terça-feira, 5 de junho de 2012

sobre "O RESMUNDO DAS CALAVRAS" (2005) de Marcus Fabiano



 
Sobre O RESMUNDO DAS CALAVRAS / 2005
do poeta Marcus Fabiano Gonçalves


Das síndromes do Poeta enquanto Leitor


A Escrita da Poesia nasce de uma necessidade comunicar, de dialogar. Seja o vivido, o vivenciado, ou o coletado de fontes outras, tal como a leitura. Sendo a Poesia feita de palavras absorvidas em universos de outras palavras, numa textura de referências e co-enunciações, sua singularidade (nem sempre originalidade) necessita de uma diferenciação, um plus ultra a se fazer presente.

A palavra que não é do Poeta, mas 'manipulada' pela Fala poética busca se destacar na textura de diálogos, onde palavras re-lembram palavras. O objetivo básico é a comunicação? Ou ao menos a tentativa de comunicação? Ou uma luta inglória contra a Incomunicação?

Na rede moderna de mil mídias, em mil canais e mil formatos, é necessária a diferenciação. A Poesia enquanto superação da fragmentação. Um mundo a receber Sentido pela Fala poética. Daí esperar-se uma 'seriedade' da poesia. Aquela mesma seriedade de uma tradição hispânica ou de um fado lusitano. O ser no mundo ousa falar de si-mesmo, expressar-se, comunicar-se.

Mas, segundo o prefácio do Autor, parece que a poesia encontra-se perdida em epigramas, onde as palavras são atiradas sobre a folha, em nome de vanguardismos, que geraram nada mais que um pedantismo ('metadiscurso autoral') ou malabarismos que resvalaram em publicidade.

A necessidade de ser singular já se explicita no excêntrico título da obra, O Resmundo das Calavras, título este explicado pelo Autor: “No instante exato em que as palavras calam, as calavras descem ao rés do mundo para auscultarem seu resmundo.” (Prefácio) Há um manifesto em prol das palavras que parecem não dizer mais o que DEVERIAM dizer.

O Autor exalta a oralidade, 'fala franca', de Guimarães Rosa e não J Joyce, que seria mais um fruto da 'tradição filológica', assim a destacar uma dicotomia entre a 'espontaneidade' e a 'erudição' – ainda que ambos os autores, Rosa e Joyce (de nomes femininos, percebam!), sejam eruditos. (Contrapor erudito e popular exige um contraste do tipo: Guimarães Rosa e Patativa do Assaré, por exemplo)

Destacam-se as ilustrações (ainda que não falemos destas) a representarem um elemento de sinestesia – palavras, fonemas, imagens – e um convite ao surrealismo, não como um 'complemento' aos poemas, mas uma 'encenação' não verbal das mesmas temáticas.

Quanto as temáticas, o Autor 'segmenta' o livro em blocos temáticos, isto é, sobre o mesmo assunto, tipo Metalinguagem, Língua, Tempo, Vida moderna. Em 'Poemísculos Decausais', encontramos poemas curtos epigramas, trocadilhos, em suma, poemas mais irônicos do que sérios; enquanto no 'tópico' seguinte, “A Impressão da Sensação” coleciona sinestesias, imagens, corporeidade, punição,

convoco o marceneiro da cadeira elétrica
o carpinteiro do castigo
o demiurgo do choque letal
entre a carne e a carne do inimigo

(p. 41)

Coletânea de imagens de tradição e da mitologia, os vultos espectrais de Narciso, Hermes, Penélope, etc Em “Penélopes de Nenhures” é de se indagar: os marujos esperam as 'penélopes'? Ou as 'penélopes' esperam os marujos? Os marujos não são aqueles homens do prazer imediato? Mas trocariam as Circes e Nausícaas por futuras 'penélopes'? Mas existem as 'penélopes'?

A corporeidade – não apenas sedução, mas tensão entre coisa física e ser sensível – é a presentificação do corpo = máquina, nos poemas “Ad Nutum” e “Nuca”, onde ressuscita o homem-máquina de La Mettrie, “o pescoço: / um cilindro / de cabos e dutos,” na imagem plena da 'coisificação' do corpo.

Em “Nanquim(p. 49) temos as fotografias de momentos, relances, olhares na sedução do fugaz, como aquela mulher que passa, do poema de Baudelaire (Une femme passa, d'une main fastueuse /Soulevant, balançant le feston et l'ourlet; Uma mulher passa, com mão faustosa / Erguendo, balançando a saia assim; (LdeM) “A une passante”) ou da bela Malena do filme de G. Tornatore,

Quem é essa que quando passa
armazena inteira
a noite num olhar negro?


Oparin” rememora a evolução a partir de uma fagulha, nas experiências do bioquímico russo Opárin, nos idos dos anos 30, quando buscava a 'origem da vida' através de faíscas agindo sobre gases atmosféricos para gerar os aminoácidos, “do átomo à proteína / e desta à célula'. O poema medita mais sobre o sentido da vida além de uma possível origem a partir de eletricidade e moléculas gasosas. Este poema serve até como um contraponto ao lírico “Beija-flor-do-mato' (na página anterior) que apresenta um Eu cúmplice da Natureza, assumindo a identidade de um colibri para ir fecundar a Amada, “e se te fecundo entre relva tão vasta / me disperso e me desatino / desse teu pólen de máscara”.

O corpo não é apenas aquele do homem-máquina mettriano, mas também uma coisa em movimento, propulsão em si-mesma, tal a “Bicicleta de Leonardo” (p. 53)

uma máquina / movida a homem
que quando nela é seu cocheiro
é ainda seu cavalo / e seu próprio passageiro

Esta capacidade de visão e re-criação é primorosa em O Resmundo das Calavras, com poemas que articulam jogos entre significantes e significados, entre abstratos e concretos, “o gesto extremo da pura carne no prego / a gana de sangue e o medo do morno/ que em ti tantas vezes renego” (“Carta ao pai”), “nas persiana / que cerram atividades / no dormir no gozar e no morrer... nas nascentes laterais de onde brotam / águas ablativas de dores ciscos e alegrias” (“A olhos vistos”), ou “do miolo das substâncias mais duras/ escorro o charco de meus alagados: / é um escoamento hemorrágico / morno rubro vivo e grosso” (“Areia”) o que não deixa de lembra certos simbolismos de crueldade-sublimidade em Cruz e Sousa e Augusto dos Anjos.

Neste jogo de criar e re-criar, a palavra é mesmo verbo, é 'ação', quando a fala vem agir sobre o 'real', a Efetividade (de “Wirklichkeit”, onde 'wirken” é agir sobre, operar em, trabalhar com), com um poema (“Panifico e construo”) tenso de verbos e atuações, onde o Poeta deixa claro que “panifico e construo / e meus pães eu distribuo / como quem oferece pedras / em uma ceia de banguelas”, evidenciando que tece versos que somente os 'Eleitos' terão a sapiência de degustar.

Esta noção da própria pujança poética só pode mesmo gerar mais metalinguagem, onde usa-se a poesia para falar sobre poesia. Desde os antigos gregos, com toda a força da poesia = música (enquanto hoje ainda tem gente falando em 'poesia visual'...) e não meros 'sinais gráficos', a prisão da Escrita, que limita a oralidade dos versos. Os gregos eram sábios artífices da palavra = sonoridade, pois “o discurso / tinha na voz alta a sua melhor medida / tal como os antigos gregos” (“Dois Pontos”, p. 63) O tema da poesia se reapresenta páginas adiante no “Xepa”, onde “a poesia não pode tudo / e a cada dia tira menos / do que muito já é pouco”, a radiografar os esforços do fazer poético (“nesse esforço de insetos”) extraindo (igual V Maiakóvski) e catando (igual J C Melo Neto). (1)

Já o poema “Querosene”(pp. 64-69) ousa uma re-escrita da História, na verdade uma 'ciranda sanguinária'. A História do Brasil um capítulo na História universal numa estilística verbo-cubista,

Brasil epitáfio do carvão
quem vai tirar do prego o penhor dessa igualdade?
Quem é que mama sozinho no seio dessa liberdade
e ainda desafia o nosso peito à própria sorte?

Diante de tanta barbaridade, a Voz poética acaba descrente, após frequentar igrejas, seitas, ideologias, e percebe-se resignado, “e agora / após assimilar a derrota / depois de resignado à incredulidade / já conformado à desafinidade”, mas o discurso não é de todo niilista – se fosse niilista, o Poeta escreveria?

Ao escrever o Eu poético já imagina seu Leitor, sua Leitora. O Eu acaba por fundir-se a este Tu idealizado no próprio 'corpo' da Mensagem. O uso da 2a Pessoa é explícito, “tua leveza pluma”, “te recobrindo”, “desse sol que só tu tanges”, “a dupla epifania do teu sopro”, onde ao dirigir-se ao Tu, o Eu mergulha na função conativa, apelativa, além de testar o canal de comunicação entre os interlocutores. Com todo este discurso a la Bakhtin, Jacobson e Charaudeau, queremos dizer: o Eu idealiza o Tu ao convencionar toda uma mensagem para declarar-se – e seduzir – o Outro,

no redor de teu caule / ao invés de espinhos
um fino véu de tule

te despimos desse véu

...

verte agora / esse sangue-sumo
da carne amarela / de teus gomos

(“O Sal e a Fruta”, pp. 74-75)

Sendo um Poeta Leitor, aquele que digere na Escrita as tantas Leituras, o Autor de O Resmundo das Calavras, tece referências às tantas tradições, mitológias, obras clássicas que ocupam-lhe as estantes e os neurônios. É todo umlabirinto de alusões que evidenciam o dialogismo, quando um texto fala de outros texto – consciente ou não – e ousa um diálogo intertextual, onde discursos se referenciam em discursos, imagens se espelham, o tal labirinto. Voilà.

À solidão do minotauro / pouco importa a saída

Ariadne agora aplica-se / ns suas lições de cartografia:

(“O Mapa do Labirinto”, p. 77)

Minotauro, Ariadne, o implícito Teseu, lado a lado com Iessiênin! O poeta russo em suicídio nada lírico fornece a “derradeira tinta” para dar a cor rubra do novelo que guia o herói para fora do labirinto de Creta. (2) Iessiêni pode ser inclusive uma influência para o “Enforcado”, poema vizinho, que lembra tambe a figuração da carta do tarot clássico, “The Hanged Man”, sublimando o símbolo trágico, “suspenso no desespero / que o chão não toca / o enforcado erige / a si e aos outros / a estátua do próprio corpo,” (p. 78), tema difícil e áspero, o suicídio, que é o tema filosófico por excelência, segundo o escritor existencialista Albert Camus.

A morte e o tempo são temas em “De dentro da guampa do tempo”, um tópico com algo de barroco de grotesco – afinal, sabemos o que é o tempo, mas se alguém pergunta.... quem sabe explicar? Falar em 'devir' soa até pedante (ar de teólogo diante de ateu!) quanto mais 'convulsões de um devir'! Sabemos que não se explica 'imagens poéticas' mas algumas não passam de bizarrices. Não há qualquer 'convulsão' no tempo (ou 'devir'). Nós, humanos, é que complicamos as coisas. (Ainda que a Poesia não tenha compromisso com a Verdade filosófica; mas é o Poeta que resolveu filosofar...)

As imagens do tempo – seja touro, moinho, panzer (carro blindado) – além dos chavões ('o tempo cicatriza') não conseguem convencer. Um capítulo de “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, sobre nossas impressões sobre o tempo, acabaria por eclipsar todas estas imagens de 'espera', 'apodrecimento', 'ser diante do devir', 'o touro do tempo', 'areia do tempo', 'tempo cicatiza', 'voragem da história', etc, que poeticamente soam bem, mas nada dizem de 'singular'.

Mesmo quando o Eu busca a cumplicidade do Tu – mesmo quando o Eu é uma cisão: Eu-de-hoje e Eu-de-ontem, e o Presente pode referir-se ao Passado como se fosse 3a pessoa, ou falar com o Ontem como se dirigindo a um Tu,

respiras como um fole furado.
permaneço na cama. Imóvel.
sustento o teto com os olhos.
chora a filha do vizinho.
resiste o teu sono.

(“Cata-ventos de ar comprimido”, p. 90)

Apesar de toda a solenidade e imagética e metafísica de “Mar Raso”, “A Sina dos Espelhos” e “Sono dos Espelhos”, o Autor sofre da síndrome do Poeta-Leitor: se livrar das tantas Leituras. Não estamos a reclamar 'originalidade', pérola rara, mas “fazer algo do que as leituras fizeram com ele” (parodiando Sartre, “o que fazemos a partir do que fizeram de nós”) É basicamente o problema de Borges: porque a poesia de Borges não permaneceu? Resposta: porque ele era um bom prosador. Um irônico prosador. E o contraponto disso é fazer poesia séria. O que Borges pensava de Neruda? Ou de Octavio Paz?


Os tópicos seguintes são igualmente densos e eruditos. A poesia raramente flui. “Logos lusos” e “A água da língua na régua da légua” são leituras e releituras da presença fonética e semântica da Língua Portuguesa e seus jogos poéticos e prosaicos. A “última flor do Lácio” vai sendo despetalada. A mescla de elementos não lusitanos, mas indígenas e africanos, os estrangeirismos, tudo isso distende o idioma até novos limites. Novos criadores são requisitados para a 'arquitetura das palavras' – dois nomes surgem no papel : Ferreira Gullar e Oscar Niemeyer, ambos arquitetos, o primeiro, da palavra, o segundo, do concreto. Além de uma interseção ideológica: o comunismo.

O rumo do prumo
de cidades inventadas em poemas sujos
de cimento e ferro

(“Curva do concreto”, p. 115)

Além de utopias coletivistas segue a 'língua das navegações', um Lusíadas pós-épico, sem os decassílabos heróicos da tradição, por mares ainda não navegados e poemas ainda não escritos. De Poeta para Poeta, as homenagens se seguem. Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto em diaĺogo: a lírica do primeiro versus a aridez do segundo. Os poemas 'vindos do coração' em 'excessos de lírica' sofrendo com os 'versos enxutos', 'poemas de emulsão' da faca só lâmina do sertão.

Mas as homenagens nem sempre 'dão certo'. Pode acontecer de o poema não homenagear o homenageado. Um poema para Manoel de Barros – e que cita Wittgenstein! De nada adiante “chã dizência”, ou “adâmica argila constelar” ou “poucuras de muinadas” para salvar o poema... Afinal, nada de pensamentos aqui. (Por este critério é que o Riobaldo de Guimarães Rosa não passa de personagem de ficção, pois o Rosa 'peca por excesso') O mestre de Manoel de Barros é um Alberto Caeiro, um sentivio não-pensador. O oposto de um clássico Ricardo Reis ou de um moderno-tecno-estressado Álvaro de Campos!

Uma poesia de referências é bolo de chocolate com cereja dura de engolir. Exige conhecimentos de História – já vimos em “Querosene” - as querelas entre abolicionistas, republicanos e monarquistas; exige melodias de Heitor Villa-Lobos entre músicos e músicas; exige uma fala de espontaneidade de um Patativa do Assaré em contraponto aos imperativos da Gramática. Aqui percebemos o quanto fazer um curso de Letras é até prejudicial para o Poeta-Criador que perde-se no ofício de Poeta-Leitor a sofrer as indigestões das regras e semióticas.

A metalinguagem é um mal (pós?)moderno dos Poetas-Leitores. Falam demais da própria ferramenta, da própria criação poética – e nada hora de dizerem alguma coisa, NADA dizem. É um discurso girando dentro de si mesmo, autoreferente. A metalinguagem atinge os incômodos de um 'eruditismo', de um 'pedantismo', fruto (ou erva daninha) de um 'academicismo' capaz de gerar versos do tipo: “eis aí a linguagem em seu mistério de morte” (p. 129) ou poemas cheios de oxímoros e contrapontos barrocos (vejam “O Simples e o Fácil”(pp. 130/131) e “A Lebre e o Coelho” (pp. 136/137))

A metalinguagem lembra mais aquelas personagens a procura de um Autor (em Pirandello), assim as personagens da Odisséia a comentarem sobre a futura cidade dos poetas – aqueles infelizes expulsos da República platônica – onde até Homero vê no escuro! Homero, o dito autor de Odisséia. É como se Hamlet ou o Rei Lear tecessem comentários sobre William Shakespeare!

Esse jogo de 'é poesia' e 'não é poesia' cria até mal-estar. Às vezes soa irônico, iguais aquels poemas do Manuel Bandeira (“Abaixo os puristas”, em “Poética”), Mário de Andrade (“ode ao burguês”) ou Álvaro de Campos (“estou farto de semi-deuses”), onde o Autor joga no mesmo time dos poetas loquazes que ele desafia! “basta de autores narrando / labirínticas entranhas deusadentro / como se só eles – intestinos loquazes / secretaassem tais excrementos // às favas os semideuses!” p. 134)

O Poeta precisa ficar a se explicar o que é Poesia? Igual aos escritores do Nouveau Roman, ótimos ideólogos do tal 'novo romance', mas autores de romances dos quais ninguém se lembra. Bons teóricos, bons retóricos, mas péssimos artesãos da palavra ficcional. Teorizar é mais fácil que criar ficção de qualidade. São escritores acadêmicos que escrevem para outros escritores acadêmicos, em suas 'torres de marfins'.

Ressuscitar o 'beletrismo'? Uma 'bela escrita' sem vivacidade, talvez. Mas, depois de Walt Whitman e dos modernistas e dos beatniks, voltaremos ao 'beletrismo' de Baudelaire, Verlaine, Valèry? (Parece que é justamente isso que os Poetas-Leitores querem. Vejam um Alexei Bueno, um Moacyr Félix, um Marco Lucchesi. Depois de Melo Neto, depois de Leminski, exumaremos Bilac.)

Há algo pior do que Poeta falar sobre o Ser Poeta? Coisa que até era suportável em M Bandeira, M de Andrade e C Drummond de Andrade, hoje é tédio puro, até náusea. (“O poeta entra no elevador. / O poeta sobe / O poeta fecha-se no quarto. / O poeta está melancólico.” CDA, “Nota Social”) Já bastam os poetas-ensaístas (alguns até memoráveis, a saber, Poe, Baudelaire, O. Paz, E. Pound...) que teorizam a Arte (que quando mais teoria sofre, mais hermética se enrosca). Quem imaginaria Manoel de Barros a teorizar sobre poesia. Deixando de fazer versos para dedicar-se aos ensaios. (Ou: Patativa do Assaré com diploma seria capaz de escrever o que escreveu SEM diploma?)

O que é Poesia? O que não é Poesia? Velho ramerrão. Drummond também não perdoava, “Os impactos de amor não são poesia.”, “Que é poesia, o belo? Não é poesia...”, “De que se formam nossos poemas? Onde?”, “O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia”, e etc etc, está tudo dito. Pode ser que poesia seja mesmo igual 'catar feijão' (aqui em “O Garimpo e a Cata”) ou que seja tal um tomate maduro (“a poesia é maduro tomate em sua rubra carnadura”, “Tomate”), mas sempre há um 'poeta fingidor' que “finge garimpar enquanto cata”. Há uma voz subjetiva que seleciona (mesmo implícita). Agora , não é o mesmo que dizer: 'é poesia aquilo que o poeta diz ser poesia' (em paródia ao que disse Mário de Andrade sobre os contistas, “conto é tudo aquilo que a gente chama de conto”)

Onde então a 'salvação' de O Resmundo das Calavras? Sim, há uma 'redenção' ao Poeta-Leitor. Deve ele se transmutar num Poeta-Observador. Deixar os livros na estant e ir ver o mundo. Sentar à varanda e ouvir a turbulenta música da cidade. Sofrer com os mil assaltos e atropelamentos e misérias. Comer no restaurante burguês ou ser servido com um p(rato) f(eito) num botequim da zona boêmia.

Assim, o grand finale d'O Resmundo salva a Obra. “Perambulâncias” tem todo aquele tom épico do homem das multidões, do artista moderno, das imagens de Baudelaire a percorrer as passagens de Paris. O Ser que observa o Mundo, em 'leituras e andanças' (segundo a poética de Vinícius Fernandes Cardoso, segundo ensaio anterior, a fleratar com os beatniks, a poesia marginal, de mimeógrafo – ou impressão doméstica), onde o Poeta vivencia, experimenta o contexto urbano – sem mediações. É assaltado, é atropelado, é abandonado na noite suja.

O Poeta na nova Babilônia (ou 'nova Mesopotâmia') da vida moderna, a cidade metrópole de luzes e penumbras, sofre a “Esgrima das Esquinas”, a violência urbana, ao caminhar sobre o fio da lâmina,

andar os gumes de qualquer cidade
é se cortar de ruas ao ganhar atalhos,
...

pelas cidades do como se corta
ou do quanto se perfura
cada arma reclama um estilo
e uma certa empunhadura:

As cenas urbanas se mesclam com cenas de carências e solidões (somos os 'homens vazios/ hollow men' de Eliot, somos as 'lonely souls' de Unkle [banda techno-pop], somos os 'burgueses sem religião' de Legião Urbana) numa miríade de apelos e produtos sob luzes néon. E diante de tanta opulência e tanta miséria, no paraíso da 'injustiça social' - “uns mais iguais que outros” - somente nos resta rezar uma paródia do “Pai Nosso', numa “Oração do Favelado”, “pai nosso que nos deixa ao léu / santificada seja a nossa fome”, quando a miséria coabita junto a fé, e a religião é uma forma de caridade paternalista, um consolo para as massas (“o ópio do povo”, segundo K. Marx), que mantem a mendicância da miséria (afinal, pobre e mendigo existem é para madame dar esmolas, não é?)

As cenas da vida urbana são fotografias um metrô lotado, a ineficiência dos transportes coletivos (quando o mundo se entope de carros...), ou o horror da guerra – com o bombardeio de cidades vitimando os civis desarmados, em “Londresden”. Se London foi parcialmente destruída (quase metade da área central), a cidade alemã Dresden foi paraticamente arrasada (fontes calculam de 80 a 90 %) A população não vai até a guerra – é a guerra que é entregue a domicílio.


Um mundo moderno onde o hoje repete o ontem, a burguesia repete os mesmo erros da nobreza. A tradição golpeia de volta, o medieval está aí com os latifúndios da época das capitanias hereditárias! “O Asseio do herdeiro” (p. 161) mostra perpetuação da 'ordem burguesa' que lava as mãos enquanto as epidemias se alastram, e perdem os dedos ao manterem os anéis.

Hoje reinas no banco
que foi do avô de teu avô,
que era o senhor de todos os escravos
e de todas as terras dessa freguesia

Enfim, afinal, Paris é uma festa (obra de Hemingway, amigo de Fitzgerald, aquele da 'era do jazz') e todos os burgueses brindam suas taças de champanhe. Nós, os bons pensadores, sabemos como sermos bons cúmplices, em manter nosso silêncio, enquanto pagamos as contas, os impostos, as prestações do carro e do apartemento (nessa ordem!) As cenas de Paris nos emocionam. Ah, como bons fãs de Baudelaire que somos!

Paris, és uma festa!
uma festa para quem te desfruta
na embriaguez dos instantes ebulidos
pelo champanhe dos teus séculos de civilização

Uma festa de nostalgia e cabarés, de prazeres fugazes e vulgares! Todo mundo já foi a Paris – resta saber se àquela de Stendhal, ou de Victor-Hugo, ou de Balzac, ou de Baudelaire, ou de Rimbaud, ou de Maupassant, ou de Zola, ou de Fitzgerald, ou de Hemingway, ou de Sartre, ou de Sarraute, ou de Perec, etc. Cada olhar, cada autor, recria a cidade luz, “La Vielle Lumière” a cada descrição, à medida em que a cidade é re-edificada pela Escrita.

Ao cair a cortina d'O Resmundo, esperemos que o Autor possa através observação sensível do mundo, na gradação do olho e da pele que tudo registra e decodifica em novos códigos, transmutar-se de Poeta-Leitor para Poetas-Leitores num Poeta-Observador para Poetas, leitores ou não, e Leitores, poetas ou não.


mar/abr/10

revsd: jun/12

por Leonardo de Magalhaens

http://leoliteraturaescrita.blogspot.com



BLOG do Autor Marcus Fabiano Gonçalves




Notas

(1)V. Maiakóvski compara a criação poética à extração de rádio a partir de montanhas de minério,

A poesia
é como a lavra
do rádio,
um ano para cada grama.
Para extrair
uma palavra,
milhões de toneladas de palavras-prima.
Porém
que flama
de uma tal palavra emana
perto
das brasas
da palavra-bruta.

(trad. Augusto de Campos)

vejam o poema completo em

enquanto João Cabral de Melo Neto fala de um 'catar feijão' em similitudes com o fazer poesia,

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.


(2)Quem não é expert em mitologia grega, ou Iessiêni, favor folhear a Wikipedia. http://pt.wikipedia.org/wiki/Teseu




segunda-feira, 14 de maio de 2012

Por que ler os best-sellers?



Por que ler os best-sellers?

(breve artigo)

Quando o escritor italiano Ítalo Calvino escreveu sua obra clássica, “Por que ler os clássicos?”, em 1991, logo causou polêmica, tanto para os que reconhecem os 'clássicos', como para os que rejeitam uma ideia de 'cânone'. De início, o problema foi definir o que seja 'os clássicos'. Como fazer uma seleção de 'crítico' sem deixar se levar pelos 'subjetivismos'? Afinal, “Guerra e Paz” pode ser um 'clássico' para X e não para Y, que vai preferir “A Volta ao Mundo em 80 dias”, ou então haverá Z que considera ambas as Obras como 'clássicas'.

Eis algumas definições do Calvino para o que seja 'clássico', antes de arriscar alguns títulos, como exemplos,

2.Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições de apreciá-los.”

3.Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual.

6.Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.


Interessante que na época, enquanto Calvino se perguntava sobre ler ou não os clássicos, outro fenômeno se estruturava no 'mundo editorial'. O livro muito vendido, o tal 'best-seller' (para usar o english, como bom vassalos que somos...) O livro que é 'mais do que livro' é mídia, é propaganda. Está na lista dos mais vendidos – e provoca mais vendas. É um curioso 'feedback' (do tipo “maria-vai-com-as-outras”, pois o leitor pensa: ora, todo mundo está lendo, então deve ser bom! Vou ler também!)(Um contraponto é o leitor que pensa assim: Está todo mundo lendo, é coisa de 'marketing', não vou nem folhear isso...!)

Eis o fenômeno: o best-seller enquanto livro de 'leitura obrigatória'! (Em certa ocasião, um colega abordou-me, queria saber se eu tinha lido “O Xangô de Baker Street”, do humorista e entrevistador televisivo Jô Soares. Nada contra o Jô, que respeito. Mas não vou ler uma sub-literatura só porque o sujeito é artista de TV. Imagino o contrário: se o Jô fosse desconhecido, não venderia 'montanhas' de exemplares. Ele obviamente se aproveita da 'mídia' – fez-se famoso, para depois publicar. Então, o colega rotulou-me de 'pedante'. (Não que todo artista midiático seja 'mau escritor' – temos uma bem-vinda exceção: o músico, cantor, compositor Chico Buarque, astro da MPB, que, ao decidir ser escritor, uniu o 'útil' ao 'agradável'.

Então, por que ler os best-sellers? (e nem resolvemos a questão anterior, “Por que ler os clássicos?”!) Por que ler os livros policiais de Agatha Christie? Por que ler os romances de Sidney Sheldon? (romances que fazem sucesso até hoje...) Ou os romances de Dan Brown? (a 'febre' do momento?)

E esta enxurrada de livros romanceados (que se dizem 'documentários') sobre polícias secretas, sociedades secretas? Livros sobre o FBI, a CIA, a KGB ou a STASI (que nem existem mais), o MI-5, as tantas máfias, o crime organizado, os Templários, a OPUS DEI, a Maçonaria, os neo-nazistas, os Iluminatti? Por que tais obras fascinam tanto? (Encontramos nos ônibus, e nos metrôs, jovens e adultos, mulheres e donas-de-casa lendo estes 'calhamaços' de obras traduzidas)

Uma resposta seria: porque tais obras (romances, 'documentários') exploram (em todos os sentidos) as nossas angústias quanto aos 'poderes ocultos' – os 'podres poderes' – que nos governam e controlam a nossa consciência e participação. Poderes dos quais SOMOS FANTOCHES submissos, uma vez que somos incapazes de nos defender do que não conhecemos. A angústia, portanto.

Por que vendem tanto os livros de 'fantasia' como “Lord of the Rings” e “Chronicles of Narnia”? Obras de autores britânicos, da época da Segunda Guerra Mundial, que exploram a fantasia épica, as furiosas epopeias, como verdadeiros cultos à Monarquia idealizada, a figura dos Reis (um retorno à 'origem divina dos reis'), a figura absolutista do Rei (ou da Rainha) – ou dos nobres, príncipes, barões e cavalheiros - enfrentando as 'forças do mal'.

Os autores britânicos J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis, responsáveis por “Senhor dos Anéis” e “Crônicas de Nárnia”, respectivamente, não hesitaram em 'voltar ao tesouro das lendas' anglo-saxãs e ao 'mundo das fadas', de onde extraíram a maioria das personagens, que nada têm de novidade (duendes, gnomos, fadas, ogros, ciclopes, gigantes, anões, animais falantes, além de seres da mitologia grega, como centauros, grifos, harpias, etc) Mas o enredo é sempre uma exaltação da Realeza – um culto à Monarquia. (Lembro novamente: o contexto era o da Segunda Guerra Mundial, quando os reis britânicos combatiam as forças fascistas e nazistas)

Por que vendem tanto os livros de 'bruxaria infantil' , como é o caso de “Harry Potter”? Ou de 'vampiros juvenis' como “Crepúsculo”? Qual a(s) fórmula(s) encontradas pelas respectivas autoras J. K. Rowling (GBR) e Stephenie Meyer (USA)? Livros que encontramos nas mãos de crianças, adolescentes, jovens, universitários, executivos concentrados dentro do balançar de nosso sistema de transporte público.

Que os jovens gostem de “Harry Potter” é até compreensível. O bruxinho 'do bem' que faz o que todo jovem gostaria: ter poderes extraordinários, sair voando por aí numa vassoura-a-jato, explorando mundos outros, em mil aventuras. Nada mais que a fantasia dos 'contos de fadas'. (“Peter Pan” não se alimenta de outra coisa...) Mas o pouco compreensível é que homens e mulheres, senhores de cabelo grisalho ou enfermeiras de ar sério, se entreguem – em suas viagens coletivas cotidianas ou no ar condicionado de seus escritórios – à leitura de “Harry Potter”(quando não de obras devocionais ou auto-ajuda...)

Por que tanta ânsia em ler 'fantasia'? Será uma fuga do 'mundo cinzento' para dentro do 'país das maravilhas'? Será uma tentativa de resgatar a infância perdida? Um desejo de 're-encantamento do mundo'?

Afinal de contas, estas obras não exigem muito. Texto fácil, acessível, com traduções 'mastigadas', com parágrafos curtos, com ênfase na narrativa – a história contada – e não no 'enredo' linguístico (nada de experimentalismos com a linguagem, obviamente), assim pode ser lido enquanto o ônibus oscila de buraco em buraco no asfalto magnífico de nossas ruas.

Essa facilidade é um dos 'atrativos' de “Crepúsculo” (“Twilight”) da (ex?)mórmon S. Meyer, que seduz pelo texto acessível, parágrafos curtos, enredo envolvente, narrado em 1ª pessoa, por uma 'jovem romântica', com um 'terror aliviado', um 'vampirismo light', mortos-vivos com ares de estudantes de colegial, com um suspense do tipo 'fantasia' (e não macabro-mórbido dos filmes B...) Os vampiros de S. Meyer passam a milhas dos de Anne Rice (que fez sucesso antes, de meados dos anos 70 ao início dos 90) que, por sua vez, passam a milhas dos de Bram Stoker (autor do célebre e monumental – um clássico! - “Drácula”, de 1897)

O vampirismo 'fantasista' de S. Meyer é tão inofensivo quanto “Alice no País das Maravilhas”. Mais uma 'literatura de fantasia' – com vampiros e lobisomens – do que 'terror' – ou um 'terror aguado'. É igual tomar café sem cafeína, ou cigarro sem nicotina... Ali o sexo é apenas sugerido e a abstinência é louvada. Os jovens devem esperar o 'momento' para se entregarem um ao outro, ao 'mistério' da sedução – numa cultura tão sexualizada (e ao mesmo tempo tão puritana e hipócrita) quanto a norte-americana.

É de impressionar como tais obras estrangeiras conquistam fãs aqui. Mas estamos num país de vassalos e tudo o que o suserano ianque envia a gente lê e adora... São obras que nunca chegam sozinhas (digo, não apenas em formato LIVRO, com suas traduções 'mastigadas' e suspeitas), mas sempre há todo um 'merchandising' em forma de revistas, fotos, documentários, camisetas, broches e tudo culmina em superproduções cinematográficas hollywoodianas que gastam e fortunas e recuperam tudo em superfaturamentos nas bilheterias norte-americanas e no resto do mundo americanizado, digo, globalizado.

Daí o cinema (com suas plateias ávidas de entretenimento e inchadas de voyeurismo) 'impulsionar' a venda do livro. Quem nem gosta(va) de 'literatura' vai querer ler o livro para entender melhor o filme (geralmente mais 'focado' nos efeitos especiais do que na 'narrativa', na 'psicologia das personagens') e vai divulgar para os amigos e colegas. As vendas aumentam, os títulos sobem nas 'listas de best-sellers' e temos mais vendagem (de acordo com o científico fenômeno “maria-vai-com-as-outras”)

Para resumir e finalizar. Por que ler os best-sellers? Para ter um fácil entretenimento. Pode ser. Caso tenhamos tempo e não gostemos de 'palavras-cruzadas'... Mas fazendo um link com a pergunta anterior ('por que ler os clássicos?'), a qual Calvino responde com uma outra pergunta, “Por que não lê-los?”, respondo que “então vamos ler os best-sellers depois de termos lido os clássicos”, se sobrar tempo. (Se é que vai sobrar algum...)

Afinal, por que eu trocaria a leitura (e a releitura) de “Crime e Castigo” para ler “O Senhor dos Anéis”? Ou que por que eu deixaria a leitura (e releitura) de “Drácula” para ler os livros de Anne Rice ou S. Meyer?

Afinal de contas, a vida é curta e nunca vamos ler todos os livros. Se não vamos conseguir ler nem os 'clássicos', por que desperdiçar tempo e retina com os 'enlatados' best-sellers com 'reluzente embalagem midiática'?


Fev/10

(revsd: mai/12)

por Leonardo de Magalhaens



sexta-feira, 4 de maio de 2012

sobre a obra 'Casa das Máquinas' - de Alexandre Guarnieri






Sobre a obra “Casa das Máquinas” (2011)
de Alexandre Guarnieri


Poética enquanto construto mecanicamente antilírico


Muito já discutimos sobre a poesia enquanto inspiração ou produção, enquanto arte espontânea ou transpiração ('luta com as palavras'), se Arte é algo que desabafamos ou algo que construímos. Os surrealistas preferem uma psicografia (a poesia brota do inconsciente?) enquanto os arautos da Oulipo chegavam aos teoremas matemáticos da análise combinatória para planejarem a Escrita.

De manifestos em manifestos os espontâneos e os matemáticos defendiam suas visões de Arte, uns esperando a inspiração enquanto outros se sentavam em suas mesas de planejamento, devotados aos cálculos e às regras. Um espera enquanto o outro rabisca. Um medita e o outro rabisca e apaga e rabisca. E ambos se fecham em mundos estanques. A poesia não é espera nem é teorema, é amálgama de ambas, sendo um jorro e sendo um construto.

Em ensaio anterior cuidamos da leitura da obra surrealista “Outros Silêncios”, do poeta José Geraldo Neres, onde podemos encontrar uma busca do espontaneísmo, da livre associação de ideias, da escrita (se possível) automática. Há todo um extravasar do inconsciente em imagens que são sem sentido ao mecanismo da razão. Mas há uma escolha de palavras, uma busca de lirismo, que não é fruto apenas do espontâneo, mas de um construir.

Do outro lado, numa espécie de contraponto, temos aqui em mãos a interessante obra do autor Alexandre Guarnieri. Desde a capa algo inquietante se anuncia, uma cena de 'Metropolis' [1927], o filme expressionista do alemão Fritz Lang (1890-1976), onde homens e máquinas vivem num mundo de dependência, dominação e conflito. Máquinas! Pois adentremos a habitação dos seres mecanizados!

“Casa das Máquinas” é um livro planejado, um livro matematicamente engenhado. Tem uma inspiração, uma intertextualidade, certamente, mas é um construto manufaturado, a exibir uma poesia projetada peça por peça, palavra por palavra, uma poética engenhosa e áspera ao estilo de João Cabral do Melo Neto, célebre 'engenheiro' da arte poética, com seu ritmo marcado, além da sua influência da voz popular, com cada poema sendo construído com planejada arquitetura, “Para mim a poesia é uma construção, como uma casa. Isso eu aprendi com Le Corbusier.”

Mais do que planejamento! Há um campo semântico, um uso lexical que provoca estranhamento. A mesma estranheza que causou a poesia de Augusto dos Anjos, com o conteúdo semântico da área científica, anatômica, bioquímica, metafísica, ou seja, todo um vocabulário não exatamente lírico. Em “Casa das Máquinas” as palavras foram cuidadosamente eleitas, selecionadas, a apresentarem todo um campo semântico com referência às peças de máquinas, ferramentas, petroquímica, tecnologia, automação, automobilística, construção civil, processos metalúrgicos, etc

Mecanismo, engrenagem, maquinaria, motor, mecanismo, conexão, válvula, ferramenta, desgaste, reatores, cilindros, tubos, rebites, pressão, peças, encaixes, bobinas, dínamos, relógios, lubrificantes, fábrica, calibres, turbina, matéria, potência, pistões, óleo, trabalho, cálculos, sucatas, caldeira, matéria-prima, lâminas, pilhas, serras, graxa, cifras, ácidos, pedra, pedra bruta, pilares, lixo, refugo, esgoto, concreto, rotina, greve, burocracia, autômato, guerra, etc, em suma, eis uma amostra do 'glossário'. Não é, certamente, o que acostumamos a considerar como fenômeno 'lírico' ?

Assim ler “Casa das Máquinas” é folhear um manual de mecânica, engenharia, bioquímica, eletrônica, basta ver o glossário destas áreas prática, mas é como se as máquinas (se assim pudessem!) assim fariam poesia! Lirismo com graxa!

Um ritmo marcado mesmo no poema em prosa, ou uma prosa que é poética mesmo que anti-lírica, pois conserva uma seleta de verbetes, um esmero na construção verbal. A terminologia do poema, digamos, é friamente calculada, projetada mesmo. Como confessa o autor, trata-se de “uma gramática das máquinas, caixa de palavras cuja engenharia concreta fixe alguma sintaxe”,

o funcionamento central desta escrita
guiada desde engrenagens gerais, do com-
plexo centro decisório (no miolo, o código)
aos simples acessórios do chassi (da capa
dura às páginas d'alguma gramatura); clara
aqui, uma gramática das máquinas, caixa
de palavras cuja engenharia concreta fixe al-
guma sintaxe, ou outra, esta reclusa, oculta sob
a tipografia física destes poemas rosqueados
[...]
[p. 13, interruptor ]


Reencontramos então a poesia arte-combinatória, com jogo de palavras, aliterações, mistura de falsos cognatos, de um concretista Haroldo de Campos (basta ver a obra “Galáxia”, reevocada em epígrafe aqui),

todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-
comêço começa e fina recomeça e refina e se afina o fim no funil do
comêço afunila o comêço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o
recomêço refina o refino do fum e onde fina começa e se apressa e
regressa e retece há milumaestórias na mínima unha de estória por
isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta
ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode
ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende

onde palavra atraí palavra num jogo verbal que inspirou também o poeta Luís Eustáquio Soares, em seu “Cor Vadia” (2002),

" e futuro, o fruturo e monturo e fratura que atura e que atua como sempre imperfeito, sempre rarefeito, sempre desfeito, sempre refeito de feitos e de eitos dos fetos das netas dos netos de seus ecos ecos ...”

e

"(no barulho calcante calcando de meus pés a pele do rosto do desgosto do gosto / na falha que olha na folha do dente da tarde, que arde ao arder à pressão à pressão / à pressão, alta, do peso do peso do peso dos pés) / à sedução do não".


Onde fica evidente o anseio de elencar e deslocar palavras, em outras (e novas) redes de significação (que sentido há, é outra questão?) numa fúria linguística, numa iconoclastia da linguagem, a lembrar a poesia frenética de “Ode Triunfal” de Álvaro de Campos-Fernando Pessoa, “À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica / Tenho febre e escrevo. / Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, / Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos. // Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! / Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!

Intertextualmente, lembramos de outra máquina, enquanto metáfora do mundo-enquanto-mecanismo, bem ao estilo do materialismo mecanicista, aquela 'Máquina do Mundo' presente nas obras poéticas de Luís de Camões e Carlos Drummond de Andrade,

Vês aqui a grande máquina do mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assim foi do Saber alto e profundo,
Que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada,
É Deus: mas o que é Deus ninguém o entende,
Que a tanto o engenho humano não se estende.”

(Lusíadas, Canto X, estrofe 80)

e

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar”

(CDA, “Máquina do Mundo”)


Mais do que o mundo-máquina, temos o ser humano enquanto máquina, homem-mecanismo, assim podemos voltar ao pensamento do francês De La Mettrie, no qual o homem-máquina (L’Homme-Machine) ocupa um lugar central,

Cada indivíduo desempenha seu papel na vida que foi determinado pelos mecanismos propulsores da máquina (capacitada de raciocínio), que não foi construída pelo próprio indivíduo”, afirmou La Mettrie.



Para evidenciar o mecanismo, seja do Mundo seja do Humano, a poética se estrutura num série de técnicas, no domínio mesmo da techné, num quase organograma de intervenções, ponto por ponto, como pilares que erguem um edifício. Seja em ritmo seja em disposição de palavras (toda a diagramação do livro é planejada, propícia a uma certa recepção do texto), ali se estrutura um tipo de produção entre o prosaico e o poético (do tipo anti-lírico).

Encontramos um ritmo marcado, ou quase uma métrica rítmica, variando entre 10 a 12 sílabas, perceptíveis mesmo na 'prosa poética'. Podemos ler “uma máquina datilográfica” [p. 71] com um certo ritmo, assim “algo neogutenberg, relíquia de uma era: / non-eletric black deck, / olympia repleta / de teclas, de um écran madre-pérola / o escritor a opera, o teclado / um leque de letras da rara nave / ….” como a separar com [/] os 'versos', as unidades de 10 a 12 sílabas, segmentando o texto em prosa numa leitura ritmada. É possível.

Em “c4s4 d4s má9uin4s” [p. 75] podemos segmentar um trecho assim, “as hélices do exaustor contra a asfixia: / suas aletas de centrifugação / aceleram o tráfego do gás, antes da estagnação; / o ruido gratuito denuncia a graxa / escassa: caixa-clássica, lacrada; a carapaça aparafusada / ...” e outro trecho [na p. 77] pode ser segmentado em 'versos' de 8 sílabas: “maior que a anterior, pujante , / é essa máquina de usina, / quase sozinha entre o alarido / descontrolado das buzinas / ...”

E ainda outro trecho, em “neon : do fabrico ao uso” [p. 87] onde podemos ler de modo segmentado em versos de 10 ou 11 sílabas, no que aparentemente é um texto em prosa, assim “quem poderia supor a estranheza / de um gás aceso, que, para exercer / seu fascínio, e revelar o mais concêntrico / dos segredos, houve quem conseguisse / confiná-lo à vácuo, em estreitas / serpentinas de vidro fino, só / obtidas de um sopro controlado sobre / um fogaréu típico de maçarico, / ...”

E assim em outros trechos onde a prosa se pode estruturar ritmicamente, com palavras escolhidas, com pausas (ainda mais com o uso de parênteses) onde é possível trabalhar friamente sobre a fronteira entre prosa e poesia.

Do ritmo passemos ao uso das palavras, o glossário, a seleção que o autor dentro de um dicionário. Por exemplo, o uso de proparoxítonas, tanto pela sonoridade, quanto pelo emprego enquanto 'jargão' , ou até pelo aspecto esdrúxulo do verbete, são exemplos, algumas: rígidas / líquido ; válvulas / implícitas ; invólucros / lúbricos ; cáustico / sulfúrico; crítico / pânico ; pêndulo / autômato ; dínamo / mínimo ; telúrico / hermético ; esôfago ; módulo / lógico , dentre outras.

A sonoridade é importante, daí a escolha das rimas – não ao estilo parnasiano, claro – mas uso de rimas internas (fato / aparato ; detido / nascido) além de rimas assonantes (aquelas marcadas na última vogal tônica, tão apreciadas e manejadas por João Cabral), p.ex., algumas: encapsula / desenvoltura / carnadura ; bocas / brocas ; fendas / frestas / gretas / brechas ; dióxido / tóxico ; dentre outras.

Existem expressões inteiras que exploram a sonoridade, que se estruturam não só pelo sentido, mas pela 'aproximidade' dos verbetes, tais como : “o raro halo da harpa” ; “neurônio anônimo” ; “válvulas ovulam” ; “engate engasga” ; “enxertos de extrato exato”, dentre outras, pois em muitos trechos as palavras que se aproximam por sonoridade ou visualmente, como são exemplo, as seguintes:

fatal / falta / causa ; arriscado / fatigado ; engate / engasta / desgastam ; encaixes / caixa / desencaixam ; desencaixam / desengatam / desastre ; tranco / trabalho / tanque / turbina / tambores ; eixo / exigência / exceção / mexendo ; quatro / arranque / tanque ; empuxo / luxo; anti-horário / celibatário ; barulhário / operário; pressão / impressa / aço / couraças ; graxa / caixa ; modelo / molde ; globo / glóbulo ;

Toda esta techné está aí para passar a mensagem – a própria poesia, não um panfleto – onde mundo-máquina e homem-máquina estão denunciados além do mecanicismo, mas num contexto de desumanização. É o mundo humano sofrendo uma erosão desumanizadora. O trabalho que deve dignificar o homem, que deve humanizá-lo, é mais um a foram de suplício, de mal-estar, onde a fábrica é tortura,

nem sempre é triste mas trinca naquela liga
entre o aço mais elástico e o arrasto do ferro
incrustado de ferrugem rubra, engrenagem por
engrenagem, até o trêmulo epicentro dessa
gangrena fabril. Nem sempre se repetem, nas
forjas, tantas outras dessas órbitas ruidosas,

[p. 99, Música de Trabalho]


Há um lirismo áspero , uma ironia corrosiva, nos poemas mais prosaicos, mesmo no mundo mais desumanizado, mais metalizado, num ferro-velho de sensibilidades,

[…]
das pétalas de alumínio, que laminava com pre-
cárias ferramentas, adaptadas de garfos e fa-
cas, vinham vivos mosaicos coloridos, lindos:
fragmentos dos rótulos de refrigerante, (massa de
tomate) querosene, criolina e azeite virgem.

[p. 127, Jardins]


o anti-lirismo denuncia que a poluição está presente no mundo moderno (ou pós-moderno?) onde ar, solo, águas, células, pulmões, tudo está se envenenando, o homem-máquina está se enferrujando, num mundo que se desertifica, num rio que agoniza em sedimentos,

[…] mas aqui quase todo rio
corre enjaulado, são artérias de água sufocada nos
lentos jorros entre esgotos de tubulações, que de
mal anexadas, transbordam cancro pestilento, pus,
enxofre, último lodo sulfuroso manchando o asfalto
craqueado pela carga ingrata do tráfego rodoviário.

[p. 147, guerra civil (zona norte)]


e alerta para a gradativa, cancerígena, mórbida sujeira das cidades, das metrópoles-tentaculares, sitiadas num acúmulo de dejetos que nunca serão reciclados, nunca serão desintegrados, mas constituirão as colinas do futuro, numa paisagem de decomposição,

[…]
labirintos de detrito e lixo; a carcaça
da cidade, às claras, desentranha-se da
rígida epiderme de concreto e pedra,
revela as espinhas carcomidas, o esgoto
à mostra, maresia decompondo tudo, à
putrefação avançada, jaz o cadáver adiado
da cidade – metrópole distópica; todo o
resto é “ilusão de zona sul”, é cegueira
social maquilando severamente a carestia:
[…]

[p. 149, guerra civil (zona sul)]


Sofremos pois, dentro do mundo-máquina (ou mundo das máquinas?) há o homem-máquina – nós – na condição do corpóreo, de ter corpo, melhor: o corpo humano enquanto mecanismo, o homem-máquina, L’Homme-Machine , segundo teorizou La Mettrie, conjunto de vísceras-órgãos-membros que podem ser vistos como válvulas-pistões-ferramentas,

[…]
o que mostra esse monstro,
ogro, invólucro, é um evento
pregresso, esperado sem
mistério, ter corpo é habi-
tar o futuro cadáver de si
próprio, ignóbil, sólida ne-
crose avançando sobre o
óbvio, aviso prévio, carne e
ossada (nem sempre velhos)
desse espécime de cemitério.

[p. 165, caixa-preta]


Estamos apenas no começo da leitura / releitura de “Casa das Máquinas” - pois não se trata de um livro facilmente digerível, ou esgotável, mas antes, requer atenção constante, tamanha a inquietação matematicamente provocada. Este ensaio – sucinto e direto – é apenas um prólogo. Voltaremos ao livro de Alexandre Guarnieri em próxima oportunidade.

Por enquanto, para melhor adentrar a 'casa das máquinas' nos cercamos de um mundo tecnológico, um cybermundo de sugestões, numa semiclaridade de lan house, uma rede icônica a vazar dos monitores, onde visualizamos alguns sugestivos ilustradores para “Casa das Máquinas” , sejam o cyber-alien-punk H. R. Giger, ou o figurinista e o cenografista do clássico filme alemão “Metropolis” , ou ainda os irmãos Wachowski da cyber trilogia “Matrix”.

Meio às imagens alguns sons podem se propagar, numa verdadeira soundtrack, trilha sonora, para ler o engrenado “Casa das Máquinas” com a cybermusic do alemão Kraftwerk, com a música cyberpunk, Pink Floyd com sintetizadores em “Welcome to the Machine”, hip-hop-metal furioso da Rage Against the Machine, para citar (e situar) alguns ícones do pop, ou pop cult, da rotulada pós-modernidade.

Temos mais e mais imagens! O que são filmes além de imagens em movimento?! E não dispensam soundtrack. Filmes (de outrora e de agora) que nos rodeiam : Metropolis, Terminator (ou Exterminador do Futuro), Matrix, filmes onde as máquinas se 'revoltam' contra os seres humanos. De escravizadas, as máquinas passam a escravizar, de dominadas, passam a dominadoras, assim a humanidade se torna dependente e escrava.

Engrenagens em engrenagens, pistões em pistões, cilindros em cilindros, uma máquina dentro da máquina, e nanomáquinas nas veias, máquinas úteis e inúteis, máquinas que produzem máquinas, sim, máquinas se reproduzem! Mundo-máquina, cosmos mecanicista, englobando homens-máquinas, seres-mecanizados, sem autonomia, em labor e suor, sem prazeres artificiais, eis o pesadelo que nos anuncia “Casa das Máquinas”. Em breve rebobinaremos esta fita.


Mai/12


Leonardo de Magalhaens




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...



poemas seletos de “Casa das Máquinas


música de trabalho

nem sempre é terrível a música orquestrada das
máquinas pesadas, sobretudo se ágil e sincopado
o ritmo de todos os motores a diesel enquanto
deslizam, vez por outra um solo monocórdico so-
bressai à percussão dos pistões, monólogo desen-
contrado sobre coro de vozes intercambiáveis.




nem sempre é triste mas trinca naquela liga
entre o aço mais elástico e o arrasto do ferro
incrustado de ferrugem rubra, engrenagem por
engrenagem, até o trêmulo epicentro dessa
gangrena fabril. Nem sempre se repetem, nas
forjas, tantas outras dessas órbitas ruidosas,




enquanto dura a jornada diurna um barulhário,
mas dora das fábricas, talvez o sono do operário
solitário o reconstrua quase à integralidade,
invadindo os tímpanos, sincopando, o ritornello
reclamando ad aeternum, um dentre tantos outros
pesadelos: o augúrio do contrato de trabalho.


Nem sempre é gratuitamente lúgubre, ou longa,
a música regulatória da vida útil (nula, reclusa)
dos metalúrgicos na indústria, símiles a refis
vazios, ou qualquer outros receptáculos defla-
grados, quando entregam dedo à fresa, vi-
nagre o sangue acre, tétano ou qualquer febre,
fusíveis sem brio ou viço, descartados, pinos
que por dispensáveis: necessário substituí-los.


[pp. 99, 101]





caixa-preta

no corpo, no rosto, sempre
uma caveira os frequenta,
interna, atrás da pele, sob a
epiderme; o que a superfície
serena aparenta mascara o
cancro e, por hóspedes, os
vermes; os tecidos exercendo
seu arcano, são meandro ca-
muflando o âmago; enquanto
o tórax resguarda o motor do
miocárdio; o encéfalo: no
crânio; no osso: tutano; no
esqueleto temporário, uma
centopéia de vértebras o
sustenta, as vísceras lacradas
ao ventre, mero aparato
maquiado sob camadas de
células, em série, a lânguida
flâmula no acúmulo dos
músculos, eis toda a verdade:
o que mostra esse monstro,
ogro, invólucro, é um evento
pregresso, esperado sem
mistério, ter corpo é habi-
tar o futuro cadáver de si
próprio, ignóbil, sólida ne-
crose avançando sobre o
óbvio, aviso prévio, carne e
ossada (nem sempre velhos)
desse espécime de cemitério.

[p. 165]


in: Casa das Máquinas [2011]



Alexandre Guarnieri