo), “fogofátuo” (inverno), “bacovos” e “lombadoliquido” (cidade), “maremarcharré” , “cinzazulado”, “mulherespelho” (mirante), “maroceano”, “mineriocárneo”, “mitomármore”, “mamutemíferos”, “liquidaflorafaunas”, “espadopeixes”, “labirinfinito”, “expediexplorado”, “continentesticado” (maroceano), “cinzabala”, “almaçopacoiluminado” e “esfingelegíaca” (ossos marítimos), “pedraçucarada”, “espaçoquádruplo”, e “circundogirante” (espiral), “claustroazul”, “torrelétricas”, “circulocentrífugo” e “infernocéu” (fluxo epifânico), “lacrimopráteos”, “losangonuvens”, “rochedoensaboados”, “multiplatonalidades”, “maranimalesco” e “flocoblocos” (prismas), “infindolimite”, “verdenegra sombrarbórea”, “petalaços” e “trafegomonótono” (infindolimite).

No mais o texto se explica (digo texto, pois pergunta-se: onde está o eu-lírico? a persona poética? Quem diz algo aqui? Ou a linguagem se manifesta? Em que nível a impessoalidade é possível? O Autor se ausenta e deixa morfemas e sintagmas? ) traz em si o próprio manual de instruções, de sua receita estrutural, como percebemos em alguns trechos:imagens metafóricas dobrando madrugadas(noite) evocábulos costurados no hermetismo noturno(facho desértico),rima instiga mimicas figuras / lápis riscando versos(claustro),ardentes consoante versejadas(ascese),culto das estupendas imagens” (divina estação), uma poética tessitura de “fantásticas sensações ilusionistas / intersecção de realidades antagônicas” (espelho), “mão contorna busto brusco / lápis sombreia página branca” (fluxo epifânico), dentre outros, sem que uma VOZ interfira a tecer considerações ou confissões. Temos apenas os movimentos da câmera.

Os vários recursos estruturais, e as várias figuras de linguagem, reunidos, recompostos, aglutinados sugerem ao leitor as imagens, pinçadas do senso cotidiano, para ambientes mais simbolistas, com amplo uso de claro-escuro e sinestesias. É preciso acercar-se do poema para constatar o efeito, como o exemploclaustro(p. 41), do qual reproduzimos o início,

tacto acústico acopla rústico silêncio
turbilhão rítmico clipsa saliências
rima instiga mimicas figuras
lápis riscando versos
gestos guturais
germinal
oásis frásicos
silêncio sonorizado
ácido vocábulo assonante

[]

também embustos(p. 85) onde, ao estilo ultra-simbolista do francês Mallarmé, o poeta prefere sugerir do que descrever, aqui o vulto feminino,

vermelhos tarjam nítidos contornos
brincos luzem orelhas cerúleas
broncos ombros sombreados
ossudas mãos artesãs
fêmeo espelho nu
eunuco vulto plúmbeo
pele expele sol seminal
tácitas partículas líricas

[...]

Muitas imagens refletem o não-sentido que encontramos no surrealismo com sua poética sugestiva, imagética, mas irracional, ilógica e sinestésica,silêncio envermelha crepúsculo sangrento(anjo torpe),cáustica sonoplastia solar / cheira áfano porãoeluz navalha cárnea fisionomia(bárbaro),sentado no abismo mastigo minha sombra(noite),sonhos evaporam silêncio mortificado” (sombra), “aurora desopaca toscas roupagens” (cimo), “chama lácrima das cores nervosas” (exprinssionismo), “ríspido fio cósmico trilha híbrido arcoíris” (labirinto dos deuses), “cilíndricas siglas labirínticas / varzeanas nuvens controversas” (cárceres), “incêndio lírico da tímida lamparina / gatos alquimiando no solo brando do assoalho” (pardieiro), “chama tênue das velas incrédulas(ascese),crânio penetrado por imagem selvagem(XXXVI);

Mais exemplos surreais em “órbita monóloga da lua alcoólatra(escarlate),fátuo círculo circunda túmida esfera(rotação),devasto imovimento das ondas revoltadas(tempestade), “frascos entrecortados por frisos rubros / luminosidade filtrada nos braços arbóreos” (divina estação), “ocasos aram contornos longitudinais / absurda quantidade de infinito” (luas), “esférica imersão no espelho insalubre” (metropolitano), “sísifo crepúsculo / ansia flanco anuviado / facho esfarela gráfico muro” (quadro), “ladrilhos espirros suspiros anseios / prátea cítara plúvia embaça retinas” (cidade), “glácio clitóris expediexplorado / continentesticado cordão umbilical” (maroceano), “arcanjo verseja arco metálico / crepúsculo esmorece épico muro” (fluxo epifânico),

Dentro das (i)lógicas do surrealismo se explica o uso de oxímoros, em imagens contraditórias, mesmo menos abundante, é explícito:inaudíveis audiçõesedádiva maldita(asceses),silêncio sonorizado(claustro),supliciados berram blasfêmias divinas” (XXXVI), “lábio descrente sofisma blasfêmias” (facho desértico), “silêncio incendeia frígidos ocasos” (inverno), “relâmpago retarda lacônico som” e “epitáfio eterniza dramático ocaso” (ossos marítimos), “escaldante infernocéu” (fluxo epifânico), “infindolimite”, dentre outros, que explicitam o quanto a linguagem permite estados alterados de sentido, de coerência, num mosaico de contraditos que nos mesmerizam.

Ao lembrarmos de outro poeta do surrealismo nacional, José Geraldo Neres (cuja poética foi tema de ensaio divulgado recentemente), a diferença entre o estilo de Neres e Castro é, basicamente, que no primeiro encontramos maior discursividade, conexões, mais simbolismo, do que no segundo onde cortes, deslocamentos, flashes, colagens cubistas. Citemos um trecho do ensaio sobre Outros Silêncios,

Podemos falar num lado mágico-místico da poesia imagética? Ou num xamanismo verbal é possível ? Sacerdócio que passa pela iniciação com as palavras-verbetes-em-estado-de-dicionário (novamente lembramos Drummond) ? Uma luta cotidiana com as palavras? Um reverenciar a semântica e incensar a sintaxe? Ou antes, um culto iconoclasta que incendeia as bíblias-gramáticas do dogmatismo?

Pois há uma Estética. Esta é necessária para veicular as imagens, que não são tão espontâneas e derramadas como podem parecer. Na escrita há o tipo, a fonte, as letras sobre um papel em contraste. É neste espaço visual que o verbo se despedaça, atomiza cada palavra escorre pela página no arranjo gráfico, [...]


Neres trabalha no campo da discursividade ao praticar intertextualidades, ao mesclar imagens surreais e simbolistas, não apenas evocativas mas também invocativas, ao presentificarem arquétipos. Símbolos que se auto-digerem, símbolos que levam para fora da própria poética, algo de mágico. No mais, a exploração gráfica, o derrame de versos na diagramação da página. Elementos que se ausentam na poética de Castro, dado a implodir símbolo e disposição gráfica, mais concentrado nas repetições de estruturas (que possuem incisivo efeito, mas que esfarela-se se excessivamente repetitivo) acima das sugestões (mais ao agrado de um Mallarmé), o que pode ser fatigante, a menos que o leitor adentre um poema por vez, no máximo dois por dia, e siga a digerir liricamente estrutura por estrutura, imagem por imagem, como se cada poema fosse o único da espécie.

Esperamos que o poeta Flávio Castro continue em sua labuta imagética, lúdica, sugestiva, sem olhar para os lugares-comuns, sem seguir qualquer ismo, com auto-crítica, auto-reciclagem, dedicado a garimpar novas estruturas, sem correr o risco de se repetir (e nada pior que uma auto-clonagem!), pois é o risco que o autor corre ao publicar poemas com os mesmos recursos e estruturas. Certamente a Crítica não deve receitar soluções nem indicar rumos – uma vez que o poeta tece o fio da lírica (ou antilírica) retirando matéria-prima da própria vivência e leituras – mas deve contextualizar, valorizar, incentivar, e aguardar ansiosamente por novas páginas, novos experimentos.


dez/12

Leonardo de Magalhaens




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Crítica sobre Audito



Crítica sobre Outros Silêncios de J G Neres



sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

o que você nunca vai saber - LdeM


 
What you will never know

o que você nunca vai saber
o material desperdiçado na obra municipal

o que você nunca vai saber
quem são os novos apadrinhados do sr. senador

o que você nunca vai saber
o número de placa do ônibus que passou

o que você nunca vai saber
o número de placa do carro que te atropelou

o que você nunca vai saber
a quem favorece a lei que a câmara inventou

o que você nunca vai saber
o dinheiro devolvido dos fraudadores da Previdência

o que você nunca vai saber
o valor da propina para o nobre deputado

o que você nunca vai saber
o verdadeiro teste performático da nova atriz

o que você nunca vai saber
o quase pane no boeing do voo de conexão

o que você nunca vai saber
quem é o jovem subversivo que será o próximo ditador

o que você nunca vai saber
quem é o jovem idealista agora que será o mais promissor corrupto

o que você nunca vai saber
quem é o aluno rebelde de hoje que será o professor carrasco de amanhã

o que você nunca vai saber
o destino da mulher que passa e não se volta

o que você nunca vai saber
o rumo do cara simpático que pediu desculpas

o que você nunca vai saber
o número particular da musa televisiva

o que você nunca vai saber
a cor da calcinha da loira da propaganda

o que você nunca vai saber
o novo e-mail do editor-mor da editora blockbuster

o que você nunca vai saber
as profundidades semânticas do discurso presidencial

o que você nunca vai saber
a duração da temporada no inferno

o que você nunca vai saber
as penumbras sedimentadas no spleen de Paris

o que você nunca vai saber
as viagens alucinadas da nova droga sintética

o que você nunca vai saber
o nome secreto do agente secreto da nova ordem

o que você nunca vai saber
os reais agentes da conspiração globalizada

o que você nunca vai saber
a senha para os arquivos top secret da ditadura militar

o que você nunca vai saber
o paradeiro dos corpos dos militantes comunistas

o que você nunca vai saber
a fonte de inspiração para os músicos comerciais

o que você nunca vai saber
a origem das espécies e a data do fim do mundo

o que você nunca vai saber
por que são sete os sete pecados capitais

o que você nunca vai saber
onde foi parar o perdido bilhete lotérico premiado

o que você nunca vai saber
o acesso preciso dos paraísos fiscais

o que você nunca vai saber
como conseguir o ingresso esgotado para o show lotado

o que você nunca vai saber
onde vai parar toda a podridão de todas as descargas

o que você nunca vai saber
como é mesmo que o homem-aranha se agarra a tudo

o que você nunca vai saber
como é que o agente secreto britânico sempre vence no final

o que você nunca vai saber
o destino das verbas públicas nos caixas do governo

o que você nunca vai saber
se a professora marcou presença na chamada às pressas

o que você nunca vai saber
as frases sussurradas ao juiz que sorriu ao jogador

o que você nunca vai saber
o poema possível que nunca foi ousado e escrito

o que você nunca vai saber
o filho possível que nunca foi gerado e nascido

o que você nunca vai saber
os beijos trocados quando se fecham as cortinas

o que você nunca vai saber

o que você nunca vai saber

o que você nunca vai saber


o que você nunca vai saber


nunca vai saber


nunca







dez/12


Leonardo de Magalhaens


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

espelho - faróis - poemas de flávio castro





Flávio Castro


(Porto Alegre, 1966-)



espelho


embarcações submergem no crepúsculo voante
verve enfática locomove telepática paisagem
semblante reflete duplicidade espelhada
caos fisionômicos
noites resplandecentes
reflexo da sombra luminosa
palma espalma calma platibanda
branca neutralidade
fantásticas sensações ilusionistas
intersecção de realidades antagônicas
aspecto arquitetônico das rochas circunflexas




faróis


réstia vermelha percorre algébrico labirinto
íris idílica delira lírico estribilho
candeeiros somam-se ao crepúsculo
brilho curvilíneo
súbito espaço ocaso noite
treva acesa na tocha lunática
adônis mergulha abismo sepulcral
glaucos vagalhões
imenso lençol ondulado
alcova da sombra mitológica
gesto ambíguo da estátua perpétua
archote negro resplandece táctil instrumento



in : Audito / CL Edições / 2009


...

mais poemas de Flávio Castro





crítica sobre Audito


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Drummond - Eu, Etiqueta - I, Label

 
 
Carlos Drummond de Andrade

Trad. livre : LdeM


Eu, Etiqueta / I, Label

In my pants is glued a name
That is not mine of baptism or of archives
A name... strange
My jacket brings note of drink
That I put never in the mouth, in that life,
In my shirt, the cigarette mark
That I don't smoke, until today didn't smoke.
My stockings speak about products
That I never tried
But they are communicated to my feet.
My tennis is coloured proclaims
Of some thing no proven
By this fitting room of long age.
My handkerchief, my clock, my key chain,
My tie and belt and brush and comb,
My glass, my cup,
My bath towel and soap,
Mine this, mine that.
From the head to the beak of the shoes,
Are messages,
Speaking letters ,
Visual screams,
Orders to use, abuse, repeat.
Custom, habit, urgency,
Indispensability,
And they do of me itinerant man-announcement,
Slave of the announced matter.
I am, I am in the fashion.
It is hard to walk in the fashion, although the fashion
Is to deny my identity,
To change it for thousand, monopolizing
All the registered marks,
All of the logos of the market.
With that innocence resigns of being
Me that before was and knew me
So diverse from others, so myself,
A thinker being full of feelings and lonely
With other several beings and conscious
Of their human, invincible condition.
Now I am announcement
Sometimes vulgar sometimes bizarre.
In national language or in any language
(Any, mainly.)
And in this I rejoice,
I find glory
Of my annulment.
I am not - see it ! - contracted announcement.
I am that tenderly pays for
To announce, to sell
At bars parties beaches pergolas swimming pools,
And well on view I exhibit this
Global label in the body that gives up
Of being garment and sandal of an essence
So vivid, independent,
That fashion or I bribe some commits her.
Where will have thrown away
My taste and capacity of choosing away,
My such personal idiosyncrasies,
so personal that in the face it mirrored
And each gesture, each glance,
Each crease of the clothes
is recorded in an universal way,
I leave the print shop, not from house,
Of the shop window they remove me, they put me back,
Pulsating object but object
That offers as sign of other
Static objects, tariffed.
For showing me like this, so proud
Of being no myself, but industrial article,
I ask that my name rectifies.
No longer it suits me man's title.
My new name is Thing.
I am the Thing, thinglike.


Trad. livre by LdeM

http://leoliteraturaescrita.blogspot.com


original poem in: http://pensador.uol.com.br/frase/MjAyODM0/

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

2 poemas de Oliverio Girondo


 
Oliverio Girondo


Pedestre


No fundo da rua, um edifício público aspira o fedor da cidade.

As sombras quebram o espinhaço nos umbrais, se encostam para fornicar na calçada.

Com um braço preso à parede, um farol apagado tem a visão convexa da gente que passa de automóvel.

Os olhares dos transeuntes sujam as coisas que se exibem nas vitrinas,
afinam as pernas que pendem debaixo das capotas das carruagens.

Junto à beira da calçada um quiosque acaba de engolir uma mulher.

Passa: uma igreja igual a um farol. Um bonde que é um colégio sobre rodas. Um cão
fracassado, com olhos de prostituta que nos dá vergonha só de olhar e deixá-lo
passar.

De repente: o vigilante da esquina detém de um golpe de batuta todos os tremores
da cidade, para que se ouça um só sussurro, o sussurro de todos os seios a
se roçarem.


Trad. livre : LdeM




Pedestre


En el fondo de la calle, un edificio público aspira el mal olor de la ciudad.
Las sombras se quiebran el espinazo en los umbrales, se acuestan para fornicar en la vereda.
Con un brazo prendido a la pared, un farol apagado tiene la visión convexa de la gente que pasa en automóvil.
Las miradas de los transeúntes ensucian las cosas que se exhiben en los escaparates, adelgazan las piernas que cuelgan bajo las capotas de las victorias.
Junto al cordón de la vereda un quiosco acaba de tragarse una mujer.
Pasa: una iglesia idéntica a un farol. Un tranvía que es un colegio sobre ruedas. Un perro fracasado, con ojos de prostituta que nos da vergüenza mirarlo y dejarlo pasar.
De repente: el vigilante de la esquina detiene de un golpe de batuta todos los estremecimientos de la ciudad, para que se oiga en un solo susurro, el susurro de todos los senos al rozarse.

Buenos Aires, agosto, 1920






Praça


As árvores filtram o ruído da cidade.

Caminhos que se ruborizam ao abraçar a redondez dos canteiros. Idílios que
explicam qualquer coisa negligencia culinária. Homens anestesiados de sol, que não
se sabe se tem morrido.

A vida aqui é urbana e é simples.

Somente a complicam:

Um destes homens com bigodes de boneco de cera, que enlouquecem as amas-de-leite e exige delas tudo o que têm ganhado com seus úberes.

O guarda com sua bomba, que é um 'Manneken Pis'.

Uma senhora que faz gestos de semáforo a um vigilante, ao sentir que seus gêmeos
estão se estrangulando em seu ventre.


Trad. livre : LdeM


nota:

'Manneken Pis'



PLAZA

Los árboles filtran un ruido de ciudad.

Caminos que se enrojecen al abrazar la rechonchez de los parterres. Idilios que explican cualquiera negligencia culinaria. Hombres anestesiados de sol, que no sesabe si se han muerto.

La vida aquí es urbana y es simple.

Sólo la complican:

Uno de esos hombres con bigotes de muñeco de cera, que enloquecen a las amas de cría y les ordeñan todo lo que han ganado con sus ubres.

El guardián con su bomba, que es un "Manneken-Pis".

Una señora que hace gestos de semáforo a un vigilante, al sentir que sus mellizos se están estrangulando en su barriga.


Buenos Aires, diciembre, 1920


In: Veinte poemas para leer en el tranvía / 1922



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Leonardo de Magalhaens


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

2 poemas de Drummond - em alemão





Carlos Drummond de Andrade


Congresso internacional do medo

Internationaler Angstkongreß

Vorläufig werden wir nicht die Liebe besingen
Die weit unter die Kellergewölbe geflüchtet ist.
Wir werden die Angst besingen welche die Unarmungen
sterilisiert,
Wir werden nicht den Haß besingen weil er nicht existiert,
Es existiert nur die Angst, unser Vater und unser Gefährte,
Die große Angst vor den Wäldern, den Meeren, den Wten,
Die Angst der Soldaten, die Angst der Mütter, die Angst der Kirchen,
Wir werden die Angst der Diktatoren besingen, die Angst der Demokraten,
Wir werden die Angst vor dem Tode und die Angst nach dem Tode
besingen,
Dann werden wir vor Angst sterben
Und auf unseren Gräbern werden gelbe ängstliche Blumen
blühen.


Trad. Curt Meyer-Clason / 1965


original




Procura da Poesia

Auf der Suche nach der Dichtung


Mach keine Verse aus Geschehnissen.
Für die Dichtung gibt es weder Schöpfung noch Tod.
Für sie ist das leben eine ekstatische Sonne,
Die weder wärmt noch leuchtet.
Wahlverwandtschaften, Geburtstage, persönliche Zwischenfälle
zählen nicht.
Mach keine Gedichte aus dem Körper,
Diesem vortrefflichen, vollkommenen und bequemen Körper,
der so wehrlos ist gegen lyrischen Taumel.
Dein Tropfen Galle, deine Fratze der Lust oder pein im Dunkeln
Sind belanglos.
Enthüll mir nicht deine Gefühle,
Die vom Mißverständnis leben und die lange Reise versuchen.
Was du denkst und fühlst, ist noch längst keine Dichtung.

Besing nicht deine Stadt, laß sie in Frieden.
Gesang ist nicht der Gang der Maschinen noch das Geheimnis
der Häuser.
Er ist nicht die unterwegs gehörte Musik, nicht das 
Meeresrauschen
In den Straßen nahe am Schaumrand.
Gesang ist nicht die Natur,
Nicht Menschen in Geselschaft.
Regen und Nacht, Müdigkeit und Hoffnun bedeuten ihm nichts.
Dichtung (mach keine dichtung aus den Dingen)
Löscht Subjekt und Objekt.

Dramatisiere nicht, rufe nicht an,
Forsche nicht. Verlier keine Zeit mit Lügen.
Ärgere dich nicht.
Deine Marmorjacht, dein Diamantenschub,
Eure Mazurkas und Selbstt6auschungen, eure Familienskelette
Verschwinden hinter der Kurve der Zeit, sie sind zu nichts nütze.

Laß nicht
Deine begrabene schwermütige Kindheit aufleben.
Schwanke nicht zwischen dem Spiegel und dem
Schwindenden Gedächtnis.
Ween es schwand, war es keine Dichtung.
Wenn er zerbrach, war er kein Kristall.

Dring unbeirrt ein in das Reich der Worte.
Dort sind die Gedichte die geschrieben werden wollen.
Sie sind gelähmt, aber nicht verzweifelt,
Alles ist Ruhe und Frieden auf der unversehrten Oberfläche.
Hier sind sie allein und stumm, im Zustand des Wörterbuchs.
Lebe mit deinen Gedichten, bevor du sie schreibst.
Hab Geduld, wenn sie dunkel sind, bewahre Ruhe, wenn 
sie dich herausfordern.
Warte, bis ein jedes sich verwirklicht und vollbringt
Mit seiner Macht des Wortes
Und seiner Macht der Stille.
Zwing nicht das Gedicht sich aus der Vorhölle zu lösen.
Heb kein Gedicht vom Boden auf, das verloren ging.
Schmeichle nicht dem Gedicht. Nimm es hin
Wie es seine endgültige gesammelte Form hinnimmt
Im Raum.

Komm näher und betrache die Worte.
Ein jedes
Hat tausend geheime Gesichter unter dem neutralen Gesicht
Und fragt dich, gleichgültig gegen deine Antwort,
Ob armselig oder schrecklich:
Hast du den Schlüssel mitgebracht?

Gib acht:
Frei von Melodie und Sinn,
Fliehen sie in die Nacht, die Worte,
Noch feucht und schwer von Schlaf,
Schwimmen sie in einem schwierigen Strom und verwandeln
sich in Verachtung.



Trad. Curt Meyer-Clason / 1965



original




Carlos Drummond de Andrade Poesie