terça-feira, 15 de março de 2011

sobre 'NÓS e outros poemas' - de Rodrigo Starling




Sobre “NÓS e outros poemas” (BH, 2010)
do autor Rodrigo Starling


A Arte enquanto tessitura de influências


A Crítica


O Papel da Crítica diante da Obra é sempre de nortear o leitor, nunca explicar. Aliás, Crítica de Poesia é sempre a mais complexa. Pois não se explica Poesia – vivencia-se a Poesia, escreve-se e declama-se, em suma, sentir é a 'estrada de ladrilhos amarelos' rumo à Poética.

Quais o contexto de época, quais as influências do Autor, quais as companhias e interlocutores, qual a recepção dos leitores, quais são os autores influenciados pela Obra. Estas são as questões que interessam à Crítica, além dos aspectos estéticos em-si. Estética que é comparada com outros parâmetros estéticos, nada mais.

Na verdade, o julgamento da Crítica nunca deveria cair sobre o Autor, mas sobre a Obra. O Autor está além da Obra – é um ser psico-social-histórico inalcançável – e a Obra está além do Autor – após a publicação a Obra tem 'vida própria', será interpretada, sera 'digerida' pelo públioco de leitores.

Trata-se de um metonímia distorcida quando se imagina a Crítica da Obra visando o Autor, assim como quando dizemos “Eu leio Machado de Assis”, o que é obviamente uma 'figura de linguagem', pois como é possível que eu 'leia' a pessoa Machado de Assis?

Certamente que Machado de Assis não passa de uma outra 'persona textual', o Narrador, por exemplo. A pessoa Machado de Assis é totalmente inacessível – por mais que os biógrafos se cansem em mil esforços. (Mesmo ler uma biografia de um Autor é um exercício de 'acesso à obra'; podemos ler a biografia de James Joyce para tentar entender “Ulisses”, por exemplo. E nada mais.)

Mas há duas características autorais que podem ser apontadas a partir da Obra: o estilo e o talento. Em que dimensão o estilo é uma marca pessoal, é inconfundível, e o quanto este estilo é reflexo do talento, e se pode ser ainda melhorado pelo talento. Existem autores que se superam – sabem exercitar o talento a ponto de renovarem o estilo. Outros tornam-se reféns do estilo. A maioria sequer forma um estilo.

O que julga 'estilo' nem chega a tanto: é digestão de influências. Aqui no sentido dado por Harold Bloom em “Angústia da Influência”, como um 'bastão olímpico' que um artista passa ao outro. Alguns repassam o bastão assim como receberam, outros o embelezam ainda mais.


O Poeta e suas influências

Já tratamos em ensaio anterior (ver o artigo sobre “Confessório Ardente”, do mesmo Autor) o quanto as novas gerações dependem das anteriores, seja na sociedade, seja na cultura (ou Arte mais especificamente). Gerações vem e vão, e deixam marcas que outras gerações usam, abusam, rejeitam, reformulam, denigrem, em suma, dificilmente se cria o 'novo' a partir do 'nada' – tudo se transforma, já dizia Lavoisier, o grande cientista.

Coom raríssimas exceções, temos sempre um Autor em referência a outro. Mesmo gênios tais como Proust, Joyce e Kafka subiram no ombro de alguém, por mais obscuros e anônimos que tenham sido. (O quanto Proust deve a Amiel? Quem?! O quanto Kafka deve a Walser? Quem?!!) Pois bem, a influência não é algo 'negativo' – a 'cópia' é certamente – mas algo inerente, e precisa ser aceito e superado.

Assim temos a obra, a mais recente do poeta e filósofo Rodrigo Starling, literato engajado em ações de voluntariado transformador, que representa mais um passo rumo ao estilo impulsionado pelo talento. “Nós e outros poemas” pode ser uma resposta a “Eu e outros poemas” (1915), do poeta Augusto dos Anjos (que aliás, em vida, somente publicou “Eu”, em 1912), mais do que um trocadilho.

Pois o “Nós” inclui Augusto dos Anjos-”Eu” e outros poetas . “Nós” é um eu-lírico plural, feito de uma 'colcha de retalhos' de mil outros, chega a ser um 'poeta-frankenstein', criatura recriada a partir de pedaços – no caso, referências, citações, influências, empréstimos, reevocações, etc – que condicionam a própria 'dicção' até o ponto de um limite: a re-criação. O quanto 'Nós' consegue lidar com toda essa miríade de co-autores.

Ou o 'Nós' seria um híbrido Autor-Leitor, onde os leitores se encontram na obra lida (“Leitores, meus iguais, meus irmãos”), onde o Autor sabe precisar de leitores, onde a Obra se completa pelo Leitor que conseguir filtrar (após localizar, identificar!) cada 'empréstimo', cada 'referência' Autoral. (Existem três autores que se destacam enquanto exímios 'citadores', com seus textos polifônicos, como dizia o crítico Bakhtin, sempre co-enunciando outros: o argentino Jorge Luiz Borges e os italianos Ítalo Calvino e Umberto Eco.)

A pluralidade de estilo evidencia a multiplicidade de influências de um Autor que transita entre o romântico, o simbolista, o neo-barroco e flerta com o modernismo (em extensos poemas anti-líricos, p. ex.) Esta teia de releituras busca conciliar uma mensagem – que se é barroca, ou simbolista, é igualmente moderna, ao incluir a ironia – com um formato – seja poemas rimados e metrificados, seja os 'versos brancos', ou os poemas longos.

O importante é saber o quanto se deixa em 'malabares' a mensagem e a forma. Ou antes, o que é mensagem e o que é forma. Não que o lirismo esteja preso a uma forma – o Modernismo veio para nos libertar da métrica e da rima, ou remodelá-las. O lirismo não mais se confunde com a forma lírica – podemos ter um 'poema-em-prosa' mais lírico que um soneto com decassílabos heroícos e 'chave de ouro'.

O problema está evidente quando o poeta não desenvolve a forma – não cria forma nova, nem re-cria formas tradicionais. Ou quando o poeta não se apropria inteiramente das formas – por ignorância ou excesso de zelo, por bazófia ou descuido.

Vamos aos exemplos. Temos aqui o metalinguístico “Poema” (p. 32), onde a 1ª estrofe é esteticamente perfeita – 6 versos, esquema de rima AABCCB - e trata da relação Poema-Leitor, ou melhor, Autor-Leitor, a cumplicidade Escrita-Leitura.

Sou um poema, venho da lama
Da ordem do caos de quem ama
Da dupla chama do amor
Sentimento maior que o mundo
Luz na fração de segundo
Que és meu amante: leitor


Mas as duas estrofes seguintes não se igualam no apuro estético. Faltam as rimas, por exemplo. O Poeta não é obrigado a seguir rimas e métrica – nos livramos disso desde o 'verso branco', desde os modernistas, repetimos – mas se o poema começou num certo parâmetro estético – até elogiável – por que não prosseguir até a 'chave de ouro'?

Outro exemplo é o quase-soneto “Consoantes” (p. 36) que se inicia no esquema ABB'A e versos longos (10 e 12 sílabas) e termina em WXX / YYZ com versos curtos (8 e 9 sílabas). O que, em consequência, 'quebra' a estética.

Já apontamos (em outros ensaios) a deficiência destes quase-sonetos. Ou é soneto ou não é. Não basta serem 14 versos. Ou são metrificados ou rimados, ou não. Os sonetos clássicos são metrificados e rimados. Os 'sonetos brancos' dispensam rima, mas mantem métrica (8, 10 ou 12 sílabas, geralmente). O 'hibridismo' é que destoa, deixa 'feio'.

E o Poeta até que se destaca pelos 'versos brancos' em seus poemas longos (exemplos: “Cansei” e “BH Flâneur”) onde “Cansei” (pp. 52-60) é destaque.

Trata-se de um desabafo pequeno-burguês diante das imposições do cotidiano banal, e da necessidade doentioa de corresponder aos valores e expectativas das gentes que nos cercam. O olhar alheio que 'vampiriza' a espontaneidade e criatividade do eu-lírico,

cansei de organizar gavetas e livros na estante, e discos
na vitrine e perfumes no container;

de fazer ginástica para perder a barriga

da vaidade que me tia a gordura e (a) proteína;

de todas as burro-cracias, tão necessárias, hoje em dia.


É um desabafo que poderia ser excelente prosa, mas aqui é excelente NÃO-poesia. Exemplo de anti-lirismo. Explico. Sendo irônico, CANSEI é mais um grito. É um obra de anti-lirismo, não quer o lírico, mas desnudar o prosaico.

O próprio Eu-Lírico se julga ridículo tanto quanto o desabafo – aliás, no texto os auto-desprezos se fundem,

cansei cansei cansei cansei
de repetir nova-mente
esta estrofe ridícula


O uso do trocadilho – fina arte do Poeta-filósofo – cria uma atmosfera de ironia, de duplicidade, onde o Leitor é cúmplice (igualmente 'ridículo', aliás), ao ser receptivo a ironia autoral,

cansei de escrever um pouco
só por ironia
e de pensar se serei ou não
reconhecido
um dia

Afinal, o Poeta quer ser lido e – igual a todo artista – é um egocêntrico exibicionista,

cansei de ser valorizado, de frente ao espelho
e ter ego inchado somente na pia.

...

cansei da mania de ser egocêntrico, sistemático, exigente,
artista


O poeta terá realmente se cansado de sua tarefa de poetizar o mundo – ou será uma auto-ironia diante da consciência da própria condição? Onde 'fantasia' rima com 'poesia' (fantasy-poetry; phantasie-poesie, etc) no sentido de 'poetizamos para criar mundos outros'. O Poeta não se contenta com o mundo que aí está – ele quer algo mais. Ele CRIA algo mais. E ele cria para os outros!

Conclui-se que o Poeta não é totalmente egocêntrico – EU – mas quer um diálogo com o leitor atento – o Nós. Tem consciência de que o EU se forma no entrelaçamento de outros Eus, ou seja, a tessitura do NÓS. É assim evidente em “Eujaculatórias”, pp. 62-64)

Leitor Misericordioso
eu confio e espero por vós
Malogrado crítico literário
Eu confio e espero por vós

...

Leitor, ávido e exigente, farei os nossos olhos
semelhantes aos vossos

...

Leitor inveterado,
Nosso EU amado


Desde a introdutória “NOTA D'EU” é evidente o diálogo Autor-Leitor. É um desafio de conquista, um duelo de sedução: o Autor quer dominar a tenção dos Leitores – sempre imagiandos em função da enunciação. Pois o Autor espera o EFEITO – assim como aconselhava Edgar Allan Poe e assim faziam Baudelaire, Rimbaud e Lautréamont.

O que pode o Poema causar de efeito sobre o Leitor ou Ouvinte? Basta uma leitura de “O Barco Bêbado” de Rimbaud para se sentir liricamente ébrio, poeticamente entorpecido? Eis uma 'prova dos nove' – o quanto vale um poema que nos emociona? O quanto NÃO vale um poema que nos deixa indiferente?
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Duas traduções de “Le Bateau Ivre
http://www.arquivors.com/rimbaud1.htm
http://www.arquivors.com/rimbaud1.htm
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É este efeito que se perde muitas vezes em 'palavrórios' e retóricas vazias. Ou descuidos formais. Vejamos outro exemplo. O poema autobiográfico “29” com suas 5 estrofes de 6 versos (AABCCB / DD'EFFE/ GGHII'H / JJ'KLLK / MNOPPQ ) com regular irregularidade.

Como já dissemos o poema não é obrigado a seguir métrica e rima, mas se seguiu a rima (às vezes rimas imperfeitas ) nas 4 primeiras estrofes, por que desistiu do esquema na última estrofe?

Outro detalhe é da sonoridade (e sua influência sobre o ritmo). Lembramos que ao dizer '29' (vinte-e-nove) estamos pronunciando 4 sílabas. Uma leitura atenta mostra que o verso 4 da estrofe 2 – e também o da estrofe 3 – tem 9 sílabas, enquanto o verso 1 da estrofe 5 chega a ter 17 sílabas !

O verso 5 da estrofe 3 - “Ambiciono a potência dos bichos” - é um decassílabo , mas sua beleza se perde num conjunto de versos tão díspares – quanto os prosaicos “fazer 29 é deixar de ser neófito” e/ou “literalmente, fazer 29 é cair no sagrado” que são tudo – prosa, memória, crônica, conto – menos poesia.

Sabendo-se que se trata de poesia – e não prosa – o conteúdo não é o mais importante. Na poesia a 'escolha das palavras' é essencial, leva em consideração a Forma. Não exatamente verso. Mas se foi escolhido o verso, então se seguem os parâmetros de versos.

Poesia não é coisa fácil, não é veículo de 'conteúdo' – aliás, o conteúdo da poesia é a própria poesia! (Não é questão apenas de métrica e rima, mas de escolha das palavras, ritmo, sonoridade, figuras de linguagem, enfim, de Arte Poética) A Poesia é mais um bordado de palavras do que qualquer outra coisa.


Vejamos o poema “Porto de Partida” (pp. 67-71) – um trocadilho com 'ponto de partida', como podemos ver - onde é abordada a questão da Língua Portuguesa – não só quanto a aspectos ortográficos! - é examinada com ironia, em pleno diálogo com a tradição, seja a de Camões ou de Pessoa.

O quanto nossa literatura é dependente da mesma língua que compartilhamos com os lusitanos? O quanto falamos ainda 'português'? Não estaríamos vivendo em plenos 'brasilês'?

O tom irônico se equilibra no 'fio da navalha' com o lirismo. Atinge um anti-lírico ao listar cifras com números de luso-falantes por país – ousa inserir estatísticas num poema! Mas aqui não é lírico que se sobressai – mas o informacional do não-lírico.

O assunto Lusofonia é retomado em “Lusantropofagias” (pp. 72-78), onde o eu lírico parece se decidir pela predominância de 'diferenças', “Só o acordo nos une”. A diversidade de fala – apesar de textualmente compreendermos bem – é abordada aqui, no âmbito das tradições literárias.

Temos um passado de colonialismo que nos deu a Tradição – mas o que nos aguarda no futuro? O quanto somos 'lusitanos'? Não seremos antes uma 'colcha de retalhos' de afro-indígenas-europeus? Vejam uma São Paulo no que tem de mais, digamos, 'plurinacional'. Imigrantes italianos, japoneses, alemães, libaneses criaram novas pecularidades de linguagem.

Então o que temos de comum com a 'prosa lusitana'? O mesmo que os angolanos, os moçambicanos, os habitantes de Macau: a tradição. A partir daí temos as falas regionais, os dialetos, as pecularidades. O quanto uma Literatura Moçambicana é lusitana?

O quanto a Literatura Brasileira é portuguesa? Nosso cânone comum está lá no século 18 – os Arcadistas. Éramos gêmeos siameses até o século 19 – então os Românticos vieram nos 'nacionalizar'. Eles têm o Garrett e o Eça e nos temos o Castro Alves e o Machado de Assis.

Mas, ora percebemos, aqui trata-se, na verdade, de uma história de tradição – no sentido de 'angústia de influência' – que atua sobre o próprio poeta. O quanto da Literatura Portuguesa é 'devorada' e 'digerida' pelo Autor. Trata-se aqui uma grande listagem de leituras.


O grande poeta em Pessoa
Trindade heterônima, discreta
Em Campos, Reis ou Caeiro
Desassossego: à nossa espera

E toda Geração de Orpheu
Ou devotos de Sá Carneiro
Moderno, um saudosista
Do romance, o pioneiro

Sim, devoramos


Já dissemos que as leituras de Starling são as mais variadas. Acabe agora ao Poeta digerir e incorporar na própria Obra as muitas influências. Sabendo-se mente aberta para as mais diversas paixões e estéticas, deverá agora não selecionar – nada disso! - mas 'reintegrar': 'como poderei SER tudo isso e ser EU?', eis a questão.


O Poeta enquanto flâneur


Temos uma pista. O outro poema longo se destaca – BH Flâneur – que procura justamente 'prestar contas' destas influências. Ali estão os de outrora – os da tradição – e também os modernos-pós-modernos-ultra-modernos. Sejam os literatos, os performancers, os poetas-marginais, os anarco-poetas, os artistas-de-leis-de-incentivo, os poetas-dependentes-de-mecenas. Em suma, toda a pluralidade que viceja numa cidade-metrópole-capital tal qual BH City.


Em muitos momentos o poema atinge ápices líricos – assim como há os momentos anti-líricos – onde se congregam conteúdo e forma (o autor respeita, vez ou outra, métrica e rima, p.ex.), no indicativo de movimento-observação, do flâneur que percorre em suas andanças as ruas e memórias de Belo Horizonte, assim vejamos,


Devoto, segui a romaria estética
Inspirado, projetei-me na Colombo
Com teus autos, bulhas e ribombos
Repetindo a homilia poética

e

Tremulento, vi a obra já armada
Sinuosa, leve, imprevisível...
É Niemeyer! O gênio do impossível
Nas curvas sensuais desta morada

e também,


Perturbado, decidi descer...
E vi, como num sonho hilário,
Um louco cruzamento imaginário
D’Afonso Pena com
Champs Elisée


em outros momentos temos um tom lírico, mas falhas quanto a rimas – 'rimas forçadas' são piores que rima nenhuma, até porque não se é obrigado a rimar – que evidenciam o quanto a sonoridade é importante em poesia,


Em oração, prostrado, sem alardes
Senti a presença de Alphonsus...
E o sino dobrou em seis responsos:
“Pobre Starling! Pobre Starling!...”

Em prantos, nesta cisma obscura
Desci (prestíssimo) aquela via...
Como a nona de Bethoven, fugidia
Ao Centro de Cultura da Bahia


percebemos a rima dos versos internos e a ausência de rima nos versos externos, além do excesso de rima (em -ia) na estrofe seguinte (via/fugidia/Bahia), enquanto o tema se mantém tão lírico e emocional. Detalhes, sim. Mas detalhes que fazem diferença em poesia, arte da linguagem par excellence.

Quanto ao tema, este é abordado com lirismo irônico. Trocadilhos não faltam para apresentar faces e facetas da grande cidade trilhada pelo poeta-flâneur. Títulos de poemas e livros alheios, grandes mestres românticos e simbolistas, expoentes de vanguardas modernistas, sejam literatos, poetas, músicos, arquitetos, 'gente como a gente' que transitou (e transita) por aí,

Rumei à taberna do Maletta
Clube de tantas, agudas Esquinas
Todos: artistas, mulheres da vida
Sob as asas do Arcângelo asceta
e


Com dos Anjos na Augusto de Lima
Li tEUs versos, lamentos, desatinos
Esperando a Mercedes da Abílio
Vomitar-me (de volta) à casa fria



Aqui o poema carrega referências ao Clube da Esquina, movimento musical das décadas de 60 e 70, no qual se destacaram os irmãos Borges e o renomado Milton Nascimento, músicos que se reuniam na Cantina do Lucas, no citado Edifício Maletta, ponto central da boêmia cult de Belo Horizonte.

Também referências ao poeta Augusto dos Anjos, autor do livro de poemas “Eu”, dentro do prosaico retorno para casa no ônibus mercedes da linha de coletivo que tem itinerário através da Avenida Abílio Machado que corta os bairros da região Noroeste desde o Anel Rodoviário.

A condensação dos versos permitem estes 'jogos de palavras' que demonstram a capacidade de síntese poética que caracteriza este flâneur adepto de 'leituras e andanças' (como diria o poeta-sociólogo Vinícius Fernandes Cardoso, autor de obra homônima) que evidencia justamente isso: a capacidade de observar o mundo e representá-lo (no sentido dado por Schopenhauer, em “O Mundo enquanto Vontade e Representação”) na forma poética. Arte por excelência não acessivel a todos, mas apenas aos Eleitos (que podem ser nada mais que 'malditos', ai de nós!).

No entrelaçar de forma e conteúdo – tessitura tão peculiar que damos o nome de 'estilo' – coloca-se à prova o entrelaçar de instinto e instrução – que chamamos de 'talento' – que virá a determinar, e é nossa esperança, a trajetória da Obra poética ainda vindoura de Rodrigo Starling rumo ao estilo próprio que o talento promete.



jan/fev/11
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sábado, 26 de fevereiro de 2011

o menor abandonado





O menor abandonado
.
já tem um tempo
conheço as ruas
agora é meu lar
seja beco ou viela
cantos de vida dura
viadutos, abrigos
na selva de pedra
e de asfalto sujo
.
entre os carros
entre os que passam
com pressa e sacolas
entre as faixas
em vias e pistas
de vitrines de lojas
.
mundo de brilho
e mundo feio
de luxo e lixo
ruas de mijo
velha cidade suja
.
solto no mundo
nem pai nem mãe
aqui eu vivo ainda
pernas pra correr
mãos pra pedir
chaga na carne
ferida na pele
.
de restos eu vivo
das migalhas
d'um banquete
aqui sob a mesa
resto pra comer
nos sacos de lixo
.
roubar ou viver
de fruta podre
de fruta de feira
de resto de feira
de resto de fruta
a podre pisada
ou mendigo
que dá um pão
mofado e duro
do homem de trapos
que come e mija
lá sob o viaduto
.
banho no jardim
co'a água fria
água do canteiro
na praça da igreja
quando dá, seu môço
que os hôme chega
vem bater vem prender
aqui muita gente
já vai é correr
gente só de trapo
mulheres da vida
aqueles fumadô
os que cheira
.
todos vamô
junto é gemer
não sei o que fiz
para isso merecer
aqui no mundo
assim jogado
só tem promessa
pra querer esquecer
essa de miséria
que a gente vive
antes de morrer
.
ah a menina
a aquela eu vi
o trapo ela vestia
mal mal cobria
ela nessa vida
qu'ela não merecia
antes de morrer
uma sombra seguia
co'a arma suja
a gente só ouviu
o brilho do tiro
aí foi dela, môço
dela o corpo
que caiu logo ali
.
na correria
a gente então via
a gente descobria
que 'tava co' medo
agarrado tudo
co'a vida
quando o sangue
brilhou ali mesmo
na escadaria
.
com medo de mim
'ocê me olha
ou co'a piedade
ou remorso sem fim
não sou livre
nas ruas minhas
aí nesse mundo
sou é mesmo refém
polícia e malandro
um e outro assim
com arma e dor
tiram a vida de mim
.
co'bala perdida
ou bota de soldado
na porta da igreja
em restos de trapos
a gente deita
antes de morrer
.
eu poderia ser
um ronaldo
um niemeyer
quando crescer
mas o que sou
mesmo eu sei:
um menor
abandonado.
.

fev/11

relendo “Capitães da Areia
romance de Jorge Amado

Leonardo de Magalhaens
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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Ensaios de MEU CÂNONE OCIDENTAL

MEU CÂNONE OCIDENTAL


Vol. I - Tomo I - Os Clássicos
(século 19)




1/O Vermelho e o Negro
(Le Rouge et Le Noir)
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2010/04/sobre-o-vermelho-e-o-negro-stendhal.html



2/O Morro dos Ventos Uivantes
(Wuthering Heights)
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2010/05/sobre-o-morro-dos-ventos-uivantes-1-de.html



3/Os Miseráveis (Les Misérables)
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2010/05/sobre-os-miseraveis-de-victor-hugo-1.html


4/O Fauno de Mármore
(The Marble Faun)
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2010/10/sobre-o-fauno-de-marmore-de-n-hawthorne.html


5/Bel-Ami (Bel-Ami)
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2010/10/sobre-bel-ami-de-maupassant-p1.html




Volume II – Tomo II


Romantismo

1/Lord Byron (Grã-Bretanha)
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2010/09/sobre-obra-poetica-de-lord-byron-12.html

2/Álvares de Azevedo (Brasil)
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2010/09/sobre-obra-poetica-de-alvares-de.html





Literatura Gótica
Gothic Novels


Der Sandmann (E. T. A. Hoffmann)
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2010/11/sobre-der-sandmann-o-homem-de-areia-de.html

Northanger Abbey (Jane Austen)
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2010/11/sobre-abadia-de-northanger-de-jane.html

The Turn of the Screw (Henry James)
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2010/11/sobre-volta-do-parafuso-de-henry-james.html





Literatura de Terror
Horror Fiction


Frankenstein (Mary Shelley)
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2010/11/sobre-frankenstein-de-mary-shelley-13.html


Contos de Terror de Edgar Allan Poe
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2010/12/sobre-os-contos-de-terror-de-edgar.html


Dracula (Bram Stoker)
http://meucanoneocidental.blogspot.com/2010/12/sobre-dracula-de-bram-stoker-13.html



outras obras comentadas em
MEU CÂNONE OCIDENTAL

http://meucanoneocidental.blogspot.com/2010/09/outros-ensaios-de-meu-canone-ocidental.html

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

NOVO BLOG Literatura - link !





Caros Amigos e Literatos,

saudações!




Para as postagens de crítica literária e traduções,

além de poemas e contos de minha autoria

eu criei outro BLOG um NOVO blog no

seguinte link abaixo




hoje eu postei uma crítica sobre o

romance SERADIM PONTE GRANDE

do Oswald de Andrade...
boa leitura!
LdeM
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sábado, 18 de dezembro de 2010

2 poemas de Charles Baudelaire






Charles Baudelaire


A Morte dos Artistas


Quantas vezes é preciso sacudir meus guizos
E beijar tua fronte baixa, morna caricatura?
Para furar o alvo, de mística natura,
Quantos, ó meu cesto, perder de dados?

Usaremos nossa alma em sutis complôs,
E destruiremos muita pesada armadura,
Antes de contemplar a grande Criatura
Cujo infernal desejo enche-nos de dor!

Não há quem não conheça seu ídolo,
E esses escultores condenados, em afronta,
Que vão se golpeando o peito e a fronte,

Sem uma esperança, estranho e sombrio Capitólio!
É que a Morte, tal um novo sol a planar
As flores de seus cérebros fará desabrochar!

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Trad. livre: Leonardo de Magalhaens
http://meucanoneocidental.blogspot.com
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La Mort des Artistes (CXXIII)

Combien faut-il de fois secouer mes grelots
Et baiser ton front bas, morne caricature?
Pour piquer dans le but, de mystique nature,
Combien, ô mon carquois, perdre de javelots?

Nous userons notre âme en de subtils complots,
Et nous démolirons mainte lourde armature,
Avant de contempler la grande Créature
Dont l'infernal désir nous remplit de sanglots!

Il en est qui jamais n'ont connu leur Idole,
Et ces sculpteurs damnés et marqués d'un affront,
Qui vont se martelant la poitrine et le front,

N'ont qu'un espoir, étrange et sombre Capitole!
C'est que la Mort, planant comme un soleil nouveau,
Fera s'épanouir les fleurs de leur cerveau!


Les Fleurs du Mal

...

Charles Baudelaire


A Tampa


Onde quer que ele vá, ou sobre mar ou terra,
Sob um clima de chama ou sol branco,
Servidor de Jesus, cortesão de Citera,
Mendigo tenebroso ou Creso rutilante.

Cidadão, camponês, vagabundo, sedentário
Que seu pequeno cérebro seja ativo ou lento,
Em todo lugar o homem sofre o terror do mistério,
E olha ao alto senão com olhar trêmulo.

Acima, o Céu! o muro da cova que sufoca,
Teto iluminado para uma ópera bufa
Onde cada histrião pisa um chão de sangue;

Terror do devasso, esperança do tolo eremita;
O Céu! Tampa escura da grande marmita
Onde se confina a sutil e vasta Humanidade.

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Trad. livre: Leonardo de Magalhaens
http://meucanoneocidental.blogspot.com
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Le Couvercle (na 3ª edição)


En quelque lieu qu'il aille, ou sur mer ou sur terre,
Sous un climat de flamme ou sous un soleil blanc,
Serviteur de Jésus, courtisan de Cythère,
Mendiant ténébreux ou Crésus rutilant,

Citadin, campagnard, vagabond, sédentaire,
Que son petit cerveau soit actif ou soit lent,
Partout l'homme subit la terreur du mystère,
Et ne regarde en haut qu'avec un oeil tremblant.

En haut, le Ciel! Ce mur de caveau qui l'étouffe,
Plafond illuminé par un opéra bouffe
Où chaque histrion foule un sol ensanglanté;

Terreur du libertin, espoir du fol ermite;
Le Ciel! Couvercle noir de la grande marmite
Où bout l'imperceptible et vaste Humanité.


Les Fleurs du Mal
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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

sobre Klein Zaches / Pequeno Zacarias - de E T A Hoffmann








Sobre o conto “Pequeno Zacarias chamado Cinábrio
(Klein Zaches genannt Zinnober, 1818/19)
do escritor alemão E T A Hoffmann (1776-1822)


Fábula irônica sobre o desencantamento do mundo


O conto extenso (quase novela) O Pequeno Zacarias chamado Cinábrio é uma fantasia alegórica e crítica – aos moldes de um Voltaire ou de um Sade – sobre a sociedade e política prussianas na época da Revolução Francesa e dos 'déspostas esclarecidos' que pretendiam implantar o 'Iluminismo' por meio de decretos-lei.

É uma fantasia irônica onde o Narrador não é personagem, mas também não é onisciente, e até 'dialoga' com o leitor (considerado 'bondoso' ou 'amável'). O Narrador até se reconhece em erro (“Ich war im Irrtum”), e não menos que suas personagens.

Este tom de sátira pode ser comparado dos clássicos “Cândido” de Voltaire, ou ao “O Nariz” de Gógol, ou ainda “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto. Aqui se denuncia a hipocrisia em sociedade, os inescrupulosos em ascensão social.

O protagonista é um anão (o que podemos comparar com o Oskar de “O Tambor” (Die Blechtrommel, 1959, de G Grass), um ser deformado que passa a criticar o mundo ao redor, ao sentir rejeitado devido a própria feiúra – assim como acontece com o monstro criado pelo Dr. Frankenstein na obra de Mary Shelley.

Sabemos que Edgar Allan Poe leu obras de Hoffmann, e aqui saberemos quais as leituras do contista alemão. Ao longo do texto encontramos citações de ( e referências a) Shakespeare, Goethe, Schiller, Schlegel, Schubert, Jean Paul, Motte Fouqué, Georg Rüxner, além de Ludwig Tieck (autor alemão também citado por Poe, em “The Fall of House of Usher”).
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[Aliás, Tieck (1773-1853) foi autor de contos macabros ou fantásticos (Phantasus, 1812-16) , além de tradutor de Don Quixote (Cervantes) e amigo dos irmãos Schegel – August, o crítico literário, e Friedrich, o filósofo -, em Jena. Segundo os críticos, Tieck influenciou também os contos / fábulas de Nathaniel Hawthorne]
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Obras de Tieck (em zeno.org)
http://www.zeno.org/Literatur/M/Tieck,+Ludwig
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ludwig_Tieck
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O Narrador é aquele que conta a estória, está presente, mostra-se ao Leitor, adianta as cenas futuras, ou volta (em flashbacks) aos acontecimentos passados, tudo para dar um sentido à narrativa, ainda que o enredo (o conteúdo) seja fantástico.

Um Narrador constantemente pedindo a 'condescendência' do Leitor, evidenciando o quanto a leitura (ou 'recepção') é essencial para 'montar' a narrativa – o leitor que muitas vezes lê 'nas entrelinhas' – e é importante que o escritor desde o início 'conquiste' a simpatia daquele/a que dedica-se ao ato de 'decifrar' o texto.

“Você, bondoso leitor, deve ter percebido” (“du würdest, günstiger Leser, dennoch wohl ahnen”) ou “você poderia, prezado leitor, apesar de” (“du könntest, lieber Leser, aber doch”) ou ainda, “o que, estimado leitor, estou disposto a narrar para você em detalhes” (“was ich dir, geliebter Leser, des breiteren zu erzählen eben im Begriff stehe.”)

“Em toda a vasta Terra seria bem difícil achar um lugar mais agradável que o pequeno principado, onde está a propriedade do Barão Pretextatus von Mondschein, onde morava a Senhorita von Rosenschön, em suma, onde tudo isso aconteceu, o que, estimado leitor, estou disposto a narrar para você em detalhes.”
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(“Auf der ganzen weiten Erde war wohl sonst kaum ein anmutigeres Land zu finden, als das kleine Fürstentum, worin das Gut des Baron Prätextatus von Mondschein lag, worin das Fräulein von Rosenschön hauste, kurz, worin sich das alles begab, was ich dir, geliebter Leser, des breiteren zu erzählen eben im Begriff stehe.” c. 1)


Eis então a presença do 'fantástico' – afinal, a Senhoria von Rosenschön é uma fada! - no conto que pretende contrapor o racional ao féerico.

“Era sabido que ela, durante os passeios solitários na floresta, falava claramente com vozes fantásticas que pareciam soar das árvores, dos arbustos, das fontes e dos riachos.”
(“Dann war es gewiß, daß sie auf einsamen Spaziergängen im Walde laute Gespräche führte mit wunderbaren Stimmen, die aus den Bäumen, aus den Büschen, aus den Quellen und Bächen zu tönen schienen.” c. 1)

Enfim, um ser em contato com as forças da natureza – assim um “Manfred”, no poema-drama de Lord Byron – ou o eu-lírico de Poe no poema “Alone” - em contraponto aos seres que vivem na 'civilização'. É um idealização romântica do ser humano livre dos imperativos civilizatórios (como veremos em obras obras, aliás também em “Mal-Estar na Civilização”, de Freud)

Outra personagem se destaca por semelhante amor à Natureza. É o estudante Balthasar, uma imagem do melancólico com miríades de versos líricos de exaltação da Natureza – em contraponto ao estudante de ciências naturais (e que exalta as Ciências) Fabian.

Esta dicotomia Natureza X Civilização é mais nítida quando as personagens debatem o que seria Iluminismo – um conceito que ainda não assimilaram, vivendo num absolutismo de 'pátria' fragmentada (ainda não existia a Alemanha, só unificada em 1871), longe de um 'liberalismo' tal como concebido pelos ingleses e franceses.

O liberal Hoffmann não acreditava numa real atuação do Iluminismo (Aufklärung) na terra alemã – onde os 'déspotas esclarecidos' pretendem instituir os ideais iluministas – racionalidade, funcionalidade, liberdade comercial – por meio de decretos.

É o déspota que não pode aceitar a presença do fantástico (“Como? O que estás dizendo? - Fadas! - aqui no meu reino?” - “Wie? - was sagt er? - Feen! - hier in meinen Lande?”) e decreta o 'desencantamento do mundo' (“Entzauberung der Welt”, assim a expressão de Max Weber) quando a 'razão iluminista' passa a dominar o mundo de lendas através de um processo de 'secularização' (Verweltlichung). A fada então recolhe-se ao convento e aos arredores do bosque.

Temos também a figura dos estudantes e seus excêntricos professores. Os estudantes de ciências naturais e de artes. A imagem do melancólico com versos líricos de exaltação da Natureza, o jovem Balthasar. E seu amigo, também estudante, o folgazão Fabian.

Na floresta, os amigos encontram o pequeno Zacarias à cavalo, sempre desastrado e ridículo. Mas com demasiado orgulho, o pequeno declara ser o novo estudante da Universidade. Seu estranho fascínio contagia a todos – que simplesmente não percebem a estatura minúscula e a deformidade física do Cinábrio/ Zinnober. [Esclareçamos. Zinnober – Cinábrio – é um tipo de mineral, ou minério de mercúrio, de formato trigonal e cor vermelha, cuja denominação química é sulfeto de mercúrio.]


Quando o pequeno se comporta mal, é sempre um outro que é culpado – mas se alguém se destaca em talento, é sempre o pequeno Zaches que recebe os elogios! Até os nobres se deixam mesmerizados diante do pequeno – no qual enxergam um homem elegante e admirável !

Mas o estudante e poeta Balthasar desconfia de que ali há qualquer feitiço – isto é, se ele acreditasse em contos de fadas! (Irônico, não? Pois ele é personagem justamente de um conto-de-fadas! ou sátira de contos-de-fadas...)

“Com ele deve haver algo de secreto, e se eu acreditasse em contos-de-fadas até diria que o jovem está enfeitiçado e até sabe, como se diz, fazer o mesmo [enfeitiçar] às outras pessoas.” (“Es muss mit ihm irgendeine geheimnisvolle Bewandtnis haben, und sollt ich an alberne Ammenmärchen glauben, ich würde behaupten, der Junge sei verhext und könne es, wie man zu sagen pflegt, den Leuten antun.” cap. IV)


Claro que com exceção de Balthasar a maioria acredita que o Iluminismo baniu as fadas e os encantamentos. Que haveria sempre uma explicação racional para o poderoso 'carisma' de um Zinnober – que diríamos então do líder nazista Hitler seduziu toda a Alemanha, cem anos depois?

“Feiticeiro!”, exclamou o Refendário em entusiasmo, “Sim, feiticeiro, um maldito feiticeiro é este pequeno, com certeza! Mas, caro Balthasar, o que há afinal, estamos num sonho? Bruxarias, encantamentos, isto já não acabou há muito tempo? Pois há muito o Príncipe Paphnutius o Grande não introduziu aqui o Iluminismo e não baniu do país tudo o que é sem-sentido e incompreensível, e então deve ainda ter se intrometido entre nós alguém dessa corja maldita? Raios! Isso deveria ser denunciado à polícias e às autoridades alfandegárias!”

(»Hexenkerl,« rief der Referendarius mit Begeisterung, »ja Hexenkerl, ein ganz verfluchter Hexenkerl ist der Kleine, das ist gewiß! – Doch Bruder Balthasar, was ist uns denn, liegen wir im Traume? – Hexenwesen – Zaubereien – ist es denn damit nicht vorbei seit langer Zeit? Hat denn nicht vor vielen Jahren Fürst Paphnutius der Große die Aufklärung eingeführt und alles tolle Unwesen, alles Unbegreifliche aus dem Lande verbannt, und doch soll noch dergleichen verwünschte Konterbande sich eingeschlichen haben? – Wetter! das müßte man ja gleich der Polizei anzeigen und den Maut-Offizianten! cap. IV)


A sensação de não se saber acordado ou sonhando – tal é o nível do desvario – percorre todo o conto. “Eu não sei”, disse Pulcher”, não sei o que acontece nesse momento comigo, se eu estou acordado ou em sonhos; (“Ich weiß nicht,” sprach Pulcher, “ich weiß nicht, wie mir in diesem Augenblick zumute, ob ich wache, ob ich träume;” cap. IV)


O fato é que o 'carisma' de Cinábrio conquista a simpatia de autoridades, nobres, até a figura imperial do Príncipe. Ainda mais se houver algum talentoso por perto – todo o elogio será depositado aos pés do novo figurão. Príncipe enxerga ali um 'estadista'. “Valiosa auto-confiança”, disse o Príncipe com voz altiva, “valiosa auto-confiança demonstra uma força interior que deve existir em cada estadista.” (“Wackeres Selbstvertrauen”, sprach der Fürst mit erhobener Stimme, “wacres Selbstvertrauen seugt von der innern Kraft, die dem Würdigen Staatsmann inwohnen muss!” cap. V)

Assim, exibindo forças e intelecto que definitivamente não possui, Cinábrio se aproveita do encantamento e se vinga de todo o desprezo que sofreu quando era apenas o 'pequeno Zacarias'. Todos os talentos alheios são creditados ao disforme Ministro que todos agora julgam um homem belo e grandiloquente.

Claro, percebemos que estamos num conto de fadas – e um conto de fadas que constantemente faz referências aos... contos de fadas. São inúmeras as amostras de metalinguagem, quando as personagens ora duvidam, ora acreditam em magia e fadas, e julgam ser tudo possível em 'contos da carochinha' , como diríamos.

Assim a constante referência (ou auto-referência) aos contos de fadas, às fábulas (Fabelhaftes – coisa meio fabulosa; Ammenmärchen – contos de fadas ) as quais as personagens muitas vezes até tratam de modo pejorativo – por acaso estamos num conto da carochinha? - o que soa irônico, com certeza.

Afinal, na era do 'Iluminismo' todos se julgam no mundo explicável da racionalidade e da previsibilidade. Então o 'fantástico' surge rompendo as fronteiras entre o que se vivencia e o que é imaginável. Vejamos. A aparição do Dr. Prosper Alpanus é cercada de visões e enigmas – até que em dado momento teremos certeza de que ele não é exatamente um médico, mas um mago, um ser das eras de outrora, que fingia ajudar aos 'iluministas', mas ajudava seus irmãos fabulosos - magos, fadas, duendes, etc.


Temos cenas que em muito lembram “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Caroll ou “O Mágico de Oz” de Baum - as aparições extravagantes do Dr. Alpanus, a própria morada do tal Dr., além do duelo de magia – no capítulo VI - entre o mago Alpanus e a fada Rosabelverde (que se passa por uma dama reclusa, a Senhorita von Roseschön), aquela mesma que 'encantou' o pequeno Zacarias.


Enquanto os estudantes – e os políticos atraiçoados por Zinnober – tentam desmascarar os truques do pequeno ardiloso, duas outras figuras se destacam em paralelo – o Professor Mosch Terpin, sempre em pesquisas ditas científicas, sendo deveras oportunista, afinal promete a filha Candida (aquela que é a paixão do estudante Balthasar) em casamento ao novo poderoso – Zinnober - que é braço direito do Príncipe; e o Doutor Alpanus que em nome do racional flerta com o irracional sempre que age para 'equilibrar' as coisas (no caso, reduzir o efeitos dos poderes de Zinnober).

Assim eis a polarização – a ciência oportunista e a magia benfeitora – que estabelece o duelo final. Sendo que a magia de Alpanus deve desfazer o encanto da fada Rosabelverde, de modo a não desestabilizar o reinado 'iluminista' do Príncipe. Entre o racional e o irracional, muitas vezes o apaixonado Balthasar não sabe em quem confiar. Afinal, Terpin está mesmerizado por Zinnober, e pode ser que Alpanus não passe de um bruxo com segundas intenções – por exemplo, jogando as cartas para 'restaurar' o mundo das fadas?

Mas é preciso que Alpanus mostre que a magia tem seu lado benemérito. Que o Iluminismo em si não é suficiente para desencantar o mundo.


“Saiba que Cinábrio é o filho deformado de uma pobre camponesa e que, de verdade, chama-se Pequeno Zaches. Foi por vaidade que ele adotou o nome Cinábrio. A dama reclusa von Rosenschön, ou, mais exatamente, a famosa fada Rosabelverde, pois ninguém mais é esta dama, a que encontrou o monstrinho num caminho. Ela acreditando que compensava tudo o que a Natureza mãe-desnaturada negou ao pequenino, deu a ele um presente, um dom estranho e misterioso, que possibilita que tudo de excelente que um outro alguém pense, diga ou faça, seja mérito para ele, também que ele em boa sociedade, junto às pessoas bem-formadas, eruditas, inteligentes, seja ele assim considerado bem-formado, instruído, entendedor, e em tudo se dando bem, acima de todos, que entrarem em disputa com ele.”
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(“Wisse, daß Zinnober die verwahrloste Mißgeburt eines armen Bauerweibes ist und eigentlich Klein Zaches heißt. Nur aus Eitelkeit hat er den stolzen Namen Zinnober angenommen. Das Stiftsfräulein von Rosenschön oder eigentlich die berühmte Fee Rosabelverde, denn niemand anders ist jene Dame, fand das kleine Ungetüm am Wege. Sie glaubte, alles, was die Natur dem Kleinen stiefmütterlich versagt, dadurch zu ersetzen, wenn sie ihn mit der seltsamen geheimnisvollen Gabe beschenkte, vermöge der alles, was in seiner Gegenwart irgendein anderer Vortreffliches denkt, spricht oder tut, auf seine Rechnung kommen, ja daß er in der Gesellschaft wohlgebildeter, verständiger, geistreicher Personen auch für wohlgebildet, verständig und geistreich geachtet werden und überhaupt allemal für den vollkommensten der Gattung, mit der er im Konflikt, gelten muß.” cap. VII)


Assim é o mago que consegue entender o encantamento – e está disposto a salvar o reino do príncipe 'iluminista' – que de Iluminismo só tem a casca de 'falsa erudição' e burocracia estatal. E por que? Por que essa 'boa ação'? Ainda mais num mundo de oportunistas? É que Alpanus acredita na força interior do estudante Balthasar – que é um poeta – e o mago acredita que no mundo moderno somente os poetas poderão assegurar aquela 'faísca' mágica – da 'música interior' - que animava o mundo das fadas.

“Estimo muito”, continuava Prosper Alpanus, “Estimo-te muito a adorável juventude, jovens iguais a ti, que trazem a nostalgia e o amor nos corações puros, em cujo íntimo ainda ressoam aqueles majestosos acordes que pertencem a um distante país cheio de maravilhas divinais, que é a minha pátria. Os felizes, os homens dotados com esta música interior, são os únicos que podem se chamar de poetas, apesar de que muitos assim se chamem, os que pegam em mãos, de primeira, um instrumento de corda e passam o arco em ruídos confusos, criados pelo gemer das cordas sob a ação dos punhos, e que consideram música excelente que ressoa de seu próprio íntimo.”
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(“»Ich liebe,« fuhr Prosper Alpanus fort, »ich liebe Jünglinge, die so wie du, mein Balthasar, Sehnsucht und Liebe im reinen Herzen tragen, in deren Innerm noch jene herrlichen Akkorde widerhallen, die dem fernen Lande voll göttlicher Wunder angehören, das meine Heimat ist. Die glücklichen, mit dieser inneren Musik begabten Menschen sind die einzigen, die man Dichter nennen kann, wiewohl viele auch so gescholten werden, die den ersten besten Brummbaß zur Hand nehmen, darauf herumstreichen und das verworrene Gerassel der unter ihrer Faust stöhnenden Saiten für herrliche Musik halten, die aus ihrem eignen Innern heraustönt.” cap. VII)

Nem todos que assim se chamam 'Poetas' estão ligados aquela 'música interior' do mundo das maravilhas. Pois, por mais que tantos tenham 'sentimentos', nem todos são Poetas. A sensibilidade é um dos itens – mas falta talento, intuição, observação, educação estética.

Por fim, antes de abandonar o mundo dos 'iluministas' – numa viagem rumo a Índia – o mago Alpanus que ser compreendido, por mais que venha a soar 'non-sense', a reconhecer que é um tanto excêntrico, que deveria mesmo ter saído de um conto fabuloso,

“deves estar admirado com a minha fala, além disso muita coisa em mim deve parecer a ti bem incomum. Pense, porém, que eu, de acordo com o julgamento das pessoas sensatas, sou uma pessoa que deveria estar num conto-de-fadas, e sabes bem, caro Balthasar, que as pessoas podem se comportar de forma estranha e dizerem bobagens quando bem quiserem, sobretudo quando por trás de tudo há oculto algo que não pode se desprezar.”
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du magst dich wohl über meine Reden verwundern, dir mag überhaupt manches seltsam an mir vorkommen. Bedenke aber, daß ich nach dem Urteil aller vernünftigen Leute eine Person bin, die nur im Märchen auftreten darf, und du weißt, geliebter Balthasar, daß solche Personen sich wunderlich gebärden und tolles Zeug schwatzen können, wie sie nur mögen, vorzüglich wenn hinter allem doch etwas steckt, was gerade nicht zu verwerfen.” cap. VII)


No final, até os céticos Fabian e Pulcher passam a acreditar em encantamentos, magias, e outros 'irracionalismos' que desafiam a soberania da erudição, da ciência, do bom andamento do Estado e o bem-estar dos cidadãos. Precisam seguir os conselhos do lado bom da magia contra o oportunismo da magia degenerada – onde os fins justificam os meios – para então restaurarem o equilíbrio – a meritocracia.

Assim é que o drama se resolve. Os nobres poderosos percebem que Cinábrio – ou Pequeno Zaches – não é um deles, é um plebeu – e deve ser expulso da 'boa sociedade'. E os demais personagens adentram os círculos de poder – o príncipe, o Estado, a Universidade, a Família - pelos méritos pessoais. Balthasar é puro e apaixonado, então será aceito no coração de Candida, enquanto os talentosos estudantes podem sonhar com um cargo – e as condecorações - que o oportunista Zinnober não hesitou em usurpar.

O próprio Pequeno Zaches é expulso do poder e do mundo – ele morre num momento de rebelião dos plebeus – e reencontra a origem – a mãe camponesa é aquela que o reconhece no final. O fim reata-se ao início, e na morte, na solidão derradeira, Zaches não parece tão feio ou mesquinho – ele que, na verdade, foi apenas mais um 'bobo da corte' numa encenação de poderes dos quais ele mesmo foi vítima.


out/10
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Vamp Tale - O Homem Caolho (LdeM)




O Homem Caolho

A tempestade vem castigar a orla marítima, ameaçando uma aldeia de pescadores, sob a luz do farol bruxuleando na noite avançada. Arrogantes, por entre os arrecifes, as ondas ameaçam os litorais, ofertando à aldeia uma atmosfera úmida e salgada.

Os dois vultos, sob o abrigo dos galpões, ali no cais, observam a borrasca, que vem agitar os seus sobretudos. Um tremor a transmitir-se dos clamores rudes dos trovões até as faces rígidas, e pálidas.

O que se chamara Wendy Stake, traços de maturidade e experiência, num corpo saído da adolescência, se abriga melhor, nas vestes acolchoadas, contra o vento insinuante.

Ao seu lado, o outrora Cyril Walpole, estende os olhares até a manta alvacenta onde o firmamento tempestuoso encontra a massa das águas oceânicas.

Ambos em resguardado silêncio, presos a seus próprios fragmentos de recordações. Enquanto o vento dança e rodopia, difundindo gotículas e sal marinho, os dois vultos, imagem decadente de corpos vivos, podem vislumbrar nas águas turbulentas a metáfora de suas desgraçadas existências.

Outrora homens ligados, e dependentes. Hoje, restos de peregrinações incertas e inúteis. O antigo Sr. Stake, comerciante, mercador, voz ativa no Conselho de sua importante cidade, portuária e administrativa. O antigo senhor Walpole, acionista majoritário de uma companhia de navegação, dono de estaleiros, batizara muitos navios, que singraram audaciosamente os mares durante a última Grande Guerra.

Porém suas existências sob os nomes civis são névoa tênue, que emergem dos profundos abismos da fatalidade em momentos de insondável contemplação. Ondas açoitando um litoral indefeso - eis um cenário propício!


Slug, ou Lesma, como agora é invocado o antigo Sr. Walpole, devido a seus movimentos de apurada lentidão, vê na fúria das ondas o espumar da resistência de suas vítimas. Ou o borbulhar do sangue no corpo amedrontado. Ou o esguinchar da vida na carícia do beijo fatal.

Agasalhado, Stake é ainda incapaz de vencer a frieza que o envolve. Um frio desde dentro. Ele que aceitara sua horrenda condição e para a qual convidara um candidato a elo na sua corrente de rivais. Ele estendera a mão, ainda que rude, ao poderoso Walpole, ou Slug, convidando-o para uma bem diversa existência de competição e caça. A sobrevivência predatória no jardim selvagem sem deuses.

Súditos de Sua Majestade, imaginavam as Ilhas além-mar, os prados verdejantes e as Terras Altas, os castelos e as lendas as quais davam abrigo. Ambos viam na superfície da água a mão a receber a espada do antigo rei bretão.

E meio século de errância! E onde o Sr. Stake, herdeiro, voz persuasiva, bem-sucedido, jovem esposo? Onde seu sonho? The House of Commons? E onde o Sr. Walpole, construtor de navios e de um império? O pai de cinco existências caído nas malhas da teia de um jovem enlouquecido?

Ambos haviam desaparecido a bordo de um transatlântico, enquanto temiam os submarinos alemães. Corpos jamais encontrados, diziam as manchetes. Mas ninguém notara que um deles já estava morto, meses antes.

Mas não se jogaram ao mar. A vítima fora ocultada, em torpor, meio aos caixotes, nos decks inferiores. No cais da cidade mediterrânea a carga foi desembarcada normalmente.

Sim, quantas lembranças! Mas agora não apenas as ondas eufóricas atraem a atenção dos vultos de sobretudo. Observam que numa esquina está um sujeito. Aparentemente também a observar o mar. E há muito a se observar! Barcos são invadidos, virados. Velas são rasgadas, casebres destelhados. A avenida litorânea tomada pelas águas.

O cidadão atento às convulsões da tormenta, e os vultos atentos ao mínimo gesto do cidadão. Sim, observam-no cuidadosamente. O sujeito parece olhar meio de lado, assim inclinado para a direita. Em dados momentos até parece que é o sujeito que observa os vultos.

Este mútuo interesse incomoda os seres de ar tão sombrio, que abandonam a contemplação da tempestade, e adentram as ruas enlameadas da cidade portuária.

Porém, nas trevas densas, os pálidos vultos sentem a companhia. Na escuridão um único olho brilha. Um homem se aproxima. Não se incomoda com os sinistros. Até parece segui-los! Será o sujeito do cais?

Seguindo para Oeste, antes do amanhecer estão em Le Havre. De onde, no entardecer do segundo dia, saíra um navio para a Escandinávia, com parada em Rotterdam. Eis a conexão que trouxera os vultos ao litoral norte, tão próxima de casa. a antiga casa, o único lugar, o último lugar ao qual puderam considerar um lar.

Stake lança um olhar ao seu amante de gestos lentos. Slug seguia em passadas ritmadas, sem sobressaltos. Ambos em silêncio. Stake atento aquele que poderia ser seu pai, mas no entanto, no mundo sombrio, é o seu filho. Como ousaria abandonar Walpole na morte? Ainda aquela admiração adolescente?

Stake imerso em seu manto de ternura, Slug em seu silêncio lento e pegajoso, e as pegadas de um terceiro ecoam nas paredes lodosas. A presença do curioso incomoda, a situação é toda muito peculiar.

O homem está próximo. Em sua face um olho atento, intimidante, enquanto o outro jaz inerte, a órbita num corte grotesco. Um ciclope?

Uma voz sóbria e profunda:

- Senhores, espero que nesta escuridão possa lhes servir, como guia, o meu único olho.

Os vultos entendem. Sim, o "homem caolho", One-eyed Man. A advertência de Montauban. Sobre o homem cegado por uma estaca, quando tentava cravá-la em um dos nossos. Agora, seu ódio guia-o por décadas, ou serão séculos?, dentro da noite, caçando impiedosamente. Sua vingança espelhada em seu único olho de ciclope!

Stake segura o braço de Walpole, agora à espera da fatalidade. Ambos sabem que acabam de encontrar o fim. O fim, realmente. Nada de lutas, resistências vãs.

E sabem que assim, em tal atordoamento, facilitam o trabalho do homem de um olho só.

Na escuridão um único olho brilha.

Agora o jovem pai procura o velho filho e no silêncio do gesto se despedem. Ansiosos, aguardam, enfim, a segunda morte.


Jul/01/Jan/05