sábado, 4 de junho de 2011

Canção da Estrada Aberta (1/5) - Whitman












Canção da Estrada Aberta

Song of the Open Road

1

A pé e de coração leve eu pego a estrada aberta
Saudável, livre, o mundo diante de mim,
A longa trilha diante de mim conduzindo-me
aonde quer que eu escolha.


De agora em diante eu não questiono sobre a boa-sorte,
eu mesmo sou a boa-sorte,
De gora em diante eu não vou mais lamentar, não vou mais adiar,
de nada eu preciso,
Chega de reclamação dentro de casa, bibliotecas, críticas queixosas,
Forte e contente eu viajo através da estrada aberta.


A terra, eis o suficiente,
Eu não quero as constelações mais próximas,
Sei que elas estão bem aonde elas estão,
Sei que elas são suficientes para aqueles que pertencem a elas.


(Ainda aqui eu carrego meus velhos e deliciosos fardos,
Eu os carrego, homens e mulheres, eu os carrego comigo
para onde quer que eu vá,
Eu juro que é impossível para mim livrar-me deles,
Estou preenchido com eles, e eu os preencherei em troca.)


2

Você, estrada, eu te adentro e olho ao redor, eu acredito que
você não é tudo o que está aqui,
Eu acredito que aqui há também muito ainda não visto.


Aqui a profunda lição da recepção, nem preferência nem rejeição,
O negro com sua cabeça de lã, o bandido, o doente,
os analfabetos, não são rejeitados,
O nascimento, a pressa após o médico, o perambular do mendigo,
o cambalear do bêbado, a festa gargalhante dos mecânicos,
A juventude em fuga, a carruagem dos ricos, o janota,
o casal fugitivo,
O comerciante que madruga, o carro fúnebre, o mover da mobília
para a cidade, o retorno desde a cidade,
Eles passam, eu também passo, algo passa, nenhum
pode ser restringido,
Ninguém pode senão ser aceito, ninguém pode senão
ser importante para mim.


3

Você, ar, que me concede o fôlego para falar!
Vocês, objetos, que clamam da difusão meus sentidos
e dá forma a eles!
Você, luz, que me envolve e todas as coisas em delicada e
invariável cascata!
Vocês, trilhas, batidas nos buracos irregulares ao longo das estradas!
Acredito que vocês estão latentes com existências invisíveis,
vocês são importantes para mim.


Vocês, calçadas lajeadas das cidades! Vocês, robustos meio-fios
nas beiras!
Vocês, barcas! Vocês, pranchas e postes do cais! Você, lado delineado
de madeira! Vocês, navios distantes!
Vocês, fileiras de casas! Vocês, fachadas recortadas por janelas!
Vocês, telhados!
Vocês, varandas e entradas! Vocês, beirais e grades!
Vocês, janelas, cujas conchas transparentes deveriam expor muito!
Vocês, portas e altas escadarias! Vocês, arcadas!
Vocês, pedras cinzentas de pavimentos intermináveis! Vocês,
cruzamentos tão pisados!
De tudo que tem tocado vocês eu acredito que vocês tem comunicado a
Vocês mesmos, e agora comunicariam o mesmo secretamente para mim,
De vivos e de mortos vocês povoaram suas superfícies impassíveis,
E os espíritos destes e daqueles serão evidentes e amistosos comigo.



Trad. livre: Leonardo de Magalhaens

http://leoliteraturaescrita.blogspot.com



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Walt Whitman




Song of the Open Road



1

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Afoot and light-hearted I take to the open road,

Healthy, free, the world before me,

The long brown path before me leading wherever I choose.

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Henceforth I ask not good-fortune, I myself am good-fortune,

Henceforth I whimper no more, postpone no more, need nothing,

Done with indoor complaints, libraries, querulous criticisms,

Strong and content I travel the open road.

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The earth, that is sufficient,

I do not want the constellations any nearer,

I know they are very well where they are,

I know they suffice for those who belong to them.

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(Still here I carry my old delicious burdens,

I carry them, men and women, I carry them with me wherever I go,

I swear it is impossible for me to get rid of them,

I am fill'd with them, and I will fill them in return.)

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2

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You road I enter upon and look around, I believe you are not all

that is here,

I believe that much unseen is also here.

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Here the profound lesson of reception, nor preference nor denial,

The black with his woolly head, the felon, the diseas'd, the

illiterate person, are not denied;

The birth, the hasting after the physician, the beggar's tramp, the

drunkard's stagger, the laughing party of mechanics,

The escaped youth, the rich person's carriage, the fop, the eloping couple,

The early market-man, the hearse, the moving of furniture into the

town, the return back from the town,

They pass, I also pass, any thing passes, none can be interdicted,

None but are accepted, none but shall be dear to me.

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3

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You air that serves me with breath to speak!

You objects that call from diffusion my meanings and give them shape!

You light that wraps me and all things in delicate equable showers!

You paths worn in the irregular hollows by the roadsides!

I believe you are latent with unseen existences, you are so dear to me.

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You flagg'd walks of the cities! you strong curbs at the edges!

You ferries! you planks and posts of wharves! you timber-lined

side! you distant ships!

You rows of houses! you window-pierc'd facades! you roofs!

You porches and entrances! you copings and iron guards!

You windows whose transparent shells might expose so much!

You doors and ascending steps! you arches!

You gray stones of interminable pavements! you trodden crossings!

From all that has touch'd you I believe you have imparted to

yourselves, and now would impart the same secretly to me,

From the living and the dead you have peopled your impassive surfaces,

and the spirits thereof would be evident and amicable with me.
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LdeM


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quinta-feira, 19 de maio de 2011

sobre a Obra de Lima Barreto






Uma leitura da Obra de LIMA BARRETO



A Escrita enquanto superação


Dono de uma escrita realista, sem preâmbulos. Realista no sentido de denunciar uma “realidade” diante dos olhos, mais do que retratar esta “realidade”. Uma obra que não é retrato, mas ironia com as imagens que alguns julgam ser o “retrato”. Assim, trataremos aqui da obra de Lima Barreto (nascido Afonso Henrique de Lima Barreto, em 13 de maio de 1881)

Se leitor de um Aluísio Azevedo (como ele mesmo se dizia),(1) Lima Barreto sabia das abrangências e limites do chamado ‘Naturalismo’, que visava um retratamento da “realidade”, com que havia de mais ‘natural’, ‘popular’ e ‘deselegante’.

Para entender Lima Barreto, precisamos voltar o olhar até os escritos de Aluísio Azevedo, diante do leitor com “sede de verdade” de fins do século 19. Pensava-se então que o romance não poderia ser mais um ‘passatempo’, mas uma forma de ‘retratar’ a “realidade” psíquica e social da época. Pretensão que encontramos num Émile Zola, com seu “Germinal”.(2)

A escrita enquanto “retrato” é limitada no sentido de que é limitada uma foto – o artista só pode escolher o ângulo e a incidência luminosa, no mais a foto diz tudo. O artista só escolhe o alvo e o momento, no mais a foto que se expresse. Assim, a literatura ‘naturalista’ não permitia muitas inovações estéticas por parte do escritor. Assim, a obra fundamental “O Cortiço” ser lembrada mais pelo enredo, o “conteúdo”, do que pelo estilo, a “forma”. Fenômeno contrário acontece com Machado de Assis. Onde os enredos parcialmente são esquecidos, mas nunca deixamos de lembrar o estilo, os labirintos da linguagem. (No século 20, o mesmo acontece com o autor Guimarães Rosa)(3)

Se um Aluísio Azevedo tinha fome da “verdade”, um Machado de Assis tem necessidade de “estilo”. É no estilo que Machado de Assis se realiza, é na metalinguagem, na conquista da cumplicidade do leitor. Trata da realidade como fantasia, e vice-versa, com seu “defunto autor”, numa antecipação do “realismo-fantástico”, para um leitor com “sede de fantasia”, numa tradição de Edgar Allan Poe, que se tornaria famosa na Literatura Latino-Americana (4)

Para Lima Barreto, a escrita é uma forma de aprisionar os seus fantasmas no papel, deixar na folha as inquietações e frustrações de toda uma vida, que nem o abuso de álcool conseguiu fazer esquecer. Perambulando em fantasias e atmosferas ébrias, tal um Poe, Lima Barreto deixava o seu olhar descer sobre a miséria e a indignidade em busca de uma pérola lírica, um momento que pudesse ser ‘redenção’ de uma existência degradada.

Sua obra mostra isso. Personagens que desejam ir além de seus limites sociais e culturais, querem melhorar suas vidas, querem mudar o mundo, querem construir novos sistemas sociais, querem ser maior que suas condições. Se os escritores naturalistas, numa tradição de Taine, com seus determinismos de raça, época e cultura, (5) com as personagens limitadas ao natural e ao fisiológico, as personagens de um Machado de Assis e de um Lima Barreto fogem às convenções e até se colocam contra as convenções, fugindo de ‘determinismos’ e pagando caro por essas ‘transgressões’.

Não se pretende aqui uma crítica do ‘realismo-naturalismo’, apenas apresentar um painel da época, e do ‘Zeitgeist’, o “espírito da época”, com suas características de objetivismo, descrição e explicação, além de uma ousada crítica social, num período de decadência monárquica e ascensão republicana. (6) Sejam anti-clericais e anti-escravismo, os autores naturalistas buscam formar um grupo de leitores mais à vontade num mundo pleno de avanços da ciência, com ideias de “ordem e progresso”, ao estilo positivista de Comte. Contudo, por mais que sofra a “síndrome de influência”, Lima Barreto diverge em pontos fundamentais, dos seus predecessores. Principalmente que Lima Barreto nada defende, nenhum “ismo” é por ele exaltado. Pretende fazer sua denúncia, ironizar seus desafetos, desabafar suas frustrações,mas nunca ‘doutrinar’ ou ‘converter’. Para o autor, certezas são como ‘camisas de força’. Sua crença na literatura se encerra nela mesma: nada além. Não se pense que literatura educa: literatura é para deseducar. Quem educa é o Estado e seus professores (se possíveis, laicos), dentro de padrões sócio-econômicos.

A Literatura, se tem utilidade, é para ampliar horizontes, destruindo padrões. E nesse quesito Lima Barreto se esforça. Ainda que sua obra tenha muito de biografia, ‘auto-biografia’, como acusam muitos, tem algo de superação, quando pretende mostrar personagens ousados, que não se conformam.

No primeiro romance, publicado em 1909, o irônico “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, há um mulato que no desejo de superar sua classe social, e sua cor, ao ocupar espaços que muitos julgam não serem destinados a ele, numa ânsia de ascensão, nutrindo um “complexo de superioridade” devido a consciência da inferioridade social de cor e classe.

“A tristeza, a compressão e a desigualdade de nível mental do meu meio familiar, agiram sobre mim de um modo curioso, deram-me anseios de inteligência.”

Em suas recordações, o escrivão Isaías Caminha apresenta as frustrações colhidas no entrechoque com as várias esferas da sociedade que se encontram de portas fechadas para ele, devido ao preconceito de cor e de classe. Isaías quer estar além do mundo que reservaram para ele: um mundo encolhido, submisso. Isaías não se sente bem meio aos seus, e se sente deslocado meio aos outros, de ambiente mais refinado. É um descontente que, distanciado, se contenta em observar, analisar o comportamnto alheio. Assim, “fora do jogo”, sente-se “acima”, superior.

“Acentuaram-se-me tendências; pus-me a colimar glórias extraordinárias, sem lhes avaliar ao certo a significação e a utilidade. Houve na minha alma um tumultuar de desejos, de aspirações indefinidas. Para mim era como se o mundo me estivesse esperando para continuar a evoluir...”

Um processo ‘compensatório’, quando da consciência da inferioridade social, Isaías desenvolve seu “complexo de superioridade”. A sua narrativa nasce desse descompasso, e se desenvolve em espirais, tudo num redemoinho de percepções, onde ele nunca é bem-vindo, onde ele nunca se sente em casa.

Na cena, em que descreve uma sessão da Câmara dos Deputados, podemos notar em Lima Barreto (tentando se ocultar atrás da pena de Isaías Caminha) toda uma perspectiva de ironia diante das autoridades e dos conceitos que estas fazem de si mesmas, mesma ironia que encontraremos depois no “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, coma s figuras mais esdrúxulas se fazendo em autoridades e ditando o futuro da Nação.

Na Câmara, Isaías nota o contraste entre a idealizada ‘grandiosa representação’ e a realidade ‘espetacular’, de espetáculo mesmo, de “arquibancada grosseira”, onde Isaías se vê adentrar à procura do Deputado Castro, “representante da grande nação brasileira”, mas sempre distante, inabordável, como sabemos ser característica dos políticos, que somente se aproximam da população em épocas de eleições.

Frustrado com o ‘espetáculo’ da Câmara, Isaías Caminha deixa-se perambular pelas ruas centrais do Rio de Janeiro, em observações um tanto irônicas sobre os diversos tipos que cruzam o seu caminho. Aqui observar é “analisar à distancia”, pois o escrivão não se identifica com os populares, ele apenas mergulha na multidão para continuar ainda mais solitário. Assim um olhar ao estilo Baudelaire (como bem notou Walter Benjamin, em suas “Passagens” (“Passagenwerk”) sobre o ‘spleen de Paris’), que caminha meio ao povo para melhor se perceber sozinho. “É solitário andar por entre a gente”, escreveu um Camões. (7) Assim também o conto “uma Noite no Lírico”, no último livro publicado por Lima Barreto, “Histórias e Sonhos”, em 1920 (portanto, dois anos antes de sua morte, em 1922, ano simbólico na Literatura Brasileira). No referido conto, encontramos um irônico observador que vai, certa noite, a uma peça no Teatro lírico, onde se reúnem as figuras mascaradas da high society, a fina flor da aristocracia fluminense. Para o protagonista, o espetáculo não é tão somente a ópera no palco, mas também os ‘tipos’ na platéia. E se observa é por não se identificar,é por se deixar na companhia de outros irônicos, que não perdem a oportunidade de ‘desmascarar’ a bela sociedade dos ‘ricaços’.


Fora as ‘figuras’ que aparecem na narrativa, as personagens caricaturais que Lima Barreto soube criar com ironia e amargura. Seja o jornalista Floc, desfilando com um saber que é um mero adorno, ou o talento multilingüístico do Dr. Ivã Gregoróvitch Rostóloff, a escrever em vários jornais nos mais variados idiomas. Tipos assim que usam o ‘saber’ tal uma alavanca de Arquimedes para deslocarem o mundo social. (8) Assim podem participar e atuar do ‘espetáculo’, com talento performático, mesmo sem os recursos ‘financeiros’ dos burgueses, que muitas vezes precisam comprar os ‘recursos intelectuais’ dos homens de talento. Assim é o que notamos no famoso conto “O Homem que sabia Javanês”, escrito em 1911, e publicado no volume “Clara dos Anjos e outras histórias”, em 1948 (!). no conto, o protagonista narra suas aventuras com seu ‘pseudo-saber’. Alega ser professor de ‘javanês’ e consegue encontrar gente singela o bastante para acreditar. E agraciado assim com a confiança de outrem, vai se aproveitando das circunstancias, as lacunas que surgem no jogo do poder consegue assim sua ascensão social.


As cenas do romance “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” são antológicas pela amostra (quase estatística) das várias circunstancias de preconceito sofridas por um ‘homem de cor’, desde sua humilhação, como suspeito de furto vulgar, o desprezo dos ‘figurões’, até o desrespeito a sua pessoa, em via pública, quando é incomodado, e o cidadão inconveniente não pede as devidas desculpas, como é o caso do bonde.

“Senti-me humilhado, esmagado, enfraquecido por uma vida de estudo, servir, de joguete, de irrisão a esses poderosos todos por aí. Hoje que sou um tanto letrado sei que Stendhal dissera que são esses momentos que fazem os Robespierres.”

No entanto, lembramos, serem estas as ‘recordações’, logo memórias de Isaías Caminha, quando de sua chegada a cidade, aos dezoito anos, com esperanças de deixar reluzir seu “brilho intelectual” para ‘compensar’ a ‘cor’ e a classe social (que segundo Taine – citado pelo próprio Lima Barreto – são determinantes para a formação do indivíduo), para ousar sua ‘ascensão social’ meio aos jornalistas, aquela gente respeitada por polícia e políticos, classes temerosas do papel de ‘publicidade’ da Imprensa, a tornar-se um verdadeiro “quarto poder”. Os jornalistas que atuam na caricatural Redação de “O Globo” (um nome fictício para o “Correio da Manhã”, fundado no RJ em 1901), farta de jornalistas-especialistas, com suas erudições vazias, feitas de fórmulas e lugares-comuns, mas vaidosos como se fossem gênios, segundo critica uma personagem, “os jornalistas dominam, querem ser adulados, chamados de gênios”. Gênios? Não mais do que ‘fazedores de notícias’ que confundem figuras e fatos históricos, citam obras universais que desconhecem, “A gente dos jornais do Rio só tem idéias feitas e clichês de opiniões de toda natureza incrustadas no cérebro.”

Toda uma arrogância que nasce desse “quarto poder”, como se os jornais fossem uma “espada de Dâmocles” suspensa por um fio sobre as cabeças dos poderosos, políticos e demais autoridades (in) competentes. Mesma idéia que é o germe do clássico “Ilusões Perdidas” (“Illusions Perdues”) de Honoré de Balzac, no seu ciclo “Comédia Humana” (“Commédie Humaine”), onde o ambiente de gráfica de província mostra a formação do jovem poeta que, chegando em Paris, descobre o jogo dos ‘talentos’. (9)

Isaías Caminha é um autor em formação, tem lá o seu esboço d romance na gaveta, igualmente chamado “Clara dos Anjos”, tal o autor Lima Barreto (assim a ‘identificação’ do autor com o protagonista ), ideia esboçada em conto (denominado igualmente “Clara dos Anjos” e publicado em “Histórias e Sonhos”), que precisa de sua dedicação, mas é sempre interrompido e importunados pelas turbulências sociais. Teme decair de sua sofrida ascensão, e voltar a condição humilde. É assim que o autor, o próprio Lima Barreto, revela no prefácio, que o Escrivão acabou se adaptando’: o antes sofrido Isaías Caminha agora aceita vestir a “túnica de Nessus” da sociedade, a prometida comodidade e felicidade. (10) Onde a alternativa seria o permanecer à margem,ou auto-destruir-se para não ‘jogar’ o jogo.

A idéia de ‘jogar o jogo’, essa de que a vida social é um jogo, e somos todos uns ‘homo ludens’ (11) é visível em outros contos de Lima Barreto, com destaque para o “Numa e Ninfa”, publicado em “Marginalia” (1953), que reúne crônicas, cartas, textos avulsos. O conto é uma sátira aos políticos, essa ‘corte de bajuladores’,na figura de Numa Pompílio de Castro (um eco do Dr. Castro de “Escrivão Isaías Caminha”?) (12) que, sem talentos, precisa aparentar os mesmos caso queira ‘subir na vida’, na conquista de cargos políticos.

“Aos poucos, com aquele seu faro de adivinhar onde estava o vencedor – qualidade que lhe vinha da ausência total de emoção, de imaginação, de personalidade forte e orgulhosa – Numa foi subindo.”

O político preocupado com a imagem, os discursos – que o apavoram! Então consegue com que a mulher escreva seus discursos – que passam a ser famosos! Depois, o político descobre não ser a mulher a autora dos discursos, mas um primo, um “poeta sem poesia”, mas talentoso quando se trata de discursos... A mulher pode até trair, mas não podem saber, lá na Câmara, que ele, Numa Pompílio de Castro, não escreve os seus discursos!

É uma ironia corrosiva a de Lima Barreto – onde respinga deixa marca. Sua crítica à imprensa, à política enquanto ‘encenação’, à incompetência das autoridades, à burocracia (onde se pode comparar ao clássico Franz Kafka), aos preconceitos de classe (no que se assemelha a um Gogol, no famoso “O Capote”), à própria literatura enquanto ‘idealização’. (13)


A crítica de Lima Barreto nasce de seu deslocamento no meio social, pouco à vontade entre os populares, atrasados quanto aos ‘quesitos’ consciência, e dignidade, e exilado da ‘alta sociedade’, por sua condição humilde. Asim, se um Machado de Assis conseguiu se impor e ascenderà um nível superior, Lima continuou preso à miséria, caindo literalmente à sarjeta. É sensível o ressentimento de Lima Barreto, mas não diminui sua obra – ajuda a comprndê-la. Assim, também a obra de Machado de Assis, se ousarmos uma comparação – visto ambos serem díspares. Se Machado foi para os bairros elegantes, erguido por seu ‘estilo’ à la Swift e Sterne, (14) “escrevendo para inglês ver” e “francês elogiar”, Lima Barreto nunca conseguiu livrar-se de seus espectros, e pagou caro por essa inadaptação.


Também pagou caro o Major Quaresma, fuzilado por traição. O agora clássico “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, escrito em 1911, e publicado em 1915, mostra o choque entre o idealismo e a “realidade”, em denuncia do fracasso do nacionalismo, do “idealismo patriótico”, nesse “Estado que não é Nação”chamado Brasil.


Policarpo Quaresma, o funcionário público eficiente como um relógio, é o nosso “Dom Quixote” nacional ( o primeiro a apontar tal analogia foi o crítico Oliveira Lima, o mesmo que compara o romance de Lima Barreto aos clássicos “O Mulato” e “Memórias de um Sargento de Milícias”, dentre outros).(15) ‘Quixote’ no sentido de vivenciar uma ‘idéia’. Relembramos um conto, em “Marginália”, onde um gênio incompreendido é vítima de seu excesso de idéias, algumas até boas, outras, nem tanto. “Ele e suas idéias” é um conto que resume, de certo modo, o enredo de “Policarpo Quaresma” – ampliado, no romance, pelos projetos de “reforma”.

O Brasil, o “país dos Bruzundangas”, como vemos em metáfora, mais conhecido (e explorado) por europeus, os primeiros exploradores, que descrevem a terra e suas exuberâncias, os franceses e os alemães, vide Léry ou Saint-Hilaire, ou Hans Staden, Humboldt, Handelmann, von Martius, M. Zu Wied-Neuwied, von Eschwege, den Stein, dentre outros. (16) Uma terra para os outros, nunca valorizada pelos próprios ‘brazucas’, que se deixam fascinar pelas ruínas de Roma ou pelos jardins parisienses.

Que Brasil é este? O “real” ou o do Major Quaresma? Que país queremos? O país da cartografia alemã ou dos clássicos que enfeitam a estante do nacionalista-falante-de-tupi-guarani Major Quaresma? O que pretende o nacionalista internado como louco? Sua reforma pela cultura, pela agricultura, pela política, é mero devaneio? É construto insano de um outro “Quixote”?

Em “Triste Fim de Policarpo Quaresma” é o indivíduo que pensa coletivo que sofre o peso da ignorância coletiva. Um povo guiado por corruptos, por preguiçosos (‘macunaímas’ antes do “Macunaíma” de Mário de Andrade, publicado uma década depois), por traidores-da-pátria. Militares sem escrúpulos, sedentos de poder, ou políticos que só pensam em suas carreiras sem contato com o povo, exceto em época de campanha eleitoral; funcionários públicos que cinicamente desempenham seus papéis de ‘paus mandados’. Jornalistas que fingem ler e fingem escrever, mantendo suas rações diárias de mentiras e falsificações. Eis o elenco deste triste romance. Nomeio de todos, hostilizado por todos, o Major Quaresma.

Qual o pecado do nacionalista Quaresma? (Certamente não é o de ser precursor de um Plínio Salgado, líder do movimento integralista, com ideologia pro-fascista.) (17) Será então a sua preocupação, a sua dedicação? A sua procura pelas “raízes do Brasil” (como também se dedicou um Sérgio Buarque de Hollanda)? (18) O seu excêntrico “requerimento” em vista da mediocridade do funcionalismo? Sua reforma agrária a partir do seu quintal? O que mais irritou Floriano, o Marechal-de-Ferro: a coragem de Quaresma ou a sua denúncia dos abusos do poder? (19)

Sempre Policarpo Quaresma é o excêntico. Só tem a admiração de sua afilhada Olga (que é nome de revolucionária, como registrará a História !), (20) uma jovem de pensamento e ação, que sabe como funciona o ‘teatro’ e tenta, em vão, abrir os olhos do padrinho idealista. Todos os demais, ao redor, têm é pena ou inveja do eficiente funcionário. Os demais ‘patriotas’ são caricaturas, aqueles pseudo-militares, aqueles senhores das letras que cortam e osturam frases para serem ‘clássicos’. É tudo uma falsificação – e o Quaresma vem como autêntico “realista”! pois o problema dos Brasil não é apenas as formigas saúvas, (21) mas os porcos gorduchos que se alimentam dos recursos da ‘máquina estatal’, movidos por suas ambições – e nunca por ‘interesse coletivo’. (22) Tudo isso já sabemos, leiamos ou não os jornais, atentemos ou não aos noticiários televisivos, sai governo e entra governo e não há mudança – é um problema estrutural e institucional, nascido do personalismo, do fisiocracismo, do coronelismo, da falta de ética, da falta de pensamento coletivo, de um plano de “Nação”.

O que é Nação ou nacionalismo além de uma ‘idéia’? afinal, “Estado” é estabelecido e delimitado por um “ordenamento jurídico”, uma Constituição, Lex Maxima, e possui um território e uma organização das forças de segurança. Mas uma ‘nação’, o que será? Uma etnia, um idioma, um sentimento de ‘pertença’? Deixamos o problema aos antropólogos, etnólogos, sociólogos. Descrevemos a ‘atmosfera temática’ do romance. Será que nosso nacionalismo nasceu com a Inconfidência Mineira? Ou com a Independência por capricho do Príncipe? Ou com as revoltas provinciais? Ou com a Guerra do Paraguai (a maior guerra da América Latina)? Por que somos um país ‘inteiro’ e não uma ‘colcha de retalhos’ como aconteceu com a América hispânica? Por que o tabu constitucional da “indivisibilidade territorial” e da “indissolubiliade da Federação”? (23)

O objetivo do presente Ensaio não é repassar os pontos e cenas do enredo, que seria tema para uma crítica literária, e um tanto exaustiva aqui. Este ensaio visa situar a obra de Lima Barreto na Literatura Brasileira. Estamos a analisar e repensar os temas de sua obra – a solidão, o preconceito, o nacionalismo-idealista, a burocracia labiríntica, o jornalismo mascarado. Assuntos e figuras que já encontramos na literatura européia (particularmente a francesa e a russa), desde Balzac, ou Maupassant, ou Zola, ou num lusitano Eça de Queirós. (24)

Desde o escrivão Pero Vaz de Caminha (25) estamos encantados com a exuberância da terra. O “onde se plantando tudo dá”, embasbacados, enquanto outros cuidam em extrair as preciosidades. As políticas de extrativismo se chocam com as políticas de preservação ambiental, as políticas de reservas indígenas se chocam com as políticas de reforma agrária. Nunca um projeto é levado até o fim, cada governo que sobe ao poder, desfaz os projetos e ações do anterior.


Para melhor apresentar sua crítica, o escritor Lima Barreto usa e abusa da ironia, das personagens caricaturais, que causou ‘mal-estar’ na época, e crítica nos meios literários. Acusam que o Autor não descreve ‘psicologicamente’ as personagens, como esperam os leitores acostumados com um Dostoiévski. (26) Na verdade, Lima Barreto deixa que o leitor ‘monte’ a personagem, nas próprias vicissitudes da narrativa. Deixa ao leitor a tarefa de apreeender os detalhes – as personagens que merecem nossa atenção. Lima Barreto não é um “anarquista individualista” somente por ter intitulado seus romances com os nomes dos protagonistas (Isaías Caminha, Gonzaga de Sá, Policarpo Quaresma, Clara dos Anjos, Numa – assim também um Machado de Assis, com Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Helena), e muito menos um autor de “coletivistas” (era um socialista, mas duvido que tivesse, se sobrevivido, elogiado a literatura do “realismo soviético”), uma vez que sua preocupação é o choque entre a “idéia” e a “realidade” (sem ‘platonismo’ aqui, pois o choque se realiza a nível de “matéria”, num materialismo cru, não apenas na linguagem). (27)

Assim é que concebeu “Clara dos Anjos”, numa ampliação do conto publicado em “Histórias e Sonhos” (1920), onde a protagonista é apagada, se comparada com o ‘algoz’, o ‘antagonista’, o sedutor, que está apenas um degrau acima na “escada social”, com arrogancias de descendente de aristocratas decadentes. A mulatinha cai submissa aos encantos do músico, rapaz de assaz irresponsabilidade, e ela acaba por pagar o preço, descobre a sua ‘infeioridade social’, o preconceito de ‘cor’ – “Não somos nada nesta vida”. Lembramos, a propósito, que desdeo início de “Escrivão Isaías Caminha” encontramos referências às condições das moças mulatas. (Hoje elas são ‘estrelas’ na passarela de Carnaval...)

Clara dos Anjos é ‘apagada’ ? na verdade, Clara dos Anjos está à margem e lá permanece. Sofre as ações e se resigna. Está distante de qualquer poder ou decisão. Até o seu corpo pertence a outro. A condição da mulher, ignorante e indecisa, a menos que aprenda a ‘jogar o jogo’. E sempre aprende tarde demais – quando já perdeu. E Clara dos Anjos perde tudo – até a sua dignidade, ao implorar a consideração da mãe do rapaz sedutor.

Contrariando os críticos que encontram na obra de Lima Barreto apenas “caricaturas”, encontramos neste romance “Clara dos Anjos”, o poeta Leonardo Flores. Um descontente, um frustrado, mas preocupado com o coletivo,com algo além dele mesmo. Sua frustração nasce de não ser reconhecido ou de “jogar pérola aos porcos” – omo fazem muitos poetas que passam a se ‘prostituir’, escrevendo para jornais, recebendo para tecer elogios a alguma efeméride política. Resignado a viver ali nos subúrbios, na periferia d vida social, sem fama e lauréis, o poeta Flores desabafa: “O subúrbio é o refúgio dos infelizes”, quando uma pluralidade de vidas decadentes se unem num mosaico de indignidades e humilhações. Distantes dos centros de poder, afastados dos ambientes de cultura. Criam suas próprias ‘esferas de influências’, cultivam suas culturas populares, marginais (de à margem).

O poeta Leonardo Flores pode certamente conter um ‘traço autobiográfico’ do autor Lima Barreto. Ainda o ‘gênio incompreendido”, o ser afastado do convívio e que cai (literalmente) nas sarjetas do vício, embriagado de talento e álcool. Outra personagem que elabora planos sensacionais e deixa-se perder na mediocridade. Outro que ousou um “salto maior dos que as pernas”.

Essa queda na “degenerescência”, a vertigem do vício, a auto-destruição do homem de talento, é a pesquisa do Dr. Caruru, no conto “As Teorias do Doutor Caruru”, presente em “Marginália”, onde o referido doutor pouco deve a um Simão Bacamarte de “O Alienista” de Machado de Assis. O Dr. Caruru quer encontrar sinais de ‘degenerescência’ no aspecto físico dos ‘degenerados’, analisando vivos e mortos, atrás de provas para a sua teoria.

A crítica de Lima Barreto não é contra a Ciência, mas contra a pseudo-ciência, o cientifismo já reinante, a “Razão Instrumental” (como entendemos pela análise de Adorno e Horkheimer), (28) que tudo condiciona ao crivo do “método científico”. Assim a crítica do Autor aos pseudo-literatos, não contra a Literatura, única possível ‘devoção’ do escritor, que esperva que sua escrita pudesse despertar debates e projetos de mudança. (No mais, por que escreve um autor? Por vaidade? Para entulhar as gavetas com idéias materalizadas em papel?)


Lima Barreto acreditava piamente, digamos, na escrita e ono ofício do escritor, qundo diz, “O romancista é de alguma forma um descobridor e melhor tratado de estética é ainda o Discursos do Método, de Descartes” (29) assim, a Estética se elabora na própria “estética” usada, não numa ‘forma’ platônica. Explica-se a não preoupação formal do Autor, que espera antes a compreensão do que ‘floreamentos estilísticos’. Ser compreendido é o que ele espera pelo didatismo que se nota. Uma necessiade de informar, e ‘sacudir’ o leitor, jogando com desassossego e com o humor, mostrando a ignorância e o vício como indignidades patéticas.


Enquanto outros autores, como Manuel Antônio de Almeida, de “Memórias de um Sargento de Milícias”, a incomodar pelo anti-romântico do protagonista ‘peralta’, um verdadeiro ‘pícaro’ brasileiro, ao estilo de Lazarillo de Tormes (30); ou Aluísio Azevedo, autor de “O Mulato” e “O Cortiço”, vem retratar coletivos, através de suas partes (indivíduos) caracterísitticas; a escrita de Lima Barreto procura se equilibrar entre a ironia e a compaixão, quando em algum momento o leitor se indigna junto com Isaías, sofre junto com Policarpo, ou se permite sentir piedade por Clara. Se as personagens representam ‘coletivos’, também são indivíduos “humanos, demasiadamente humanos” (no dizer de Nietzsche.) (31)



Um conto onde é patente essa necesidade de ‘comover’, onde o ‘excêntrico’ busca compreensão, é encontrado em “Histórias e Sonhos”, com o exdrúxulo título “Dentes Negros e Cabelos Azuis”, onde o protagonista é de súbito assaltado nas sombras da noite, mas deixa o assaltante estarrecido, quando o larápio nota o aspecto ‘esquisito’ da vítima, com dentes enegrecidos e cabelos azulados. Pessoa, assim, que é desprezada por seu aspecto físico, a sentir-se hostilizado pelo ‘mundo’ ao redor. Logo, o assaltante está apiedado do sofrimento do estranho protagonista.

Os diferentes, os excêntricos, os loucos fazem parte da longa galeria de personagens do autor Lima Barreto, que sempre acreditouque os ‘deslocados’, os ‘malucos’, eram os ‘criativos’ por excelência, que inquietavam o mundo a ponto de provocar mudanças. “Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo”, diz o autor no curto texto “Elogio da Morte”, presente em “Marginália”, onde escreve que é a morte quem nos ‘consagra’, sendo a ‘grande libertadora’, elevando o artista depois de sua morte, “autor bom é autor morto”, diríamos hoje, e finaliza o texto com ironia, em citação machadiana, “Ao vencedor, as batatas!” (32)

O romance “Clara dos Anjos” foi publicado em 1948, a partir de notações e esboços do Autor – é, portnto, obra incompleta. Em seu “Diário Íntimo”, publicado em 1953, encontra-se várias notas sobre oenredo do romance planejado, com um painel da vida marginalizada da população negra, como se vê em trecho do “Diário”, de dezembro de 1904, “A sedução de Clara passara-se no dia 13 de maio.”, uma vez que a Lei Áurea nada mudou quanto a presença do preconceito (a lembrar-se que Lima Barreto nasceu num 13 de maio, sete anos antes da “Lei da Abolição”.)

Sua labuta com a escrita se percebe no “Diário” quando de seus esboços, detalhes de enredos, construção das personagens, a constar datas de nascimento, filiações, carcterísticas físicas e de personalidade. Vê-se bem que Lima Barreto não teve equilíbiro – nem tempo – para melhor elaborar e finalizar suas obras. Sempre escrevia uma, com um pensmento já direcionado a outra, pois idéias não faltam ao Autor (vide o conto “Ele e suas idéias”, onde um homem muito produtivo em idéias, torna-se incômodo.)

Assim, em fevereiro de 1905, Lima Barreto está escrevendo um livro – o “Clara dos Anjos” – e finalizando (também a revisão) de “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, cujo prefácio foi escrito em julho de 1905, com escrita concluída em 1908, finalmente publicado em 1909. Trabalha com esboços para o seu “Gonzaga de Sá”, desde abril de 1906, o distinto “oficial da Secretaria dos Cultos”, o grande reformador, preocupado com a imagem do Brasil, que perde em ‘glamour’ para as belezas civilizadas européias. Encontramos essa ansia de reforma num escrito avulso do Gonzaga, onde espera que se o Rio de jneiro quier ser “grande cidade”, ao estilo europeu, de “arrasar as montanhas” – e aterrar a Baía de Gunabara! E para ser metrópole respeitável, “deve ficar à margem de um rio respeitável” – um Rio Paraíba até que serviria, “para preencher um fim tão civilizador.”

Com o pensamento em “Gonzaga de Sá”, Lima Barreto conclui “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” em 1909, e desabafa, no “Diário”, “obedecer o meu Taine: a obra de arte tem por fim dizer o que os simples fatos não dizem.”, quando seu obejtivo não é apens ‘retratar’, ccomo pretendem os naturalistas, mas incomodar, ‘fazer pensar’, ao apresentar ao leitor cenas risíveis, que deixam uma pausa para meditar sobre o ridículo e o ‘absurdo’.

O romance “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá” foi concluído em 1907 e 1910, e finalmente publicado em São Paulo, em fevereiro de 1919. contudo, não gerou a polêmica de um “Escrivão Isaías Caminha”, cuja presença foi sufocada pela Imprensa, a primeira a sentir-se agredida. Assim, os militares quando perceberam o “Policarpo Quaresma”, onde os homens de farda receberam um ‘tratamento irônico’ (asssim aquele Almirante que, enviado para a Guerra do Paraguai, foi procurar seu navio no Rio Amazaonas!). Não conseguido falar nas entrelinhas, como bem sabia um Machado de Asis, o ressentido Lima Barreto foi colecionando inimizades, inutilmente, quando o que mais precisava era de admiradores e seguidores. Afinal, seu discurso não é egocêntrico, mas coletivo, ele não espera a fama, mas a compreensão.


Hoje, encontramos romancistas que acabam optando pelo ‘choque’ do que pela ‘simpatia’. Apresentam a denúncia que descortina cenários que muitos preferem ignorar, ou até ocultar. Se Lima Barreto hoje tem ‘seguidores’ é na literatura que apresenta a “vida como ela é”, não exatamente um Nelson Rodrigues, no teatro, ou Rubem Fonseca, na prosa, mas a literatura que trata das condições dos marginalizados, que sofrem toda espécie de exclusão, na senzala da periferia e das favelas. Assim um aclamado “Cidade de Deus”, de Paulo Lins, ou um polêmico “Cabeça de Porco”, de MV Bill e colaboradores, que trazem para os meios literários as discussões sobre preconceito, exclusão social, narcotráfico, seguranças pública, todo um drama de violência, estrutural e cíclica, que atordoa atualmente o Brasil, antes cognominado “O país do futuro”. (33)


set/10
revs. Mai/11






Notas e Referências

(1) Lima Barreto ‘leitor de Aluísio Azevedo’. Certos críticos ressaltam este ponto, em flagrante caso de “angústia de influencia” (“anxiety of influence”, segundo o scholar Harold Bloom). Contudo, outros notam que na biblioteca de Lima Barreto não haviam livros de Aluísio Azevedo. E encontraram volumes de Machado de Assis, autor que Lima Barreto não perdia ocasião para criticar.

(2) Émile Zola, autor francês, fim do século 19, é aqui citado por várias referências do próprio Lima Barreto, atento aos panoramas literários cosmopolitas.

(3) A dicotomia “forma” e “conteúdo” continua. Encontramos autores com estilísitcas, mas sem algo a dizer. E autores panfletários, imaginativos, senhores de um enredo inusitado, mas não dominam o estilo, deslizam na gramática, etc.

(4) Edgar Allan Poe é lembrado quando se faz referência à ‘literatura de fantasia’. Uma vez que Poe aproveita fatos cotidianos para encher de ‘terror’ os leitores. Depois a literatura conhecerá um Kafka, um Borges, um Cortázar, um García Márquez, mestres do “realismo fantástico”. Além disso, Poe sofria da mesma obsessão alcóolica, e se auto-destruiu.

(5) Hypolite Taine é um pensador francês que defendia que o indivíduo está determinado por sua raça, condição social, época histórica. E dessa determinação não pode fugir. No século 20, contra tal ‘fatalismo’, Jean-Paul Sartre fala em ‘pré-determinismo’, mas que ‘em situação’ o indivíduo é livre, para fazer algo além do que as condições fizeram dele.

(6) A literatura de transição Monarquia para estruturação da República é muito farta em referências. Basta ver “Esaú e Jacó” de Machado de Assis. O pano de fundo histórico é realçado, as personagens estão mergulhadas nas turbulências da época. E Lima Barreto escreve, não exatamente romances históricos, mas enredos que se referem constantemente aos acontecimentos históricos. O declínio da Monarquia, a Guerra do Paraguai, a Abolição da Escravatura, a república dos marechais, a Revolta da Armada, A revolta da vacina, a política do café-com-leite, a Primeira Guerra Mundial.

(7) As referências á Camões, Baudelaire e Walter Benjamin, podem ser ressaltadas, ou descartadas. É o fenômeno da leitura, quando se pode fazer ‘links’ à outras leituras. A solidão no meio das multidão é encontrada na pena de numerosos autores. Contudo a figura solitária do poeta Baudelaire é ícone. E W. Benjamin confirma. O ‘flâneur’ observa, em suas andanças, um mundo no qual se sente deslocado. É um mundo digno de pena e ironia, um mundo-outro.

(8) Arquimedes é aquele pensador e técnico grego que construiu aparelhos de guerra para quem pagasse mais. E descobriu um princípio sobre flutuação dos corpos. Também mencionou o caso da alavanca, que se lhe dessem uma descomunal alavanca, e um ponto de apoio, ele poderia deslocar o planeta!

(9) A expressão “quarto poder” é aplicada a Imprensa, à Mídia em geral, como a demonstrar o poder da influência sobre os demais poderes, constitucionalmente estabelecidos, por inspiração de Montesquieu. Lembramos logo de “Citizen Kane”, de Orson Welles, filme emblemático. E no mais, temos o caso Watergate, que levou Nixon à renúncia. Tudo começou com uma denúncia de dois jornalistas. A “espada de Dâmocles” é uma referência à mitologia grega, como demonstração do risco iminente, a ameaça da Imprensa, no caso. Quanto às menções clássicas ao poder jornalístico, temos um Balzac, que conhcia muito bem o s bastidores das notícias, a sociedade parisiense e provinciana do século 19.

(10) “Túnica de Nessus” é outra expressão tirada da mitologia grega, por impulso do próprio Lima Barreto. Trata-se da túnica que o centauro Nessus ofertou a Dejanira, esposa de Hércules. Temendo ser traída, ela vestiu a túnica no herói e este morreu dolorosamente. É um metáfora para o presente perigoso, que parece trazer o bem, mas traz uma oculta desgraça.

(11) Referência a expressão “homo ludens” , do livro homônimo, lançado em 1938, pelo filósofo holandês Johan Huizinga (1872-1945), onde argumenta que todas as atividades humanas podem ser vistas como um ‘jogo’, ‘sub specie ludi’ (tipo um jogo)

(12) O nome do protagonista, Numa Pompílio, evoca algo da pompa e grandiosidade da política romana no apogeu. Nem se precisa descrever vidas e feitos de senadores e generais romanos para saber o que representa o “poder”.

(13) A crítica à burocracia encontra sua figura clássica em Kafka, o autor dos labirínticos “O Processo” e “O Castelo”, onde o terror implícito é a máquina burocrática que está em todos os cantos e recantos da existência. Submetido, classificado, catalogado, numerado, vigiado, o cidadão nasce e cresce, e reproduz o fenômeno da catalogação, numeração, submissão, etc. E o escritor russo Gógol, autor de “Taras Bulba” (de ares mais históricos e épicos) escreveu o célebre conto, “O Capote”, onde já antevemos algo de Kafka. As condições que tiram do homem a sua almejada liberdade.

(14) As referências à (Jonathan) Swift e à (Laurence) Sterne, escritores ingleses de fins do século 18, autores de “Viagens de Gulliver”, e “A Vida e Opinião de Trsitam Shandy”, respectivamente, se explicam pelas iniciativas dos próprios críticos (favoráveis ou não) ao clássico Machado de Assis, quando o acusam de “angústia de influência” com relação aos autores citados. Esquecem a amplitude das leituras de Machado de Assis, que conhecia bem os franceses, só para citar, Montaigne, Pascal e La Fontaine.

(15) Os clássicos citados, no âmbito da Literatura Brasileira do século 19, tem por autores, respectivamente, Aluísio Azevedo e Manuel Antônio de Almeida (que usava o pseudônimo de “Um Brasileiro”). No mais, lembramos que Almeida foi o ‘patrão’ do aprendiz de tipógrafo Machado de Assis, na Tipografia Nacional, em meados do século 19.

(16) Os autores franceses e alemães citados compõem um panorama amplo da etnografia, da cartografia analítica e da geografia ‘antropológica’ dos séculos 16 ao 19, com suas viagens de exploração e minuciosas descrições de regiões, ambientes e populações.

(17) A referência ao escritor e líder político Plínio Salgado aqui se explica pela ousadia de sua escrita e sua ânsia de mudança, quando procura conciliar catolicismo e fascismo, disciplina e patriotismo, com uniformes, ícones, emblemas, rituais e saudações – o famoso “Anauê”, advindo tupi-guarani(!) Traz, ou não, evocações de um Major Quaresma? (É de se perguntar se Plínio Salgado leu o romance de Lima Barreto).

(18) “Raízes do Brasil”, publicado em 1936, é um clássico da historiografia nacional, com a autoria do erudito Sérgio Buarque de Holanda, autor de outra obra fundamental, “Visão do Paraíso” (1959). Contudo, hoje em dia, é lembrado apenas como sendo o pai do músico (e também escritor) Chico Buarque.

(19) Floriano Peixoto, o “Marechal-de-Ferro”, que consolidou a República, é uma das personalidades históricas que adentram o universo dos romances de Lima Barreto. Demonstra a importância que o Autor concedia ao ‘contexto’ social da época.

(20) Referência a Olga Benario Prestes que, tal uma Anita Garibaldi, foi “heroína de dois mundos”, atuando na Alemanha, contra os nazistas em ascensão, e aqui no Brasil, apoiando Carlos Prestes na Intentona Comunista de 1935. Com o fracasso da suposta ‘revolução comunista’, com a prisão dos responsáveis, Olga foi extraditada para a Alemanha, onde caiu nas masmorras da Gestapo, até morrer num campo de concentração.

(21) A famosa frase “ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil” é de quem? Do Lima ou do Mário de Andrade? Ou é fala popular?

(22) A referência aos porcos é uma alusão ao clássico “Animal Farm”, do autor inglês George Orwell, onde os porcos se ‘apropriam’ da ‘revolução dos animais’ (contra os humanos), tornando-se os novos ditadores. Crítica ao frustrante episódio soviético, com a ascensão de Stálin e dos burocratas do Partido. Também alusão à canção “Pigs on the Wind” da banda inglesa Pink Floyd, no álbum “Animals”, de 1977, inspirado no clássico de Orwell. Onde o “teatro social” é um imenso zoológico. Os porcos são os políticos; os cães, os que mantêm a ordem (as forças de segurança, os militares, os guardas); e as ovelhas, as massas submissas e manipuladas.

(23) O texto cita incisos da Constituição Federal de 1988, sobre a organização da Federação. Também enumera “marcos” da História brasileira, com revirvoltas e reacomodações sociais e políticas, a indagar em quais dos eventos o povo foi protagonista (aliás, em qual mesmo?)

(24) Autores franceses que demonstram as mesmas preocupações de Lima Barreto, isto é, a literatura deve ter uma mensagem, uma denúncia social, contudo sem cair no panfletário.

(25) Pero Vaz de Caminha, escrivão que relatou, em sua famosa Carta ao El-rei D. Manuel, de Portugal, a chegada da frota de Álvares de Cabral em praias brasileiras. Sua linguagem é pomposa e imagética, idealizada – igual a letra do futuro Hino Nacional - que mostra uma visão sempre desfocada do que seja a Nação, não ‘algo que é’ mas ‘algo a ser construído’.

(26) A referência ao autor russo (Fiódor) Dostoiévski se justifica pelo ‘contraponto’ a Lima Barreto, pois quando o russo analisa as personagens de ‘dentro para fora’, o brasileiro as descreve de ‘fora para dentro’.

(27) A referência aos títulos de Machado de Assis se justifica pelo paralelismo entre os autores, uma vez que nomes de personagens estão em contraponto com adjetivações e nomes de locais. Exemplificando, é diverso intitular como “O Mulato” (A. Azevedo) e “Helena” (M. de Assis), ou ainda “O Cortiço” ( A. Azevedo) e “Clara dos Anjos” (L. Barreto). A ênfase se faz do indivíduo para o coletivo, ou do coletivo para o indivíduo, como em qualquer análise sociológica. Afinal, é discussão inútil, pois toda ‘psicologia’ é ‘social’, o “eu” é um ‘produto’ coletivo, do meio - como sobrevive um indivíduo sem o apoio social?

(28) A referência à obra de Adorno e Horkheimer, “A Dialética do Esclarecimento”(“Die Dialetik der Aufklärung”, 1950) se justifica pela crítica aos ‘ideais iluministas’, com as promessas de uma ‘sociedade racional’, e realizaram apenas uma hegemonia da “Razão Instrumental”, que visa os fins, sem se importar com os meios.

(29) Lima Barreto era um declarado admirador do pensador francês René Descartes, que partia da dúvida para chegar a alguma certeza. Ou então, por usar um “método” que visa duvidar, até que se prove o contrário – “dúvida metodológica”.

(30) Referência ao ‘romance picaresco’ espanhol, séculos 16 e 17, inaugurado pelo clássico “Vida de Lazarillo de Tormes y de sus fortunas y adversidades” ou “El Lazarillo” (1554); autores possíveis (não se sabe ao certo): Diego Hurtado de Mendoza, Sebastian de Horozco (1510-80), Lope de Rueda (1505-65); obra com narrativa em 1ª. pessoa, cheia de alusões, digressões, diálogos jocosos, até obscenos, com um protagonista ‘pícaro’, isto é, um indivíduo maroto, ardiloso, cheio de manhas e em mil aventuras. Possível inspiração para o “Tristam Shandy” de Sterne, publicado em 1759, quando o ‘picaresco’ já era decadente na Espanha. Uma observação aqui é o título da obra de Lima Barreto, “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá” (1919) cujo título engana o leitor, pois a narrativa nada mais é do que a exposição das ideias de Gonzaga de Sá. De picarescos, no Brasil, temos um Pedro Malasartes e um Macunaíma, além do Viramundo, do romance “O Grande Mentecapto” de Fernando Sabino (em 3ª. ps), e os clássicos “Grande Sertão:Veredas”, de Guimarães Rosa e “O Coronel e o Lobisomem” de J Cândido de Carvalho (ambas em 1ª. ps.) , que se inspiraram no estilo. Ainda há outro escritor, no Brasil, que explorou técnicas do estilo – personagens excêntricos, marcantes, abusados - e foi Jorge Amado (ver).

(31)A referência ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche se justifica pel importância da “vontade” individual. O ser não é apenas ‘coletivo’ (senão ficaríamos em Marx e Comte), mas reage ao coletivo, e até ‘destaca-se’ do coletivo, para seu benefício ou decadência, punição, mas não é um ‘mero fantoche’. Por mais que esteja ‘condicionado’ ainda há um espaço de escolha e decisão. Sem isso, não seriam seres humanos, mas animais.

(32)A frase famosa, do enredo de “Quincas Borba”, ecoa nas páginas de Lima Barreto, como uma fina ironia a Machado de Assis, que comparado com Barreto, subiu na vida, isto é, conseguiu aprovação social, fundou uma Academia de Letras ao estilo francês, foi respeitado e frequentou a vida elegante na Capital.

(33)Está em voga e na mídia toda uma literatura que é formada nos subúrbios, e que trata da vida na periferia, ou em área de risco social (eufemismo para ‘favelas’, aglomerados sem urbanização), que são as ‘senzalas’ da modernidade. A abolição da escravatura não bastou para integrar o negro e afro-descendentes a vida social. Hoje, a Literatura do “ressentimento” continua borbulhando ao ritmo de um RAP com um mesma carga de racismo, apenas com carga e vetor invertidos. Quando o discurso de integração é fraco, o “sistema de cotas” é inútil, a rebelião do particularismo, do “espírito de gueto” faz-se presente – o que faz um garoto branco subindo o morro, uma menina loira dançando funk? Depende do olhar – e do preconceito.


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sábado, 7 de maio de 2011

Elogio do Aprender - Bertolt Brecht










Elogio do Aprender


Bertolt Brecht




Aprenda o mais simples! Pois
Para aqueles cuja hora chegou
Nunca é muito tarde !
Aprenda o ABC; não basta, mas
aprenda!Não desanime!
Comece já! É preciso saber tudo!
Você precisa assumir o comando!

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Aprenda, homem no asilo!
Aprenda, homem na prisão!
Aprenda, mulher na cozinha!
Aprenda, você idoso!
Você precisa assumir o comando!
Procure a escola, você sem-teto!
Adquira conhecimento, você no frio!
Você faminto, agarre o livro: é uma arma.
Você precisa assumir o comando.

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Não se seja tímido ao perguntar, colega!
Não se deixe convencer!
Veja com seus próprios olhos!
O que não sabe por conta própria,
não sabe.
Verifique a conta
É você quem vai pagar.
Ponha o dedo sobre cada item
Pergunte: o que é isso aqui?
Você precisa assumir o comando.



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Trad. LdeM



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Lob des Lernens


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Lerne das Einfachste ! Für die
Deren Zeit gekommen ist
Ist es nie zu spät!
Lerne das Abc, es genügt nicht, aber
Lerne es! Laß es dich nicht verdrießen !
Fang an! Du mußt alles wissen!
Du mußt die Führung übernehmen.

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Lerne, Mann im Asyl !
Lerne, Mann im Gefängnis!
Lerne, Frau in der Küche!
Lerne, Sechzigjährige!
Du mußt die Führung übernehmen.
Suche die Schule auf, Obdachloser !
Verschaffe dir Wissen, Frierender!
Hungriger, greif nach dem Buch: es ist eine Waffe.
Du mußt die Führung übernehmen.

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Scheue dich nicht zu fragen, Genosse !
Laß dir nichts einreden
Sieh selber nach!
Was du nicht selber weißt
Weißt du nicht.
Prüfe die Rechnung
Du mußt sie bezahlen.
Lege den Finger auf jeden Posten
Frage: Wie kommt er hierher?
Du mußt die Führung übernehmen.

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Bertolt Brecht




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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Os Poetas X A Poesia





Os Poetas X A Poesia

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O que é Poesia? Quem são os Poetas? Questões que incomodam os literatos e os acadêmicos. Alguns críticos – e muitos professores – defendem que é preciso saber sobre o/a Poeta – a vida do/a poeta, personalidade e eventos biográficos – para que se entenda um poema, ou outro texto.

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Para 'podermos ler' um poema é preciso saber em que idade o texto foi escrito, em que circunstâncias, sob qual teto, ou teto nenhum, se em liberdade ou na prisão, se ele ou ela foi abandonado/a pelo cônjuge ou amante, se foi pra guerra ou viveu sempre numa aldeia pacífica.

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Conhecer o Poeta, a Poeta para entender o texto? Para saber a 'intenção autoral'? Ter acesso a alguma suposta 'mensagem' que o Autor, a Autora pretendem transmitir?

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Ler um texto é ter acesso a alguma mensagem? Ou a partir do texto encontrar algo que atue diretamente sobre o leitor (ênfase na Recepção)? As emoções, o sentimento do/a Autor/a somente interessam a/o Leitor/a na medida da 'identificação'? Ou seja, encontramos no Outro (o Autor/a) o que percebemos em nós mesmos. Emocionar-se com um poema é perceber-se no mesmo universo afetivo-expressivo. A sensação que criou o poema é 're-vivida' no Ego de outro, o/a Leitor/a.

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O preocupar-se com a 'intenção autoral' significa pretender um acesso ao que 'passava pela mente' de quem escreveu. Significa que se pretende ler a biografia lado a lado com o texto. O que vivenciou aquele Autor para que ele escrevesse aquele texto? O que teria acontecido se na hora de completar aquela estrofe o telefone tivesse tocado? Ou começado a Terceira Guerra Mundial?

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O que o/a Autor/a vivenciou interessa a/o Leitor/a? O sofrimento alheio nos interessa? Até porque ambos – Autor e Leitor - são egocêntricos. Tanto quem escreve como quem lê. Quem escreve é um egocêntrico que exibe sensações, emoções, sentimentos, visões-de-mundo, e quem lê é um egocêntrico que deseja encontrar no texto lido algo que possa 'refletir' uma sensação vivida ou idealizada.

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O/a Autor/a só é importante para nós – os exigentes leitores - na medida em que diz algo PARA MIM, não para o meu amante ou para o meu vizinho. Claro que alguns autores parecem 'conversar' com meio mundo. São considerados 'universais', tais como um Shakespeare, um Whitman, um Kafka, um Fernando Pessoa. Mas estes são mais exceção do regra.

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Saber a vida do/a Autor/a para 'entender' a Obra? O que seria 'entender' a obra? Reproduzir mentalmente as condições de vida para tentar explicar porque o texto é assim e não diferente? Por que o poema tem duas e estrofes e não dez? De repente, o autor estava com pressa, ou o telefone tocou... Ora, tudo isso é impossível. E mesmo que fosse possível – saber TUDO sobre o Autor X, é inútil, e nem mesmo desejável. A 'intenção autoral' não interessa.

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Até porque o que vale mesmo é a Obra. O/a Autor pode até ser anônimo, apócrifo, etc, que a Obra brilha por si mesma – se possui algum valor INTRÍNSECO. Claro que toda Obra tem um Autor – a Obra não se cria sozinha – mas uma vez libertada pelo gesto de publicação – seja autorizada ou póstuma – a Obra alcança independência – até atingir a figura do Leitor, que poderá re-interpretá-la.

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A preocupação com a figura do Autor é uma das maiores perdas de tempo. Os autores não valem mais que as Obras – aliás, é o contrário. Pablo Neruda vale porque escreveu Cem Sonetos de Amor, e não a obra Cem Sonetos de Amor é importante porque foi escrito por um Pablo Neruda. Caso contrário, devo agora ler tudo o que o Sr. Pablo Neruda escreveu? Até os poemas sem qualidade? Meros frutos de horas de 'luta com as palavras', na autora da juventude... (Assim muita gente lê romances de Paulo Coelho porque... porque foi o Sr. Paulo Coelho quem escreveu! É o Autor que traz valor para o texto e não o contrário! Mas aí é questão de Mídia, não de qualidade literária.)

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Digamos que dedicamos tempo a ler dois ou três romances do Sr. Nobel José Saramago. Três títulos que merecem ser lidos e relidos - “Ensaio sobre a Cegueira”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis” e “Todos os Nomes”, no caso – o que não significa que todos os romances escritos pelo Autor mereça atenção. Aliás, lê-se o 'Autor' - “ah, eu leio porque é do Saramago!” - e não pela qualidade da Obra! Ora, nenhum outro romance do citado Autor tem as qualidades das obras cujos títulos foram citados. (Nem vamos aqui estabelecer qualquer 'ranking' de qualidade...)

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Pois bem. Conhecer a Obra – se esta vale em termos de qualidades - é se deliciar com a genialidade humana, com a capacidade de superar o cotidiano, o mesquinho dia-a-dia funcional e de criar algo que mereça ser 'canonizado'. É o respeito que sentimos diante de um “Hamlet” ou um “Os Miseráveis”. O que não significa que teremos acesso ao que intencionava o Mr. William Shakespeare ou o Monsieur Victor Hugo.

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Aliás, não queremos conhecer nem Shakespeare nem Victor Hugo, queremos conhecer “Hamlet” e “Os Miseráveis”. Até porque conhecer os autores pode ser uma fonte de, digamos, decepção.

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Sim, decepção. Posso adorar Poesia, posso idolatrar uma Obra Literária. Mas significa que adorarei o Autor? Que minha idolatria se estenderá até a Figura Autoral? Pelo contrário. Tem uma década que convivo com Autores – e sinceramente prefiro os Livros. Conhecer os Autores é até pensar novamente se a Obra saiu mesmo daquela 'fonte'. Será algum mal-entendido? Esta pessoa escreveu aquele livro?

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Aliás, quem são os Poetas? Seres mágicos, sublimes, etéreos? Visionários? Profetas das 'Palavras Aladas'? Vates eternos? Bardos da Realidade Excelsa? Imagens humanizadas da Palavra? Seria maravilhoso se assim fosse! Temos estas ideias sobre os Poetas por um processo de Idealização. Idealizamos demais e por isso sofremos.

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Os poemas – que transmitem Poesia – são belos, são admiráveis. E achamos que os Poetas assim também o são. Ledo engano.

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Queremos ser Poetas – daí idolatramos os demais Poetas. Até conhecê-los. Quem são os Poetas?, repetimos. Pessoas comuns. Funcionários públicos, artistas, músicos, profissionais liberais. Donas de casa, secretárias, donas de salão de beleza. Promotores de eventos artísticos, políticos, donos de editoras. Professores, burocratas, desempregados. A 'imagem de Poeta' é uma mera fantasia. Nem louco nem engravatado, nem lunático nem acomodado. Nem revolucionário, nem hóspede de uma torre-de-marfim. Qualquer imagem de Poeta é abstração, é delírio nosso.

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O Poeta, a poeta pode ser o nosso vizinho, pode ser aquele senhor bebendo chope no bar da esquina, pode ser a dona lavando a janela, pode ser o cara discutindo com o cobrador. Pessoas comuns que vivem vidas comuns – com raríssimas exceções que apenas confirmam a regra. Os poetas não merecem qualquer admiração – só porque são poetas. Merecem nosso respeito por serem cidadãos. Admirados por sobreviverem num dado sistema social, mais livre ou mais opressor. Por sobreviverem. Apenas.

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Idealizar o/a Poeta é que tem criado esta febre de pesquisa biográfica. Quantas são as noivas de Poe ou de Kafka? Quantos os amantes do Piva? Quantas são as putas do Bukowski? Quais as ligações políticas de Pound ou de Brecht? Qual o nome da amante de Elizabeth Bishop? Ora! Enquanto nos preocupamos com isso deixamos de LER as Obras! O mais importante fica de lado: paramos de ler “Ulisses” para ir dar uma espiadinha na alcova de James Joyce!

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Nenhum poeta e nenhuma poeta é admirável em si-mesmo/a – mas é admirável em relação a Obra. Como aquele ser cotidiano conseguiu escrever algo com semelhante profundidade e clareza afetiva-filosófica? Mesmo que não pratique nada daquilo na vida diária! Mesmo que externamente seja um qualquer que transita pelas ruas a solicitar um cigarro, ou um minuto de atenção.

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Nenhum deles é modelo de caráter – um modelo a ser seguido. Um era bêbado, outro era esquizofrênico, uma outra era suicida. Um era pederasta, o outro era satanista, uma outra era viciada em morfina. Um virou traficante de armas, outra traiu o marido, um outro traiu os companheiros políticos. Um era antipatriota, outra era marginal, um outro era alienado. Outros pretendem ter 'voz coletiva', outros somente falam do próprio umbigo. Nenhum se salva. Um por ser idealista demais, outro por ser materialista demais, um outro por ser egocêntrico demais.

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Não precisamos citar nomes. Todos sabem de quem aqui falamos. Aliás, sabemos MAIS sobre os Autores do que sobre as obras. Sabemos os nomes das amantes de Baudelaire, mas não sabemos decorado sequer um soneto do simbolista francês. Sabemos tudo sobre a opção política de Knut Hamsun, mas quantos de nós lemos “Fome”? Ou seja, o Autor é celebridade, a Obra fica na estante.

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E ainda querem que percamos o nosso valiosíssimo tempo para ler biografia de escritores, poetas, literatos? O máximo que podemos ler em termos de biografias são aquelas de políticos, pois estes não têm obras escritas – com algumas exceções, claro – mas uma 'vida política'. Daí se justificar que tenhamos dedicado tempo valioso para ler as biografias de Robespierre, Napoleão, Bismarck, Lênin, Mussolini, Hitler, Stálin, De Gaulle, Churchill, Roosevelt, Eisenhower, Tojo, dentre outros, e nunca lido totalmente qualquer biografia de escritor, poeta, literato. Temos mais o que fazer.

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Aviso aos navegantes: ESTE não é um texto acadêmico. É livre-expressão de um Literato-estudante-funcionário-público.

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por Leonardo de Magalhaens




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Mais info sobre Intencionalidade Autoral

e Estética da Recepção em





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domingo, 3 de abril de 2011

EU NÃO (LdeM)




EU NÃO
Eu não dirigi bêbado Eu não tenho um cabelo tipo moicano Eu não tenho um esqueleto no armário Eu não joguei meus bens na roleta Eu não queimei dinheiro Eu não atravessei à nado o Canal da Mancha Eu não sobrevoei os Alpes com um balão Eu não matei John Kennedy Eu não implodi o World Trade Center Eu não sequestrei o avião no Oriente Médio Eu não financiei o Mensalão Eu não tatuei uma folha de maconha Eu não votei no Bush Eu não atirei no Papa Eu não joguei na Bolsa Eu não pulei do Ed. Joelma Eu não matei meu pais nem fui ao cinema Eu não tive uma crise de nervos em pleno voo Eu não fiz tatuagem de dragão Eu não furei o nariz com piercing Eu não enfiei uma rodela nos lábios Eu não me deixei marcar com ferro-em-brasa Eu não tenho um exército de mercenários Eu sequer tenho piercing na língua Eu não me endividei Eu não abusei do crédito Eu não engravidei a vizinha adolescente Eu não quebrei guitarra no palco Eu não pulei de paraquedas Eu não escalei o Aconcágua Eu não nocauteei o peso-pesado Eu não dinamitei a Ilha de Manhattan Eu não torrei o cheque-especial Eu não comprei o carro do ano Eu não tenho o celular da moda Eu não assinei a revista de fofocas Eu não tenho guarda-costas Eu não deixei a lâmpada acesa Eu não joguei latinha na rua Eu não fumo nem injeto Eu não brinquei de roleta-russa Eu não criei slogans de propaganda Eu não lancei minha candidatura Eu não uso lentes de contato multicores Eu não uso casaco de general Eu não uso botina de soldado raso Eu não tenho parentes importantes nem padrinhos políticos Eu não coleciono figurinhas dos craques de futebol Eu não divulgo minhas fotos no facebook Eu não estaciono em fila dupla Eu não emprestei meu cartão de crédito Eu não aceitei propina do empresário Eu não falsifiquei a assinatura do deputado Eu não apertei a mão do traficante Eu não troquei sorrisos com o presidente Eu não entrevistei o candidato Obama Eu não entrevistei o terrorista Osama Eu não plagiei as místicas de Paulo Coelho Eu não me casei com a Bruna Surfistinha Eu sei que há doido pra tudo mas no fim o maluco sou eu


mar/11 Leonardo de Magalhaens http://leoliteraturaescrita.blogspot.com . .

terça-feira, 15 de março de 2011

sobre 'NÓS e outros poemas' - de Rodrigo Starling




Sobre “NÓS e outros poemas” (BH, 2010)
do autor Rodrigo Starling


A Arte enquanto tessitura de influências


A Crítica


O Papel da Crítica diante da Obra é sempre de nortear o leitor, nunca explicar. Aliás, Crítica de Poesia é sempre a mais complexa. Pois não se explica Poesia – vivencia-se a Poesia, escreve-se e declama-se, em suma, sentir é a 'estrada de ladrilhos amarelos' rumo à Poética.

Quais o contexto de época, quais as influências do Autor, quais as companhias e interlocutores, qual a recepção dos leitores, quais são os autores influenciados pela Obra. Estas são as questões que interessam à Crítica, além dos aspectos estéticos em-si. Estética que é comparada com outros parâmetros estéticos, nada mais.

Na verdade, o julgamento da Crítica nunca deveria cair sobre o Autor, mas sobre a Obra. O Autor está além da Obra – é um ser psico-social-histórico inalcançável – e a Obra está além do Autor – após a publicação a Obra tem 'vida própria', será interpretada, sera 'digerida' pelo públioco de leitores.

Trata-se de um metonímia distorcida quando se imagina a Crítica da Obra visando o Autor, assim como quando dizemos “Eu leio Machado de Assis”, o que é obviamente uma 'figura de linguagem', pois como é possível que eu 'leia' a pessoa Machado de Assis?

Certamente que Machado de Assis não passa de uma outra 'persona textual', o Narrador, por exemplo. A pessoa Machado de Assis é totalmente inacessível – por mais que os biógrafos se cansem em mil esforços. (Mesmo ler uma biografia de um Autor é um exercício de 'acesso à obra'; podemos ler a biografia de James Joyce para tentar entender “Ulisses”, por exemplo. E nada mais.)

Mas há duas características autorais que podem ser apontadas a partir da Obra: o estilo e o talento. Em que dimensão o estilo é uma marca pessoal, é inconfundível, e o quanto este estilo é reflexo do talento, e se pode ser ainda melhorado pelo talento. Existem autores que se superam – sabem exercitar o talento a ponto de renovarem o estilo. Outros tornam-se reféns do estilo. A maioria sequer forma um estilo.

O que julga 'estilo' nem chega a tanto: é digestão de influências. Aqui no sentido dado por Harold Bloom em “Angústia da Influência”, como um 'bastão olímpico' que um artista passa ao outro. Alguns repassam o bastão assim como receberam, outros o embelezam ainda mais.


O Poeta e suas influências

Já tratamos em ensaio anterior (ver o artigo sobre “Confessório Ardente”, do mesmo Autor) o quanto as novas gerações dependem das anteriores, seja na sociedade, seja na cultura (ou Arte mais especificamente). Gerações vem e vão, e deixam marcas que outras gerações usam, abusam, rejeitam, reformulam, denigrem, em suma, dificilmente se cria o 'novo' a partir do 'nada' – tudo se transforma, já dizia Lavoisier, o grande cientista.

Coom raríssimas exceções, temos sempre um Autor em referência a outro. Mesmo gênios tais como Proust, Joyce e Kafka subiram no ombro de alguém, por mais obscuros e anônimos que tenham sido. (O quanto Proust deve a Amiel? Quem?! O quanto Kafka deve a Walser? Quem?!!) Pois bem, a influência não é algo 'negativo' – a 'cópia' é certamente – mas algo inerente, e precisa ser aceito e superado.

Assim temos a obra, a mais recente do poeta e filósofo Rodrigo Starling, literato engajado em ações de voluntariado transformador, que representa mais um passo rumo ao estilo impulsionado pelo talento. “Nós e outros poemas” pode ser uma resposta a “Eu e outros poemas” (1915), do poeta Augusto dos Anjos (que aliás, em vida, somente publicou “Eu”, em 1912), mais do que um trocadilho.

Pois o “Nós” inclui Augusto dos Anjos-”Eu” e outros poetas . “Nós” é um eu-lírico plural, feito de uma 'colcha de retalhos' de mil outros, chega a ser um 'poeta-frankenstein', criatura recriada a partir de pedaços – no caso, referências, citações, influências, empréstimos, reevocações, etc – que condicionam a própria 'dicção' até o ponto de um limite: a re-criação. O quanto 'Nós' consegue lidar com toda essa miríade de co-autores.

Ou o 'Nós' seria um híbrido Autor-Leitor, onde os leitores se encontram na obra lida (“Leitores, meus iguais, meus irmãos”), onde o Autor sabe precisar de leitores, onde a Obra se completa pelo Leitor que conseguir filtrar (após localizar, identificar!) cada 'empréstimo', cada 'referência' Autoral. (Existem três autores que se destacam enquanto exímios 'citadores', com seus textos polifônicos, como dizia o crítico Bakhtin, sempre co-enunciando outros: o argentino Jorge Luiz Borges e os italianos Ítalo Calvino e Umberto Eco.)

A pluralidade de estilo evidencia a multiplicidade de influências de um Autor que transita entre o romântico, o simbolista, o neo-barroco e flerta com o modernismo (em extensos poemas anti-líricos, p. ex.) Esta teia de releituras busca conciliar uma mensagem – que se é barroca, ou simbolista, é igualmente moderna, ao incluir a ironia – com um formato – seja poemas rimados e metrificados, seja os 'versos brancos', ou os poemas longos.

O importante é saber o quanto se deixa em 'malabares' a mensagem e a forma. Ou antes, o que é mensagem e o que é forma. Não que o lirismo esteja preso a uma forma – o Modernismo veio para nos libertar da métrica e da rima, ou remodelá-las. O lirismo não mais se confunde com a forma lírica – podemos ter um 'poema-em-prosa' mais lírico que um soneto com decassílabos heroícos e 'chave de ouro'.

O problema está evidente quando o poeta não desenvolve a forma – não cria forma nova, nem re-cria formas tradicionais. Ou quando o poeta não se apropria inteiramente das formas – por ignorância ou excesso de zelo, por bazófia ou descuido.

Vamos aos exemplos. Temos aqui o metalinguístico “Poema” (p. 32), onde a 1ª estrofe é esteticamente perfeita – 6 versos, esquema de rima AABCCB - e trata da relação Poema-Leitor, ou melhor, Autor-Leitor, a cumplicidade Escrita-Leitura.

Sou um poema, venho da lama
Da ordem do caos de quem ama
Da dupla chama do amor
Sentimento maior que o mundo
Luz na fração de segundo
Que és meu amante: leitor


Mas as duas estrofes seguintes não se igualam no apuro estético. Faltam as rimas, por exemplo. O Poeta não é obrigado a seguir rimas e métrica – nos livramos disso desde o 'verso branco', desde os modernistas, repetimos – mas se o poema começou num certo parâmetro estético – até elogiável – por que não prosseguir até a 'chave de ouro'?

Outro exemplo é o quase-soneto “Consoantes” (p. 36) que se inicia no esquema ABB'A e versos longos (10 e 12 sílabas) e termina em WXX / YYZ com versos curtos (8 e 9 sílabas). O que, em consequência, 'quebra' a estética.

Já apontamos (em outros ensaios) a deficiência destes quase-sonetos. Ou é soneto ou não é. Não basta serem 14 versos. Ou são metrificados ou rimados, ou não. Os sonetos clássicos são metrificados e rimados. Os 'sonetos brancos' dispensam rima, mas mantem métrica (8, 10 ou 12 sílabas, geralmente). O 'hibridismo' é que destoa, deixa 'feio'.

E o Poeta até que se destaca pelos 'versos brancos' em seus poemas longos (exemplos: “Cansei” e “BH Flâneur”) onde “Cansei” (pp. 52-60) é destaque.

Trata-se de um desabafo pequeno-burguês diante das imposições do cotidiano banal, e da necessidade doentioa de corresponder aos valores e expectativas das gentes que nos cercam. O olhar alheio que 'vampiriza' a espontaneidade e criatividade do eu-lírico,

cansei de organizar gavetas e livros na estante, e discos
na vitrine e perfumes no container;

de fazer ginástica para perder a barriga

da vaidade que me tia a gordura e (a) proteína;

de todas as burro-cracias, tão necessárias, hoje em dia.


É um desabafo que poderia ser excelente prosa, mas aqui é excelente NÃO-poesia. Exemplo de anti-lirismo. Explico. Sendo irônico, CANSEI é mais um grito. É um obra de anti-lirismo, não quer o lírico, mas desnudar o prosaico.

O próprio Eu-Lírico se julga ridículo tanto quanto o desabafo – aliás, no texto os auto-desprezos se fundem,

cansei cansei cansei cansei
de repetir nova-mente
esta estrofe ridícula


O uso do trocadilho – fina arte do Poeta-filósofo – cria uma atmosfera de ironia, de duplicidade, onde o Leitor é cúmplice (igualmente 'ridículo', aliás), ao ser receptivo a ironia autoral,

cansei de escrever um pouco
só por ironia
e de pensar se serei ou não
reconhecido
um dia

Afinal, o Poeta quer ser lido e – igual a todo artista – é um egocêntrico exibicionista,

cansei de ser valorizado, de frente ao espelho
e ter ego inchado somente na pia.

...

cansei da mania de ser egocêntrico, sistemático, exigente,
artista


O poeta terá realmente se cansado de sua tarefa de poetizar o mundo – ou será uma auto-ironia diante da consciência da própria condição? Onde 'fantasia' rima com 'poesia' (fantasy-poetry; phantasie-poesie, etc) no sentido de 'poetizamos para criar mundos outros'. O Poeta não se contenta com o mundo que aí está – ele quer algo mais. Ele CRIA algo mais. E ele cria para os outros!

Conclui-se que o Poeta não é totalmente egocêntrico – EU – mas quer um diálogo com o leitor atento – o Nós. Tem consciência de que o EU se forma no entrelaçamento de outros Eus, ou seja, a tessitura do NÓS. É assim evidente em “Eujaculatórias”, pp. 62-64)

Leitor Misericordioso
eu confio e espero por vós
Malogrado crítico literário
Eu confio e espero por vós

...

Leitor, ávido e exigente, farei os nossos olhos
semelhantes aos vossos

...

Leitor inveterado,
Nosso EU amado


Desde a introdutória “NOTA D'EU” é evidente o diálogo Autor-Leitor. É um desafio de conquista, um duelo de sedução: o Autor quer dominar a tenção dos Leitores – sempre imagiandos em função da enunciação. Pois o Autor espera o EFEITO – assim como aconselhava Edgar Allan Poe e assim faziam Baudelaire, Rimbaud e Lautréamont.

O que pode o Poema causar de efeito sobre o Leitor ou Ouvinte? Basta uma leitura de “O Barco Bêbado” de Rimbaud para se sentir liricamente ébrio, poeticamente entorpecido? Eis uma 'prova dos nove' – o quanto vale um poema que nos emociona? O quanto NÃO vale um poema que nos deixa indiferente?
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Duas traduções de “Le Bateau Ivre
http://www.arquivors.com/rimbaud1.htm
http://www.arquivors.com/rimbaud1.htm
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É este efeito que se perde muitas vezes em 'palavrórios' e retóricas vazias. Ou descuidos formais. Vejamos outro exemplo. O poema autobiográfico “29” com suas 5 estrofes de 6 versos (AABCCB / DD'EFFE/ GGHII'H / JJ'KLLK / MNOPPQ ) com regular irregularidade.

Como já dissemos o poema não é obrigado a seguir métrica e rima, mas se seguiu a rima (às vezes rimas imperfeitas ) nas 4 primeiras estrofes, por que desistiu do esquema na última estrofe?

Outro detalhe é da sonoridade (e sua influência sobre o ritmo). Lembramos que ao dizer '29' (vinte-e-nove) estamos pronunciando 4 sílabas. Uma leitura atenta mostra que o verso 4 da estrofe 2 – e também o da estrofe 3 – tem 9 sílabas, enquanto o verso 1 da estrofe 5 chega a ter 17 sílabas !

O verso 5 da estrofe 3 - “Ambiciono a potência dos bichos” - é um decassílabo , mas sua beleza se perde num conjunto de versos tão díspares – quanto os prosaicos “fazer 29 é deixar de ser neófito” e/ou “literalmente, fazer 29 é cair no sagrado” que são tudo – prosa, memória, crônica, conto – menos poesia.

Sabendo-se que se trata de poesia – e não prosa – o conteúdo não é o mais importante. Na poesia a 'escolha das palavras' é essencial, leva em consideração a Forma. Não exatamente verso. Mas se foi escolhido o verso, então se seguem os parâmetros de versos.

Poesia não é coisa fácil, não é veículo de 'conteúdo' – aliás, o conteúdo da poesia é a própria poesia! (Não é questão apenas de métrica e rima, mas de escolha das palavras, ritmo, sonoridade, figuras de linguagem, enfim, de Arte Poética) A Poesia é mais um bordado de palavras do que qualquer outra coisa.


Vejamos o poema “Porto de Partida” (pp. 67-71) – um trocadilho com 'ponto de partida', como podemos ver - onde é abordada a questão da Língua Portuguesa – não só quanto a aspectos ortográficos! - é examinada com ironia, em pleno diálogo com a tradição, seja a de Camões ou de Pessoa.

O quanto nossa literatura é dependente da mesma língua que compartilhamos com os lusitanos? O quanto falamos ainda 'português'? Não estaríamos vivendo em plenos 'brasilês'?

O tom irônico se equilibra no 'fio da navalha' com o lirismo. Atinge um anti-lírico ao listar cifras com números de luso-falantes por país – ousa inserir estatísticas num poema! Mas aqui não é lírico que se sobressai – mas o informacional do não-lírico.

O assunto Lusofonia é retomado em “Lusantropofagias” (pp. 72-78), onde o eu lírico parece se decidir pela predominância de 'diferenças', “Só o acordo nos une”. A diversidade de fala – apesar de textualmente compreendermos bem – é abordada aqui, no âmbito das tradições literárias.

Temos um passado de colonialismo que nos deu a Tradição – mas o que nos aguarda no futuro? O quanto somos 'lusitanos'? Não seremos antes uma 'colcha de retalhos' de afro-indígenas-europeus? Vejam uma São Paulo no que tem de mais, digamos, 'plurinacional'. Imigrantes italianos, japoneses, alemães, libaneses criaram novas pecularidades de linguagem.

Então o que temos de comum com a 'prosa lusitana'? O mesmo que os angolanos, os moçambicanos, os habitantes de Macau: a tradição. A partir daí temos as falas regionais, os dialetos, as pecularidades. O quanto uma Literatura Moçambicana é lusitana?

O quanto a Literatura Brasileira é portuguesa? Nosso cânone comum está lá no século 18 – os Arcadistas. Éramos gêmeos siameses até o século 19 – então os Românticos vieram nos 'nacionalizar'. Eles têm o Garrett e o Eça e nos temos o Castro Alves e o Machado de Assis.

Mas, ora percebemos, aqui trata-se, na verdade, de uma história de tradição – no sentido de 'angústia de influência' – que atua sobre o próprio poeta. O quanto da Literatura Portuguesa é 'devorada' e 'digerida' pelo Autor. Trata-se aqui uma grande listagem de leituras.


O grande poeta em Pessoa
Trindade heterônima, discreta
Em Campos, Reis ou Caeiro
Desassossego: à nossa espera

E toda Geração de Orpheu
Ou devotos de Sá Carneiro
Moderno, um saudosista
Do romance, o pioneiro

Sim, devoramos


Já dissemos que as leituras de Starling são as mais variadas. Acabe agora ao Poeta digerir e incorporar na própria Obra as muitas influências. Sabendo-se mente aberta para as mais diversas paixões e estéticas, deverá agora não selecionar – nada disso! - mas 'reintegrar': 'como poderei SER tudo isso e ser EU?', eis a questão.


O Poeta enquanto flâneur


Temos uma pista. O outro poema longo se destaca – BH Flâneur – que procura justamente 'prestar contas' destas influências. Ali estão os de outrora – os da tradição – e também os modernos-pós-modernos-ultra-modernos. Sejam os literatos, os performancers, os poetas-marginais, os anarco-poetas, os artistas-de-leis-de-incentivo, os poetas-dependentes-de-mecenas. Em suma, toda a pluralidade que viceja numa cidade-metrópole-capital tal qual BH City.


Em muitos momentos o poema atinge ápices líricos – assim como há os momentos anti-líricos – onde se congregam conteúdo e forma (o autor respeita, vez ou outra, métrica e rima, p.ex.), no indicativo de movimento-observação, do flâneur que percorre em suas andanças as ruas e memórias de Belo Horizonte, assim vejamos,


Devoto, segui a romaria estética
Inspirado, projetei-me na Colombo
Com teus autos, bulhas e ribombos
Repetindo a homilia poética

e

Tremulento, vi a obra já armada
Sinuosa, leve, imprevisível...
É Niemeyer! O gênio do impossível
Nas curvas sensuais desta morada

e também,


Perturbado, decidi descer...
E vi, como num sonho hilário,
Um louco cruzamento imaginário
D’Afonso Pena com
Champs Elisée


em outros momentos temos um tom lírico, mas falhas quanto a rimas – 'rimas forçadas' são piores que rima nenhuma, até porque não se é obrigado a rimar – que evidenciam o quanto a sonoridade é importante em poesia,


Em oração, prostrado, sem alardes
Senti a presença de Alphonsus...
E o sino dobrou em seis responsos:
“Pobre Starling! Pobre Starling!...”

Em prantos, nesta cisma obscura
Desci (prestíssimo) aquela via...
Como a nona de Bethoven, fugidia
Ao Centro de Cultura da Bahia


percebemos a rima dos versos internos e a ausência de rima nos versos externos, além do excesso de rima (em -ia) na estrofe seguinte (via/fugidia/Bahia), enquanto o tema se mantém tão lírico e emocional. Detalhes, sim. Mas detalhes que fazem diferença em poesia, arte da linguagem par excellence.

Quanto ao tema, este é abordado com lirismo irônico. Trocadilhos não faltam para apresentar faces e facetas da grande cidade trilhada pelo poeta-flâneur. Títulos de poemas e livros alheios, grandes mestres românticos e simbolistas, expoentes de vanguardas modernistas, sejam literatos, poetas, músicos, arquitetos, 'gente como a gente' que transitou (e transita) por aí,

Rumei à taberna do Maletta
Clube de tantas, agudas Esquinas
Todos: artistas, mulheres da vida
Sob as asas do Arcângelo asceta
e


Com dos Anjos na Augusto de Lima
Li tEUs versos, lamentos, desatinos
Esperando a Mercedes da Abílio
Vomitar-me (de volta) à casa fria



Aqui o poema carrega referências ao Clube da Esquina, movimento musical das décadas de 60 e 70, no qual se destacaram os irmãos Borges e o renomado Milton Nascimento, músicos que se reuniam na Cantina do Lucas, no citado Edifício Maletta, ponto central da boêmia cult de Belo Horizonte.

Também referências ao poeta Augusto dos Anjos, autor do livro de poemas “Eu”, dentro do prosaico retorno para casa no ônibus mercedes da linha de coletivo que tem itinerário através da Avenida Abílio Machado que corta os bairros da região Noroeste desde o Anel Rodoviário.

A condensação dos versos permitem estes 'jogos de palavras' que demonstram a capacidade de síntese poética que caracteriza este flâneur adepto de 'leituras e andanças' (como diria o poeta-sociólogo Vinícius Fernandes Cardoso, autor de obra homônima) que evidencia justamente isso: a capacidade de observar o mundo e representá-lo (no sentido dado por Schopenhauer, em “O Mundo enquanto Vontade e Representação”) na forma poética. Arte por excelência não acessivel a todos, mas apenas aos Eleitos (que podem ser nada mais que 'malditos', ai de nós!).

No entrelaçar de forma e conteúdo – tessitura tão peculiar que damos o nome de 'estilo' – coloca-se à prova o entrelaçar de instinto e instrução – que chamamos de 'talento' – que virá a determinar, e é nossa esperança, a trajetória da Obra poética ainda vindoura de Rodrigo Starling rumo ao estilo próprio que o talento promete.



jan/fev/11
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