sexta-feira, 20 de abril de 2012

sobre os poemas de 'Rastros' - de Vera Casa Nova



sobre os poemas de “Rastros” (2006)
da poeta Vera Casa Nova (RJ / BH)

Em busca do Eu-lírico indefinido


Uma das temáticas mais presente na atual produção poética – e sintomaticamente na crica literária – é a problematização do fazer poesia, do ser poeta, do encontrar-se enquanto voz lírica (quem é a voz lítica? O eu lírico? Onde está o autor?) ou enquanto sujeito que se expressa (porque decidiu não se calar).

Mas o/a poeta tem apenas uma voz? Ou ele/ela encarna uma pluralidade de vozes, de dizeres? Há uma perspectiva privilegiada no ser-poeta? São muitas as questões que são levantadas – a ponto de se escrever teses com mais indagações do que respostas. Na falta de um ponto de vista sublime, temas uma descentralização, logo os ecos das vozes marginais.

Daí que são muitas as vozes do poeta – a dele/dela, a do outro/a, a da sociedade, a do contexto histórico, etc – muitos 'eus' habitam o Eu. E desde as teorias e talking cures de Freud o Eu não é íntegro, mas tripartido (ver Id, Ego, Super-Ego), o Eu é formado pelos aprendizados no mundo social, ou seja, com o outros, seja família, escola, igreja, clubes, etc. Logo o Eu poético também é multifacetado, posto que multideterminado – circunstâncias várias o pré-formataram.

Assim o Eu-poeta é fruto das leituras de mundo, de outros poetas, de outras tradições filtradas pela sensibilidade individual na forma de texto artístico a ser enviado a outras sensibilidades que recepcionam de acordo com suas peculariedades-qualidades-precariedades. A voz lírica não é só do poeta – é de todos os poetas lidos, os que vieram antes, os atuais, os contemporâneos, ou seja, tanto a tradição quanto a geração - , assim a voz não é una, mas 'mil vozes',

Todos os poetas percutem em mil vozes dentro de mim
O poema insiste em ser inscrito no corpo” (p. 9, Epígrafe)


E nesta dissolução do Eu-lírico – incerto sobre si mesmo, imagine-se então sobre o mundo ao redor! - o desabafo oscila entre o personalismo-individualismo e o mosaico de vozes ('mil vozes') onde o que importa é a expressão verbal – ou visual – a ponto de o poema se esvaziar do eu lírico (autoral ?) e o poema falar de poema, de outros poemas, do fazer poema.

Nesta obra “Rastro”, de Vera Casa Nova, poeta, professora e crítica literária, podemos notar estas indagações sobre onde está o Eu e onde está o Outro, onde a voz autoral é uma colcha de retalhos de outras vozes (ditas) autorais. A poesia seria um modo possível de expressão? Ou um jogo de palavras despersonalizado? Ou um estilo de rearranjar-montar redes semânticas ao fazer as palavras se des-dizerem?

Haverá alguma lacuna para a expressão pessoal? Para uma confissão? Ou seja, para alguma poesia lírica?

Ainda se fazem poemas de amor?
Com que amor se faz um poema de amor?” (p. 14 , Poeminha menor)


Ou para o eu lírico em busca do amor? (nem vamos debater aqui o que seja 'amor' no contexto prosaico ou poético, ou na cultura ocidental cristã)

Minha descontinuidade é a busca incessante e frenética
De um Eros possível e imponderável.” (p. 19, Eros histérico)

Ou a sinceridade de algum desabafo comunicável ? (A contrariar o assustador: “toda poesia é incomunicável” drummondiano),

E reescrevo as notas melancólicas
De uma utopia desfeita.” (p. 21, Interrogação)

Clamo pelas palavras possíveis
As não ditas ou apenasmente
Gritadas pelo verso.” (p. 23, Jogo)


Ou antes, podemos esperar o apurado trato com as palavras? O jogo de palavras num dizer que des-diz o comum? Um lúdico sobre por de vozes sobre vozes que se banalizaram? Num reencontrar a palavra num reencantamento (se possível for)?


Experimento a delícia das palavras;
Como-as como posso.” (p. 24, A Veia)

Palavras se (me) movem
poéticas viajantes
nessa música do corpo” (p. 29, Versão)

O velho dicionário de Aurélio
Mostra as impossibilidades da palavra.” (p. 60, Esboço de Vida)

Mas jogar com as palavras é suficiente para ser poeta? O ser poeta é uma capacidade de expressar a sensibilidade? (afinal, todos têm sentimentos, mas nem todos são poetas...)

O poeta se esconde por entre os muros
Pichados da cidade.”

E o poeta se dilacera
Diante do olhar dos objetos.” (p. 26, Dias... Noites)

Daí indagarmos, pesarosamente, lirismo e pensamento: como conciliar? : poesia sentida ou pensada? Como deixar o coração verter versos sem sofrer bloqueios do cérebro, do super-ego, da gramática, do manual de redação?

Penso, logo, insisto:
E pensar nem sempre é preciso.”
(p. 36, Pensamento Tolo)


Temos o pensar sobre o poético nos próprios poemas - no fenômeno de metapoema - quando a poesia inclina-se sobre si mesma, olha-se no espelho, fala sozinha, briga consigo mesma. O fazer poético analisado, reavaliado, com muita metalinguagem: “Não sei como um poema se faz.” (p. 74) o poema parece que simplesmente brota. E não pode ser explicado, evidenciado. (A Crítica bem que se esforça...)

O poeta diz algo sobre seu poema;
Melhor não dizer nada.” (p. 74)


Mas afinal o que é poesia? O que mais dizer (pois não podemos nos silenciar...) sobre o fenômeno poético, sobre o que pensamos, ou rotulamos, na qualidade de poesia:

poesia é feita pra gente comer” (p. 40)

A poesia é uma comunidade sem fim” (p. 61)

Voltamos ao ponto, girando em círculos: pensar ou sentir? Pensar E sentir? poesia é então inspiração? Fonte inconsciente? Como queria o surrealista francês Breton... ou seria um esforço? Mais transpiração que inspiração? É um desejo de falar mesmo sendo melhor ficar calado? Ou falar justamente por cauda do medo do silêncio? Do medo do não-comunicar?

o silêncio pungente / nos arrebata, / nos persegue até a paranóia” (p. 29)

O sopro que anima as veias das palavras.” (p. 74)

Sou a impossibilidade dos versos.” (p. 87)


O que acaba acontecendo é um fenômeno bem moderno, até pós-moderno (como desejam os críticos) onde o Poeta vive em diálogo com o/s poeta/s. O poeta que fala aos outros poetas, numa teia de intertextualidades. Com o poeta, ou antes, a figura do poeta,

O poeta... o diferente das gentes
ou … … o indiferente
passeia por entre seus versos
inquietos” (p. 61, Não)

O poema é ironia da vida
E tu, poeta, morto ou vivo
Circulas deixando rastros” (p. 40, Logogrifos)

Ei, poeta! Vamos namorar um pouquinho?” (p. 44)


Dói a falta do verso: ouvir e pensar
Versos que não são meus, nem teus, são de ninguém ou de todos:
Quintana, Drummond, Waly, Haroldo: onde se encontram se não
nos versos
da memória do impensado?” (p. 38, Vertigens)

Poetas aí citados que mostram o percurso de leituras da poeta, temos no rol o mineiro Drummond de Andrade, e o homem do pantanal Manoel de Barros,

Desse tempo de poeta itabirano
Removo meus ais passados:” (p. 57)

Manoel de tanto barro
oferece seus versos partidos” p. (57)


Notamos referências ao poeta francês Rimbaud, aquele que vivia com as 'alquimias do verbo', com seu poema surreal “Bateau Ivre” , Barco Bêbado, no “turbilhão de vertigens pós-tudo” ('pós-tudo', pós-estruturalismo, pós-concretismo, basta ver Baudrillard e a questão dos 'simulacros' em nossa 'pós-modernidade'),

Percorro a água revolta no barco de Rimbaud” (p. 43, Retorno Rimbaud)

referência também a Jorge Luís Borges, o contista argentino, com seu infindo “O Livro de Areia”,

Escrevo nesse livro de areia.
Borgeanamente ofereço versos
A quem passa na esquina da vida.” p. 53


Interessante diálogo com Bandeira e Drummond: sobre a Indesejada da Gentes, traduzindo: A/O Morte. O eu-lírico aqui está numa posição de contraponto, não exatamente preparada quanto o poeta de Pasárgada,

Quando a indesejada das gentes chegar
não estarei com a casa limpa nem com a mesa posta” (p. 91, Indesejada)

em comparação temos aqui o poema de Manuel Bandeira (“Consoada”)

Quando a indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.”

E outros poetas para o rol de influências: em “Espelho” (p. 92) temos referências a Álvares (de Azevedo), Olavo (Bilac), Castro (Alves), Alphonsus (de Guimaraens), Murilo (Mendes), Drummond (de Andrade), Waly (Salomão), num recorte que vem desde os poetas românticos do século 19, passando pelos parnasianos e simbolistas na transição para o século 20, pelos modernistas e chegando até os poetas da dita 'geração marginal', nos anos de 1960 a 1980.

Não apenas estes, encontramos outros nomes no rol de leituras que nos possibilita rastrear a 'angústia de influência' (please, ver a teoria do scholar Harold Bloom) da autora, Fernando Pessoa; Joan Brossa, o poeta catalão : poesia para se ver (na p. 68), o francês Francis Ponge,

sou o tudo e o nada pessoano” (p. 65)

desespero em ler seus versos tão simples.” (p. 69)

além de um recado desaforado para o poeta Boris Vian, que despreza os 'bestas' poetas e não poupa as mulheres, o que a poeta não deixa por menos, em seu desabafo: “mando você à merda” (p. 84)

poemas de Joan Brossa, Francis Ponge e Boris Vian em





Além do diálogo com outros poetas (ou outros Eus) temos tentativas confessionais, escuta do outro, um colocar-se no lugar do outro, uma voz de exortação. Mas podemos dizer Poemas pessoais-confessionais? Sim, temos. “As Formigas”, “Saudades de Carnaval”, “Poema para Cla”, e não seria confessional? : “Perdi-me entre paixões vadias e românticas” (p. 92)

Mas não sobre si mesmo o eu-lírico se expressa, afinal o Outro está mais dentro do que fora, com identidades que se mesclam, se fundem, basta comparar com já citado Rimbaud (“Eu é um Outro”, “Je est un autre”)

O que dizer de mim se sou o outro de mim?” (p. 71)

Daí o jeito é escutar o outro: “onde possa escutar os versos que estão fora de mim.” (p. 71) ou tentar tornar-se o outro: “Tornar-me criança, animal, negro, bicha. / Todas as minorias / maiorias do mundo / Isso para não aniquilar as esperanças” (p. 72) ao identificar-se com os 'humilhados e ofendidos', os que vivem nas margens.

Tanto que o outro está presente no pronome 'nós', quando o Eu engloba o Outro, inclui outras vontades, outras vozes, e deixa de olhar o próprio umbigo, num poema de exortação: exatamente, o eu exorta o outro, até dá conselho, anima!

Misturem-se nas cores do universo
E não se esqueçam de nada:
A memória é nossa força,
Ela nos inventa a cada dia.” (p. 75)


É nestes momentos que a poeta consegue fugir aos simulacros de metalinguagem, ou intertextualidades, e finalmente diz mais do que sobre poesia e poetas. Ela tem realmente algo a dizer – não que espere realmente comunicar. Temas universais aparecem – acima a exortação, a voz coletiva – que encontramos tanto em Whitman e Neruda, p.ex. - e na filosofia, o tema do viver o hoje e não se preocupar com o amanhã – 'carpe diem' – aproveite o dia ,

Hoje, não consigo pensar no amanhã” (p. 77, 'Amanhã')

não pensar no amanhã – mas viver o hoje – eis um tema dos poetas do Barroco, e também do Arcadismo e do Romantismo – a vida enquanto fenômeno efêmero - mas o inquietar persiste: “Qual o saber no amanhã revelará meu dia?” (p. 77)

Quando a voz poética dá livre curso ao voos – rumo a outras imagens / paisagens: “O céu sempre cinzento de Paris manchava-se de pontos negros... / Tentava-se ouvir o inaudível do grito.” (p. 73) quando lembramos do grito do quadro de Edvard Munch, “Mas em mim / Os silêncios podem ser ouvidos.” (p. 73)

A voz então se torna audível quando comunica uma expressão de época – pois é coletiva – uma visão de mundo, um testemunho pessoal – além de olhar a própria poética, ou dialogar com poéticas ao redor ou no passado. A autora, a poeta, a professora, a crítica literária, ou seja, as várias atividades-identidades se entrelaçam, forma uma pessoa que saber-se várias ao mesmo tempo.

É quando a voz se personaliza, ela tem um lugar no tempo, tem sua geração. Uma geração da Utopia , ou antes as utopias de cada geração, seja nacionalismo, libertação, revolução, consumo, não importa, sempre as gerações procuram uma voz que fale mais sobre a época, num repensar-se, reconhecer-se nos versos, seja positiva ou negativamente. Quem será o poeta da geração X ou Y ou Z? Qual poeta marginal será o 'representante'? Ou antes: é isto possível? Como representar uma pluralidade de vozes?

Ainda é cedo para englobarmos a Poética da poeta e crítica Vera Casa Nova em gavetas, rótulos, conceitos, esquemas, etc - afinal o meio acadêmico não se preocupa com poetas vivos, demasiadamente vivos, e sempre espera um cinquentenário de alguém para publicar homenagens. Mas esquece a Crítica que a poética quando tem valor em si-mesma provoca uma presentificação, um agora do Dizer. A geração da Utopia, na qual a Poeta se gerou, já passou, mas a sua Poesia apenas começou a ser lida, relida, pensada, sentida e repensada.

abr/12


Leonardo de Magalhaens




outra resenha sobre obras de Vera Casa Nova


mais poemas de Vera Casa Nova



dois poemas de “Rastros”


PENSAMENTO TOLO


Penso, logo, insisto:
E pensar nem sempre é preciso.

Ter as cordas presas ao panóptico
Desiludir-se de vez com o real
Dizer que o melhor é
Dançar um pagode
Sair por aí
Exultando o axé.
Quando a madrugada chegar
Que tempo nos restará?

O sol cobrirá de raios os velhos caminhos
De dor e carícias.
Teu pé direito não conseguirá sair do lugar marcado
Agarras-te no que tens e sabes não ter nada.

Tuas mãos não trazem nada.
Vazias, elas te ajudam a caminhar por entre ruínas.
Descendem-te de monumentos seculares
E teus brinquedos são válvulas e engrenagens.

Pereces a cada instante nesta cidade morta.
Pensa.




ESCRITURAIS


Essas cicatrizes do corpo
São linhas bordando peles e carnes.
Escrituras da alma
na transpiração das lutas: deriva.
Impedida de seguir a linha das bordas.
Sufoco angústias e desespero.
Sou afinal, uma salamandra, e como tal, percorro espaços de
[fio a fio,
As ondas não me impedem de pensar.
Concluo não concluindo.
Na dissolução
Me dissolvo, na posse me despossuo.
Tua escritura me faz respirar
Tua escritura é meu transe.
Transitamos um no outro
Torcemos penas e mortes
Pincéis e lápis.
O testamento de nossos pais
Não dizem a diferença: obrigação nossa de cada dia. Amém.
O desejo da deriva,
O rastro, os restos de palavras, botões, palmilhas, unhas de tua unha,
pestana de tua pestana-cerca de teus olhos
Encontrados no chão
Suprimem o mal estar do outro dia.



in: Rastros / 2006


Vera Casa Nova

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Ecologia Ecoando na Mídia




Ecologia Ecoando na Mídia


para Rodrigo Starling



Rio +20 está na mídia

Hoje que pouco resta

de mata e futuro

Está em todos os jornais

Está em mil matérias pagas

revistas feitas de papel reciclado

empresas eco-corretas pagam bem

árvores trituradas para papel

para eco-comunicados globais

Os heróis do Greepeace avisam

o planeta não aguenta

e o aviso não para

o aviso está no nível dos mares

no derreter das geleiras

nos ciclones e tsunamis

o planeta está convulso

está em fúria

mas há um sentimento

e alguns nele acreditam

a salvação que esperam

a salvação que os governos adiam

a salvação que o empresariado ignora

e enquanto o aviso é para todos

o céu desaba sobre todos

o mar invade a praia de todos

e o aviso ecoa no silêncio

todas as florestas

convertidas em papel ou cinzas

todas as águas

envenenadas com lucros e superávits

O aviso ecoando

'salvem o planeta'

a mídia anunciando

'Rio +20 vem aí'

A quanto tempo ouvimos isto?

Ao longo de tanto e tanto tempo

-pelo menos uns 20 anos-

e nada acontece além de

congressos mesas-redondas fóruns

tratados formalidades debates

poses fotográficas assinaturas

e quem separa o lixo?

e quem recicla?

e quem dispensa o carro?

O planeta não pode esperar

tanta jogada de marketing

em todos os rios

todos os mares

todos os ares

vemos apenas um aviso

'salvem o planeta'

midiático

e sabemos que morreremos

quando o planeta morre

este é o preço

políticas públicas & protecionismo

reformas agrárias adiadas

leis feudais no campo

códigos florestais negociados

entre madeireiras e lobbistas

entre latifundiários e ruralista

entre políticos corruptos

entre sanguessugas de verbas públicas

onde é assim: mata = money

bela equação !

E o aviso ecoa no ar de fuligens

na fumaça de mil fábricas

nos esgotos das cidades

despejados em rios e lagoas

o aviso ecoa em gritos

sobre as ruínas da vida

sobre a extinção das espécies

sobre as matas em chamas

onde a terra é torturada

diariamente

com lágrimas e arrepios

parece um pássaro acuado

uma criança histérica

chorando num quarto fétido

faminta implorando migalhas

e uma grande conferência

é agendada

sob holofotes

para inglês ver

para ecologista posar de herói

para empresário posar de salvador

e o ódio se alastra

e o roubo a corrupção impera

o egoísmo acima de tudo

e as crianças histéricas

estressadas imploram por ar puro

nas teias das grandes cidades

onde habita o grito de desespero

há uma grande agonia

há um show de loucura

esmagando o bom senso

basta ver a selva urbana

basta apreciar a luta no campo

ou vislumbrar o poente de fuligens

ou a maré de radioatividade

onde pessoas enlouquecem

atrás de mesas de balcões de monitores

em busca de cargos de lucros de poderes

de mercadorias de renomes

os loucos do sucesso

os insensatos do progresso

os fanáticos da fama

todos nas cidades inchadas

acotovelando o vizinho

tumultuando o trânsito

despejando o lixo

morrendo em becos de favelas

matando em ruas escuras

numa cidade de simulacros

num rio de miragens

numa praia de anúncios-néon

correm atrás da morte lenta

enquanto o aviso ecoa

'salvem o planeta'

enquanto as crianças choram

'queremos pão e ar puro'

nós ouvimos o anúncio

as sereias da mídia

'Rio +20 vem aí'

nós vemos os flashes

e as poses e os sorrisos

e as canetas nos protocolos

e as cifras nos monitores

e o choro silenciado

'não há tempo'

ecoa

'não há mais tempo'



desabafado por LdeM

em 1º e 06 abr 12


http://leoliteraturaescrita.blogspot.com



quinta-feira, 29 de março de 2012

OLHARES - conto




OLHARES


Estranho é andar pelas ruas, numa manhã isenta de sol, furando as ondas do tráfego, e sentir, queimando, os olhares acusadores dos passantes. Suas faces transformadas, tal em convulsões, de bílis vertida nas estranhas, e um rasgo de deboche nos lábios, um não-pode-você-fazer-que-vai-nos incomodar toda vez que insistimos em seguir junto as vitrines, e ao fim, nos desviamos, antes de derrubarmos, por terra e cimento, a senhora com suas inevitáveis duas sacolas prenhes de mercadorias, e ela ainda insatisfeita.


É assim: todos me acusam. Estou sujo, um traço de dentifrício marca em cicatriz o subúrbio de meus lábios, ou meu cabelo se enroscou serpentino ao vento de fuligens.


É assim: de súbito, um olhar me enternece. Uma garota de meu interesse, que penso já ter visto antes, talvez num dos agitares do mercado, alguém enfim que percebo admirar.


Aproximei-me, puxei assunto. Ela, meio assim desconfiada, mas ainda certa atenção. Percebo meus passos, enquanto sigo ao lado daquela de olhos tão abraçantes. Aí ela entra na igreja.


Olhei o altar, ali uns poucos fiéis, e aquele cheiro de incenso me nauseava. Ela se encaminhou aos últimos bancos, deixando meia igreja de bancos vazios entre ela e os devotos. As devotas.


O que fiz? Sentei-me o lado dela, meio deslocado. Levantei-me e, assim inclinando, cochichei ao seu ouvido: “Querida, você não quer que conversemos na igreja, quer?” ela se levantando, assim meio contrariada, mas sem outras hostilidades, olhando assim com aquela timidez, mas parecia querer se entregar - ali contida ainda por alguma desconfiança. Algum meditar a retinha.


Penso, logo desisto. (Citação, meu velho.)


Ela foi seguindo à minha frente. De súbito, parou.


É que ela, voltando-se para mim, verteu olhares perplexos. (enfrentei muitos olhares, mas aquele era.) Possuída pelo olhar, ela exclamou irada: “Bem que minha mãe me alertou!” Deu-me as costas, seguindo para a porta. Tentei sair no seu encalço, fui barrado por uma voz autoritária: - “Parado aí, amigo.”


Amigo? Dois policiais ali estão. Braços cruzados à altura do peito, na representação correta de autoridades, donas de meu ir-e-vir. Mas eis a porta e vou abri-la assim mesmo. O ar da igreja me sufoca. Abri mesmo. Alguém ainda diz, à milhas: -“Eles vieram é pra te prender.”


Como já disse, abro a porta. Na calçada os vultos, quase humanos, de mais dois policiais. Fardas furando na retina a profunda calma. É um suor o que me afoga a nuca, e singra meandros do pescoço? Blá, blá, blá. Na viatura, do outro lado da rua, mais dois. De repente parece que já esperava por tudo aquilo. Um batalhão para me prender!


É uma manhã isenta de sol ( acho que já disse isso...) e digo, aborrecido: “Tão cedo!”


Garras metálicas a beliscarem-me o retesar dos pulsos.


Vejo, à distância, a moça se esvaindo nas brumas do asfalto quente.



Leonardo de Magalhaens

http://leoliteraturaescrita.blogspot.com.br



quarta-feira, 14 de março de 2012

Sobre os poemas do poeta Diovani Mendonça



Sobre os poemas do poeta Diovani Mendonça

(divulgados em blogs, zines, embalagens de Pão e Poesia)



Poeminhas para distrair dor de dente




Diante da necessidade de poemar infindamente os Poetas precisam de um suporte espiritual ou material, virtual ou em celulose para os seus registros de versos que não podem ficar apenas dispersos ao vento. Ainda que os melhores versos realmente sejam levados pela brisa noturna meio ao resmungar solitário entre andanças e angústias, não podemos privar os leitores de conhecerem ao menos alguns versos, não que sejam os menos, ou até os piores.


Divulgar é uma arte tão sutil quanto rascunhar, rabiscar, esboçar versos e versinhos, poemas e poeminhas num papel ou no monitor do PC, no aconchego do lar ou no tumulto de lan house, o importante é registro o mínimo da produção poética. Aquele poema que surgiu e sumiu no sonho ou pesadelo, aquele que foi declamado ao pé de uma árvore paradisíaca ou na parada de ônibus, poemas mil que se perderam.


Divulgar é uma perenização de 1% que a produção ousou, a imaginação conquistou, o papel ou monitor absorveu. Poucos vão tomar conhecimento, poucos vão abrir o e-mail, poucos vão ler realmente. Mas o poeta não pode desanimar. Se os versos não são os melhores - e sim aqueles que foram mentalizados no banho quente da manhã ou no momento orgásmico do amor - não vamos privar os seletos leitores de uma amostra grátis do que poderíamos ter escrito.


Insights, intuições, psicografias, os nomes são inúmeros para retratar os momentos de iluminação que rasgam o cotidiano do/a poeta quando ele/ela produz os versos que alguns nunca vão ler mas outros nunca vão esquecer. "Uma flor nasceu na rua!" - em que momento da pacata vida de Drummond ele pensou esse verso tão simples e tão extraordinário! Uma flor em pleno asfalto! Uma beleza em plena fuligem! E se ele não divulgasse? Seríamos hoje muito mais pobres de espírito (e percepção!)


Assim a divulgação múltipla da poesia é plenamente necessária e aplaudida. Seja em papel, em xerox, mimeografo, pacote de pão, blogs, dentro do metrô, dentro do ônibus, tipo, você entra num metrô e eis um poema, você embarca num ônibus e eis um poema, ali, balançando, bolinando entre as suas pernas, vai comprar um pão e - opa! - um poema! O poema derramado pra todo lugar, de repente, nunca esperado, solicitando atenção - um minuto de vossa atenção! Um minutinho só!


Necessária e merecedora de aplauso as iniciativas do poeta, empreendedor e agitador cultural Diovani Mendonça - mais encontrável no blog www.diovmendonca.blogspot.com , mas circulando por aí em pacotes de pão, garrafas plásticas, edições em cartaz do Mulheres Emergentes, ministrando aulas de poesia nas escolas particulares e da rede pública, dormitando sob a Árvore dos Poemas carregada de frutos-poemas.


O Poeta que distribui seus pequenos poemas (e há também os extensos) nas mil mídias citadas, além de distribuir garrafas pet com versos - aqueles very old manuscritos numa garrafa que tanto atraia a curiosidade do jovem Edgar Allan Poe a imaginar mil mensagens de piratas e tesouros - em visitas e saraus meios aos comportados, disciplinados, mas também alvoroçados alunos, no projeto Pão e Poesia nas Escolas.


Os poemas mínimos de Diovani Mendonça procuram captar um momento e dizer algo a respeito, algo que mereça ser dito, nem que venha soar infantil, óbvio e inútil. Uma poesia simples para distrair do cotidiano - e apontar a mesmice - para descrever uma sensação e fotografar algo no fluxo do tempo - nem que seja para fazer esquecer uma dor de dente.


Poesias que nascem da leitura de poesia, quando o poeta não nega suas influências - a síndrome da influência, como diria o crítico literário Harold Bloom - quando segue trilhas já pisadas ou quando se desvia curioso por outras sendas, perigosas veredas, criando um mundo novo - como fez o notável Guimarães Rosa - com outro trajeto, outros mapas, outros pontos de referência. Assim vai seguindo o Poeta na Estradinha Carlos Drummond de Andrade,


No meio do caminho do poeta

tinha uma pedra, tinha uma pedra.

Tinha sim, uma pedra;

bem no meio do caminho dele."


e reconhece a influência palpitante, tropeçante, palmilhante,


E que estilingue a primeira pedra,

quem disser que sou plagiador.

Que aproveito da fama do Poeta.

Eu, mero peão, doido de pedra e por pedra.


E o Poeta não "luta com as palavras" (a "luta mais vã", segundo o mesmo CDA), decidido a esperar distraído que as palavras se aproximem e venham brincar, "Tudo bem... admito: / sou mesmo / orelha seca / com as palavras. // Por isso / não brigo / mais com elas / só brinco, / : bijuterias:", onde brincando com as palavras, levemente, distraidamente, é capaz de construir a leveza, a insustentável leveza, da poesia,


Não me levem

demasiado a sério.

É que um vento antigo,

traquina e moleque,


desses de empinar papagaio

de taquara e seda no azul,

tem despenteado o leque

no abanar meus pensamentos.


(Papagaiado)


onde o Poeta não pretende forçar as palavras (nem o leitor) a um formato, a um estilo ou estética, mas soltar-se justamente dessa visão acadêmica (e formatada) de fazer poesia. É a mesma empolgação dos modernistas, de Manuel Bandeira, de Mário de Andrade, ou atualmente um Manoel de Barros, quando querem subverter esses academicismos com poemas leves (e também CDA quando começou a carreira, ou alguém já se esqueceu da pérola "Cidadezinha Qualquer"? "Um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. Um burro vai devagar. Que vida besta, meu Deus")


Assim também é "Auto-elogio à minha alma-palhaça", onde a escrita é uma carícia de uma pena desde dentro, "Não tenho penas. /Tenho pernas. / Por isso:/ sei andar e não voar.// Mas sei que penas / de outra natureza, / também moram / dentro de mim", é quando o poeta quer voar, aprender a voar, em ânsias de voar, e a poesia é que acaba batendo asas alçando voo...


Os poemas de Diovani Mendonça são de fácil digestão. Não são simplistas nem simplórios, são simples. Poeminhas. Não que sejam insignificantes. Isso já deu vazão há inúmeras e infrutíferas discussões. Como se poemas mínimos fossem poemas desprezíveis. (Coisa que José Paulo Paes demonstrou ser irreal quando ousava os famosos micro-poemas cômicos e irônicos, insistindo em brincar com as palavras)


Passarinho fofoqueiro
Um passarinho me contou
que a ostra é muito fechada,
que a cobra é muito enrolada,
que a arara é uma cabeça oca,
e que o leão marinho e a foca..
xô , passarinho! chega de fofoca!

em http://www.secrel.com.br/jpoesia/jpaulo.html


Onde a poesia é mais tecida de sensações do que de pensamentos. Ou seja, não é racional. Mas não que o poeta despreze a racionalidade. Pode fazer um poema 'racional' contra o 'racionalismo', o que lembra um Fernando Pessoa, um Moacyr Félix, um Ferreira Gullar",


Há certas coisas que, após entendidas,

necessitam de muito mais explicações

e perdem o mistério, a graça e o encanto

diante da revelação.


Pois há sempre um elemento de encanto e mistério diante da transitoriedade, da efemeridade, que perdemos é tempo tentando explicar (será devido a metafísica?),


Creia-me;

tudo passa, tudo gira, na órbita do transitório.


e


O que ainda não passou

é porque a flecha do esquecimento

está atravessando o tempo rumo ao alvo

onde tudo é nada, onde nada é tudo.

Tudo, nada; nada, tudo

no infinito mistério.


O que desperta lembranças de F. Pessoa quando dizia passarem os filósofos, mas permanecerem os poetas.


Inspirado pelo expressionismo de Van Gogh, sob o sol inclemente da pintura, Diovani tece o seu ensolarado "Fogaréu",


e acima do chão sair pelas ruas

cuspindo palavras de fogo


nos transeuntes presos no iceberg

da indiferença urbana que a cada dia


cresce como o derretimento

das calotas polares.


Segue o poeta sob o sol abrasador, em pleno aquecimento global, sofrendo a prisão da realidade que muda apenas para continuar a mesma, em asfalto e buzinas, poluição e ambições, corajoso para


Quebrar as algemas / no cinturão da lei. // cortar as veias da lucidez / das

minhas orelhas // cansadas de ouvir os ruídos / do mundo em ruínas // e

mudo deixar / sangrar meu gesto // enquanto me abraça uma camisa

de força.


Vejam no blog www.diovmendonca.blogspot.com



Derramando a poesia para os transeuntes, para os reacionários, para os libertinos, para as donas de casa em plena padaria, para os mendigos na Praça Sete, para os beatniks no Parque na tarde de domingo, assim divulgando a PoPoesia a pulular no dia-a-dia para fora dos gabinetes, para fora das torres de marfim, para fora dos livros amontoados nas estantes (quero dizer, estantes abarrotadas de livros que não passam de objeto de decoração), para que a poesia possa sair por aí em andanças, peregrinando, gritando, ainda que seja para poucos ouvidos (pois nem todos que ouvem, entendem, sejamos óbvios)


A poesia / tem / que / ser pop / pular na panela / de pressão... / da realidade


e conclui


A poesia / tem / que/ ser pão / /e/ / para / todas as bocas



Assim seja. Pois se depender do poeta e agitador cultural Diovani Mendonça, à sombra da Árvore dos Poemas e degustando Pão e Poesia, assim será.




dez/08


revsd: fev/12



por

Leonardo de Magalhaens


http://leoliteraturaescrita.blogspot.com

http://meucanoneocidental.blogspot.com


sexta-feira, 2 de março de 2012

Entrevista com o poeta Jair Barbosa



Entrevista com o poeta Jair Barbosa

2012


Na Praça da Liberdade, BH


Sobre o lançamento de “Sobre Ventos e Sementes

em fins de 2011


Uma cortesia do Pão e Poesia


(um projeto de sucesso criado pelo poeta Diovani Mendonça

de Contagem / MG)

mais em http://www.paopoesia.blogspot.com/



LdeM: Estamos aqui com o poeta Jair Barbosa em frente a Biblioteca Pública Luiz de Bessa, e vamos conhecer mais sobre o poeta e o seu livro “Sobre Ventos e Sementes”, recém-lançado agora em 2011, vamos fazer uma entrevista, mas antes ele vai dar uma pequena amostra do seu trabalho, lendo um poema, aqui em frente a Biblioteca, que está em reforma, como vocês estão vendo... Estamos aqui na Rua da Bahia, olha o trânsito! E o Jair vai ler pra nós...


Jair Barbosa (JB): Lendo um poema de “Sobre Ventos e Sementes”, “Bato a sua porta”.


LdeM: Vamos continuar a entrevista na Luiz de Bessa, na parte de periódicos, agora.


LdeM: Continua a entrevista com o Jair Barbosa. Aqui ao lado dos 'Quatro Cavaleiros do Íntimo Apocalipse'. Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos. E vamos falar sobre o Jair Barbosa, a Obra do Jair Barbosa, depois ele vai falar sobre as várias artes, sobre as formas de divulgação de poesia.


Jair, você aí confortavelmente ao lado dos maiores escritores mineiros, fale um pouco mais sobre a sua trajetória de poeta, de pensador do Jair Barbosa que nós conhecemos lá da Biblioteca Municipal de Betim...


JB: Bom dia, boa tarde, boa noite! Eu fui iniciado na literatura pelas mãos de minha mãe, fui iniciado na literatura oral, depois no primário eu li “As Mais Belas Histórias”, de Lúcia Casassanta, e depois de alfabetizado eu li muitas coisas, gibis, fotonovelas, livros de faroeste, livros de best-sellers , a Bíblia, … os clássicos, Machado de Assis, Bernardo de Guimarães... Depois me interessei pelas áreas da filosofia, economia, a história, as ciências sociais, acabei fazendo Biblioteconomia na UFMG, … Na verdade sou um leitor inveterado. Na hoje sou um leitor que escreve...


LdeM: Estamos aqui com o Jair Barbosa. Diga para o nossos ouvintes [aqui, leitores] o que você pensa sobre a Poesia enquanto Expressão.


JB: Na verdade, quando se problematiza sobre a utilidade da Poesia … no meu caso Poesia fui uma das formas que eu encontrei para me expressar. Lembrando que o poeta está dentro de um contexto. No meu caso, eu me movo no bairro São Bernardo, na periferia de Belo Horizonte, no Estado de Minas Gerais. A poesia, na verdade, para mim uma forma de estar devolvendo ao outro o olhar, os gestos mínimos para as retinas tão fatigadas... Na verdade a Poesia é uma das formas de dar a minha versão sobre o mundo, de narrar o mundo...


LdeM: Vamos ouvir agora Jair Barbosa com outro poema de “Sobre Ventos e Sementes” ...


JB: Lê o poema de “Sobre Ventos e Sementes” - “como fugir daquele que nunca dorme” ...


LdeM: “Sobre Ventos e Sementes” é o título do livro que o Jair Barbosa lançou agora, no ano passado, em 2011, e está escrito assim: é uma publicação, uma edição do Autor. Jair Barbosa, como é esta ideia de o poeta ter que patrocinar a própria obra?


JB: Na verdade, eu acho que as leis de incentivo, as editoras, é um processo muito moroso, muito caro, burocrático, e o autor, a gente, tem que bancar o próprio livro … é uma forma de mostrar o nosso trabalho... A gente fica esperando os editores, os analistas da lei de incentivo, na verdade, um processo moroso e complicado. Você precisa pagar pessoas para elaborar o seu projeto. Na verdade, o poeta tem que escrever, mas infelizmente o poeta também tem que tirar dinheiro do próprio bolso para bancar o livro...


LdeM: Este livro - “Sobre Ventos e Sementes” - você ficou 8 anos escrevendo? Diga pra nós...


JB: “Sobre Ventos e Sementes” realmente foi gestado durante oito anos, na verdade foi um livro escrito bem devagarinho, em meus momentos de solidão, momentos de angústia, meus momentos de êxtase, por que não?, momentos de raras alegrias. É a minha segunda tentativa … Na literatura... a minha primeira tentativa foi o “Gomo de Tangerina”... Foi lançado em 2003. Wilmar Silva, poeta e editor, enxergou nos meus poemas, nos meus trabalhos, na minha poesia, uma confluência entre Emílio Moura e San Juan de la Cruz. Na verdade, as minhas confluências vão muito além destes dois autores... O poeta Carlos Nejar, um poeta ao qual enviei o livro “Gomo de Tangerina”...


LdeM: ...E gostou bastante, não é?


JB: É. Disse algo interessante a respeito de “Gomo de Tangerina”. ““Gomo de Tangerina” é um livro com versos sumarentos... Gomo de tangerina é uma palavra poética, uma palavra bela, como belos são os seus poemas. ” Na verdade as palavras tanto de Wilmar, quanto de Carlos Nejar, de amigos, de leitores, me incentivaram a prosseguir. Na verdade, quando eu lancei “Gomo de Tangerina” eu estava convencido de que eu estava dando uma resposta a um chamado … Eu queria muito ser escritor, ser autor, mesmo com todos os obstáculos eu publiquei “Gomo de Tangerina” mas tenho a consciência de que o escritor está por se formar, eu ainda sou uma promessa...


LdeM: O “Sobre Ventos e Sementes” é o segundo livro. Fale mais sobre “Sobre Ventos e Sementes”, sobre a inspiração do título, sobre criação da Obra...


JB: Passei por alguns momentos, alguns poemas foram quase soprados, nestes poemas quase soprado, quase não mexo. Muitas vezes eu tive que buscar inspiração, onde eu formei a questão da transpiração, nestes poemas que eu busquei, eu trabalhei bastante, aí então decorre a demora, este período oito anos, onde eu escrevo e rescrevo cada texto. Os que são inspirados eu realmente não mexo quase nada.


LdeM: Então foram oito anos de gestação... E como chegou a ideia de – por exemplo, nós que pensamos nossas poesias - aquela expressão mais do Eu e aquela expressão em que o eu fala de algo lá fora, sobre a vida na cidade, a condição urbana, sobre a violência … Como é esta situação entre falar de si mesmo e de falar do mundo ao redor?


JB: Na verdade, eu acho que você tem seus momentos de introspecção, mas se você está numa realidade, e sua realidade é uma de violência, onde existe as desigualdades, uma realidade de sofrimentos e de luta, mas uma realidade também de sonho e esperança. Como não tocar em coisas que estão ao seu redor ?


LdeM: A poesia seria uma forma de denúncia?


JB: A Poesia é uma forma de denúncia e também uma forma de anúncio. Sonhamos realidades diferentes das que a gente vive. Muitas vezes até para escaparmos da realidade Temos que denunciar, e temos sonhar realidades diferentes. O poeta é o que sonha o que será real.


LdeM: Poesia ainda guardaria uma porção de Utopia? … A Utopia seria possível na Poesia?


JB: Com certeza. Exatamente. As Utopias não morreram. E o poeta talvez seja uma dessas pessoas que não deixam estas Utopias morrerem.


LdeM: O poeta Jair Barbosa vai ler pra nós agora o poema, o poema em prosa, prosa poética, classifiquem como quiser... Mas é “Metrópole”. Estamos aqui no meio do tráfego, do trânsito pesado, vejam vocês, na Praça da Liberdade, onde o Jair vai ler “Metrópole”.


JB: (lendo o poema em prosa “Metrópole”:)



leio um poema quando o meu ônibus para nos sinais. hoje a poesia

está afixada na parte interna das traseiras dos ônibus e na oratória dos

meninos baleiros ambulantes. mas também está no frigorífico que

oferece para a semana santa, peixe, bom preço e poesia concreta na sua

placa provisória... hoje o amor está es-can-da-lo-sa-men-te declarado

em altos brados e tremula nas faixas nos postes!


alguém, está morrendo nesta manhã, a sirene avisa, tremo, a ambulância

dispara, abre caminho, os ônibus trafegam na bus way; no passeio

várias árvores estão sendo cortadas para o alargamento da avenida...

no vai e vem dos automóveis imagino que alguém está nascendo nesta

manhã.

(o homem novo? talvez.)

milhares de crianças estão nascendo nesta manhã!


os semáforos espiam os invencíveis meninos magros, os meninos

jornaleiros, os velozes meninos trombadinhas, os meninos estátuas

prateadas, os meninos limpadores de para-brisas, os malabares dos

meninos equilibristas, os anônimos meninos palhaços...

os semáforos esperam nossos sonolentos rostos cansados no fim do

dia, esperam a noite, esperam o silêncio dos pardais, esperam o sono

dos mendigos nas calçadas, esperam os meninos desaparecidos

voltando para casa...


meu ônibus arranca, para bruscamente, quase bate, ajeita a carga,

sacode a rotina, sacode a vida. e os meninos da cidade...

eles também brincam e pulam uns nas costas dos outros e assobiam e

dão risadas e alguns fazem planos e sonham...




LdeM: Jair Barbosa, o que você pensa sobre estas várias manifestações poéticas da atualidade: poesia em embalagem de pão, poesia no ônibus, poesia no outdoor , poesia na Praça Sete. O que você acha destas formas de expressão poética hoje que está ao alcance do público em vários formatos, veículos... Fale mais sobre isto.


JB: O sonho do poeta é transformar-se em poema e poder circular livremente. Al Berto [poeta português] já dizia isto. Com certeza a poesia deve circular livremente em todos os formatos e em todos os lugares. Nas padarias nos ônibus. Poesia tem que ser veiculada na internet, poesia nos livros, a poesia tem que circular nos objetos... na verdade a poesia deve estar em todo o lugar. A poesia tem ser como o ar, a gente tem que pensar nisso. Em todo lugar, em todos os formatos...


LdeM: Hoje o leitor não pode alegar que não tem acesso a poesia. Você entra num ônibus e tem uma poesia pregada na sua frente. O que você acha desta recepção dos leitores em relação ao poeta, à poesia?


JB: Com certeza, não tem como o leitor ficar indiferente, pois a poesia está nos lugares mais inusitados. Você citou no ônibus, em sacos de pão , no outdoor, na internet, no Youtube...né? Realmente, temos que descobrir mais...


LdeM: Em caixinha de fósforo? Papel higiênico?


JB: A poesia em toda parte. O poeta em toda parte, com a poesia em toda parte.


LdeM: Certo. Você vai ler mais um poema para nós?


JB: Lendo o poema “quando os pássaros migram no outono” de “Sobre Ventos e Sementes” …


LdeM: Na Praça da Liberdade, para finalizar a entrevista com o poeta Jair Barbosa. Que tem muitos poemas sobre as flores, as plantas, a vida no interior. Jair você poderia falar para nós mais sobre esta volta ao Arcadismo, que os poetas estão agora, com poemas sobre o interior, a vida rural. Será que estamos cansados das grandes cidades?


JB: Na verdade, o homem da cidades está com as retinas fatigadas. Precisamos de algumas coisas para que a gente volte a essa interação com a natureza, com o ser humano.


LdeM: A Poesia pode ser então ecologicamente correta? O que você acha? Ou seria mais uma moda como o Arcadismo … Nós não suportamos mais, e aí idealizamos o campo. O que você acha?


JB: Na verdade, não creio que é uma moda. É uma necessidade de a gente estar se religando com a natureza, com o ser humano, com as coisas que, digamos assim, sobrenaturais.


LdeM: Este movimento que eu chamei de Agrolírico, um lirismo voltado ao agro, ao agrícola, ao campo, que eu falei que é uma forma de idealização. Mas eu achei na sua poesia não uma preocupação panfletária, mas uma preocupação visual, imagética.


Poderia ler pra nós um poema que não é só uma idealização, mas uma descrição lírica de uma vida campesina, do interior que a gente imagina seja a solução para esta vida inchada.


Ler este poema para finalizarmos esta entrevista do Pão e Poesia com o poeta Jair Barbosa, aqui na Praça da Liberdade.


JB: Lendo o poema ! De “Sobre Ventos e Sementes” … “os melhores encontros não são marcados”


LdeM: Agradecemos então ao poeta Jair Barbosa, participando de uma entrevista do Pão e Poesia, uma criação do poeta de Contagem, Diovani Mendonça. E o Jair Barbosa leu para nós vários trechos, vários poemas, poemas em prosa do livro “Sobre Ventos e Sementes”, recentemente lançado. Jair, você tem um pequeno ditado pra nós, um provérbio para finalizar?


JB: Gostaria de agradecer e finalizar com um ditado Zen. “Não olhe para o meu dedo. Olhe para onde ele está apontando.”


LdeM: Obrigado, Jair.



...


Jair Barbosa nasceu em Vitória, ES. É poeta e bibliotecário. Autor de “Gomo de Tangerina” (2003) e “Sobre Ventos e Sementes” (2011). Desde 1984 está radicado em Belo Horizonte / MG. Contato: pintorverdadeiro@yahoo.com.br


Leitura crítica sobre a obra de JB em : http://leoliteraturaescrita.blogspot.com/2012/01/sobre-sobre-ventos-e-sementes-de-jair.html