sábado, 17 de setembro de 2011

sobre o Biografismo no cinema










O Biografismo no cinema




Cinema?


Falemos aqui sobre os filmes baseados em autores, literatos, poetas, dramaturgos, e que fazem tanto sucesso na cultura midiática popular. Pouco vamos diferenciar cultura erudita de cultura popular. As fronteiras são por demais tênues. Afinal, o que é 'cult' hoje pode ter sido 'kitsch' ontem. Por exemplo, vejamos, basta envelhecer para o filme ficar idolatrado. Veja o caso de “O Vento Levou” (1939) ou de “Casablanca” (1942). Filmes que envelheceram e então foram elevados a categorias de obras-primas. Daqui há alguns anos até os blockbusters se tornarão obras cults.





Obviamente não vamos aqui descrever filmes, ou avaliá-los como um crítico de cinema (não temos bagagem 'formalista' para tanto), mas apenas considerar os conteúdos, os enredos. Em que medida os filmes procuram retratar os autores, de que perspectiva, de que formato enquadram as vidas autorais. Em função da obra ou dos costumes morais? Em que medida são perspectivistas biografistas?



O que é Biografismo?

Sendo uma forma de ler a obra do autor como uma soma das experiências vivenciadas – onde até as imaginadas são a partir das vividas – o Biografismo é um quase-ramo dos Estudos Literários – ao lado dos consagrados ramos do Estruturalismo, do Formalismo, do Funcionalismo, do Historicismo, do Novo Criticismo – ou Close Reading – e da Estética da Recepção.


Recorre-se ao biografismo toda vez em que um fato parece por demais 'real' na obra, e exige explicações extra-textuais. Ou seja, a vida do/a autor/a é motivo de um olhar mais apurado, de modo a encaixar uma leitura a partir dos fatos biográficos. Saímos da ficção apenas para procurar fatos no mundo extra-ficcional, no mundo de carne e osso.


A ênfase na vida autoral – as vicissitudes, as ascensões e quedas, os comas alcoólicos, as prisões, os divórcios, etc – tudo isso parece fascinar os leitores tanto – ou mais – que os textos. Não se limitando a ler os poemas de Lord Byron, o leitor quer saber se Byron viveu tudo aquilo – viagens, exílios, casos amorosos, duelos, batalhas, separações, etc. Em que medida o descrito foi vivenciado? Não pode-se aceitar que o autor tenha inventado tudo...



Nem vamos perguntar se Bram Stoker teve contato com vampiros, ou se Tolkien conheceu pessoalmente um duende, ou um elfo, isso é fantasia, sabemos bem. Mas é diferente quando o/a autor/a descreve amores, fatos históricos, exílios, prisões, ou seja, coisas palpáveis, que encontramos nos jornais diariamente.


Aquele(a)s autore(a)s que falam muito da 'realidade' – no sentido de serem testemunhas de uma época, de descreverem um 'Zeitgeist' como uma singularidade quase palpável, este(a)s recebem um olhar além do ficcional, são considerados 'testemunhas fieis' da época narrada. Veja um Goethe, veja um Dickens, veja um Balzac, veja um Dostoiévski, veja um Proust, veja uma Simone de Beauvoir, veja um Pedro Nava.



Além do texto, há a vida. A vida autoral. Tão interessante quanto – a se acreditar nos biografistas, claro. Para os adeptos do Biografismo, o poeta tem que necessariamente ter 'vida de poeta'. Tem que morrer jovem, tem que ser auto-destrutivo, tem que ser iconoclasta, em suma, tem que seguir o figurino de poeta.


Ao biografismo seguramente interessa as perversões de Sade, as loucuras de Höderlin e Nietzsche e Van Gogh, a surdez gradativa de Beethoven, os casos amorosos de Goethe e Sartre, os delírios de Baudelaire e Rimbaud, as epilepsias de Dostoiévski e de Machado de Assis, as extravagâncias de Salvador Dalí, a depressão de Virginia Woolf. E assim vai.



Não apenas a Obra, mas também o Artista é alvo de olhares e admirações e reprovações. O Artista está na vitrine, exposto na galeria. Não tem qualquer privacidade. Deve se apresentar sem máscaras e sem batom retocado. Está nu.


Numa época em que temos poetas demais e poesia de menos, numa época onde o excesso de informações gera desinformações, é de se pensar se saber sobre o(a)s autore(a)s, suas vidas e vicissitudes, é tão essencial a ponto de fecharmos os livros e abrirmos as biografias. Claro, se tivermos tempo de ler todas as obras de Dostoiévski, então pode-se até separar um tempo para uma olhada na biografia. Mas, de repente é inútil: as Obras bastam por si mesmas.


Os filmes (...alguns filmes...)

Excentricidades autorais


Falemos dos filmes, então. Comecemos por “The Quills”(2000, no Brasil, “Contos Proibidos do Marquês de Sade”), do diretor Philip Kaufman, que mescla obra e vida, em citações e vivências, o que imaginamos ao ler os contos eróticos e os delírios do próprio Marquês, autor e personagem. O ator australiano Geoffrey Rush encarna um marquês meio lunático e meio autoconsciente. Algumas questões me ocorrem. Qual a relação do Marquês com a própria obra? Ele a levava a sério? Ele escrevia fantasias que desejava praticar ou escrevia o que praticava, digamos, religiosamente? De repente, ele escrevia porque não pudia fazer...


Na peça “Sade / Marat” do alemão-sueco Peter Weiss (1916-82) este diálogo autor-obra é mais evidente, com a presença do teatro dentro da obra – a encenação da perversidade num asilo de lunáticos. A loucura de Sade seria tão consciente a ponto de performatizar a loucura? O louco sabe que é louco? Ou a razão é algo externo? (“Dizem que sou louco”...) por outro lado, a 'razão' pode ser apenas o instrumento do poder. Quem não se adapta a dita normalidade (um padrão dito racional) é considerado louco.


Meu ensaio sobre o Marquês de Sade
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2010/08/sobre-obra-do-marques-de-sade.html

Encenação da peça “Sade / Marat” de Peter Weiss
http://www.youtube.com/watch?v=aur-t-RtOJM&feature=related


Essa relação de loucura e normalidade, ou o delírio versus o padrão, pode ser encontrado em “Naked Lunch” (1991, no Brasil é “Mistérios e Paixões”), dirigido pelo canadense David Cronenberg , um filem baseado no romance homônimo do escritor beatnik William Burroughs (1914-97), que a considerar o título - “Almoço Nu” - mostra as frágeis fronteiras entre a normalidade e o delírio. É preciso a loucura para gerar a Arte? O autor deve mesmo ser meio louco para gerar a originalidade ex nihilo? Ser original é mesmo ser excêntrico, extravagante ? Os artistas a la Dalí, talvez...


Imagens desconexas, cortes de imagens, colagens. Temos algo de Bruñel, temos lances cubistas meio dadaístas, temos delírio imagético. E o escritor perdido dentre de tudo, meio ao cheiro entorpecente de inseticidas, 'curtindo o maior barato'. E o receptor – nós, a plateia – precisamos montar tudo, achar um sentido (que de repente não existe...), ou nos deixamos mergulhar no mesmo delírio.


Adentrar o delírio do autor, do poeta, é um convite fascinante. Até porque continuamos fora, nós, os bons leitores, e o poeta carrega a nossa quota de loucura, de excentricidade. Assim nos mantemos sadios, funcionais, adaptados. Lemos a poesia para não precisarmos praticá-la!



Dramas Passionais


Filmes que mergulham no drama passional do poeta e que ameaça a sanidade mental de autor e personagem (e da plateia, às vezes), sim, são filmes que não faltam. Filmes que não hesitam em apelar ao passional, ao drama afetivo (que tentamos sufocar intimamente, mas que os autores vivenciam, parece). Temos ao menos três destes. Um drama belíssimo sobre a vida da inglesa Virginia Woolf, um sobre a poeta norte-americana Sylvia Plath e um bem romântico ao estilo romantismo-clássico sobre o poeta romântico John Keats.


O filme “The Hours”/ “As Horas”, de 2002, do diretor Stephen Daldry, assume a perspectiva das mulheres, como uma filmagem enredada num dos clássicos da autora – o romance “Sra. Dalloway” - que seria uma teia a unir as personagens. As relações da autora com a obra não poderiam ser mais explícitas – temos a depressão, os pensamentos mórbidos, o suicídio anunciado – temos os efeitos da obra sobre as leitoras. A escrita de Woolf é feminista? É escrita para mulheres hetero ou homossexuais? Sem a depressão, Virginia não escreveria? Eis algumas questões que levanto ao ver o filme.


Meu ensaio sobre a obra “Orlando” (de V. Woolf)
e a questão da escrita de gênero
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2011/03/sobre-orlando-de-virginia-woolf-12.html


Não diferente, a personagem-autora Sylvia Plath (1932-63) (interpretada pela bela Gwyneth Paltrow) do filme “Sylvia” (2003, no Brasil, “Amor além das palavras”) está suspensa entre a interioridade – o lírico, o poético – e o exterior – a vida com o marido, a recepção crítica da obra, a vida cotidiana, a infidelidade conjugal -, mas sobretudo no seio da condição feminina. O que é ser uma poeta? Como articular o discurso feminino num mundo falocêntrico? Num mundo que tolera a traição masculina e humilha a mulher adúltera. O certo é que o mundo de Sylvia desaba quando ela é a próxima vítima. A poesia não é mais capaz de agregar significado – é melhor calar-se.


Mas o poeta John Keats (1795-1821) não se cala quando perde uma paixão. Aliás, a Belle Dame Sans Mercy tem seu brilhante nascimento. No filme “Bright Star” (2009, “Brilho de uma Paixão”), da diretora neo-zelandesa Jane Campion, é a figura romântica do par amoroso que salva a fragilidade da personalidade de Keats. Ou então temos um estereótipo de poeta romântico. Pálido, sonhador, sofredor. Afinal, o poeta é tão somente o dono de um universo de palavras e símbolos, de um universo que não significa necessariamente vivenciado. E nem podemos exigir que o poeta viva tudo o que escreveu. No mais, falando de romantismo não pode faltar um... par romântico.


Continuo a preferir os belos e geniais poemas de John Keats. A poética me emociona mais que o autor e seus dramas. Aliás, os dramas somente têm valor no sentido de levar o poeta a escrever tão belos poemas. Que o poeta continue continue a sofrer desde que escreva poemas tão geniais! Vejam algumas traduções que ousei.



Filmes existem com padrões mais, digamos, historicistas. Ambicionam uma ambientação, pretendem um painel de época – desde que centrados nos autores. O foco permanece nos autores, e arredores. Assim a partir do poeta e dramaturgo Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) conhecemos o Sturm Und Drang , ou pré-romantismo, do final do século 18 na Alemanha (aliás, nos estados alemães do Sacro Império Germânico), basta que vejamos “Goethe” (2010), do diretor alemão Phillpi Stölzl, que já dirigiu filme sobre Richard Wagner (o qual ainda não vi).


Ou a partir do também poeta e dramaturgo espanhol Lope de Vega (1562-1635) termos uma visão da Espanha na transição dos séculos 16 para 17, com a ascensão espanhola abafando o antigo pioneirismo lusitano. (Depois a Espanha teria ainda pela frente os franceses e os britânicos, e foi derrotada por ambos.) O filme “Lope” (2010), dirigido pelo brasileiro Andrucha Waddington, mescla historicismo e biografismo ao situar o autor em uma dada época. (“Shakespeare Apaixonado” (1998) e “Anonymous”(2011) basicamente seguem o mesmo esquema: o autor era a pessoa genail no lugar certo no momento certo para então fazer sucesso e se imortalizar...)


Em “Becoming Jane” (2007, ou “Amor e Inocência”), com a bela Anne Hathaway, temos um painel da Inglaterra do fim do século 18, com os bailes e flertes (aqueles das heroínas de Jane Austen) aqui com a própria Jane Austen (1775-1817), que vivia entre o 'senso e a sensibilidade', entre o racionalismo masculino e o sentimentalismo das belas damas em sociedade. Aliás, a obra de Austen é um retrato dos costumes sociais a partir da percepção feminina, o mundo social interessa a partir do momento que emociona a sensibilidade da heroína. Tudo gira em torno da projeção amorosa – o amor enquanto encanto, o pretendente enquanto homem ideal – onde as aparências enganam, e as heroínas só percebem isso no final.


O Autor e a gênese da Obra


Por fim, as obras que flagram o autor nos processos criativos. Temos o “Shakespeare Apaixonado” , protagonista numa espécie de drama-romântico que, entre uma conquista ou outra dos corações femininos, se recolhe para escrever seus sonetos e suas peças obras-primas. Mas temos também “Capote” (2005) , do norte-americano Bennett Miller, sobre a vida e obra do também norte-americano Truman Capote (1924-84), autor do clássico romance-reportagem “A Sangue Frio” (In Cold Blood, 1966) e do popular “Breakfast in Tiffany's” (1958, no Brasil, “Boneca de Luxo”, que virou filme cult de 1961 com a bela Audrey Hepburn (1929-93). resumindo: Capote mostra o escritor com a 'mão na massa', em reportagens, em pesquisas para a criação literária. Nada de 'inspiração' ou 'ideias aladas' que as Musas enviavam por piedade! O autor é mesmo um trabalhador mental.


Assim também em “Finding Neverland” (2004), do suiço-alemão Marc Forster que mostra os esforços do escritor e dramaturgo britânico James M. Barrie (1860-1937) – interpretado pelo talentoso Johnny Depp - para criar seu famoso Peter Pan (nos palcos em 1904, e em livro em 1911), um sucesso de palco, de livro, de bilheteria, de mídia, em suma, uma ideia genial (do menino que não cresce, que se recusa a ser adulto...) que habita o mundo das fantasias infantis, ao lado de piratas, fadas, crocodilos ardilosos, meninos perdidos...


Meu ensaio sobre “Peter Pan” em
http://leoleituraescrita.blogspot.com/2009/12/sobre-peter-pan-ensaio.html


Em suma, temos os esforços monumentais da arte mais complexa – o cinema – para retratar as interessantes vidas dos autores, talvez para nos fazer ler os livros. Mas se esquecem – com tanto drama e delírio – que não é o Autor que nos faz ler a Obra, antes é a magnitude da Obra que atrai nossa atenção sobre os Autores. Certamente Shakespeare nos interessa na medida em que nos emociona “Romeu e Julieta” , “King Lear” e “Hamlet”. Shakespeare se imortaliza justamente por causa da grandiosidade das Obras, não o contrário. Sem a Obra, o Autor inexistiria para nós – no máximo seria elogiado pelos bons amigos seus contemporâneos.



Set/11


Leonardo de Magalhaens

http://leoleituraescrita.blogspot.com/
http:meucanoneocidental.blogspot.com


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Mais sobre o Biografismo
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142005000300026&script=sci_arttext



O biografismo no cinema
(… alguns filmes...)


Anonymous / 2011 (foco: Shakespeare)
http://www.youtube.com/watch?v=2PaliLAQT8k

Howl / 2010 (Allen Ginsberg)
http://www.youtube.com/watch?v=ytEORri27xE&feature=fvst

Goethe / 2010
http://www.youtube.com/watch?v=02FTZzok9fY

Lope / 2010 (Lope de Vega)
http://www.youtube.com/watch?v=T4T28OSkqX4&feature=fvst

Bright Star / 2009 (John Keats)
http://www.youtube.com/watch?v=golIjhAOf_Y&feature=related

Becoming Jane / 2007 ( Jane Austen)
http://www.youtube.com/watch?v=NLguXJK5kJ8&feature=related

Capote / 2005 (Truman Capote)
http://www.youtube.com/watch?v=Q4BvvJ69pIQ&feature=related

Sylvia / 2004 ( Sylvia Plath)
http://www.youtube.com/watch?v=GLXzDJ7JkIA

Finding Neverland / 2004 ( James M. Barrie)
http://www.youtube.com/watch?v=8cQgZfdH01g

Byron / 2003
http://www.youtube.com/watch?v=QzfC_JVFL9w

The Hours / 2002 (Virginia Woolf)
http://www.youtube.com/watch?v=yMErdpA804Y&feature=related

The Quills / 2000 (Marquês de Sade)
http://www.youtube.com/watch?v=u--PYnIYewE

Shakespeare in love / 1998
http://www.youtube.com/watch?v=i3Zi2N1Q8-Y

Wilde / 1997 ( Oscar Wilde)
http://www.youtube.com/watch?v=r-GFOdNUwLM

Total Eclipse / 1995 ( Rimbaud e Verlaine)
http://www.youtube.com/watch?v=usceW-s99H8

Naked Lunch / 1991 ( William Burroughs)
http://www.youtube.com/watch?v=Q0fhzA_j6lQ

Henry & June / 1990 ( Henry Miller & Anais Nin)
http://www.youtube.com/watch?v=ilACmWdTXWg








LdeM


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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Os Vilões da Ficção - breve ensaio










Os Vilões da Ficção

(breve ensaio)


Vejamos a importância dos vilões, dos antagonistas na ficção. Afinal, como se desenvolveria o mocinho, ou a mocinha, os protagonistas, sem um obstáculo, sem um antagonismo, em suma, sem as alfinetadas do vilão? Como poderíamos perceber as reações – positivas e negativas – do(a) protagonista senão através das ações do(a) antagonista?


Num mundo – ou enredo – de pura calma e meditação, sem dificuldades a serem superadas, como poderiam se desenrolar os dramas que marcam a ficção? Desde as fábulas, desde as sagas, os épicos, as narrativas religiosas, as novelas de cavalaria, temos as forças da ordem contra a desordem. Temos Marduk contra Tiamat, temos Jeová contra Lúcifer, temos Odin versus Loki, temos São Jorge contra o Dragão, a Bruxa madrasta contra a Fada madrinha.


Somente o(a)s mocinho(a)s entregues a si mesmo(a)s é garantia de tédio na certa. Imaginemos o paraíso como um lugar de plena calma e aborrecimento. Nenhum crime para instigar um Holmes? Nenhuma explosão terrorista para animar o noticiário? Nenhum psicopata para romper o equilíbrio e instaurar o caos?


Vejamos o(a)s antagonistas enquanto personagens complexas, além dos julgamentos morais. Não são limitadas por questões morais, logo o leitor também é convidado a abandonar todo moralismo. Apenas considerá-los maus, cruéis, perversos, é reduzi-los a caricaturas. (Afinal, segundo a denúncia da Moral, feita pelo filósofo alemão Nietzsche, o que importa é o poder: é maléfico quem tem o poder de fazer o positivo e faz o negativo; e é benéfico quem tem o poder de fazer o negativo e prefere fazer o positivo. Personagens desprovidas de poder não podem ser negativas nem positivas. São figurantes.)


O que teríamos no drama de Othello sem a figura de Iago? Que tragédia existira em Macbeth sem a ambição sangrenta da Lady Macbeth? O que seria de Batman sem os inimigos psicopatas de Gothan City? Quem mais desafiaria o Superman do que o gênio do crime Lex Luthor? Quem duelaria golpe a golpe com os X-men do Professor Xavier além dos acólitos de Magneto? Quem estimularia os poderes dos monges-guerreiros Jedi senão os Lords Sith? Afinal, todo lado luminoso da Força tem seu lado sombrio.


Existe em toda a ficção – literatura, fábulas, teatro, HQ, cinema, RPG, etc – toda uma variedade de vilões. Podem ser vilões o tempo todo, ao longo do enredo, obstaculando o/a protagonista, ou em dado momento (p.ex. no ápice da peça) quando o mocinho, ou a mocinha, pouco espera. Dentro de tal variedade podemos fazer algumas distinções – tipos de vilões. Frágil esquematismo, entretanto.



Conscientes-Sádicos


Temos os vilões conscientes e sádicos, pois sabem que prejudicam o(s) protagonista(s) – e os figurantes – e gostam disso – de prejudicar o outro. Lutam pelo poder sem qualquer hesitação moral.


Exemplos são Iago (de “Othello”), Hannibal Lecter (do livro e do filme “The Silence of the Lambs”, 1991), Ravengar (da novela “Que Rei Sou Eu?”), o senador Palpatine (ou Darth Sidious, em Star Wars), a Rainha Má (a madrasta da bela Branca de Neve), e o vampiro-mestre, Conde Drácula (de Bram Stoker).


Destes Iago é o maior destaque. Na peça “Othello” (1603) de W. Shakespeare, temos um mouro, general de exército, que se casa com uma jovem, filha de senador, de Veneza. Somente este casamento já daria muito enredo, mas para complicar ainda mais temos um vilão complexo, o ambicioso oficial Iago que arma mil intrigas para amplificar ao extremo os ciúmes do mouro até um final trágico.


O papel de Iago é de complicar ainda mais um casamento que já é complicado por ser desigual – tanto no quesito 'classe social' quanto no 'racial'. É uma trama onde o vilão mostra um poder destruidor – e de todo consciente - sobre o protagonista. Iago é praticamente metalinguístico – volta-se para a plateia – nós! - esclarece muitas tramas do enredo cada vez mais sinistro. Pobre do Otelo! Pobre da Desdêmona!


Tão consciente, ou mais, é o refinado psiquiatra – e psicopata – Hannibal Lecter, a observar o comportamento humano, e as pessoas ao redor, como artigos de um menu de restaurante. Afinal, ele revela um hábito pouco comum na nossa civilização – ele tem o fetiche de comer carne humana. Só isso já daria um romance e tanto. Mas Lecter é por demais complexo para ser reduzido a simples demente canibal. Ele, com toda a sua classe refinada, erudição, bom-gosto, senso estético, é um tapa na cara de nós, os civilizados. A civilização é uma mera camada de verniz. Ainda temos muito de 'selvagem' (no pior sentido) dentro de nós mesmos.


Que o diga a Rainha Má, a madrasta malévola da bela e indefesa Branca de Neve. A pobre mocinha é perseguida por pura inveja – a Rainha Má não aceita que exista alguém com mais beleza, com mais glamour. “Espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu?” Pois existe: a alva e angelical Branca de Neve. Então a Branca de Neve é condenada – mas graças ao caçador, ela consegue fugir e encontrar abrigo entre os Sete Anões. A Rainha Má descobre e não sossega enquanto não elimina a jovem rival. A rainha se revela uma bruxa com poções, maçãs envenenadas, espelhos diabólicos, etc. Tudo segue para uma vingança maligna. Claro, em algumas versões temos um final feliz – aparece o príncipe encantado.


Consciente e ambicioso é o senador Palpatine, de Star Wars, que não hesita em 'minar' as bases da República Galáctica e instalar um Império Galáctico, despótico e regido pelo 'lado sombrio da Força'. O caso do político Palpatine é o de um ditador em potencial que se encontra dentro do regime democrático. Ele não vem de fora, não invade como um terrorista, um revolucionário. Não, nada disso. O vilão - na verdade Darth Sidious, um Lord Sith, inimigo dos monges-ninjas Jedi - senta-se na cadeira do Senado, é um político respeitado. Mas nos bastidores organiza um putsch contra a República que ele mesmo, enquanto Chanceler, jurou conservar. Assim um Adolf Hitler ao desfazer-se da República de Weimar, em 1933, quando foi eleito Chanceler. Pouco tempo depois ele seria o todo-poderoso Führer do sombrio III Reich.


Nem precisamos lembrar aqui que todo o universo de Guerra nas Estrelas, Star Wars, de George Lucas, é maniqueísta. É sempre o Bem contra o Mal. Temos o lado luminoso da Força versus o lado sombrio da Força – a mesma Força! - e as ordens de monges – os luminosos Jedi versus os sombrios Sith. A luta pela República ou pelo Império é mais do que política – é uma luta entre o autoritarismo, o despotismo dos Sith e a autonomia, a independência dos Jedi. O Bem contra o Mal é um conceito antigo e sempre utilizado na ficção – por mais que um filósofo tal como Nietzsche tenha desmistificado tais categorias morais e metafísicas. (Ver “A Genealogia da Moral”, por exemplo)


O Ravengar, da novela global “Que Rei Sou Eu?” (1989), age da mesma forma que Palpatine, ao minar os poderes por dentro do governo. Ravengar (na novela interpretado pelo genial Antonio Abujamra) é aquele político que sempre corrompe as estruturas governamentais nas quais participa – sejam conservadoras ou reacionárias, de Direita ou de Esquerda. O político corrupto apodrece o governo por dentro – é uma espécie de 'cavalo-de-tróia'. Não é o político que fortalece o governo, ao contrário, o político se nutre do governo – é um sagaz sugador de cargos e recompensas.


Mais perverso ainda – e mais explícito, por vezes – é o fidalgo soturno advindo das brumas da Romênia, o Conde Dracula. É uma personagem que fascina pelo sadismo, pelo deboche com o qual suga as suas vítimas – estando isento de culpa ou remoroso. O Dracula não sabe o que é amar, ele é frio e impassível, e se alimenta do sangue e do medo das vítimas. Não é um vampiro atribulado – tais como aqueles Lestat e Louis, das novelas de uma Anne Rice – mas um monstro devorador. Sem sutilezas. Obviamente, ele é refinado, tem pedigree, pois representa uma raça de nobres sugadores do sangue dos aldeões.


Deformados-Psicóticos


Temos os psicopatas, aqueles transtornados mentalmente, ou por deformidade física. Assim é o citado Hannibal, mas também o monstro de Frankenstein. Também os inimigos de Batman (o herói meio louco) que se destacam pelo delírio, pela demência, vide o Coringa, o Pinguim, o Charada, etc


Dementes e inconsequentes, os deformados se sentem rejeitados e devolvem a rejeição com mais crueldade. O monstro de Frankenstein não era cruel – era até uma espécie de 'bom selvagem' de Rousseau – mas ao ser desprezado pelos humanos, ele se torna gradualmente cruel e malévolo. Devolve o ódio com um ódio ainda mais funesto.


Pinguim (Penguin) é um deformado que anda igual a um pinguim da Antártida e precisa viver em ambientes frios. Não suporta os humanos pois os humanos não o suportam. Imagina modos de tornar o mundo habitável para ele – por exemplo, uma nova Era do Gelo – e pior para os humanos, i.e., nós, os bons cidadãos. Pinguim é uma espécie de artista do crime – igual a um Hitler – ao querer re-criar o mundo à sua forma e semelhança. Pior para quem não se adaptar ao clima de geladeira.


Não é diferente o Coringa (Joker) que ironiza tudo, até os criminosos. Aliás, ele deformado – ao ser derrubado numa caldeira de ácido – e demasiadamente paranóico, lunático, esquizofrênico, absurdamente risível e gargalhante. Mas se julga um artista, uma espécie de Dalí, de Picasso do crime organizado. Aliás, para ele, a Arte é por demais solene! O que merece a Monalisa além de um bigode pintado?


Para o Coringa o assassinato, o estupro, o crime, a agressão é uma das mais apetitosas diversões. O Coringa se diverte justamente com o que angustia – e desespera – o mocinho Batman. Tanto que, nos momentos de luta, ambos são cruéis e sádicos.


Para o psicopata-risonho Coringa o mundo não é uma tragédia. Nada disso. Pode ser uma comédia, até uma tragi-comédia. Uma comédia onde uns morrem e outros dão risadas. Uns lucram e outros moram debaixo da ponte. Pouco importa. É assim mesmo – vamos dar boas risadas! A existência merece boas gargalhadas sádicas e nada mais. Quando a piada não dá certo – basta usar o gás hilariante! Enquanto isso, Batman se automutila em desespero, torna-se tão sádico quanto o inimigo. O Homem-Morcego passa a ter prazer em espancar o gargalhante clown-do-crime. Em suma, o Coringa promove a carnavalização da vilania.


Para o enigmático Charada (Riddler) o mundo é um quebra-cabeças, um enigma onde uns acham a solução e outros a perdem. Melhor para os mais 'espertos', para os que sabem responder os enigmas, ou pagam o preço pela ignorâncias. Aos ingênuos, até as sombras são roubadas! Quando não se sabe a solução, a morte é certa. Uma palavra fora de lugar, uma senha incorreta pode levar o museu pelos ares. O Charada não gosta de violência – pelo menos no HQ – pois prefere a estratégia, os estratagemas, os enigmas. Mas do que bater na polícia ou no Homem-Morcego, o estrategista Riddler prefere tecer uma longa e desesperante intriga, com pistas falsas e portas sem saída.



Vingadores


Temos os vilões que devolvem as agressões que sofreram no meio em que vivem / viveram. Seja no seio da família, ou nas mãos do Estado. Assim é menino cigano Heathcliff adotado em “Wuthering Heights”; o monstro de Frankenstein (que não nasceu 'mau', mas foi rejeitado), também o deforme Pinguim, o deforme Mulo (de Fundação, de Asimov) que desenvolve um poder mental manipulador.


Heathcliff sofre as agressões do filho do pai adotivo Earnshaw. Sofre e somente tem o carinho da bela Catherine. Quando ele pode fazer tudo para arruinar a família adotiva ele nada hesita. Nem que Catherine e os parentes dela precisem sofrer. Afinal, ele sofreu. Então que os outros sofram mais.


Na trilogia de sci-fi Fundação (Foundation, USA, anos 1940-50) o Mulo resolve fazer os humanos normais sofrerem por não o aceitarem, com toda a deformidade de um corpo franzino e um nariz de polichinelo. Antes, ele parece mais um arlequim de festa carnavalesca. Mas o Mulo se faz passar por um poderoso e grandioso general que não hesita em desafiar as forças da Fundação – a mesma Fundação que derrotou forças imperiais (de um Império Galáctico decadente, convenhamos).


O Mulo domina mentalmente as vontades – não os pensamentos – e faz com que os maiores inimigos se convertam em seus maiores colaboradores. Quanto maior o ódio contra ele, o Mulo converte em submissão, em devoção. Os inimigos de ontem se tornam os puxa-sacos de amanhã. E o Mulo não nutre qualquer sentimento humano – aliás, é assim até conhecer uma das heroínas da trilogia. Ela se afeiçoa a ele e, assim, ele não tem coragem de manipular a mocinha.


Também se destaca o mutante Magneto (Erik Lehnsherr), cuja família sofreu com a Solução Final ou Holocausto (Shoah) nas mãos dos carrascos nazistas, e assim ao sofrer a crueldade, o jovem desenvolve o ódio. Erik, ou Magneto, vai descobrindo seus poderes sobre os metais e ligas metálicas, ao mesmo tempo em que possibilitam sua vingança. Enquanto o Professor Xavier (Professor X) se esforça por conciliar humanos e mutantes, numa espécie de 'concordata', o Magneto vai da 'guerra fria' até a guerra declarada. Se depender do ressentido Erik, os humanos serão exterminados e os mutantes herdarão a Terra.



E não podemos condenar Magneto. Ele é complexo demais – está no mesmo nível de Xavier (uma espécie de Mulo 'do Bem'), que só é mais tolerante. Aliás, tolerância possível devido a capacidade do Professor em sentir as dores e angústias alheias – inclusive as de Magneto. (Em dado momento da série, Xavier é obrigado a 'drenar' a consciência de Magneto.)


Em alguns momentos Magneto e Darth Vader têm um ponto em comum: o maniqueísmo não é suficiente para explicá-los. Magneto apenas retribui a dor que sentiu, enquanto Darth Vader – ex-Anakin Skywalker – conserva um afeto ainda oculto pelos filhos – principalmente Lucky Skywalker, a quem ele – o Sombrio Sith – deseja converter para o lado perverso da Força.


Também o mascarado V (de V de Vingança) é uma vítima do poder opressor e que se transmuta num justiceiro cruel, disposto ao terrorismo. Numa Inglaterra totalitária, onde os cidadãos são manipulados por uma espécie de Grande Irmão, onde a imprensa é manipulada e censurada, onde as forças de segurança são carrascos do povo, então se levanta um justiceiro com métodos um tanto quanto violentos. Se é para derrubar um regime violento então usemos métodos violentos. Afinal, Hitler não foi derrubado por um buquê de flores. Mas ao ser tão violento, o V transita de mocinho a vilão, ele não tem limites. Moral nada significa para ele. O que era para ser 'Justiça' torna-se um 'vingança' nua e crua. Com meia dúzia de justiceiros como estes não precisaremos mais de déspotas, ditadores, vilões de HQ!


Decadentes


Temos os vilões que decaem até a crueldade. Ou seja, eram 'bons' até que preferiram se aliar aos poderes malévolos. Assim o Anakin Skywalker que, ao entregar-se ao 'Lado Sombrio da Força', tornou-se o déspota cruel Darth Vader, em Star Wars. Assim o mocinho de hoje pode ser o vilão de amanhã. Sempre com sua veste soturna, a máscara ameaçadora, o andar marcial. Elimina os inimigos somente com a força da mente – estrangula, sem um gesto, os incompetentes, e sem hesitar.


Mas Anakin é o mocinho na primeira parte de Star Wars – filmada depois – enquanto é o vilão Darth Vader – junto com o Darth Sidious, ex-Palpatine – da segunda parte, quando os fiéis da República tentam resistir ao Império Galáctico dominado pelos Lords Sith, com sua exterminante Estrela da Morte – estação-espacial com poder destrutível para arrasar planetas!


Mas quando Darth Sidious ameaça a vida de Lucky, o malévolo Vader (ou Vater / Father?) acaba por se voltar contra o antigo mestre Sith e o elimina, lançando-o num fosso de energia.


Um ser eficiente numa etapa do enredo pode mostrar-se complicado em outra. Assim é o Javert – de Os Miseráveis – que passa a colocar a ética policialesca acima do valor da dignidade humana e dedica a vida a perseguir o ex-criminoso Jean Valjean, então um industriário bem-sucedido, um bom prefeito, um regenerado cidadão.


Assim também o agente da Matrix – o Senhor Smith – que torna-se tão 'eficiente' ao caçar o mocinho Neo até ao ponto de infestar o próprio sistema. É o policial que passa por cima da lei para prender o bandido – e assim se iguala ao bandido! O Agente Smith é um perigo para o protagonista neo e para o aparato da Matrix. O Agente acaba por se tornar uma espécie de 'vírus'. É irônico, pois ele, no início, considera os humanos como vírus.


Para o programa-de-computador Agente Smith, o ser humano é um vírus – sendo que, depois, o próprio Smith se tornará num vírus dentro da Matrix ! – e, por isso, devemos ser controlados e combatidos. Vimos antes que para Hannibal, o Cannibal, o ser humano é meramente item do menu, uma excentricidade do cardápio. Não estamos muito bem conceituados nos paradigmas dos vilões, percebe-se.


Anti-heróis


Temos até os anti-heróis, ou seja, heróis que não são exatamente 'virtuosos', ou vilões que até praticam o 'bem'. Um exemplo clássico é o Robin Hood, o 'príncipe dos ladrões', “que roubava dos ricos para dar aos pobres”. O bandido, com seu bando de 'homens livres', se ocultavam nas florestas, a esperar as carruagens dos fidalgos ao longo das estradas desprotegidas. Então eram alvos fáceis. Tecidos, pedras preciosas, carregamentos de marfim, chás, tabaco, queijos, enfim, tudo era confiscado para a 'causa' dos despossuídos. Para os pobres, Robin Hood era um justiceiro, mas para os ricos, os poderosos – que, na verdade, afinal de contas, contam a História – Robin é um vilão, um anti-herói.


Outros anti-heróis 'transitam' ambíguos entre a identidade de mocinho ou vilão – vide as personalidades atribuladas de Bruce Wyne, o Batman, e de Logan, o Wolverine. Estes facilmente atravessam as fronteiras da ética em nome da 'Justiça'. Querendo desesperadamente justiça, tanto Batman quando Wolverine, ou Wyne ou Logan, não pesam questões morais e acabam por agir tão perversamente quanto os vilões – seja na série Dark Knight seja na série Os Novos Vingadores de X-Men.


Enquanto opositores, os vilões agem para explicitar muitas facetas dos mocinhos que dificilmente seriam perceptíveis senão fosse diante da oposição. Muitos bons mocinhos se desesperam, se enfurecem, diante do antagonista e as 'boas intenções' murcham. O Batman quando precisa combater o Coringa, numa busca de 'justiça', o homem-morcego mostra-se tão cruel quanto o palhaço-assassino.


Sem os vilões – verdadeiras 'pedras no meio do caminho' – os mocinhos não seriam capazes de desenvolver todas as potencialidades e mostrarem o quanto são 'bons mocinhos' (ou revelarem o quanto não são 'bons mocinhos'), pois somente a adversidade, o obstáculo, a superação das dificuldades movem as tramas de vicissitudes das obras ficcionais, as peripécias dos enredos, seja em literatura, fábulas, teatro, HQ, cinema, RPG. Em suma, sem a maldade da bruxa-madrasta pouco saberíamos da bondade da fada-madrinha.


Set/11

Leonardo de Magalhaens




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Os Vilões (uma lista mínima...)


Teatro

Iago (de Othelo)
http://en.wikipedia.org/wiki/Iago
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Edmund (de King Lear)
http://en.wikipedia.org/wiki/Edmund_(King_Lear)
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Rei Claudio (de Hamlet)
http://en.wikipedia.org/wiki/King_Claudius
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Lady Macbeth (de Macbeth)
http://en.wikipedia.org/wiki/Lady_Macbeth


Livros / cinema

Robin Hood (personagem)
http://en.wikipedia.org/wiki/Robin_Hood
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Heathcliff
http://en.wikipedia.org/wiki/Heathcliff_(Wuthering_Heights)
meu ensaio
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2010/05/sobre-o-morro-dos-ventos-uivantes-1-de.html
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Javert (de Os Miseráveis)
http://en.wikipedia.org/wiki/Javert
meu ensaio
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2010/06/continua-o-ensaio-sobre-os-miseraveis.html
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monstro de Frankenstein (de Frankenstein, Mary Shelley)
http://en.wikipedia.org/wiki/Frankenstein
meu ensaio
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2010/11/sobre-frankenstein-de-mary-shelley-13.html
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Conde Dracula
http://pt.wikipedia.org/wiki/Conde_Drácula
meu ensaio
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2010/12/sobre-dracula-de-bram-stoker-23.html
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O'Brien (de 1984)
http://en.wikipedia.org/wiki/O
meu ensaio
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2011/07/sobre-distopia-1984-de-george-orwell-12.html
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Mulo (ou Mule)(de Fundação, Asimov)
http://en.wikipedia.org/wiki/Mule_(Foundation)
meu ensaio
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2011/05/sobre-fundacao-de-isaac-asimov-13.html
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Sauron (de Senhor dos Anéis)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sauron
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Hannibal Lecter (de Silêncio dos Inocentes)
http://en.wikipedia.org/wiki/Hannibal_Lecter


Cinema

Darth Vader / Darth Sidious
(ambos de Star Wars)
http://en.wikipedia.org/wiki/Palpatine
http://en.wikipedia.org/wiki/Darth_Vader

http://www.youtube.com/watch?v=mv9G9rwWihg

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Agente Smith (de Matrix)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Agente_smith


Fábulas

A Rainha Má (madrasta de Branca de Neve)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Branca_de_Neve


HQ / comics / graphic novels

Coringa (ou Joker)(de Batman)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Coringa_(DC_Comics)
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Lex Luthor (de Superman)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lex_luthor
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Magneto (de X-Men)
http://en.wikipedia.org/wiki/Magneto_(comics)
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V de Vendetta
http://pt.wikipedia.org/wiki/V_for_Vendetta


Anime

Gargamel (de The Smurfs)
http://en.wikipedia.org/wiki/Gargamel
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Vingador (de Caverna do Dragão)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Dungeons_and_Dragons_(série_animada)

Mumm-Ra (de Thundercats)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_personagens_de_ThunderCats#Mumm-Rana


Novelas

Odete Roitman (Vale Tudo, Rede Globo, 1988-1989)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Vale_Tudo_(telenovela)
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Ravengar (Que Rei Sou Eu?, Rede Globo, 1989)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Que_rei_sou_eu
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Conde Vlad (Vamp, Rede Globo, 1991-1992)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Vamp_(telenovela)






LdeM


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sábado, 27 de agosto de 2011

sobre EGO EXCENTRICO - de Makely Ka









sobre a obra EGO EXCÊNTRICO
(Selo Editorial, 2003)
do poeta e músico Makely Ka


O ego-centrismo do poeta é mera ilusão


Parte 1



O poeta enquanto uma figura anti-convencional já é convencional. Espera-se que o poeta seja um cidadão estranho, excêntrico, que ande trajado de forma esquisita, que diga coisas fora de órbita, que deixe marcas de dedos e versos em fina cristaleira de certa festa de família, onde todos se esforçam para serem bem exóticos, e saírem nas capas de zines neo-anarquistas com direito a foto 3X 4 no fichários das mocinhas rebeldes de piercing e MP3 a tiracolo.


Ou seja, a poesia enquanto transgressão já é do establishment. Quando o poeta acha que está sendo surreal, aparece um tipo com tatoo na ponta do nariz e um pedaço de madeira do tamanho de uma rolha na orelha. O poeta fica ali sendo o mais careta, o mais retardado de toda a festa, aquele que deu uma escapada até a biblioteca da família para ver se encontrava uma antologia poética do Leminski.


Sabendo-se mais um na multidão, o poeta precisa inventar o super-eu (quando não o próprio Übermensch), o ego-cêntrico ponto de referência de sua pálida existência meio as multidões de (des)iguais que povoam as ruas de fuligens. Precisa achar que somente ele viu algo que ninguém viu outrora, algo inalcançável ao mais comum dos mortais, o cidadão-comum, o habitante vegetativo de nossas cidades hodiernas. Sim, aquele ser que come, bebe, defeca, reproduz-se, constrói casas (ou 'castelos' com verba pública), e depois morre, e espera ter direito a um túmulo com epitáfio compensador.


O poeta tem náuseas de imaginar-se comparado com o cidadão-comum, por isso inventa sua 'torre de marfim', por isso se isola, por isso é excêntrico, por isso se afoga no cotidiano, de repente nem sabe como sacar dinheiro no caixa eletrônico e precisa da ajuda de uma funcionária (isso vive acontecendo...), e assim precisa recorrer a uma cidadã-comum, que trabalha a espera das 17 horas para embarcar no ônibus para a periferia.


Assim, o ego do poeta, por genérico, do artista, é uma fabricação do ser que se imagina superior, que se imagina com a verdade, é uma mera ilusão, uma ficção que serve de 'defesa psíquica', um doentio processo de complexo de superioridade a nascer de um complexo de inferioridade, tipo um 'mecanismo de compensação' (sejamos bem psicologicamente dizendo exatos e científicos, quando não acadêmicos), tipo quando não se consegue conquistar aquela mocinha, e vai escrever um soneto perfeito, ou quanto não consegue convencer meia dúzia de revoltados a fazerem a esperada Revolução, e vai para casa escrever um Manifesto lírico e cheio de auto-indulgências.


Esse prólogo todo é para tentar (finalmente?) digerir a leitura da obra EGO EXCÊNTRICO que muito me proporcionou indigestão e insônia, desde quando a abri em 2004, por dádiva do autor, o poeta e músico (mais reconhecido como músico do que como poeta, segundo alguns) Makely Ka, artista erudito e marginal, deslocado e integrado, algo apocalíptico e didático. Quem vê acha que é um mendigo, mas o poeta e músico é professor de Filosofia. Impressão que sempre me desconcertou.


Esbanjando auto-conhecimento, algo irônico, algo cínico, o autor mostra um desnudamento desde a capa, com seu belo e onipresente umbigo, oniscentrado e decorado de pêlos, num volume que em passo de caranguejo vai andando para trás, tipo aqueles mangás japoneses, ou livros em hebraico. O livro é para se ler assim, backwards geral, no compasso da desconstrução, a meros dez minutos do fim deste ensaio. Com o umbigo na capa logo sabemos do que se trata, qual a intenção (ou tensão) que fica disso, “que significa isso, que signo que fica disso?”, onde o poeta fala de si mesmo em 3ª pessoa, ora singular, ora plural, ora publicando classificados à procura de (des)semelhantes.


Deixei para escrever e publicar esta crítica-ensaio agora, não porque o livro seja menos importante, mas devido ao fato de ser o mais exigente, em termos de texto e contexto. O poeta não está brincando e muito menos o crítico. O autor exige um leitor com estômago (e umbigo saliente) para uma troca de mensagens um tanto quanto indigestas, e quem não quiser, “pode sair pela porta que está aberta”, pois “aqui ninguém é obrigado a ficar”.



Parte 2


Desde o início o autor está sobrando, de tanto falar nele mesmo, ele só fala do EGO, da imago/imagem nos espelhos dos olhares, o Eu que sempre existe para os outros, até quando estamos entre quatro paredes, diante do espelho, transando consigo mesmo no escuro. O próprio pensamento em um Eu a conversar com Outro, uma linha escrita já espera um leitor. O autor, depois da escrita, é total descartável. O autor sobra, realmente.



o autor não possui caráter nem escrúpulos
o autor plagiou seus próprios poemas
o autor é uma farsa do poeta
o autor não compareceu ao lançamento
de seu próprio livro


o que já soa como uma paródia de “o poeta é um fingidor”, verso clássico de Fernando Pessoa, quando o autor ego-excêntrico declama que “agora vou mentir / tudo o que sinto / fingir vai ser a verdade / do que minto”, mesmo que alguns se incomodem, se sintam ofendidos, enganados, comprando gato por lebre, no livre mercado dos bens de consumo lírico, na feira da indústria cultural. O poeta vem desafiar, sendo o “grande iluminado”, com o seu velho probleminha do ego inflado, pois “é que nunca fui mesmo muito modesto / sou é um tanto quanto desbocado / porque sou poeta / falo o que tem de ser falado” .


Tendo a verdade no bolso e debaixo do colchão, poeta sai declamando seu universo, com o poder que nem o Rei Sol, Louis XIV teve (aquele que dizia “O Estado sou eu, L'État c'est moi”), com a beleza egocêntrica que nem narciso, afogando em si mesmo, “agora que sol / eu mesmo / nos olhos o brilho de narciso / sou único”, como a apoteose da auto-ilusão do poeta de julgar além-do-ser-social, além do construto espaço-temporal, além da socialização-primária-secundária, educacional-didática-prisional, que todo ser social, todo cidadão, registrado ou não, laureado ou não, está submetido.


Sua profissão? Ser poeta? O que faz o poeta? Cultiva erva... daninha, “poemas brotam / como erva daninha", nos jardins do pensamento, do sentimento, da revolta, enquanto torce o nariz para a crítica, “para amargar um poema bastam alguns críticos dementes”, como se toda crítica fosse perseguição, coisa repressora, censura ditatorial. Esquece que o crítico é o leitor-mor,o leitor par excellence, que debruça-se sobre texto e contexto e tenta visualizar (senão vivenciar) o estilo e os delírios do autor.


Pois o autor precisa de um leitor? Não? Despejando-se pelos classificados, como mostram os recortes de jornais de 2003, onde o poeta em busca de alguém mais, tece uma ironia com o próprio fazer poético. Ou se tornando 'desqualificado', ousando algo de Concretismo, de Cubismo, sendo 'incompreensível para as massas', tal como a acusação que selou o destino de Maiakóvski, ou o desvario de um Apollinaire, o futurismo apressadinho de um Marinetti, com a exploração de sonoridades, dos fonemas, dos russo-poloneses e afins, “uns dias leminski, outros maiakovski”, sempre com brechas para o poeta-provocador (nunca abraçando o leitor como faz um Whitman), “escarro meus versos sobre vocês / homens de alumínio / meu intuito é oxidar / suas conjunções perfeitas”.


Está claro que o autor não quer simpatia (se sentiria ofendido tal um Nietzsche!), não quer empatia (seu super-Ego não suportaria!), o autor quer se desnudar, porém insistindo em cuspir nos olhos do leitor voyeur, em poemas-dramas, em clima noir, de filme B, em quase-haicais na penumbra, invocando espíritos de Mishima, Georg Trakl, Emily Cioran, Álvaro de Campos, Isidore Ducasse (aka. Conde de Lautréamont), F. Kafka, Borges, Augusto dos Anjos, só para tecer versos 'de amargar', em poemas irônicos e eróticos, em insinuações de entrelinhas, sugestões, sinestesias,


Assunto seu silêncio vasto
no ato mínimo dos lábios
presto muita atenção
ao movimento vago de suas mãos


Sem perder o sarcasmo com seus “haicais e hentais”, deixando claro que “os poetas são inacessíveis / sensíveis / sensatos”, incapazes de traduzirem e serem traduzidos (sabendo-se que 'tradutori, traditori'), meros Traditores, traidores-autores, falsificando a vida com o instrumento maquiavélico da literatura (“a literatura estragou tuas melhores horas de amor”, escreveu Drummond), por isso o autor logo esclarece,


literatura o caralho / eu faço poesia / porra!
mas teme estar errado, mas o que importa,
ai me disseram / mas isso assim não é poesia
eu disse / foda-se



Parte 3


Sabendo que antes,nos tempos de outrora, música e poesia eram uma coisa só, não apenas irmãs xipófagas, e que uma posterior distinção música e poesia é pura ficção didática (como bem perceberam os simbolistas,com o mote “a música antes de tudo”, De la musique avant tout chose), o poeta e sobremaneira músico Makely Ka alia novamente olhos e ouvidos, nas “canções de ouvir com os olhos”, uma trilha sonora de poemas sonoros, muitos já musicados (com instrumentos, quero dizer) por Kristoff Silva, Envil fx, Pablo Castro, Renato Vilaça, nas vozes de Maísa Moura e Alda Rezende, novos nomes referenciais da refinada MPB aqui da terra do Clube da Esquina.


Contudo, volta-se o excesso de metalinguagem, onde o poeta sempre se legitima (ou procura se legitimar) em provocações, o que soa constantemente pedante, uma vez que o poema se legitima por si mesmo, dispensa panfletagens e grafitagens.

minha rima é ritmada
meu discurso é frontal
a poesia é uma porrada
e a anarquia total

e ainda o ego excêntrico 'mandando bala' nos desavisados, 'mandando bronca' nos incautos leitores (os mesmos que devem roubar o livro caso o encontrem numa megastore - será que as Americanas venderiam o livro?), num desnudamento de Eus que perde toda aquela singela espontaneidade do Whitman, ou a fotocópia desfocada dos poetas beatniks, meros imitadores do profeta de Paumanok.


meu umbigo egoísta
gosta de tudo que pisca
...
quanto mais eu me imito
mais a mim eu me assemelho


além de uma aceitação da pluralidade cultural, da diversidade de povos, que pouco transcende os mil rótulos classificatórios da 'racionalidade instrumental' na 'indústria cultural' (Adorno),

há muitos eus dentro de mim
uns judeus outros palestinos
caldeus e nordestinos
...
dentro do ovário eu fui vários
óvulos em códigos binários
gerando livros ordinários
na órbita dos meus eus imaginários


acima não mencionamos os poetas beatniks gratuitamente, estes poetas desvairados on the road, que mui influenciaram o autor, quando nos deparamos com uma confábula surreal, inspirada em The Fable of Final Hour ( “A Fábula da Hora final”) do poeta norte-americano Dan Propper, aqui denominada UMA CONFÁBULA, que confessa claramente a paródia/plágio,


a dois minutos dos últimos acontecimentos, o escritor norte-americano dan propper
declarou à folha de são paulo ter sido copiado e deturpado por poetas mineiros
irresponsáveis. A despeito do protexto (sic!) de seus editores, fez questão de deixar
claro que era totalmente favorável a esse tipo de iniciativa;


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o poema de Dan Propper em tradução, vejam aqui
http://devolucoes.com.br/wp-content/uploads/2010/11/a-fabula-da-hora-final.pdf
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Iniciativa na qual me incluo quando escrevi paródias de textos Fernando Pessoa (Ode Triunfal e Saudação a Walt Whitman), Vinicius de Moraes (O Dia da Criação) e Allen Ginsberg (Howl /O Uivo), onde a paródia serve como expressão e tributo as leituras de acabam por inchar nossos cérebros juvenis, exigindo imediata extra-vasão, pois enquanto “as cisternas contem, as fontes transbordam” (Blake), e tradução-paródia é sempre mais que uma apropriação do estilo, é a re-criação (que ajuda a divulgar o autor original, claro) Quantos não passaram a conhecer Whitman (eu mesmo confesso) na leitura dos poetas beatniks? E agora quantos não vão conhecer o Propper através dessa releitura do Makely?


Assim, somente para tentar concluir (pois a obra é vasta) destaco outra gaveta no corpo da magnum opus, onde em “poemas em voz alta” domina aquele esperado poeta verborrágico e transgressor, cuspindo na 'platéia' (que diz “não vou discutir com você, cara”)


se escrevo é porque preciso
ninguém tem nada com isso
quase tudo é de improviso
isso é o mais importante


esclarecendo que não faz versos gratuitos, “Não faço versos por acaso”, “A poesia cobra seu preço / não vem de graça / exige esforço”, valorizando para melhor 'vender o peixe', mas ao mesmo tempo em indagações, o que significa que leva a platéia em consideração!, “A poesia serve pra quê? Alguém aqui pode me dizer?”, somente para responder,


Não disseram que a poesia alimenta a alma do homem?
A propósito a quanto tempo você não come?


E muita gente por aí sem comer (nos três sentidos!) que desconhece o que seja poesia, e muita perplexa vai ficar quando com essa obra se deparar! Não é um texto difícil, às vezes até musical, mas muito árido, golpeando no baixo ventre, em direta de direita no plexo solar, marretando quem lê, com a delicadeza de uma luva de ferro, desentranhando desassossegos em desabafos ritmados e rimados, em muita crítica, porém sem soluções. Em Ego Excêntrico, o autor Makely Ka quer mesmo é desabafar.


Ainda bem que a obra é maior que o autor, sim, depois de pintar, escrever, compor, esculpir, o pintor, escritor, músico, escultor, é descartável. Podem ir para as Bahamas e deixar por conta da indústria cultural. A obra sobreviverá se assim merecer (ou se assim for lucrativo para alguns) e gerações futuras serão obrigadas a tomar conhecimento (nem que seja para o currículo escolar ou prova de vestibular). Mas quando, infelizmente, não há muito que se dizer sobre a obra, quando a obra não diz de si mesma, quando não há mais a obra, então se fala muito do artista.


Mais sobre a obra do Makely Ka



Jan/fev/09

revsd: ago/11




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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

2 poemas de Emerson Mário Destefani










Êxodo


Como levar aquilo que não existe mais?



Os verdejantes cafezais abotoados de rosetas brancas
As perobas fantasmas
As onças extintas
O alarido dos últimos pássaros que habitavam as brenhas
Como levar a textura rubra da argila?




No caminhão colocou duas velhas camas,
uma mala de sacos, suas ferramentas,
uma prateleira de tábuas,
cadeiras alquebradas e um fogão carvoento
Diluídas em meio aos utensílios
colocou suas exíguas esperanças,
sua família, o cão e a mula,
sua raiva, seu desencanto




Antes de partir
Sufocou um soluço
Pela dureza da constituição de homem rude
Forjado na terra
Filho do chão, grão de solo




Como levar o que não existe mais?







Emerson Mário Destefani




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Heroísmo




Nossos heróis não têm punho de ferro nem peito de aço
Não lançam fogo pelas mãos nem raios pelos olhos
Não flutuam, não voam, não escalam edifícios!
Nossos heróis não ficam invisíveis nem são eternos
Não são metálicos, fluidos ou atômicos!
Não atravessam paredes nem adivinham o futuro
Não viajam no tempo nem são invencíveis!
Não têm a força de um tanque nem o poder de um foguete
Nem podem destruir cem inimigos com um único golpe!
Não... Não temos heróis assim!



Nossos heróis precisam comer, beber, respirar e dormir.
Nossos heróis estão nas fábricas torneando peças
Montando carros, computadores, sofás e geladeiras!
Estão no volante de um trator, num balcão, nas oficinas e
armazéns!
São lavradores, enfermeiros, coveiros, professores e estudantes!
Nossos heróis cortam cana, recolhem lixo, assentam tijolos, lavam roupas!
Vendem alface, fazem pão, riem, choram, votam e são assaltados.
Nossos heróis pagam impostos, ficam doentes e perdem o emprego!
Mas continuam de maneira visceral a criar, com seu
heroísmo, para este país,
Nossos futuros heróis!




Emerson Mário Destefani

(Maringá/PR)



Fonte: embalagem PÃO E POESIA






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seleção: LdeM


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domingo, 14 de agosto de 2011

sobre Selva Selvaggia - de Ronaldo Werneck









Sobre Selva Selvaggia (1976; 2005)
do poeta Ronaldo Werneck


Um Roteiro explícito do Poeta enquanto Leitor


A Crítica


A questão do texto e contexto


Uma coisa é o texto, a coisa, o produto; outra é o contexto, as condições de produção da coisa, a saber, onde foi produzida? Quem produziu? Com qual propósito? Afinal, a Arte não surge do nada.

O contexto seria a moldura do texto, o que está fora, ao redor do texto. Enquadra e dá sentido global – mas não determinante. Pois pessoas de outra época e outro lugar podem ler a obra, ainda que produzindo novas interpretações.

As Viagens de Gulliver” no século 20 tem uma leitura diversa daquela do século 18, outra época, outros costumes. O autor, imerso em sua própria época, desejava ironizar, satirizar personagens que são hoje desconhecidas. A Obra é a mesma – e não é. Recebe outro olhar – devido ao fato de haver outros leitores. Daí o terceiro item – além do Texto e do Contexto – temos a Recepção, a plateia diante da obra-de-arte.


Os Novos Críticos se preocupavam com o texto, numa leitura imersa em parâmetros textuais, sem dispensarem atenção aos eventos da época e dados biográficos do/a autor/a.


No campo oposto, os Novos Historicistas insistem na fórmula texto E contexto, que toda obra de arte tem um lugar e um tempo, não pode ser vista de modo isolado.


Quanto a importância do Leitor, daqueles que vão receber a obra – e interagir com a mesma – em qualquer época ou lugar, daquele que recebe a mensagem, tal importância é o centro dos estudos da Estética da Recepção, que focaliza a Leitura, como um aspecto construtivo-interpretativo, onde o leitor colabora ativamente para 'revivificar' a obra. Sem o leitor, um livro é apenas um livro empoeirado na estante.

A interação entre os três pilares – Texto, Contexto, Leitura – onde o Autor seria aqui o ser que em dado contexto que materializa o texto, daí dizerem que houve uma 'morte do autor' – surge a Obra re-presentificada a cada olhar. A cada contexto do Leitor a interagir com o texto-contexto do Autor surge uma 'nova' Obra que a 'mesma' Obra. É o milagre da Literatura: afinal, existem tantos “Viagens de Gulliver” quanto leitores de “Viagens de Gulliver”.


A Obra

Contexto

O contexto de “Selva Selvaggia” é aquele dos anos 1970. O livro de Ronaldo Werneck, mineiro de Cataguases, “lembrai-vos dos Ases de Cataguases”, é de 1976, portanto 35 anos no passado. Da mesma época de CDA com trocadilhos irônico-amargos; dos poemas-jogos-de-palavras de Affonso Ávila; dos poemas-manifestos de Affonso Romano de Sant'Anna. E época de muita metalinguagem.


Vejamos outras obras da mesma época. O “Poema Sujo” (1976), de Ferreira Gullar, é muito datado. Temos que pensar a obra numa determinada época. O que acontece com “A Rosa do Povo” (1945) de Carlos Drummond de Andrade, cujos poemas têm por moldura os eventos do Estado Novo inseridos na Segunda Guerra Mundial. De Affonso Ávila temos duas obras importantes dos anos 1970, “Código Nacional de Trânsito” (1972) e “Discurso da Difamação do Poeta” (1978), sendo este mais metalinguístico e irônico, e aquele mais contextual, o 'conserve-se à direita' do regime militar.


conserve-se à direita

converse às direitas

como os cegos à direita

com o verso às direitas

como servo à direita

com os seus às direitas

como os sérios à direita

com o sexo às direitas

confesse-se à direita

com os céus às direitas


Fechando os anos 1970 temos “Que País é Este?” (1980), de Affonso Romano de Sant'Anna, como uma digestão dos acontecimentos trágicos e irônicos da Ditadura Militar e da abertura política para a Nova República. Em suma, são obras que dependem de um conhecimento prévio da época – isto é, do Contexto - para serem melhor 'digeridas'.

Diante disso, pensemos: qual o valor de Selva Selvaggia hoje? É obra que depende de um contexto, ou o transcende?

Eu discordo da crítica do crítico e literato Domingos Pellegrini Jr. - a melhor crítica publicada aqui, pois é o único que realmente leu o livro – quando ele ataca os trocadilhos próprios de vanguardas, ou quando despreza Mallarmé na malha de intertextualidade. Nem acho que deva existir coerência interna, um ordenamento, aliás, a poesia não é lugar de ordenamento, mas de expressão livre. (Deixemos os ordenamentos para os burocratas e governantes, que nem isso eles fazem direito.)

Eu concordo com Pellegrini Jr. quando mostra o quanto o poeta se explica, tenta se justificar (será insegurança?), se mostrar conhecedor dos tramites poéticos. Afinal, em 1976, o autor tinha 33 anos, entendemos. Insegurança (se é que havia) que não existe mais.

Há um excesso de metapoema, com excessiva metalinguagem, o que até nem seria culpa do autor, mas do Zeitgeist, o 'espírito da época', que marca o início no Brasil – com dez anos de atraso? - do pós-modernismo: a ânsia de desconstruir, de mostrar os bastidores, quando o poeta exibe as ferramentas de seu ofício, a polir metáforas e azeitar metonímias, a desenferrujar sinestesias. Prato cheio para os poetas-teóricos concretistas.

É o drama risível da voz textual que desvela as tramas do texto, de um texto que se desnuda diante do leitor, coisa que percebemos – e toleramos - desde Mallarmé, o poeta que fala sobre... a poesia!

No mais, eu concordo mais com a 'estética da recepção', uma escola mais centrada no leitor, segundo percebemos nas obras de H. R. Jauss e de W. Iser, alemães que muito devem aos fenomenologistas alemães e franceses (Husserl, Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty, etc) nos estudos da percepção, na interação do subjetivo e do objetivo, o mundo interno interagindo com o mundo externo.


Bem, a Estética da Recepção. Os leitores são gregos e são troianos. É impossível agradar a todos. Não se pode servir a dois senhores. O que agrada a X pode não agradar a Y... O que o crítico Pellegrini Jr. lê não é o que o poeta Moacy Cirne lê. O primeiro desconfia do 'formalismo', do concretismo, enquanto o segundo elogia a expressão visual. Mas concretismo não é exatamente um quadro feito com letras, ou cartaz soviético. É outra coisa. Que só os irmãos Campos sabem.


Ou o vício do poeta enquanto leitor. O mesmo vício de Antônio Miranda, que é o mesmo de Roberto Piva, que é o mesmo de Affonso Ávila. Parecem incapazes de escrever uma linha – um verso – sem citar e/ou fazer referência a outro poema de outro poeta (de preferência, famoso). Ótimo, tal intertextualidade mostra leitura, farta leitura. Certo. Mas o que tem o próprio poeta a dizer?


A questão da intertextualidade


Há a citação sutil, digerida, e há a citação marcada, até com 'aspas'. Há o excesso de citação – daí ser difícil ler alguns poemas do mesmo modo que certas 'pérolas' de Marianne Moore e Allen Ginsberg. Autores que demonstram uma leitura farta e onívora – e tudo é despejado na escrita.


Tal leitura e canibalismo – viva a Antropofagia! - em pastiche, em ironia, em homenagem é compreensível e tem ótimos exemplos de sucesso literário. Contudo nada tem de originalidade. Desde que o mundo é mundo os eruditos de citam, se roubam, se deturpam mutuamente, fraternalmente, cinicamente. Não se cria algo novo, exceto uma colcha de retalhos, um poema-frankenstein.


O poeta parece sofrer de uma 'angústia da influência (diagnosticada pelo scholar H. Bloom), aquela síndrome do autor enquanto leitor, que tudo lê e depois tenta digerir as leituras ao produzir mais textos. Já comentamos as obras de Roberto Piva, de Antônio Miranda, de Lecy pereira Souza, dentre outros, todos obcecados, interpenetrados, pela intertextualidade.


E o poeta sabe disso tudo. Ele próprio esclarece que se trata de 'diálogo'. Deve ter lido Bakhtin, com o famigerado 'dialogismo'. Para nós, em bom português, é 'tudo se copia'. E passa longe de ser um fenômeno do nosso Antropofagismo latino tropicalista. Os poemas de Ginsberg são cheios de referências e digressões nada originais que até , em certas edições, são acompanhados de notas explicativas.


Aqui na obra de Ronaldo Werneck as notas explicativas 'de pé de página', 'de rodapé', acabaram por se tornar uma verdadeira obsessão. Ele parece complicar justamente para explicar ao leitor o que se passa, de onde veio o poema, o que ele queria dizer, em suma, ele tenta explicar tudo, a origem das citações, as influências, as dedicatórias, parece o teórico close-reading explicando a gênese textual.


Será a tarefa do poeta explicar os próprios poemas? e o que pretende dizer com cada um deles? Como pode ele controlar a 'recepção' dos leitores com prévias informações? Ou deseja deixar tudo 'claro' para o conforto do leitor?


O caso é que as notas não permitem ao leitor divagar, tentar desvendar o mistério, procurar as fontes, as influências, as obsessões, em suma, o universo de leituras do Autor. De antemão tudo já é explicado, demasiadamente explicado. Com certeza, é culpa dessa obra de agora a revisitar o passado. O excesso de notas não existia na 1ª edição, como se constata.


Quando o romance “Encontro Marcado”, do mineiro Fernando Sabino, foi reeditado nos anos 1980, passou a incluir em anexo – nas páginas finais – dezenas de notas sobre as citações e referências. Um mapa das minas! Outros exemplos de excessos de referências não faltam. Ainda mais em edições críticas. A edição crítica de “Great Gatsby”, de Fitzgerald, com todas as referências é engrossada com um quinto do livro original. Sem falar nas dezenas de livros sobre as referências e estilísticas no labirinto textual do romance “Ulisses” de James Joyce. Ou seja, a literatura que recicla peças literárias.


Convenhamos, a obra poética de RW é volumosa, interessante, divertida, erudita, genial, explicita um bom leitor, mas não é original. Até a disposição dos versos na página em branco – que outros críticos elogiam – nada tem de surpreendente. Até o título 'bem sacado' – o próprio autor revela – é tirado dos versos iniciais da “Divina Comédia”, do italiano Dante, que por sua vez se inspira em obra anterior, escrita no exílio, e nas epístolas de Paulo,



Ah quanto a dir qual era è cosa dura,

esta selva selvaggia e aspra e forte,

che nel pensier rinnova la paura!


O poema na página. Disseminar palavras pela folha? Nenhuma originalidade. A disposição de versos – fragmentados, soltos, dispersos, etc – vem desde Mallarmé, passando por Apollinaire e Maiákovski, e levado ao ápice e auto-fagocitose em peças concretistas. Nos anos 1960 e 1970 temos esse fenômeno nas obras de Ferlinghetti, de Ferreira Gullar, de Affonso Romano de Sant'Anna. No máximo a plena ocupação do 'branco da página' – em linhas dispersas, descendentes ou ascendentes – alivia um pouco o peso do conteúdo.

Ao menos, ler um poema derramado na página não se assemelha a ler uma coluna de jornal impresso. Apenas isso. Quando se lê o poema em voz alta não se lembra de qual 'espacialização' ele ocupava na página.


No mais, os poemas pouco dizem. Mas brincam com as palavras, exibem 'cerebrações' (raros são emocionais, espontâneos), contorções sintáticas e semânticas, mais ao espírito lúdico do que mensageiro. Alguns exemplos de jogos de palavras, ao estilo Affonso Ávila, com deslocamento e/ou corte de palavras, costuras, vocábulos assemelhados por grafia e/ou sonoridade,

“ urro de lucro / jogo do logro … gosto do malogro” (p. 96)

e “soluço / luxo / lixo” ou “pronto / pranto” (p. 328)

ou ainda “macio / cio” ou “norte/ noite/ morte” ou “brilho / trilho”, ainda “narciso / sorriso” (p. 341)

ou 'desconstruindo' as palavras para construir outras, “decifra-me / dessofra-me / dissolva-me” (p. 400)


Aqui a poesia enquanto jogo de palavras, não de ideias? (voltemos à Mallarmé...) Hoje em dia os poetas 'jogam' com as palavras e dizem nada.

Ainda que tenhamos aqui um conteúdo, um 'algo a mais' que o 'jogo de palavras'. Nesta obra – e na poética - de R. Werneck podemos perceber as relações entre Poesia e Cinema. Assim como em outros poetas entrelaçam-se Poesia e Teatro, ou Poesia e Música.

Da linguagem cinematográfica podemos 'adaptar' alguns termos para a própria crítica – cortes, descrições, percursos figurativos, closes e panoramas, mudanças bruscas de perspectivas, conexões explícitas ou nem tanto , alterações da ordem cronológica, com flashbacks, previsões, reversões, etc.



Intertextualidades:
ensaio sobre a poética de Antônio Miranda
http://www.antoniomiranda.com.br/ensaios/sobre_memorias_infames.html

ensaios sobre a poética de Roberto Piva
http://leoleituraescrita.blogspot.com/2011/07/sobre-poetica-de-roberto-piva-ensaio-1.html

http://leoleituraescrita.blogspot.com/2011/08/sobre-poetica-de-roberto-piva-ensaio-2.html




Os poemas


Podemos destacar em Selva Selvaggia 17 poemas. Peças poéticas com notas 9 e 10, segundo os critérios de clareza; compasso forma-conteúdo; superação do contexto, ser assim atemporal e não um produto datado; influência sobre o leitor, a capacidade de afetar/ comover; em suma, a materialização em poema do fenômeno poético.

Na leitura pouco valorizei os poemas metalinguísticos – com raras exceções – por motivos que já apontei em ensaios interiores (e que se resume a indagação: 'será que os poetas não têm outro assunto além da própria poesia?'), mais preocupado com os critérios citados.

Como o livro se estrutura como um plano em sequências, numa fita de cinema, destaquemos alguns poemas em cada sequência.

Na Sequência 1, temos o poema “panem et circenses” (p. 247, p. 28 no livro original de 1976),


palavra pão coti / diano em ano / panaceia cota



bordado em pó e pano / ceia e um só coti / diano em ano ver
só um só me de / forma e fundo / pão e circo


belas imagens de descrição em “canto da concepção” (p. 251), onde a paisagem existe apenas na interiorização do Eu-lírico, o exterior só existente na sensibilidade interior, como percebemos nas obras de Virginia Woolf e Clarice Lispector,

das dunas das brumas”, “súbita noite de estrela e sono”, “a noite se dissolve” (e não dissolve os homens, como diria CDA)


Em “Viagem” (pp. 252-53) encontramos um interessante metapoema, que explora a sonoridade a la simbolismo (“Antes de tudo, a música”, Verlaine),

vai meu poema / ébrio de lama / e flama l'azur



vai meu poema / cresça sobre o esperma
de meu pasmo atônito / branco do lábio encanto
brando em lado espanto


Em “Limericks” – mais explorações com a palavra com propósitos lúdicos, “som / sol”, “boca/ louca”, “dentro / centro”, “voz/verso”, que podemos comparar com “canto da concepção” e “Viagem” sobre os limites do canto do poeta,


ah mas essa glória brilhuzindo / esse gran falar solto na garganta
quando não é hora certa / viu, poeta? /
esse canto entope engasga e não adianta


Vamos para a Sequência 2, onde destacamos “Teares” (p. 256), com suas assonâncias, aliterações, ao lado de metonímias,

como desfilar / desvios dessofrer
esse tênue tecido / em constante fabrico?



o sol torto / o sim corpo / fio-fascínio
sonda / terna tepidez trazida
na crista / da mais alta onda


Na Sequência 3 muita repetição dos mesmos truques e malabarismos que 'deram certo' nos primeiros poemas, mas 'perdem efeito' em outros. Destaque para “círculo” (p. 288),

lentas mordidas / eu relógio tique- / tapeando o tempo


lentas mordidas / e o amor truque-/ truncando o tédio


Na Sequência 4, temos os jogos de palavras 'mais sintéticos' em “a estrada” (p. 292-293), como o belo final,

a estrada o morto a faca o sertão
são palavras planas
habitadas por sol / e solidão


Já na Sequência 5, temos os mesmos métodos, jogos de palavras, palavras dispersas na página, mas sem alcançar os mesmos efeitos de poemas das sequências anteriores. Na Sequência 6 temos o poema “amada: flashback” (p. 320), onde um retrato desperta lembranças tal se fosse uma madeleine num chá de tília, naquele imaginário proustiano, obcecado em resgatar o tempo que se perdeu,



há que pesar o tempo / encontro grave e vago


trazê-lo à luz da alegria / clarão entrevisto / nas frestas da noite
entre ti e tido e tudo


Meio ao jogos de lirismo lúdico, encontramos o sério “aço e estilhaço” (pp. 321-322), com aspereza e sentimento de perda,

“são ásperas as veredas / do amor / pouco a pouco
despedaçadas”

“são ásperas / e o pouco corpo / vencido”

“são ásperas / e o amor / pouco a pouco / despedaçado”


podemos comparar “aço e estilhaço” com “canção do medo” (p. 325), onde o amor = fracasso vem causar medo naquele que quer amar,

como escapar desse amor / como sustar e assustar
o corpo que me aprisiona

de quantos desencontros / forjado foi quest'amore?'

a temática amorosa (ou dos “desencontros do amor”, especifica o autor) é ainda contemplada em “carta” (p. 337), bem no espírito de um Vinicius de Moraes (“que seja infinito enquanto dure”)

como se diz / è finito
sem mais delongas / ou me debilito

sai desse amor / como da batalha

Temos um poema irônico poligrota, “classroom” (p. 323), isto é, sala de aula em inglês,

trocávamos as línguas / lúdico logro
como se trocam as / língua s lúbrico jogo


Na Sequência 7, temos mais poemas de cunho pessoal, o individualismo e o saudosismo do poeta, mas como dizia CDA, “nem me reveles teus sentimentos, o que pensas e sentes, isso ainda não é poesia”, em “Procura da Poesia”. Nesta sequência faltou o cuidado com a linguagem, a arquitetura lírica – assim são poemas que importam apenas a intimidade do poeta, são desabafos (nem todos os poemas são publicáveis, o próprio Drummond sabia disso). Na Sequência 8, há a tentativa de aproximar poema e cinema, mas só fica mesmo na rima.


Já a Sequência 9 é mais interessante. Encontramos Sílvio Silva, “cidadão e poeta”, um ser “discursivo e panfletário”, uma espécie de alter-ego do poeta. É de certa forma um poema datado, tem o contexto dos anos de 1960, 1970, mas é um texto íntegro, intocável. Não concordo com a crítica de Domingos Pellegrini Jr. , aliás aqui crítica mais ideológica do que estética.

Em “sílvio silva selva”(p. 366-369) temos algo de Vinicius de Moraes (do célebre “Operário em construção”) e de Moacyr Félix (o poeta-engajado),

eu sílvio silva / ofereço meu verbo / de sonho e sacrifício



eu sílvio silva / poeta de copacabana / preparo minhas
palavras / como se prepara / uma bandeira

eu sílvio silva / poeta de copacabana
afio meu verbo / como se afia / e se lança
contra o desafio


Nesta linha de poesia engajada, politizada, temos a incisiva “hungry & co.” (pp. 374-376) que pode ser comparada com os poemas de Félix, de Gullar, de Ávila, além do célebre “United Fruit Co.” de Pablo Neruda, a desmascarar o imperialismo ianque a explorar as riquezas sul-americanas. O jogo de 'homem'/'nome'/'fome', além de sua semântica de contrastes, vem a lembrar o “Especulações em torno da palavra homem” de CDA,

de que vale o homem
contra o nome e a fome

de que vale o homem / contra a fome
a fome e seu nome / Money ?


A condição humana no sistema capitalista é evidenciada aqui como num labirinto de miragens, de buscas fetichistas, de alienação que impede a consciência de classe e mantém o sistema remendado ainda de pé, pois o servo não derruba o domínio dos senhores.


O próprio aspecto comercial na relação Autor – Leitor é explicitado pelo Poeta quando – em sua campanha de marketing para o lançamento de Selva Selvaggia – lembra as condições de produção, pois o poema é um produto de noites mal-dormidas, dramas pessoais, crises metafísicas e financeiras, produto este que é comprado pelos leitores, que pagam tão-somente o papel, a tinta, a encadernação e, of course, o marketing.

Na Sequência 10, o poeta deixa o individual e o coletivo e volta ao terreno semiótico, como demonstra “cygni: cosmovisão” (p. 385), com seu atropelo de signos-símbolos a la Mallarmé - “dados lançados / o jogo cósmico” - via Ezra Pound, via irmãos-concretistas Campos,

garimpando galáxias / por esta imensidade
manhãs sóis vidro vida / isomórfica planície cristal

rosácea metamorfose cor / cel forjado na estrela
da antemanhã

aliás leitura de concretismo que se revela no poema baseado na propaganda da Coca-Cola, já leitmotiv para o célebre “Beba Coca Cola” (1957) de Décio Pignatari.


Dois outros poemas se destacam no fim de Selva Selvaggia. Temos “noturno do leme” (pp. 395-398) a comparar-se com “canto da concepção” (p. 251), onde o eu-lírico filtra subjetivamente o mundo exterior, com sua sensibilidade impregnando o retrato, a descrição, em suma, o painel lírico, entre a satisfação e o desejo de consumo,

entre carros namorados
luminosos lambuzando a aurora
entre hot dog e a coca-cola
a bandeira nos controla



tudo é afável
e terrível / até a perspectiva
da aurora / até o hot dog
e a coca-cola


E finalizando – apenas para voltar ao início – com “around the sixties” (pp. 401-403) que reacende a discussão Texto e Contexto. É um poema para ser lido aos som dos Beatles ou aos solos eletro-guitarrísticos de Hendrix, numa viagem no tempo até as décadas de 1960 e 1970.

Tal uma poética beatnik, com referências de época, ao mesmo datado e atemporal como os poemas beatniks da mesma época, estando no tempo e afora do tempo tal qual as canções dos Beatles ou os solos de Hendrix.


Uma teia de citações e referências que vão destes clássicos estrangeiros aos sucessos do Clube da Esquina, de Milton Nascimentos, dos Tropicalistas, de Caetano Veloso, em suma, é preciso saber em qual época foi escrito o poema para podermos nos deliciar plenamente com o texto.


I want to live to dream”, quero viver para sonhar, diz o poeta, ao som de Beatles, antes que o próprio John Lennon, já descrente, viesse a público para declarar que o “sonho acabou”, The dream is over.

Um contexto de repressão política, censura cultural, guerra fria, faz sentido uma série de trocadilhos e intertextos que para nós da Redemocratização soa deslocado ou afetado. Daí precisarmos voltar ao momento da Escrita.

aroma amor romã
ticos de cuba sex libre

A época de liberdade sexual, da revolução (dita) socialista em Cuba, com a ação das guerrilhas dos Castros e Che Guevara, a busca de exteriorização do inconformismo, da rebeldia, que apenas gerou novos itens de consumo – jeans, camisetas com a foto do Che, produtos para jovens 'descolados', etc. Pois o capitalismo é tão esperto que compra até os inimigos, os símbolos da rebeldia são livremente comercializados!

Os poemas se inserem num momento de incoerências, de contradições, com 'os corações e mentes' pressionados entre a liberdade e a censura, entre a libertinagem e a repressão, ousando lutar contra os dogmas capitalistas, na busca de novos estilos de vida, mas incapazes de superar as contradições, demasiadamente burgueses para desapropriarem a família e crentes demais para se livrarem das virtudes cristãs. Logo outra geração adveio para lutar pela inserção no mercado e pelo acúmulo de lucros.

E o poeta? Deve, após tantas lutas, conviver com um mundo, com uma geração, que pouco sabe das vicissitudes e psicodelias de uma época ímpar na história da civilização ocidental que questionou a própria cultura ao preferir uma selvagem contracultura. Enquanto metade do mundo ainda sequer chegou verdadeiramente à proclamada civilização.


Jul/ago/11


Leonardo de Magalhaens

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