quinta-feira, 16 de junho de 2011

Bloom na zona boêmia (Ulysses)









Ulysses / Ulisses

James Joyce / 1922


Episódio 15 (Circe)


(A Rua Mabbot na entrada da zona boêmia, diante da qual se estende um não-pavimentado desvio dos trilhos do bonde disposto com trilhos-esqueletos, fogos-fátuos rubros e verdes e sinais de alerta. Fileiras de frágeis casas com boquiabertas portas. Raros lampiões com indistintos atiçadores-arco-íris. Ao redor da parada gôndola de gelo do Rabaiotti tolhidos homens e mulheres discutiam. Eles agarravam biscoitos finos entre os quais são entalados massas de carvão e neve de cobre. Sugando, eles se dispersam lentamente. Crianças. O colo de cisne da gôndola, alto-levantada, molda-se através da escuridão, alva e azulada sob um farol. Assobios chamam e respondem.)

OS CHAMADOS: Espere, meu amor, e vou ficar contigo.

AS REPOSTAS: Lá atrás do estábulo.

(Um idiota surdo-mudo com olhos arregalados, com a boca disforme babando, move-se aos trancos ao passar, agitado numa dança de São Vito. Uma corrente de mãos infantis o aprisionam.)

AS CRIANÇAS: Canastrão! Viva!

O IDIOTA: (levanta o paralisado braço esquerdo e gorgoleja) Fodlham-se!

AS CRIANÇAS: Onde está a luz grandona?

O IDIOTA: (escarrando) Exsumam-se.

(Elas o libertam. Ele move-se aos trancos. Uma mulher anã balançava numa corda suspensa entre as balustradas, contando. Uma forma esparrama-se contra uma caixa de areia e amortecido por este braço e chapéu move, geme, rangendo dentes resmungando, e ressona de novo. Num passo um gnomo cambaleando no meio de um monte de lixo agacha-se para erguer aos ombros um saco de trapos e ossos. Uma megera de pé com uma fumarenta lâmpada-a-óleo força a última garrafa na goela do saco. Ele levanta seu espólio, arrasta de lado a capa com pala e dá o fora mancando em silêncio. A megera dá as costas voltando para o seu covil a balançar a lamparina. Uma criança entortada, agachada no degrau da porta com uma peteca de papel, rasteja esgueirante atrás dela [da megera] em impulsos, agarra sua saia, engatinha com dificuldade. Um estivador bêbado agarra com ambas as mãos as grades de uma área, movendo-se pesadamente em solavancos. Numa esquina dois guardas noturnos em capas curtas sobre os ombros, com suas mãos sobre seus coldres, se destacam altivos. Um prato quebra; uma mulher grita; uma criança se lamenta. Imprecações de um homem ressoa, resmunga, cessa. Figuras vagueiam, furtivamente, tentam enxergar desde as cercas. Numa sala iluminada por uma vela enfiada numa boca de garrafa uma mulher desarrumada penteia as madeixas do cabelo de uma criança tuberculosa. A voz de Cissy Caffrey, ainda jovial, canta estridente numa viela.)

[…]

(O soldado Carr e o soldado Compton voltam-se e retrucam, suas túnicas brilhante-sangue num clarão do lampião, os encaixes negros de suas capas sobre suas aparadas cabeças loiras, Stephen Dedalus e Lynch atravessam a multidão junto aos casacos-rubros.)

[…]

(Stephen, brandindo a bengala em sua mão esquerda, canta com prazer o introito da época da Páscoa. Lynch, com seu boné de jockey baixo em sua testa, presta atenção a ele, um sorriso desdenhoso de descontente enrugando sua face.)

STEPHEN: Vidi aquam egredientem de templo a latere dextro. Alleluia.

(Os famintos cacos de dentes pontudos de uma velha vulgar projeta-se de um vão de porta.)

A VELHA PUTA: (Sua voz sussurrando rouca) Xst! Venha cá e vou te dizer. Uma donzela lá dentro. Eia!

STEPHEN: (Altius aliquantulum) Et omnes ad quos pervenit aqua ista.

A VELHA PUTA: (Cospe no caminho deles o jorro de veneno dela) Médicos da Trinity. Trompa de Falópio. Tudo pica e nenhum tostão.

(Edy Boardman, fungando, agachada com Bertha Supple, puxa seu xale até o nariz.)

EDY BOARDMAN: (Discutindo) E uma diz: eu vi você na praça Faithful com seu traficante do quarteirão, o mais seboso da ferrovia, no seu chapéu ir-pra-cama. Você viu, eu disse. Que não é pra você dizer, eu disse Você nunca me viu numa armadilha de homem [bordel] com um escocês casado. Os gostos dela! De macho que é. Teimosa igual a uma mula! E ela que anda com dois caras de uma vez, Kilbride o maquinista e o lanceiro Oliphant.

STEPHEN: (Com triunfo) Salvifacti i sunt.

(Ele agita sua bengala fazendo tremer a imagem do lampião, estilhaçando a luz sobre o mundo. Um branco-pardo cão spaniel a vaguear esgueira-se atrás dele, rosnando. Lynch enxota o cão com um chute.)

LYNCH: Então o quê?

STEPHEN: (Olha atrás de si) Eis que gesto, não música, nem o cheiro seria a língua universal, a dádiva das línguas fazendo visível não o senso comum (leigo), mas a primeira enteléquia, o ritmo estrutural.

LYNCH: Pornosófica filoteologia. Metafísica na rua Mecklenburg.

STEPHEN: Nós temos Shakespeare dominado-por-megera e Sócrates dominado-pela-mulher. Mesmo o todo-sábio estagirita [Aristóteles](1) foi mordido, domado e cavalgado por uma luz de amor.

LYNCH: Ora bolas!

STEPHEN: De qualquer modo, quem deseja dois gestos para representar um pão e uma jarra? Este movimento representa o pão e o jarro de pão e vinho em Omar. Segure a minha bengala.

LYNCH: Dane-se sua bengala amarela. Aonde estamos indo?

STEPHEN: Lince lascivo, para a la belle dame sans merci [a bela dama sem clemência](2), Georgina Johnson, ad deam qui lactificat juventutem meam.

(Stephen espeta a bengala nele e lentamente estende suas mãos, sua cabeça recuando até ambas as mãos ficarem até um palmo do seu peito, para baixo virou em planos intersectantes, os dedos separados, a mão esquerda mais acima.)

LYNCH: Qual é o jarro de pão? Não dá certo. Aquela ou a alfândega.
Represente aí você. Aqui, pegue sua muleta e vá em frente.

(Eles passam. Tommy Caffrey escala um lampião a gás e, agarrando-se, sobe em espasmos. Lá de cima ele escorrega abaixo. Jacky Caffrey se agarra para subir. O estivador cambaleia à contra-luz. Os gêmeos correm no escuro. O estivador, oscilando, aperta um dedo contra o lado do nariz e espirra daí um jato de meleca. Apoiando o ombro no lampião ele vacila para longe através da multidão com seu chamejante balde de brasas.

Serpentes da névoa do rio rastejam lentas. Desde os esgotos, fendas, fossas, lixões sobem de todos os lados fumos estagnantes. Um brilho saltita no sul além da direção do mar alcança o rio. O estivador cambaleante adianta racha a multidão e oscila adiante até o desvio dos trilhos. No lado mais afastado sob a ponte da ferrovia Bloom aparece afogueado, ofegando, pão embrulhado e chocolate num bolso lateral. De uma janela do cabeleireiro Gillen um retrato composto mostra-lhe a galante imagem de Nelson (3). Um espelho côncavo ao lado apresenta-lhe desolado-de-amor há muito perdido lúgubre Booloohoom. O solene Gladstone (4) vê a ele ao nível, Bloom por Bloom. Ele passa, golpeado pelo olhar fixo de truculento Wellington (5), porém no espelho convexo sorriso amplo não-golpeados os olhos de porquinho e queixo-gordo pedaço-de-bochecha de alegre-poldy o rixdix doldy.

Diante da porta de Antonio Rabaiotti, suado, Bloom faz uma pausa, sob as brilhantes lâmpadas em arco. Ele desaparece. Numa momento ele reaparece e se apressa.)

BLOOM: Peixe e trapos. N.g. Ah!

(Ele desaparece dentro da Olhousen's, o açougue [de carne suína], sob o declinante porta-de-aço. Uns poucos momentos mais tarde ele emerge de sob a veneziana, arquejante Poldy, resfolegante Bloohoom. Em cada mão ele carrega um pacote um contendo uma tépida pata de porco, o outro, uma fria perna de carneiro, borrifada com pimenta inteira. Ele ofega, mantendo-se de pé. Então inclina-se para um lado, comprime um pacote contra a costela e geme.)

BLOOM: Pontada aqui do lado. Por que eu corri?

(Ele toma fôlego com cuidado e segue adiante lentamente rumo ao desvio junto ao lampião. O brilho salta novamente.)

BLOOM: O que é aquilo? Um relâmpago? Holofote.

(Ele para na esquina da Cormack's, observando.)

BLOOM: Aurora borealis ou uma fundição de aço? Ah, a brigada, claro. Em todo caso lá pros lados do sul. Grande brilho (6). Deveria ser a casa dele [Blaze, brilho = Blaze Boylan]. Moita de mendigo. Estamos salvos. (Ele cantarola mudamente com satisfação) Londres em chamas, Londres em chamas! Em chamas, em chamas! (7)(Ele tem a visão do estivador cambaleando através da multidão no lado mais afastado da rua Talbot) Eu o perdi. Corre. Rápido. Melhor atravessar aqui.

(Ele se apressa para cruzar a rua. Uns moleques gritam.)

OS MOLEQUES: Preste atenção, senhor! (Dois ciclistas, com iluminadas lanternas de papel oscilando, passam por ele, raspando, com as sinetas tagarelando.)

AS SINETAS: Ooooppaaaaaaltooooolaaaaá !

BLOOM: (Ele para erguido picado por um espasmo) Opa!

(Ele olha ao redor, apressa-se adiante subitamente. Através da névoa que sobe um dragão espalhador-de-areia, viajando com cuidado, cai pesadamente sobre ele, seu grande rubro farol piscando, seu vagão assobiando no fio. O condutor golpeia sua buzina. )



pp. 425-429(*)




trad. livre: Leonardo de Magalhaens




Referências


(1)Estagirita é o filósofo Aristóteles, pois nascido na cidade de Estagira
http://pt.wikipedia.org/wiki/Aristóteles


(2)O poema Belle Dame sans Merci de John Keats
http://www.bartleby.com/126/55.html


(3)O almirante Nelson que comandou a Marinha britânica durante as Guerras Napoleônicas
http://pt.wikipedia.org/wiki/Horatio_Nelson

(4)O primeiro-ministro britânico Gladstone
http://pt.wikipedia.org/wiki/William_Ewart_Gladstone

(5)O general Duque de Wellington – famoso na vitória em Waterloo
http://pt.wikipedia.org/wiki/Arthur_Wellesley,_1.º_Duque_de_Wellington

(6)Blaze Boylan é o amante de Molly, a esposa (in)fiel de Bloom.

(7)“Londres em chamas”, refere-se ao Grande Incêndio de 1666, e uma cantiga infantil (nursery rhymes).
http://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_Incêndio_de_Londres


(*)O episódio 15 é composto de 107 páginas, todo no estilo teatro expressionista.


Links ULYSSES

episode 15 Circe

Wikisource
http://en.wikisource.org/wiki/Ulysses_(novel)/Chapter_15
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Project Gutenberg
http://www.gutenberg.org/catalog/world/readfile?fk_files=853163&pageno=362

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Ulysess
http://en.wikipedia.org/wiki/Ulysses_(novel)
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LdeM

sábado, 11 de junho de 2011

Canção da Estrada Aberta (2/5) - Whitman







Canção da Estrada Aberta

Song of the Open Road


4

A terra se expandindo à direita e à esquerda,
O quadro vivo, cada parte na sua melhor luz,
A música caindo onde é desejada, e parando onde
não é desejada,
A animada voz da estrada pública, o alegre e fresco
sentimento da estrada.

Ó auto-estrada, onde eu viajo, você diria para mim
'Não me abandone'?
Você diria 'Não se aventure – se você me abandonar
você vai se perder'?
Você diria 'Estou preparada, Estou bem-trilhada e nunca
rejeitada,
Junte-se a mim' ?

Ó estrada pública, eu digo em troca que não tenho medo
de abandonar-te, ainda te amo,
Você expressa sobre mim melhor do que eu posso expressar
sobre mim mesmo,
Você deverá ser mais para mim do que o meu poema.

Imagino feitos heróicos todos concebidos ao ar livre,
e também todos os poemas livres,
Imagino que eu poderia parar aqui e fazer milagres,
Imagino que o que quer que eu encontrar na estrada eu deverei
gostar, e quem quer que
me observe deverá gostar de mim,
Imagino que quem quer que eu veja deverá ser feliz.



5

Desde agora eu ordeno a mim mesmo livrar-me dos limites e
linhas imaginárias,
Indo aonde eu me entrego, meu próprio mestre total e absoluto,
Ouvindo aos outros, considerando bem o que eles dizem,
Em pausas, procurando, recebendo, contemplando,
Gentilmente, mas com desejo inegável, desnudando-me das
amarras que
me prenderiam.

Eu inalo grandes goles do espaço,
O leste e o oeste são meus, e o norte e o sul são meus.

Sou maior, melhor do que eu pensava,
Eu não sabia que eu guardava tanta bondade.

Tudo parece belo para mim,
Posso repetir aos homens e mulheres 'Vocês têm feito muito bem
a mim'
Eu faria o mesmo a vocês
Eu vou recuperar a mim mesmo e vocês enquanto eu sigo,
Eu vou me espalhar entre homens e mulheres enquanto eu sigo,
Eu vou semear entre eles uma nova satisfação e esforço,
Quem quer que me rejeite isto não deverá me incomodar,
Quem quer que me aceite, ele ou ela, ser]ao abençoados e
deverão me abençoar.



6

Agora se mil homens perfeitos aparecessem
isto não me surpreenderia,
Agora se mil belas formas de mulheres aparecessem
isto não me espantaria.

Agora eu vejo o segredo do criar pessoas melhores,
É crescer ao ar livre e comer e dormir junto a terra.

A um grande tarefa pessoal tem lugar,
(Tal uma obra que se apossa dos corações da completa
raça de homens,
Sua efusão de força e vontade esmaga a lei e zomba
de toda
autoridade e todos os argumentos em contrário.)

Aqui está a prova da sabedoria,
Sabedoria não é de fato testada em escolas,
Sabedoria não pode ser transmitida de um que tem
para outro que não tem,
Sabedoria é da própria alma, não é suscetível de prova,
é a própria prova,
Aplica-se a todos os estágios e objetos e qualidades
e é contente,
É a certeza da realidade e a imortalidade das coisas, e a
excelência das coisas;
Algo existe na deriva da visão das coisas que provoca
tal efeito na alma.

Agora eu re-examino filosofias e religiões,
Eles devem provar bem em salas-de-leitura, ainda não prova
tudo sob as
nuvens espaçosas e ao longo de paisagens e riachos que fluem.

Aqui está a realização,
Aqui está o homem marcado – ele entende aqui o que
ele tem em si-mesmo,
O passado, o futuro, majestade, amor – se eles eram
vazios de você,
você estava vazia deles.

Apenas o cerne de cada objeto alimenta;
Onde está ele que colhe os frutos para você e para mim?
Onde está ele que desfaz estratagemas e envelopes
para você e para mim?

Aqui é aderência, não é previamente modelável,
é conveniente;
Você sabe como é quando se passa a ser amada
por estranhos?

Você conhece a conversa daqueles que voltam o olhar?




Trad. livre: Leonardo de Magalhaens

http://leoliteraturaescrita.blogspot.com/





Walt Whitman

Song of the Open Road


4

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The earth expanding right hand and left hand,

The picture alive, every part in its best light,

The music falling in where it is wanted, and stopping

where it is not wanted,

The cheerful voice of the public road, the gay fresh sentiment

of the road.

O highway I travel, do you say to me Do not leave me?

Do you say Venture not--if you leave me you are lost?

Do you say I am already prepared, I am well-beaten and undenied,

adhere to me?



O public road, I say back I am not afraid to leave you, yet I love you,

You express me better than I can express myself,

You shall be more to me than my poem.



I think heroic deeds were all conceiv'd in the open air,

and all free poems also,

I think I could stop here myself and do miracles,

I think whatever I shall meet on the road I shall like, and whoever

beholds me shall like me,

I think whoever I see must be happy.


.

5

.


From this hour I ordain myself loos'd of limits and imaginary lines,

Going where I list, my own master total and absolute,

Listening to others, considering well what they say,

Pausing, searching, receiving, contemplating,

Gently, but with undeniable will, divesting myself of the holds that

would hold me.



I inhale great draughts of space,

The east and the west are mine, and the north and the south are mine.


I am larger, better than I thought,

I did not know I held so much goodness.



All seems beautiful to me, can repeat over to men and women You have done

such good to me

I would do the same to you,

I will recruit for myself and you as I go,

I will scatter myself among men and women as I go,

I will toss a new gladness and roughness among them,

Whoever denies me it shall not trouble me,

Whoever accepts me he or she shall be blessed and shall bless me.


.

6
.


Now if a thousand perfect men were to appear it would not amaze me,

Now if a thousand beautiful forms of women appear'd it would not astonish me.

Now I see the secret of the making of the best persons,

It is to grow in the open air and to eat and sleep with the earth.

Here a great personal deed has room,

(Such a deed seizes upon the hearts of the whole race of men,

Its effusion of strength and will overwhelms law and mocks all

authority and all argument against it.)



Here is the test of wisdom,

Wisdom is not finally tested in schools,

Wisdom cannot be pass'd from one having it to another not having it,

Wisdom is of the soul, is not susceptible of proof, is its own proof,

Applies to all stages and objects and qualities and is content,

Is the certainty of the reality and immortality of things, and the

excellence of things;

Something there is in the float of the sight of things that provokes

it out of the soul.



Now I re-examine philosophies and religions,

They may prove well in lecture-rooms, yet not prove at all

under the spacious clouds and along the landscape and flowing currents.



Here is realization,

Here is a man tallied--he realizes here what he has in him,

The past, the future, majesty, love--if they are vacant of you, you

are vacant of them.



Only the kernel of every object nourishes;

Where is he who tears off the husks for you and me?

Where is he that undoes stratagems and envelopes for you and me?



Here is adhesiveness, it is not previously fashion'd, it is apropos;

Do you know what it is as you pass to be loved by strangers?

Do you know the talk of those turning eye-balls?




Walt Whitman




LdeM

sábado, 4 de junho de 2011

Canção da Estrada Aberta (1/5) - Whitman












Canção da Estrada Aberta

Song of the Open Road

1

A pé e de coração leve eu pego a estrada aberta
Saudável, livre, o mundo diante de mim,
A longa trilha diante de mim conduzindo-me
aonde quer que eu escolha.


De agora em diante eu não questiono sobre a boa-sorte,
eu mesmo sou a boa-sorte,
De gora em diante eu não vou mais lamentar, não vou mais adiar,
de nada eu preciso,
Chega de reclamação dentro de casa, bibliotecas, críticas queixosas,
Forte e contente eu viajo através da estrada aberta.


A terra, eis o suficiente,
Eu não quero as constelações mais próximas,
Sei que elas estão bem aonde elas estão,
Sei que elas são suficientes para aqueles que pertencem a elas.


(Ainda aqui eu carrego meus velhos e deliciosos fardos,
Eu os carrego, homens e mulheres, eu os carrego comigo
para onde quer que eu vá,
Eu juro que é impossível para mim livrar-me deles,
Estou preenchido com eles, e eu os preencherei em troca.)


2

Você, estrada, eu te adentro e olho ao redor, eu acredito que
você não é tudo o que está aqui,
Eu acredito que aqui há também muito ainda não visto.


Aqui a profunda lição da recepção, nem preferência nem rejeição,
O negro com sua cabeça de lã, o bandido, o doente,
os analfabetos, não são rejeitados,
O nascimento, a pressa após o médico, o perambular do mendigo,
o cambalear do bêbado, a festa gargalhante dos mecânicos,
A juventude em fuga, a carruagem dos ricos, o janota,
o casal fugitivo,
O comerciante que madruga, o carro fúnebre, o mover da mobília
para a cidade, o retorno desde a cidade,
Eles passam, eu também passo, algo passa, nenhum
pode ser restringido,
Ninguém pode senão ser aceito, ninguém pode senão
ser importante para mim.


3

Você, ar, que me concede o fôlego para falar!
Vocês, objetos, que clamam da difusão meus sentidos
e dá forma a eles!
Você, luz, que me envolve e todas as coisas em delicada e
invariável cascata!
Vocês, trilhas, batidas nos buracos irregulares ao longo das estradas!
Acredito que vocês estão latentes com existências invisíveis,
vocês são importantes para mim.


Vocês, calçadas lajeadas das cidades! Vocês, robustos meio-fios
nas beiras!
Vocês, barcas! Vocês, pranchas e postes do cais! Você, lado delineado
de madeira! Vocês, navios distantes!
Vocês, fileiras de casas! Vocês, fachadas recortadas por janelas!
Vocês, telhados!
Vocês, varandas e entradas! Vocês, beirais e grades!
Vocês, janelas, cujas conchas transparentes deveriam expor muito!
Vocês, portas e altas escadarias! Vocês, arcadas!
Vocês, pedras cinzentas de pavimentos intermináveis! Vocês,
cruzamentos tão pisados!
De tudo que tem tocado vocês eu acredito que vocês tem comunicado a
Vocês mesmos, e agora comunicariam o mesmo secretamente para mim,
De vivos e de mortos vocês povoaram suas superfícies impassíveis,
E os espíritos destes e daqueles serão evidentes e amistosos comigo.



Trad. livre: Leonardo de Magalhaens

http://leoliteraturaescrita.blogspot.com



...



Walt Whitman




Song of the Open Road



1

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Afoot and light-hearted I take to the open road,

Healthy, free, the world before me,

The long brown path before me leading wherever I choose.

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Henceforth I ask not good-fortune, I myself am good-fortune,

Henceforth I whimper no more, postpone no more, need nothing,

Done with indoor complaints, libraries, querulous criticisms,

Strong and content I travel the open road.

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The earth, that is sufficient,

I do not want the constellations any nearer,

I know they are very well where they are,

I know they suffice for those who belong to them.

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(Still here I carry my old delicious burdens,

I carry them, men and women, I carry them with me wherever I go,

I swear it is impossible for me to get rid of them,

I am fill'd with them, and I will fill them in return.)

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2

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You road I enter upon and look around, I believe you are not all

that is here,

I believe that much unseen is also here.

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Here the profound lesson of reception, nor preference nor denial,

The black with his woolly head, the felon, the diseas'd, the

illiterate person, are not denied;

The birth, the hasting after the physician, the beggar's tramp, the

drunkard's stagger, the laughing party of mechanics,

The escaped youth, the rich person's carriage, the fop, the eloping couple,

The early market-man, the hearse, the moving of furniture into the

town, the return back from the town,

They pass, I also pass, any thing passes, none can be interdicted,

None but are accepted, none but shall be dear to me.

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3

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You air that serves me with breath to speak!

You objects that call from diffusion my meanings and give them shape!

You light that wraps me and all things in delicate equable showers!

You paths worn in the irregular hollows by the roadsides!

I believe you are latent with unseen existences, you are so dear to me.

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You flagg'd walks of the cities! you strong curbs at the edges!

You ferries! you planks and posts of wharves! you timber-lined

side! you distant ships!

You rows of houses! you window-pierc'd facades! you roofs!

You porches and entrances! you copings and iron guards!

You windows whose transparent shells might expose so much!

You doors and ascending steps! you arches!

You gray stones of interminable pavements! you trodden crossings!

From all that has touch'd you I believe you have imparted to

yourselves, and now would impart the same secretly to me,

From the living and the dead you have peopled your impassive surfaces,

and the spirits thereof would be evident and amicable with me.
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LdeM


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quinta-feira, 19 de maio de 2011

sobre a Obra de Lima Barreto






Uma leitura da Obra de LIMA BARRETO



A Escrita enquanto superação


Dono de uma escrita realista, sem preâmbulos. Realista no sentido de denunciar uma “realidade” diante dos olhos, mais do que retratar esta “realidade”. Uma obra que não é retrato, mas ironia com as imagens que alguns julgam ser o “retrato”. Assim, trataremos aqui da obra de Lima Barreto (nascido Afonso Henrique de Lima Barreto, em 13 de maio de 1881)

Se leitor de um Aluísio Azevedo (como ele mesmo se dizia),(1) Lima Barreto sabia das abrangências e limites do chamado ‘Naturalismo’, que visava um retratamento da “realidade”, com que havia de mais ‘natural’, ‘popular’ e ‘deselegante’.

Para entender Lima Barreto, precisamos voltar o olhar até os escritos de Aluísio Azevedo, diante do leitor com “sede de verdade” de fins do século 19. Pensava-se então que o romance não poderia ser mais um ‘passatempo’, mas uma forma de ‘retratar’ a “realidade” psíquica e social da época. Pretensão que encontramos num Émile Zola, com seu “Germinal”.(2)

A escrita enquanto “retrato” é limitada no sentido de que é limitada uma foto – o artista só pode escolher o ângulo e a incidência luminosa, no mais a foto diz tudo. O artista só escolhe o alvo e o momento, no mais a foto que se expresse. Assim, a literatura ‘naturalista’ não permitia muitas inovações estéticas por parte do escritor. Assim, a obra fundamental “O Cortiço” ser lembrada mais pelo enredo, o “conteúdo”, do que pelo estilo, a “forma”. Fenômeno contrário acontece com Machado de Assis. Onde os enredos parcialmente são esquecidos, mas nunca deixamos de lembrar o estilo, os labirintos da linguagem. (No século 20, o mesmo acontece com o autor Guimarães Rosa)(3)

Se um Aluísio Azevedo tinha fome da “verdade”, um Machado de Assis tem necessidade de “estilo”. É no estilo que Machado de Assis se realiza, é na metalinguagem, na conquista da cumplicidade do leitor. Trata da realidade como fantasia, e vice-versa, com seu “defunto autor”, numa antecipação do “realismo-fantástico”, para um leitor com “sede de fantasia”, numa tradição de Edgar Allan Poe, que se tornaria famosa na Literatura Latino-Americana (4)

Para Lima Barreto, a escrita é uma forma de aprisionar os seus fantasmas no papel, deixar na folha as inquietações e frustrações de toda uma vida, que nem o abuso de álcool conseguiu fazer esquecer. Perambulando em fantasias e atmosferas ébrias, tal um Poe, Lima Barreto deixava o seu olhar descer sobre a miséria e a indignidade em busca de uma pérola lírica, um momento que pudesse ser ‘redenção’ de uma existência degradada.

Sua obra mostra isso. Personagens que desejam ir além de seus limites sociais e culturais, querem melhorar suas vidas, querem mudar o mundo, querem construir novos sistemas sociais, querem ser maior que suas condições. Se os escritores naturalistas, numa tradição de Taine, com seus determinismos de raça, época e cultura, (5) com as personagens limitadas ao natural e ao fisiológico, as personagens de um Machado de Assis e de um Lima Barreto fogem às convenções e até se colocam contra as convenções, fugindo de ‘determinismos’ e pagando caro por essas ‘transgressões’.

Não se pretende aqui uma crítica do ‘realismo-naturalismo’, apenas apresentar um painel da época, e do ‘Zeitgeist’, o “espírito da época”, com suas características de objetivismo, descrição e explicação, além de uma ousada crítica social, num período de decadência monárquica e ascensão republicana. (6) Sejam anti-clericais e anti-escravismo, os autores naturalistas buscam formar um grupo de leitores mais à vontade num mundo pleno de avanços da ciência, com ideias de “ordem e progresso”, ao estilo positivista de Comte. Contudo, por mais que sofra a “síndrome de influência”, Lima Barreto diverge em pontos fundamentais, dos seus predecessores. Principalmente que Lima Barreto nada defende, nenhum “ismo” é por ele exaltado. Pretende fazer sua denúncia, ironizar seus desafetos, desabafar suas frustrações,mas nunca ‘doutrinar’ ou ‘converter’. Para o autor, certezas são como ‘camisas de força’. Sua crença na literatura se encerra nela mesma: nada além. Não se pense que literatura educa: literatura é para deseducar. Quem educa é o Estado e seus professores (se possíveis, laicos), dentro de padrões sócio-econômicos.

A Literatura, se tem utilidade, é para ampliar horizontes, destruindo padrões. E nesse quesito Lima Barreto se esforça. Ainda que sua obra tenha muito de biografia, ‘auto-biografia’, como acusam muitos, tem algo de superação, quando pretende mostrar personagens ousados, que não se conformam.

No primeiro romance, publicado em 1909, o irônico “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, há um mulato que no desejo de superar sua classe social, e sua cor, ao ocupar espaços que muitos julgam não serem destinados a ele, numa ânsia de ascensão, nutrindo um “complexo de superioridade” devido a consciência da inferioridade social de cor e classe.

“A tristeza, a compressão e a desigualdade de nível mental do meu meio familiar, agiram sobre mim de um modo curioso, deram-me anseios de inteligência.”

Em suas recordações, o escrivão Isaías Caminha apresenta as frustrações colhidas no entrechoque com as várias esferas da sociedade que se encontram de portas fechadas para ele, devido ao preconceito de cor e de classe. Isaías quer estar além do mundo que reservaram para ele: um mundo encolhido, submisso. Isaías não se sente bem meio aos seus, e se sente deslocado meio aos outros, de ambiente mais refinado. É um descontente que, distanciado, se contenta em observar, analisar o comportamnto alheio. Assim, “fora do jogo”, sente-se “acima”, superior.

“Acentuaram-se-me tendências; pus-me a colimar glórias extraordinárias, sem lhes avaliar ao certo a significação e a utilidade. Houve na minha alma um tumultuar de desejos, de aspirações indefinidas. Para mim era como se o mundo me estivesse esperando para continuar a evoluir...”

Um processo ‘compensatório’, quando da consciência da inferioridade social, Isaías desenvolve seu “complexo de superioridade”. A sua narrativa nasce desse descompasso, e se desenvolve em espirais, tudo num redemoinho de percepções, onde ele nunca é bem-vindo, onde ele nunca se sente em casa.

Na cena, em que descreve uma sessão da Câmara dos Deputados, podemos notar em Lima Barreto (tentando se ocultar atrás da pena de Isaías Caminha) toda uma perspectiva de ironia diante das autoridades e dos conceitos que estas fazem de si mesmas, mesma ironia que encontraremos depois no “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, coma s figuras mais esdrúxulas se fazendo em autoridades e ditando o futuro da Nação.

Na Câmara, Isaías nota o contraste entre a idealizada ‘grandiosa representação’ e a realidade ‘espetacular’, de espetáculo mesmo, de “arquibancada grosseira”, onde Isaías se vê adentrar à procura do Deputado Castro, “representante da grande nação brasileira”, mas sempre distante, inabordável, como sabemos ser característica dos políticos, que somente se aproximam da população em épocas de eleições.

Frustrado com o ‘espetáculo’ da Câmara, Isaías Caminha deixa-se perambular pelas ruas centrais do Rio de Janeiro, em observações um tanto irônicas sobre os diversos tipos que cruzam o seu caminho. Aqui observar é “analisar à distancia”, pois o escrivão não se identifica com os populares, ele apenas mergulha na multidão para continuar ainda mais solitário. Assim um olhar ao estilo Baudelaire (como bem notou Walter Benjamin, em suas “Passagens” (“Passagenwerk”) sobre o ‘spleen de Paris’), que caminha meio ao povo para melhor se perceber sozinho. “É solitário andar por entre a gente”, escreveu um Camões. (7) Assim também o conto “uma Noite no Lírico”, no último livro publicado por Lima Barreto, “Histórias e Sonhos”, em 1920 (portanto, dois anos antes de sua morte, em 1922, ano simbólico na Literatura Brasileira). No referido conto, encontramos um irônico observador que vai, certa noite, a uma peça no Teatro lírico, onde se reúnem as figuras mascaradas da high society, a fina flor da aristocracia fluminense. Para o protagonista, o espetáculo não é tão somente a ópera no palco, mas também os ‘tipos’ na platéia. E se observa é por não se identificar,é por se deixar na companhia de outros irônicos, que não perdem a oportunidade de ‘desmascarar’ a bela sociedade dos ‘ricaços’.


Fora as ‘figuras’ que aparecem na narrativa, as personagens caricaturais que Lima Barreto soube criar com ironia e amargura. Seja o jornalista Floc, desfilando com um saber que é um mero adorno, ou o talento multilingüístico do Dr. Ivã Gregoróvitch Rostóloff, a escrever em vários jornais nos mais variados idiomas. Tipos assim que usam o ‘saber’ tal uma alavanca de Arquimedes para deslocarem o mundo social. (8) Assim podem participar e atuar do ‘espetáculo’, com talento performático, mesmo sem os recursos ‘financeiros’ dos burgueses, que muitas vezes precisam comprar os ‘recursos intelectuais’ dos homens de talento. Assim é o que notamos no famoso conto “O Homem que sabia Javanês”, escrito em 1911, e publicado no volume “Clara dos Anjos e outras histórias”, em 1948 (!). no conto, o protagonista narra suas aventuras com seu ‘pseudo-saber’. Alega ser professor de ‘javanês’ e consegue encontrar gente singela o bastante para acreditar. E agraciado assim com a confiança de outrem, vai se aproveitando das circunstancias, as lacunas que surgem no jogo do poder consegue assim sua ascensão social.


As cenas do romance “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” são antológicas pela amostra (quase estatística) das várias circunstancias de preconceito sofridas por um ‘homem de cor’, desde sua humilhação, como suspeito de furto vulgar, o desprezo dos ‘figurões’, até o desrespeito a sua pessoa, em via pública, quando é incomodado, e o cidadão inconveniente não pede as devidas desculpas, como é o caso do bonde.

“Senti-me humilhado, esmagado, enfraquecido por uma vida de estudo, servir, de joguete, de irrisão a esses poderosos todos por aí. Hoje que sou um tanto letrado sei que Stendhal dissera que são esses momentos que fazem os Robespierres.”

No entanto, lembramos, serem estas as ‘recordações’, logo memórias de Isaías Caminha, quando de sua chegada a cidade, aos dezoito anos, com esperanças de deixar reluzir seu “brilho intelectual” para ‘compensar’ a ‘cor’ e a classe social (que segundo Taine – citado pelo próprio Lima Barreto – são determinantes para a formação do indivíduo), para ousar sua ‘ascensão social’ meio aos jornalistas, aquela gente respeitada por polícia e políticos, classes temerosas do papel de ‘publicidade’ da Imprensa, a tornar-se um verdadeiro “quarto poder”. Os jornalistas que atuam na caricatural Redação de “O Globo” (um nome fictício para o “Correio da Manhã”, fundado no RJ em 1901), farta de jornalistas-especialistas, com suas erudições vazias, feitas de fórmulas e lugares-comuns, mas vaidosos como se fossem gênios, segundo critica uma personagem, “os jornalistas dominam, querem ser adulados, chamados de gênios”. Gênios? Não mais do que ‘fazedores de notícias’ que confundem figuras e fatos históricos, citam obras universais que desconhecem, “A gente dos jornais do Rio só tem idéias feitas e clichês de opiniões de toda natureza incrustadas no cérebro.”

Toda uma arrogância que nasce desse “quarto poder”, como se os jornais fossem uma “espada de Dâmocles” suspensa por um fio sobre as cabeças dos poderosos, políticos e demais autoridades (in) competentes. Mesma idéia que é o germe do clássico “Ilusões Perdidas” (“Illusions Perdues”) de Honoré de Balzac, no seu ciclo “Comédia Humana” (“Commédie Humaine”), onde o ambiente de gráfica de província mostra a formação do jovem poeta que, chegando em Paris, descobre o jogo dos ‘talentos’. (9)

Isaías Caminha é um autor em formação, tem lá o seu esboço d romance na gaveta, igualmente chamado “Clara dos Anjos”, tal o autor Lima Barreto (assim a ‘identificação’ do autor com o protagonista ), ideia esboçada em conto (denominado igualmente “Clara dos Anjos” e publicado em “Histórias e Sonhos”), que precisa de sua dedicação, mas é sempre interrompido e importunados pelas turbulências sociais. Teme decair de sua sofrida ascensão, e voltar a condição humilde. É assim que o autor, o próprio Lima Barreto, revela no prefácio, que o Escrivão acabou se adaptando’: o antes sofrido Isaías Caminha agora aceita vestir a “túnica de Nessus” da sociedade, a prometida comodidade e felicidade. (10) Onde a alternativa seria o permanecer à margem,ou auto-destruir-se para não ‘jogar’ o jogo.

A idéia de ‘jogar o jogo’, essa de que a vida social é um jogo, e somos todos uns ‘homo ludens’ (11) é visível em outros contos de Lima Barreto, com destaque para o “Numa e Ninfa”, publicado em “Marginalia” (1953), que reúne crônicas, cartas, textos avulsos. O conto é uma sátira aos políticos, essa ‘corte de bajuladores’,na figura de Numa Pompílio de Castro (um eco do Dr. Castro de “Escrivão Isaías Caminha”?) (12) que, sem talentos, precisa aparentar os mesmos caso queira ‘subir na vida’, na conquista de cargos políticos.

“Aos poucos, com aquele seu faro de adivinhar onde estava o vencedor – qualidade que lhe vinha da ausência total de emoção, de imaginação, de personalidade forte e orgulhosa – Numa foi subindo.”

O político preocupado com a imagem, os discursos – que o apavoram! Então consegue com que a mulher escreva seus discursos – que passam a ser famosos! Depois, o político descobre não ser a mulher a autora dos discursos, mas um primo, um “poeta sem poesia”, mas talentoso quando se trata de discursos... A mulher pode até trair, mas não podem saber, lá na Câmara, que ele, Numa Pompílio de Castro, não escreve os seus discursos!

É uma ironia corrosiva a de Lima Barreto – onde respinga deixa marca. Sua crítica à imprensa, à política enquanto ‘encenação’, à incompetência das autoridades, à burocracia (onde se pode comparar ao clássico Franz Kafka), aos preconceitos de classe (no que se assemelha a um Gogol, no famoso “O Capote”), à própria literatura enquanto ‘idealização’. (13)


A crítica de Lima Barreto nasce de seu deslocamento no meio social, pouco à vontade entre os populares, atrasados quanto aos ‘quesitos’ consciência, e dignidade, e exilado da ‘alta sociedade’, por sua condição humilde. Asim, se um Machado de Assis conseguiu se impor e ascenderà um nível superior, Lima continuou preso à miséria, caindo literalmente à sarjeta. É sensível o ressentimento de Lima Barreto, mas não diminui sua obra – ajuda a comprndê-la. Assim, também a obra de Machado de Assis, se ousarmos uma comparação – visto ambos serem díspares. Se Machado foi para os bairros elegantes, erguido por seu ‘estilo’ à la Swift e Sterne, (14) “escrevendo para inglês ver” e “francês elogiar”, Lima Barreto nunca conseguiu livrar-se de seus espectros, e pagou caro por essa inadaptação.


Também pagou caro o Major Quaresma, fuzilado por traição. O agora clássico “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, escrito em 1911, e publicado em 1915, mostra o choque entre o idealismo e a “realidade”, em denuncia do fracasso do nacionalismo, do “idealismo patriótico”, nesse “Estado que não é Nação”chamado Brasil.


Policarpo Quaresma, o funcionário público eficiente como um relógio, é o nosso “Dom Quixote” nacional ( o primeiro a apontar tal analogia foi o crítico Oliveira Lima, o mesmo que compara o romance de Lima Barreto aos clássicos “O Mulato” e “Memórias de um Sargento de Milícias”, dentre outros).(15) ‘Quixote’ no sentido de vivenciar uma ‘idéia’. Relembramos um conto, em “Marginália”, onde um gênio incompreendido é vítima de seu excesso de idéias, algumas até boas, outras, nem tanto. “Ele e suas idéias” é um conto que resume, de certo modo, o enredo de “Policarpo Quaresma” – ampliado, no romance, pelos projetos de “reforma”.

O Brasil, o “país dos Bruzundangas”, como vemos em metáfora, mais conhecido (e explorado) por europeus, os primeiros exploradores, que descrevem a terra e suas exuberâncias, os franceses e os alemães, vide Léry ou Saint-Hilaire, ou Hans Staden, Humboldt, Handelmann, von Martius, M. Zu Wied-Neuwied, von Eschwege, den Stein, dentre outros. (16) Uma terra para os outros, nunca valorizada pelos próprios ‘brazucas’, que se deixam fascinar pelas ruínas de Roma ou pelos jardins parisienses.

Que Brasil é este? O “real” ou o do Major Quaresma? Que país queremos? O país da cartografia alemã ou dos clássicos que enfeitam a estante do nacionalista-falante-de-tupi-guarani Major Quaresma? O que pretende o nacionalista internado como louco? Sua reforma pela cultura, pela agricultura, pela política, é mero devaneio? É construto insano de um outro “Quixote”?

Em “Triste Fim de Policarpo Quaresma” é o indivíduo que pensa coletivo que sofre o peso da ignorância coletiva. Um povo guiado por corruptos, por preguiçosos (‘macunaímas’ antes do “Macunaíma” de Mário de Andrade, publicado uma década depois), por traidores-da-pátria. Militares sem escrúpulos, sedentos de poder, ou políticos que só pensam em suas carreiras sem contato com o povo, exceto em época de campanha eleitoral; funcionários públicos que cinicamente desempenham seus papéis de ‘paus mandados’. Jornalistas que fingem ler e fingem escrever, mantendo suas rações diárias de mentiras e falsificações. Eis o elenco deste triste romance. Nomeio de todos, hostilizado por todos, o Major Quaresma.

Qual o pecado do nacionalista Quaresma? (Certamente não é o de ser precursor de um Plínio Salgado, líder do movimento integralista, com ideologia pro-fascista.) (17) Será então a sua preocupação, a sua dedicação? A sua procura pelas “raízes do Brasil” (como também se dedicou um Sérgio Buarque de Hollanda)? (18) O seu excêntrico “requerimento” em vista da mediocridade do funcionalismo? Sua reforma agrária a partir do seu quintal? O que mais irritou Floriano, o Marechal-de-Ferro: a coragem de Quaresma ou a sua denúncia dos abusos do poder? (19)

Sempre Policarpo Quaresma é o excêntico. Só tem a admiração de sua afilhada Olga (que é nome de revolucionária, como registrará a História !), (20) uma jovem de pensamento e ação, que sabe como funciona o ‘teatro’ e tenta, em vão, abrir os olhos do padrinho idealista. Todos os demais, ao redor, têm é pena ou inveja do eficiente funcionário. Os demais ‘patriotas’ são caricaturas, aqueles pseudo-militares, aqueles senhores das letras que cortam e osturam frases para serem ‘clássicos’. É tudo uma falsificação – e o Quaresma vem como autêntico “realista”! pois o problema dos Brasil não é apenas as formigas saúvas, (21) mas os porcos gorduchos que se alimentam dos recursos da ‘máquina estatal’, movidos por suas ambições – e nunca por ‘interesse coletivo’. (22) Tudo isso já sabemos, leiamos ou não os jornais, atentemos ou não aos noticiários televisivos, sai governo e entra governo e não há mudança – é um problema estrutural e institucional, nascido do personalismo, do fisiocracismo, do coronelismo, da falta de ética, da falta de pensamento coletivo, de um plano de “Nação”.

O que é Nação ou nacionalismo além de uma ‘idéia’? afinal, “Estado” é estabelecido e delimitado por um “ordenamento jurídico”, uma Constituição, Lex Maxima, e possui um território e uma organização das forças de segurança. Mas uma ‘nação’, o que será? Uma etnia, um idioma, um sentimento de ‘pertença’? Deixamos o problema aos antropólogos, etnólogos, sociólogos. Descrevemos a ‘atmosfera temática’ do romance. Será que nosso nacionalismo nasceu com a Inconfidência Mineira? Ou com a Independência por capricho do Príncipe? Ou com as revoltas provinciais? Ou com a Guerra do Paraguai (a maior guerra da América Latina)? Por que somos um país ‘inteiro’ e não uma ‘colcha de retalhos’ como aconteceu com a América hispânica? Por que o tabu constitucional da “indivisibilidade territorial” e da “indissolubiliade da Federação”? (23)

O objetivo do presente Ensaio não é repassar os pontos e cenas do enredo, que seria tema para uma crítica literária, e um tanto exaustiva aqui. Este ensaio visa situar a obra de Lima Barreto na Literatura Brasileira. Estamos a analisar e repensar os temas de sua obra – a solidão, o preconceito, o nacionalismo-idealista, a burocracia labiríntica, o jornalismo mascarado. Assuntos e figuras que já encontramos na literatura européia (particularmente a francesa e a russa), desde Balzac, ou Maupassant, ou Zola, ou num lusitano Eça de Queirós. (24)

Desde o escrivão Pero Vaz de Caminha (25) estamos encantados com a exuberância da terra. O “onde se plantando tudo dá”, embasbacados, enquanto outros cuidam em extrair as preciosidades. As políticas de extrativismo se chocam com as políticas de preservação ambiental, as políticas de reservas indígenas se chocam com as políticas de reforma agrária. Nunca um projeto é levado até o fim, cada governo que sobe ao poder, desfaz os projetos e ações do anterior.


Para melhor apresentar sua crítica, o escritor Lima Barreto usa e abusa da ironia, das personagens caricaturais, que causou ‘mal-estar’ na época, e crítica nos meios literários. Acusam que o Autor não descreve ‘psicologicamente’ as personagens, como esperam os leitores acostumados com um Dostoiévski. (26) Na verdade, Lima Barreto deixa que o leitor ‘monte’ a personagem, nas próprias vicissitudes da narrativa. Deixa ao leitor a tarefa de apreeender os detalhes – as personagens que merecem nossa atenção. Lima Barreto não é um “anarquista individualista” somente por ter intitulado seus romances com os nomes dos protagonistas (Isaías Caminha, Gonzaga de Sá, Policarpo Quaresma, Clara dos Anjos, Numa – assim também um Machado de Assis, com Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Helena), e muito menos um autor de “coletivistas” (era um socialista, mas duvido que tivesse, se sobrevivido, elogiado a literatura do “realismo soviético”), uma vez que sua preocupação é o choque entre a “idéia” e a “realidade” (sem ‘platonismo’ aqui, pois o choque se realiza a nível de “matéria”, num materialismo cru, não apenas na linguagem). (27)

Assim é que concebeu “Clara dos Anjos”, numa ampliação do conto publicado em “Histórias e Sonhos” (1920), onde a protagonista é apagada, se comparada com o ‘algoz’, o ‘antagonista’, o sedutor, que está apenas um degrau acima na “escada social”, com arrogancias de descendente de aristocratas decadentes. A mulatinha cai submissa aos encantos do músico, rapaz de assaz irresponsabilidade, e ela acaba por pagar o preço, descobre a sua ‘infeioridade social’, o preconceito de ‘cor’ – “Não somos nada nesta vida”. Lembramos, a propósito, que desdeo início de “Escrivão Isaías Caminha” encontramos referências às condições das moças mulatas. (Hoje elas são ‘estrelas’ na passarela de Carnaval...)

Clara dos Anjos é ‘apagada’ ? na verdade, Clara dos Anjos está à margem e lá permanece. Sofre as ações e se resigna. Está distante de qualquer poder ou decisão. Até o seu corpo pertence a outro. A condição da mulher, ignorante e indecisa, a menos que aprenda a ‘jogar o jogo’. E sempre aprende tarde demais – quando já perdeu. E Clara dos Anjos perde tudo – até a sua dignidade, ao implorar a consideração da mãe do rapaz sedutor.

Contrariando os críticos que encontram na obra de Lima Barreto apenas “caricaturas”, encontramos neste romance “Clara dos Anjos”, o poeta Leonardo Flores. Um descontente, um frustrado, mas preocupado com o coletivo,com algo além dele mesmo. Sua frustração nasce de não ser reconhecido ou de “jogar pérola aos porcos” – omo fazem muitos poetas que passam a se ‘prostituir’, escrevendo para jornais, recebendo para tecer elogios a alguma efeméride política. Resignado a viver ali nos subúrbios, na periferia d vida social, sem fama e lauréis, o poeta Flores desabafa: “O subúrbio é o refúgio dos infelizes”, quando uma pluralidade de vidas decadentes se unem num mosaico de indignidades e humilhações. Distantes dos centros de poder, afastados dos ambientes de cultura. Criam suas próprias ‘esferas de influências’, cultivam suas culturas populares, marginais (de à margem).

O poeta Leonardo Flores pode certamente conter um ‘traço autobiográfico’ do autor Lima Barreto. Ainda o ‘gênio incompreendido”, o ser afastado do convívio e que cai (literalmente) nas sarjetas do vício, embriagado de talento e álcool. Outra personagem que elabora planos sensacionais e deixa-se perder na mediocridade. Outro que ousou um “salto maior dos que as pernas”.

Essa queda na “degenerescência”, a vertigem do vício, a auto-destruição do homem de talento, é a pesquisa do Dr. Caruru, no conto “As Teorias do Doutor Caruru”, presente em “Marginália”, onde o referido doutor pouco deve a um Simão Bacamarte de “O Alienista” de Machado de Assis. O Dr. Caruru quer encontrar sinais de ‘degenerescência’ no aspecto físico dos ‘degenerados’, analisando vivos e mortos, atrás de provas para a sua teoria.

A crítica de Lima Barreto não é contra a Ciência, mas contra a pseudo-ciência, o cientifismo já reinante, a “Razão Instrumental” (como entendemos pela análise de Adorno e Horkheimer), (28) que tudo condiciona ao crivo do “método científico”. Assim a crítica do Autor aos pseudo-literatos, não contra a Literatura, única possível ‘devoção’ do escritor, que esperva que sua escrita pudesse despertar debates e projetos de mudança. (No mais, por que escreve um autor? Por vaidade? Para entulhar as gavetas com idéias materalizadas em papel?)


Lima Barreto acreditava piamente, digamos, na escrita e ono ofício do escritor, qundo diz, “O romancista é de alguma forma um descobridor e melhor tratado de estética é ainda o Discursos do Método, de Descartes” (29) assim, a Estética se elabora na própria “estética” usada, não numa ‘forma’ platônica. Explica-se a não preoupação formal do Autor, que espera antes a compreensão do que ‘floreamentos estilísticos’. Ser compreendido é o que ele espera pelo didatismo que se nota. Uma necessiade de informar, e ‘sacudir’ o leitor, jogando com desassossego e com o humor, mostrando a ignorância e o vício como indignidades patéticas.


Enquanto outros autores, como Manuel Antônio de Almeida, de “Memórias de um Sargento de Milícias”, a incomodar pelo anti-romântico do protagonista ‘peralta’, um verdadeiro ‘pícaro’ brasileiro, ao estilo de Lazarillo de Tormes (30); ou Aluísio Azevedo, autor de “O Mulato” e “O Cortiço”, vem retratar coletivos, através de suas partes (indivíduos) caracterísitticas; a escrita de Lima Barreto procura se equilibrar entre a ironia e a compaixão, quando em algum momento o leitor se indigna junto com Isaías, sofre junto com Policarpo, ou se permite sentir piedade por Clara. Se as personagens representam ‘coletivos’, também são indivíduos “humanos, demasiadamente humanos” (no dizer de Nietzsche.) (31)



Um conto onde é patente essa necesidade de ‘comover’, onde o ‘excêntrico’ busca compreensão, é encontrado em “Histórias e Sonhos”, com o exdrúxulo título “Dentes Negros e Cabelos Azuis”, onde o protagonista é de súbito assaltado nas sombras da noite, mas deixa o assaltante estarrecido, quando o larápio nota o aspecto ‘esquisito’ da vítima, com dentes enegrecidos e cabelos azulados. Pessoa, assim, que é desprezada por seu aspecto físico, a sentir-se hostilizado pelo ‘mundo’ ao redor. Logo, o assaltante está apiedado do sofrimento do estranho protagonista.

Os diferentes, os excêntricos, os loucos fazem parte da longa galeria de personagens do autor Lima Barreto, que sempre acreditouque os ‘deslocados’, os ‘malucos’, eram os ‘criativos’ por excelência, que inquietavam o mundo a ponto de provocar mudanças. “Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo”, diz o autor no curto texto “Elogio da Morte”, presente em “Marginália”, onde escreve que é a morte quem nos ‘consagra’, sendo a ‘grande libertadora’, elevando o artista depois de sua morte, “autor bom é autor morto”, diríamos hoje, e finaliza o texto com ironia, em citação machadiana, “Ao vencedor, as batatas!” (32)

O romance “Clara dos Anjos” foi publicado em 1948, a partir de notações e esboços do Autor – é, portnto, obra incompleta. Em seu “Diário Íntimo”, publicado em 1953, encontra-se várias notas sobre oenredo do romance planejado, com um painel da vida marginalizada da população negra, como se vê em trecho do “Diário”, de dezembro de 1904, “A sedução de Clara passara-se no dia 13 de maio.”, uma vez que a Lei Áurea nada mudou quanto a presença do preconceito (a lembrar-se que Lima Barreto nasceu num 13 de maio, sete anos antes da “Lei da Abolição”.)

Sua labuta com a escrita se percebe no “Diário” quando de seus esboços, detalhes de enredos, construção das personagens, a constar datas de nascimento, filiações, carcterísticas físicas e de personalidade. Vê-se bem que Lima Barreto não teve equilíbiro – nem tempo – para melhor elaborar e finalizar suas obras. Sempre escrevia uma, com um pensmento já direcionado a outra, pois idéias não faltam ao Autor (vide o conto “Ele e suas idéias”, onde um homem muito produtivo em idéias, torna-se incômodo.)

Assim, em fevereiro de 1905, Lima Barreto está escrevendo um livro – o “Clara dos Anjos” – e finalizando (também a revisão) de “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, cujo prefácio foi escrito em julho de 1905, com escrita concluída em 1908, finalmente publicado em 1909. Trabalha com esboços para o seu “Gonzaga de Sá”, desde abril de 1906, o distinto “oficial da Secretaria dos Cultos”, o grande reformador, preocupado com a imagem do Brasil, que perde em ‘glamour’ para as belezas civilizadas européias. Encontramos essa ansia de reforma num escrito avulso do Gonzaga, onde espera que se o Rio de jneiro quier ser “grande cidade”, ao estilo europeu, de “arrasar as montanhas” – e aterrar a Baía de Gunabara! E para ser metrópole respeitável, “deve ficar à margem de um rio respeitável” – um Rio Paraíba até que serviria, “para preencher um fim tão civilizador.”

Com o pensamento em “Gonzaga de Sá”, Lima Barreto conclui “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” em 1909, e desabafa, no “Diário”, “obedecer o meu Taine: a obra de arte tem por fim dizer o que os simples fatos não dizem.”, quando seu obejtivo não é apens ‘retratar’, ccomo pretendem os naturalistas, mas incomodar, ‘fazer pensar’, ao apresentar ao leitor cenas risíveis, que deixam uma pausa para meditar sobre o ridículo e o ‘absurdo’.

O romance “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá” foi concluído em 1907 e 1910, e finalmente publicado em São Paulo, em fevereiro de 1919. contudo, não gerou a polêmica de um “Escrivão Isaías Caminha”, cuja presença foi sufocada pela Imprensa, a primeira a sentir-se agredida. Assim, os militares quando perceberam o “Policarpo Quaresma”, onde os homens de farda receberam um ‘tratamento irônico’ (asssim aquele Almirante que, enviado para a Guerra do Paraguai, foi procurar seu navio no Rio Amazaonas!). Não conseguido falar nas entrelinhas, como bem sabia um Machado de Asis, o ressentido Lima Barreto foi colecionando inimizades, inutilmente, quando o que mais precisava era de admiradores e seguidores. Afinal, seu discurso não é egocêntrico, mas coletivo, ele não espera a fama, mas a compreensão.


Hoje, encontramos romancistas que acabam optando pelo ‘choque’ do que pela ‘simpatia’. Apresentam a denúncia que descortina cenários que muitos preferem ignorar, ou até ocultar. Se Lima Barreto hoje tem ‘seguidores’ é na literatura que apresenta a “vida como ela é”, não exatamente um Nelson Rodrigues, no teatro, ou Rubem Fonseca, na prosa, mas a literatura que trata das condições dos marginalizados, que sofrem toda espécie de exclusão, na senzala da periferia e das favelas. Assim um aclamado “Cidade de Deus”, de Paulo Lins, ou um polêmico “Cabeça de Porco”, de MV Bill e colaboradores, que trazem para os meios literários as discussões sobre preconceito, exclusão social, narcotráfico, seguranças pública, todo um drama de violência, estrutural e cíclica, que atordoa atualmente o Brasil, antes cognominado “O país do futuro”. (33)


set/10
revs. Mai/11






Notas e Referências

(1) Lima Barreto ‘leitor de Aluísio Azevedo’. Certos críticos ressaltam este ponto, em flagrante caso de “angústia de influencia” (“anxiety of influence”, segundo o scholar Harold Bloom). Contudo, outros notam que na biblioteca de Lima Barreto não haviam livros de Aluísio Azevedo. E encontraram volumes de Machado de Assis, autor que Lima Barreto não perdia ocasião para criticar.

(2) Émile Zola, autor francês, fim do século 19, é aqui citado por várias referências do próprio Lima Barreto, atento aos panoramas literários cosmopolitas.

(3) A dicotomia “forma” e “conteúdo” continua. Encontramos autores com estilísitcas, mas sem algo a dizer. E autores panfletários, imaginativos, senhores de um enredo inusitado, mas não dominam o estilo, deslizam na gramática, etc.

(4) Edgar Allan Poe é lembrado quando se faz referência à ‘literatura de fantasia’. Uma vez que Poe aproveita fatos cotidianos para encher de ‘terror’ os leitores. Depois a literatura conhecerá um Kafka, um Borges, um Cortázar, um García Márquez, mestres do “realismo fantástico”. Além disso, Poe sofria da mesma obsessão alcóolica, e se auto-destruiu.

(5) Hypolite Taine é um pensador francês que defendia que o indivíduo está determinado por sua raça, condição social, época histórica. E dessa determinação não pode fugir. No século 20, contra tal ‘fatalismo’, Jean-Paul Sartre fala em ‘pré-determinismo’, mas que ‘em situação’ o indivíduo é livre, para fazer algo além do que as condições fizeram dele.

(6) A literatura de transição Monarquia para estruturação da República é muito farta em referências. Basta ver “Esaú e Jacó” de Machado de Assis. O pano de fundo histórico é realçado, as personagens estão mergulhadas nas turbulências da época. E Lima Barreto escreve, não exatamente romances históricos, mas enredos que se referem constantemente aos acontecimentos históricos. O declínio da Monarquia, a Guerra do Paraguai, a Abolição da Escravatura, a república dos marechais, a Revolta da Armada, A revolta da vacina, a política do café-com-leite, a Primeira Guerra Mundial.

(7) As referências á Camões, Baudelaire e Walter Benjamin, podem ser ressaltadas, ou descartadas. É o fenômeno da leitura, quando se pode fazer ‘links’ à outras leituras. A solidão no meio das multidão é encontrada na pena de numerosos autores. Contudo a figura solitária do poeta Baudelaire é ícone. E W. Benjamin confirma. O ‘flâneur’ observa, em suas andanças, um mundo no qual se sente deslocado. É um mundo digno de pena e ironia, um mundo-outro.

(8) Arquimedes é aquele pensador e técnico grego que construiu aparelhos de guerra para quem pagasse mais. E descobriu um princípio sobre flutuação dos corpos. Também mencionou o caso da alavanca, que se lhe dessem uma descomunal alavanca, e um ponto de apoio, ele poderia deslocar o planeta!

(9) A expressão “quarto poder” é aplicada a Imprensa, à Mídia em geral, como a demonstrar o poder da influência sobre os demais poderes, constitucionalmente estabelecidos, por inspiração de Montesquieu. Lembramos logo de “Citizen Kane”, de Orson Welles, filme emblemático. E no mais, temos o caso Watergate, que levou Nixon à renúncia. Tudo começou com uma denúncia de dois jornalistas. A “espada de Dâmocles” é uma referência à mitologia grega, como demonstração do risco iminente, a ameaça da Imprensa, no caso. Quanto às menções clássicas ao poder jornalístico, temos um Balzac, que conhcia muito bem o s bastidores das notícias, a sociedade parisiense e provinciana do século 19.

(10) “Túnica de Nessus” é outra expressão tirada da mitologia grega, por impulso do próprio Lima Barreto. Trata-se da túnica que o centauro Nessus ofertou a Dejanira, esposa de Hércules. Temendo ser traída, ela vestiu a túnica no herói e este morreu dolorosamente. É um metáfora para o presente perigoso, que parece trazer o bem, mas traz uma oculta desgraça.

(11) Referência a expressão “homo ludens” , do livro homônimo, lançado em 1938, pelo filósofo holandês Johan Huizinga (1872-1945), onde argumenta que todas as atividades humanas podem ser vistas como um ‘jogo’, ‘sub specie ludi’ (tipo um jogo)

(12) O nome do protagonista, Numa Pompílio, evoca algo da pompa e grandiosidade da política romana no apogeu. Nem se precisa descrever vidas e feitos de senadores e generais romanos para saber o que representa o “poder”.

(13) A crítica à burocracia encontra sua figura clássica em Kafka, o autor dos labirínticos “O Processo” e “O Castelo”, onde o terror implícito é a máquina burocrática que está em todos os cantos e recantos da existência. Submetido, classificado, catalogado, numerado, vigiado, o cidadão nasce e cresce, e reproduz o fenômeno da catalogação, numeração, submissão, etc. E o escritor russo Gógol, autor de “Taras Bulba” (de ares mais históricos e épicos) escreveu o célebre conto, “O Capote”, onde já antevemos algo de Kafka. As condições que tiram do homem a sua almejada liberdade.

(14) As referências à (Jonathan) Swift e à (Laurence) Sterne, escritores ingleses de fins do século 18, autores de “Viagens de Gulliver”, e “A Vida e Opinião de Trsitam Shandy”, respectivamente, se explicam pelas iniciativas dos próprios críticos (favoráveis ou não) ao clássico Machado de Assis, quando o acusam de “angústia de influência” com relação aos autores citados. Esquecem a amplitude das leituras de Machado de Assis, que conhecia bem os franceses, só para citar, Montaigne, Pascal e La Fontaine.

(15) Os clássicos citados, no âmbito da Literatura Brasileira do século 19, tem por autores, respectivamente, Aluísio Azevedo e Manuel Antônio de Almeida (que usava o pseudônimo de “Um Brasileiro”). No mais, lembramos que Almeida foi o ‘patrão’ do aprendiz de tipógrafo Machado de Assis, na Tipografia Nacional, em meados do século 19.

(16) Os autores franceses e alemães citados compõem um panorama amplo da etnografia, da cartografia analítica e da geografia ‘antropológica’ dos séculos 16 ao 19, com suas viagens de exploração e minuciosas descrições de regiões, ambientes e populações.

(17) A referência ao escritor e líder político Plínio Salgado aqui se explica pela ousadia de sua escrita e sua ânsia de mudança, quando procura conciliar catolicismo e fascismo, disciplina e patriotismo, com uniformes, ícones, emblemas, rituais e saudações – o famoso “Anauê”, advindo tupi-guarani(!) Traz, ou não, evocações de um Major Quaresma? (É de se perguntar se Plínio Salgado leu o romance de Lima Barreto).

(18) “Raízes do Brasil”, publicado em 1936, é um clássico da historiografia nacional, com a autoria do erudito Sérgio Buarque de Holanda, autor de outra obra fundamental, “Visão do Paraíso” (1959). Contudo, hoje em dia, é lembrado apenas como sendo o pai do músico (e também escritor) Chico Buarque.

(19) Floriano Peixoto, o “Marechal-de-Ferro”, que consolidou a República, é uma das personalidades históricas que adentram o universo dos romances de Lima Barreto. Demonstra a importância que o Autor concedia ao ‘contexto’ social da época.

(20) Referência a Olga Benario Prestes que, tal uma Anita Garibaldi, foi “heroína de dois mundos”, atuando na Alemanha, contra os nazistas em ascensão, e aqui no Brasil, apoiando Carlos Prestes na Intentona Comunista de 1935. Com o fracasso da suposta ‘revolução comunista’, com a prisão dos responsáveis, Olga foi extraditada para a Alemanha, onde caiu nas masmorras da Gestapo, até morrer num campo de concentração.

(21) A famosa frase “ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil” é de quem? Do Lima ou do Mário de Andrade? Ou é fala popular?

(22) A referência aos porcos é uma alusão ao clássico “Animal Farm”, do autor inglês George Orwell, onde os porcos se ‘apropriam’ da ‘revolução dos animais’ (contra os humanos), tornando-se os novos ditadores. Crítica ao frustrante episódio soviético, com a ascensão de Stálin e dos burocratas do Partido. Também alusão à canção “Pigs on the Wind” da banda inglesa Pink Floyd, no álbum “Animals”, de 1977, inspirado no clássico de Orwell. Onde o “teatro social” é um imenso zoológico. Os porcos são os políticos; os cães, os que mantêm a ordem (as forças de segurança, os militares, os guardas); e as ovelhas, as massas submissas e manipuladas.

(23) O texto cita incisos da Constituição Federal de 1988, sobre a organização da Federação. Também enumera “marcos” da História brasileira, com revirvoltas e reacomodações sociais e políticas, a indagar em quais dos eventos o povo foi protagonista (aliás, em qual mesmo?)

(24) Autores franceses que demonstram as mesmas preocupações de Lima Barreto, isto é, a literatura deve ter uma mensagem, uma denúncia social, contudo sem cair no panfletário.

(25) Pero Vaz de Caminha, escrivão que relatou, em sua famosa Carta ao El-rei D. Manuel, de Portugal, a chegada da frota de Álvares de Cabral em praias brasileiras. Sua linguagem é pomposa e imagética, idealizada – igual a letra do futuro Hino Nacional - que mostra uma visão sempre desfocada do que seja a Nação, não ‘algo que é’ mas ‘algo a ser construído’.

(26) A referência ao autor russo (Fiódor) Dostoiévski se justifica pelo ‘contraponto’ a Lima Barreto, pois quando o russo analisa as personagens de ‘dentro para fora’, o brasileiro as descreve de ‘fora para dentro’.

(27) A referência aos títulos de Machado de Assis se justifica pelo paralelismo entre os autores, uma vez que nomes de personagens estão em contraponto com adjetivações e nomes de locais. Exemplificando, é diverso intitular como “O Mulato” (A. Azevedo) e “Helena” (M. de Assis), ou ainda “O Cortiço” ( A. Azevedo) e “Clara dos Anjos” (L. Barreto). A ênfase se faz do indivíduo para o coletivo, ou do coletivo para o indivíduo, como em qualquer análise sociológica. Afinal, é discussão inútil, pois toda ‘psicologia’ é ‘social’, o “eu” é um ‘produto’ coletivo, do meio - como sobrevive um indivíduo sem o apoio social?

(28) A referência à obra de Adorno e Horkheimer, “A Dialética do Esclarecimento”(“Die Dialetik der Aufklärung”, 1950) se justifica pela crítica aos ‘ideais iluministas’, com as promessas de uma ‘sociedade racional’, e realizaram apenas uma hegemonia da “Razão Instrumental”, que visa os fins, sem se importar com os meios.

(29) Lima Barreto era um declarado admirador do pensador francês René Descartes, que partia da dúvida para chegar a alguma certeza. Ou então, por usar um “método” que visa duvidar, até que se prove o contrário – “dúvida metodológica”.

(30) Referência ao ‘romance picaresco’ espanhol, séculos 16 e 17, inaugurado pelo clássico “Vida de Lazarillo de Tormes y de sus fortunas y adversidades” ou “El Lazarillo” (1554); autores possíveis (não se sabe ao certo): Diego Hurtado de Mendoza, Sebastian de Horozco (1510-80), Lope de Rueda (1505-65); obra com narrativa em 1ª. pessoa, cheia de alusões, digressões, diálogos jocosos, até obscenos, com um protagonista ‘pícaro’, isto é, um indivíduo maroto, ardiloso, cheio de manhas e em mil aventuras. Possível inspiração para o “Tristam Shandy” de Sterne, publicado em 1759, quando o ‘picaresco’ já era decadente na Espanha. Uma observação aqui é o título da obra de Lima Barreto, “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá” (1919) cujo título engana o leitor, pois a narrativa nada mais é do que a exposição das ideias de Gonzaga de Sá. De picarescos, no Brasil, temos um Pedro Malasartes e um Macunaíma, além do Viramundo, do romance “O Grande Mentecapto” de Fernando Sabino (em 3ª. ps), e os clássicos “Grande Sertão:Veredas”, de Guimarães Rosa e “O Coronel e o Lobisomem” de J Cândido de Carvalho (ambas em 1ª. ps.) , que se inspiraram no estilo. Ainda há outro escritor, no Brasil, que explorou técnicas do estilo – personagens excêntricos, marcantes, abusados - e foi Jorge Amado (ver).

(31)A referência ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche se justifica pel importância da “vontade” individual. O ser não é apenas ‘coletivo’ (senão ficaríamos em Marx e Comte), mas reage ao coletivo, e até ‘destaca-se’ do coletivo, para seu benefício ou decadência, punição, mas não é um ‘mero fantoche’. Por mais que esteja ‘condicionado’ ainda há um espaço de escolha e decisão. Sem isso, não seriam seres humanos, mas animais.

(32)A frase famosa, do enredo de “Quincas Borba”, ecoa nas páginas de Lima Barreto, como uma fina ironia a Machado de Assis, que comparado com Barreto, subiu na vida, isto é, conseguiu aprovação social, fundou uma Academia de Letras ao estilo francês, foi respeitado e frequentou a vida elegante na Capital.

(33)Está em voga e na mídia toda uma literatura que é formada nos subúrbios, e que trata da vida na periferia, ou em área de risco social (eufemismo para ‘favelas’, aglomerados sem urbanização), que são as ‘senzalas’ da modernidade. A abolição da escravatura não bastou para integrar o negro e afro-descendentes a vida social. Hoje, a Literatura do “ressentimento” continua borbulhando ao ritmo de um RAP com um mesma carga de racismo, apenas com carga e vetor invertidos. Quando o discurso de integração é fraco, o “sistema de cotas” é inútil, a rebelião do particularismo, do “espírito de gueto” faz-se presente – o que faz um garoto branco subindo o morro, uma menina loira dançando funk? Depende do olhar – e do preconceito.


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sábado, 7 de maio de 2011

Elogio do Aprender - Bertolt Brecht










Elogio do Aprender


Bertolt Brecht




Aprenda o mais simples! Pois
Para aqueles cuja hora chegou
Nunca é muito tarde !
Aprenda o ABC; não basta, mas
aprenda!Não desanime!
Comece já! É preciso saber tudo!
Você precisa assumir o comando!

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Aprenda, homem no asilo!
Aprenda, homem na prisão!
Aprenda, mulher na cozinha!
Aprenda, você idoso!
Você precisa assumir o comando!
Procure a escola, você sem-teto!
Adquira conhecimento, você no frio!
Você faminto, agarre o livro: é uma arma.
Você precisa assumir o comando.

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Não se seja tímido ao perguntar, colega!
Não se deixe convencer!
Veja com seus próprios olhos!
O que não sabe por conta própria,
não sabe.
Verifique a conta
É você quem vai pagar.
Ponha o dedo sobre cada item
Pergunte: o que é isso aqui?
Você precisa assumir o comando.



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Trad. LdeM



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Lob des Lernens


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Lerne das Einfachste ! Für die
Deren Zeit gekommen ist
Ist es nie zu spät!
Lerne das Abc, es genügt nicht, aber
Lerne es! Laß es dich nicht verdrießen !
Fang an! Du mußt alles wissen!
Du mußt die Führung übernehmen.

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Lerne, Mann im Asyl !
Lerne, Mann im Gefängnis!
Lerne, Frau in der Küche!
Lerne, Sechzigjährige!
Du mußt die Führung übernehmen.
Suche die Schule auf, Obdachloser !
Verschaffe dir Wissen, Frierender!
Hungriger, greif nach dem Buch: es ist eine Waffe.
Du mußt die Führung übernehmen.

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Scheue dich nicht zu fragen, Genosse !
Laß dir nichts einreden
Sieh selber nach!
Was du nicht selber weißt
Weißt du nicht.
Prüfe die Rechnung
Du mußt sie bezahlen.
Lege den Finger auf jeden Posten
Frage: Wie kommt er hierher?
Du mußt die Führung übernehmen.

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Bertolt Brecht




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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Os Poetas X A Poesia





Os Poetas X A Poesia

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O que é Poesia? Quem são os Poetas? Questões que incomodam os literatos e os acadêmicos. Alguns críticos – e muitos professores – defendem que é preciso saber sobre o/a Poeta – a vida do/a poeta, personalidade e eventos biográficos – para que se entenda um poema, ou outro texto.

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Para 'podermos ler' um poema é preciso saber em que idade o texto foi escrito, em que circunstâncias, sob qual teto, ou teto nenhum, se em liberdade ou na prisão, se ele ou ela foi abandonado/a pelo cônjuge ou amante, se foi pra guerra ou viveu sempre numa aldeia pacífica.

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Conhecer o Poeta, a Poeta para entender o texto? Para saber a 'intenção autoral'? Ter acesso a alguma suposta 'mensagem' que o Autor, a Autora pretendem transmitir?

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Ler um texto é ter acesso a alguma mensagem? Ou a partir do texto encontrar algo que atue diretamente sobre o leitor (ênfase na Recepção)? As emoções, o sentimento do/a Autor/a somente interessam a/o Leitor/a na medida da 'identificação'? Ou seja, encontramos no Outro (o Autor/a) o que percebemos em nós mesmos. Emocionar-se com um poema é perceber-se no mesmo universo afetivo-expressivo. A sensação que criou o poema é 're-vivida' no Ego de outro, o/a Leitor/a.

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O preocupar-se com a 'intenção autoral' significa pretender um acesso ao que 'passava pela mente' de quem escreveu. Significa que se pretende ler a biografia lado a lado com o texto. O que vivenciou aquele Autor para que ele escrevesse aquele texto? O que teria acontecido se na hora de completar aquela estrofe o telefone tivesse tocado? Ou começado a Terceira Guerra Mundial?

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O que o/a Autor/a vivenciou interessa a/o Leitor/a? O sofrimento alheio nos interessa? Até porque ambos – Autor e Leitor - são egocêntricos. Tanto quem escreve como quem lê. Quem escreve é um egocêntrico que exibe sensações, emoções, sentimentos, visões-de-mundo, e quem lê é um egocêntrico que deseja encontrar no texto lido algo que possa 'refletir' uma sensação vivida ou idealizada.

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O/a Autor/a só é importante para nós – os exigentes leitores - na medida em que diz algo PARA MIM, não para o meu amante ou para o meu vizinho. Claro que alguns autores parecem 'conversar' com meio mundo. São considerados 'universais', tais como um Shakespeare, um Whitman, um Kafka, um Fernando Pessoa. Mas estes são mais exceção do regra.

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Saber a vida do/a Autor/a para 'entender' a Obra? O que seria 'entender' a obra? Reproduzir mentalmente as condições de vida para tentar explicar porque o texto é assim e não diferente? Por que o poema tem duas e estrofes e não dez? De repente, o autor estava com pressa, ou o telefone tocou... Ora, tudo isso é impossível. E mesmo que fosse possível – saber TUDO sobre o Autor X, é inútil, e nem mesmo desejável. A 'intenção autoral' não interessa.

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Até porque o que vale mesmo é a Obra. O/a Autor pode até ser anônimo, apócrifo, etc, que a Obra brilha por si mesma – se possui algum valor INTRÍNSECO. Claro que toda Obra tem um Autor – a Obra não se cria sozinha – mas uma vez libertada pelo gesto de publicação – seja autorizada ou póstuma – a Obra alcança independência – até atingir a figura do Leitor, que poderá re-interpretá-la.

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A preocupação com a figura do Autor é uma das maiores perdas de tempo. Os autores não valem mais que as Obras – aliás, é o contrário. Pablo Neruda vale porque escreveu Cem Sonetos de Amor, e não a obra Cem Sonetos de Amor é importante porque foi escrito por um Pablo Neruda. Caso contrário, devo agora ler tudo o que o Sr. Pablo Neruda escreveu? Até os poemas sem qualidade? Meros frutos de horas de 'luta com as palavras', na autora da juventude... (Assim muita gente lê romances de Paulo Coelho porque... porque foi o Sr. Paulo Coelho quem escreveu! É o Autor que traz valor para o texto e não o contrário! Mas aí é questão de Mídia, não de qualidade literária.)

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Digamos que dedicamos tempo a ler dois ou três romances do Sr. Nobel José Saramago. Três títulos que merecem ser lidos e relidos - “Ensaio sobre a Cegueira”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis” e “Todos os Nomes”, no caso – o que não significa que todos os romances escritos pelo Autor mereça atenção. Aliás, lê-se o 'Autor' - “ah, eu leio porque é do Saramago!” - e não pela qualidade da Obra! Ora, nenhum outro romance do citado Autor tem as qualidades das obras cujos títulos foram citados. (Nem vamos aqui estabelecer qualquer 'ranking' de qualidade...)

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Pois bem. Conhecer a Obra – se esta vale em termos de qualidades - é se deliciar com a genialidade humana, com a capacidade de superar o cotidiano, o mesquinho dia-a-dia funcional e de criar algo que mereça ser 'canonizado'. É o respeito que sentimos diante de um “Hamlet” ou um “Os Miseráveis”. O que não significa que teremos acesso ao que intencionava o Mr. William Shakespeare ou o Monsieur Victor Hugo.

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Aliás, não queremos conhecer nem Shakespeare nem Victor Hugo, queremos conhecer “Hamlet” e “Os Miseráveis”. Até porque conhecer os autores pode ser uma fonte de, digamos, decepção.

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Sim, decepção. Posso adorar Poesia, posso idolatrar uma Obra Literária. Mas significa que adorarei o Autor? Que minha idolatria se estenderá até a Figura Autoral? Pelo contrário. Tem uma década que convivo com Autores – e sinceramente prefiro os Livros. Conhecer os Autores é até pensar novamente se a Obra saiu mesmo daquela 'fonte'. Será algum mal-entendido? Esta pessoa escreveu aquele livro?

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Aliás, quem são os Poetas? Seres mágicos, sublimes, etéreos? Visionários? Profetas das 'Palavras Aladas'? Vates eternos? Bardos da Realidade Excelsa? Imagens humanizadas da Palavra? Seria maravilhoso se assim fosse! Temos estas ideias sobre os Poetas por um processo de Idealização. Idealizamos demais e por isso sofremos.

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Os poemas – que transmitem Poesia – são belos, são admiráveis. E achamos que os Poetas assim também o são. Ledo engano.

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Queremos ser Poetas – daí idolatramos os demais Poetas. Até conhecê-los. Quem são os Poetas?, repetimos. Pessoas comuns. Funcionários públicos, artistas, músicos, profissionais liberais. Donas de casa, secretárias, donas de salão de beleza. Promotores de eventos artísticos, políticos, donos de editoras. Professores, burocratas, desempregados. A 'imagem de Poeta' é uma mera fantasia. Nem louco nem engravatado, nem lunático nem acomodado. Nem revolucionário, nem hóspede de uma torre-de-marfim. Qualquer imagem de Poeta é abstração, é delírio nosso.

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O Poeta, a poeta pode ser o nosso vizinho, pode ser aquele senhor bebendo chope no bar da esquina, pode ser a dona lavando a janela, pode ser o cara discutindo com o cobrador. Pessoas comuns que vivem vidas comuns – com raríssimas exceções que apenas confirmam a regra. Os poetas não merecem qualquer admiração – só porque são poetas. Merecem nosso respeito por serem cidadãos. Admirados por sobreviverem num dado sistema social, mais livre ou mais opressor. Por sobreviverem. Apenas.

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Idealizar o/a Poeta é que tem criado esta febre de pesquisa biográfica. Quantas são as noivas de Poe ou de Kafka? Quantos os amantes do Piva? Quantas são as putas do Bukowski? Quais as ligações políticas de Pound ou de Brecht? Qual o nome da amante de Elizabeth Bishop? Ora! Enquanto nos preocupamos com isso deixamos de LER as Obras! O mais importante fica de lado: paramos de ler “Ulisses” para ir dar uma espiadinha na alcova de James Joyce!

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Nenhum poeta e nenhuma poeta é admirável em si-mesmo/a – mas é admirável em relação a Obra. Como aquele ser cotidiano conseguiu escrever algo com semelhante profundidade e clareza afetiva-filosófica? Mesmo que não pratique nada daquilo na vida diária! Mesmo que externamente seja um qualquer que transita pelas ruas a solicitar um cigarro, ou um minuto de atenção.

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Nenhum deles é modelo de caráter – um modelo a ser seguido. Um era bêbado, outro era esquizofrênico, uma outra era suicida. Um era pederasta, o outro era satanista, uma outra era viciada em morfina. Um virou traficante de armas, outra traiu o marido, um outro traiu os companheiros políticos. Um era antipatriota, outra era marginal, um outro era alienado. Outros pretendem ter 'voz coletiva', outros somente falam do próprio umbigo. Nenhum se salva. Um por ser idealista demais, outro por ser materialista demais, um outro por ser egocêntrico demais.

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Não precisamos citar nomes. Todos sabem de quem aqui falamos. Aliás, sabemos MAIS sobre os Autores do que sobre as obras. Sabemos os nomes das amantes de Baudelaire, mas não sabemos decorado sequer um soneto do simbolista francês. Sabemos tudo sobre a opção política de Knut Hamsun, mas quantos de nós lemos “Fome”? Ou seja, o Autor é celebridade, a Obra fica na estante.

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E ainda querem que percamos o nosso valiosíssimo tempo para ler biografia de escritores, poetas, literatos? O máximo que podemos ler em termos de biografias são aquelas de políticos, pois estes não têm obras escritas – com algumas exceções, claro – mas uma 'vida política'. Daí se justificar que tenhamos dedicado tempo valioso para ler as biografias de Robespierre, Napoleão, Bismarck, Lênin, Mussolini, Hitler, Stálin, De Gaulle, Churchill, Roosevelt, Eisenhower, Tojo, dentre outros, e nunca lido totalmente qualquer biografia de escritor, poeta, literato. Temos mais o que fazer.

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Aviso aos navegantes: ESTE não é um texto acadêmico. É livre-expressão de um Literato-estudante-funcionário-público.

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por Leonardo de Magalhaens




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Mais info sobre Intencionalidade Autoral

e Estética da Recepção em





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domingo, 3 de abril de 2011

EU NÃO (LdeM)




EU NÃO
Eu não dirigi bêbado Eu não tenho um cabelo tipo moicano Eu não tenho um esqueleto no armário Eu não joguei meus bens na roleta Eu não queimei dinheiro Eu não atravessei à nado o Canal da Mancha Eu não sobrevoei os Alpes com um balão Eu não matei John Kennedy Eu não implodi o World Trade Center Eu não sequestrei o avião no Oriente Médio Eu não financiei o Mensalão Eu não tatuei uma folha de maconha Eu não votei no Bush Eu não atirei no Papa Eu não joguei na Bolsa Eu não pulei do Ed. Joelma Eu não matei meu pais nem fui ao cinema Eu não tive uma crise de nervos em pleno voo Eu não fiz tatuagem de dragão Eu não furei o nariz com piercing Eu não enfiei uma rodela nos lábios Eu não me deixei marcar com ferro-em-brasa Eu não tenho um exército de mercenários Eu sequer tenho piercing na língua Eu não me endividei Eu não abusei do crédito Eu não engravidei a vizinha adolescente Eu não quebrei guitarra no palco Eu não pulei de paraquedas Eu não escalei o Aconcágua Eu não nocauteei o peso-pesado Eu não dinamitei a Ilha de Manhattan Eu não torrei o cheque-especial Eu não comprei o carro do ano Eu não tenho o celular da moda Eu não assinei a revista de fofocas Eu não tenho guarda-costas Eu não deixei a lâmpada acesa Eu não joguei latinha na rua Eu não fumo nem injeto Eu não brinquei de roleta-russa Eu não criei slogans de propaganda Eu não lancei minha candidatura Eu não uso lentes de contato multicores Eu não uso casaco de general Eu não uso botina de soldado raso Eu não tenho parentes importantes nem padrinhos políticos Eu não coleciono figurinhas dos craques de futebol Eu não divulgo minhas fotos no facebook Eu não estaciono em fila dupla Eu não emprestei meu cartão de crédito Eu não aceitei propina do empresário Eu não falsifiquei a assinatura do deputado Eu não apertei a mão do traficante Eu não troquei sorrisos com o presidente Eu não entrevistei o candidato Obama Eu não entrevistei o terrorista Osama Eu não plagiei as místicas de Paulo Coelho Eu não me casei com a Bruna Surfistinha Eu sei que há doido pra tudo mas no fim o maluco sou eu


mar/11 Leonardo de Magalhaens http://leoliteraturaescrita.blogspot.com . .