segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O GUARDA-ROUPA (conto)

O Guarda-Roupa


Certos fenômenos desafiam até os dias atuais os mais dedicados pesquisadores das ciências naturais ou ocultas, os devotos leitores de estatísticas, os exibicionistas das probabilidades, os acadêmicos mais exaltados, os colecionadores de fatos bizarros, em suma, todos aqueles que querem explicar o mundo (...se é que o mundo tem explicação). Grande mentes, assim, se debruçaram sobre os fenômenos das coincidências, das correlações, das telepatias, das sincronicidades, das simpatias, das rotinas viciadas, dos números repetidos da mega-sena, contudo essas grandes mentes nada anunciaram de definitivo.


É de se pensar se faltaram os dados, ou empenho e dedicação, horas de insônia pra se catalogar e classificar todas as bizarrices nonsenses que habitam nosso planeta.


Certos cidadãos jamais experimentaram certos tipos de fenômeno que inquietam os nossos pesquisadores a ponto de alterarem as rotinas diárias. Devido ao fato de não se encontrarem em situações estranhas muitas pessoas acreditam na normalidade e se sentem inseguras por imaginarem uma vida normal.


Acreditam, os incautos, que ao chegarem no ponto de ônibus encontrarão o ônibus, que ao chegarem ao ponto de táxi encontrarão o táxi, que ao chegarem ao aeroporto encontrarão o voo para a próxima escala, além de esperarem encontrar o vestido dos sonhos ou encontrar a cara-metade nos sites da internet. Vivem de esperanças aguardando o nascer do sol, a ascensão da lua, conferindo o saldo do cartão, jogando na mega-sena, preparando o enxoval de noiva, esperando a promoção para a chefia, fazendo planos para as próximas férias, em suma esperando que suas vidas durem mais de uma semana, que o Juízo Final seja no próximo século. Não sabem se despertarão no dia seguinte, não sabem a data do próximo tsunami ou terremoto fatal. Ou da enchente ou do deslizamento.


A simples saída de casa até a prosaica esquina para comprar um maço de cigarros pode se tornar um enredo de filme de espionagem ou terror urbano. Ser assaltado e sequestrado é tão comum que nem é mais manchete de sensacionalistas... Ser abduzido por ETs talvez mereça alguma menção... Nunca se sabe o que pode acontecer. Mas as pessoas agem como se tudo fosse previsível. Acreditam que o sol vai nascer na manhã seguinte...


Mas quando menos esperam – o mundo revela-se mais bizarro. Do mais simples surge o complexo. Por exemplo. Comprar um eletrodoméstico. Mil e tantos são produzidos por dia, e centenas são vendidos para várias lojas de uma rede atacadista. Vários produtos passam por controles de qualidade, mas em alguns pode acontecer de uma peça ou fiação não ser testada. Pior: pode não funcionar.


E um cidadão vai simplesmente comprar um liquidificador ou lava-louças. Pois bem, ao chegar em casa o aparelho não funciona. Ora, dentre milhares, eis um danificado... e precisava ser o dele?! Ele se acredita vítima de um destino cruel e funesto... mas é apenas uma coincidência. Afinal, alguém teria que comprar algum dos aparelhos danificados.


Mas aí o cidadão desabafa em impropérios, briga com o vendedor, até com o gerente da loja, e pior, destila mau-humor com a esposa, deixa de contar piadinhas pras crianças, perde-se em recriminações, reclama do jantar, sente-se perseguido, resolve trocar de carro.


Culpa dele? Culpa de quem fabricou o aparelho? Culpa de quem não testou o aparelho? Culpa de quem transportou o aparelho? Vá saber. Culpar o destino, o acaso, as Potências superiores, a Providência, o Demônio geralmente é mais fácil. O consolo vem seguramente mais rápido. Sofremos por causa do capricho dos Deuses...


O fato é que J. Lee não pensaria qualquer coisa assim senão fosse o problema com o guarda-roupa. Roupas demais e ele precisava de um guarda-roupa novo. Coisa pra ontem, pra anteontem. Ele passou a transitar pelas ruas do centro, de olho nas lojas de móveis. É que ele resolvera fazer um série de orçamentos. Ficou duas semanas nessa jornada.


Ora o móvel era caro, ora era barato demais (...assim logo suspeito de pouco durável). Demorou duas semanas para encontrar um no preço médio. E descobriu que entregavam dentro de cinco dias úteis. E a montagem? Dentro de outros cinco dias úteis. Mas ali na loja ao lado me disseram que no dia da entrega eles montavam... Ah, mas vá o Sr. confiar, né? O vendedor não confiava muito (talvez nem em si mesmo, dava por perdida a venda). Mas era o preço que pesava na decisão de J. Lee. Assim a compra foi realizada. Para o alivio de ambas as partes. (Alívio?)


Causas mínimas desencadeiam efeitos máximos: não fosse o guarda-roupa e ele ainda seria um cidadão ingênuo. Aquele a espera de alguém para solucionar seus problemas. Não fosse o guarda-roupa, ele não teria decisão, não teria discutido, não teria tomado atitude, e causado tudo o que causou. E como causou.


Justamente no momento da compra o vendedor confirmou que a montagem seria agendada para no máximo cinco dias após a entrega do móvel. Montagem que seria rápida ? Não mais que duas horas para montar o guarda-roupa. Assim J. Lee ficou boquiaberto: montar um guarda-roupa de quatro porta em duas horas... que profissionais...! mas tomara que não sejam os mesmo montadores deste aí de amostra: uma das portas já se soltava...


Era só o começo. Começo de que? Nem J. Lee sabia. Nem sequer pressentia. Algo de imprevisível poderia advir de... Deixa pra lá. Nem ele nem ninguém sabia. O vendedor logo o esqueceu – assim que ele passou o cartão na máquina e recebeu a nota da compra. O vendedor somente o reconheceu uns dez dias depois. É que entregaram mesmo o produto – até antes dos cinco dias úteis – mas ele nada sabia do agendamento da prometida montagem...


O vendedor queria saber qual o problema. Não entregaram o produto? Ah, sim... Então? O modelo estava errado? Não foi aquele que o Sr. escolheu? O que mais precisava? J. Lee olhava do vendedor para o gerente (que já aparecera) e do gerente para o vendedor. Ambos se olhavam. O problema era a montagem do guarda-roupa. Não era pra agendar em cinco dias? Já passou uma semana... Vendedor e gerente se revesavam nos sorrisos amplos e hipócritas.


Para resumir: J. Lee foi levado na conversa e carregou no bolso outra bela promessa. Receberia uma ligação e em dois dias eis o belo guarda-roupa montado... Claro que J. Lee saiu meio arrasado. Brigaria com os funcionários, dinamitaria a loja? Claro que não. Ele é um cidadão pacato, evita a violência. Nem eleva o tom de voz... Também o que adiantaria apontar uma arma para o gerente? Era um cidadão honrado, cumpridor dos deveres, pagava os impostos, atravessava na faixa de pedestres, deixava o assento livre para as senhoras de terceira idade...


Mas pior que implorar é ser ignorado. Fingem que dão atenção, ele sabe (ou antes: ele descobre...). Tudo fingimento. Querem apenas o seu dinheiro, otário! Aí, finalmente, ele percebe que a maioria das soluções para seus problemas vem da ajuda de terceiros... ele precisa do eletricista, do encanador, do gerente, do burocrata da prefeitura... ele mesmo não pode resolver os problemas?


Da última vez que tento consertar a ducha, esta quase explodiu... a pia está vazando até hoje... mas ele tinha tomado uma decisão (até sem consultar a esposa...). Era a seguinte decisão: ele mesmo montaria o tal guarda-roupa.


Falar é fácil... vai fazer então! Disseram que os dois montadores gastariam cerca de duas horas, non è vero? Será mesmo? Ele gastou duas horas só para desembalar os três pacotes de papelão que agasalhavam as tábuas do móvel. Duas horas se passaram e ele se sentou para ouvir um som. Acabou dormindo...


Depois J. Lee passou a gastar pelo menos três valiosas horas do seu curto dia para arrumar o tal guarda-roupa. Olhava as peças, comparava com o desenho esquemático, media os parafusos, discutia com a mulher, Mas desde quando você monta guarda-roupas, homem? Hein? Ele seguia em frente... Será que colocava o casamento em risco? Não chegaria a tanto... Mas que enfiou na caixa craniana a decisão de montar o troço, isso com certeza... A decisão entrou e não saiu mais.


Nem depois de marretar o dedão três vezes, nem depois de esmagar o dedinho do pé com uma das tábuas laterais, nem depois de rachar a unha com uma porta mal encaixada... Três horas num dia, dormia, no outro umas duas horas de manhã, e chegava cansado do escritório, teorizava sobre a divisão do trabalho, ele intelectual podia muito bem montar um guarda-roupa, um montador é que não poderia escrever sobre Shakespeare... E ficava mais duas horas, até os olhos pregarem, e no dia seguinte economizava tempo para encaixar outra gaveta... foi assim durante umas (vamos somar tudo...) umas vinte e três horas...


Depois disso, J. Lee viu-se um novo homem. Decidiu que conserta tudo ele mesmo, chega de intermediários. Chega de divisão de trabalho. Ele poderia ir pra Cuba e ser um intelectual marceneiro. Que tal um economista ser entregador de pizza? Que tal um professor ser varredor de ruas? Eis uma good idea. Ele se converteu. O mundo dividido em departamentos, em celas estanques desfez-se em ruínas. Ele rompeu seu gabinete, derrubou o madeirame e resolveu fazer a instalação do gás no fogão. Até lidar com os botijões ele topava.


E o guarda-roupa? Bem, não era lá grandes coisas, mas ao menos servia para … guardar roupas. Quanto ao J. Lee ele aprendeu a lição. Ele até fez um bom trabalho. Gastou bem as 23 horas. Descobriu que podia fazer. Fez e aprovou. Aquele imenso caixote pra guardar roupas. Nem mais nem menos. Quem diria... o óbvio às vezes é a coisa mais estranha.




22e26/27jan12




Leonardo de Magalhaens


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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

sobre ARRANJOS DE PÁSSAROS E FLORES



sobre a obra ARRANJOS DE PÁSSAROS E FLORES [2002]

[obra reeditada em 2011]

do poeta, ator e editor Wilmar Silva


Plumagens Líricas


'pintassilgo por ti - madona da floresta

gemido de liberdade eu, sempre vadio

difuso, pálpebras no pico da neblina - '


Arranjos florais e emplumados, ornamentando as retinas todas ressentidas na aridez do mesmo, adornos de contemplações e êxtases,versos que vertem imagens de campinas que avançam cerrados e deixam escoar ribeiros.

Continua assim a busca do toque na seiva primeva, alçando um olhar amplo, panfletando, para cada dia, uma foto verbal na visceral linguagem original, pois é certo que, o bardo mesmo o diz, 'guardo no cântaro da palavra, o verbo / de ação que entorpece tico-tico, eu '

Convida ao passeio, 'antes da chuva, no amargor da tarde Súbito / êxtase que enveredo, rumor de asas e pássara', os mesmos campos onde vislumbramos o voo do Anu, de rústico voejar, sobre o corpo estendido da Terra, a disseminar trinados de erotismo que assanha.

O arrepio do sempre fascinar, sentindo a eterna carícia da novidade a suceder-se em ciclos de germinar e brotar, vicejar e maturar, pétalas que se abrem, ramos que se estendem, folhas que caem a deixarem galhos nus.

Insinua-se um EU que voa fendendo o óbvio, 'eu-pássaro, canto por Ti clave e amavio', 'eu, vertical, crispo nuvens de juncos', ainda a comunicar avidez e horizontes, pássaro-semântico-proto-língua, em sílabas esvoaçantes, 'féerico eu, pássaro / preto imito a dança do vento...', pássaro petulante e aprumado nos meandros das falas agrestes.

Assim, 'eu/ cavaleiro, invisível é meu galope / atrás do perfume que exala no breu', nas traquinagens do eu-erradio, 'eu-menino, divido espatifilos por ti', convocando ao salto aquelas almas atadas a padrões e catálogos, normatizadas em gestos maquinais, 'eu / dia-a-dia no exercício de liberdade / e vôo, rasante - ', 'eu, teu avoante sem brida e sem ardil, / cristal, firo as cordas vocais e esqueço - ', o livre fluir da linguagem, 'preparo semântica de verbo lírico, eu / pássaro-preto coloro íris de líris', 'meu corpo nu é meu substantivo', 'meu ideograma é mais do que romper / o ícone situado vias-espinhas-dorsais', a confundir com o verbo coisas, encontra-se 'eu-novilho, perco a noção da palavra / apenas devoro mangas em teu corpo'. Assim, esvanecendo-se Logos, temos Eros ?

É o erotismo livre, sem culpas e desgastes outros, que goteja destes trinados, 'e bico não apenas teu peito de paetê / , cítrico é meu desejo, azedo sou eu', 'é teu corpo abandonado no meandro / de falésias em guelras que me trissa - ', e insiste, 'erudir através de teu erval, violáceas / que arrebentam à beira dos lábios - ', até violento, 'sim, te violo e te tálamo, zoológico-me', mas com ternura, 'lavo teu corpo com a própria lima e / enxugo o suor de virilha à língua', e sutileza, 'aqui, desnudo, cavalo, eu : teu-marruá / longe, eu te afago e agora te-afogo / hímen a-dentro antes da madrugada', e confessa, sem pudores, assim, 'eu teu herdeiro da volúpia, vértice sol / devasso é o mundo de nuvens'.

Ama o pássaro a liberdade, o voejar-além, o erguer-se nas aragens-redemoinhos, com a Natureza mesclar-se, sendo 'afluente- eu, riacho alcanço o cerrado', 'resisto através do rodopio dos eixos','eu-lobo insone entre amapola t cervo', 'sem avena e avenca no lusco-fusco', e assim um-com-o-Todo, 'eu-espelho d'água, narciso e orfeu / flautas e flores, eu-pássaro cais e flora', ei-lo aqui o resfolegar dos quatro elementos !

Mas há todo um amor a verter-se, um amor dedicado ao seio da Terra, fértil e entregue. A presença da Terra enquanto símbolo da fertilidade, a Mãe-Terra, matrona, madona e a amante, as três faces da Deusa, seja Geia, Gaia, Ceres. A Terra-fêmea, doadora da Vida, ventre-matriz reprodutora,vejamos, eis, 'dispo veludo de Ceres, êxtase no campo', e 'cultivo o possível / gosto de encontro aos lábios de ceres', e dedicação, 'separo sementes para o almoço de ceres', e lembrança, 'caniço / e perdas que estilhaço no convés / da memória, eu frutífero, arpo ceres', para esclarecer, 'é meu desejo por ti que eu chamo Ceres,' e o beijo nas entranhas da Terra, não túmulo, mas Útero.

E festeja o gozo, 'eu, de sede te sedo / foz de orgasmo no festim floral', 'eu framboso por ti /, cio ávido, azul~ao de orgasmo bravio' e tal nas danças de solstícios e equinócios, 'outono-inverno, abóbada e elevado / calor, altitude beira-margem, rio / paranaíba, sabre eu-pan, flautins', sob as estrelas, 'invólucro de plêiades, do ventre estelar/ de omega ou zega', 'de ornato e letra sinal das três marias / margeia tua pele de brilhantes e íris', selando, 'eu / agora impávido e celeste, anjo de fogo'.

É assim que Wilmar Silva nos convida, 'eu-menino-do-campo, te faço conviva / e digo que a palavra que escrevo é / origem, invento gaivotas no sertão' e espera companheiros de voos, comensais das seivas dos deuses e dríades, ele mesmo a sussurrar que na poesia continua 'encantado no meio da floresta - / trinados que estarreço de medo e fuga / sim, é fuga o que move os meus pés / eu / quase bicho do mato, viro veneno' e inocula neófitos com a embriaguez das palavras.

dez/2005

revsd : jan/2012

by

Leonardo de Magalhaens

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sábado, 21 de janeiro de 2012

Poeta-Embaixadora da Paz plagia despudoradamente o Pão e Poesia









Poeta-Embaixadora da Paz plagia despudoradamente o Pão e Poesia




Quando o empreendedor e poeta Diovani Mendonça começou, em idos de 2007, a regar e adubar sua “Árvore dos Poemas” e concretizar e divulgar seu “Pão e Poesia – em qualquer esquina, em qualquer padaria”, ele não poderia imaginar o quão frondosa ficaria esta Árvore com seus frutos e nem o sucesso das embalagens de pão (ecologicamente corretas e fartas em versos) para mitigar a fome de boa cultura.

Acontece que a Árvore cresceu mesmo, além de seus frutos-poemas, virou selo editorial, lançou livros e o “Pão e Poesia” transcendeu fronteiras. A ideia ganhou as ruas e se disseminou pelas padarias e escolas.

O poeta Diovani Mendonça tem levado o projeto desde 2008 para várias escolas da região metropolitana de Belo Horizonte, onde os estudantes participam de oficinas de poesia e se envolvem nas criações poéticas, tendo seus versos selecionados e publicados nas embalagens que são doadas às padarias no entorno das escolas participantes. O “Pão e Poesia na Escola”, é um desdobramento do “Pão e Poesia – em qualquer esquina, em qualquer padaria”. Em 2011 a iniciativa foi executada em 10 escolas na região do Barreiro (BH) e a partir de março de 2012, serão mais 10 instituições atendidas na cidade de Brumadinho (MG).


Agora surgem os aproveitadores para colher os frutos nos galhos, afoitos em pegar o bonde andando, bons vaidosos que são, vaidosos que se utilizam da poesia como um trampolim, os ditos poetas sem ideias e que quando pensam (o que pensam?) pensam em academias de letras, ou renomes, ou honrarias, ou placas gravadas com seus sublimes nomes, ou homenagens de prefeituras, ou títulos efêmeros.

São assim colecionadores de medalhas, de cargos, de honrarias, e, quando não, eles pouco hesitam em se autoproclamarem embaixadores, presidentes, executores, representantes, que nada criam além de plágio.

Os promotores da paz que apenas promovem o próprio nome, os embaixadores que representam apenas a si mesmos. Bons plagiadores que apenas comprovam o dito cínico que 'nada se cria, nada se perde, tudo se copia', que tudo assim passa de mão em mão, de acordo com a sacrossanta ambição.

Alguns bons cínicos realmente não hesitam em se dizerem inventores da roda ou construtores do primeiro aeroplano ou criadores do universo, são os donos da Paz, os mantenedores da Vida, são os eleitos da Divindade.

Acontece que um belo dia a máscara cai e a face real – cínica, hipócrita, mesquinha – é desvelada a quem tem olhos para ver. Sob a pele de ovelha a carranca do lobo, sob a oferta de paz a arma da ambição. Atuam como bons políticos na arte de manipular 'corações mentes', a seduzir sutilmente, a contagiar astutamente – de súbito, o bote fatal. A serpente pronta para sufocar a vítima.

Paz, prosperidade, fraternidade são apenas palavras, apenas discursos pomposos, se não forem acompanhados de ações. E quando ações são movidas apenas por vaidade – por vã vaidade – nada será colhido além de discórdia, miséria e hostilidade.

Não adianta sorrisos de maquilagem, ou abraços fraternos, ou 'paz e amor' de gente que pouco esconde a bazófia, a arrogância e o egocentrismo – não se pode negar o óbvio, não se pode mentir sempre.


Assim quando Diovani Mendonça criou, viabilizou, concretizou, divulgou, construiu uma história, ganhou dois reconhecimentos do Ministério da Cultura de seu país, ele não podia prever os interesses pseudoliterários de uma certa Sra. Delasnieve Daspet (que também plagiou a Árvore dos Poemas, outra criação do poeta), nome pernóstico que esconde uma alma ambiciosa e vaidosa, com auréola da pacifista e altruísta – ó vã vaidade! - que se apropriou das ideias (formato, marca, eventos!) a ponto de se dizer criadora, idealizadora, empreendedora da Árvore dos Poemas e do Pão e Poesia.

A pessoa se contradiz, ora diz que se inspirou em X ora que se inspirou em antes de X, mas usa literalmente imagens e textos dos projetos de Diovani Mendonça. As mesmas ideias e argumentações...! o que impressiona é a trama de contradições, de inverdades, de cinismo, de interesses, de campanha na mídia, e 'bola pra frente', continuam as mentiras.

Assim a verdade há de reluzir, ó autoproclamada presidente! Ó auto-exaltada embaixadora! Ó autonomeada executora! Ó colecionadora de títulos que ousa versos e se autointitula poeta! Ó vaidosa que se apropria de ideias e se diz criadora! Ó promotora da paz que colhe litígios! Ó guru dos poetas de rebanho!

Tanto cinismo é a prova da vaidade que pensa poder enganar a todos o tempo todo, que pode roubar ideias sem correr o risco do desengano! Que na mediocridade não cria o novo mas deixa-se banhar em glória alheia, mirar-se no reflexo do sucesso alheio!

Que a máscara do cinismo saiba guardar os 'abraços fraternos' e o 'paz e amor' para seus adoradores e cúmplices, seus fãs e lacaios, mesquinhos ou de 'alma pequena' , que engolem as promessas de paz da louvada embaixadora, presidente, executora, empreendedora, representante, catedrática da vã vaidade dos pseudoliteratos que não servem à Literatura, mas se servem da Literatura para seus interesses de ambições hipocritamente ocultadas.


20jan12

Leonardo de Magalhaens

poeta e pensador
(sob responsabilidade do autor)

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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

outra cidade de AS CIDADES INVISÍVEIS de Italo Calvino...




As Cidades Invisíveis

Le Città Invisibili



Italo Calvino



trad. Livre – LdeM




As cidades e os sinais . 3



O homem que viaja e não conhece ainda a cidade que o espera ao longo da estrada, se pergunta como será o palácio real, a caserna, o moinho, o teatro, o mercado. Em toda cidade do império todo edifício é diferente e disposto numa ordem diversa: mas apenas o forasteiro chega à cidade desconhecida e lança o olhar em meio aquela pinha de pagode e sótãos e telhados de feno, seguindo o traçado de canais hortos monturos, de repente distingue quais são os palácios dos príncipes, quais os templos dos grandes sacerdotes, a pousada, a prisão, o bairro boêmio. Assim – disse alguém – se confirma a hipótese de que todo homem carrega na mente uma cidade feita somente de diferenças, uma cidade sem figura e sem forma, e as cidades particulares a preenchem.


Não é assim em Zoe. Em todo lugar desta cidade se poderia vez a outra dormir, fabricar ferramentas, cozinhar, acumular moedas de ouro, despir-se, reinar, vender, interrogar oráculos. Qualquer teto em pirâmide poderia cobrir tanto o lazareto dos leprosos quanto as termas das odaliscas. O viajante gira e gira e não há o que duvidar: não conseguindo distinguir os pontos da cidade, também os pontos que ele tem distinto na mente se misturam. Lá se infere isto: se a existência em todos os seus momentos é toda si mesma, a cidade de Zoe é o lugar da existência indivisível. Mas por que agora a cidade? Qual linha separa o dentro do fora, o estrondo das rodas do uivo dos lobos?” (trad. LdeM)




Italo Calvino





para ouvir sobre outras cidades invisíveis ...


http://www.youtube.com/watch?v=Bjwlg91dDwY&feature=related


http://www.youtube.com/watch?v=p8O07rFCpuE&feature=related



LdeM

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

DESORDEM SOCIAL - conto



DESORDEM SOCIAL


De repente, eu pensei estar envolvido nas multidões de Paris. Aquela turba de estudantes barbudos, intelectuais, em palavras de ordem, passo firme na passeata. Um retrato, onde o Presidente exibia óculos exagerados, se contorcia em chamas.

A faculdade se esvaziara nas ruas. O ódio borbulhava das salas de aula, desde a morte do estudante, lá no Calabouço. Também um Presidente de pouca conversa, A. I. pra cá, A . I. pra lá. Dava nisso mesmo. Eu, que nem sou estudante, entendo isso.

A gente do mercado engrossa a passeata. Daqui a pouco vira bagunça. E eu que preciso voltar a minha vendinha lá no Méier. Os guardas só olham, só olham,. Daqui a pouco, eu já disse.

Um vendedor de água de coco está rodeado de estudantes de cara fechada. Vende muito, para aqueles que a garganta seca de tanto protesto. Vejo uma mocinhas também, até fumando, as meninas. Éta, juventude! Mas e eu, que preciso ir pro Méier, e fico aqui de curioso que sou?

Quando a massa humana invade as ruas dos cinemas, capacetes devolvem um sol com tons sinistros. Cacetes sopesados nas mãos rudes. É uma tropa de choque. Vai haver barulho. Eu bem que disse.

A passeata já vai se dissolvendo, ali jogados contra as paredes, uns cinco estudantes presos. São os líderes. Populares diriam que da baderna, mas os moços são donos de olhares de coragem. Nem resmungam. Mesmo sob os relampejos dos máquinas de fotografia. Aqui rodopiar dos repórteres. Amanhã, faces em barba de três dias estarão em manchete. Faces que talvez desapareçam para sempre.

Chegam carros. Realmente pretendem arrebatar os meninos. Ali, um mais ansioso, exibe amostras de rebeldia, e leva umas bastonadas. Populares gracejam, eu observo contrariado.

Opa, chega a autoridade. Um coronel? Um delegado? Uma autoridade. Falando grosso, cartas sobre a mesa, sai de baixo. Os repórteres encurralados. A autoridade, carrancudo, mas sempre orgulhoso, aponta os detidos – que não tentam ocultar as faces – classificando os coitados , Omo um bom entomologista, com palavras assim, subversivos, tumultuadores da ordem, comunistas de uma figa...

Penso aqui comigo, eu que não tenho lá muito estudo, eu encolhido na minha vendinha lá no Méier , que esse negócio todo parece em encenação. Os fardados tentando espremer os moços, que exibem esta cara de mártires. Até acho que reconheço um deles – de onde?- um dos mais altivos, mais peito estufado. Ninguém aqui quer dar ares de abatimento. É uma Causa contra a outra. O país está em perigo. Importa a Segurança Nacional. Contra a maré vermelha, os porcos fascistas, as hordas asiáticas, os mariners do grande irmão do norte. Haja perigo!

- Cala a boca, comunista, diz o xerife.

Nas fuças de um estudante que ousa responder. Do lado, um repórter rascunha febrilmente. O rapaz acusa os autoritários, os donos do país,os generais e a gerontocracia (que será?). Nada há de culpa ou remorso. É claro que ele nunca classificaria o evento desta tarde como distúrbio, baderna, caos social, levante comunista. Claro. É pela Causa. E estamos conversados.

E eu já queria era voltar pro Méier, e beber um trago, mas fiquei ali ouvindo o moço que - mesmo levando porrada – insistia em sua luta em favor dos proletários oprimidos, dos menos favorecidos, dos representantes políticos cassados, dos sindicalistas presos, dos seres explorados.

- Já mandei calar a boca, comuna!

Ao meu lado, um senhor, ares respeitosos, ao qual esboço palavras de defesa a respeito dos meninos, ali nas mãos das autoridades. E que naquele meio tempo já arrastavam mais seis. Os carros iriam cheios para a Detenção.

Meio ao cheiro de pólvora, o senhor, de ares respeitosos, sorriu. Falou em truculência, mas ficou nisso. Um repórter queria entrevistar populares, mas os fardados já perdiam a gentileza. Ou a Imprensa sumia, ou haveria um espacinho para ela nos carros.

Ouvindo um ou outro comentário meu, o senhor de ares respeitosos aprova com um inclinar de cabeça. Mas faz sinceros votos de que as autoridades não cheguem a ouvir a minha defesa dos “comunistas”.

- Um pobres meninos, homem! – eu digo.

Acena com a cabeça, só isso, o senhor de ares respeitosos. Aquela cara de funcionário público aposentado, patriarca, defensor da Ordem Pública. Que Ordem?


Vou subindo a ladeira, rumo a minha vendinha no Méier, e grupinhos dispersos da manifestação se arrastam nas penumbras, nas portas dos botecos (os que são corajosos) ou nas portas da igrejas (os que são devotos) ou nos portões de casa (os que são bem domesticados).

Um buzinar sobe da área central, e luzes ensaiam lampejos, logo estão acesas. Para todo lado um ar melancólico, nenhuma risada. Parece dia de Finados. Ah, se parece!

Vou subindo a ladeira. Guardo um receio: terei sido fotografado? Quem era o senhor de ares respeitosos, com o qual, oh como sou imprudente, comentei meus pesares? Em algum momento pronunciei o meu nome?

Subindo o morro acerto o passo com outros que também trazem no olhar a tristeza do êxodo. Não mais o calor da multidão. Não mais a voz do povo, a vos d Deus. Adeus nosso Paris tropical. Uma senhora, arrastando o filho, me pergunta:

- O xenhor é fulano tal e tal?

Confirmo. E penso, como ela sabe?

Então ela me segreda:

- Poix é, extão procurando pelo xenhor.

É certo, xenhora? Onde procuram por mim?

- Lá embaixo. Um homem junto aos carros.

Estou paralisado. Ela me olha com piedade. Serei um subversivo? Ela se afasta, o menininho, que ela conduz, me presenteia com um olhar encabulado. Assustado?

Desisto de subir, as pernas trêmulas, entro numa viela lateral, desço na rua paralela, e logo estou no Departamento.

- Sim, xenhor. O xenhor mexmo? Participando da manifextação?

É um olhar firme e voz sem nuance. Talvez acostumado a monossílabos. Ninguém diz que sou subversivo, ou algo parecido, mas eu devia ficar com a boca fechada. Pois, eis ali um repórter. E , quem mais?, o senhor de ares respeitosos. Com aquele jeito de já estar me esperando. Um delator? Não, seria demais. Nem em gibi, meus camaradas. Nada de interrogatório. O fardado aqui só em monólogos, que os cidadãos decentes não podem compactuar, ou mesmo tolerar, essa doutrina subversiva, coisa de ateus, de hereges, de asiáticos, essa ralé de Moscou, esses caipiras de exportação chinesa, esses agentes da desordem, causadores de distúrbios. Importa é a Segurança Nacional.

Sou convidado a assistir ao civilizado interrogatório, onde os homens são ameaçados de terem suas unhas arrancadas.


Eu deixo claro que vou me retirar. Não apontarei ninguém, e nem defenderei ninguém. O senhor de ares respeitosos não sorri mais, e logo é liberado. Eu pretendo ser igualmente indultado, voltar para a minha vendinha lá no Méier.

- Xeu doutor, nada tenho com esses rapazes. Nada disso de subversão. Xou comerciante, xou homem direito. – penso nas unhas arrancadas. – xou da Ordem, coronel. Pago os meus impoxtos...

Um sorriso de sarcasmo na face rígida do fardado? Uma ameaça velada? Não, nem penso em ter as unhas arrancadas!

- Xou cidadão honrado, coronel, xou homem direito, xeu doutor.

Sinto-me dominado. Querem levar-me para uma salinha suspeita. O suor encharcando minha camisa. Meus documentos de mãos em mãos. Descerei aos porões?

Vejo um brilho de uma arma. Na cintura do fardado. Precisa ser agora. Um golpe bem dado, afinal são dois. O peso em minhas mãos. Ouço os disparos, ecoam no corredor. Estampidos, trovões. Vai se dissipando a fumaça, vejo os corpos. Em minha mão a arma – o cano quente.



Jan/05


Leonardo de Magalhaens

http://leoliteraturaescrita.blogspot.com



sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

"A Terra não vale a pena" - poluir. poluir tudo...









A Terra não vale a pena


conto de Edward Wellen



“Poluir. Poluir tudo.
Tornar o ar pestilencial.
Fazer a vida impossível de ser vivida.”



“Sentado à mesa de conferência, o delegado americano percebeu um pequeno fiapo na perna de sua calça. Apanhou-o com a ponta dos dedos e colocou-o cuidadosamente no cinzeiro. Entre os que observaram esse gesto banal, a delegada soviética foi a única a sorrir. Enquanto isso o delgado israelense, do Subcomitê para o Controle da Poluição, que faz parte do Comitê de Ecologia da UNESCO, criticava violentamente o uso abusivo dos inseticidas à base de cloro.

“Esses produtos não se decompõem imediatamente. Permanecem durante anos na atmosfera, na água, fixando-se nos tecidos dos peixes, pássaros e outros animais, inclusive no homem, enquanto que, ironicamente, os animais nocivos a que se destinam adquirem resistência a eles. Da mesma forma a utilização superabundante de adubos químicos azotados modifica o ciclo natural do azoto, poluindo rios, lagos e poços. Em vez de alterar assim criminosamente o nosso meio, devemos nos empenhar a todo custo na utilização dos recursos de que dispomos. Por exemplo, o problema da irrigação. Em Israel encontramos o meio de conservar a água e reduzir a irrigação em 20%, enquanto o rendimento das colheitas aumentava em 60%.”

Barry Killebrew, o delgado americano, encontrou o olhar da delegada soviética, ergueu uma sobrancelha e esmagou metodicamente a ponta do cigarro. Nadezhda Detzach Veachab respondeu com um ligeiro aceno de cabeça aprovativo e rabiscou algumas palavras, passando-as ao delegado búlgaro.


Este, depois de ler o bilhete, pediu a palavra para uma questão de ordem.

“Não podemos tolerar de forma alguma que a propaganda dos imperialistas sionistas nos desvie do assunto em discussão, ou seja, o documento 7/15, relatório preliminar sobre a conveniência de se fazer uma pesquisa para determinar o método a ser empregado no estudo do problema da poluição.”

O delegado indiano, que presidia a sessão retirou a palavra ao israelense, para passá-la ao orador seguinte. A reunião prosseguia, monótona. Animou-se apenas quando o americano e a soviética leram cada qual um texto enérgico sobre a necessidade de não se alterar o equilíbrio natural dos ciclos biológicos. A seguir, foi encerada a sessão. Os dois delegados receberam sorridentes os cumprimentos de seus colegas.

Esperaram que todos desaparecessem nos elevadores. Entreolharam-se e só então se levantaram. Percorreram um corredor deserto até uma porta que só se distinguia das demais por ter suas fechaduras, cada um introduziu a sua chave. A porta se abriu para uma pequena sala, contendo duas cadeiras, uma mesa e um telefone.

Barry trancou a porta. A tarde mal começara, mas uma névoa espessa, enfumaçada, embaciava a janela. Nadezhda acendeu a luz. Antes de sentar-se cada um apertou um botão especial em seu relógio, para se assegurar de que ninguém os ouviria. Satisfeitos, abriram suas pastas, retirando de um compartimento secreto várias folhas de papel cobertas de cifras.

-Vamos trabalhar?

Barry aquiesceu.

-Nós dois obtivemos excelentes resultados. A temperatura média da Terra diminuiu meio grau desde 1950 e o limite da zona fria avançou cerca de 150 quilômetros para o sul.

Sua voz tornou-se mais incisiva.

-Mas, em relação ao trabalho, meu país fez mais que sua parte. O lago Erié transformou-se num esgoto, o lago Michigan, numa fossa putrefata e o lago Tahoe está quase nas mesmas condições – disse ele com orgulho. - E o que me diz do pântano da Flórida e da destruição do equilíbrio ecológico no Vietnã?

Ela estremeceu, mas sua voz soou tão firme quanto a de Barry.

-O lago Baikal é uma cloaca, graças às nossas usinas de papel. O volume de fumaça nas cidades é vinte vezes maior que o de 1950. Um zelo excessivo na drenagem dos pântanos da Bielo-Rússia fez baixar radicalmente o nível da água, transformando-os numa imensa bacia de areia. Que mais poderíamos ter feito?

-Nadya, eu compreendo suas dificuldades, mas é imprescindível que vocês produzam mais bens de consumo. Vocês estão longe de se equiparar conosco no campo dos detergentes, quantidades imensas de fósforo passam por nosso esgotos para estimular o crescimento das algas e obstruir rios e lagos. São algas viscosas e fétidas, tão perigosas que corroem a pintura das casas e dos automóveis. Nadya, há uma grande defasagem entre nós no campo dos detritos.

-Era sobre isso que queria lhe falar.

-Perfeito, mas antes de prosseguir eu devo telefonar.

-À vontade!



Ele puxou o telefone e retirou vários objetos de sua pasta. Encaixou no fone um aparelhinho especial, que tornava a ligação inaudível para terceiros. Depois discou diretamente para o chefe do Serviço Secreto do Ministério das Defesa Nacional dos EUA.

-Killebrew falando. Vocês confirmam as últimas observações soviéticas?

Ouviu a resposta, pediu a seu interlocutor para repetir e colocou o fone no ouvido de Nadya. Ela escutou uma voz grave que dizia: 'Sim, os russos os viram primeiro, mas nosso sistema de detecção é melhor que o deles. Surpreendemos o disco, quando passava próximo a Marte e seguimos sua trajetória. Parece ser o mesmo tipo de aparelho de reconhecimento da sua última visita'. Barry desligou, retirou o aparelho, recolocando-o na pasta.


-Bem, Nadya, vamos prosseguir. Eu começo. Assinalou várias indicações em sua lista.

-Na próxima semana um petroleiro gigante vai sofrer uma avaria ao largo da Flórida. O lençol de petróleo cobrirá mais de duzentos quilômetros de praias. Imagine a reação das pessoas. Contrariadas e agressivas. Não compreendem.

Ela ergueu os ombros.

-O capitalismo tem o mesmo efeito.

-Tínhamos combinado deixar de lado toda ideologia.

-Desculpe, Barry. Foi apenas uma piadinha.

Ele a encarou atônito. Nunca lhe passou pela cabeça que ela pudesse ter senso de humor. Ela enrubesceu com seu olhar. Ele também se sentiu enrubescer e se apressou em voltar à sua lista.


-Sou eu que lhe devo desculpas. Agora, a poluição das águas. Seis usinas atômicas estão sendo construídas no canal de Long Island.

Ele a olhou nos olhos – azul-claros.

-É sua vez. Se for possível, eu gostaria de ter dados precisos. Atualmente nossas auto-estradas provocam uma perda de 1,5 trilhão de litros de água por ano e nós pretendemos chegar a 5,3 trilhões de litros. Que quantidade de água potável seu país tem intenção de desperdiçar? Cada ano lançamos na atmosfera 44 milhões de toneladas de bióxido de enxofre, 106 milhões de monóxido de carbono, 27 milhões de hidrocarbonetos, 17 milhões de óxidos azotados, 21 milhões de poeira, de fumaça de carvão e de fuligem. Que quantidade de SO2 e de CO, de hidrocarbonetos, óxidos azotados, etc. Seu país produz?

-Você quer saber?

Ela começou a enumerar cifras. Ele ouvia atentamente. A construção de barragem e a do canal ao nível do mar o impressionaram, mas ele se esforçou em não demonstrá-lo. Finalmente apoiou-se no espaldar da cadeira.

-Perfeito. Isso deve bastar, no momento. Ela parecia duvidar. De repente seus olhos se encheram de lágrimas. Barry teve impressão de que isso não se devia apenas à fumaça que penetrava na sala, apesar do condicionamento do ar. Eles de levantaram e permaneceram de pé, pouco à vontade.

-Você nunca se perguntou se não é exatamente isso o que ele s querem, que nós morramos sufocados por nossos próprios detritos?

-Somos obrigados a nos ater à nossa primeira suposição. Esperamos ser capazes de inverter o processo, quando eles partirem definitivamente.


O silêncio se instalou entre os dois. Inconscientemente eles se aproximaram um do outro, como se de repente sentissem necessidade de calor, como para preencher o silêncio. Eles contemplaram o céu enfumaçado. Talvez os especialistas da Ação Psicológica dos dois campos tivessem razão. Depois de muitos anos os estranhos – quem quer que fossem – desistissem de tentar invadir a Terra.

Mas o que teria acontecido se os observadores não imaginassem que o melhor meio de defesa de um planeta contra a invasão seria exatamente fazer dele algo que não vale a pensa invadir?





fonte: revista PLANETA - jan/1973












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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

sobre "Capitães da Areia" - de Jorge Amado




Sobre “Capitães da Areia” (1937)

do autor Jorge Amado (1912-2001)



A Infância sem infância



Introdução



Em obras anteriores encontramos as crianças em situações de risco – social ou físico – em momentos que poderiam ser fatídicos. Ora lutam contra as condições familiares ora contra as condições de uma escravatura. Ora são vítimas da miséria que acompanha a exploração. Ora lutam por um pedaço de terreno, ora foge de casa em busca de liberdade.


Em todas estas situações há uma revolta juvenil contra as condições. Para o bem ou para o mal, as crianças buscam um lugar delas no mundo – com rebeldia ou desejo de independência – ânimos mais inflamados nos jovens (como veremos nos ensaios próximos).


Quando observamos os meninos da Rua Paulo, na obra do húngaro Mólnar, percebemos o quanto há de realismo na obra, o quanto há de 'a vida como ela é', sem muita idealização (ainda que tenhamos caricaturas e personagens meramente figurativas), ma situações que parecem ter saído diretamente da biografia do Autor.


Também este realismo, ao observar as crianças, está presente na obra “Capitães da Areia” do autor baiano Jorge Amado. O narrador tudo sabe e tudo vê – é uma testemunha do sofrimento das crianças em condições adversas, meio à humilhação, à violência e à miséria. Sendo testemunha, ele se manifesta – explicito ou implicitamente – favorável a um dos lados. Nestas obras, a criança é o protagonista. Os adultos são antagonistas, são figurantes, ou pouco aparecem. É como se fosse um reino das crianças.


É difícil avaliar em que nível uma criança entenderia o que se diz sobre ela. Uma criança de dez anos seria capaz de ler “Aventuras de Huckleberry Finn”? Uma menina de doze anos poderia ler “Menino de Engenho”? Qual idade para se começar a entender “Capitães da Areia”? Um menino de rua o compreenderia? Antes, o poderia ler? Não, não seria. Uma criança alfabetizada, escolarizada, já teria dificuldades.


Estas obras sobre crianças são para adultos, não para crianças. São adultos que se lembram dos dias de crianças. É um olhar de adulto sobre o mundo infantil. Crianças não se observam – crianças vivem em espontaneidade. Depois quando se é adulto se rememora, se teoriza sobre 'o ser criança'. A criança na ficção, por mais realismo que tenhamos, é ainda isso: uma ficção.




Capitães da Areia



Personagens


Sob a lua, num velho trapiche abandonado, as crianças dormem.”



Os chamados Capitães da Areia são crianças que lutam para sobreviver, mais ou menos umas quarenta e que se abrigam num trapiche, abandonado na beira da praia. Temos uma galeria de personagens um tanto ampla, alguns são caricaturais, mas outros se destacam, ou recebem uma maior atenção do narrador. Digamos que se desenvolvem psicologicamente durante a narrativa.


Comecemos pelo chefe dos Capitães da Areia . É chamado de Pedro Bala, pardo, uns 15 anos, e desde os 5 anos vagabundeia pelas ruas, aos 4 anos, Pedro expulsara o antigo chefe Raimundo Cabloco. Da luta sobrou-lhe uma cicatriz de corte de navalha no rosto.


Todos reconheceram os direitos de Pedro Bala à chefia, e foi desta época que a cidade começou a ouvir falar nos Capitães da Areia, crianças abandonadas que viviam do furto.” p. 21


João Grande, um negro, de uns 13 anos, vive há 4 anos nas ruas, é um que impõe respeito, posto que 'bom de briga'. Temos também o João José, chamado de “Professor”, um menino franzino, magro, míope, triste, que gosta de ler, ali à luz de velas, e por isso rouba livros, e gosta de contar estórias para os demais.


Há também o “Sem-Pernas”, de uns 13 anos, um menino coxo, mas meio expansivo, que nutre muito rancor, Seu coração estava cheio de ódio.” (p. 31) que não troca a rua por um lar, ainda que quase adotado num momento ou outro, mas percebe o quanto as crianças são carentes, pois Sem-Pernas pensa: “a alegria daquela liberdade era pouca para a desgraça daquela vida” (p. 39)


O “Pirulito”, cujo nome é Antônio, é um menino magro, alto, de cara seca, olhos encovados, pouco risonho, antes violento e cruel, mas que descobre suas inclinações religiosas, a ponto de ter confiança num padre mais progressista, preocupado com a miséria, e não apenas com os rituais vazios da Igreja. Em contraponto, mais materialista e vaidoso que o “Gato” não há. De porte elegante, com seus 14 anos, usa até sapatos. Deixa bem claro que não é 'maricas', que tem uma amante, que sua vaidade é a de uma 'elegância malandra'.


Mas Gato consegue atrair a atenção de um “mulato troncudo e feio”, baixo e acachapado, de uns 13 anos, o “Boa-Vida”, que acha o Gato muito bonito, e tenta seduzi-lo. No mais, não rouba muito, é uma espécie de “parasita do grupo”. O 'sonho' de Boa-Vida é crescer malandro, viola debaixo do braço e navalha afiada no bolso.


Volta Seca, um mulato sertanejo, fã de Lampião e dos cangaceiros. Aos 16 anos finalmente foge para se juntar aos bandoleiros de Lampião. O negro Barandão será indicado como chefe do grupo, pelo próprio Pedro Bala, quando o rapaz vira um grevista, ou 'militante proletário', seguindo o destino do pai. Outro é o Almiro, de uns 12 anos, gordo e preguiçoso, morre de varíola.


E, finalmente, Dora, menina de 14 anos, órfã de pai e mãe, mortos de varíola, vem morar uns meses no trapiche, vira uma espécie de mãe dos menorzinhos. Depois é presa e levada ao orfanato, adoece com febre, e é resgatada pelos Capitães. Depois morre nos braços de Pedro Bala.


São diferentes, e de diferentes destinos, mas unidos na miséria compartilhada. Diferentes 'vocações' imersas nas mesmas condições de falta de oportunidades.


Todos procuravam um carinho, qualquer coisa fora daquela vida: o Professor os livros, o Gato a cama de uma mulher, Pirulito a oração, Barandão e Almiro no amor na areia.” (p. 39)



Enredo



Desde o início o leitor tem acesso a uma série de notícias sobre a vida e agruras das crianças que perambulam pelas ruas, crianças abandonadas ou fugitivas de lares desfeitos. Cada uma com um histórico de sofrimentos e crueldades, ou abandono, ou mal-tratos.


Temos notícias de jornais sobre os feitos das 'crianças ladronas', os capitães de areia, editais, cartas de leitores, autoridades. A imprensa burguesa exige repressão – e não reeducação - para as vítimas da desigualdade social.


Enquanto autoridades discutem o problema com retórica e mil promessas, as crianças continuam abandonadas junto ao cais, em plena miséria, na qual sobrevivem de várias formas, principalmente através da mendicância e do roubo. Ou do jogo desonesto.


Nunca ninguém soube o número exato de meninos que assim viviam. Eram bem uns cem e destes mais de quarenta dormiam nas ruínas do velho trapiche.


Vestidos de farrapos, sujos, semi-esfomeados, agressivos, soltando palavrões e fumando pontas de cigarro, eram, em verdade, os donos da cidade, os que conheciam totalmente,os que totalmente a amavam, os seus poetas.” p. 21



De onde vinham as crianças? Quem era responsável por elas? Aliás, quantas crianças? Nem o narrador sabe. “Ali estavam mais ou menos cinquenta crianças, sem pai, sem mãe, sem mestre, tinham de si apenas a liberdade de correr as ruas.” (p. 38)


Organizado, de certa forma, por Pedro Bala, o grupo vive tal qual uma 'comuna', a dividir todos os ganhos e roubos, com uma série de regras de convivência. Assim como encontramos nos grupos de meninos em “Meninos da Rua Paulo”, do húngaro F. Mólnar (link abaixo), cada turma se organiza em regras e em contraposição a uma outra turma. Quanto às regras, entre os Capitães, uma das principais é : proibido roubar os outros do grupo. Outra importante é: os pederastas passivos devem ser expulsos. E assim mais outras, pois mesmo na marginalidade um grupo social não se mantém sem regras. E s crianças devem seguir as 'regras' para se manterem no grupo – pois sabem que viver sem o grupo é muito mais difícil.


mais sobre "Meninos da Rua Paulo" de Mólnar

http://meucanoneocidental.blogspot.com/2011/11/sobre-os-meninos-da-rua-paulo-de-ferenc.html


Algumas personalidades marcam. O menino João José, o Professor, é até intelectualizado, gosta de livros, das histórias, gosta de desenhar, vez ou outra pensar sobre a vida, enquanto lê as brochuras e encadernações que rouba por aí,


Lia-os todos numa ânsia que era quase febre. Gostava de saber coisas e era ele quem, muitas noites, contava aos outros histórias de aventureiros, de homens do mar, de personagens heroicos e lendários, histórias que faziam aqueles olhos vivos se espicharem para o mar ou para as misteriosas ladeiras da cidade, numa ânsia de aventuras e de heroísmo.” p. 24


Também quem pensa muito na vida, mas por um outro prisma que não o literário, é o menino Sem-Pernas, cheio de sarcasmo, ódio e desespero, tendo sido logo cedo espancado por policiais. O menino amargurado até gostaria de ser aceito pelas pessoas, mas só consegue nutrir o ódio, uma vontade de arrasar tudo e todos. “Rindo e ridicularizando era que fugia da sua desgraça.” (p. 30)


Por outro lado, sem pensar muito, temos o Gato, que é o menino 'aprendiz' de malandro – quer ser sedutor e não o seduzido. Quer as mulheres experientes, as 'damas da noite', aquelas profissionais do sexo que deslizam pelas ladeiras com perfume forte e rebolado fascinante.


Os meninos não perdem oportunidades de viverem aventuras. Do tipo resgatar um pacote de cartas numa mansão, ou ajudar na montagem do carrossel na praça. O carrossel vem a ser uma rara diversão para as crianças pobres. É um momento raro no qual esquecem a própria miséria. Sem-Pernas se emociona, até o precoce 'bandoleiro' Volta Seca brinca nos cavalinhos coloridos, pois até Lampião brincou no carrossel !


Nas noites da Bahia, numa praça de Itapagipe, as luzes do carrossel girariam loucamente movimentadas pelo Sem-Pernas. Era como num sonho, sonho muito diverso dos que o Sem-Pernas costumava ter nas suas noites angustiosas. E epla primeira vez seus olhos sentiram-se úmidos de lágrimas que não eram causadas pelo dor ou pela raiva. […]


-É uma beleza – disse Pedro Bala olhando o velho carrossel armado. E João Grande abria os olhos para ver melhor. Penduradas estavam as lâmpadas azuis, verdes, amarelas, roxas, vermelhas.” p. 57



A narrativa acompanha as crianças e tudo o que anda nos arredores. Vários ideologias e ideólogos transitam – desde as autoridades até os grevistas, desde os religiosos até os comunistas. A presença de um padre com origens humildes – e que resolve ajudar as crianças pobres – já é uma figura ideológica.


É a presença dos católicos de esquerda, ou socialistas cristãos, adeptos do que seria a 'Teologia da Libertação', a preocupação com as questões sociais, a exploração do homem pelo homem, além dos dogmas teologais. Estes cristãos esquerdistas voltaram-se contra as posições elitistas da Igreja oficial – sempre conivente com os proprietários, políticos e autoridades – e muitos até apoiaram os revolucionários marxistas nos anos da Ditadura Militar (1964-85).


mais info


http://www.historialivre.com/brasil/teoliberta1.htm

http://www.espacoacademico.com.br/017/17cwrossi.htm

http://www.domtotal.com/colunas/detalhes.php?artId=1420



Aqui temos a figura do padre José Pedro, que antes havia sido operário numa fábrica de tecidos – nunca foi um bom aluno no seminário, “sua retórica era pobre e falha”, mais fazia tudo pela 'missão' de converter e salvar as crianças abandonadas à miséria. O padre critica a religiosidade hipócrita e culpada: as beatas viciadas em incenso e indiferentes aos males sociais. As classes privilegiadas que buscam a religião como um alívio de consciência ou interesse de prestígio social (em festas de batizado, crisma, casamento, etc)


Por outro lado, os meninos desconfiam de todos que prometem ajudar. As crianças pobres, mas soltas, preferem a liberdade das ruas do que as famílias adotadas. E quanto a religião, os meninos não gostam de rezar... mas gostam do jeito modesto do padre, que ostentava tanta pobreza quanto eles.


Claro que as beatas, as viciadas em incenso, as reacionárias, não gostam daquele contato do padre José Pedro com os meninos de rua.


Outra figura ideológica aqui é o líder trabalhista, em dado momento um dos grevistas, o operário João de Adão. Nas docas, Pedro Bala sabe sobre o passado grevista de seu pai, o Raimundo, o Loiro, que “morreu aqui mesmo lutando pela gente, pelo direito da gente” (p. 77), diz João de Adão, ao revelar que o pai de Pedro era um homem valente que morreu na violência da repressão policial contra os grevistas de outrora.


Raimundo, o Loiro, foi morto quando Pedro tinha apenas 4 anos de idade. Agora é um rapaz de quinze. Assim descobrimos que a orfandade de Pedro foi causada pela luta de classes, quando os trabalhadores se revoltam contra a exploração da mão-de-obra. Sejam cristãos ou não, marxistas ou não, anarquistas ou não, os operários descobrem que enriquecemos patrões e pouco ganham do lucro que eles mesmo geram.


Pedro Bala passa a ter orgulho do pai – que defendia os grevistas, que lutava para melhorar as condições de trabalho dos estivadores, e agora Pedro deseja participar das greves, seguir assim a trilha do pai, como a continuar a luta, de geração a geração. Pois a pobreza e a miséria não acabaram.


Vida dura aquela, com fardos de sessenta quilos nas costas. Mas também poderia fazer uma greve assim como seu pai e João de Adão, brigar com polícias, morrer pelo direito deles. Assim vingaria seu pai, ajudaria aqueles homens a lutar pelo seu direito (vagamente Pedro Bala sabia o que era isso). Imaginava-se numa greve, lutando. E sorriam os seus olhos como sorriam os seus lábios.” p. 78


e


Um dia iria fazer uma greve como seu pai... Lutar pelo direito... Um dia um homem assim como João de Adão poderia contar a outros meninos na porta das docas a sua história, como contavam a de seu pai. Seus olhos tinham um intenso brilho na noite recém-chegada.” p. 79


Assim, em momentos que poderíamos desesperar, ou apelar para as religiões hipócritas, temos uma alternativa: a luta dos grevistas, a consciência de classe tomando forma e atuando para a melhoria das condições de trabalho. O que não se pode é aceitar a miséria, nem se resignar,ou esperar o Além, a outra vida, mas lutar aqui e agora pelo fim das desigualdades sociais, causada pela exploração vergonha que os seres humanos fazem sobre os próprios semelhantes.


Muitas vezes a explicação para a pobreza não vem de questões econômicas, mas de morais e religiosas, quando o padre progressista pensa em pecado, hipocrisia, caridade. Ou julga as crianças segundo critérios morais, ao pensar que são perversas, cruéis, malvadas. Entre a esperança e a desesperança, a crença do Padre inclina-se sempre a uma providência divina para 'converter' as crianças sem rumos. (Enquanto o líder sindical tem outra crença: na Revolução. Irônico é que depois quem será acusado de comunista é o pobre padre amigo das crianças sem amigos...)


Padre José pedro achava que Deus perdoaria e queria ajudá-los. E como não encontrava meios, e sim uma barreira na sua frente (todos queriam tratar os Capitães da Areia ou como a criminosos ou como a crianças iguais àquelas que foram criadas com um lar e uma família), ficava como que desesperado, por vezes ficava atarantado. Mas esperava que Deus o inspirasse um dia e até lá ia acompanhando os meninos, conseguindo por vezes evitar atos de malvadeza das crianças. […] Mas ia tenteando e por vezes sorria satisfeito dos resultados. A não ser quando João de Adão ria dele e dizia que só a revolução acertaria tudo aquilo.” p. 102



Não há apenas um discurso, mas vários, e principalmente o discurso das Esquerdas, em ímpeto revolucionário, na crença de uma revolução que elimine as desigualdades sociais, o que é coerente ao lembrarmos da biografia do Autor, onde consta toda uma formação esquerdista, até comunista. E esta militância não está ausente da obra de arte – toda obra é escrita por alguém, que tem ideias e ideologias, consciência e discurso.


E as personagens estão jogadas entre forças contrárias – as autoridades, os religiosos, os bandoleiros, os malandros, os grevistas – e era se identificam com uma ou outra. As identidades se formam meio aos elementos mais turbulentos, onde cada crianças tem em si um mecanismo de defesa e ataque –o que deseja ser padre precisa se defender do que deseja ser malandro, e o malandro tem que se defender do que deseja ser líder sindical.


Várias manifestações atraem as crianças. As religiões africanas ancestrais igualmente atraem outros, assim como os rituais católicos romanos. Assim muitos sonham com orixás enquanto outros esperam o Reino dos Céus. Cada criança aceita uma identidade a partir de desejos e consolações. E o narrador sabe muito bem transitar por todas estas forças sociais, religiosas, políticas.


Algumas crianças explicitam necessidades de origem material – falta de assistência e renda, ou de origem psicológica – falta de carinho numa família, de equilíbrio afetivo, ou de origem espiritual – a busca de um sentido para a vida e uma missão e/ou salvação. Cada uma luta para preencher estas necessidade – em constante conflito com o mundo ao redor.


Elas necessitam e muitas vezes quando encontram , não acreditam. Quando encontram um padre bondoso, precisam vencer as desconfianças. Quando encontram um lar, precisam esquecer as dores de outrora. Quando se libertam dos reformatórios, precisam re-acreditar na vida solta das ruas. Vivem então em insegurança, inverdade, remorso, descrença. Não podem pensar no dia de amanhã, precisam garantir a sobrevivência de hoje.


Quando encontram carinho e atenção, julgam não merecer, julgam não ser real, que outro interesse existe, que podem pagar caro por um momento de afeto e felicidade. Sentem-se culpados, acreditam que todos são culpados. Ainda mais nos sentimentos rancoroso do complexo personagem Sem-Pernas, aleijado no corpo e amargurado na mente – julgando a todos e afundando em rancor. Ele finge ser um bom menino quando 'adotado', apenas para ajudar no assalto da casa que o acolheu.



Porque o Sem-Pernas achava que eles eram todos culpados da situação de todas as crianças pobres. E odiava a todos, com um ódio profundo, sua grande e quase única alegria era calcular o desespero das famílias após o roubo, ao pensar que aquele garoto esfomeado a quem tinham dado comida fora quem fizera o reconhecimento da casa e indicara a outras crianças esfomeadas onde estavam os objetos de valor.


[…] Assim verão que ele é um menino perdido, que não merece um quarto, roupa nova, comida na sala de jantar. Assim o mandarão para a cozinha, ele poderá levar para diante sua obra de vingança, conservar o ódio no seu coração. Porque se esse ódio desaparecer, ele morrerá, não terá nenhum motivo para viver.” pp. 113-14


O amargurado Sem Pernas odeia a todos, menos os companheiros Capitães, também vítimas iguais a ele, todos sofrendo com a exploração, a pobreza e a insegurança. Seja na marginalidade, seja no trabalho braçal, seja no crime, seja na prostituição, as misérias se reproduzem e os meninos de ruas podem gerar outros meninos de rua. Temos novas gerações de crianças abandonadas, todas nascidas e criadas na insegurança e violência das ruas.


Um contraponto interessante nesta história triste é a presença de uma menina num elenco de meninos. A menina Dora que adentra e personaliza as relações – ela vem trazer afeto e carinho para os meninos, ela que vai se tornar uma espécie de mãe em miniatura para todos os órfãos. Ela mesma uma órfã, que perdeu a família numa epidemia de varíola que se alastrou pela cidade. Epidemia que vitimou crianças meio aos Capitães.


A presença da menina é primeiramente encarada com muito 'apetite sexual' pelas crianças precoces, os meninos maiores. Afinal, os meninos veem as mulheres apenas como objetos sexuais, uma vez que pouco conhecem de amor materno ou afeto filial. Uma menina é vista apenas como mais uma mulher que serve para ser 'derrubada no areal', como costumava fazer o próprio Pedro Bala.


Ele, o líder, não defenderia a menina Dora da agressão sexual desejada pelos meninos maiores. João Grande e Professor são os primeiros a verem uma menina como uma ajudante, uma companheira do grupo. Pedro somente vai respeitar Dora quando perceber nela uma menina também carente, não uma mulher a seduzir. Ela é uma mãe para os demais meninos, os menorzinhos – e, de certo modo, uma noiva para ele. A ambiguidade do afeto gera cenas idílicas que não aconteceram antes.


Ela [Dora] de longe sorria para Pedro Bala. Não havia nenhuma malícia no seu sorriso. Mas seu olhar era diferente do olhar de irmã que lançava aos outros. Era um doce olhar de noiva, de noiva ingênua e tímida. Talvez mesmo não soubessem que era amor. Apesar de não ser noite de lua, havia um romântico romance no casarão colonial. Ela sorria e baixava os olhos, por vezes piscava com um olho porque pensava que isto era namorar. E seu coração batia rápido quando o olhava. Não sabia que isso era amor. Por fim a lua veio, estendeu sua luz amarela no trapiche. Pedro Bala se deitou na areia e mesmo de olhos fechados via Dora.” pp. 182-83


O clima de idílio não dura muito. Novas aventuras esperam pelos Capitães de Areia – crimes, prisões, greves, reformatórios, orfanatos, fugas, planos para enganar a polícia – e lá está a imprensa (nada imparcial, mas sempre do lado de quem paga, isto é, os chefões, as autoridades, os políticos) para criar a fama malévola das crianças abandonadas, como se elas não passassem de demônios mirins. Acompanhamos o sofrimento de Pedro Bala como uma punição da ordem contra os infratores – onde as crianças de vítimas passam a ser réus, culpados enquanto as autoridades continuam a manter uma sociedade desigual, onde uns lucram muito e a maioria sobrevive com migalhas.


É fácil culpar as vítimas, mais fácil do que abolir a (des)ordem social que cria as vítimas. “Porque todos odeiam os meninos pobres, pensa Pedro Bala.” (p. 195) O mesmo Pedro Bala que se tornará líder sindical ao seguir sua 'vocação', só terá o ódio que nutre contra as autoridades além da fidelidade dos Capitães para ajudá-lo a sobreviver. “Castigos... Castigos... É a palavra que Pedro Bala mais ouve no reformatório. Por qualquer coisa são espancados, por um nada são castigados. O ódio se acumula dentro de todos eles.” (p. 203)


A mesma Dora que era a mãezinha do grupo, agora reclusa num orfanato, vê a saúde desaparecer, e sobrar apenas a solidão. “Um mês de orfanato bastou para matar a alegria e a saúde de Dora. Nascera no morro , infância em correrias no morro. Depois a liberdade das ruas da cidade, a ida aventurosa dos Capitães da Areia. Não era uma flor de estufa. Amava o sol, a rua, a liberdade.” (p. 206) Quando os Capitães chegam para resgatar a menina ela já está febril.


Dora não sobrevive muito. Passou como uma sombra, diz a mãe-de-santo, uma mãe para os meninos, uma musa para o Professor, uma noiva para Pedro Bala. O episódio de Dora no trapiche encerra outro ciclo na narrativa, que agora declina. Cai literalmente quando um dos personagens mais bem delineados se joga do alto do Elevador. Assim Sem-Pernas consegue fugir dos policiais. Morre carregando seu ódio até o amargo fim.

Muitas vezes o narrador adianta fatos futuros – até onde levará a vocação de cada um – saberemos que um será bem sucedido, será artista, enquanto outro vai se aliar aos bandoleiros, e será executado por forças policiais; outros será apoiador de grevistas e aliado de estudantes revolucionários, e ainda outro que vira padre, ou acaba por se matar.


Somente uma mensagem positiva fica ao final do livro. É preciso a união dos explorados para lutar contra os exploradores, os privilegiados, os proprietários, os donos da riqueza. Sem a luta coletiva não poderá haver mudança. Por isso Pedro Bala se torna um 'militante proletário', um subversivo, um fora-da-lei (entenda-se: a lei dos poderosos, dos privilegiados). Assim os sindicalistas, os cooperativistas, os anarquistas, os socialistas, os comunistas, em suma, todos os grupos de ação política alternativa nos anos 1920-1930 aparecem de algum modo na vida dos meninos vítimas da exploração.


Assim como vimos em “Os Meninos da Rua Paulo”, onde o autor húngaro destilou muito da própria infância , da própria biografia, aqui muito da contraditória Bahia do autor Jorge Amado está entrelaçada no enredo, muito além das aventuras dos bandos de meninos, a sugerir que ele certamente viveu muitas das situações narradas, enquanto seguia andando por ruas, ruelas e becos, praças e praias, atento aos vultos dos Capitães da Areia.


Nov/11



Leonardo de Magalhaens


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videos


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filme


Capitães da Areia” (2011)

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