quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

ciao! mais cidades das CIDADES INVISÍVEIS de Italo Calvino



As Cidades Invisíveis

Le Città Invisibili


Italo Calvino



trad. Livre – LdeM



Le città e i segni. 1

As cidades e os sinais . 1


“O homem caminha por vários dias entre árvores e pedras. Raramente o olho se fixa sobre uma coisa, e é quando a reconhece como o sinal de uma outra coisa: um rastro sobre a areia indica a passagem do tigre, um pântano anuncia um filão de água, as flores do hibisco, o fim da inverno. Todo o resto é mudo e intercambiável; árvores e pedras são apenas o que são.


Finalmente a viagem conduz a cidade de Tamara. Se adentra por ruas cheias de insígnias que se estendem dos muros. Os olhos não veem coisas mas figuras de coisas que significam outras coisas: a tenaz indica a casa do dentista, o jaro , a taverna; a lança, o corpo de guarda; a balança, a quitanda. Estátuas e escudos representam leões golfins torres estrelas: sinal que qualquer coisa – sabe-se o quê - tem por sinal um leão ou golfim ou torre ou estrela. Outros sinais avisam sobre o que num lugar é proibido – entrar no beco com as carroças, urinar atrás da banca de jornais, pescar com vara sobre a ponte – e aquilo que é lícito – dar de beber as zebras, jogar a bocha, cremar os cadáveres dos parentes. Da porta dos templos se veem as estátuas dos deuses, representados cada um com seus atributos: a cornucópia, a clepsidra, a medusa, pelo qual o fiel pode reconhecer-lhe e dirigir suas preces corretas. Se um edifício não apresenta nenhuma insígnia ou figura, a usa própria forma e o lugar que ocupa na ordem da cidade bastaria para indicar a função: o palácio real, a prisão, a casa da moeda, a escola pitagórica, o bordel. Também as mercadorias que os vendedores colocam à mostra sobre suas bancas valem não por si mesmas mas como sinal de outra coisa: a faixa bordada na testa quer dizer elegância; a liteira dourada, poder: os volumes de Averróes, sabedoria; o enfeite para o tornozelo, volúpia. O olhar percorre as ruas como páginas escritas: a cidade diz tudo aquilo que se deve pensar, te faz repetir o seu discurso, e enquanto crê visitar Tamara não faz mais que registrar os nomes com os quais ela define a si mesma e todas as suas partes.


Como verdadeiramente seja a cidade sob este denso invólucro de sinais, que coisa contenha ou esconda, o homem sai de Tamara sem havê-lo sabido. Fora se estende a terra vazia até o horizonte, se abre o céu onde correm as nuvens. Na forma que o acaso e o vento dão as nuvens o homem já está disposto a reconhecer figuras: um veleiro, uma mão, um elefante...”


trad. livre: LdeM



...



Le città e gli scambi . 2


As cidades e as trocas. 2


“Em Cloe, cidade grande, as pessoas que passam pelas ruas não se conhecem. Ao verem-se imaginam mil coisas um do outro, os encontros que poderiam haver entre eles, as conversas, as surpresas, as carícias, as mordidas. Mas ninguém saúda ninguém, os olhares se cruzavam por um segundo e depois se evitavam, procurando outros olhares, não se fixando.


Passa uma moa que faz girar um guarda-sol apoiado sobre o ombro, e ainda um pouco o círculo das ancas. Passa uma senhora trajada de preto que evidencia toda a sua idade, com os olhos inquietos sob o véu e os lábios trêmulos. Passa um gigante tatuado; um moço com cabelos brancos; uma anã; dois gêmeos vestidos de coral. Qualquer coisa corre entre eles, um mudar-se de olhar como linhas que ligam uma figura a outra e desenham flechas, estrelas, triângulos, até todas as combinações num átimo exaurirem, e outras personagens entram em cena: um cego com um leopardo na coleira, uma cortesã com leque de penas de avestruz, um efebo, uma mulher gorda. Assim entre aqueles por acaso se encontram juntos a se protegerem da chuva sob a marquise, ou se abriga sob um toldo de bar, ou para a escutar a banda na praça, se realizam encontros, seduções, amplexos, orgias, sem que se troque uma palavra, sem que se esgote com uma fala, quase sem levantar os olhos.


Uma vibração luxuriosa move continuamente Cloe, a mais casta das cidades. Se homens e mulheres começarem a viver os seus sonhos efêmeros, cada fantasma tornaria uma pessoa com a qual começar uma história de aprendizado, de fingimento, de equívocos, de choques, de opressões, e o torneio das fantasias se firmaria.”


Trad. livre: LdeM



para ouvir sobre outras cidades invisíveis ...

http://www.youtube.com/watch?v=Bjwlg91dDwY&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=p8O07rFCpuE&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=94R9-i8Y1XU



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

2 poemas de ROBERT FROST



2 poemas de Robert Frost (1874-1963)



UM TARDIO PASSEIO



QUANDO atravesso o campo para ceifa,

Um efeito sem rumos,

Suave o colmo com o denso orvalho,

bloqueia o atalho do jardim.


E quando venho ao solo do jardim,

O piar de pássaros sóbrios

Acima das tranças de ervas murchas

É mais triste do que palavras.


Uma árvore junto da parede estéril,

Mas uma folha agora marrom,

Perturbada, não duvido, ao pensar,

Vem cair suavemente.


Findo não muito longe do meu andar

Pinçando o azul desbotado

Da última restante flor de áster

A levá-la a ti novamente.



Trad. by LdeM




A LATE WALK


by: Robert Frost


WHEN I go up through the mowing field,

The headless aftermath,

Smooth-laid like thatch with the heavy dew,

Half closes the garden path.

And when I come to the garden ground,

The whir of sober birds

Up from the tangle of withered weeds

Is sadder than any words.


A tree beside the wall stands bare,

But a leaf that lingered brown,

Disturbed, I doubt not, by my thought,

Comes softly rattling down.


I end not far from my going forth

By picking the faded blue

Of the last remaining aster flower

To carry again to you.



...



MINHA HÓSPEDE DE NOVEMBRO



A MINHA mágoa, quando junto a mim,

Pensa esses densos dias de chuva outonal

São belos como os dias podem ser;

Ela ama a nua, a árvore murcha;

Ela anda na úmida alameda do pasto.


O seu prazer não me deixará ficar.

Ela fala e sou pronto a listar:

Ela se alegra os pássaros se foram,

Ela se alegra com sua simples lã cinzenta

É de prata agora com a pegajosa névoa.


As árvores desoladas, abandonadas,

A terra degradada, o céu pesado,

As belezas ela assim realmente vê,

Ela pensa que não olho para esses,

E me envergonha por essa razão.


Não foi ontem que aprendi a saber

O amor dos parcos dias de Novembro

Antes da chegada da neve,

Mas foi em vão dizer-lhe assim,

E são os melhores para o seu louvor.



Trad. by LdeM




MY NOVEMBER GUEST


by: Robert Frost



MY Sorrow, when she’s here with me,

Thinks these dark days of autumn rain

Are beautiful as days can be;

She loves the bare, the withered tree;

She walks the sodden pasture lane.


Her pleasure will not let me stay.

She talks and I am fain to list:

She’s glad the birds are gone away,

She’s glad her simple worsted gray

Is silver now with clinging mist.


The desolate, deserted trees,

The faded earth, the heavy sky,

The beauties she so truly sees,

She thinks I have no eye for these,

And vexes me for reason why.


Not yesterday I learned to know

The love of bare November days

Before the coming of the snow,

But it were vain to tell her so,

And they are better for her praise.




Mais poemas de Robert Frost


http://www.arquivors.com/rfrost.htm


http://www.internal.org/Robert_Frost



para reler ao som de “Sorrow


http://www.youtube.com/watch?v=cwISwyGIKtM



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

sobre o poema "Aos Deturpadores do Amor" - de Diovani Mendonça




Sobre o poema “Aos Deturpadores do Amor

do poeta Diovani Mendonça



Denunciando os deturpadores do Amor


Intro (panorama)


Temos ouvido nas rádios, temos visto nos telejornais, temos presenciado em nossas vidas cotidianas, um fenômeno que tem estarrecido as mentes sensíveis. Um fenômeno que julgávamos ser de sombrios tempos de outrora, de sociedades patriarcais, ou de povos orientais semifeudais, mas está entre nós. Em nossa sociedade entulhada de regras de normas, leis, estatutos, etc., precisamos também legislar sobre o Amor.


Chegamos ao ponto de não apenas conceituar Amor, mas também de criar direitos e deveres daqueles que amam.


Outrora somente um agente possuía direitos, assim como possuía um objeto. O agente era o masculino que possuía um objeto feminino. Na sociedade patriarcal o homem tem direito de posse sobre a mulher, o que equivale a dizer que ele é dono dela, a mulher sai da família e entra na propriedade do marido, de modo que ele pode dispor dela como mais um item do inventário. Ele tem direito de vida e morte sobre ela. Ela não pode abandoná-lo somente, ele tem esse direito quando pode acusá-la de adultério e puni-la com o exílio ou com a morte.


Com a falência da sociedade patriarcal, nos últimos cem anos, por incompetência masculina ou por superação feminina, novas formas de relacionamentos se estabeleceram, quando as mulheres receberam educação e passaram a ingressar no mercado de trabalho. Ou seja, as mulheres passaram a ser concorrentes dos homens. Ainda: as mulheres passaram a ser independentes financeiramente. Foi o boom da moda, da venda de cosméticos, dos estojos de maquilagem, mil tipos de calçados, em suma, todo um segmento de mercado voltado para as consumidoras. As mulheres passaram a mover a economia.


Diante da concorrência feminina, os homens podem demonstrar dois tipos de comportamento. Aceitá-las como parceiras de jogo ou eliminá-las do jogo. Aqueles que aceitam elogiam a presença feminina como um elemento de elegância nos ambientes de trabalho, ali entre ternos e gravatas transitam vestidos e perfumes. Porém, aqueles que temem as mulheres, sutil ou despudoradamente, procuram desestimular a ascensão feminina, quando as mulheres recebem cargos ou salários inferiores, é uma eliminação do jogo.


Agora presenciamos a eliminação física: homens que seduzem as amadas, torturam psicologicamente, constrangem socialmente e não hesitam em cometer homicídio. Assim também maridos ou namorados que se julgam traídos executam suas esposas ou namoradas, e na hora do julgamento alegam “crime passional”. Ou seja, eles seduzem, constrangem, torturam e matam, e depois dizem que fizeram por “Amor”. É surpreendente que agora em nome do Amor tenhamos assassinos.


Precisamos repensar o que seja esse “Amor”, será que podemos chamar o sentimento de posse, o ciúme, a sedução, a tortura psicológica, a limitação de liberdade, chamar tudo isso de “Amor”? Que “Amor” é esse? Como pode esse sentimento (a tal ponto doentio) justificar atos tão cruéis? Seria uma questão de sadismo e misoginia? Seria uma questão de provar quem manda?


Mesmo em países desenvolvidos como a Suécia encontramos crimes brutais contra as mulheres. E isto não é apenas enredo de best-sellers. Mulheres que são perseguidas nas ruas, sequestradas e violentadas, desaparecem sem deixar vestígios. São vitimas de psicopatas.


E quando as mulheres são vitimadas dentro do próprio lar? Como explicar as estatísticas nas quais as mulheres sofrem nas mãos de familiares, pais, irmãos, tios, e depois sequestradas por namorados, torturadas por maridos? Aqueles que deviam defendê-las tornam-se os agressores! O homem que se julga dono da mulher ele não hesita em destruí-la quando ela resolve ter voz própria, se defende e ameaça abandoná-lo. Na verdade, o homem não sente a falta, mas sente perder o poder sobre o ser submisso.


O aumento da violência domestica levou a criação da Lei Maria da Penha que determina limitações e punições aos agressores. O problema é aplicar a lei. Mulheres pedem ajuda, imploram por proteção, e são ignoradas. Só nos lembramos delas quando aparecem nas fotos de jornais nas colunas policiais.




O poeta se manifesta contra



Diante desta realidade tão sofrível pode o poeta silenciar-se? Pode o poeta ficar indiferente? Pode o poeta fechar os olhos e tampar os ouvidos? Espera-se do poeta não uma voz advinda de uma “torre de marfim”, mas uma voz que testemunhe a realidade. Um discurso poético, nem fantasista nem panfletário, mas de depoimento. Ao denunciar as mazelas e violências o poeta surge como uma voz de alerta, ajuda a jogar o foco sobre os sofrimentos das vítimas.


Assim o poeta Diovani Mendonça resolveu abordar liricamente um tema tão anti-lírico. Não basta sofrer com os crimes, com as violências – é preciso denunciá-las! Assim munido de palavras, ritmo e rimas, o poeta faz o seu trabalho. Mostra o quanto de “Amor” é realmente egoísmo, sentimento de posse, necessidade de auto-afirmação (como se o homem apenas se afirmasse ao humilhar uma mulher!), em suma, de imaturidade e ignorância.


A agressão se houver que seja contra o agressor – que o sádico ouse torturar a si-mesmo, que o violentador ouse ferir a si próprio, que a mão que apedreja venha atirar pedras contra si mesma. Que a agressão seja contra o desejo de agredir!


Se tiver que amputar, ampute.
Os músculos de sua pré-potência.

Se tiver que socar, soque.
A boca da própria ignorância.

Se tiver que quebrar, quebre.
Os dentes da própria arrogância.



O poema aproveita-se de imagens fortes de violência e desconstrói ao dirigir o impulso agressivo contra quem ousa agredir – se o agressor levanta a mão que seja corajoso o suficiente para agredir a agressão dentro dele mesmo! Claro que o poema fala tudo isso sem explicar ou moralizar. Não senta ninguém no divã. Mostra tão somente as nossas contradições.


Se algo parece moralismo é porque o poeta já está farto de violência e chegou o momento de denunciar, de se revoltar contra. Se alguém vê moralismo é porque percebe em si os impulsos de agressão. Para vivermos em sociedade o que fazemos? Reprimimos os nossos impulsos agressivos e deslocamos para outras atividades, outras construções.


Mas na esfera da sexualidade a agressão ainda está presente. O homem se sente ainda potente ao humilhar uma mulher, ao percebê-la submissa aos caprichos dele, que chama de “Amor” apenas o sentimento de posse e o desejo de auto-afirmação. O homem não se preocupa com a mulher, quando ela é um objeto que serve aos interesses dele. Interesses de vaidade, de luxúria, de exibicionismo. Ou seja, o “Amor” aqui não passa de egoísmo,



Se tiver que afogar, afogue.
As próprias mágoas enfim.


Se tiver que matar, mate (e bem matado!).
O egoísmo dentro de si.


Então se há um tom moralista é porque o poeta resolve intervir. Aconselhar? Moralizar? Não, apenas chamar a atenção para refletirmos sobre a violência – que não está lá fora. Está dentro de nós mesmos. Uma violência que explode à menor provocação, à menor faísca de contrariedade. Somente nós mesmos podemos nos conter, nos represar, nos precaver, para não cometermos mais crimes ditos passionais.



Reflita... Erga a cabeça e vire o disco

e que ninguém tenha que fazer nada disso.



08/09fev12



Leonardo de Magalhaens

http://leoliteraturaescrita.blogspot.com



o poema “Aos Deturpadores do Amor


no blog http://affonsoromano.com.br/blog/


no facebook :

http://www.facebook.com/profile.php?id=100003083971629




AOS DETURPADORES DO AMOR
Diovani Mendonça

Se tiver que bater, bata.
Mas na cara da própria covardia.

Se tiver que arrancar, arranque.
Os cabelos da própria valentia.

Se tiver que rachar, rache.
A testa da própria hipocrisia.

Se tiver que furar, fure.
Os olhos do próprio ciúme.

Se tiver que puxar, puxe.
As orelhas do sentimento de posse.

Se tiver que apertar, aperte.
O gatilho no nariz da própria sorte.

Se tiver que lascar, lasque.
As unhas da própria vaidade.

Se tiver que enjaular, enjaule.
A própria irracional animalidade.

Se tiver que incendiar, incendeie.
A casa e o quintal da própria maldade.

Se tiver que amputar, ampute.

Os músculos de sua pré-potência.

Se tiver que socar, soque.
A boca da própria ignorância.

Se tiver que quebrar, quebre.
Os dentes da própria arrogância.

Se tiver que cortar, corte.
A própria língua que enfeitiça.

Se tiver que enforcar, enforque.
A garganta da vingança.

Se tiver que envenenar, envenene.
O ventre da própria insegurança.

Se tiver que metralhar, metralhe.
A vidraça da própria desconfiança.

Se tiver que atirar, atire.
No peito da própria amargura.

Se tiver que amarrar, amarre.
As patas da própria força-burra.

Se tiver que decepar, decepe.
Os dedos da própria loucura.

Se tiver que esfaquear, esfaqueie.
As longas pernas da própria mentira.

Se tiver que aprisionar, aprisione.
As mãos e os pés da própria ira.

Se tiver que sufocar, sufoque.
O grito do próprio desespero.

Se tiver que afogar, afogue.
As próprias mágoas enfim.

Se tiver que matar, mate (e bem matado!).

O egoísmo dentro de si.

Reflita... Erga a cabeça e vire o disco

e que ninguém tenha que fazer nada disso.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

sobre Tudo de Eu que há em Mim - de Guto Amaral



Sobre “Tudo de Eu que há em Mim” (Anome Livros, 2011)

do poeta Guto Amaral



Preservando o Eu diante dos Outros



Intro (basicamente um panorama)



A ideia de época, de 'estilo de época', de geração de autores (vide geração expressionista, 'geração perdida', geração modernista, geração de 45, geração beatnik, geração Oulipo, a nouvelle vague, o noveau roman, etc) pressupõe primeiramente um tempo, uma cronologia, um recorte temporal, limitado, onde se encaixam alguns autores por afinidades ou interesses ou estilos comuns ou assemelhados. Em segundo lugar, que estes autores tenham algum contato, algum diálogo interno, até se possível um manifesto.


Também que a geração não só esteja na época, como seja uma marca, um corte, a criar um 'antes e depois de', ou seja, antes e depois dos modernistas, antes e depois dos surrealistas, etc. Afinal, não se pode apenas escolher autores e agregá-los apenas por que viveram na mesma época. Não basta. Algo mais devia, portanto, reuni-los num conjunto. Escolhia-se algo em comum, que fosse um estilo, um interesse, uma editora, uma vizinhança, um grupo de amigos, uma facção política (ou apolítica), uma cena cultural de eventos e/ou oficinas, etc, que pudesse facilitar o 'fechamento' do conjunto, e a criação do rótulo ('olhe aí os expressionistas', 'viram os surrealistas?').


Mas como falar em geração numa época como a nossa? Época em que cada um é sua própria escola e e estilo de época! Em que os artistas não aceitam vanguardas e não aderem aos movimentos coletivos de criação em comum. Quando aderem aos grupos e grupelhos é apenas por autopromoção. Não criação coletiva, cada um cuidando do próprio umbigo, centro do mundo.


Se é que podemos falar em 'nossa geração', tanto no sentido de época quanto grupo de pessoas, no caso, os criadores, os autores, para designar um momento pós-Queda do Muro de Berlim, isto é, os anos 1990, vamos, no entanto, usar tal expressão aqui, por simplificação, para falar daquele jovens autores (entre os quais eu, LdeM, me incluo) que viveram suas juventudes na referida época.


Depois da Queda do Muro tivemos a 'Era dos Extremos', o 'Fim da História', Trainspotting, Fight Club / Clube da Luta, o brit-pop, o grunge rock, Matrix e seus efeitos especiais; tivemos mais dois romances de Umberto Eco, a ascensão e a queda do pop cult, séries norte-americanas com vampiros e novelas brasileiras com mutantes, além de reality shows banais e infindáveis. Tivemos até um atentado megalomaníaco divulgado ao vivo em escala global, o 11 de setembro de 2001, com a imagens das torres do WTC em Nova York quando desabavam em grotescas nuvens de fumaça e detritos.


Nossa geração, digamos, vivenciou tudo isso, e tentou digerir tudo isso. É muita coisa. Basta acessar um site de buscas, uma enciclopédia cooperativa, uma rede social que a informação jorra na tela, inunda nossas vidas. Não temos um pendrive implantado no cérebro para guardar tanta informação. Estamos, assim, nauseados. Não de tédio, ou 'vazio da época', mas por excesso e mais excessos.


Imersos em dados e cifras, em estatística, nós, desta geração pós-1990, estamos sobrevivendo em busca de um sentido, de uma crença, uma vez que as ideologias foram por água abaixo, uma pior que a outra. Estamos órfãos de grandes líderes e gurus, e o artista pop da vez já serve para ser o novo ídolo … pelo menos por um ano e meio. Assim, não temos por costume por partido, ou agir coletivamente, mas sempre pensando no 'quanto eu lucro com isso?' a cada hesitação diante de uma decisão.


Mas este prólogo nada pretende responder. Talvez a enciclopédia cooperativa tenha alguma resposta. Trata-se apenas de um preâmbulo para tentar entender a obra do poeta Guto Amaral autor do recém-lançado “Tudo de Eu que há em Mim” no contexto pós-1990 ao problematizar a condição do autor e da posição política do mesmo (pois até não ter posição política é uma posição política, não precisa ser 'marxista' para saber disso...) se faz literatura ou panfleto (antes os autores sabiam fazer literatura panfletária, não?) num mundo pós-Utopias, onde o capitalismo parece ter mesmo vencido.



Tudo de Eu que há em Mim



São possíveis vários ângulos e recortes para lermos esta coletânea de poemas (a incluir um conto) que destila uma auto-ironia muita mais que metalinguística. O poeta tem sérias hesitações em se aceitar como poeta quando não ataca os “doutos senhores donos da verdade” (será aqui os críticos? Os editores? Os veículos midiáticos?) que são obstáculos no caminho de sua própria aceitação. Ele precisa se aceitar diante dos outros?


Temos aqui poemas que beiram o ensimesmamento e poemas que problematizam o estar-no-mundo (aliás, uma oscilação que percebemos em vários poetas no contexto [pós]moderno) como se o autor/poeta vive em cissão – vive e observa-se vivendo. É algo e se julga outra. Ou espera que o Outro dê uma identidade (sou autor/poeta a partir do momento em que os outros me julgam autor/poeta? Ou sou eu mesmo que digo 'sou autor/poeta'?)


Esta oscilação subsiste em vários escritores da nossa geração, mas no eu-lírico presente nos poemas de Guto Amaral o fenômeno está mais explícito. O eu-lírico se vê no espelho, se mira, se explica, se justifica, em confessar, em esforço de legitimação enquanto tal, como se prestando contas a alguém – ou a ele mesmo. É um grande conflito que provoca a cissão – e que aceitaremos apenas para fins didáticos. Afinal, somos Um e somos Vários.



Alguns poemas do Eu ou da vida, a tematizar a trajetória de artista. Assim o sentimento de solidão explicitado em “The End” (p. 19), “Perdi meu dom / Perdi meu calor / Não creio no homem, na burocracia / Não creio no bom, nem no labor / Não creio no tempo, nem no desabafo. / Só creio no frio, que geme em meus pés / Só ele me toca, só ele me agride / Só ele me lembra de tempos melhores / só ele doutrina, educa e conforma / Só creio no frio / Só ele estará sempre lá.


Numa solidão onde nem a literatura é abrigo seguro “Mas o mundo me dói / O noticiário me aniquila / A novela das oito me corrói / E tudo que construí / À Borges, Neruda e Kafka / Cai por terra e me leva junto” (p. 21)Esta relação evidente pois há a consciência de um talento inato, um 'nascer artista', que é preciso aceitar-se enquanto artista,


Nasci artista

Nunca me perguntei porque

a desgraça se abateu

assim sobre mim

Aceitei meu fardo

E o carrego conformado


(p. 22)


É uma certa visão pessimista, esta de precisar 'resignar-se', mas quando se evidencia o embate entre a consciência do eu e o olhar do outro, a consciência que é uma espécie de fantasma que assusta o poeta nas noites de insônia, “Fecho-me completamente / Mas todos os cantos me observam / E todos os pensamentos conservam / Paranoia, simplesmente” (p. 54)


É uma consciência do eu-poeta que transparece nestes poemas com dosagens de metalinguagem onde ao falar sobre o artista-maldito, numa modéstia ou auto-depreciação, o eu-lírico está abordando a criação maldita, o próprio ato de escrever, como uma afirmação de “a literatura estragou tuas melhores horas de prazer” como desabafou o eu-lírico de Drummond em “Elegia 1938”.


A literatura é vista não apenas enquanto simulacro, enquanto jogo e simulação, mas enquanto algo que desvia forças e ânimos, que deixa a perder o tempo para coisas mais úteis (ou consideradas mais úteis) enquanto o poeta deturpa a linguagem comum, em jogos líricos, como é narrado na mitologia reescrita, na fábulas às avessas, “Surgiu o poeta / Se infiltrando qual serpente venenosa / E se pôs a conjugar o verbo / E o fechou em um labirinto de mesóclises / E sujeitos ocultos” (em “Corrupção”, p. 10)


Mas pode ser que tudo não passe de um pretensão, ousadia para se expressar, para dizer que existe, “Escrever com vontade / De fazer existir / Por uma fração de segundo / Uma ideia pura / Um pensamento claro / Nascidos da vontade de querer dizer” (em “Pretensão”, p. 12) pois parece mesmo que o poeta pode existir a partir da escrita “escrever com vontade / De se fazer existir / E de ousar autorar”.


É frequente o símbolo da caneta, por extensão : a escrita. O objeto de escrita se materializa enquanto arma, enquanto lança, enquanto desafio e fatalidade, como instrumento de afirmação e auto-destruição. “Minha caneta correu qual rastro de cobra” (p. 22) ou em “Pseudo tragédia” (p. 37)



Olho para o papel amarelado

E me apanho segurando a caneta

Empunhando o gládio de minha vida

Olho para a caneta em minha mão

E o papel surge impotente em minha frente

Quanta dor, quanta morte terá minha caneta

causado


Vou pegar minha caneta

E cometer harakiri

Pra poder entrar no céu


Um perceber-se 'maldito' (ou será antes um refém do olhar do/s Outro/s que o julga/m assim?) que gera hesitações, e culpas por hesitar, precisando de um pouco de esquecimento, para que os excessos não sobrecarreguem - num excesso de exigências, leituras, intertextualidades... - num hesitar entre as escolhas, “O dom do esquecimento / A dádiva suprema / Que me permite / Continuar meu crescimento / Percorrendo hipervias da informação” (p. 63)


Mas parece que nem todas as escolhas foram feitas. Ou nem tudo eram escolhas (escolhemos nascer? Escolhemos nosso nome? Ou temos um destino traçado? ) “Sinto a dor da revolta / Das escolhas que não fiz / Da viagem imposta / Sem passagem de volta” (p. 64) pois o eu-lírico está sozinho quando é determinado e também quando precisa decidir, numa consciência de viver só mesmo quando acompanhado,


Sozinho parti e sozinho chego

Mas não me perguntem por onde andei

Juntando poemas que nunca escrevo

Formando um poeta que jamais serei


(p. 76)


Algum abrigo na escrita? O quanto o eu pode se expressar sem se trair/ “Buscar refúgio / Uma guarida que me proteja enquanto escrevo / que não permita que me vejam / Enquanto escancaro a minha alma” (p. 17)


Ou uma espécie de missão da qual o poeta não pode se evadir, mesmo com toda a auto-ironia, porém o poeta não pode calar / Não pode deixar de ouvir o gemer / Não pode fugir, deixar pro vizinho / Não pode viajar pra saturno e desligar a / secretária eletrônica ” (p. 13)


Além de olhar pra si mesmo o eu-lírico olha para o produto poético. Permite-se analisar os versos e a procurar uma validade, uma legitimidade para os mesmos. São, assim, os poemas sobre a própria poesia, se é um desabafo, uma reflexão, um jogo de palavras, na mesma problemática explicitada por Fernando Pessoa no provocativo “O poeta é um fingidor”,



A felicidade do homem

É a ruína do poeta

Sem dor não se escreve

O poeta inventa a angústia

Ou antes se angustia por a ter

O poeta, assim como o sambista,

Necessita da dor criadora


(p. 30)


e


Jogar com palavras

Jogar com ideias

Manter-se sincero

Mentindo descaradamente

Jogar por jogar

Pegar o universo

Jogá-lo pela janela.


(“Poesia”, p. 32)


Estando num contexto, seja criativo ou destrutivo, o poeta precisa encontrar-se numa forma de expressão, numa criação que ele reconheça, que tenha personalidade e originalidade. Mas é de se questionar : a verdadeira criação é possível? Parece que aqui o eu-lírico responde com negativa.



A verdadeiro criação é impossível

Grandes cópias foram, no entanto

Engendradas de modo crível

Para nosso sincero espanto


(p. 70)



Assim como não acredita em ideologias, o eu-lírico pós-1990 não acredita na originalidade. Tudo é pastiche de um pastiche, tudo é citação de uma citação. Pois: Tudo já foi escrito? Já foi dito? Ou é o 'modo de dizer' que será sempre original? Muitas questões entre Formalismo, Estruturalismo e New Criticism. E Bakhtin alimentaria a discussão, Calvino não hesitaria. Sabem que textos dialogam com textos, autores reverenciam (e copiam! ) autores.


Assim o autor enquanto leitor: as tantas referências a Carlos Drummond de Andrade, J. L. Borges, P. Neruda, F. Pessoa, F. Kafka, etc num diálogo intertextual, além das influências simbolistas de Baudelaire, Cruz e Sousa e do funesto Augusto de Anjos. Em alguns poemas o autor apenas reverbera as imagens e sonoridades de poemas já lidos, que integram seu tesouro de palavras, do seu panteão de literatos.



Entre os 'poemas do Eu e os 'poemas do Fazer-poesia', temos os poemas sobre política, o viver na cidade, em suma, as impressões sobre o mundo. É aquela oscilação que percebemos na nossa geração – mezzo dentro e mezzo fora – nem totalmente introvertida nem ativamente engajada. Um pequeno pouco a pouco. Nada de revoluções, melhor a paz de nossas celas acolchoadas.


No poema “Esquerda” (p. 15) a posição de não-posição é revelada. Ser político é não ser político! “a verdadeira militância / É estar não posicionado / Nem direita, nem esquerda” ou seja, um não-estar-engajado que marca nossa geração (as exceções apenas confirmam a regra) com os jovens nem solteiros nem casados, nem independentes nem compromissados, vivendo na casa de seus simpáticos e tolerantes papais e mamães.


É uma geração que desiste a luta coletiva e se preocupa com as próprias carreiras, ou em abrir um bazar na loja da esquina, ou um carrinho de hot-dog na praça... Da negação do eu e do não” soa como niilismo? Ou niilismo está fora de moda? Hoje o lance é lucrar e guarda dinheiro no banco para não ter que precisar da 'caixinha pública' quando se aposentar...


Uma visão de política que se resume a discursos e promessas, nunca soluções. Aceitação da decadência social ou que cada um cuide do próprio jardim? O que podemos ler em “Panfletária” (p. 16), “Pensei em fazer um discurso / Compor qualquer coisa / Que nos guie à verdadeira revolução”.


Seremos livres e enfim / A revolução acontecerá” é retórica? Auto-engano? Idealismo? Esperança na revolução de baixo-para-cima? Pois o poeta reconhece apequenez egocêntrica” do indivíduo na multidão. A luta só pode ser coletiva... Um pequeno grupo de guerrilheiros não fará a revolução. Um partido organizado, centralizado, autoritário não fará a revolução.


Não creio no homem, na burocracia” é o que já vimos no poema The End (p. 19), mas não há como fugir. O poeta é chamado para a vida coletiva, para testemunhar o que vê e sente, é sua árdua missão. Pode ser sem dramas – ou regurgitar dramaticidade. Aqui ele escolhe. Não só de vida interior vive o homem, o artista, mas também do serviço social, da coleta de lixo, do controle do trânsito, da segurança pública. É no meio da vida urbana que o eu-lírico se percebe, mais um no meio de tantos,


Cidade

Engrenagens que se cruzam

Sem se olhar nos olhos

Perver-cidade

Aglutinação de significantes

Repetição de insignificantes



(“Cidade”, p. 27)

e


De que adianta

Viver nesta sociedade

nesta triste realidade

Onde o tempo é eterno

E o tempo é o inferno


(“De que adianta”, p. 50)


O poeta precisa deixar o ensimesmamento, oscilar pra fora de si mesmo, para ver o drama lá fora, nas vítimas da chuva, das calamidades, dos descasos das autoridades (muito bem pagas para nada fazerem...), assim em “Chove” (p. 69) a ser uma denúncia, em versos, da irresponsabilidade dos cidadãos e dos descasos das políticas sociais. “E a dor que escorre dos morros / Se mistura ao concreto, ao asfalto / Na lama dos sonhos quebrados / No sonho de vidas rompidas”. Construção lírica para um mundo não-escrito em desconstrução.


Saindo de si, o poeta vê o mundo e pode ousar narrativas, falar de outras vidas, outros rumos, outros destinos que se cruzam, num labirinto textual borgiano, num jardim de possibilidades em florescências. O autor pode tentar um prosa, abrir mão dos versos. (Muitos poetas medianos têm se mostrado bons contistas, lembro que já dissemos isso...)


Prosa ou prosa poética, eis o conto “Chuva” (pp. 81-103) a fechar a obra “Tudo de Eu que há em Mim” com uma narrativa entre verossímil e surreal. Não é fantasia, mas também não é do estilo 'a vida como ela é'. Longe de comparar com Kafka ou Borges, mas há toda uma influência aqui (o scholar Harold Bloom que o diga...).


É que acompanhamos as vicissitudes de um tal Durval Ordini (metódico e ordeiro , também com um nome destes! Ordini, ordem... assim no nome do protagonista uma pista do que ele é...) numa espécie de pesadelo digno de realismo-mágico, que agradaria muito aos contistas Murilo Rubião e José J. Veiga.


A mãe do protagonista, a Dona Durvalina Ordini, é aquele tipo de mãe super-maternal, dominadora, possessiva, que abafa o filho com exigências. E é tamanha a fixação na mãe que Durval que logo fica explícito quando a jovem esposa usa as roupas da mãe.


Mas o que faz o neurótico Durval ? Um trabalho rotineiro numa empresa, da qual nunca se afastou em férias. E quando ele pode viajar – pois o estresse já transpira – ele se refugia num sítio, onde brotam imagens do passado, ao reviver lembranças da infância... As obsessões do protagonista aumentam junto com a chuva constante a cair, num pesadelo aquoso no qual ele se afoga.


Não vamos aqui realizar a desconstrução do conto, nem desmembrar as sombras do estilo. A fábula é bem narrada, e talvez um pouco mais de 'psicologismo' tornasse o protagonista mais interessante. Talvez seja intencional um protagonista tão pouco palpável, imaginável. Ele é um ser de papel que representa um ser que não viveu plenamente a vida e busca o 'tempo perdido'. A vida passou e ele não aproveitou – ficou assim preso no tempo. É uma interpretação, é a nossa leitura.


O protagonista não interessa em si mesmo, não sua personalidade (ou ausência de personalidade) mas enquanto símbolo de um viver-não-vivendo, numa vidinha ordeira e alienada. Certo dia o passado golpeia de volta – deseja-se novamente a infância para fazer tudo de novo, ou a adolescência para redescobrir o amor.


Aliás, o amor, um sentimento que é revelado nas entrelinhas de “ Tudo de Eu que há em Mim”, com sutilezas, com releituras de poetas de escrita apaixonada, como se percebe nos belos versos sinestésicos “Se cale só para poder ouvir / O perfume de teus cabelos.” (em “Noite dos Amantes”, p. 39) que podem indicar um outro caminho para o poeta Guto Amaral, não mais falar de si mesmo e/ou do mundo mesquinho, mas das relações de amor e desafeto que somente através da poesia podem ser criadas e recriadas, o que vale dizer: expressadas.




jan/fev/12




Leonardo de Magalhaens


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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O GUARDA-ROUPA (conto)

O Guarda-Roupa


Certos fenômenos desafiam até os dias atuais os mais dedicados pesquisadores das ciências naturais ou ocultas, os devotos leitores de estatísticas, os exibicionistas das probabilidades, os acadêmicos mais exaltados, os colecionadores de fatos bizarros, em suma, todos aqueles que querem explicar o mundo (...se é que o mundo tem explicação). Grande mentes, assim, se debruçaram sobre os fenômenos das coincidências, das correlações, das telepatias, das sincronicidades, das simpatias, das rotinas viciadas, dos números repetidos da mega-sena, contudo essas grandes mentes nada anunciaram de definitivo.


É de se pensar se faltaram os dados, ou empenho e dedicação, horas de insônia pra se catalogar e classificar todas as bizarrices nonsenses que habitam nosso planeta.


Certos cidadãos jamais experimentaram certos tipos de fenômeno que inquietam os nossos pesquisadores a ponto de alterarem as rotinas diárias. Devido ao fato de não se encontrarem em situações estranhas muitas pessoas acreditam na normalidade e se sentem inseguras por imaginarem uma vida normal.


Acreditam, os incautos, que ao chegarem no ponto de ônibus encontrarão o ônibus, que ao chegarem ao ponto de táxi encontrarão o táxi, que ao chegarem ao aeroporto encontrarão o voo para a próxima escala, além de esperarem encontrar o vestido dos sonhos ou encontrar a cara-metade nos sites da internet. Vivem de esperanças aguardando o nascer do sol, a ascensão da lua, conferindo o saldo do cartão, jogando na mega-sena, preparando o enxoval de noiva, esperando a promoção para a chefia, fazendo planos para as próximas férias, em suma esperando que suas vidas durem mais de uma semana, que o Juízo Final seja no próximo século. Não sabem se despertarão no dia seguinte, não sabem a data do próximo tsunami ou terremoto fatal. Ou da enchente ou do deslizamento.


A simples saída de casa até a prosaica esquina para comprar um maço de cigarros pode se tornar um enredo de filme de espionagem ou terror urbano. Ser assaltado e sequestrado é tão comum que nem é mais manchete de sensacionalistas... Ser abduzido por ETs talvez mereça alguma menção... Nunca se sabe o que pode acontecer. Mas as pessoas agem como se tudo fosse previsível. Acreditam que o sol vai nascer na manhã seguinte...


Mas quando menos esperam – o mundo revela-se mais bizarro. Do mais simples surge o complexo. Por exemplo. Comprar um eletrodoméstico. Mil e tantos são produzidos por dia, e centenas são vendidos para várias lojas de uma rede atacadista. Vários produtos passam por controles de qualidade, mas em alguns pode acontecer de uma peça ou fiação não ser testada. Pior: pode não funcionar.


E um cidadão vai simplesmente comprar um liquidificador ou lava-louças. Pois bem, ao chegar em casa o aparelho não funciona. Ora, dentre milhares, eis um danificado... e precisava ser o dele?! Ele se acredita vítima de um destino cruel e funesto... mas é apenas uma coincidência. Afinal, alguém teria que comprar algum dos aparelhos danificados.


Mas aí o cidadão desabafa em impropérios, briga com o vendedor, até com o gerente da loja, e pior, destila mau-humor com a esposa, deixa de contar piadinhas pras crianças, perde-se em recriminações, reclama do jantar, sente-se perseguido, resolve trocar de carro.


Culpa dele? Culpa de quem fabricou o aparelho? Culpa de quem não testou o aparelho? Culpa de quem transportou o aparelho? Vá saber. Culpar o destino, o acaso, as Potências superiores, a Providência, o Demônio geralmente é mais fácil. O consolo vem seguramente mais rápido. Sofremos por causa do capricho dos Deuses...


O fato é que J. Lee não pensaria qualquer coisa assim senão fosse o problema com o guarda-roupa. Roupas demais e ele precisava de um guarda-roupa novo. Coisa pra ontem, pra anteontem. Ele passou a transitar pelas ruas do centro, de olho nas lojas de móveis. É que ele resolvera fazer um série de orçamentos. Ficou duas semanas nessa jornada.


Ora o móvel era caro, ora era barato demais (...assim logo suspeito de pouco durável). Demorou duas semanas para encontrar um no preço médio. E descobriu que entregavam dentro de cinco dias úteis. E a montagem? Dentro de outros cinco dias úteis. Mas ali na loja ao lado me disseram que no dia da entrega eles montavam... Ah, mas vá o Sr. confiar, né? O vendedor não confiava muito (talvez nem em si mesmo, dava por perdida a venda). Mas era o preço que pesava na decisão de J. Lee. Assim a compra foi realizada. Para o alivio de ambas as partes. (Alívio?)


Causas mínimas desencadeiam efeitos máximos: não fosse o guarda-roupa e ele ainda seria um cidadão ingênuo. Aquele a espera de alguém para solucionar seus problemas. Não fosse o guarda-roupa, ele não teria decisão, não teria discutido, não teria tomado atitude, e causado tudo o que causou. E como causou.


Justamente no momento da compra o vendedor confirmou que a montagem seria agendada para no máximo cinco dias após a entrega do móvel. Montagem que seria rápida ? Não mais que duas horas para montar o guarda-roupa. Assim J. Lee ficou boquiaberto: montar um guarda-roupa de quatro porta em duas horas... que profissionais...! mas tomara que não sejam os mesmo montadores deste aí de amostra: uma das portas já se soltava...


Era só o começo. Começo de que? Nem J. Lee sabia. Nem sequer pressentia. Algo de imprevisível poderia advir de... Deixa pra lá. Nem ele nem ninguém sabia. O vendedor logo o esqueceu – assim que ele passou o cartão na máquina e recebeu a nota da compra. O vendedor somente o reconheceu uns dez dias depois. É que entregaram mesmo o produto – até antes dos cinco dias úteis – mas ele nada sabia do agendamento da prometida montagem...


O vendedor queria saber qual o problema. Não entregaram o produto? Ah, sim... Então? O modelo estava errado? Não foi aquele que o Sr. escolheu? O que mais precisava? J. Lee olhava do vendedor para o gerente (que já aparecera) e do gerente para o vendedor. Ambos se olhavam. O problema era a montagem do guarda-roupa. Não era pra agendar em cinco dias? Já passou uma semana... Vendedor e gerente se revesavam nos sorrisos amplos e hipócritas.


Para resumir: J. Lee foi levado na conversa e carregou no bolso outra bela promessa. Receberia uma ligação e em dois dias eis o belo guarda-roupa montado... Claro que J. Lee saiu meio arrasado. Brigaria com os funcionários, dinamitaria a loja? Claro que não. Ele é um cidadão pacato, evita a violência. Nem eleva o tom de voz... Também o que adiantaria apontar uma arma para o gerente? Era um cidadão honrado, cumpridor dos deveres, pagava os impostos, atravessava na faixa de pedestres, deixava o assento livre para as senhoras de terceira idade...


Mas pior que implorar é ser ignorado. Fingem que dão atenção, ele sabe (ou antes: ele descobre...). Tudo fingimento. Querem apenas o seu dinheiro, otário! Aí, finalmente, ele percebe que a maioria das soluções para seus problemas vem da ajuda de terceiros... ele precisa do eletricista, do encanador, do gerente, do burocrata da prefeitura... ele mesmo não pode resolver os problemas?


Da última vez que tento consertar a ducha, esta quase explodiu... a pia está vazando até hoje... mas ele tinha tomado uma decisão (até sem consultar a esposa...). Era a seguinte decisão: ele mesmo montaria o tal guarda-roupa.


Falar é fácil... vai fazer então! Disseram que os dois montadores gastariam cerca de duas horas, non è vero? Será mesmo? Ele gastou duas horas só para desembalar os três pacotes de papelão que agasalhavam as tábuas do móvel. Duas horas se passaram e ele se sentou para ouvir um som. Acabou dormindo...


Depois J. Lee passou a gastar pelo menos três valiosas horas do seu curto dia para arrumar o tal guarda-roupa. Olhava as peças, comparava com o desenho esquemático, media os parafusos, discutia com a mulher, Mas desde quando você monta guarda-roupas, homem? Hein? Ele seguia em frente... Será que colocava o casamento em risco? Não chegaria a tanto... Mas que enfiou na caixa craniana a decisão de montar o troço, isso com certeza... A decisão entrou e não saiu mais.


Nem depois de marretar o dedão três vezes, nem depois de esmagar o dedinho do pé com uma das tábuas laterais, nem depois de rachar a unha com uma porta mal encaixada... Três horas num dia, dormia, no outro umas duas horas de manhã, e chegava cansado do escritório, teorizava sobre a divisão do trabalho, ele intelectual podia muito bem montar um guarda-roupa, um montador é que não poderia escrever sobre Shakespeare... E ficava mais duas horas, até os olhos pregarem, e no dia seguinte economizava tempo para encaixar outra gaveta... foi assim durante umas (vamos somar tudo...) umas vinte e três horas...


Depois disso, J. Lee viu-se um novo homem. Decidiu que conserta tudo ele mesmo, chega de intermediários. Chega de divisão de trabalho. Ele poderia ir pra Cuba e ser um intelectual marceneiro. Que tal um economista ser entregador de pizza? Que tal um professor ser varredor de ruas? Eis uma good idea. Ele se converteu. O mundo dividido em departamentos, em celas estanques desfez-se em ruínas. Ele rompeu seu gabinete, derrubou o madeirame e resolveu fazer a instalação do gás no fogão. Até lidar com os botijões ele topava.


E o guarda-roupa? Bem, não era lá grandes coisas, mas ao menos servia para … guardar roupas. Quanto ao J. Lee ele aprendeu a lição. Ele até fez um bom trabalho. Gastou bem as 23 horas. Descobriu que podia fazer. Fez e aprovou. Aquele imenso caixote pra guardar roupas. Nem mais nem menos. Quem diria... o óbvio às vezes é a coisa mais estranha.




22e26/27jan12




Leonardo de Magalhaens


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