quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

sobre Tudo de Eu que há em Mim - de Guto Amaral



Sobre “Tudo de Eu que há em Mim” (Anome Livros, 2011)

do poeta Guto Amaral



Preservando o Eu diante dos Outros



Intro (basicamente um panorama)



A ideia de época, de 'estilo de época', de geração de autores (vide geração expressionista, 'geração perdida', geração modernista, geração de 45, geração beatnik, geração Oulipo, a nouvelle vague, o noveau roman, etc) pressupõe primeiramente um tempo, uma cronologia, um recorte temporal, limitado, onde se encaixam alguns autores por afinidades ou interesses ou estilos comuns ou assemelhados. Em segundo lugar, que estes autores tenham algum contato, algum diálogo interno, até se possível um manifesto.


Também que a geração não só esteja na época, como seja uma marca, um corte, a criar um 'antes e depois de', ou seja, antes e depois dos modernistas, antes e depois dos surrealistas, etc. Afinal, não se pode apenas escolher autores e agregá-los apenas por que viveram na mesma época. Não basta. Algo mais devia, portanto, reuni-los num conjunto. Escolhia-se algo em comum, que fosse um estilo, um interesse, uma editora, uma vizinhança, um grupo de amigos, uma facção política (ou apolítica), uma cena cultural de eventos e/ou oficinas, etc, que pudesse facilitar o 'fechamento' do conjunto, e a criação do rótulo ('olhe aí os expressionistas', 'viram os surrealistas?').


Mas como falar em geração numa época como a nossa? Época em que cada um é sua própria escola e e estilo de época! Em que os artistas não aceitam vanguardas e não aderem aos movimentos coletivos de criação em comum. Quando aderem aos grupos e grupelhos é apenas por autopromoção. Não criação coletiva, cada um cuidando do próprio umbigo, centro do mundo.


Se é que podemos falar em 'nossa geração', tanto no sentido de época quanto grupo de pessoas, no caso, os criadores, os autores, para designar um momento pós-Queda do Muro de Berlim, isto é, os anos 1990, vamos, no entanto, usar tal expressão aqui, por simplificação, para falar daquele jovens autores (entre os quais eu, LdeM, me incluo) que viveram suas juventudes na referida época.


Depois da Queda do Muro tivemos a 'Era dos Extremos', o 'Fim da História', Trainspotting, Fight Club / Clube da Luta, o brit-pop, o grunge rock, Matrix e seus efeitos especiais; tivemos mais dois romances de Umberto Eco, a ascensão e a queda do pop cult, séries norte-americanas com vampiros e novelas brasileiras com mutantes, além de reality shows banais e infindáveis. Tivemos até um atentado megalomaníaco divulgado ao vivo em escala global, o 11 de setembro de 2001, com a imagens das torres do WTC em Nova York quando desabavam em grotescas nuvens de fumaça e detritos.


Nossa geração, digamos, vivenciou tudo isso, e tentou digerir tudo isso. É muita coisa. Basta acessar um site de buscas, uma enciclopédia cooperativa, uma rede social que a informação jorra na tela, inunda nossas vidas. Não temos um pendrive implantado no cérebro para guardar tanta informação. Estamos, assim, nauseados. Não de tédio, ou 'vazio da época', mas por excesso e mais excessos.


Imersos em dados e cifras, em estatística, nós, desta geração pós-1990, estamos sobrevivendo em busca de um sentido, de uma crença, uma vez que as ideologias foram por água abaixo, uma pior que a outra. Estamos órfãos de grandes líderes e gurus, e o artista pop da vez já serve para ser o novo ídolo … pelo menos por um ano e meio. Assim, não temos por costume por partido, ou agir coletivamente, mas sempre pensando no 'quanto eu lucro com isso?' a cada hesitação diante de uma decisão.


Mas este prólogo nada pretende responder. Talvez a enciclopédia cooperativa tenha alguma resposta. Trata-se apenas de um preâmbulo para tentar entender a obra do poeta Guto Amaral autor do recém-lançado “Tudo de Eu que há em Mim” no contexto pós-1990 ao problematizar a condição do autor e da posição política do mesmo (pois até não ter posição política é uma posição política, não precisa ser 'marxista' para saber disso...) se faz literatura ou panfleto (antes os autores sabiam fazer literatura panfletária, não?) num mundo pós-Utopias, onde o capitalismo parece ter mesmo vencido.



Tudo de Eu que há em Mim



São possíveis vários ângulos e recortes para lermos esta coletânea de poemas (a incluir um conto) que destila uma auto-ironia muita mais que metalinguística. O poeta tem sérias hesitações em se aceitar como poeta quando não ataca os “doutos senhores donos da verdade” (será aqui os críticos? Os editores? Os veículos midiáticos?) que são obstáculos no caminho de sua própria aceitação. Ele precisa se aceitar diante dos outros?


Temos aqui poemas que beiram o ensimesmamento e poemas que problematizam o estar-no-mundo (aliás, uma oscilação que percebemos em vários poetas no contexto [pós]moderno) como se o autor/poeta vive em cissão – vive e observa-se vivendo. É algo e se julga outra. Ou espera que o Outro dê uma identidade (sou autor/poeta a partir do momento em que os outros me julgam autor/poeta? Ou sou eu mesmo que digo 'sou autor/poeta'?)


Esta oscilação subsiste em vários escritores da nossa geração, mas no eu-lírico presente nos poemas de Guto Amaral o fenômeno está mais explícito. O eu-lírico se vê no espelho, se mira, se explica, se justifica, em confessar, em esforço de legitimação enquanto tal, como se prestando contas a alguém – ou a ele mesmo. É um grande conflito que provoca a cissão – e que aceitaremos apenas para fins didáticos. Afinal, somos Um e somos Vários.



Alguns poemas do Eu ou da vida, a tematizar a trajetória de artista. Assim o sentimento de solidão explicitado em “The End” (p. 19), “Perdi meu dom / Perdi meu calor / Não creio no homem, na burocracia / Não creio no bom, nem no labor / Não creio no tempo, nem no desabafo. / Só creio no frio, que geme em meus pés / Só ele me toca, só ele me agride / Só ele me lembra de tempos melhores / só ele doutrina, educa e conforma / Só creio no frio / Só ele estará sempre lá.


Numa solidão onde nem a literatura é abrigo seguro “Mas o mundo me dói / O noticiário me aniquila / A novela das oito me corrói / E tudo que construí / À Borges, Neruda e Kafka / Cai por terra e me leva junto” (p. 21)Esta relação evidente pois há a consciência de um talento inato, um 'nascer artista', que é preciso aceitar-se enquanto artista,


Nasci artista

Nunca me perguntei porque

a desgraça se abateu

assim sobre mim

Aceitei meu fardo

E o carrego conformado


(p. 22)


É uma certa visão pessimista, esta de precisar 'resignar-se', mas quando se evidencia o embate entre a consciência do eu e o olhar do outro, a consciência que é uma espécie de fantasma que assusta o poeta nas noites de insônia, “Fecho-me completamente / Mas todos os cantos me observam / E todos os pensamentos conservam / Paranoia, simplesmente” (p. 54)


É uma consciência do eu-poeta que transparece nestes poemas com dosagens de metalinguagem onde ao falar sobre o artista-maldito, numa modéstia ou auto-depreciação, o eu-lírico está abordando a criação maldita, o próprio ato de escrever, como uma afirmação de “a literatura estragou tuas melhores horas de prazer” como desabafou o eu-lírico de Drummond em “Elegia 1938”.


A literatura é vista não apenas enquanto simulacro, enquanto jogo e simulação, mas enquanto algo que desvia forças e ânimos, que deixa a perder o tempo para coisas mais úteis (ou consideradas mais úteis) enquanto o poeta deturpa a linguagem comum, em jogos líricos, como é narrado na mitologia reescrita, na fábulas às avessas, “Surgiu o poeta / Se infiltrando qual serpente venenosa / E se pôs a conjugar o verbo / E o fechou em um labirinto de mesóclises / E sujeitos ocultos” (em “Corrupção”, p. 10)


Mas pode ser que tudo não passe de um pretensão, ousadia para se expressar, para dizer que existe, “Escrever com vontade / De fazer existir / Por uma fração de segundo / Uma ideia pura / Um pensamento claro / Nascidos da vontade de querer dizer” (em “Pretensão”, p. 12) pois parece mesmo que o poeta pode existir a partir da escrita “escrever com vontade / De se fazer existir / E de ousar autorar”.


É frequente o símbolo da caneta, por extensão : a escrita. O objeto de escrita se materializa enquanto arma, enquanto lança, enquanto desafio e fatalidade, como instrumento de afirmação e auto-destruição. “Minha caneta correu qual rastro de cobra” (p. 22) ou em “Pseudo tragédia” (p. 37)



Olho para o papel amarelado

E me apanho segurando a caneta

Empunhando o gládio de minha vida

Olho para a caneta em minha mão

E o papel surge impotente em minha frente

Quanta dor, quanta morte terá minha caneta

causado


Vou pegar minha caneta

E cometer harakiri

Pra poder entrar no céu


Um perceber-se 'maldito' (ou será antes um refém do olhar do/s Outro/s que o julga/m assim?) que gera hesitações, e culpas por hesitar, precisando de um pouco de esquecimento, para que os excessos não sobrecarreguem - num excesso de exigências, leituras, intertextualidades... - num hesitar entre as escolhas, “O dom do esquecimento / A dádiva suprema / Que me permite / Continuar meu crescimento / Percorrendo hipervias da informação” (p. 63)


Mas parece que nem todas as escolhas foram feitas. Ou nem tudo eram escolhas (escolhemos nascer? Escolhemos nosso nome? Ou temos um destino traçado? ) “Sinto a dor da revolta / Das escolhas que não fiz / Da viagem imposta / Sem passagem de volta” (p. 64) pois o eu-lírico está sozinho quando é determinado e também quando precisa decidir, numa consciência de viver só mesmo quando acompanhado,


Sozinho parti e sozinho chego

Mas não me perguntem por onde andei

Juntando poemas que nunca escrevo

Formando um poeta que jamais serei


(p. 76)


Algum abrigo na escrita? O quanto o eu pode se expressar sem se trair/ “Buscar refúgio / Uma guarida que me proteja enquanto escrevo / que não permita que me vejam / Enquanto escancaro a minha alma” (p. 17)


Ou uma espécie de missão da qual o poeta não pode se evadir, mesmo com toda a auto-ironia, porém o poeta não pode calar / Não pode deixar de ouvir o gemer / Não pode fugir, deixar pro vizinho / Não pode viajar pra saturno e desligar a / secretária eletrônica ” (p. 13)


Além de olhar pra si mesmo o eu-lírico olha para o produto poético. Permite-se analisar os versos e a procurar uma validade, uma legitimidade para os mesmos. São, assim, os poemas sobre a própria poesia, se é um desabafo, uma reflexão, um jogo de palavras, na mesma problemática explicitada por Fernando Pessoa no provocativo “O poeta é um fingidor”,



A felicidade do homem

É a ruína do poeta

Sem dor não se escreve

O poeta inventa a angústia

Ou antes se angustia por a ter

O poeta, assim como o sambista,

Necessita da dor criadora


(p. 30)


e


Jogar com palavras

Jogar com ideias

Manter-se sincero

Mentindo descaradamente

Jogar por jogar

Pegar o universo

Jogá-lo pela janela.


(“Poesia”, p. 32)


Estando num contexto, seja criativo ou destrutivo, o poeta precisa encontrar-se numa forma de expressão, numa criação que ele reconheça, que tenha personalidade e originalidade. Mas é de se questionar : a verdadeira criação é possível? Parece que aqui o eu-lírico responde com negativa.



A verdadeiro criação é impossível

Grandes cópias foram, no entanto

Engendradas de modo crível

Para nosso sincero espanto


(p. 70)



Assim como não acredita em ideologias, o eu-lírico pós-1990 não acredita na originalidade. Tudo é pastiche de um pastiche, tudo é citação de uma citação. Pois: Tudo já foi escrito? Já foi dito? Ou é o 'modo de dizer' que será sempre original? Muitas questões entre Formalismo, Estruturalismo e New Criticism. E Bakhtin alimentaria a discussão, Calvino não hesitaria. Sabem que textos dialogam com textos, autores reverenciam (e copiam! ) autores.


Assim o autor enquanto leitor: as tantas referências a Carlos Drummond de Andrade, J. L. Borges, P. Neruda, F. Pessoa, F. Kafka, etc num diálogo intertextual, além das influências simbolistas de Baudelaire, Cruz e Sousa e do funesto Augusto de Anjos. Em alguns poemas o autor apenas reverbera as imagens e sonoridades de poemas já lidos, que integram seu tesouro de palavras, do seu panteão de literatos.



Entre os 'poemas do Eu e os 'poemas do Fazer-poesia', temos os poemas sobre política, o viver na cidade, em suma, as impressões sobre o mundo. É aquela oscilação que percebemos na nossa geração – mezzo dentro e mezzo fora – nem totalmente introvertida nem ativamente engajada. Um pequeno pouco a pouco. Nada de revoluções, melhor a paz de nossas celas acolchoadas.


No poema “Esquerda” (p. 15) a posição de não-posição é revelada. Ser político é não ser político! “a verdadeira militância / É estar não posicionado / Nem direita, nem esquerda” ou seja, um não-estar-engajado que marca nossa geração (as exceções apenas confirmam a regra) com os jovens nem solteiros nem casados, nem independentes nem compromissados, vivendo na casa de seus simpáticos e tolerantes papais e mamães.


É uma geração que desiste a luta coletiva e se preocupa com as próprias carreiras, ou em abrir um bazar na loja da esquina, ou um carrinho de hot-dog na praça... Da negação do eu e do não” soa como niilismo? Ou niilismo está fora de moda? Hoje o lance é lucrar e guarda dinheiro no banco para não ter que precisar da 'caixinha pública' quando se aposentar...


Uma visão de política que se resume a discursos e promessas, nunca soluções. Aceitação da decadência social ou que cada um cuide do próprio jardim? O que podemos ler em “Panfletária” (p. 16), “Pensei em fazer um discurso / Compor qualquer coisa / Que nos guie à verdadeira revolução”.


Seremos livres e enfim / A revolução acontecerá” é retórica? Auto-engano? Idealismo? Esperança na revolução de baixo-para-cima? Pois o poeta reconhece apequenez egocêntrica” do indivíduo na multidão. A luta só pode ser coletiva... Um pequeno grupo de guerrilheiros não fará a revolução. Um partido organizado, centralizado, autoritário não fará a revolução.


Não creio no homem, na burocracia” é o que já vimos no poema The End (p. 19), mas não há como fugir. O poeta é chamado para a vida coletiva, para testemunhar o que vê e sente, é sua árdua missão. Pode ser sem dramas – ou regurgitar dramaticidade. Aqui ele escolhe. Não só de vida interior vive o homem, o artista, mas também do serviço social, da coleta de lixo, do controle do trânsito, da segurança pública. É no meio da vida urbana que o eu-lírico se percebe, mais um no meio de tantos,


Cidade

Engrenagens que se cruzam

Sem se olhar nos olhos

Perver-cidade

Aglutinação de significantes

Repetição de insignificantes



(“Cidade”, p. 27)

e


De que adianta

Viver nesta sociedade

nesta triste realidade

Onde o tempo é eterno

E o tempo é o inferno


(“De que adianta”, p. 50)


O poeta precisa deixar o ensimesmamento, oscilar pra fora de si mesmo, para ver o drama lá fora, nas vítimas da chuva, das calamidades, dos descasos das autoridades (muito bem pagas para nada fazerem...), assim em “Chove” (p. 69) a ser uma denúncia, em versos, da irresponsabilidade dos cidadãos e dos descasos das políticas sociais. “E a dor que escorre dos morros / Se mistura ao concreto, ao asfalto / Na lama dos sonhos quebrados / No sonho de vidas rompidas”. Construção lírica para um mundo não-escrito em desconstrução.


Saindo de si, o poeta vê o mundo e pode ousar narrativas, falar de outras vidas, outros rumos, outros destinos que se cruzam, num labirinto textual borgiano, num jardim de possibilidades em florescências. O autor pode tentar um prosa, abrir mão dos versos. (Muitos poetas medianos têm se mostrado bons contistas, lembro que já dissemos isso...)


Prosa ou prosa poética, eis o conto “Chuva” (pp. 81-103) a fechar a obra “Tudo de Eu que há em Mim” com uma narrativa entre verossímil e surreal. Não é fantasia, mas também não é do estilo 'a vida como ela é'. Longe de comparar com Kafka ou Borges, mas há toda uma influência aqui (o scholar Harold Bloom que o diga...).


É que acompanhamos as vicissitudes de um tal Durval Ordini (metódico e ordeiro , também com um nome destes! Ordini, ordem... assim no nome do protagonista uma pista do que ele é...) numa espécie de pesadelo digno de realismo-mágico, que agradaria muito aos contistas Murilo Rubião e José J. Veiga.


A mãe do protagonista, a Dona Durvalina Ordini, é aquele tipo de mãe super-maternal, dominadora, possessiva, que abafa o filho com exigências. E é tamanha a fixação na mãe que Durval que logo fica explícito quando a jovem esposa usa as roupas da mãe.


Mas o que faz o neurótico Durval ? Um trabalho rotineiro numa empresa, da qual nunca se afastou em férias. E quando ele pode viajar – pois o estresse já transpira – ele se refugia num sítio, onde brotam imagens do passado, ao reviver lembranças da infância... As obsessões do protagonista aumentam junto com a chuva constante a cair, num pesadelo aquoso no qual ele se afoga.


Não vamos aqui realizar a desconstrução do conto, nem desmembrar as sombras do estilo. A fábula é bem narrada, e talvez um pouco mais de 'psicologismo' tornasse o protagonista mais interessante. Talvez seja intencional um protagonista tão pouco palpável, imaginável. Ele é um ser de papel que representa um ser que não viveu plenamente a vida e busca o 'tempo perdido'. A vida passou e ele não aproveitou – ficou assim preso no tempo. É uma interpretação, é a nossa leitura.


O protagonista não interessa em si mesmo, não sua personalidade (ou ausência de personalidade) mas enquanto símbolo de um viver-não-vivendo, numa vidinha ordeira e alienada. Certo dia o passado golpeia de volta – deseja-se novamente a infância para fazer tudo de novo, ou a adolescência para redescobrir o amor.


Aliás, o amor, um sentimento que é revelado nas entrelinhas de “ Tudo de Eu que há em Mim”, com sutilezas, com releituras de poetas de escrita apaixonada, como se percebe nos belos versos sinestésicos “Se cale só para poder ouvir / O perfume de teus cabelos.” (em “Noite dos Amantes”, p. 39) que podem indicar um outro caminho para o poeta Guto Amaral, não mais falar de si mesmo e/ou do mundo mesquinho, mas das relações de amor e desafeto que somente através da poesia podem ser criadas e recriadas, o que vale dizer: expressadas.




jan/fev/12




Leonardo de Magalhaens


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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O GUARDA-ROUPA (conto)

O Guarda-Roupa


Certos fenômenos desafiam até os dias atuais os mais dedicados pesquisadores das ciências naturais ou ocultas, os devotos leitores de estatísticas, os exibicionistas das probabilidades, os acadêmicos mais exaltados, os colecionadores de fatos bizarros, em suma, todos aqueles que querem explicar o mundo (...se é que o mundo tem explicação). Grande mentes, assim, se debruçaram sobre os fenômenos das coincidências, das correlações, das telepatias, das sincronicidades, das simpatias, das rotinas viciadas, dos números repetidos da mega-sena, contudo essas grandes mentes nada anunciaram de definitivo.


É de se pensar se faltaram os dados, ou empenho e dedicação, horas de insônia pra se catalogar e classificar todas as bizarrices nonsenses que habitam nosso planeta.


Certos cidadãos jamais experimentaram certos tipos de fenômeno que inquietam os nossos pesquisadores a ponto de alterarem as rotinas diárias. Devido ao fato de não se encontrarem em situações estranhas muitas pessoas acreditam na normalidade e se sentem inseguras por imaginarem uma vida normal.


Acreditam, os incautos, que ao chegarem no ponto de ônibus encontrarão o ônibus, que ao chegarem ao ponto de táxi encontrarão o táxi, que ao chegarem ao aeroporto encontrarão o voo para a próxima escala, além de esperarem encontrar o vestido dos sonhos ou encontrar a cara-metade nos sites da internet. Vivem de esperanças aguardando o nascer do sol, a ascensão da lua, conferindo o saldo do cartão, jogando na mega-sena, preparando o enxoval de noiva, esperando a promoção para a chefia, fazendo planos para as próximas férias, em suma esperando que suas vidas durem mais de uma semana, que o Juízo Final seja no próximo século. Não sabem se despertarão no dia seguinte, não sabem a data do próximo tsunami ou terremoto fatal. Ou da enchente ou do deslizamento.


A simples saída de casa até a prosaica esquina para comprar um maço de cigarros pode se tornar um enredo de filme de espionagem ou terror urbano. Ser assaltado e sequestrado é tão comum que nem é mais manchete de sensacionalistas... Ser abduzido por ETs talvez mereça alguma menção... Nunca se sabe o que pode acontecer. Mas as pessoas agem como se tudo fosse previsível. Acreditam que o sol vai nascer na manhã seguinte...


Mas quando menos esperam – o mundo revela-se mais bizarro. Do mais simples surge o complexo. Por exemplo. Comprar um eletrodoméstico. Mil e tantos são produzidos por dia, e centenas são vendidos para várias lojas de uma rede atacadista. Vários produtos passam por controles de qualidade, mas em alguns pode acontecer de uma peça ou fiação não ser testada. Pior: pode não funcionar.


E um cidadão vai simplesmente comprar um liquidificador ou lava-louças. Pois bem, ao chegar em casa o aparelho não funciona. Ora, dentre milhares, eis um danificado... e precisava ser o dele?! Ele se acredita vítima de um destino cruel e funesto... mas é apenas uma coincidência. Afinal, alguém teria que comprar algum dos aparelhos danificados.


Mas aí o cidadão desabafa em impropérios, briga com o vendedor, até com o gerente da loja, e pior, destila mau-humor com a esposa, deixa de contar piadinhas pras crianças, perde-se em recriminações, reclama do jantar, sente-se perseguido, resolve trocar de carro.


Culpa dele? Culpa de quem fabricou o aparelho? Culpa de quem não testou o aparelho? Culpa de quem transportou o aparelho? Vá saber. Culpar o destino, o acaso, as Potências superiores, a Providência, o Demônio geralmente é mais fácil. O consolo vem seguramente mais rápido. Sofremos por causa do capricho dos Deuses...


O fato é que J. Lee não pensaria qualquer coisa assim senão fosse o problema com o guarda-roupa. Roupas demais e ele precisava de um guarda-roupa novo. Coisa pra ontem, pra anteontem. Ele passou a transitar pelas ruas do centro, de olho nas lojas de móveis. É que ele resolvera fazer um série de orçamentos. Ficou duas semanas nessa jornada.


Ora o móvel era caro, ora era barato demais (...assim logo suspeito de pouco durável). Demorou duas semanas para encontrar um no preço médio. E descobriu que entregavam dentro de cinco dias úteis. E a montagem? Dentro de outros cinco dias úteis. Mas ali na loja ao lado me disseram que no dia da entrega eles montavam... Ah, mas vá o Sr. confiar, né? O vendedor não confiava muito (talvez nem em si mesmo, dava por perdida a venda). Mas era o preço que pesava na decisão de J. Lee. Assim a compra foi realizada. Para o alivio de ambas as partes. (Alívio?)


Causas mínimas desencadeiam efeitos máximos: não fosse o guarda-roupa e ele ainda seria um cidadão ingênuo. Aquele a espera de alguém para solucionar seus problemas. Não fosse o guarda-roupa, ele não teria decisão, não teria discutido, não teria tomado atitude, e causado tudo o que causou. E como causou.


Justamente no momento da compra o vendedor confirmou que a montagem seria agendada para no máximo cinco dias após a entrega do móvel. Montagem que seria rápida ? Não mais que duas horas para montar o guarda-roupa. Assim J. Lee ficou boquiaberto: montar um guarda-roupa de quatro porta em duas horas... que profissionais...! mas tomara que não sejam os mesmo montadores deste aí de amostra: uma das portas já se soltava...


Era só o começo. Começo de que? Nem J. Lee sabia. Nem sequer pressentia. Algo de imprevisível poderia advir de... Deixa pra lá. Nem ele nem ninguém sabia. O vendedor logo o esqueceu – assim que ele passou o cartão na máquina e recebeu a nota da compra. O vendedor somente o reconheceu uns dez dias depois. É que entregaram mesmo o produto – até antes dos cinco dias úteis – mas ele nada sabia do agendamento da prometida montagem...


O vendedor queria saber qual o problema. Não entregaram o produto? Ah, sim... Então? O modelo estava errado? Não foi aquele que o Sr. escolheu? O que mais precisava? J. Lee olhava do vendedor para o gerente (que já aparecera) e do gerente para o vendedor. Ambos se olhavam. O problema era a montagem do guarda-roupa. Não era pra agendar em cinco dias? Já passou uma semana... Vendedor e gerente se revesavam nos sorrisos amplos e hipócritas.


Para resumir: J. Lee foi levado na conversa e carregou no bolso outra bela promessa. Receberia uma ligação e em dois dias eis o belo guarda-roupa montado... Claro que J. Lee saiu meio arrasado. Brigaria com os funcionários, dinamitaria a loja? Claro que não. Ele é um cidadão pacato, evita a violência. Nem eleva o tom de voz... Também o que adiantaria apontar uma arma para o gerente? Era um cidadão honrado, cumpridor dos deveres, pagava os impostos, atravessava na faixa de pedestres, deixava o assento livre para as senhoras de terceira idade...


Mas pior que implorar é ser ignorado. Fingem que dão atenção, ele sabe (ou antes: ele descobre...). Tudo fingimento. Querem apenas o seu dinheiro, otário! Aí, finalmente, ele percebe que a maioria das soluções para seus problemas vem da ajuda de terceiros... ele precisa do eletricista, do encanador, do gerente, do burocrata da prefeitura... ele mesmo não pode resolver os problemas?


Da última vez que tento consertar a ducha, esta quase explodiu... a pia está vazando até hoje... mas ele tinha tomado uma decisão (até sem consultar a esposa...). Era a seguinte decisão: ele mesmo montaria o tal guarda-roupa.


Falar é fácil... vai fazer então! Disseram que os dois montadores gastariam cerca de duas horas, non è vero? Será mesmo? Ele gastou duas horas só para desembalar os três pacotes de papelão que agasalhavam as tábuas do móvel. Duas horas se passaram e ele se sentou para ouvir um som. Acabou dormindo...


Depois J. Lee passou a gastar pelo menos três valiosas horas do seu curto dia para arrumar o tal guarda-roupa. Olhava as peças, comparava com o desenho esquemático, media os parafusos, discutia com a mulher, Mas desde quando você monta guarda-roupas, homem? Hein? Ele seguia em frente... Será que colocava o casamento em risco? Não chegaria a tanto... Mas que enfiou na caixa craniana a decisão de montar o troço, isso com certeza... A decisão entrou e não saiu mais.


Nem depois de marretar o dedão três vezes, nem depois de esmagar o dedinho do pé com uma das tábuas laterais, nem depois de rachar a unha com uma porta mal encaixada... Três horas num dia, dormia, no outro umas duas horas de manhã, e chegava cansado do escritório, teorizava sobre a divisão do trabalho, ele intelectual podia muito bem montar um guarda-roupa, um montador é que não poderia escrever sobre Shakespeare... E ficava mais duas horas, até os olhos pregarem, e no dia seguinte economizava tempo para encaixar outra gaveta... foi assim durante umas (vamos somar tudo...) umas vinte e três horas...


Depois disso, J. Lee viu-se um novo homem. Decidiu que conserta tudo ele mesmo, chega de intermediários. Chega de divisão de trabalho. Ele poderia ir pra Cuba e ser um intelectual marceneiro. Que tal um economista ser entregador de pizza? Que tal um professor ser varredor de ruas? Eis uma good idea. Ele se converteu. O mundo dividido em departamentos, em celas estanques desfez-se em ruínas. Ele rompeu seu gabinete, derrubou o madeirame e resolveu fazer a instalação do gás no fogão. Até lidar com os botijões ele topava.


E o guarda-roupa? Bem, não era lá grandes coisas, mas ao menos servia para … guardar roupas. Quanto ao J. Lee ele aprendeu a lição. Ele até fez um bom trabalho. Gastou bem as 23 horas. Descobriu que podia fazer. Fez e aprovou. Aquele imenso caixote pra guardar roupas. Nem mais nem menos. Quem diria... o óbvio às vezes é a coisa mais estranha.




22e26/27jan12




Leonardo de Magalhaens


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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

sobre ARRANJOS DE PÁSSAROS E FLORES



sobre a obra ARRANJOS DE PÁSSAROS E FLORES [2002]

[obra reeditada em 2011]

do poeta, ator e editor Wilmar Silva


Plumagens Líricas


'pintassilgo por ti - madona da floresta

gemido de liberdade eu, sempre vadio

difuso, pálpebras no pico da neblina - '


Arranjos florais e emplumados, ornamentando as retinas todas ressentidas na aridez do mesmo, adornos de contemplações e êxtases,versos que vertem imagens de campinas que avançam cerrados e deixam escoar ribeiros.

Continua assim a busca do toque na seiva primeva, alçando um olhar amplo, panfletando, para cada dia, uma foto verbal na visceral linguagem original, pois é certo que, o bardo mesmo o diz, 'guardo no cântaro da palavra, o verbo / de ação que entorpece tico-tico, eu '

Convida ao passeio, 'antes da chuva, no amargor da tarde Súbito / êxtase que enveredo, rumor de asas e pássara', os mesmos campos onde vislumbramos o voo do Anu, de rústico voejar, sobre o corpo estendido da Terra, a disseminar trinados de erotismo que assanha.

O arrepio do sempre fascinar, sentindo a eterna carícia da novidade a suceder-se em ciclos de germinar e brotar, vicejar e maturar, pétalas que se abrem, ramos que se estendem, folhas que caem a deixarem galhos nus.

Insinua-se um EU que voa fendendo o óbvio, 'eu-pássaro, canto por Ti clave e amavio', 'eu, vertical, crispo nuvens de juncos', ainda a comunicar avidez e horizontes, pássaro-semântico-proto-língua, em sílabas esvoaçantes, 'féerico eu, pássaro / preto imito a dança do vento...', pássaro petulante e aprumado nos meandros das falas agrestes.

Assim, 'eu/ cavaleiro, invisível é meu galope / atrás do perfume que exala no breu', nas traquinagens do eu-erradio, 'eu-menino, divido espatifilos por ti', convocando ao salto aquelas almas atadas a padrões e catálogos, normatizadas em gestos maquinais, 'eu / dia-a-dia no exercício de liberdade / e vôo, rasante - ', 'eu, teu avoante sem brida e sem ardil, / cristal, firo as cordas vocais e esqueço - ', o livre fluir da linguagem, 'preparo semântica de verbo lírico, eu / pássaro-preto coloro íris de líris', 'meu corpo nu é meu substantivo', 'meu ideograma é mais do que romper / o ícone situado vias-espinhas-dorsais', a confundir com o verbo coisas, encontra-se 'eu-novilho, perco a noção da palavra / apenas devoro mangas em teu corpo'. Assim, esvanecendo-se Logos, temos Eros ?

É o erotismo livre, sem culpas e desgastes outros, que goteja destes trinados, 'e bico não apenas teu peito de paetê / , cítrico é meu desejo, azedo sou eu', 'é teu corpo abandonado no meandro / de falésias em guelras que me trissa - ', e insiste, 'erudir através de teu erval, violáceas / que arrebentam à beira dos lábios - ', até violento, 'sim, te violo e te tálamo, zoológico-me', mas com ternura, 'lavo teu corpo com a própria lima e / enxugo o suor de virilha à língua', e sutileza, 'aqui, desnudo, cavalo, eu : teu-marruá / longe, eu te afago e agora te-afogo / hímen a-dentro antes da madrugada', e confessa, sem pudores, assim, 'eu teu herdeiro da volúpia, vértice sol / devasso é o mundo de nuvens'.

Ama o pássaro a liberdade, o voejar-além, o erguer-se nas aragens-redemoinhos, com a Natureza mesclar-se, sendo 'afluente- eu, riacho alcanço o cerrado', 'resisto através do rodopio dos eixos','eu-lobo insone entre amapola t cervo', 'sem avena e avenca no lusco-fusco', e assim um-com-o-Todo, 'eu-espelho d'água, narciso e orfeu / flautas e flores, eu-pássaro cais e flora', ei-lo aqui o resfolegar dos quatro elementos !

Mas há todo um amor a verter-se, um amor dedicado ao seio da Terra, fértil e entregue. A presença da Terra enquanto símbolo da fertilidade, a Mãe-Terra, matrona, madona e a amante, as três faces da Deusa, seja Geia, Gaia, Ceres. A Terra-fêmea, doadora da Vida, ventre-matriz reprodutora,vejamos, eis, 'dispo veludo de Ceres, êxtase no campo', e 'cultivo o possível / gosto de encontro aos lábios de ceres', e dedicação, 'separo sementes para o almoço de ceres', e lembrança, 'caniço / e perdas que estilhaço no convés / da memória, eu frutífero, arpo ceres', para esclarecer, 'é meu desejo por ti que eu chamo Ceres,' e o beijo nas entranhas da Terra, não túmulo, mas Útero.

E festeja o gozo, 'eu, de sede te sedo / foz de orgasmo no festim floral', 'eu framboso por ti /, cio ávido, azul~ao de orgasmo bravio' e tal nas danças de solstícios e equinócios, 'outono-inverno, abóbada e elevado / calor, altitude beira-margem, rio / paranaíba, sabre eu-pan, flautins', sob as estrelas, 'invólucro de plêiades, do ventre estelar/ de omega ou zega', 'de ornato e letra sinal das três marias / margeia tua pele de brilhantes e íris', selando, 'eu / agora impávido e celeste, anjo de fogo'.

É assim que Wilmar Silva nos convida, 'eu-menino-do-campo, te faço conviva / e digo que a palavra que escrevo é / origem, invento gaivotas no sertão' e espera companheiros de voos, comensais das seivas dos deuses e dríades, ele mesmo a sussurrar que na poesia continua 'encantado no meio da floresta - / trinados que estarreço de medo e fuga / sim, é fuga o que move os meus pés / eu / quase bicho do mato, viro veneno' e inocula neófitos com a embriaguez das palavras.

dez/2005

revsd : jan/2012

by

Leonardo de Magalhaens

http://leoliteraturaescrita.blogspot.com




sábado, 21 de janeiro de 2012

Poeta-Embaixadora da Paz plagia despudoradamente o Pão e Poesia









Poeta-Embaixadora da Paz plagia despudoradamente o Pão e Poesia




Quando o empreendedor e poeta Diovani Mendonça começou, em idos de 2007, a regar e adubar sua “Árvore dos Poemas” e concretizar e divulgar seu “Pão e Poesia – em qualquer esquina, em qualquer padaria”, ele não poderia imaginar o quão frondosa ficaria esta Árvore com seus frutos e nem o sucesso das embalagens de pão (ecologicamente corretas e fartas em versos) para mitigar a fome de boa cultura.

Acontece que a Árvore cresceu mesmo, além de seus frutos-poemas, virou selo editorial, lançou livros e o “Pão e Poesia” transcendeu fronteiras. A ideia ganhou as ruas e se disseminou pelas padarias e escolas.

O poeta Diovani Mendonça tem levado o projeto desde 2008 para várias escolas da região metropolitana de Belo Horizonte, onde os estudantes participam de oficinas de poesia e se envolvem nas criações poéticas, tendo seus versos selecionados e publicados nas embalagens que são doadas às padarias no entorno das escolas participantes. O “Pão e Poesia na Escola”, é um desdobramento do “Pão e Poesia – em qualquer esquina, em qualquer padaria”. Em 2011 a iniciativa foi executada em 10 escolas na região do Barreiro (BH) e a partir de março de 2012, serão mais 10 instituições atendidas na cidade de Brumadinho (MG).


Agora surgem os aproveitadores para colher os frutos nos galhos, afoitos em pegar o bonde andando, bons vaidosos que são, vaidosos que se utilizam da poesia como um trampolim, os ditos poetas sem ideias e que quando pensam (o que pensam?) pensam em academias de letras, ou renomes, ou honrarias, ou placas gravadas com seus sublimes nomes, ou homenagens de prefeituras, ou títulos efêmeros.

São assim colecionadores de medalhas, de cargos, de honrarias, e, quando não, eles pouco hesitam em se autoproclamarem embaixadores, presidentes, executores, representantes, que nada criam além de plágio.

Os promotores da paz que apenas promovem o próprio nome, os embaixadores que representam apenas a si mesmos. Bons plagiadores que apenas comprovam o dito cínico que 'nada se cria, nada se perde, tudo se copia', que tudo assim passa de mão em mão, de acordo com a sacrossanta ambição.

Alguns bons cínicos realmente não hesitam em se dizerem inventores da roda ou construtores do primeiro aeroplano ou criadores do universo, são os donos da Paz, os mantenedores da Vida, são os eleitos da Divindade.

Acontece que um belo dia a máscara cai e a face real – cínica, hipócrita, mesquinha – é desvelada a quem tem olhos para ver. Sob a pele de ovelha a carranca do lobo, sob a oferta de paz a arma da ambição. Atuam como bons políticos na arte de manipular 'corações mentes', a seduzir sutilmente, a contagiar astutamente – de súbito, o bote fatal. A serpente pronta para sufocar a vítima.

Paz, prosperidade, fraternidade são apenas palavras, apenas discursos pomposos, se não forem acompanhados de ações. E quando ações são movidas apenas por vaidade – por vã vaidade – nada será colhido além de discórdia, miséria e hostilidade.

Não adianta sorrisos de maquilagem, ou abraços fraternos, ou 'paz e amor' de gente que pouco esconde a bazófia, a arrogância e o egocentrismo – não se pode negar o óbvio, não se pode mentir sempre.


Assim quando Diovani Mendonça criou, viabilizou, concretizou, divulgou, construiu uma história, ganhou dois reconhecimentos do Ministério da Cultura de seu país, ele não podia prever os interesses pseudoliterários de uma certa Sra. Delasnieve Daspet (que também plagiou a Árvore dos Poemas, outra criação do poeta), nome pernóstico que esconde uma alma ambiciosa e vaidosa, com auréola da pacifista e altruísta – ó vã vaidade! - que se apropriou das ideias (formato, marca, eventos!) a ponto de se dizer criadora, idealizadora, empreendedora da Árvore dos Poemas e do Pão e Poesia.

A pessoa se contradiz, ora diz que se inspirou em X ora que se inspirou em antes de X, mas usa literalmente imagens e textos dos projetos de Diovani Mendonça. As mesmas ideias e argumentações...! o que impressiona é a trama de contradições, de inverdades, de cinismo, de interesses, de campanha na mídia, e 'bola pra frente', continuam as mentiras.

Assim a verdade há de reluzir, ó autoproclamada presidente! Ó auto-exaltada embaixadora! Ó autonomeada executora! Ó colecionadora de títulos que ousa versos e se autointitula poeta! Ó vaidosa que se apropria de ideias e se diz criadora! Ó promotora da paz que colhe litígios! Ó guru dos poetas de rebanho!

Tanto cinismo é a prova da vaidade que pensa poder enganar a todos o tempo todo, que pode roubar ideias sem correr o risco do desengano! Que na mediocridade não cria o novo mas deixa-se banhar em glória alheia, mirar-se no reflexo do sucesso alheio!

Que a máscara do cinismo saiba guardar os 'abraços fraternos' e o 'paz e amor' para seus adoradores e cúmplices, seus fãs e lacaios, mesquinhos ou de 'alma pequena' , que engolem as promessas de paz da louvada embaixadora, presidente, executora, empreendedora, representante, catedrática da vã vaidade dos pseudoliteratos que não servem à Literatura, mas se servem da Literatura para seus interesses de ambições hipocritamente ocultadas.


20jan12

Leonardo de Magalhaens

poeta e pensador
(sob responsabilidade do autor)

http://leoliteraturaescrita.blogspot.com/

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

outra cidade de AS CIDADES INVISÍVEIS de Italo Calvino...




As Cidades Invisíveis

Le Città Invisibili



Italo Calvino



trad. Livre – LdeM




As cidades e os sinais . 3



O homem que viaja e não conhece ainda a cidade que o espera ao longo da estrada, se pergunta como será o palácio real, a caserna, o moinho, o teatro, o mercado. Em toda cidade do império todo edifício é diferente e disposto numa ordem diversa: mas apenas o forasteiro chega à cidade desconhecida e lança o olhar em meio aquela pinha de pagode e sótãos e telhados de feno, seguindo o traçado de canais hortos monturos, de repente distingue quais são os palácios dos príncipes, quais os templos dos grandes sacerdotes, a pousada, a prisão, o bairro boêmio. Assim – disse alguém – se confirma a hipótese de que todo homem carrega na mente uma cidade feita somente de diferenças, uma cidade sem figura e sem forma, e as cidades particulares a preenchem.


Não é assim em Zoe. Em todo lugar desta cidade se poderia vez a outra dormir, fabricar ferramentas, cozinhar, acumular moedas de ouro, despir-se, reinar, vender, interrogar oráculos. Qualquer teto em pirâmide poderia cobrir tanto o lazareto dos leprosos quanto as termas das odaliscas. O viajante gira e gira e não há o que duvidar: não conseguindo distinguir os pontos da cidade, também os pontos que ele tem distinto na mente se misturam. Lá se infere isto: se a existência em todos os seus momentos é toda si mesma, a cidade de Zoe é o lugar da existência indivisível. Mas por que agora a cidade? Qual linha separa o dentro do fora, o estrondo das rodas do uivo dos lobos?” (trad. LdeM)




Italo Calvino





para ouvir sobre outras cidades invisíveis ...


http://www.youtube.com/watch?v=Bjwlg91dDwY&feature=related


http://www.youtube.com/watch?v=p8O07rFCpuE&feature=related



LdeM

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

DESORDEM SOCIAL - conto



DESORDEM SOCIAL


De repente, eu pensei estar envolvido nas multidões de Paris. Aquela turba de estudantes barbudos, intelectuais, em palavras de ordem, passo firme na passeata. Um retrato, onde o Presidente exibia óculos exagerados, se contorcia em chamas.

A faculdade se esvaziara nas ruas. O ódio borbulhava das salas de aula, desde a morte do estudante, lá no Calabouço. Também um Presidente de pouca conversa, A. I. pra cá, A . I. pra lá. Dava nisso mesmo. Eu, que nem sou estudante, entendo isso.

A gente do mercado engrossa a passeata. Daqui a pouco vira bagunça. E eu que preciso voltar a minha vendinha lá no Méier. Os guardas só olham, só olham,. Daqui a pouco, eu já disse.

Um vendedor de água de coco está rodeado de estudantes de cara fechada. Vende muito, para aqueles que a garganta seca de tanto protesto. Vejo uma mocinhas também, até fumando, as meninas. Éta, juventude! Mas e eu, que preciso ir pro Méier, e fico aqui de curioso que sou?

Quando a massa humana invade as ruas dos cinemas, capacetes devolvem um sol com tons sinistros. Cacetes sopesados nas mãos rudes. É uma tropa de choque. Vai haver barulho. Eu bem que disse.

A passeata já vai se dissolvendo, ali jogados contra as paredes, uns cinco estudantes presos. São os líderes. Populares diriam que da baderna, mas os moços são donos de olhares de coragem. Nem resmungam. Mesmo sob os relampejos dos máquinas de fotografia. Aqui rodopiar dos repórteres. Amanhã, faces em barba de três dias estarão em manchete. Faces que talvez desapareçam para sempre.

Chegam carros. Realmente pretendem arrebatar os meninos. Ali, um mais ansioso, exibe amostras de rebeldia, e leva umas bastonadas. Populares gracejam, eu observo contrariado.

Opa, chega a autoridade. Um coronel? Um delegado? Uma autoridade. Falando grosso, cartas sobre a mesa, sai de baixo. Os repórteres encurralados. A autoridade, carrancudo, mas sempre orgulhoso, aponta os detidos – que não tentam ocultar as faces – classificando os coitados , Omo um bom entomologista, com palavras assim, subversivos, tumultuadores da ordem, comunistas de uma figa...

Penso aqui comigo, eu que não tenho lá muito estudo, eu encolhido na minha vendinha lá no Méier , que esse negócio todo parece em encenação. Os fardados tentando espremer os moços, que exibem esta cara de mártires. Até acho que reconheço um deles – de onde?- um dos mais altivos, mais peito estufado. Ninguém aqui quer dar ares de abatimento. É uma Causa contra a outra. O país está em perigo. Importa a Segurança Nacional. Contra a maré vermelha, os porcos fascistas, as hordas asiáticas, os mariners do grande irmão do norte. Haja perigo!

- Cala a boca, comunista, diz o xerife.

Nas fuças de um estudante que ousa responder. Do lado, um repórter rascunha febrilmente. O rapaz acusa os autoritários, os donos do país,os generais e a gerontocracia (que será?). Nada há de culpa ou remorso. É claro que ele nunca classificaria o evento desta tarde como distúrbio, baderna, caos social, levante comunista. Claro. É pela Causa. E estamos conversados.

E eu já queria era voltar pro Méier, e beber um trago, mas fiquei ali ouvindo o moço que - mesmo levando porrada – insistia em sua luta em favor dos proletários oprimidos, dos menos favorecidos, dos representantes políticos cassados, dos sindicalistas presos, dos seres explorados.

- Já mandei calar a boca, comuna!

Ao meu lado, um senhor, ares respeitosos, ao qual esboço palavras de defesa a respeito dos meninos, ali nas mãos das autoridades. E que naquele meio tempo já arrastavam mais seis. Os carros iriam cheios para a Detenção.

Meio ao cheiro de pólvora, o senhor, de ares respeitosos, sorriu. Falou em truculência, mas ficou nisso. Um repórter queria entrevistar populares, mas os fardados já perdiam a gentileza. Ou a Imprensa sumia, ou haveria um espacinho para ela nos carros.

Ouvindo um ou outro comentário meu, o senhor de ares respeitosos aprova com um inclinar de cabeça. Mas faz sinceros votos de que as autoridades não cheguem a ouvir a minha defesa dos “comunistas”.

- Um pobres meninos, homem! – eu digo.

Acena com a cabeça, só isso, o senhor de ares respeitosos. Aquela cara de funcionário público aposentado, patriarca, defensor da Ordem Pública. Que Ordem?


Vou subindo a ladeira, rumo a minha vendinha no Méier, e grupinhos dispersos da manifestação se arrastam nas penumbras, nas portas dos botecos (os que são corajosos) ou nas portas da igrejas (os que são devotos) ou nos portões de casa (os que são bem domesticados).

Um buzinar sobe da área central, e luzes ensaiam lampejos, logo estão acesas. Para todo lado um ar melancólico, nenhuma risada. Parece dia de Finados. Ah, se parece!

Vou subindo a ladeira. Guardo um receio: terei sido fotografado? Quem era o senhor de ares respeitosos, com o qual, oh como sou imprudente, comentei meus pesares? Em algum momento pronunciei o meu nome?

Subindo o morro acerto o passo com outros que também trazem no olhar a tristeza do êxodo. Não mais o calor da multidão. Não mais a voz do povo, a vos d Deus. Adeus nosso Paris tropical. Uma senhora, arrastando o filho, me pergunta:

- O xenhor é fulano tal e tal?

Confirmo. E penso, como ela sabe?

Então ela me segreda:

- Poix é, extão procurando pelo xenhor.

É certo, xenhora? Onde procuram por mim?

- Lá embaixo. Um homem junto aos carros.

Estou paralisado. Ela me olha com piedade. Serei um subversivo? Ela se afasta, o menininho, que ela conduz, me presenteia com um olhar encabulado. Assustado?

Desisto de subir, as pernas trêmulas, entro numa viela lateral, desço na rua paralela, e logo estou no Departamento.

- Sim, xenhor. O xenhor mexmo? Participando da manifextação?

É um olhar firme e voz sem nuance. Talvez acostumado a monossílabos. Ninguém diz que sou subversivo, ou algo parecido, mas eu devia ficar com a boca fechada. Pois, eis ali um repórter. E , quem mais?, o senhor de ares respeitosos. Com aquele jeito de já estar me esperando. Um delator? Não, seria demais. Nem em gibi, meus camaradas. Nada de interrogatório. O fardado aqui só em monólogos, que os cidadãos decentes não podem compactuar, ou mesmo tolerar, essa doutrina subversiva, coisa de ateus, de hereges, de asiáticos, essa ralé de Moscou, esses caipiras de exportação chinesa, esses agentes da desordem, causadores de distúrbios. Importa é a Segurança Nacional.

Sou convidado a assistir ao civilizado interrogatório, onde os homens são ameaçados de terem suas unhas arrancadas.


Eu deixo claro que vou me retirar. Não apontarei ninguém, e nem defenderei ninguém. O senhor de ares respeitosos não sorri mais, e logo é liberado. Eu pretendo ser igualmente indultado, voltar para a minha vendinha lá no Méier.

- Xeu doutor, nada tenho com esses rapazes. Nada disso de subversão. Xou comerciante, xou homem direito. – penso nas unhas arrancadas. – xou da Ordem, coronel. Pago os meus impoxtos...

Um sorriso de sarcasmo na face rígida do fardado? Uma ameaça velada? Não, nem penso em ter as unhas arrancadas!

- Xou cidadão honrado, coronel, xou homem direito, xeu doutor.

Sinto-me dominado. Querem levar-me para uma salinha suspeita. O suor encharcando minha camisa. Meus documentos de mãos em mãos. Descerei aos porões?

Vejo um brilho de uma arma. Na cintura do fardado. Precisa ser agora. Um golpe bem dado, afinal são dois. O peso em minhas mãos. Ouço os disparos, ecoam no corredor. Estampidos, trovões. Vai se dissipando a fumaça, vejo os corpos. Em minha mão a arma – o cano quente.



Jan/05


Leonardo de Magalhaens

http://leoliteraturaescrita.blogspot.com