sábado, 14 de agosto de 2010

Rimas Gerais das Minas





Rimas Gerais das Minas

ao poeta tropeiro Ricardo Evangelista

Empoeiradas estradas, de rubra terra
Pisada pelas muitas tropas rumo à serra

Onde flutua a neblina entre os ramos
Das encurvadas árvores que deixamos

Ao subirmos do vale ao arraial nascente
E que na busca do ouro encheu-se de gente:

“Tudo o que temos extraímos das lavras
Por isso na lida somos de pouca palavra,

Por desconfiança somos gente quieta
- Vertemos em suor tudo o que nos afeta;

O hoje viver, e não o amanhã em aberto,
No agitar das bateias o fado é incerto.”

Mas segue numa tropa mil mercadorias,
Junto aos muares de mascates tantos dias:

“Quem julga só de brilho viver, não cultiva,
Sem nossas carroças de grãos não há quem viva,

Daí em caravanas cruzamos os sertões
P'ra nas vilas poder alimentar os peões,

Dizem que levamos o ouro que extraem na lida,
Mas não é o preço p'ra se arriscar na vida?”

O bandeirante não suporta o luso falar,
E em nativo põe-se logo a confabular:

“Das Gerais os Emboabas devem sumir
Que as Minas são nossas enquanto existir;

Por ventura trilhamos as tantas pedreiras,
Ferindo nossos pés desnudos nas ladeiras,

Para tudo aos de botas grosseiras entregar,
Aos forasteiros que só querem nos expulsar?”

Meio ao pó, que da estrada sobe, podemos ver
As tropas nas vilas o comércio abastecer,

E nas vendas os peões facas afiando
E muitas senhoras, nos casarões, rezando:

O conflito na terra onde é preto o ouro
e quando rubro se torna é mau agouro!
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sábado, 7 de agosto de 2010

Que importa o poema? (VFC)




VINICIUS FERNANDES CARDOSO


ANOMIA "(...) O mundo nunca esteve tão certo de cabeça para baixo."
{Do livro Situacionista, teoria e prática revolucionária.
São Paulo: Conrad Livros, 2002}.

Que importa o poema / se o pânico assoma?
Que importa a pena / se a mão nada cria?
Que importa a página / sem quem a leia?
Que importa a saudade / se não há amada?
Que importa a confidência / se não há amigo?
Que importa o Eu, / se não cabe em si mesmo?
Que importa a família / se parece polícia?
Que importa a igreja / se não for sagrada?
Que importa a Bíblia / se o padre interpreta?
Que importa o pastor / se cobra pelo show?

Que importa o desejo / se será recalcado?
Que importa o médico / se só receita remédio?
Que importa a verdade/ se não pode ser dita?
Que importa o governo / sem legitimidade?
Que importa o povo/ sem identidade?
Que importa a política / se expressão de poder?
Que importa a decisão / se vinda de poucos?
Que importa a crítica / sem critério? superficial?
Que importa a crítica / se assimilada pelo sistema?
Que importa contestar / sem nada propor?
Que importa a cidade / sem cidadãos, só idiotas?
Que importa a revolução /a caminho da decadência?
Para trás ou para frente.
Destino sem meio-termo.
Da Grécia à Idade Média.
Caminhamos para trás?
A História se repete?
Que temer o império / sendo tigre de papel?
Que importa a mudança / se não for mundial?
Que importa a revolução / se não for permanente?
Que importa a revolução / se vitoriosa, for traída?
Que importa o socialismo / se não for universal?
Que importa o socialismo / sem democracia direta?
Que importa a libertação / se não for radical?
Que importa mudar / se for para manter?
Boa via a Reforma?
Mudança de cima para baixo?
Antes a via pacífica?
Que importa a reflexão/ se assistem televisão?
Que importa a razão / se apenas instrumental?
Que importa a teoria / se não ilumina? total?
Que importa a prática / sem orientação teórica?
Que importa o gesto / se globalizam a ação?
Que importa a diferença / se sinônimo de variação?
Que importa o intelecto / se cheio de estereótipos?
Que importa a democracia / se todos pensam igual?
Que importa a opinião / se politicamente correta?
Que importa o corpo / se estética sem saúde?
Que importa a beleza / se pura padronização?
Que importa o Ocidente / de costas para o Oriente?
Que importa o Outro / se um nome virtual?
Que importa as pessoas / se interagem na internet?
Que importa a pergunta / se aceitam sem crítica?
Que importa pensar / sem direito à errar?
Que importa a consciência / sem direito à incoerência?
Que importa estudar / se para tirar nota?
Que importa o cotidiano / se banal, sem encanto?
Que importa o sagrado / se asfaltam o floresta?
Que importa o natural / se cimentam o quintal?
Que importa o animal / se não for nosso irmão?
Que importa o furacão / se expressão natural?
Que importa a palavra / se limita o pensar?
Que importa a imagem / se limita o olhar?
Que importam as idéias / se não transcendem?
Que importa o pensamento / se não for original?
Que importa a obra / sem criatividade?
Que importa a técnica / sem haver expressão?
Que importa a criação / se não segue a intuição?
Que importa o programa / se apenas paliativo?
Que importa o pacote / se privilegia poucos?
Que importa os juros / se isso nada diz?
Que importa superávit / se para pagar dívida?
Que importa o imposto / sem voltar em benefício?
Que importa o concurso / se mais um caça-níquel?
Que importa o referendo / se é conversa fiada?
Que importa o país / se parte dum sistema?
Que importa a nação / se uma encenação?
Que importa o projeto / se não for nacional?
Que importa a burguesia / se atravanca a evolução?
Que importa o proletariado / se ignora o desempregado?
Que importa o Estado / se ditadura de classe?
Que importa o sindicado / se só reivindica salário?
Que importa a O.N.G / se não dá para comer?
Que importa criar fundo / se o mundo já afundou?
Que importa o social / se só pensam em si?
Que importa o jornal / se nunca imparcial?
Que importa a imprensa / se mais uma empresa?
Que importa o petróleo / se mais um monopólio?
Que importa o mercado / sem haver competição?
Que importa a sociedade / se ainda de classe?
Que importa a sociedade / se ainda hierárquica?
Que importa o policial / se espanca o irmão?
Que importa o soldado / se torna-se um sádico?
Que importa o gesto / se engessado, repetido?
Que importa o pobre / se vota no patrão?
Que importa o rico / se só no condomínio?
Que importa o cristão / se peca por omissão?
Que importa moral / se virar moralismo?
Que importa o exemplo / se o esperto aproveita?
Que importa ser bom / se lhe fazem de bobo?
Que importa a pessoa / sem personalidade?
Que importa o herói / sem nenhum caráter?
Que importa o sexo / sem sexualidade?
Que importa o amor / se um dia acaba?
Que importa o cômodo / se serve para dividir?
Que importa o muro / se serve para separar?
Que importa a porta / se serve para fechar?
Há liberdade?Há igualdade?Há fraternidade?
Que importa o parque / fechado quando posso?
Que importa a praça / escura e esvaziada?
Que importa a boca / se só diz Não?
Que importa a música / se não toca na rádio?
Que importa o sábado / se não tem mais embalos?
Que importa a festa / se acaba cedo?
Que importa o bar / se não vai até tarde?
Que importa a vitrine / se não posso tocar?
Que importa o produto / se não posso comprar?
Que importa a partida / se o time joga mal?
Que importa a seleção / se seleção de vaidades?
Que importa o esporte / se mais uma commodity?
Que importa a declamação / se não prestam atenção?
Que importa o artista / se ninguém valoriza?
Que importa a vida / se só sobrevivência?
Que importa o suicídio / se consideram crime?
Que importa a eutanásia / sem psicologia para tal?
Que importa o funeral / se fica caro o caixão?
Que importa as leis / se não são para todos?
Que importa as instituições / se não funcionam?
Que importa as eleições / se são farsas festivas?
Que importa o século 21 / se é apenas mais um?
Que importa o tempo / se relógio, não interior?
Que importa deus /se for um juiz?
Que importa rezar / se sempre para pedir?
Que importa ser adulto / se cá dentro o menino?
Que importa conhecer / sem oferecer redenção?
Que importa a lucidez / senão ápice da loucura?
Que importa transcender / se não for na imanência?
Que importa a ciência / se não for mística?
Que importa o poema / se não for sem fim?
Que importa escrever / se exigem beletrismo?
Que importa a literatura / se só tinta e papel?
Que importa o autor / se não for todos nós?
Que importa tentar / se não for até o fim?
Que importa o fim / sem ao menos tentar?
Que importa caminhos / se há de se escolher?
Que difícil escolher / tendo que renunciar.
...

Dialética, constante. Humildade, sempre.


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Vinicius Fernandes Cardoso
poeta e sociólogo de Contagem/ MG
http://www.academiacontagensedeletras.webs.com/
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domingo, 1 de agosto de 2010

"É proibido comer a grama" de Wander Piroli




sobre “É proibido comer a grama” (2006)
contos de Wander Piroli (1931-2008)

A Literatura enquanto anti-ajuda


A Arte enquanto mercadoria tem dominado no curto século 20,
com suas vanguardas e seus quadros valiosos, seus gênios e
loucos, seus mecenas e marchands, produzindo para mostrar,
mostrando para vender, vendendo para lucrar. Vejam Van Gogh
que, em vida, vendeu apenas um quadro, enquanto praticamente
morria de fome, e depois os quadros do holandês atingem
preços milionários!

Com a Literatura não poderia ser diferente. Ao lado de escritores
preocupados com a arte literária, os textos, a linguagem, os
enredos, assim os mestres Kafka, Proust, Mann, J Joyce, dentre
outros, haviam também os que escreviam atentos a demanda, ao
público de leitores em potencial. O mercado exigia 'pluralidade'
e também 'entretenimento' , o que atraiu a dedicação de escritores
donos de uma escrita fácil, lúdica, envolvente, com ênfase mais
no Enredo do que na Linguagem.

Ao longo das últimas décadas (desde os anos 60 e 70) o fenômeno
dos best-sellers, os mais vendidos, já é comum para o mercado
consumidor de Literatura. São aqueles autores que escrevem
bem – e recebem merecida atenção. Ou são os escritores que
escrevem o que os grupos populares querem ler (ou somente
conseguem ler, por deficiência educacional ou por lavagem
cerebral feita pela Indústria Cultural via dominância midiática)
e assim já 'conquistam' uma ampla fatia do mercado (além de
críticos já especializados em 'nichos culturais', crítica dita
especializada, em jornais, revistas e tablóides)

Outros autores ficam no meio termo: são eruditos e são populares;
são artistas e também políticos; sabem conciliar o útil com o
agradável. (No Brasil, podemos citar: Érico Veríssimo, Jorge Amado,
Fernando Sabino, Nelson Rodrigues, Dias Gomes, Chico Buarque...)
São adaptados em minisséries 'globais', são indicados para leitura
em vestibulares. São entretenimento, mas sem apelos comerciais,
ou voltados para o que é 'vendável'.

Mas os vendáveis, estes sim: já pensam como 'agradar' o leitor.
Fazer o leitor se sentir o máximo, esquecer os problemas pessoais
e sociais, anestesiar as indagações já dispondo respostas prontas.
Assim são as literatura de fantasia (bruxinhos e dragões, aliens
e vampiros, etc), de mistério ou policiais (desde Agatha Christie
e Georges Simenon até um Dan Brown), de erotismo (inúmeros
exemplos), de auto-ajuda (todo um segmento que se ampliou
monstruosamente! ), de espitualismo (com a decadência da
Religião o que não faltam são os religiosos de inúmeras seitas
e credos e crenças e superstições)

Pois bem, enquanto existe hoje a glamourosa e rentável literatura
de auto-ajuda, o fato é que sempre existiu aquela de anti-ajuda.
Aquela escrita que esmaga, sufoca, oprime o Leitor até que este
também realize uma Catarse, ao lado do Autor. Uma Escrita que
faz perguntas e não responde; faz insinuações e não explicita;
faz ameaças e nunca nos elimina de verdade. Onde não há final
feliz, onde o Mal sempre impera, onde o Caos zomba da Ordem,
onde o mocinho nunca vence (pelo menos, ao lado da mocinha).

Assim, enquanto anti-ajuda, é a obra do mineiro, belorizontino
(ali do boêmio bairro Lagoinha ) Wander Piroli, jornalista e escritor,
recém-falecido. Seus contos são narrações ao estilo jornalístico,
a lembrar aqueles tablóides ensanguentados vendidos a poucos
centavos nos semáforos. A lembrar a pressa de um Hemingway,
e a tragicidade de um Nelson Rodrigues. Uma escrita sem frescuras,
apresentando o fato desnudo, que devemos engolir cru e à seco.
O Leitor se angustia justamente pela arte não 'artística', pelo frio
tiquetaquear das teclas de uma velha Remington.

Nos contos de “É proibido comer a grama”, temos as faces
da miséria humana. Tema muito destilado em Dostoiévski (para
ficarmos no clássico), onde a miséria é fértil em gerar outras
misérias, onde penúrias geram indignidades, que geram crimes.
Mas ao contrário do escritor russo (a tecer digressões, afundando
as personagens na lama, pouco a pouco, em redemoinhos de
filosofia e psicologia), o autor mineiro se satisfaz em apresentar
o fato em manchete, o fato jornalístico, a violência que já é banal.
A morte descrita com precisão de médico-legista. (Até quando
é apenas sugerida, a morte – ou a violência que a antecede –
está assustadoramente presente, nas entrelinhas)

São narrativas curtas, centradas em poucas personagens, dramas
banais, porém demasiado humanos. Com as exceções de quatro
contos longos, o do Professor Thales, o do taxista Fernandes (e o
defunto), o do homem sério que se envolve com uma prostituta,
e do Coronel Rosendo, que lembra um pouco a 'ambiência' de
O Coronel e o Lobisomem”, de José Cândido de Carvalho
(que em se tratando de romance tem outra linguagem, enredo, etc),
os textos ferem nossa sensibilidade de 'beleza' e 'harmonia',
nossas crença na 'bondade humana', no 'homem cordial' e
no 'pacato cidadão'.

Com o predomínio da 3a pessoa, um narrador muito direto, pouco
espaço deixando aos devaneios das personagens (mais
característicos na escrita da Clarice Lispector), onde a Miséria
(quase corporificada! ) é personagem coadjuvante (e quase
protagonista! ) em todos. Aqui encontramos relatos de assaltos,
estupros, antipatias e assassinatos, acidentes, brigas em bar,
adultérios e tragédias consequentes. Tudo aquilo para golpear
o Leitor acostumado a leitura de tablóides de 25 centavos.

Então qual o diferencial: justamente esta Ironia com a Escrita!
Sem idealizar, sem emoldurar, sem divagar, sem 'encher lingüiça',
o Autor continua a empurrar os vomitórios goelas adentro; a
arrastar uma enxurrada de detritos desumanizados, os mesmos
que enchem as nossas ruas e praças. Culpa das vítimas? Não,
mas de um sistema que precisa reproduzir a miséria para garantir
o lucro de uns poucos privilegiados! Onde uns se entopem de
comidas sofisticadas e outros sentam no meio-fio para devorarem um
marmitex frio.

A miséria não dá tréguas. Assim notamos na literatura de Graciliano
Ramos ("Vidas Secas" é o relato trágico onde o humano se animaliza),
de Nelson Rodrigues ("Beijo no Asfalto" é a tragicomédia da alienação
urbana), de Rubem Fonseca ("Agosto" mostra o histórico e o trágico
lado a lado), onde a Escrita apresenta sem floreios a vida nua e crua
dos seres explorados e vitimados, dos 'humilhados e ofendidos'
(novamente Dostoiévski), para nossa edificação e catarse. Para
vomitarmos e escarrarmos na miséria do próximo – e no dia seguinte
pensarmos: antes ele(a)s do que Eu??

Quando as personagens individualizam problemas que são coletivos
(a miséria passa a ser culpa da vítima!) percebemos o grau de
alienação política (e existencial) que afetam nossos cidadãos
despolitizados, explorados pelas ânsias de lucro burro, dopados pelos
programas televisivos, com suas caixas cranianas agitadas pelo
tremor dos ônibus suburbanos. Assistimos aos dramas alheios
como filmes de Hollywood, distantes e plenos de efeitos especiais –
um espetáculo – e nada mais. O mendigo ali na esquina é um bom ator,
e nada mais. O senador corrupto também interpreta uma personagem:
a de senador honesto. Assim somo todos bons 'atores sociais'
(quem quiser pode ler Durkheim, Weber, Benjamin, Touraine
e Peter Berger)

Transitando nos bordéis da Guaicurus, ou nas ruas escuras da
Lagoinha, ou nas avenidas centrais, assaltados e violentados,
perseguidos e aprisionados, somos iguais às personagens, sozinhas
e coisificadas em seus dramas, pequenas tragédias cotidianas, em
mal-entendidos que terminam em poças de sangue e gritos de horror.
Belo Horizonte, para Wander Piroli, é igual a uma 'selva de pedra',
com tigres e onças rasgando a carne macia das ovelhas, ou
rinocerontes turbinados esmagando formigas aleijadas.
É o “salve-se quem puder!” da vida urbana.

Enquanto sobra por aí a dita 'literatura de auto-ajuda', a coletânea
de contos “É proibido comer a grama” de Wander Piroli, é a
literatura de anti-ajuda, de des-ajuda.
Não vem adular ou encantar o Leitor ávido de leitura fácil.
Não vem anestesiar o cidadão nem ignorar os dramas
sociais, não vem responder nem propor soluções. Vem desmascarar,
abrir as feridas, vomitar sobre os plebeus, ironizar os burgueses,
humilhar a dita Ordem que as autoridades, em vão, proclamam.
Ordem que somente poderá existir quando os cidadãos, plenamente
socializados, compartilharem suas riquezas, e quando, plenamente
politizados, assumirem o controle sobre as suas próprias vidas.


Ago/09
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sábado, 24 de julho de 2010

BRECHT - Perguntas de um trabalhador que pode ler




BERTOLT BRECHT


FRAGEN EINES LESENDEN ARBEITERS

Perguntas de um trabalhador que pode ler

Quem edificou a Tebas que tinha sete portas?
Nos livros permanecem os nomes de reis.
Os reis arrastaram os blocos de pedra?
E a muitas vezes arrasada Babilônia –
Quem a reconstruiu tantas vezes? Em quais casas
Da dourada Lima moravam os construtores?
Na noite em que a Muralha da China foi terminada
Para onde foram os pedreiros? A grande Roma
É cheia de arcos de triunfo. Quem os construiu? Sobre quem
Os Césares triunfaram? A célebre Bizâncio
Tinha apenas palácios para os seus moradores?
Mesmo na legendária Atlântida
Na noite, quando o mar a tragou
Os afogados gritavam aos seus escravos.


O jovem Alexandre conquistou a índia.
Ele sozinho?
César derrotou os gauleses.
Ele não tinha sequer um cozinheiro ao seu lado?
Filipe da Espanha chorou, quando sua Grande Armada
Afundou. Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos. Quem
Venceu além dele?


Cada página uma vitória.
Quem cozinhou o banquete da vitória?
Cada dez anos um grande homem.
Quem pagou os gastos?


Muitas histórias.
Muitas perguntas.

domingo, 18 de julho de 2010

sobre Trapecio / Trapézio de Noé Zayas




Sobre a obra Trapecio/ Trapézio
do escritor Noé Zayas (República Dominicana, 1969-)
(Ediciones Angeles de Fierro/ Anome Livros)
(tradução: Cristiane Grando)

Literatura enquanto denúncia da miséria humana

Quando se pensa nas funções da Literatura, as sociais e as individuais, quando se permite pensar a Escrita enquanto algo-além-do-texto, surge a questão do Testemunho, da Denúncia, de uma voz a declamar e desabafar, mobilizando e trans-formando os Leitores.

A Escrita pode surgir como um testemunho das misérias do Autor ou do Mundo do Autor, de uma realidade dentro e também fora. Uma tragédia a ser denunciada, um mundo que exige mudança e reforma. O Autor aponta (e ironiza) o erro, o ridículo do erro, no propósito de denunciar e superar – restabelecer o equilíbrio. (Senão, então, por que escreveria? Para re-afirmar o Erro? Mas aí não seria um 'erro' para o Autor...)

Mas a Escrita não é apenas Panfleto. Possui um Texto tecido de Linguagens, visa emocionar e informar, causar náusea ou prazer. Tendo um Enredo – com características estilísticas - para dizer algo, apresenta-se como um deus-de-duas-faces: o texto e o contexto. O que diz de si-mesma e o que diz dos outros e para os outros. Em resumo: Enredo/Forma, Estilo/Conteúdo.

A obra Trapecio/ Trapézio (contos? poema em prosa?) do escritor Noé Zayas mostram bem o dilema da Escrita diante da miséria humana: estetizar ou denunciar? Ser arte ou panfleto? Como conciliar ambas das perspectivas?

Encontramos as personagens todas suspensas no circo social, umas e outras se equilibram em acrobacias e saltos mortais, neste desfile de desgraça humanas, neste 'vale de lágrimas', onde se debatem todas em loucura, violências, homicídios, homofobia, traição, indignidades.

Todos os dramas carregados de humanidade e lágrimas, mas retratados (logo intermediados) pela Linguagem. A Escrita alivia ou dramatiza ainda mais? O Autor é mero observador? Um simples médium? Ou sofre junto, tem com-paixão, com as personagens?

No gênero literário pode-se definir como conto, mas a Linguagem é de poema em prosa (o que lembra muito os textos de Baudelaire), com narrativas curtas, concentradas, com algum 'realismo mágico', com o Narrador, em busca de cumplicidade, se dirigindo ao Leitor.

Ou então, interpela a Personagem, confunde a mesma com a Voz narrativa (a causa a leve impressão de ser em 1a pessoa...), apresenta com ironia lírica as imagens da decadência. Contos curtíssimos que não poupam o Leitor das nuances da indignidade, enquanto 'aquela espiadinha' revela o voyeur em potencial. Ver a desgraça alheia é entretenimento?

Um parágrafo basta – se é que é um conto – quando a impressão da miséria é mais do que o suficiente - “La perspectiva del sueño em la realidade inconstante” - “No era un sueño, ni uma alucinación, ni un extravío de la mente. Era, indudablemente, su cuerpo lacerado; uno que otros perros ladrándole a él, no a su cuerpo, y el ruido de un vehículo que huía.”

Na tradução (correta e direta) de Cristiane Grando: “Não era um sonho, nem uma alucinação, nem um deambular da mente. Era, indiscutivelmente, seu corpo lacerado; um ou outro cachorro ladrando para ele, não para o seu corpo, e o ruído de um veículo que fugia.”

Onde o Leitor precisa imaginar – recompor – o restante. Alguém caído ao asfalto, atropelado (¿propositalmente?), a ver a vida se esvair no 'corpo lacerado'.

Assim, o Autor espera a atenção e a imaginação do Leitor. Não entrega o serviço pronto, não facilita. Dicas e sugestões são a matéria-prima. Digressões, alucinações. Tudo para narrar as nuances da degradação. A violência policial, a pobreza das favelas, a infidelidade e a crise familiar, os abusos sexuais, o aprendizado da violência através da violência, o suicídio, o psicótico que assassina o psiquiatra, o êxodo rural, a desigualdade gerando violência, a visão irônica do milagre, a arte mumificando a realidade, os pecados nossos de cada dia.

Assim, cada conto (ou poema em prosa) é um golpe, uma navalhada a mais, na face do leitor que busca entretenimento, que espera algo 'de alto astral' para adormecer ou levantar com pé direito. (Quando li Trapecio pela primeira vez, ousado que sou, tive pesadelos, até ser obrigado a desistir. Um mês depois, eis que reanimado...) Aqui, Noé Zayas não vem apresentar literatura fácil ou de auto-ajuda, para insones e depressivos do cotidiano. É contra-indicado para pessimistas crônicos. (Nem sei porque fui insistir em ler...)

Alguns contos possuem tinturas kafkanianas, algo de sombrio, a lembrar o lúgubre E. A. Poe, algo se surreal, a lembrar o nosso Murilo Rubião, como é o exemplo de “El sonãdor/ O Sonhador”, onde inquieto por sonhos recorrentes, relativos a própria morte, o cidadão, no entanto, segue seguro, pois julga tudo um sonho, nada mais que um sonho. Mero engano: de repente, a tragédia onírica é apenas a ante-câmara da tragédia real. O Autor reduz ao essencial, deixa de lado toda compaixão. Descreve como se fosse um jornalista. Sequer faz a gentileza de nomear o protagonista. Trata-se de um homem anônimo, outro qualquer nas multidões. No final, sabemos que algo medonho será ruminado em nossa imaginação.

Naquela manhã despertou do sonho em que era apunhalado por sua esposa, para imediatamente reconhecer o homem que, dirigindo-se até ele, descarregava o revólver em seu peito. Não se surpreendeu, como não o surpreendia nenhum dos sonhos em que constantemente morria em mãos de algo ou de alguém. Foi nessa mesma manhã, a caminho do trabalho, quando cruzava a avenida Liberdade que viu, sem dúvida que viu, aquele Mercedes Benz rosado que se dirigia até ele. Por um breve instante o atormentou a dúvida, mas essa se dissipou com a consciência de que isso era apenas outro de seus sonhos e seguiu caminhando; desta vez tudo foi diferente.” (trad. Cristiane Grando)

Se o objetivo do Autor é nos assustar com seus pesadelos íntimos e seus recortes sangrentos da realidade, então obteve sucesso. Nada aqui é gratuito, tudo aqui tem seu preço. E custa caro. Depois do terceiro título, já passamos a temer pela Personagem, a esperar o pior. Ninguém se salva, todos caem dos trapézio, todos caem sem qualquer rede para aliviar a queda. E o chão é duro e fatal.

Se o propósito do Autor é conquistar nossa compaixão de Leitores, no sentido de sofrermos junto com os protagonistas e figurantes em miséria, pouco consegue. Ou o trivial: a miséria ama companhia. Ou: antes ele do que eu. Ou ainda: desde que não aconteça comigo! Nós, os Leitores, somos observadores do alheio, das vidas alheias, somos corvos empoleirados nos bustos de Palas, a se deliciar com o horror. (Afinal, Poe não é um sucesso? O Marquês de Sade não é um sucesso?) A miséria alheia (ainda mais de protagonistas, mocinhos e mocinhas, vilões, figurantes...) não desperta nossa compaixão, mas nosso desprezo. Jogamos uma moedinha para o mendigo e viramos a face – caso contrário, há o perigo de cuspirmos imediatamente na miséria.

Set/09
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sábado, 10 de julho de 2010

Neruda - Ode ao Dicionário




PABLO NERUDA


ODE AO DICIONÁRIO

Lombo de boi, pesado
carregador, sistemático
livro espesso:
quando jovem
te ignorei, me vestiu
a suficiência
e me acreditei completo,
e estufado tal um
melancólico sapo
recitei: “Recebo
as palavras
diretamente
do Sinai bramante.
Reduzirei
as formas à alquimia.
Sou um mago.”

O grande mago se calava.

O Dicionário,
velho e pesado, com seu jaquetão
de couro desgastado,
se aquietou silencioso
sem mostrar suas provetas.

Porém um dia,
depois de havê-lo usado
e desusado,
depois
de declará-lo
inútil e anacrônico camelo,
quando em longos meses, sem protesto,
serviu-me de poltrona
e de almofada,
rebelou-se e se plantando
em minha porta
cresceu, moveu suas folhas
e seus ninhos,
moveu a elevação da sua folhagem:
árvore
era,
natural,
generoso
manzano, manzanar ou manzanero,
e as palavras
brilharam em sua copa inesgotável,
opacas ou sonoras,
fecundas nos ramos da linguagem,
carregadas de verdade e de sonho.

Aparto uma
só das
suas
páginas:
Caporal
Capuchón

que maravilha
pronunciar estas sílabas
com fôlego,
e mais abaixo
Capsula
oca, esperando azeite ou ambrosia,
e junto delas
Captura Capucete Capuchina
Capracio Captatorio

palavras
que deslizam como uvas suaves
ou que à luz estalam
como germes cegos que esperaram
nas adegas do vocabulário
e vivem outra vez e dão vida:
uma vez mais o coração as queima.

Dicionário, não és
tumba, sepulcro, caixão,
túmulo, mausoléu,
és senão preservação,
fogo escondido,
plantação de rubis,
perpetuação viva
da essência,
celeiro do idioma.
E é belo
recolher em tuas filas
a palavra
de estirpe,
a severa
e esquecida
sentença,
filha da Espanha,
endurecida
como grade de arado,
fixa no seu limite
de antiquada ferramenta,
preservada
com sua beleza exata
e sua dureza de medalha.
Ou a outra
palavra
que ali vimos perdida
entre linhas
e que de pronto
se fez saborosa e lisa na nossa boca
como uma amêndoa
ou terna como um figo.

Dicionário, uma mão
de tuas mil mãos, uma
de tuas mil esmeraldas,
uma

gota
de tuas vertentes virginais,
um grão
de
teus
magnânimos celeiros
no momento
justo
aos meus lábios conduz,
ao fio da minha pena,
ao meu tinteiro.
De tua espessa e sonora
profundidade de selva,
dá-me,
quando o necessite,
um só trinado, o luxo
de uma abelha,
um fragmento caído
de tua antiga madeira perfumada
por uma eternidade de jasmineiros,
uma
sílaba,
um tremor, um som,
uma semente:
de terra sou e com palavras canto.



Oda al Diccionario

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in: Nuevas Odas Elementales (1956)

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sábado, 3 de julho de 2010

Ode à Melancolia - John KEATS




JOHN KEATS

Ode on Melancholy
(1820)


1.

Não, não, não siga ao Letes, nem agite
As ervas (1), enraizadas, a buscar venenosa poção;
Nem sofra tua pálida fronte ao ser beijada
Pela noturna uva rubra de Proserpina;
Não faça seu rosário de bagas-de-teixo,
Não deixe o besouro, nem a mariposa serem
Sua lamentosa Psiquê, nem a sábia coruja
Sua companheira nos mistérios da mágoa;
Pois de sombra em sombra virá sonolenta,
E afogará a desperta angústia da alma.

2.

Mas quando a melancólica crise descer,
De súbito, dos Céus tal uma nuvem de lamentos,
Que acaricia todas as flores reclinadas,
E oculta a verde colina numa mortalha;
Então queira fartar tua dor numa rosa-da-manhã,
Ou sobre o arco-íris da onda salgada,
Ou sobre a fartura das belas flores globais:
Ou se tua senhora alguma rica ira demonstra,
Aprisione a sua suave mão, e deixe-a delirar,
E se satisfaça no profundo de seus olhos singulares.

3.

Ela habita junto a Beleza – que deve morrer;
E junto a Alegria, cuja mão aos lábios dele
Acenam adeus; e golpeando o Prazer próximo,
Tornando-se em poção enquanto as abelhas sorvem:
Sim, no verdadeiro templo do Deleite
Velada Melancolia tem seu relicário,
Apesar de invisível ser salvo, cuja ativa língua
Pode explodir a uva da Alegria ao céu-da-boca;
A alma dele degustará a tristeza dela,
E suspenso meio aos dela nublados troféus.


(1) “wolf’s bane”: acônito ou arnica, erva medicinal.
Com efeitos associados à Licantropia.

Trad. livre by Leonardo de Magalhaens
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Jan/08

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JOHN KEATS

Ode On Melancholy
(1820)

1.

No, no! go not to Lethe, neither twist
Wolf's-bane, tight-rooted, for its poisonous wine;
Nor suffer thy pale forehead to be kissed
By nightshade, ruby grape of Proserpine;
Make not your rosary of yew-berries,
Nor let the beetle nor the death-moth be
Your mournful Psyche, nor the downy owl
A partner in your sorrow's mysteries;
For shade to shade will come too drowsily,
And drown the wakeful anguish of the soul.

2.

But when the melancholy fit shall fall
Sudden from heaven like a weeping cloud,
That fosters the droop-headed flowers all,
And hides the green hill in an April shroud;
Then glut thy sorrow on a morning rose,
Or on the rainbow of the salt sand-wave,
Or on the wealth of globed peonies;
Or if thy mistress some rich anger shows,
Emprison her soft hand, and let her rave,
And feed deep, deep upon her peerless eyes.

3.

She dwells with Beauty -- Beauty that must die;
And Joy, whose hand is ever at his lips
Bidding adieu; and aching Pleasure nigh,
Turning to poison while the bee-mouth sips;
Ay, in the very temple of delight
Veiled Melancholy has her sovran shrine,
Though seen of none save him whose strenuous tongue
Can burst Joy's grape against his palate fine;
His soul shall taste the sadness of her might,
And be among her cloudy trophies hung.


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Para ouvir em
http://www.youtube.com/watch?v=ywBEYFKgEbM
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postagem ao som de
http://www.youtube.com/watch?v=zLmspcgrYrY

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