segunda-feira, 4 de julho de 2011

Sobre a Poética de Roberto Piva (ensaio 1)









Sobre a Poética de Roberto Piva

Roberto Piva (São Paulo, 1937-2010)


As vanguardas e as anti-vanguardas


Todo movimento artístico – pelo menos visivelmente desde o Romantismo – vem de uma contestação de um movimento artístico anterior que teria se desviado dos parâmetros estéticos e se 'ossificado' em establishments culturais e propagandísticos, se mantendo por inércia sem a vivacidade e o poder de mudança das primeiras 'florações'. Então o novo vem renovar o mundo das Artes. É a Vanguarda.


Assim os Românticos ocuparam o lugar dos Classicistas. Depois os Românticos foram questionados de um lado pelos Realistas, e por outro, pelos Neo-classicistas, ou Parnasianos, estes foram re-avaliados por Simbolistas e Surrealistas. Depois todos foram questionados pelos Futuristas e Modernistas no século 20, principalmente na primeira metade, na época das Grandes Guerras (1914-18 e 1939-45).


No Brasil, as gerações de modernistas se sucederam até os anos 50 e 60, quando novos movimentos imaginaram superar o Modernismo (alguns até dizem em 'pós-modernismo'), com influências de outras vozes ora mais surrealistas ora mais tradicionalistas (ou mais 'folk'), mas todas 'de superação', até dispostas a queimarem bibliotecas de 'vozes obsoletas' (O tom incendiário de Marinetti que parece ter agradado tanto aos nazistas... )


Assim os Concretistas reavaliavam os usos das discursividades, a disposição das palavras na página (vide as experimentações de Mallarmé e de Apollinaire), com uma ênfase no visual em simultaneidade com o sonoro. Os irmãos Campos, Haroldo e Augusto, e Décio Pignatari, poetas e tradutores paulistas, vieram para estruturar uma vanguarda – muitos críticos afirmam ser a última vanguarda – onde a palavra questiona a palavra, num foco mais metalinguístico (uma ampliação das intenções dos modernistas, tais como Oswald de Andrade), e do visual (dos pintores cubistas e dos cartazes soviéticos). O trabalho com a palavra justificava inclusive o processo de 'transcriação', numa tradução que seria uma re-criação da obra traduzida.


Depois dos Concretistas, e em oposição discursiva a estes, temos os poetas da Poesia Processo que apontam com ênfase no visual além das palavras em si, de modo a criarem poemas-design, poemas-objetos, poemas que sejam tocáveis, cheiráveis, maleáveis. Não a palavra, mas a 'sugestão' da palavra. A palavra-coisa que pode ser montada e desmontada. Assim os poetas da poesia-processo se posicionam tanto contra a discursividade acadêmica – a ponto de rasgar obras de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto – quanto contra as experimentações 'oro-auricular-viso-motora' dos concretistas paulistas.


Mas aqueles que negavam todos os academicismo e hermetismos metalinguísticos eram os poetas marginais. Estes, sem cátedra nem jornal nem revista mensal nem academia de letras, adentravam as avenidas e vielas das cidades e apresentavam uma poesia que era leitura (até de clássicos!) mas que negava isso, ocultava qualquer intertextualidade – enquanto os acadêmicos adoram citar e erguer epígrafes de autores canônicos. Os bardos marginais propunham um poema com fala coloquial, cotidiana, sem verbetes de dicionário e rimas preciosistas. Nada de sonetos (que os modernistas até praticavam!), nada de poemas épicos ou narrativos, mas poemas-flashs, instantâneos tirados da realidade, notáveis em síntese e ironia (nada de prolixidade e verborragias).


Num aspecto tanto poetas da Poesia Processo quanto os marginais concordavam: o fim da eternidade do poema. Este devia ser efêmero, devia ser descartável – devia agir aqui e agora, e depois ser entregue ao nada. Logo não haveria museus e bibliotecas com autores marginais, por exemplo. Os poemas criados meio ao suor e ao asfalto da realidade deviam ser lidos e vivenciados ali mesmo pelos leitores suados e acuados pelo trânsito. Assim haveria mais náusea do que flor – se lembramos a metáfora de Drummond em “A Flor e A Náusea”.


Enquanto os poetas marginais queriam os poemas-sínteses, os poema-flashs a testemunharem um momento da vida caótica cotidiana, em contraponto a discursividade prolixa dos poetas eruditos, acadêmicos ou não; enquanto os poetas da Poesia-Processo exigiam a abolição da própria discursividade com a feitura de poemas-coisas, poemas-design, quase poema-peça-publicitária, quase ícone, ideograma, hieróglifo do mundo sem-palavras, enquanto isso na poética de Piva transborda a discursividade.


A Poética de Piva não tem apenas discursividade, tem um turbilhão expressionista, uma imagética surrealista, com metáforas exageradas, chocantes, criadas tal uma 'psicografia', um testemunho de 'epifanias', ao 'correr da pena', numa fluência prolixa de 'escrita automática' tal um surrealista André Breton que espera 'fugir da lógica', tal um beatnik Kerouac que não quer parar para trocar o papel da máquina, a escrever sem pausas, sem perder o fôlego com neuras gramaticais ou regras argumentativas.


É a busca de uma irracionalismo ao 'desregrar todos os sentidos' igual a um Rimbaud num 'barco bêbado' de versos, numa fluência livre, as verdadeiras 'palavras em liberdade' como proclamava um neurótico da velocidade Marinetti, sem qualquer contenção racional como labutaria um engenheiro-poeta João Cabral de Melo Neto, ou a palavra-lavra na práxis de um Mário Chamie. Há todo um sensacionismo de um Álvaro de Campos (o heterônimo futurista Fernando Pessoa) numa verborragia de sentimentos disconexos e simultâneos por fluência do poeta Rilke em suas longas elegias, ou os poetas expressionistas com suas descrições cinematográficas de paisagens.

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Crítica que relaciona Rimbaud e Piva
http://www.revistazunai.com/ensaios/anderson_fonseca_roberto_piva.htm
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Autor e Obra


Vejamos antes um fenômeno: o Biograflismo. Conceituemos. Biografismo: a preocupação com a vida, com o curriculum vitae de um autor, a ponto de julgar uma Obra com base numa dada biografia autoral, julgar a poesia de um Poeta pela personalidade deste que escreveu. Não se trata da análise literária do texto, mas do julgamento sobre o/a Poeta. Por exemplo: o leitor, ou o poeta, Y não gosta pessoalmente do poeta X, seja por questões pessoais ou de afinidade, por estética ou ideologia, ou crença religiosa, então simplesmente despreza a poesia de X. Assim, Y acaba por julgar não a poética de X, mas a personalidade de X, o Autor X.


É preciso separar Autor de Obra. Não se deixar criar pré-conceitos sobre a Obra ao termos pré-conceitos quanto ao Autor. Um exemplo. As obras de Nietzsche são geniais - “Genealogia da Moral”, “Gaia Ciência”, “Assim disse Zarathustra” - mas quem foi Friedrich Nietzsche a pessoa? Um homem doente, fracassado na vida acadêmica e afetiva, um peregrino, um insucesso enquanto pessoa, um ressentido, que criou uma obra porque justamente não conseguiu viver plenamente ( ou comodamente, diriam os burgueses). Se digo tudo isso sobre Nietzsche, cuja obra ocupa lugar de destaque na minha estante.


Podemos ler as obras de Heidegger, de Céline, de Knut Hamsun sem que tenhamos que ser simpatizantes do regime nazista, assim como podemos apreciar as obras de Maiakovski e de Bertolt Brecht sem sermos adeptos do comunismo. Podemos nos dedicar as leituras de obras de Sartre e Camus, sem ser seguidores do Existencialismo. As opções políticas e existenciais do Autor não estão acima da obra, não qualificam a obra, nem a recepção. Pois autores não comunistas, não nazistas, não existencialistas, podem ler e identificar-se, podem meditar sobre as próprias escolhas diante da vida. Em suma, a obra é útil ao Leitor, não ao Autor. (Com exceção dos Autores que recebem pomposos direitos autorais...)


Quais as causas do Biografismo na Arte, principalmente na Poesia? Os poetas raramente estão lendo poemas uns dos outros. Os poetas se comungam por amizades e elogios mútuos. O poetas não pensam coletivamente, muito menos em vanguardas, é cada um no seu grupinho. Se um poeta se simpatiza com um outro, ele passa a elogiar a poesia – não pela poesia, mas por que o outro é amigo. Confunde poeta e poesia, e se não gosta do poeta vai odiar igualmente a poesia. Não há uma separação. Posso não gostar de certo poeta enquanto pessoa, mas posso perfeitamente admirar a obra poética dele.


Meditando sobre a crítica já escrita sobre as obras de Roberto Piva temos um exemplo de ênfase na biografia. Críticos mais preocupados com as atitudes iconoclastas, irreverentes e homoafetivas do Poeta do que exatamente se debruçar sobre a Obra, ler os poemas a ponto de perceber os diálogos com outros poemas – e poetas. A preocupação com a vida pessoal do Poeta cria um preconceito quanto a Obra – alguns dizem: não vou ler poesia gay – como se um dado biográfico do Autor servisse para qualificar a Obra. A Escrita quando realmente é válida não se destina a um determinado público, não é segmentação. Somente as obras limitadas, irrelevantes são criadas para um determinado público, um grupo de consumidores de cultura.


Obviamente que alguns dados biográficos podem certamente ajudar no entendimento de alguns aspectos da Obra, mas não podem determinar um julgamento sobre a mesma. É preciso dissociar o julgamento sobre o Autor da leitura da Obra. Não apreciar o Autor não significa desprezar a Obra, pois aqui a criatura pode ser bem melhor que o criador.


Classificar a poética de Piva?


Temos autores sem classificação ou classificações parciais. Afinal temos estilos pessoais dentro de – ou em paralelo com - estilos de época. Em alguns momentos há uma consonância, mas pode haver uma dissonância. Autores que destoaram da época em que viveram. Whitman é romântico? Machado de Assis é mesmo realista? Sousândrade é o quê? Fernando Pessoa é catalogado segundo seus vários 'heterônimos', um seria classicista, um outro seria romântico, e outro futurista, um outro surrealista, e assim por diante. Guimarães Rosa é regionalista de fato? Manoel de Barros é o quê? Surrealista? Temos as figuras ambíguas de autores entre o surrealismo e o expressionismo, tais como Oscar Wilde, Georg Trakl, Jean Genet, Paolo Pasolini, Antonin Artaud, Charles Bukowski. Como classificá-los? São mesmo classificáveis? Que 'vanguardas' seguem? Quais as vanguardas reivindicam suas obras?


Para o colega de geração, o crítico Claudio Willer (SP, 1940-), a poética de Piva integra uma 'geração Beatnik' tupiniquim, inserida no cenário urbano de São Paulo. Aliás, Piva seria um Baudelaire de São Paulo, um flâneur solto pelas ruas da metrópole sul-americana.


Ainda que o próprio Piva negue esta condição de urbanóide, “sou um poeta na cidade, não um poeta da cidade”, pois ele vive ainda na cidade é porque ainda não conseguiu recursos financeiros para comprar um sítio na área rural. O poeta queria era fugir da metrópole – e se tecia cânticos a 'pauliceia' era mais por se considerar um amargo prisioneiro da cidade grande, não um empolgado, um convertido ao proclamado progresso da megalópole.


Para a crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda (SP, 1939-), autora de “26 Poetas Hoje” (1975), onde aborda as obras dos ditos 'poetas marginais', ou da 'geração mimeógrafo', com ênfase nos autores jovens do Rio de Janeiro, nas décadas de 60 e 70, o poeta Roberto Piva é um autor da 'marginália' paulista (ainda que a autora não cite os outros da 'geração beatnik' de São Paulo), um exemplo da voz marginal que não tem presença nas mídias, é como se não existisse. Se o poeta não se organizar para publicar e divulgar jamais seria lido – as editoras não tinham qualquer interesse em 'vozes desviantes', em dissonâncias, logo rotuladas de 'subversão'.


Contudo, para outros críticos, Piva não seria nem marginal, nem beatnik, mas um 'marginal' da marginália, uma espécie de 'exceção à regra' ambulante, que congrega tudo e desagrada a todos. Nem direita nem esquerda, nem conservador nem revolucionário, desconsiderado pelos 'marginais' e rejeitado pelos 'beatniks' brasileiros (com exceção dos amigos de geração). O poeta Piva seria no Brasil uma espécie de Charles Bukowski, que muitos não consideram beatniks – e nem os próprios Beats. Bukowski que causa mal-estar em qualquer 'vanguarda' onde seja inserido – engavetado. Solução aqui é não classificar.


Mas podemos definir algumas semelhanças e algumas diferenças da poética de Piva em relação aos poetas marginais. Nas semelhanças podemos destacar a atitude de 'ver a margem', de não ser aceito, nem cooptado pela mídia, a proclamar uma voz marginal, por exemplo, da presença homoafetiva na sociedade conservadora. A poesia que se serve do coloquial, das cenas do cotidianos, dos cenários urbanos e dos labirintos das metrópoles.


Nas diferenças destacamos a farta intertextualidade, os diálogos explícitos com outros autores – sejam canônicos ou não – enquanto os marginais desprezam a erudição, não revelam as leituras, não posam dentro de uma biblioteca, ou cercados de livros, mas bêbados nos botecos mais sórdidos.


Enquanto os marginais restringiam a discursividade ao poema curto, ao poema-flash, ao poema-coisa, na síntese do momento, dizendo o máximo com o mínimo de texto, enquanto os poetas do Poema-Processo aboliam a discursividade em prol de um poema-objeto, não condicionado e dependente de significante-significado, tornando tudo em arquétipos e ideogramas.



Em certa perspectiva, ao ser renegado por uns e outros, o poeta Piva mostra-se mais marginal do que os marginais, assim como o marginal-Beatnik Bukowski que é rejeitado pelos acadêmicos e pelos próprios Beats. Bukowski, por exemplo, compartilha o universo dos Beats – vida noturna, libertinagem, bebedeiras, viagens, crises existenciais, etc – mas nunca foi um 'filiado', nunca buscou a 'superação' ou a 'beatitude' que animavam Kerouac e Snyder, por exemplo. Os beatniks deviam superar a si-mesmos rumo a uma vida de liberdade, onde as 'portas da percepção' se abririam longe de toda conformidade e disciplina com as quais a sociedade de consumo condiciona os cidadãos do 'mundo livre'.

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sobre a antologia “26 Poetas Hoje
http://www.heloisabuarquedehollanda.com.br/?tag=26-poetas-hoje
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/outros_titulos/26_poetas_hoje
http://portalliteral.terra.com.br/blogs/26-poetas-hoje-digital
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Influências / intertextualidades na poética de Roberto Piva


Os poetas malditos (poètes maudits) franceses do século 19, a saber, Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Lautreámont, Corbière. Os poetas malditos do século 20, dentre eles, os poetas Garcia Lorca, Jean Genet, Antonin Artaud, e o cineasta Pier Paolo Pasolini.


Também os Beatniks se insinuam nos textos polifônicos de Piva, com destaque para Kerouac, Ginsberg, Burroughs, Gregory Corso, Gary Snyder, todos estes leitores do poeta-guru Walt Whitman. Outro guru da geração beatnik é Henry David Thoreau (1817-1862), pensador anarquista individualista, autor de “Desobediência Civil”, 1849, e “Walden”, 1854.


Outra influência perceptível é a do heterônimo Álvaro de Campos, persona-lírica, exaltada e prolixa, entre futurista e surrealista, do português Fernando Pessoa, outro leitor entusiasta de Whitman, como percebemos em “Saudação a Walt Whitman” .


As influências brasileiras são os textos dos modernistas Mário de Andrade (autor de “Paulicéia Desvairada”, 1922 ), Jorge de Lima, da primeira fase, antes de “Tempo e Eternidade” (1935) e o Murilo Mendes da fase surrealista (obras “Poemas”, 1929; “Visionário”, 1933)


Os poetas 'beatniks' de São Paulo se assumiam 'antropófagos' - tais como os modernistas Oswald e Mário de Andrade – ao digerirem as poéticas dos autores norte-americanos, assim como os Andrades sugavam as poéticas dos simbolistas, dos surrealistas e dos futuristas franceses. Até porque eis uma vantagem de ser 'colonizado': poder digerir os colonizadores! Nós enquanto colonizados temos acesso às culturas europeia e norte-americana, enquanto os europeus e norte-americanos pouco sabem sobre a nossa cultura.


Por exemplo, o poeta Piva dialoga com Lima em "Paranóia" (poema “Jorge de Lima, panfletário do Caos”)


Foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi Jorge de Lima

enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente

na minha memória devorada pelo azul

eu soube decifrar os teus jogos noturnos

indisfarçável entre as flores

uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas

como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca

palpita nos bulevares oxidados pela névoa

uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação inconsútil

de tua túnicae um milhão de vagalumes trazendo estranhas tatuagens no ventres

e despedaçam contra os ninhos da Eternidade

é neste momento de fermento e agonia que te invoco grande alucinado

querido e estranho professor do Caos sabendo que teu nome deve

estar como uma talismã nos lábios de todos os meninos.



Podemos comparar “Paranóia” (1963) com “Pauliceia Desvairada” (1922) de Mário de Andrade. Pauliceia Desvairada cita e recita cenas e topônimos de São Paulo numa viagem urbana meio delirante meio debochada, com exageradas metáforas e referências ao mundo da moda e do industrialismo, quando as imagens retiradas de líricas românticas soam anacrônicas, sem contexto, como lírios pálidos expostos às fuligens.


São Paulo! comoção da minha vida...

Os meus amores são flores feitas de original...

Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e Ouro...

Luz e bruma... Forno e inverno morno...

Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...

Perfumes de Paria... Arys!

Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!

São Paulo! comoção de minha vida...

Galicismo a berrar nos desertos da América!


No texto de Paranoia, os cenários se correspondem – quatro décadas depois – mas transfiguradas por mais exagero, desespero, alucinação, amargura, deboche e obscenidade. Não há espaço para o lírico que não seja agressão (tanto contra a semântica quanto a moral),


Eu vi uma linda cidade cujo nome esqueci

onde anjos surdos percorrem as madrugadas tingindo seus olhos com

lágrimas invulneráveis

onde crianças católicas oferecem limões para pequenos paquidermes

que saem escondidos das tocas

onde adolescentes maravilhosos fecham seus cérebros para os telhados

estéreis e incendeiam internatos

onde manifestos niilistas distribuindo pensamentos furiosos puxam

a descarga sobre o mundo

onde um anjo de fogo ilumina os cemitérios em festa e a noite caminha

no seu hálito

onde o sono de verão me tomou por louco e decapitei o Outono de sua

última janela

onde o nosso desprezo fez nascer uma lua inesperada no horizonte

branco

onde um espaço de mãos vermelhas ilumina aquela fotografia de peixe

escurecendo a página

onde borboletas de zinco devoram as góticas hemorróidas das

beatas

onde os mortos se fixam na noite e uivam por um punhado de fracas

penas

onde a cabeça é uma bola digerindo os aquários desordenados da

imaginação



O Poeta dialoga com seus autores prediletos em exemplos das múltiplas referências / intertextualidades. Notamos num poema como “Meteoro” uma voz lírica que se dirige a outras vozes líricas, a outras almas expressionistas, outros seres atribulados, marginais ou não, canônicos ou não, mas todos afetados pelo mesma inquietude diante da existência, sejam filósofos, poetas, pintores, outros artistas belos e malditos,


no alto da Lapa os mosquitos me sufocam

que me importa saber se as mulheres são

férteis se Deus caiu no mar se

Kierkegaard pede socorro numa montanha

da Dinamarca?



eu urrava meio louco meio estarrado meio fendido

narcóticos santos ó gato azul da minha mente

Oh Antonin Artaud

Oh Garcia Lorca

com seus olhos de aborto reduzidosa retratos


A poesia com surrealismo embriagado e misantropo de um Lautréamont (Les Chants de Maldoror) ou com a morbidez de um Augusto dos Anjos (ver os quatro poemas 'contidos' “Quatro Poemas Pivianos”), onde as imagens tétricas misantropas do poète maudit se mesclam com as imagens de finitude do ser consciente nos versos sepulcrais do vate brasileiro (o 'poeta necropolitano'?),


Eu era um pouco da tua voz violenta, Maldoror,

quando os cílios do anjo verde enrugavam as

chaminés da rua onde eu caminhava

E via tuas meninas destruídas como rãs por uma

centena de pássaros fortemente de passagem

Ninguém chorava no teu reino, Maldoror, onde o

infinito pousava na palma da minha mão vazia

E meninos prodígios eram seviciados pela Alma

ausente do Criador

(em “Poema Submerso”)


Dêem-me um anestésico. A vida dói e arde.

Não sei controlar meus impulsos demoníacos.

Não acredito em forças de outro mundo.

Sou eu, meus versos e o perigo das frações.


Arranco minhas vísceras poéticas do ostracismo.

Trezentos dias e cinqüenta noites marianas.

O caracol de meus cabelos caídos no chão de espelhos.

O sangue e os olhos transformados em areia cinza.

(em “Quatro Poemas Pivianos”, IV)



O poeta em contínuo diálogo com Freud, Rimbaud e Nietzsche, autores/pensadores referenciais, lidos e relidos nos contextos da dita ‘contracultura’.


Eu aprendi com Rimbaud
& Nietszche os meus
toques de Inferno
(Anjos de Freud,
sustentai-me!)
& afirmando isto
através dos quartos sem tetos
& amores azuis
eu corro até a colher de espuma fervente
driblando-me no cemitério
faminto da última FOME
com tumbas & amantes cheios de pétalas
porque o céu foi nossa última chance
esta noite".




O poeta beatnik Ginsberg escreve um poema para Whitman (“Supermarket in California”) enquanto Piva escreve um poema influenciado a um outro poeta, Mário de Andrade (“No Parque Ibirapuera”), mostrando que uma verdadeira teia, uma rede de citações e referências se entretece entre os vários autores-leitores, afinal Piva é um Poeta leitor por excelência.


A “Ode a Fernando Pessoa” lembra a “Ode a Walt Whitman” escrita pelo próprio Fernando Pessoa-Álvaro de Campos para o bardo norte-americano. O que 'une' os quatro poetas – além da intertextualidade? - a homoafetividade. A aceitação da própria sexualidade leva a uma contestação da ordem conservadora, hipócrita e moralista, que se proclama em nome da liberdade, mas reprime os prazeres da livre sexualidade situação mais perceptível antes da ‘revolução sexual’ dos anos 60 e 70).


É impossível que não haja nenhum poema teu

escondido e adormecido no fundo deste parque

Olho para os adolescentes que enchem o gramado

de bicicletas e risos

Eu te imagino perguntando a eles:

onde fica o pavilhão da Bahia?

qual é o preço do amendoim?

é você meu girassol?

A noite é interminável e os barcos de aluguel

fundem-se no olhar tranquilo dos peixes

Agora, Mário, enquanto os anjos adormecem devo

seguir contigo de mãos dadas noite adiante

Não só o desespero estrangula nossa impaciência

Também nossos passos embebem as noite de calafrios

Não pares nunca meu querido capitão-loucura

Quero que a Paulicéia voe por cima das árvores

suspensa em teu ritmo.



Surrealismo e Xamanismo


O surrealismo – notável em Rimbaud, Lautreámont e no primeiro Murilo – é levado ao tom mais místico, aos orientalismos de um Hermann Hesse (o autor de Der Steppenwolf, “O Lobo da Estepe”, em 1927), um Gary Snyder – aliás, toda uma geração se interessou por misticismo nesta época – anos 40 aos 70 – com o movimento hippie, a New Age, etc – mas aqui um orientalismo não de apenas contracultura - anti-Iluminismo, anti-racionalismo, contra a 'Razão Instrumental' denunciada por Adorno e Horkheimer – mas um orientalismo de 'reencontro do ser humano com o animal em si-mesmo', uma volta ao xamanismo.


Xamanismo enquanto cura de si mesmo pela meditação, pela harmonia com a vida natural, numa vivência mística de nativo indígena, de ser integrado com os mistérios da natureza, pois os povos tradicionais – segundo percebemos na carta do Chefe Seattle ao presidente norte-americano - sempre viveram inseridos no meio ambiente, não contra o ambiente.


Ou seja, o poeta sentindo-se oprimido pela selva urbana – a metrópole de São Paulo – passa a idealizar o mundo natural – como faziam os românticos, vítimas das primeiras revoluções industrias e do crescimento das cidades. Assim Piva re-encena a atitude de um Wordsworth, um Coleridge, um Keats, um Shelley, um Musset, um Gonçalves Dias, quando buscam um refúgio junto a natureza.


É todo um pensamento ecológico em gestão tal como percebemos na obra de Gary Snyder, que, sendo um 'globetrotter', viveu com povos tradicionais no norte dos EUA, com monges japoneses, com místicos japoneses, a cumprir uma jornada de aprendizado e superação (ou purificação, como dizem os religiosos). Uma animalidade positiva seria o modo de relacionar-se com o mundo natural – a livre interrelação homem-natureza, onde a interseção, o elo seria justamente o animal, quando lembramos que somos 'animais civilizados', ou melhor, domesticados.


A busca de uma religiosidade, não uma religião, é uma contaste nos poetas ante-iluministas, ou pré-racionalistas, não exatamente anti-iluministas. Afinal, o xamanismo existe muito antes da 'civilização ocidental', do racionalismo cartesiano, da 'razão instrumental'. O surrealismo não é anti-religioso, pode flertar com o religioso, pois ambas as esferas são do emocionalismo, da livre fruição dos sentidos, na busca da abertura das 'portas da percepção'.


O desejo de livre fruição da consciência levou ao uso e abuso de alucinógenos, drogas e outros entorpecentes que – pensavam na época – seria uma forma de libertação, mas que se tornou apenas outra forma de alienação e lucro para criminosos (vejamos as dimensões do tráfico de drogas de hoje em dia). Entre os arautos da viagem alucinógena – toda uma cultura psicodélica se formou nos anos 60 – o doutor Timothy Leary e o escritor William Burroughs, ambos defensores das experiências de 'libertação mental'.


Contudo, a prática xamânica dos índios estava definitivamente perdida para nós homens e mulheres da civilização. Somente poderíamos ter êxtases na dimensão simbólica da Poesia – nosso canal de superação para além dos domínio dos mundo prosaico, asfaltado e concretado.

O próprio poeta Piva declara ser “o poeta NA cidade”, “não o poeta DA cidade”, afinal, por mais que ele dedique versos e mais versos a vida da metrópole, ele a rejeita, ele prefere a vida xamânica junto a natureza, numa comunidade rural. Contudo ele não pôde se libertar.



jun/11



Leonardo de Magalhaens






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Referências


ANDRADE, Mário de . Paulicéia Desvairada. São Paulo, 1922.

PIVA, Roberto. Paranoia. São Paulo, 1963. São Paulo, Instituto Moreira Salles, 2010. 2ª ed.

________ . Antologia Poética. São Paulo, 1985.



A obra Paranoia
http://pt.scribd.com/doc/33761501/Roberto-Piva-Paranoia

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Um blog dedicado a Roberto Piva
http://robertopiva.blogspot.com/
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Artigo sobre Piva em blog
http://simaopessoa.blogspot.com/2007/01/poesia-xamnica-do-beatnik-surrealista.html
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Artigo sobre antologia de Piva
http://www.triplov.com/poesia/roberto_piva/estrangeiro/index.htm
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Entrevista com Piva
http://www.germinaliteratura.com.br/literatura_out05_robertopiva1.htm

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Crítica que relaciona Rimbaud e Piva
http://www.revistazunai.com/ensaios/anderson_fonseca_roberto_piva.htm

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Fortuna Crítica sobre obra de Piva
http://www.revista.agulha.nom.br/agulha6piva.html

http://daliedaqui.blogspot.com/2008/04/roberto-piva-ode-fernando-pessoa.html

http://www.revista.agulha.nom.br/ag38piva.htm

http://felipefortuna.com/robertopiva.html

http://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/brasil/roberto_piva.html

http://sibila.com.br/index.php/critica/419-roberto-piva-entre-o-mito-e-o-merito

http://www.colheradacultural.com.br/content/20091108231742.000.4-N.php

http://www.alexandremarino.com/2010/07/um-poema-de-roberto-piva.html

http://cartilhadepoesia.wordpress.com/2010/08/24/roberto-piva/

http://www.triplov.com/novaserie.revista/numero_02/claudio_willer/index.html

http://www.revistazunai.com/ensaios/chiu_yi_chih_roberto_piva.htm

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sexta-feira, 1 de julho de 2011

Canção da Estrada Aberta (5/5) - W. Whitman









Canção da Estrada Aberta
Song of the Open Road


13.


Allons! Vamos! Para o que é sem-fim assim como era sem-início,
Para sofrer muito, andarilhos dos dias, descansos das noites,
Para fundir tudo na viagem eles têm tendência, e eles
tem tendência para fundir dias e noites,
Novamente para fundi-los no começo de jornadas superiores,
Para nada ver em algum lugar exceto o que você deve
alcançar e ultrapassar,
Para conceber nenhum tempo, por mais distante, mas
o que você deve alcançar e ultrapassar,
Para procurar seja em cima ou embaixo nenhuma estrada
exceto a que se estende e espera por você
por mais longa que seja, mas que se estende e espera por você,
Para ver nenhum ser, nem de Deus ou qualquer outro,
porém para você seguir também para lá,
Para ver nenhuma posse, mas você deve possuí-la [a estrada],
aproveitando tudo
sem trabalho ou aquisição, abstraindo a festa ainda não abstraindo
uma partícula dela,
Para ter o melhor da fazenda do fazendeiro e da villa elegante
do homem rico,
e as bençãos castas do casal bem-casado, e
as frutas de pomares e flores de jardins,
Para se utilizar das compactas cidades quando você as atravessa,
Para carregar edifícios e ruas com você depois para
onde você seguir,
Para ajuntar as mentes dos homens fora de seus cérebros
quando você os encontra,
Para ajuntar o amor fora de seus corações,
Para levar seus amados na estrada com você, para todos
que você deixa para trás,
Para conhecer o universo em si-mesmo tal uma estrada,
tal qual muitas estradas, assim estradas
para almas em viagem.
Todas as partes além para o progresso das almas,
Toda religião, todas as coisas sólidas, artes, governos -
tudo o que era ou é
aparente sobre este globo ou qualquer outro globo, cai dentro
de nichos e cantos
antes da procissão das almas ao longo da grande estrada
do universo.

Do progresso das almas de homens e mulheres ao longo
das grandes estradas do
universo, todo outro progresso é o necessário emblema e sustento.

Sempre vivos, sempre adiante,
Imponentes, solenes, tristes, retraídos, confusos, loucos, turbulentos,
frágeis, insatisfeitos,
Desesperados, orgulhosos, carinhosos, enfermos, aceitos pelos
homens, rejeitados pelos homens,
Eles seguem! Eles seguem! Sei que eles seguem, mas não sei
para onde eles seguem,
Mas sei que eles seguem rumo ao melhor – rumo a algo grande.

Quem quer que vocês sejam, venham adiante! Seja homem ou mulher,
venham!
Vocês não devem ficar dormindo ou flertando lá na casa,
apesar de
vocês terem-na construído, ou apesar de ela ter sido construída
para vocês,

Para fora do sombrio confinamento! Para fora de detrás do biombo!
É inútil protestar, eu sei tudo isso e venho revelar.

Observe através de você tão ruim quanto o resto,
Através da risada, dançando, jantando, ceando,
de pessoas,
Dentro de vestes e ornamentos, dentro daquelas faces lavadas
e enfeitadas,
Observe uma secreta e silente náusea e desespero.

Nenhum marido, nenhuma esposa, nenhum amigo/a, confiável
para ouvir a confissão,
Outro eu, uma duplicata de cada um, esgueirando-se e
ocultando-se segue,
Sem-forma e sem-palavras através das ruas das cidades,
polidos e brandos nas salas de visita,
Nos vagões das ferrovias, nos barcos-a-vapor, nas assembleias
públicas,
Lar para as casas de homens e mulheres, à mesa, no quarto,
em todo lugar,
Elegantemente trajado, fisionomia sorridente, forma altiva,
morte sob as costelas, inferno sob os crânios,
Debaixo dos trajes e luvas, debaixo das insígnias e das flores
artificiais,
Mantendo-se correto com os costumes, falando nenhuma sílaba
de si-mesma,
Falando de qualquer outra coisa mas nunca de si-mesma.



14.


Allons! Vamos! através de conflitos e guerras!
O objetivo que foi definido não pode ser revogado.

Têm os conflitos do passado se sucedido?
O que tem se sucedido? Você mesmo/a? Sua nação? A Natureza?
Agora entenda-me bem – isto é provido na essência
de coisas que
de alguma fruição de sucesso, não importa o que, deverá
chegar adiante
algo a fazer um maior conflito necessário.

Meu chamado é o chamado de batalha, eu alimento
rebelião ativa,
Ele que vai comigo deve ir bem armado,
Ele que vai comigo vai frequentemente com dieta frugal,
pobreza, inimigos irados,
deserções.



15.


Allons! Vamos! a estrada está diante de nós!
Ela está salva – tenho a experimentado – meu próprios pés
a experimentaram bem -
não chegue atrasado!
Deixe o papel ficar não-escrito sobre a mesa, e o livro não-aberto
na prateleira!
Deixe as ferramentas ficarem na oficina! Deixe o dinheiro
continuar não-acumulado!
Deixe a escola ficar lá! Não se importe com o grito do professor!
Deixe o pregador pregar no púlpito! Deixa o advogado a defender causa
na corte, e o juiz expor a lei.

Camarada, dou uma mãozinha a você!
Dou a você meu amor mais precioso que o dinheiro,
Dou a você eu mesmo antes de pregações ou leis;
Você me dará você mesmo/a? Você virá viajar comigo?
Deveremos nos juntar um ao outro enquanto nós vivermos?



Trad. livre: Leonardo de Magalhaens
http://leoliteraturaescrita.blogspot.com






Song of the Open Road


13



Allons! to that which is endless as it was beginningless,

To undergo much, tramps of days, rests of nights,

To merge all in the travel they tend to, and the days and nights

they tend to,

Again to merge them in the start of superior journeys,

To see nothing anywhere but what you may reach it and pass it,

To conceive no time, however distant, but what you may reach it and pass it,

To look up or down no road but it stretches and waits for you,

however long but it stretches and waits for you,

To see no being, not God's or any, but you also go thither,

To see no possession but you may possess it, enjoying all without

labor or purchase, abstracting the feast yet not abstracting one particle of it,

To take the best of the farmer's farm and the rich man's elegant

villa, and the chaste blessings of the well-married couple, and

the fruits of orchards and flowers of gardens,

To take to your use out of the compact cities as you pass through,

To carry buildings and streets with you afterward wherever you go,

To gather the minds of men out of their brains as you encounter them,

to gather the love out of their hearts,

To take your lovers on the road with you, for all that you leave them behind you,

To know the universe itself as a road, as many roads, as roads for traveling souls.



All parts away for the progress of souls,

All religion, all solid things, arts, governments--all that was or is

apparent upon this globe or any globe, falls into niches and corners

before the procession of souls along the grand roads of the universe.



Of the progress of the souls of men and women along the grand roads of

the universe, all other progress is the needed emblem and sustenance.



Forever alive, forever forward,

Stately, solemn, sad, withdrawn, baffled, mad, turbulent, feeble,

dissatisfied,

Desperate, proud, fond, sick, accepted by men, rejected by men,

They go! they go! I know that they go, but I know not where they go,

But I know that they go toward the best--toward something great.



Whoever you are, come forth! or man or woman come forth!

You must not stay sleeping and dallying there in the house, though

you built it, or though it has been built for you.



Out of the dark confinement! out from behind the screen!

It is useless to protest, I know all and expose it.


Behold through you as bad as the rest,

Through the laughter, dancing, dining, supping, of people,

Inside of dresses and ornaments, inside of those wash'd and trimm'd faces,

Behold a secret silent loathing and despair.



No husband, no wife, no friend, trusted to hear the confession,

Another self, a duplicate of every one, skulking and hiding it goes,

Formless and wordless through the streets of the cities, polite and bland in the parlors,

In the cars of railroads, in steamboats, in the public assembly,

Home to the houses of men and women, at the table, in the bedroom, everywhere,

Smartly attired, countenance smiling, form upright, death under the

breast-bones, hell under the skull-bones,

Under the broadcloth and gloves, under the ribbons and artificial flowers,

Keeping fair with the customs, speaking not a syllable of itself,

Speaking of any thing else but never of itself.



14



Allons! through struggles and wars!

The goal that was named cannot be countermanded.


Have the past struggles succeeded?

What has succeeded? yourself? your nation? Nature?

Now understand me well--it is provided in the essence of things that

from any fruition of success, no matter what, shall come forth

something to make a greater struggle necessary.


My call is the call of battle, I nourish active rebellion,

He going with me must go well arm'd,

He going with me goes often with spare diet, poverty, angry enemies, desertions.



15



Allons! the road is before us! It is safe--I have tried it--my own feet have tried it well--

be not detain'd!

Let the paper remain on the desk unwritten, and the book on the shelf unopen'd!

Let the tools remain in the workshop! let the money remain unearn'd!

Let the school stand! mind not the cry of the teacher!

Let the preacher preach in his pulpit! let the lawyer plead in the court,

and the judge expound the law.



Camerado, I give you my hand! I give you my love more precious than money,

I give you myself before preaching or law;

Will you give me yourself ? Will you come travel with me?

Shall we stick by each other as long as we live?



Walt Whitman




LdeM


.

sábado, 25 de junho de 2011

Canção da Estrada Aberta (4/5) - W. Whitman







Song of the Open Road


Canção da Estrada Aberta


10.

Allons! Vamos! Os incentivos devem ser grandes,
Vamos velejar sem rumo e em mares bravios,
Vamos aonde os ventos sopram, ondas se arremetem, e
o veleiro ianque
veloz a toda vela.


Allons! Vamos! Com poder, liberdade, a terra, os elementos,
Saúde, desafio, alegria, auto-estima, curiosidade;
Allons! Vamos! De todas as fórmulas!
A partir de todas as fórmulas, ó sacerdotes materialistas
e com olhos-de-morcego.


O cadáver velho bloqueia a passagem – o enterro
não espera mais.

Allons! Vamos! Ainda em alerta!
Ele viajando comigo precisa de melhor sangue, músculos,
resistência,
Ninguém deve vir ao julgamento até ele ou ela trazer
coragem e saúde,
Não venha aqui se você já gastou o melhor de si,
Apenas aqueles devem chegar que venham em corpos
doces e determinados,
Não pessoas doentes, nem bêbados ou com máculas venéreas
são permitidos aqui.
(Eu e o que é meu não convence por argumentos, símiles,
rimas,
Nós convencemos por nossa presença.)

.


11.


Ouça! Vou ser honesto com você,
Eu não ofereço os velhos prêmios suaves, mas ofereço
novos prêmios rudes,
Estes são os dias que devem acontecer a você:
Você não deve acumular o que é chamado 'riquezas',
você deve distribuir com mãos generosas tudo o que
você ganha ou conquista,
Você porém chega à cidade a qual você foi destinado,
você dificilmente
se instala em satisfação antes de você ser chamado por um
irresistível apelo para partir,
Você deve lidar com sorrisos irônicos e zombarias daqueles
que continuam à sua retaguarda,
Que os gestos de amor que você receba você deverá apenas
responder
com apaixonados beijos de despedida,
Você não deve permitir o abraço daqueles que estendem
mãos ávidas até você.

.


12.


Allons! Vamos! A seguir os grandes companheiros, e a
pertencer a eles!
Eles também estão na estrada – eles são homens velozes
e majestosos – elas
são grandes mulheres,
Apreciadores das calmarias dos mares e das tormentas dos mares,
Marinheiros de muitos navios, caminhantes de muitas milhas de terra,
Habitantes de muitos países distantes, habitantes de longínquas moradas,
Confiantes de homens e mulheres, observadores de cidades,
trabalhadores solitários,
Fazem pausa e contemplam tufos, florescências, conchas
na praia,
Dançarinos de danças de casamento, beijadores de noivas,
delicados ajudantes de
crianças, apoiadores de crianças,
Soldados de revoltas, permanecem junto a covas abertas,
abaixadores de caixões,
Trabalhadores por jornada em estações consecutivas,
através dos anos, os anos curiosos
cada um emergindo do que o precedeu,
Trabalhadores por jornada quando com os companheiros,
nomeados em suas próprias diversas frases,
Dão passos adiante desde is latentes e irrealizados
dias-recém-nascidos,
Trabalhadores por jornada alegremente com as próprias
juventudes, trabalhadores por jornada com sua própria
virilidade barbada e bem cultivada,
Trabalhadores por jornada com suas feminilidades, amplas,
contentes, insuperadas,
Trabalhadores por jornada com suas próprias sublimes
maturidades de virilidade ou feminilidade,
Maturidade, calma, expandida, vasta com a arrogante
largura do universo,
Maturidade, fluindo livre com a deliciosa e próxima
liberdade da morte.



Trad. livre: Leonardo de Magalhaens

http://leoliteraturaescrita.blogspot.com






Walt Whitman

Song of the Open Road


10


Allons! the inducements shall be greater,

We will sail pathless and wild seas,

We will go where winds blow, waves dash, and the Yankee clipper

speeds by under full sail.



Allons! with power, liberty, the earth, the elements,

Health, defiance, gayety, self-esteem, curiosity;

Allons! from all formules!

From your formules, O bat-eyed and materialistic priests.


The stale cadaver blocks up the passage--the burial waits no longer.


Allons! yet take warning!

He traveling with me needs the best blood, thews, endurance,

None may come to the trial till he or she bring courage and health,

Come not here if you have already spent the best of yourself,

Only those may come who come in sweet and determin'd bodies,

No diseas'd person, no rum-drinker or venereal taint is permitted here.


(I and mine do not convince by arguments, similes, rhymes,

We convince by our presence.)



11



Listen! I will be honest with you,

I do not offer the old smooth prizes, but offer rough new prizes,

These are the days that must happen to you:

You shall not heap up what is call'd riches,

You shall scatter with lavish hand all that you earn or achieve,

You but arrive at the city to which you were destin'd, you hardly

settle yourself to satisfaction before you are call'd by an

irresistible call to depart,

You shall be treated to the ironical smiles and mockings of those

who remain behind you,

What beckonings of love you receive you shall only answer with

passionate kisses of parting,

You shall not allow the hold of those who spread their reach'd hands

toward you.



12


Allons! after the great Companions, and to belong to them!

They too are on the road--they are the swift and majestic men-- they

are the greatest women, Enjoyers of calms of seas and storms of seas,

Sailors of many a ship, walkers of many a mile of land,

Habitues of many distant countries, habitues of far-distant dwellings,

Trusters of men and women, observers of cities, solitary toilers,

Pausers and contemplators of tufts, blossoms, shells of the shore,

Dancers at wedding-dances, kissers of brides, tender helpers of

children, bearers of children,

Soldiers of revolts, standers by gaping graves, lowerers-down of coffins,

Journeyers over consecutive seasons, over the years, the curious

years each emerging from that which preceded it,

Journeyers as with companions, namely their own diverse phases,

Forth-steppers from the latent unrealized baby-days,

Journeyers gayly with their own youth, journeyers with their bearded

and well-grain'd manhood,

Journeyers with their womanhood, ample, unsurpass'd, content,

Journeyers with their own sublime old age of manhood or womanhood,

Old age, calm, expanded, broad with the haughty breadth of the universe,

Old age, flowing free with the delicious near-by freedom of death.






Walt Whitman


.

.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Canção da Estrada Aberta (3/5) - Whitman







Canção da Estrada Aberta

Song of the Open Road


7.

Aqui está o transbordar da alma,
O transbordar da alma vem de dentro através de emoldurados portais,
mesmo provocando questões,
Por que são assim estas ânsias? Por que são assim estes meditares no escuro?
Por que existem homens e mulheres que enquanto estão ao meu lado
a luz solar
expande o meu sangue?
Por que quando eles me abandonam minhas flâmulas de alegria
declinam e murcham?
Por que existem árvores sob as quais eu nunca caminho sem
que pensamentos grandiosos e melódicos desçam sobre mim?
(Acho que os pensamentos pendem lá no inverno e verão
naquelas árvores
e sempre
caem frutos quando eu passo;)
O que que eu intercambio tão subitamente com estranhos!
O que com algum motorista quando viajo no assento ao seu lado?
O que com algum pescador arrastando sua rede-de-pesca
pela praia enquanto eu caminho e paro um momento?
O que concede-me para estar livre a uma boa-vontade
de mulher e homem? O que
concede a eles para estarem livres para mim?



8.


O transbordar da alma é felicidade, aqui está a felicidade,
Acho que ela se espalha no ar, esperando em todos os momentos,
Agora derrama-se sobre nós, estamos devidamente providos.

Aqui sobre o caráter fluido e simpático,
O caráter fluido e simpático é a frescura e doçura de homem e mulher,
(As ervas ao alvorecer brotam não mais frescas e doces a cada dia
nas próprias raízes, do que brota fresco e doce
continuamente em si-mesmo.)

Rumo ao caráter fluido e simpático vaza o suor do amor dos jovens e dos velhos,
Deste cai destilado o charme que zomba da beleza e sucessos,
Rumo a isto projeta-se a trêmula e ansiosa dor do contato.



9.


Allons! Vamos! Seja quem for você que está viajando comigo!
Viajando comigo você encontra o que nunca se cansa.

A terra nunca se cansa,
A terra é rude, silenciosa, incompreensível de início, a Natureza
é rude
e incompreensível de início,
Não desanime, continue, existem coisas divinas bem envelopadas,
Juro a você que existem coisas divinas bem mais belas
do que as palavras expressam.


Allons! Vamos! Não devemos parar aqui,
mesmo que sejam doces estas lojas sortidas, mesmo que seja
conveniente esta morada
nós não podemos ficar aqui,
Mesmo que seja protegido este porto e mesmo que sejam calmas estas águas
não devemos ancorar aqui,
Mesmo que seja acolhedora a hospitalidade conosco
nós nos permitimos recebê-la
não mais que um momento.



Trad. livre: Leonardo de Magalhaens

http://leoliteraturaescrita.blogspot.com/

...


Walt Whitman

Song of the Open Road


7



Here is the efflux of the soul,

The efflux of the soul comes from within through embower'd gates,

ever provoking questions,

These yearnings why are they? these thoughts in the darkness why are they?

Why are there men and women that while they are nigh me the sunlight

expands my blood?

Why when they leave me do my pennants of joy sink flat and lank?

Why are there trees I never walk under but large and melodious

thoughts descend upon me?

(I think they hang there winter and summer on those trees and always

drop fruit as I pass;)

What is it I interchange so suddenly with strangers?

What with some driver as I ride on the seat by his side?

What with some fisherman drawing his seine by the shore as I walk by

and pause?

What gives me to be free to a woman's and man's good-will? what

gives them to be free to mine?



8



The efflux of the soul is happiness, here is happiness,

I think it pervades the open air, waiting at all times,

Now it flows unto us, we are rightly charged.

Here rises the fluid and attaching character,

The fluid and attaching character is the freshness and sweetness of

man and woman,

(The herbs of the morning sprout no fresher and sweeter every day

out of the roots of themselves, than it sprouts fresh and sweet

continually out of itself.)



Toward the fluid and attaching character exudes the sweat of the

love of young and old,

From it falls distill'd the charm that mocks beauty and attainments,

Toward it heaves the shuddering longing ache of contact.



9



Allons! whoever you are come travel with me!

Traveling with me you find what never tires.


The earth never tires,

The earth is rude, silent, incomprehensible at first,

Nature is rude and incomprehensible at first,

Be not discouraged, keep on, there are divine things well envelop'd,

I swear to you there are divine things more beautiful than words can tell.


Allons! we must not stop here,

However sweet these laid-up stores, however convenient this dwelling

we cannot remain here,

However shelter'd this port and however calm these waters we must

not anchor here,

However welcome the hospitality that surrounds us we are permitted

to receive it but a little while.



.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Bloom na zona boêmia (Ulysses)









Ulysses / Ulisses

James Joyce / 1922


Episódio 15 (Circe)


(A Rua Mabbot na entrada da zona boêmia, diante da qual se estende um não-pavimentado desvio dos trilhos do bonde disposto com trilhos-esqueletos, fogos-fátuos rubros e verdes e sinais de alerta. Fileiras de frágeis casas com boquiabertas portas. Raros lampiões com indistintos atiçadores-arco-íris. Ao redor da parada gôndola de gelo do Rabaiotti tolhidos homens e mulheres discutiam. Eles agarravam biscoitos finos entre os quais são entalados massas de carvão e neve de cobre. Sugando, eles se dispersam lentamente. Crianças. O colo de cisne da gôndola, alto-levantada, molda-se através da escuridão, alva e azulada sob um farol. Assobios chamam e respondem.)

OS CHAMADOS: Espere, meu amor, e vou ficar contigo.

AS REPOSTAS: Lá atrás do estábulo.

(Um idiota surdo-mudo com olhos arregalados, com a boca disforme babando, move-se aos trancos ao passar, agitado numa dança de São Vito. Uma corrente de mãos infantis o aprisionam.)

AS CRIANÇAS: Canastrão! Viva!

O IDIOTA: (levanta o paralisado braço esquerdo e gorgoleja) Fodlham-se!

AS CRIANÇAS: Onde está a luz grandona?

O IDIOTA: (escarrando) Exsumam-se.

(Elas o libertam. Ele move-se aos trancos. Uma mulher anã balançava numa corda suspensa entre as balustradas, contando. Uma forma esparrama-se contra uma caixa de areia e amortecido por este braço e chapéu move, geme, rangendo dentes resmungando, e ressona de novo. Num passo um gnomo cambaleando no meio de um monte de lixo agacha-se para erguer aos ombros um saco de trapos e ossos. Uma megera de pé com uma fumarenta lâmpada-a-óleo força a última garrafa na goela do saco. Ele levanta seu espólio, arrasta de lado a capa com pala e dá o fora mancando em silêncio. A megera dá as costas voltando para o seu covil a balançar a lamparina. Uma criança entortada, agachada no degrau da porta com uma peteca de papel, rasteja esgueirante atrás dela [da megera] em impulsos, agarra sua saia, engatinha com dificuldade. Um estivador bêbado agarra com ambas as mãos as grades de uma área, movendo-se pesadamente em solavancos. Numa esquina dois guardas noturnos em capas curtas sobre os ombros, com suas mãos sobre seus coldres, se destacam altivos. Um prato quebra; uma mulher grita; uma criança se lamenta. Imprecações de um homem ressoa, resmunga, cessa. Figuras vagueiam, furtivamente, tentam enxergar desde as cercas. Numa sala iluminada por uma vela enfiada numa boca de garrafa uma mulher desarrumada penteia as madeixas do cabelo de uma criança tuberculosa. A voz de Cissy Caffrey, ainda jovial, canta estridente numa viela.)

[…]

(O soldado Carr e o soldado Compton voltam-se e retrucam, suas túnicas brilhante-sangue num clarão do lampião, os encaixes negros de suas capas sobre suas aparadas cabeças loiras, Stephen Dedalus e Lynch atravessam a multidão junto aos casacos-rubros.)

[…]

(Stephen, brandindo a bengala em sua mão esquerda, canta com prazer o introito da época da Páscoa. Lynch, com seu boné de jockey baixo em sua testa, presta atenção a ele, um sorriso desdenhoso de descontente enrugando sua face.)

STEPHEN: Vidi aquam egredientem de templo a latere dextro. Alleluia.

(Os famintos cacos de dentes pontudos de uma velha vulgar projeta-se de um vão de porta.)

A VELHA PUTA: (Sua voz sussurrando rouca) Xst! Venha cá e vou te dizer. Uma donzela lá dentro. Eia!

STEPHEN: (Altius aliquantulum) Et omnes ad quos pervenit aqua ista.

A VELHA PUTA: (Cospe no caminho deles o jorro de veneno dela) Médicos da Trinity. Trompa de Falópio. Tudo pica e nenhum tostão.

(Edy Boardman, fungando, agachada com Bertha Supple, puxa seu xale até o nariz.)

EDY BOARDMAN: (Discutindo) E uma diz: eu vi você na praça Faithful com seu traficante do quarteirão, o mais seboso da ferrovia, no seu chapéu ir-pra-cama. Você viu, eu disse. Que não é pra você dizer, eu disse Você nunca me viu numa armadilha de homem [bordel] com um escocês casado. Os gostos dela! De macho que é. Teimosa igual a uma mula! E ela que anda com dois caras de uma vez, Kilbride o maquinista e o lanceiro Oliphant.

STEPHEN: (Com triunfo) Salvifacti i sunt.

(Ele agita sua bengala fazendo tremer a imagem do lampião, estilhaçando a luz sobre o mundo. Um branco-pardo cão spaniel a vaguear esgueira-se atrás dele, rosnando. Lynch enxota o cão com um chute.)

LYNCH: Então o quê?

STEPHEN: (Olha atrás de si) Eis que gesto, não música, nem o cheiro seria a língua universal, a dádiva das línguas fazendo visível não o senso comum (leigo), mas a primeira enteléquia, o ritmo estrutural.

LYNCH: Pornosófica filoteologia. Metafísica na rua Mecklenburg.

STEPHEN: Nós temos Shakespeare dominado-por-megera e Sócrates dominado-pela-mulher. Mesmo o todo-sábio estagirita [Aristóteles](1) foi mordido, domado e cavalgado por uma luz de amor.

LYNCH: Ora bolas!

STEPHEN: De qualquer modo, quem deseja dois gestos para representar um pão e uma jarra? Este movimento representa o pão e o jarro de pão e vinho em Omar. Segure a minha bengala.

LYNCH: Dane-se sua bengala amarela. Aonde estamos indo?

STEPHEN: Lince lascivo, para a la belle dame sans merci [a bela dama sem clemência](2), Georgina Johnson, ad deam qui lactificat juventutem meam.

(Stephen espeta a bengala nele e lentamente estende suas mãos, sua cabeça recuando até ambas as mãos ficarem até um palmo do seu peito, para baixo virou em planos intersectantes, os dedos separados, a mão esquerda mais acima.)

LYNCH: Qual é o jarro de pão? Não dá certo. Aquela ou a alfândega.
Represente aí você. Aqui, pegue sua muleta e vá em frente.

(Eles passam. Tommy Caffrey escala um lampião a gás e, agarrando-se, sobe em espasmos. Lá de cima ele escorrega abaixo. Jacky Caffrey se agarra para subir. O estivador cambaleia à contra-luz. Os gêmeos correm no escuro. O estivador, oscilando, aperta um dedo contra o lado do nariz e espirra daí um jato de meleca. Apoiando o ombro no lampião ele vacila para longe através da multidão com seu chamejante balde de brasas.

Serpentes da névoa do rio rastejam lentas. Desde os esgotos, fendas, fossas, lixões sobem de todos os lados fumos estagnantes. Um brilho saltita no sul além da direção do mar alcança o rio. O estivador cambaleante adianta racha a multidão e oscila adiante até o desvio dos trilhos. No lado mais afastado sob a ponte da ferrovia Bloom aparece afogueado, ofegando, pão embrulhado e chocolate num bolso lateral. De uma janela do cabeleireiro Gillen um retrato composto mostra-lhe a galante imagem de Nelson (3). Um espelho côncavo ao lado apresenta-lhe desolado-de-amor há muito perdido lúgubre Booloohoom. O solene Gladstone (4) vê a ele ao nível, Bloom por Bloom. Ele passa, golpeado pelo olhar fixo de truculento Wellington (5), porém no espelho convexo sorriso amplo não-golpeados os olhos de porquinho e queixo-gordo pedaço-de-bochecha de alegre-poldy o rixdix doldy.

Diante da porta de Antonio Rabaiotti, suado, Bloom faz uma pausa, sob as brilhantes lâmpadas em arco. Ele desaparece. Numa momento ele reaparece e se apressa.)

BLOOM: Peixe e trapos. N.g. Ah!

(Ele desaparece dentro da Olhousen's, o açougue [de carne suína], sob o declinante porta-de-aço. Uns poucos momentos mais tarde ele emerge de sob a veneziana, arquejante Poldy, resfolegante Bloohoom. Em cada mão ele carrega um pacote um contendo uma tépida pata de porco, o outro, uma fria perna de carneiro, borrifada com pimenta inteira. Ele ofega, mantendo-se de pé. Então inclina-se para um lado, comprime um pacote contra a costela e geme.)

BLOOM: Pontada aqui do lado. Por que eu corri?

(Ele toma fôlego com cuidado e segue adiante lentamente rumo ao desvio junto ao lampião. O brilho salta novamente.)

BLOOM: O que é aquilo? Um relâmpago? Holofote.

(Ele para na esquina da Cormack's, observando.)

BLOOM: Aurora borealis ou uma fundição de aço? Ah, a brigada, claro. Em todo caso lá pros lados do sul. Grande brilho (6). Deveria ser a casa dele [Blaze, brilho = Blaze Boylan]. Moita de mendigo. Estamos salvos. (Ele cantarola mudamente com satisfação) Londres em chamas, Londres em chamas! Em chamas, em chamas! (7)(Ele tem a visão do estivador cambaleando através da multidão no lado mais afastado da rua Talbot) Eu o perdi. Corre. Rápido. Melhor atravessar aqui.

(Ele se apressa para cruzar a rua. Uns moleques gritam.)

OS MOLEQUES: Preste atenção, senhor! (Dois ciclistas, com iluminadas lanternas de papel oscilando, passam por ele, raspando, com as sinetas tagarelando.)

AS SINETAS: Ooooppaaaaaaltooooolaaaaá !

BLOOM: (Ele para erguido picado por um espasmo) Opa!

(Ele olha ao redor, apressa-se adiante subitamente. Através da névoa que sobe um dragão espalhador-de-areia, viajando com cuidado, cai pesadamente sobre ele, seu grande rubro farol piscando, seu vagão assobiando no fio. O condutor golpeia sua buzina. )



pp. 425-429(*)




trad. livre: Leonardo de Magalhaens




Referências


(1)Estagirita é o filósofo Aristóteles, pois nascido na cidade de Estagira
http://pt.wikipedia.org/wiki/Aristóteles


(2)O poema Belle Dame sans Merci de John Keats
http://www.bartleby.com/126/55.html


(3)O almirante Nelson que comandou a Marinha britânica durante as Guerras Napoleônicas
http://pt.wikipedia.org/wiki/Horatio_Nelson

(4)O primeiro-ministro britânico Gladstone
http://pt.wikipedia.org/wiki/William_Ewart_Gladstone

(5)O general Duque de Wellington – famoso na vitória em Waterloo
http://pt.wikipedia.org/wiki/Arthur_Wellesley,_1.º_Duque_de_Wellington

(6)Blaze Boylan é o amante de Molly, a esposa (in)fiel de Bloom.

(7)“Londres em chamas”, refere-se ao Grande Incêndio de 1666, e uma cantiga infantil (nursery rhymes).
http://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_Incêndio_de_Londres


(*)O episódio 15 é composto de 107 páginas, todo no estilo teatro expressionista.


Links ULYSSES

episode 15 Circe

Wikisource
http://en.wikisource.org/wiki/Ulysses_(novel)/Chapter_15
.
Project Gutenberg
http://www.gutenberg.org/catalog/world/readfile?fk_files=853163&pageno=362

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Ulysess
http://en.wikipedia.org/wiki/Ulysses_(novel)
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LdeM

sábado, 11 de junho de 2011

Canção da Estrada Aberta (2/5) - Whitman







Canção da Estrada Aberta

Song of the Open Road


4

A terra se expandindo à direita e à esquerda,
O quadro vivo, cada parte na sua melhor luz,
A música caindo onde é desejada, e parando onde
não é desejada,
A animada voz da estrada pública, o alegre e fresco
sentimento da estrada.

Ó auto-estrada, onde eu viajo, você diria para mim
'Não me abandone'?
Você diria 'Não se aventure – se você me abandonar
você vai se perder'?
Você diria 'Estou preparada, Estou bem-trilhada e nunca
rejeitada,
Junte-se a mim' ?

Ó estrada pública, eu digo em troca que não tenho medo
de abandonar-te, ainda te amo,
Você expressa sobre mim melhor do que eu posso expressar
sobre mim mesmo,
Você deverá ser mais para mim do que o meu poema.

Imagino feitos heróicos todos concebidos ao ar livre,
e também todos os poemas livres,
Imagino que eu poderia parar aqui e fazer milagres,
Imagino que o que quer que eu encontrar na estrada eu deverei
gostar, e quem quer que
me observe deverá gostar de mim,
Imagino que quem quer que eu veja deverá ser feliz.



5

Desde agora eu ordeno a mim mesmo livrar-me dos limites e
linhas imaginárias,
Indo aonde eu me entrego, meu próprio mestre total e absoluto,
Ouvindo aos outros, considerando bem o que eles dizem,
Em pausas, procurando, recebendo, contemplando,
Gentilmente, mas com desejo inegável, desnudando-me das
amarras que
me prenderiam.

Eu inalo grandes goles do espaço,
O leste e o oeste são meus, e o norte e o sul são meus.

Sou maior, melhor do que eu pensava,
Eu não sabia que eu guardava tanta bondade.

Tudo parece belo para mim,
Posso repetir aos homens e mulheres 'Vocês têm feito muito bem
a mim'
Eu faria o mesmo a vocês
Eu vou recuperar a mim mesmo e vocês enquanto eu sigo,
Eu vou me espalhar entre homens e mulheres enquanto eu sigo,
Eu vou semear entre eles uma nova satisfação e esforço,
Quem quer que me rejeite isto não deverá me incomodar,
Quem quer que me aceite, ele ou ela, ser]ao abençoados e
deverão me abençoar.



6

Agora se mil homens perfeitos aparecessem
isto não me surpreenderia,
Agora se mil belas formas de mulheres aparecessem
isto não me espantaria.

Agora eu vejo o segredo do criar pessoas melhores,
É crescer ao ar livre e comer e dormir junto a terra.

A um grande tarefa pessoal tem lugar,
(Tal uma obra que se apossa dos corações da completa
raça de homens,
Sua efusão de força e vontade esmaga a lei e zomba
de toda
autoridade e todos os argumentos em contrário.)

Aqui está a prova da sabedoria,
Sabedoria não é de fato testada em escolas,
Sabedoria não pode ser transmitida de um que tem
para outro que não tem,
Sabedoria é da própria alma, não é suscetível de prova,
é a própria prova,
Aplica-se a todos os estágios e objetos e qualidades
e é contente,
É a certeza da realidade e a imortalidade das coisas, e a
excelência das coisas;
Algo existe na deriva da visão das coisas que provoca
tal efeito na alma.

Agora eu re-examino filosofias e religiões,
Eles devem provar bem em salas-de-leitura, ainda não prova
tudo sob as
nuvens espaçosas e ao longo de paisagens e riachos que fluem.

Aqui está a realização,
Aqui está o homem marcado – ele entende aqui o que
ele tem em si-mesmo,
O passado, o futuro, majestade, amor – se eles eram
vazios de você,
você estava vazia deles.

Apenas o cerne de cada objeto alimenta;
Onde está ele que colhe os frutos para você e para mim?
Onde está ele que desfaz estratagemas e envelopes
para você e para mim?

Aqui é aderência, não é previamente modelável,
é conveniente;
Você sabe como é quando se passa a ser amada
por estranhos?

Você conhece a conversa daqueles que voltam o olhar?




Trad. livre: Leonardo de Magalhaens

http://leoliteraturaescrita.blogspot.com/





Walt Whitman

Song of the Open Road


4

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The earth expanding right hand and left hand,

The picture alive, every part in its best light,

The music falling in where it is wanted, and stopping

where it is not wanted,

The cheerful voice of the public road, the gay fresh sentiment

of the road.

O highway I travel, do you say to me Do not leave me?

Do you say Venture not--if you leave me you are lost?

Do you say I am already prepared, I am well-beaten and undenied,

adhere to me?



O public road, I say back I am not afraid to leave you, yet I love you,

You express me better than I can express myself,

You shall be more to me than my poem.



I think heroic deeds were all conceiv'd in the open air,

and all free poems also,

I think I could stop here myself and do miracles,

I think whatever I shall meet on the road I shall like, and whoever

beholds me shall like me,

I think whoever I see must be happy.


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5

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From this hour I ordain myself loos'd of limits and imaginary lines,

Going where I list, my own master total and absolute,

Listening to others, considering well what they say,

Pausing, searching, receiving, contemplating,

Gently, but with undeniable will, divesting myself of the holds that

would hold me.



I inhale great draughts of space,

The east and the west are mine, and the north and the south are mine.


I am larger, better than I thought,

I did not know I held so much goodness.



All seems beautiful to me, can repeat over to men and women You have done

such good to me

I would do the same to you,

I will recruit for myself and you as I go,

I will scatter myself among men and women as I go,

I will toss a new gladness and roughness among them,

Whoever denies me it shall not trouble me,

Whoever accepts me he or she shall be blessed and shall bless me.


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6
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Now if a thousand perfect men were to appear it would not amaze me,

Now if a thousand beautiful forms of women appear'd it would not astonish me.

Now I see the secret of the making of the best persons,

It is to grow in the open air and to eat and sleep with the earth.

Here a great personal deed has room,

(Such a deed seizes upon the hearts of the whole race of men,

Its effusion of strength and will overwhelms law and mocks all

authority and all argument against it.)



Here is the test of wisdom,

Wisdom is not finally tested in schools,

Wisdom cannot be pass'd from one having it to another not having it,

Wisdom is of the soul, is not susceptible of proof, is its own proof,

Applies to all stages and objects and qualities and is content,

Is the certainty of the reality and immortality of things, and the

excellence of things;

Something there is in the float of the sight of things that provokes

it out of the soul.



Now I re-examine philosophies and religions,

They may prove well in lecture-rooms, yet not prove at all

under the spacious clouds and along the landscape and flowing currents.



Here is realization,

Here is a man tallied--he realizes here what he has in him,

The past, the future, majesty, love--if they are vacant of you, you

are vacant of them.



Only the kernel of every object nourishes;

Where is he who tears off the husks for you and me?

Where is he that undoes stratagems and envelopes for you and me?



Here is adhesiveness, it is not previously fashion'd, it is apropos;

Do you know what it is as you pass to be loved by strangers?

Do you know the talk of those turning eye-balls?




Walt Whitman




LdeM

sábado, 4 de junho de 2011

Canção da Estrada Aberta (1/5) - Whitman












Canção da Estrada Aberta

Song of the Open Road

1

A pé e de coração leve eu pego a estrada aberta
Saudável, livre, o mundo diante de mim,
A longa trilha diante de mim conduzindo-me
aonde quer que eu escolha.


De agora em diante eu não questiono sobre a boa-sorte,
eu mesmo sou a boa-sorte,
De gora em diante eu não vou mais lamentar, não vou mais adiar,
de nada eu preciso,
Chega de reclamação dentro de casa, bibliotecas, críticas queixosas,
Forte e contente eu viajo através da estrada aberta.


A terra, eis o suficiente,
Eu não quero as constelações mais próximas,
Sei que elas estão bem aonde elas estão,
Sei que elas são suficientes para aqueles que pertencem a elas.


(Ainda aqui eu carrego meus velhos e deliciosos fardos,
Eu os carrego, homens e mulheres, eu os carrego comigo
para onde quer que eu vá,
Eu juro que é impossível para mim livrar-me deles,
Estou preenchido com eles, e eu os preencherei em troca.)


2

Você, estrada, eu te adentro e olho ao redor, eu acredito que
você não é tudo o que está aqui,
Eu acredito que aqui há também muito ainda não visto.


Aqui a profunda lição da recepção, nem preferência nem rejeição,
O negro com sua cabeça de lã, o bandido, o doente,
os analfabetos, não são rejeitados,
O nascimento, a pressa após o médico, o perambular do mendigo,
o cambalear do bêbado, a festa gargalhante dos mecânicos,
A juventude em fuga, a carruagem dos ricos, o janota,
o casal fugitivo,
O comerciante que madruga, o carro fúnebre, o mover da mobília
para a cidade, o retorno desde a cidade,
Eles passam, eu também passo, algo passa, nenhum
pode ser restringido,
Ninguém pode senão ser aceito, ninguém pode senão
ser importante para mim.


3

Você, ar, que me concede o fôlego para falar!
Vocês, objetos, que clamam da difusão meus sentidos
e dá forma a eles!
Você, luz, que me envolve e todas as coisas em delicada e
invariável cascata!
Vocês, trilhas, batidas nos buracos irregulares ao longo das estradas!
Acredito que vocês estão latentes com existências invisíveis,
vocês são importantes para mim.


Vocês, calçadas lajeadas das cidades! Vocês, robustos meio-fios
nas beiras!
Vocês, barcas! Vocês, pranchas e postes do cais! Você, lado delineado
de madeira! Vocês, navios distantes!
Vocês, fileiras de casas! Vocês, fachadas recortadas por janelas!
Vocês, telhados!
Vocês, varandas e entradas! Vocês, beirais e grades!
Vocês, janelas, cujas conchas transparentes deveriam expor muito!
Vocês, portas e altas escadarias! Vocês, arcadas!
Vocês, pedras cinzentas de pavimentos intermináveis! Vocês,
cruzamentos tão pisados!
De tudo que tem tocado vocês eu acredito que vocês tem comunicado a
Vocês mesmos, e agora comunicariam o mesmo secretamente para mim,
De vivos e de mortos vocês povoaram suas superfícies impassíveis,
E os espíritos destes e daqueles serão evidentes e amistosos comigo.



Trad. livre: Leonardo de Magalhaens

http://leoliteraturaescrita.blogspot.com



...



Walt Whitman




Song of the Open Road



1

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Afoot and light-hearted I take to the open road,

Healthy, free, the world before me,

The long brown path before me leading wherever I choose.

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Henceforth I ask not good-fortune, I myself am good-fortune,

Henceforth I whimper no more, postpone no more, need nothing,

Done with indoor complaints, libraries, querulous criticisms,

Strong and content I travel the open road.

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The earth, that is sufficient,

I do not want the constellations any nearer,

I know they are very well where they are,

I know they suffice for those who belong to them.

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(Still here I carry my old delicious burdens,

I carry them, men and women, I carry them with me wherever I go,

I swear it is impossible for me to get rid of them,

I am fill'd with them, and I will fill them in return.)

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2

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You road I enter upon and look around, I believe you are not all

that is here,

I believe that much unseen is also here.

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Here the profound lesson of reception, nor preference nor denial,

The black with his woolly head, the felon, the diseas'd, the

illiterate person, are not denied;

The birth, the hasting after the physician, the beggar's tramp, the

drunkard's stagger, the laughing party of mechanics,

The escaped youth, the rich person's carriage, the fop, the eloping couple,

The early market-man, the hearse, the moving of furniture into the

town, the return back from the town,

They pass, I also pass, any thing passes, none can be interdicted,

None but are accepted, none but shall be dear to me.

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3

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You air that serves me with breath to speak!

You objects that call from diffusion my meanings and give them shape!

You light that wraps me and all things in delicate equable showers!

You paths worn in the irregular hollows by the roadsides!

I believe you are latent with unseen existences, you are so dear to me.

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You flagg'd walks of the cities! you strong curbs at the edges!

You ferries! you planks and posts of wharves! you timber-lined

side! you distant ships!

You rows of houses! you window-pierc'd facades! you roofs!

You porches and entrances! you copings and iron guards!

You windows whose transparent shells might expose so much!

You doors and ascending steps! you arches!

You gray stones of interminable pavements! you trodden crossings!

From all that has touch'd you I believe you have imparted to

yourselves, and now would impart the same secretly to me,

From the living and the dead you have peopled your impassive surfaces,

and the spirits thereof would be evident and amicable with me.
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LdeM


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