quinta-feira, 29 de março de 2012

OLHARES - conto




OLHARES


Estranho é andar pelas ruas, numa manhã isenta de sol, furando as ondas do tráfego, e sentir, queimando, os olhares acusadores dos passantes. Suas faces transformadas, tal em convulsões, de bílis vertida nas estranhas, e um rasgo de deboche nos lábios, um não-pode-você-fazer-que-vai-nos incomodar toda vez que insistimos em seguir junto as vitrines, e ao fim, nos desviamos, antes de derrubarmos, por terra e cimento, a senhora com suas inevitáveis duas sacolas prenhes de mercadorias, e ela ainda insatisfeita.


É assim: todos me acusam. Estou sujo, um traço de dentifrício marca em cicatriz o subúrbio de meus lábios, ou meu cabelo se enroscou serpentino ao vento de fuligens.


É assim: de súbito, um olhar me enternece. Uma garota de meu interesse, que penso já ter visto antes, talvez num dos agitares do mercado, alguém enfim que percebo admirar.


Aproximei-me, puxei assunto. Ela, meio assim desconfiada, mas ainda certa atenção. Percebo meus passos, enquanto sigo ao lado daquela de olhos tão abraçantes. Aí ela entra na igreja.


Olhei o altar, ali uns poucos fiéis, e aquele cheiro de incenso me nauseava. Ela se encaminhou aos últimos bancos, deixando meia igreja de bancos vazios entre ela e os devotos. As devotas.


O que fiz? Sentei-me o lado dela, meio deslocado. Levantei-me e, assim inclinando, cochichei ao seu ouvido: “Querida, você não quer que conversemos na igreja, quer?” ela se levantando, assim meio contrariada, mas sem outras hostilidades, olhando assim com aquela timidez, mas parecia querer se entregar - ali contida ainda por alguma desconfiança. Algum meditar a retinha.


Penso, logo desisto. (Citação, meu velho.)


Ela foi seguindo à minha frente. De súbito, parou.


É que ela, voltando-se para mim, verteu olhares perplexos. (enfrentei muitos olhares, mas aquele era.) Possuída pelo olhar, ela exclamou irada: “Bem que minha mãe me alertou!” Deu-me as costas, seguindo para a porta. Tentei sair no seu encalço, fui barrado por uma voz autoritária: - “Parado aí, amigo.”


Amigo? Dois policiais ali estão. Braços cruzados à altura do peito, na representação correta de autoridades, donas de meu ir-e-vir. Mas eis a porta e vou abri-la assim mesmo. O ar da igreja me sufoca. Abri mesmo. Alguém ainda diz, à milhas: -“Eles vieram é pra te prender.”


Como já disse, abro a porta. Na calçada os vultos, quase humanos, de mais dois policiais. Fardas furando na retina a profunda calma. É um suor o que me afoga a nuca, e singra meandros do pescoço? Blá, blá, blá. Na viatura, do outro lado da rua, mais dois. De repente parece que já esperava por tudo aquilo. Um batalhão para me prender!


É uma manhã isenta de sol ( acho que já disse isso...) e digo, aborrecido: “Tão cedo!”


Garras metálicas a beliscarem-me o retesar dos pulsos.


Vejo, à distância, a moça se esvaindo nas brumas do asfalto quente.



Leonardo de Magalhaens

http://leoliteraturaescrita.blogspot.com.br



quarta-feira, 14 de março de 2012

Sobre os poemas do poeta Diovani Mendonça



Sobre os poemas do poeta Diovani Mendonça

(divulgados em blogs, zines, embalagens de Pão e Poesia)



Poeminhas para distrair dor de dente




Diante da necessidade de poemar infindamente os Poetas precisam de um suporte espiritual ou material, virtual ou em celulose para os seus registros de versos que não podem ficar apenas dispersos ao vento. Ainda que os melhores versos realmente sejam levados pela brisa noturna meio ao resmungar solitário entre andanças e angústias, não podemos privar os leitores de conhecerem ao menos alguns versos, não que sejam os menos, ou até os piores.


Divulgar é uma arte tão sutil quanto rascunhar, rabiscar, esboçar versos e versinhos, poemas e poeminhas num papel ou no monitor do PC, no aconchego do lar ou no tumulto de lan house, o importante é registro o mínimo da produção poética. Aquele poema que surgiu e sumiu no sonho ou pesadelo, aquele que foi declamado ao pé de uma árvore paradisíaca ou na parada de ônibus, poemas mil que se perderam.


Divulgar é uma perenização de 1% que a produção ousou, a imaginação conquistou, o papel ou monitor absorveu. Poucos vão tomar conhecimento, poucos vão abrir o e-mail, poucos vão ler realmente. Mas o poeta não pode desanimar. Se os versos não são os melhores - e sim aqueles que foram mentalizados no banho quente da manhã ou no momento orgásmico do amor - não vamos privar os seletos leitores de uma amostra grátis do que poderíamos ter escrito.


Insights, intuições, psicografias, os nomes são inúmeros para retratar os momentos de iluminação que rasgam o cotidiano do/a poeta quando ele/ela produz os versos que alguns nunca vão ler mas outros nunca vão esquecer. "Uma flor nasceu na rua!" - em que momento da pacata vida de Drummond ele pensou esse verso tão simples e tão extraordinário! Uma flor em pleno asfalto! Uma beleza em plena fuligem! E se ele não divulgasse? Seríamos hoje muito mais pobres de espírito (e percepção!)


Assim a divulgação múltipla da poesia é plenamente necessária e aplaudida. Seja em papel, em xerox, mimeografo, pacote de pão, blogs, dentro do metrô, dentro do ônibus, tipo, você entra num metrô e eis um poema, você embarca num ônibus e eis um poema, ali, balançando, bolinando entre as suas pernas, vai comprar um pão e - opa! - um poema! O poema derramado pra todo lugar, de repente, nunca esperado, solicitando atenção - um minuto de vossa atenção! Um minutinho só!


Necessária e merecedora de aplauso as iniciativas do poeta, empreendedor e agitador cultural Diovani Mendonça - mais encontrável no blog www.diovmendonca.blogspot.com , mas circulando por aí em pacotes de pão, garrafas plásticas, edições em cartaz do Mulheres Emergentes, ministrando aulas de poesia nas escolas particulares e da rede pública, dormitando sob a Árvore dos Poemas carregada de frutos-poemas.


O Poeta que distribui seus pequenos poemas (e há também os extensos) nas mil mídias citadas, além de distribuir garrafas pet com versos - aqueles very old manuscritos numa garrafa que tanto atraia a curiosidade do jovem Edgar Allan Poe a imaginar mil mensagens de piratas e tesouros - em visitas e saraus meios aos comportados, disciplinados, mas também alvoroçados alunos, no projeto Pão e Poesia nas Escolas.


Os poemas mínimos de Diovani Mendonça procuram captar um momento e dizer algo a respeito, algo que mereça ser dito, nem que venha soar infantil, óbvio e inútil. Uma poesia simples para distrair do cotidiano - e apontar a mesmice - para descrever uma sensação e fotografar algo no fluxo do tempo - nem que seja para fazer esquecer uma dor de dente.


Poesias que nascem da leitura de poesia, quando o poeta não nega suas influências - a síndrome da influência, como diria o crítico literário Harold Bloom - quando segue trilhas já pisadas ou quando se desvia curioso por outras sendas, perigosas veredas, criando um mundo novo - como fez o notável Guimarães Rosa - com outro trajeto, outros mapas, outros pontos de referência. Assim vai seguindo o Poeta na Estradinha Carlos Drummond de Andrade,


No meio do caminho do poeta

tinha uma pedra, tinha uma pedra.

Tinha sim, uma pedra;

bem no meio do caminho dele."


e reconhece a influência palpitante, tropeçante, palmilhante,


E que estilingue a primeira pedra,

quem disser que sou plagiador.

Que aproveito da fama do Poeta.

Eu, mero peão, doido de pedra e por pedra.


E o Poeta não "luta com as palavras" (a "luta mais vã", segundo o mesmo CDA), decidido a esperar distraído que as palavras se aproximem e venham brincar, "Tudo bem... admito: / sou mesmo / orelha seca / com as palavras. // Por isso / não brigo / mais com elas / só brinco, / : bijuterias:", onde brincando com as palavras, levemente, distraidamente, é capaz de construir a leveza, a insustentável leveza, da poesia,


Não me levem

demasiado a sério.

É que um vento antigo,

traquina e moleque,


desses de empinar papagaio

de taquara e seda no azul,

tem despenteado o leque

no abanar meus pensamentos.


(Papagaiado)


onde o Poeta não pretende forçar as palavras (nem o leitor) a um formato, a um estilo ou estética, mas soltar-se justamente dessa visão acadêmica (e formatada) de fazer poesia. É a mesma empolgação dos modernistas, de Manuel Bandeira, de Mário de Andrade, ou atualmente um Manoel de Barros, quando querem subverter esses academicismos com poemas leves (e também CDA quando começou a carreira, ou alguém já se esqueceu da pérola "Cidadezinha Qualquer"? "Um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. Um burro vai devagar. Que vida besta, meu Deus")


Assim também é "Auto-elogio à minha alma-palhaça", onde a escrita é uma carícia de uma pena desde dentro, "Não tenho penas. /Tenho pernas. / Por isso:/ sei andar e não voar.// Mas sei que penas / de outra natureza, / também moram / dentro de mim", é quando o poeta quer voar, aprender a voar, em ânsias de voar, e a poesia é que acaba batendo asas alçando voo...


Os poemas de Diovani Mendonça são de fácil digestão. Não são simplistas nem simplórios, são simples. Poeminhas. Não que sejam insignificantes. Isso já deu vazão há inúmeras e infrutíferas discussões. Como se poemas mínimos fossem poemas desprezíveis. (Coisa que José Paulo Paes demonstrou ser irreal quando ousava os famosos micro-poemas cômicos e irônicos, insistindo em brincar com as palavras)


Passarinho fofoqueiro
Um passarinho me contou
que a ostra é muito fechada,
que a cobra é muito enrolada,
que a arara é uma cabeça oca,
e que o leão marinho e a foca..
xô , passarinho! chega de fofoca!

em http://www.secrel.com.br/jpoesia/jpaulo.html


Onde a poesia é mais tecida de sensações do que de pensamentos. Ou seja, não é racional. Mas não que o poeta despreze a racionalidade. Pode fazer um poema 'racional' contra o 'racionalismo', o que lembra um Fernando Pessoa, um Moacyr Félix, um Ferreira Gullar",


Há certas coisas que, após entendidas,

necessitam de muito mais explicações

e perdem o mistério, a graça e o encanto

diante da revelação.


Pois há sempre um elemento de encanto e mistério diante da transitoriedade, da efemeridade, que perdemos é tempo tentando explicar (será devido a metafísica?),


Creia-me;

tudo passa, tudo gira, na órbita do transitório.


e


O que ainda não passou

é porque a flecha do esquecimento

está atravessando o tempo rumo ao alvo

onde tudo é nada, onde nada é tudo.

Tudo, nada; nada, tudo

no infinito mistério.


O que desperta lembranças de F. Pessoa quando dizia passarem os filósofos, mas permanecerem os poetas.


Inspirado pelo expressionismo de Van Gogh, sob o sol inclemente da pintura, Diovani tece o seu ensolarado "Fogaréu",


e acima do chão sair pelas ruas

cuspindo palavras de fogo


nos transeuntes presos no iceberg

da indiferença urbana que a cada dia


cresce como o derretimento

das calotas polares.


Segue o poeta sob o sol abrasador, em pleno aquecimento global, sofrendo a prisão da realidade que muda apenas para continuar a mesma, em asfalto e buzinas, poluição e ambições, corajoso para


Quebrar as algemas / no cinturão da lei. // cortar as veias da lucidez / das

minhas orelhas // cansadas de ouvir os ruídos / do mundo em ruínas // e

mudo deixar / sangrar meu gesto // enquanto me abraça uma camisa

de força.


Vejam no blog www.diovmendonca.blogspot.com



Derramando a poesia para os transeuntes, para os reacionários, para os libertinos, para as donas de casa em plena padaria, para os mendigos na Praça Sete, para os beatniks no Parque na tarde de domingo, assim divulgando a PoPoesia a pulular no dia-a-dia para fora dos gabinetes, para fora das torres de marfim, para fora dos livros amontoados nas estantes (quero dizer, estantes abarrotadas de livros que não passam de objeto de decoração), para que a poesia possa sair por aí em andanças, peregrinando, gritando, ainda que seja para poucos ouvidos (pois nem todos que ouvem, entendem, sejamos óbvios)


A poesia / tem / que / ser pop / pular na panela / de pressão... / da realidade


e conclui


A poesia / tem / que/ ser pão / /e/ / para / todas as bocas



Assim seja. Pois se depender do poeta e agitador cultural Diovani Mendonça, à sombra da Árvore dos Poemas e degustando Pão e Poesia, assim será.




dez/08


revsd: fev/12



por

Leonardo de Magalhaens


http://leoliteraturaescrita.blogspot.com

http://meucanoneocidental.blogspot.com


sexta-feira, 2 de março de 2012

Entrevista com o poeta Jair Barbosa



Entrevista com o poeta Jair Barbosa

2012


Na Praça da Liberdade, BH


Sobre o lançamento de “Sobre Ventos e Sementes

em fins de 2011


Uma cortesia do Pão e Poesia


(um projeto de sucesso criado pelo poeta Diovani Mendonça

de Contagem / MG)

mais em http://www.paopoesia.blogspot.com/



LdeM: Estamos aqui com o poeta Jair Barbosa em frente a Biblioteca Pública Luiz de Bessa, e vamos conhecer mais sobre o poeta e o seu livro “Sobre Ventos e Sementes”, recém-lançado agora em 2011, vamos fazer uma entrevista, mas antes ele vai dar uma pequena amostra do seu trabalho, lendo um poema, aqui em frente a Biblioteca, que está em reforma, como vocês estão vendo... Estamos aqui na Rua da Bahia, olha o trânsito! E o Jair vai ler pra nós...


Jair Barbosa (JB): Lendo um poema de “Sobre Ventos e Sementes”, “Bato a sua porta”.


LdeM: Vamos continuar a entrevista na Luiz de Bessa, na parte de periódicos, agora.


LdeM: Continua a entrevista com o Jair Barbosa. Aqui ao lado dos 'Quatro Cavaleiros do Íntimo Apocalipse'. Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos. E vamos falar sobre o Jair Barbosa, a Obra do Jair Barbosa, depois ele vai falar sobre as várias artes, sobre as formas de divulgação de poesia.


Jair, você aí confortavelmente ao lado dos maiores escritores mineiros, fale um pouco mais sobre a sua trajetória de poeta, de pensador do Jair Barbosa que nós conhecemos lá da Biblioteca Municipal de Betim...


JB: Bom dia, boa tarde, boa noite! Eu fui iniciado na literatura pelas mãos de minha mãe, fui iniciado na literatura oral, depois no primário eu li “As Mais Belas Histórias”, de Lúcia Casassanta, e depois de alfabetizado eu li muitas coisas, gibis, fotonovelas, livros de faroeste, livros de best-sellers , a Bíblia, … os clássicos, Machado de Assis, Bernardo de Guimarães... Depois me interessei pelas áreas da filosofia, economia, a história, as ciências sociais, acabei fazendo Biblioteconomia na UFMG, … Na verdade sou um leitor inveterado. Na hoje sou um leitor que escreve...


LdeM: Estamos aqui com o Jair Barbosa. Diga para o nossos ouvintes [aqui, leitores] o que você pensa sobre a Poesia enquanto Expressão.


JB: Na verdade, quando se problematiza sobre a utilidade da Poesia … no meu caso Poesia fui uma das formas que eu encontrei para me expressar. Lembrando que o poeta está dentro de um contexto. No meu caso, eu me movo no bairro São Bernardo, na periferia de Belo Horizonte, no Estado de Minas Gerais. A poesia, na verdade, para mim uma forma de estar devolvendo ao outro o olhar, os gestos mínimos para as retinas tão fatigadas... Na verdade a Poesia é uma das formas de dar a minha versão sobre o mundo, de narrar o mundo...


LdeM: Vamos ouvir agora Jair Barbosa com outro poema de “Sobre Ventos e Sementes” ...


JB: Lê o poema de “Sobre Ventos e Sementes” - “como fugir daquele que nunca dorme” ...


LdeM: “Sobre Ventos e Sementes” é o título do livro que o Jair Barbosa lançou agora, no ano passado, em 2011, e está escrito assim: é uma publicação, uma edição do Autor. Jair Barbosa, como é esta ideia de o poeta ter que patrocinar a própria obra?


JB: Na verdade, eu acho que as leis de incentivo, as editoras, é um processo muito moroso, muito caro, burocrático, e o autor, a gente, tem que bancar o próprio livro … é uma forma de mostrar o nosso trabalho... A gente fica esperando os editores, os analistas da lei de incentivo, na verdade, um processo moroso e complicado. Você precisa pagar pessoas para elaborar o seu projeto. Na verdade, o poeta tem que escrever, mas infelizmente o poeta também tem que tirar dinheiro do próprio bolso para bancar o livro...


LdeM: Este livro - “Sobre Ventos e Sementes” - você ficou 8 anos escrevendo? Diga pra nós...


JB: “Sobre Ventos e Sementes” realmente foi gestado durante oito anos, na verdade foi um livro escrito bem devagarinho, em meus momentos de solidão, momentos de angústia, meus momentos de êxtase, por que não?, momentos de raras alegrias. É a minha segunda tentativa … Na literatura... a minha primeira tentativa foi o “Gomo de Tangerina”... Foi lançado em 2003. Wilmar Silva, poeta e editor, enxergou nos meus poemas, nos meus trabalhos, na minha poesia, uma confluência entre Emílio Moura e San Juan de la Cruz. Na verdade, as minhas confluências vão muito além destes dois autores... O poeta Carlos Nejar, um poeta ao qual enviei o livro “Gomo de Tangerina”...


LdeM: ...E gostou bastante, não é?


JB: É. Disse algo interessante a respeito de “Gomo de Tangerina”. ““Gomo de Tangerina” é um livro com versos sumarentos... Gomo de tangerina é uma palavra poética, uma palavra bela, como belos são os seus poemas. ” Na verdade as palavras tanto de Wilmar, quanto de Carlos Nejar, de amigos, de leitores, me incentivaram a prosseguir. Na verdade, quando eu lancei “Gomo de Tangerina” eu estava convencido de que eu estava dando uma resposta a um chamado … Eu queria muito ser escritor, ser autor, mesmo com todos os obstáculos eu publiquei “Gomo de Tangerina” mas tenho a consciência de que o escritor está por se formar, eu ainda sou uma promessa...


LdeM: O “Sobre Ventos e Sementes” é o segundo livro. Fale mais sobre “Sobre Ventos e Sementes”, sobre a inspiração do título, sobre criação da Obra...


JB: Passei por alguns momentos, alguns poemas foram quase soprados, nestes poemas quase soprado, quase não mexo. Muitas vezes eu tive que buscar inspiração, onde eu formei a questão da transpiração, nestes poemas que eu busquei, eu trabalhei bastante, aí então decorre a demora, este período oito anos, onde eu escrevo e rescrevo cada texto. Os que são inspirados eu realmente não mexo quase nada.


LdeM: Então foram oito anos de gestação... E como chegou a ideia de – por exemplo, nós que pensamos nossas poesias - aquela expressão mais do Eu e aquela expressão em que o eu fala de algo lá fora, sobre a vida na cidade, a condição urbana, sobre a violência … Como é esta situação entre falar de si mesmo e de falar do mundo ao redor?


JB: Na verdade, eu acho que você tem seus momentos de introspecção, mas se você está numa realidade, e sua realidade é uma de violência, onde existe as desigualdades, uma realidade de sofrimentos e de luta, mas uma realidade também de sonho e esperança. Como não tocar em coisas que estão ao seu redor ?


LdeM: A poesia seria uma forma de denúncia?


JB: A Poesia é uma forma de denúncia e também uma forma de anúncio. Sonhamos realidades diferentes das que a gente vive. Muitas vezes até para escaparmos da realidade Temos que denunciar, e temos sonhar realidades diferentes. O poeta é o que sonha o que será real.


LdeM: Poesia ainda guardaria uma porção de Utopia? … A Utopia seria possível na Poesia?


JB: Com certeza. Exatamente. As Utopias não morreram. E o poeta talvez seja uma dessas pessoas que não deixam estas Utopias morrerem.


LdeM: O poeta Jair Barbosa vai ler pra nós agora o poema, o poema em prosa, prosa poética, classifiquem como quiser... Mas é “Metrópole”. Estamos aqui no meio do tráfego, do trânsito pesado, vejam vocês, na Praça da Liberdade, onde o Jair vai ler “Metrópole”.


JB: (lendo o poema em prosa “Metrópole”:)



leio um poema quando o meu ônibus para nos sinais. hoje a poesia

está afixada na parte interna das traseiras dos ônibus e na oratória dos

meninos baleiros ambulantes. mas também está no frigorífico que

oferece para a semana santa, peixe, bom preço e poesia concreta na sua

placa provisória... hoje o amor está es-can-da-lo-sa-men-te declarado

em altos brados e tremula nas faixas nos postes!


alguém, está morrendo nesta manhã, a sirene avisa, tremo, a ambulância

dispara, abre caminho, os ônibus trafegam na bus way; no passeio

várias árvores estão sendo cortadas para o alargamento da avenida...

no vai e vem dos automóveis imagino que alguém está nascendo nesta

manhã.

(o homem novo? talvez.)

milhares de crianças estão nascendo nesta manhã!


os semáforos espiam os invencíveis meninos magros, os meninos

jornaleiros, os velozes meninos trombadinhas, os meninos estátuas

prateadas, os meninos limpadores de para-brisas, os malabares dos

meninos equilibristas, os anônimos meninos palhaços...

os semáforos esperam nossos sonolentos rostos cansados no fim do

dia, esperam a noite, esperam o silêncio dos pardais, esperam o sono

dos mendigos nas calçadas, esperam os meninos desaparecidos

voltando para casa...


meu ônibus arranca, para bruscamente, quase bate, ajeita a carga,

sacode a rotina, sacode a vida. e os meninos da cidade...

eles também brincam e pulam uns nas costas dos outros e assobiam e

dão risadas e alguns fazem planos e sonham...




LdeM: Jair Barbosa, o que você pensa sobre estas várias manifestações poéticas da atualidade: poesia em embalagem de pão, poesia no ônibus, poesia no outdoor , poesia na Praça Sete. O que você acha destas formas de expressão poética hoje que está ao alcance do público em vários formatos, veículos... Fale mais sobre isto.


JB: O sonho do poeta é transformar-se em poema e poder circular livremente. Al Berto [poeta português] já dizia isto. Com certeza a poesia deve circular livremente em todos os formatos e em todos os lugares. Nas padarias nos ônibus. Poesia tem que ser veiculada na internet, poesia nos livros, a poesia tem que circular nos objetos... na verdade a poesia deve estar em todo o lugar. A poesia tem ser como o ar, a gente tem que pensar nisso. Em todo lugar, em todos os formatos...


LdeM: Hoje o leitor não pode alegar que não tem acesso a poesia. Você entra num ônibus e tem uma poesia pregada na sua frente. O que você acha desta recepção dos leitores em relação ao poeta, à poesia?


JB: Com certeza, não tem como o leitor ficar indiferente, pois a poesia está nos lugares mais inusitados. Você citou no ônibus, em sacos de pão , no outdoor, na internet, no Youtube...né? Realmente, temos que descobrir mais...


LdeM: Em caixinha de fósforo? Papel higiênico?


JB: A poesia em toda parte. O poeta em toda parte, com a poesia em toda parte.


LdeM: Certo. Você vai ler mais um poema para nós?


JB: Lendo o poema “quando os pássaros migram no outono” de “Sobre Ventos e Sementes” …


LdeM: Na Praça da Liberdade, para finalizar a entrevista com o poeta Jair Barbosa. Que tem muitos poemas sobre as flores, as plantas, a vida no interior. Jair você poderia falar para nós mais sobre esta volta ao Arcadismo, que os poetas estão agora, com poemas sobre o interior, a vida rural. Será que estamos cansados das grandes cidades?


JB: Na verdade, o homem da cidades está com as retinas fatigadas. Precisamos de algumas coisas para que a gente volte a essa interação com a natureza, com o ser humano.


LdeM: A Poesia pode ser então ecologicamente correta? O que você acha? Ou seria mais uma moda como o Arcadismo … Nós não suportamos mais, e aí idealizamos o campo. O que você acha?


JB: Na verdade, não creio que é uma moda. É uma necessidade de a gente estar se religando com a natureza, com o ser humano, com as coisas que, digamos assim, sobrenaturais.


LdeM: Este movimento que eu chamei de Agrolírico, um lirismo voltado ao agro, ao agrícola, ao campo, que eu falei que é uma forma de idealização. Mas eu achei na sua poesia não uma preocupação panfletária, mas uma preocupação visual, imagética.


Poderia ler pra nós um poema que não é só uma idealização, mas uma descrição lírica de uma vida campesina, do interior que a gente imagina seja a solução para esta vida inchada.


Ler este poema para finalizarmos esta entrevista do Pão e Poesia com o poeta Jair Barbosa, aqui na Praça da Liberdade.


JB: Lendo o poema ! De “Sobre Ventos e Sementes” … “os melhores encontros não são marcados”


LdeM: Agradecemos então ao poeta Jair Barbosa, participando de uma entrevista do Pão e Poesia, uma criação do poeta de Contagem, Diovani Mendonça. E o Jair Barbosa leu para nós vários trechos, vários poemas, poemas em prosa do livro “Sobre Ventos e Sementes”, recentemente lançado. Jair, você tem um pequeno ditado pra nós, um provérbio para finalizar?


JB: Gostaria de agradecer e finalizar com um ditado Zen. “Não olhe para o meu dedo. Olhe para onde ele está apontando.”


LdeM: Obrigado, Jair.



...


Jair Barbosa nasceu em Vitória, ES. É poeta e bibliotecário. Autor de “Gomo de Tangerina” (2003) e “Sobre Ventos e Sementes” (2011). Desde 1984 está radicado em Belo Horizonte / MG. Contato: pintorverdadeiro@yahoo.com.br


Leitura crítica sobre a obra de JB em : http://leoliteraturaescrita.blogspot.com/2012/01/sobre-sobre-ventos-e-sementes-de-jair.html



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

ciao! mais cidades das CIDADES INVISÍVEIS de Italo Calvino



As Cidades Invisíveis

Le Città Invisibili


Italo Calvino



trad. Livre – LdeM



Le città e i segni. 1

As cidades e os sinais . 1


“O homem caminha por vários dias entre árvores e pedras. Raramente o olho se fixa sobre uma coisa, e é quando a reconhece como o sinal de uma outra coisa: um rastro sobre a areia indica a passagem do tigre, um pântano anuncia um filão de água, as flores do hibisco, o fim da inverno. Todo o resto é mudo e intercambiável; árvores e pedras são apenas o que são.


Finalmente a viagem conduz a cidade de Tamara. Se adentra por ruas cheias de insígnias que se estendem dos muros. Os olhos não veem coisas mas figuras de coisas que significam outras coisas: a tenaz indica a casa do dentista, o jaro , a taverna; a lança, o corpo de guarda; a balança, a quitanda. Estátuas e escudos representam leões golfins torres estrelas: sinal que qualquer coisa – sabe-se o quê - tem por sinal um leão ou golfim ou torre ou estrela. Outros sinais avisam sobre o que num lugar é proibido – entrar no beco com as carroças, urinar atrás da banca de jornais, pescar com vara sobre a ponte – e aquilo que é lícito – dar de beber as zebras, jogar a bocha, cremar os cadáveres dos parentes. Da porta dos templos se veem as estátuas dos deuses, representados cada um com seus atributos: a cornucópia, a clepsidra, a medusa, pelo qual o fiel pode reconhecer-lhe e dirigir suas preces corretas. Se um edifício não apresenta nenhuma insígnia ou figura, a usa própria forma e o lugar que ocupa na ordem da cidade bastaria para indicar a função: o palácio real, a prisão, a casa da moeda, a escola pitagórica, o bordel. Também as mercadorias que os vendedores colocam à mostra sobre suas bancas valem não por si mesmas mas como sinal de outra coisa: a faixa bordada na testa quer dizer elegância; a liteira dourada, poder: os volumes de Averróes, sabedoria; o enfeite para o tornozelo, volúpia. O olhar percorre as ruas como páginas escritas: a cidade diz tudo aquilo que se deve pensar, te faz repetir o seu discurso, e enquanto crê visitar Tamara não faz mais que registrar os nomes com os quais ela define a si mesma e todas as suas partes.


Como verdadeiramente seja a cidade sob este denso invólucro de sinais, que coisa contenha ou esconda, o homem sai de Tamara sem havê-lo sabido. Fora se estende a terra vazia até o horizonte, se abre o céu onde correm as nuvens. Na forma que o acaso e o vento dão as nuvens o homem já está disposto a reconhecer figuras: um veleiro, uma mão, um elefante...”


trad. livre: LdeM



...



Le città e gli scambi . 2


As cidades e as trocas. 2


“Em Cloe, cidade grande, as pessoas que passam pelas ruas não se conhecem. Ao verem-se imaginam mil coisas um do outro, os encontros que poderiam haver entre eles, as conversas, as surpresas, as carícias, as mordidas. Mas ninguém saúda ninguém, os olhares se cruzavam por um segundo e depois se evitavam, procurando outros olhares, não se fixando.


Passa uma moa que faz girar um guarda-sol apoiado sobre o ombro, e ainda um pouco o círculo das ancas. Passa uma senhora trajada de preto que evidencia toda a sua idade, com os olhos inquietos sob o véu e os lábios trêmulos. Passa um gigante tatuado; um moço com cabelos brancos; uma anã; dois gêmeos vestidos de coral. Qualquer coisa corre entre eles, um mudar-se de olhar como linhas que ligam uma figura a outra e desenham flechas, estrelas, triângulos, até todas as combinações num átimo exaurirem, e outras personagens entram em cena: um cego com um leopardo na coleira, uma cortesã com leque de penas de avestruz, um efebo, uma mulher gorda. Assim entre aqueles por acaso se encontram juntos a se protegerem da chuva sob a marquise, ou se abriga sob um toldo de bar, ou para a escutar a banda na praça, se realizam encontros, seduções, amplexos, orgias, sem que se troque uma palavra, sem que se esgote com uma fala, quase sem levantar os olhos.


Uma vibração luxuriosa move continuamente Cloe, a mais casta das cidades. Se homens e mulheres começarem a viver os seus sonhos efêmeros, cada fantasma tornaria uma pessoa com a qual começar uma história de aprendizado, de fingimento, de equívocos, de choques, de opressões, e o torneio das fantasias se firmaria.”


Trad. livre: LdeM



para ouvir sobre outras cidades invisíveis ...

http://www.youtube.com/watch?v=Bjwlg91dDwY&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=p8O07rFCpuE&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=94R9-i8Y1XU



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

2 poemas de ROBERT FROST



2 poemas de Robert Frost (1874-1963)



UM TARDIO PASSEIO



QUANDO atravesso o campo para ceifa,

Um efeito sem rumos,

Suave o colmo com o denso orvalho,

bloqueia o atalho do jardim.


E quando venho ao solo do jardim,

O piar de pássaros sóbrios

Acima das tranças de ervas murchas

É mais triste do que palavras.


Uma árvore junto da parede estéril,

Mas uma folha agora marrom,

Perturbada, não duvido, ao pensar,

Vem cair suavemente.


Findo não muito longe do meu andar

Pinçando o azul desbotado

Da última restante flor de áster

A levá-la a ti novamente.



Trad. by LdeM




A LATE WALK


by: Robert Frost


WHEN I go up through the mowing field,

The headless aftermath,

Smooth-laid like thatch with the heavy dew,

Half closes the garden path.

And when I come to the garden ground,

The whir of sober birds

Up from the tangle of withered weeds

Is sadder than any words.


A tree beside the wall stands bare,

But a leaf that lingered brown,

Disturbed, I doubt not, by my thought,

Comes softly rattling down.


I end not far from my going forth

By picking the faded blue

Of the last remaining aster flower

To carry again to you.



...



MINHA HÓSPEDE DE NOVEMBRO



A MINHA mágoa, quando junto a mim,

Pensa esses densos dias de chuva outonal

São belos como os dias podem ser;

Ela ama a nua, a árvore murcha;

Ela anda na úmida alameda do pasto.


O seu prazer não me deixará ficar.

Ela fala e sou pronto a listar:

Ela se alegra os pássaros se foram,

Ela se alegra com sua simples lã cinzenta

É de prata agora com a pegajosa névoa.


As árvores desoladas, abandonadas,

A terra degradada, o céu pesado,

As belezas ela assim realmente vê,

Ela pensa que não olho para esses,

E me envergonha por essa razão.


Não foi ontem que aprendi a saber

O amor dos parcos dias de Novembro

Antes da chegada da neve,

Mas foi em vão dizer-lhe assim,

E são os melhores para o seu louvor.



Trad. by LdeM




MY NOVEMBER GUEST


by: Robert Frost



MY Sorrow, when she’s here with me,

Thinks these dark days of autumn rain

Are beautiful as days can be;

She loves the bare, the withered tree;

She walks the sodden pasture lane.


Her pleasure will not let me stay.

She talks and I am fain to list:

She’s glad the birds are gone away,

She’s glad her simple worsted gray

Is silver now with clinging mist.


The desolate, deserted trees,

The faded earth, the heavy sky,

The beauties she so truly sees,

She thinks I have no eye for these,

And vexes me for reason why.


Not yesterday I learned to know

The love of bare November days

Before the coming of the snow,

But it were vain to tell her so,

And they are better for her praise.




Mais poemas de Robert Frost


http://www.arquivors.com/rfrost.htm


http://www.internal.org/Robert_Frost



para reler ao som de “Sorrow


http://www.youtube.com/watch?v=cwISwyGIKtM



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

sobre o poema "Aos Deturpadores do Amor" - de Diovani Mendonça




Sobre o poema “Aos Deturpadores do Amor

do poeta Diovani Mendonça



Denunciando os deturpadores do Amor


Intro (panorama)


Temos ouvido nas rádios, temos visto nos telejornais, temos presenciado em nossas vidas cotidianas, um fenômeno que tem estarrecido as mentes sensíveis. Um fenômeno que julgávamos ser de sombrios tempos de outrora, de sociedades patriarcais, ou de povos orientais semifeudais, mas está entre nós. Em nossa sociedade entulhada de regras de normas, leis, estatutos, etc., precisamos também legislar sobre o Amor.


Chegamos ao ponto de não apenas conceituar Amor, mas também de criar direitos e deveres daqueles que amam.


Outrora somente um agente possuía direitos, assim como possuía um objeto. O agente era o masculino que possuía um objeto feminino. Na sociedade patriarcal o homem tem direito de posse sobre a mulher, o que equivale a dizer que ele é dono dela, a mulher sai da família e entra na propriedade do marido, de modo que ele pode dispor dela como mais um item do inventário. Ele tem direito de vida e morte sobre ela. Ela não pode abandoná-lo somente, ele tem esse direito quando pode acusá-la de adultério e puni-la com o exílio ou com a morte.


Com a falência da sociedade patriarcal, nos últimos cem anos, por incompetência masculina ou por superação feminina, novas formas de relacionamentos se estabeleceram, quando as mulheres receberam educação e passaram a ingressar no mercado de trabalho. Ou seja, as mulheres passaram a ser concorrentes dos homens. Ainda: as mulheres passaram a ser independentes financeiramente. Foi o boom da moda, da venda de cosméticos, dos estojos de maquilagem, mil tipos de calçados, em suma, todo um segmento de mercado voltado para as consumidoras. As mulheres passaram a mover a economia.


Diante da concorrência feminina, os homens podem demonstrar dois tipos de comportamento. Aceitá-las como parceiras de jogo ou eliminá-las do jogo. Aqueles que aceitam elogiam a presença feminina como um elemento de elegância nos ambientes de trabalho, ali entre ternos e gravatas transitam vestidos e perfumes. Porém, aqueles que temem as mulheres, sutil ou despudoradamente, procuram desestimular a ascensão feminina, quando as mulheres recebem cargos ou salários inferiores, é uma eliminação do jogo.


Agora presenciamos a eliminação física: homens que seduzem as amadas, torturam psicologicamente, constrangem socialmente e não hesitam em cometer homicídio. Assim também maridos ou namorados que se julgam traídos executam suas esposas ou namoradas, e na hora do julgamento alegam “crime passional”. Ou seja, eles seduzem, constrangem, torturam e matam, e depois dizem que fizeram por “Amor”. É surpreendente que agora em nome do Amor tenhamos assassinos.


Precisamos repensar o que seja esse “Amor”, será que podemos chamar o sentimento de posse, o ciúme, a sedução, a tortura psicológica, a limitação de liberdade, chamar tudo isso de “Amor”? Que “Amor” é esse? Como pode esse sentimento (a tal ponto doentio) justificar atos tão cruéis? Seria uma questão de sadismo e misoginia? Seria uma questão de provar quem manda?


Mesmo em países desenvolvidos como a Suécia encontramos crimes brutais contra as mulheres. E isto não é apenas enredo de best-sellers. Mulheres que são perseguidas nas ruas, sequestradas e violentadas, desaparecem sem deixar vestígios. São vitimas de psicopatas.


E quando as mulheres são vitimadas dentro do próprio lar? Como explicar as estatísticas nas quais as mulheres sofrem nas mãos de familiares, pais, irmãos, tios, e depois sequestradas por namorados, torturadas por maridos? Aqueles que deviam defendê-las tornam-se os agressores! O homem que se julga dono da mulher ele não hesita em destruí-la quando ela resolve ter voz própria, se defende e ameaça abandoná-lo. Na verdade, o homem não sente a falta, mas sente perder o poder sobre o ser submisso.


O aumento da violência domestica levou a criação da Lei Maria da Penha que determina limitações e punições aos agressores. O problema é aplicar a lei. Mulheres pedem ajuda, imploram por proteção, e são ignoradas. Só nos lembramos delas quando aparecem nas fotos de jornais nas colunas policiais.




O poeta se manifesta contra



Diante desta realidade tão sofrível pode o poeta silenciar-se? Pode o poeta ficar indiferente? Pode o poeta fechar os olhos e tampar os ouvidos? Espera-se do poeta não uma voz advinda de uma “torre de marfim”, mas uma voz que testemunhe a realidade. Um discurso poético, nem fantasista nem panfletário, mas de depoimento. Ao denunciar as mazelas e violências o poeta surge como uma voz de alerta, ajuda a jogar o foco sobre os sofrimentos das vítimas.


Assim o poeta Diovani Mendonça resolveu abordar liricamente um tema tão anti-lírico. Não basta sofrer com os crimes, com as violências – é preciso denunciá-las! Assim munido de palavras, ritmo e rimas, o poeta faz o seu trabalho. Mostra o quanto de “Amor” é realmente egoísmo, sentimento de posse, necessidade de auto-afirmação (como se o homem apenas se afirmasse ao humilhar uma mulher!), em suma, de imaturidade e ignorância.


A agressão se houver que seja contra o agressor – que o sádico ouse torturar a si-mesmo, que o violentador ouse ferir a si próprio, que a mão que apedreja venha atirar pedras contra si mesma. Que a agressão seja contra o desejo de agredir!


Se tiver que amputar, ampute.
Os músculos de sua pré-potência.

Se tiver que socar, soque.
A boca da própria ignorância.

Se tiver que quebrar, quebre.
Os dentes da própria arrogância.



O poema aproveita-se de imagens fortes de violência e desconstrói ao dirigir o impulso agressivo contra quem ousa agredir – se o agressor levanta a mão que seja corajoso o suficiente para agredir a agressão dentro dele mesmo! Claro que o poema fala tudo isso sem explicar ou moralizar. Não senta ninguém no divã. Mostra tão somente as nossas contradições.


Se algo parece moralismo é porque o poeta já está farto de violência e chegou o momento de denunciar, de se revoltar contra. Se alguém vê moralismo é porque percebe em si os impulsos de agressão. Para vivermos em sociedade o que fazemos? Reprimimos os nossos impulsos agressivos e deslocamos para outras atividades, outras construções.


Mas na esfera da sexualidade a agressão ainda está presente. O homem se sente ainda potente ao humilhar uma mulher, ao percebê-la submissa aos caprichos dele, que chama de “Amor” apenas o sentimento de posse e o desejo de auto-afirmação. O homem não se preocupa com a mulher, quando ela é um objeto que serve aos interesses dele. Interesses de vaidade, de luxúria, de exibicionismo. Ou seja, o “Amor” aqui não passa de egoísmo,



Se tiver que afogar, afogue.
As próprias mágoas enfim.


Se tiver que matar, mate (e bem matado!).
O egoísmo dentro de si.


Então se há um tom moralista é porque o poeta resolve intervir. Aconselhar? Moralizar? Não, apenas chamar a atenção para refletirmos sobre a violência – que não está lá fora. Está dentro de nós mesmos. Uma violência que explode à menor provocação, à menor faísca de contrariedade. Somente nós mesmos podemos nos conter, nos represar, nos precaver, para não cometermos mais crimes ditos passionais.



Reflita... Erga a cabeça e vire o disco

e que ninguém tenha que fazer nada disso.



08/09fev12



Leonardo de Magalhaens

http://leoliteraturaescrita.blogspot.com



o poema “Aos Deturpadores do Amor


no blog http://affonsoromano.com.br/blog/


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AOS DETURPADORES DO AMOR
Diovani Mendonça

Se tiver que bater, bata.
Mas na cara da própria covardia.

Se tiver que arrancar, arranque.
Os cabelos da própria valentia.

Se tiver que rachar, rache.
A testa da própria hipocrisia.

Se tiver que furar, fure.
Os olhos do próprio ciúme.

Se tiver que puxar, puxe.
As orelhas do sentimento de posse.

Se tiver que apertar, aperte.
O gatilho no nariz da própria sorte.

Se tiver que lascar, lasque.
As unhas da própria vaidade.

Se tiver que enjaular, enjaule.
A própria irracional animalidade.

Se tiver que incendiar, incendeie.
A casa e o quintal da própria maldade.

Se tiver que amputar, ampute.

Os músculos de sua pré-potência.

Se tiver que socar, soque.
A boca da própria ignorância.

Se tiver que quebrar, quebre.
Os dentes da própria arrogância.

Se tiver que cortar, corte.
A própria língua que enfeitiça.

Se tiver que enforcar, enforque.
A garganta da vingança.

Se tiver que envenenar, envenene.
O ventre da própria insegurança.

Se tiver que metralhar, metralhe.
A vidraça da própria desconfiança.

Se tiver que atirar, atire.
No peito da própria amargura.

Se tiver que amarrar, amarre.
As patas da própria força-burra.

Se tiver que decepar, decepe.
Os dedos da própria loucura.

Se tiver que esfaquear, esfaqueie.
As longas pernas da própria mentira.

Se tiver que aprisionar, aprisione.
As mãos e os pés da própria ira.

Se tiver que sufocar, sufoque.
O grito do próprio desespero.

Se tiver que afogar, afogue.
As próprias mágoas enfim.

Se tiver que matar, mate (e bem matado!).

O egoísmo dentro de si.

Reflita... Erga a cabeça e vire o disco

e que ninguém tenha que fazer nada disso.