segunda-feira, 3 de maio de 2010

sobre "Baladas" de Hilda Hilst



Sobre “Baladas” (1950, 1951, 1955)
(Globo,2003)
os três primeiros livros de poesias
de Hilda Hilst (SP, 1930-2004)

[Para os 80 anos do nascimento da poeta Hilda Hilst]

O Lirismo enquanto Encontro do Eu com o Outro

A questão da Imagem do Poeta parece preocupar os Leitores mais do que os próprios Poemas. A cultura do ler a Biografia e não a Obra tem causado um desserviço a causa da Literatura. 'Ler' o Autor enquanto se deve ler a Obra é 'julgar o livro pela capa', é acreditar numa 'figura' (muitas vezes 'midiática') que se cria em torno do Artista.

O Poeta enquanto Artista sofre com estes vultos que o encobrem, com sua face numa penumbra de enigmas e aventuras. Quem é o Poeta? Uma Pessoa ou um Autor? Por que preocupar-se com a Pessoa enquanto não dedicamos tempo ao prazer (ou desprazer) de ler o fruto de sua Autoria: a Obra?

É fato que cada Poeta recebe, por sua vez, um ou outro 'aposto', a julgar Pessoa e Artista num série de evocações. Se Bilac é o pedante, Augusto dos Anjos é o funéreo, C Drummond de Andrade o gauche; Leminski o irônico, o iconoclasta; J C Melo Neto o áspero, o ríspido; em suma, rótulos (muitas vezes preconceituosos e depreciativos) que 'classificam' a Fala poética e esvaziam sua autenticidade ou originalidade.

Pois bem, em torno da poeta paulista Hilda Hilst criou-se uma imagem de debochada, desbocada, pornógrafa, que ela – em certo sentido – até reforçou – mas esquecem todo um lado a la Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa de sua poética. Pensam muitos leitores que a Obra de Hilda Hilst sobrevive no lado B da marginália intelectual por seus meandros sensuais declarados, sua perservidade libidinosa nada sutil, sua ausência de 'recalques'.

Não negamos que há toda uma série de obras que tratam justamente dessa 'libido desenfreada', mas nosso desejo aqui é apresentar o lado lírico da Obra da Autora. “Baladas” é um conjunto de três livros escritos na juventude, digamos, uma primeira fase da autora, aos vinte anos de idade, nos anos 50. São “Presságio – poemas primeiros” (1950), “Balada de Alzira” (1951) e “Balada do festival” (1955), e relançado em 2003 pela Editora Globo.

Se consideramos “Baladas” como uma 'primeira fase', então podemos dizer que há uma segunda fase – muito mais midiática – da autora pornográfica, uma Nelson Rodrigues de saias, algo de existencialista da Moulin Rouge, que envolta na fumaça do cigarro , vem apontar as hipocrisias no nosso belo circo social.

A Poesia Lírica

Concentrados agora em “Baladas”, notamos que o tom lírico é logo percebido deste o título escolhido. A 'balada' é um tipo de poema cantado, ou uma poesia que permite ser cantada, assim ao estilo das Lieder germânicas, ou as cantigas trovadorescas, ou alguns poemas de Vinicius de Moraes (que ele mesmo musicava...)

Ainda que as Lieder tivessem muito de popular, e assim coletivo, Volksgut, os primeiros poetas românticos alemães, nos século 18, criaram uma 'esfera do sujeito' com suas vozes líricas, individualizando as epopeias do coletivo na figura do Eu ensimesmado. Mas tudo a conservar o imagético e o musical. Assim afigura-se as poéticas de Novalis, Heine, Höderlin, Schiller, Goethe, Klopstock, dentre outros.

A poesia lírica como expressão do Subjetivo – como bem delineou Hegel há duzentos anos – como contraponto ao épico objetivo, descritivo, narrativo, coletivo. O lírico enquanto 'expressão da subjetividade', do 'conteúdo subjetivo', fruto de um 'voltar-se para dentro', pois o lirismo nasce de “uma expressão do modo de conceber e de sentir” onde “o poeta não se anula ante o objeto, mas confunde-se com este”.

O estilo Lírico seria um construto de ritmo e imagem em contraste com os modelos clássicos, mais formais, lógicos, pois o lirismo seria muitomais subjetivo – a ponto de Hegel desprezar um certo 'subjetivismo exacerbado' que fragmentava a criação romântica (sem o construto formal dos clássicos). O predomínio do individualista Eu ameaçava desfazer (ser mais que um contraponto a ) o apelo nacionalista (lembrar que justamente a nação alemã se formava no século 19) do coletivo Nós.

O termo 'balada' relembra também o lirismo provençal, trocadoresco, ou sua sucessão e herança. Sendo que na língua portuguesa é referência a “Lírica” de Luís de Camões, mestre dos sonetos sonoros e memoráveis, com a forte influência de clássicos italianos (vejam Petrarca), além de herdeiro da poesia provençal, e da musicalidade trovadoresca.

Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade
quero que seja sempre celebrada.

Ou

Tanto de meu Estado me acho Incerto
que em vivo ardor tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio,
o mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.

A primeira voz lírica a ser considerada é a de Safo de Lesbos, séculos VII e VI a C. , que entoava hinos às musas e as mulheres de seu afeto e paixão.

Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.

Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.

(trad. Joaquim Fontes)

A poesia feminina enquanto intimista, imagética, sinestésica, metafísica, concisa (ou prolixa, depende) é um conceito (ou conjunto de pré-conceitos) formados ao longo de uma tradição ocidental de Lirismo (o que é considerado lírico) como um 'assunto de mulher' (ou 'assunto que as mulheres devem abordar'), enquanto deusas do lar, anjos da família, servas do homem.

Os trovadores que assumiam um “Eu lírico” feminino, nas chamadas “cantigas de amigo”, usavam todo um imaginário sobre o que seria uma 'voz de mulher apaixonada'. E criaram uma verdadeira ficção literária, ainda que belíssima. Afinal, a 'voz da alma apaixonada' era uma abstração do que o ser masculino Bardo imaginava ser uma 'mulher apaixonada'! Quando as mulheres poderiam novamente dizer o que sentiam?

Daí ao voltarmos à leitura de “Baladas” não hesitamos em comparar com as poéticas de Elizabeth Bishop, Marianne Moore, Sylvia Plath, Anne Sexton, Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa, Ana César, Gabriela Mistral, Gabriela Llansol, onde o que se costuma chamar 'escrita feminina' nada mais é do que uma vontade de 'com-partilhar' uma emoção do Eu lírico ao Outro (seja 'real' ou 'imaginado') onde a 'confissão' se realiza em mútua 'co-confissão'.

Em toda a Literatura há paralelos (senão para que uma “Literatura Comparada”?) que evidenciam interseções' na pluralidade de Vozes. Se Anne Sexton tem poemas para o pai (vide “45 Mercy Street”) Hilda Hilst dedica “Balada de Alzira” “a meu pai”. Figura paterna que também se apresenta em Marianne Moore, ao lembrar as palavras do pai sobre as visitas, “pessoas superiores nunca fazem visitas demoradas” (My father used to say, /"Superior people never make long visits )

O pai é o primeiro homem da infância feminina, e é um referencial para o descobrimento dos outros homens – os futuros parceiros, amantes, maridos.

Para a Mulher que aguarda – segundo os bons costumes – a vinda daquele (ou daqueles) que poderá ser a 'cara metade' (o homem complementa a mulher, etc) nos tempos futuros – a idealização dos encontros amorosos (ou meramente sexuais...)

Para mim
virão os homens desconhecidos
(p.67)

Lirismo: monólogo do Eu ou diálogo do Eu e Tu ?

A Teoria alega uma Lírica do Eu Lírico que fala de si mesmo, ou seleciona a linguagem, as imagens, de um poema. Mas o Lírico não se resume ao 'subjetivismo exacerbado' como seria a suspeita de Hegel. Sabemos que a voz lírica evoca o Outro (o Leitor, ou o Eu considerado Tu no monólogo, nada além de um diálogo consigo mesmo, as 'representações' do Eu)

Me mataria em março
se não fosse a saudade de ti
e a incerteza de descanso.
Se só eu sobrevivesse quase nula,
inerte como o silêncio:
o verdadeiro silêncio de catedral vazia,
sem santo, sem altar. Só eu mesma.
(p.21)

e

Amargura no dia
amargura nas horas
amargura no céu
depois da chuva,
amargura nas tuas mãos
amargura em todos os teus gestos.

(p. 27)

Não exatamente a 'confissão' mas a fala do Eu lírico que cria identificação com o Outro (no caso, nós, os leitores) por meio da riqueza das imagens – que buscam corresponder (responder junto) as sensações, emoções, num arco-íris de sinestesias.

Brotaram flores
nos meus pés.
E o quotidiano
na minha vida
complicou-se.

Aqui o Eu , mas este não se completa sem o Outro (se não 'real', ao menos 'imaginado'). Algo que ocorre ao Eu precisa ser 'com-partilhado' com o Outro – todo discurso é um co-discurso (ou co-enunciado), até um poema lírico, que julgamos ser 'monológico'. Se assim fosse não se importaria com o 'silêncio' alheio,

Meus pés iriam
com flores andar
sobre o teu silêncio.
(p. 23)

e

Estás ausente. / Vivo e perene
nestes abismos / do pensamento
.
(p. 75)

A necessidade de um interlocutor leva o Eu a se comparar, a criar um discurso de Alteridade – o Outro que não é o Eu, mas poderia ser, ou seria um Eu alternativo, ou um Eu que serve como um espelho em potencial. De qualquer forma, o Eu não está em si, não é meramente um 'subjetivismo exacerbado', mas subsiste na relação Eu-Outro,

Maria vai acabar como eu:
covarde nas decisões,
amante das couss indefinidas
e querendo compreender suicidas.
Maria vai acabar assim sem rumo,
andando por aí, / fazendo versos
e tendo acessos / nostálgicos.
(p. 29)

Esse jogo do Eu-Tu enquanto enunciado vem destruir aquela concepção da fala lírica enquanto expressão subjetivista de um Eu em monólogo – que vive a desabafar e confessar. Se realmente não há um coletivo 'nós' – um coletivo típico de 'herói nacional' da épica – também não há apenas um Eu, mas certamente um híbrido discursivo Eu-Tu,

E imaginamos
cousas absurdas
de realização.
Cousas que não existem
e cujo valor
é o de consistirem
parte da ilusão.
(p. 35)

O Ser Eu-Outro é uma criação do Eu? O Outro que surge para a Voz lírica é uma mera 'idealização'? São questões sempre em aberto. Análises de discurso exaustivas que muitas vezes não saem do lugar... Mas este Tu prova a necessidade do Eu em se confessar a um Outro digno de confiança, um Outro que mantem o Eu 'em equilíbrio', segundo lembramos de um poema de Ana Cristina César (1952-1983), poeta carioca de fim precoce,

Quando entre nós só havia uma carta certa a correspondência completa o trem os trilhos a janela aberta uma certa paisagem sem pedras ou sobressaltos meu salto alto em equilíbrio o copo d’água a espera do café

O Encontro, a fusão do Eu-Tu é tão grande que no momento da Separação, da Ruptura, há um abalo metafísico do Eu que, num lampejo de angústia, pensa assim: “Se o Tu não gosta de mim, então Eu também não gosto” e se precipita no Vazio.

Lirismo para ser cantado

O Lirismo enquanto forma de seduzir e cativar o Outro re-cria o canto das Sereias que afligem um Ulisses. É característica da Poesia Lírica o artifício da musicalidade, mesmo um adorno em poesia não-musicada – se considerarmos que primordialmente a Poesia Lírica era cantada ao som da lira, pelos aedos gregos e, tempos depois, na Idade Média, pelos trovadores . O ritmo, as assonâncias e aliterações, as rimas e a estrutura de métricas vem criar uma rede de signicantes 'cantantes' que tornam a poesia certamente intraduzível – afinal de contas, outro idioma terá outros significantes (outras palavras) que soam diversamente. Daí a dificuldade de traduzir poesia lírica – é necessária a transcriação (vejam os irmãos Campos...)

A necessidade de música é fremente na poesia lírica, sem dúvida. Há um poema de Elizabeth Bishop que se cria a partir dessa confissão, Eu preciso de música,

Há toda uma magia feita de melodia:
Um encanto de repouso, fôlego tranquilo,
E coração frio, entre cores desbotantes
Profundas à calma subaquática do mar,
E sempre a flutuar num poço verde-lunar,
Preso nos braço do ritmo e do sono.

Mas a canção nas Baladas de Hilda Hilst, não exatamente 'musicalidade', é uma percepção da 'música nas coisas', que é audível ao Ser sensível, que encontra música principalmente no Outro, que canta para o Outro,

Canção do mundo
perdida na tua boca.
Canção das mãos
que ficaram na minha cabeça.
Eram tuas e pareciam asas.
(p. 33)

Este cantar pode mesmo ser uma canção, com melodia e partitura. Temos um grande poeta autor de 'baladas': Vinicius de Moraes a explicitar o quão lírico é 'fazer música com as palavras', onde seus poemas exibem fulgurante sonoridade a ponto do próprio autor não hesitar em musicá-los, no clima bon-vivant da Bossa Nova, junto com os músicos Antonio Carlos 'Tom' Jobim e Toquinho.

Canta! canta, porque cantar é a missão do poeta
E dança, porque dançar é o destino da pureza
Faz para os cemitérios e para os lares o teu grande gesto obsceno
Carne morta ou carne viva — toma! Agora falo eu que sou um!
(Balada Feroz)

Esta missão de cantar que perfaz o Poeta (e Cecília Meireles não tem um poema assim? “Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa./Não sou alegre nem sou triste: / sou poeta.” (Motivo) ) e esta noção é uma percepção do Eu-no-Mundo – estar aqui para tecer versos e enredar poemas. Imagem lírica. Mas será o Poeta necessário? Será que o Mundo espera o advento do Poeta? Ou lamentam a existência dos poetas como as mães lamentam os filhos indesejados?

As mães não querem mais filhos poetas.
A esterilidade dos poemas.
A vida velha que vivemos.
Os homens que nos esperam sem versos.
O amor que não chega.
As horas que não dormimos.
A ilusão que não temos.
As mães não querem mais filhos poetas.
Deram o grito
desesperado
das mães do mundo.
(p. 55)

Se as mães desprezam os filhos 'poetas', a Poeta parece temer os filhos – os poemas – que sua Escrita pode gerar, “Inutilidade das palavras. // Tenho preguiça, / tanta preguiça / pelos filhos que vão nascer.” (p. 49) Porém, adiante, a missão árdua do Poeta ao dar 're-significação' ao Mundo - missão quase impossível em nossa era que 'suspeita da própria Linguagem' – é percebida claramente pela Autora quando elogia a Arte da Escrita enquanto Re-criação dos seres,

As coisas não existem.
O que existe é a ideia
melancólia e suave
que fazemos das coisas.
...
os livros são criaturas.
Cada página um ato de vida,
cada leitura um pouco de alegria
e esta alegria
é igual ao consolo dos homens
quando permanecemos inquietos
em resposta às suas inquietudes.
(pp. 91/92)

Mas poderá a Palavra criar pontes sobre os abismos entre as pessoas? Poderá a Poesia converter-se em eficiente 'pombo-correio' ? Afinal, as Palavras ferem, e somente o silêncio deve ser desfrutado. Quando os amantes falam acabam por esquecer as carícias. Ou falam porque não sabem mais se acariciar... Se as almas não se comunicam, que os corpos se entendam.

Amadíssimo, não fales.
A palavra dos homens desencanta.
Antes os teus olhos de prata
na noite espessa do teu rosto.
Antes o teu gesto de amor
(p. 118)

A missão do Poeta torna-se ainda mais áspera quando a Expressão procura apreender (no sentido de 'prender' mesmo ) o Inexprimível, o impronunciável 'Amor'. O que é isso que une duas pessoas diversas a ponto de tais seres separados (eu e outro) se imaginarem unidos em apenas um (nós)? Afinal, falar do amor não é uma inutilidade que apenas banaliza tão sentimento tão raro? Assim como a 'paixão', o 'desejo', o 'tesão', a 'curiosidade' sensivelmente inferiores ao Amor são cotidianamente confundidos e classificados como amor...

Nós, poetas e amantes
o que sabemos do amor?
Temos o espanto na retina
diante da morte e da beleza.
Somos humanos e frágeis
mas antes de tudo, sós.
(p.127)

Se as palavras mentem, as almas não se encontram, os abismos não são transpostos, somente resta o solipsismo, a solidão, a misantropia? Certamente que, se assim fosse, sequer haveria uma Voz lírica a se despejar em versos a procura de um ouvido outro, o olhar alheio, numa esperança de comunicação. Não haveria Arte, não haveria Literatura, não haveria diálogo. Mesmo o suposto 'monólogo' do Eu lírico é uma voz em busca de diálogo com o Tu, o Outro da fala. Assim, na criação de cada poema, renova as tentativas de erguer uma ponte sobre o abismo.

mar/abr/10

quarta-feira, 28 de abril de 2010

PAUL CELAN - Fuga sobre a Morte / Todesfuge



PAUL CELAN
(1920-1970)

20 de abril – 40 anos da morte de PAUL CELAN

Paul Celan foi sobrevivente do Holocausto e escreveu um
dos poemas mais significativos e pungentes sobre o horror
da barbárie nazista.

FUGA SOBRE A MORTE

Todesfuge

Leite-breu d' aurora nós o bebemos à tarde
nós o bebemos ao meio-dia e de manhã nós o bebemos à noite
bebemos e bebemos
cavamos uma cova grande nos ares
Na casa mora um homem que brinca com as serpentes e
[escreve
ele escreve para a Alemanha quando escurece teus cabelos de
[ouro Margarete
ele escreve e aparece em frente à casa e brilham as estrelas ele
[assobia e chama seus mastins
ele assobia e chegam seus judeus manda cavar uma cova na terra
ordena-nos agora toquem para dançarmos
Leite-breu d'aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos de manhã e ao meio-dia nós te bebemos à tarde
bebemos e bebemos
Na casa mora um homem que brinca com as serpentes e
[escreve
que escreve para a Alemanha quando escurece teus cabelos de
[ouro Margarete
Teus cabelos de cinza Sulamita cavamos uma cova grande
[nos ares onde não se deita ruim
Ele grita cavem mais até o fundo da terra vocês ai vocês ali
[cantem e toquem
ele pega o ferro na cintura balança-o seus olhos são
[azuis
cavem mais fundo as pás vocês aí vocês ali continuem tocando
[para dançarmos
Leite-breu d' aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos à tardinha
bebemos e bebemos
Na casa mora um homem teus cabelos de ouro Margarete
teus cabelos de cinza Sulamita ele brinca com as serpentes
Ele grita toquem mais doce a morte a morte é uma mestra
[d' Alemanha
Ele grita toquem mais escuro os violinos depois subam aos
[ares como fumaçae terão uma cova grande nas nuvens onde não se deita ruim
Leite-breu d'aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia a morte é uma mestra d' Alemanha
nós te bebemos à tarde e de manhã bebemos e bebemos
a morte é uma mestra d' Alemanha seu olho é azul
ela te atinge com bala de chumbo te atinge em cheio
na casa mora um homem teus cabelos de ouro Margarete
ele atiça seus mastins contra nós dá-nos uma cova no ar
ele brinca com as serpentes e sonha a morte é uma mestra
[d' Alemanha
teus cabelos de ouro Margarete
teus cabelos de cinza Sulamita

tradução: Claudia Cavalcanti,
da coletânea de poemas "Cristal",
poema original Todesfuge :
http://www.celan-projekt.de/
para ouvir o poema auf Deutsch
http://www.youtube.com/watch?v=gVwLqEHDCQE

domingo, 25 de abril de 2010

Trilogia Semiótica - III. A Flor



Trilogia Semiótica



III


A Flor


A flor
repousa
na ponta do talo.

A flor
oscila
ao vento outonal.

A flor
acena
com um sinal.

A flor
de plástico
não morre.

A flor
alivia a dor
num quarto de doente.

A flor
girassol
brilha num quadro
de Van Gogh.

A flor
não é apenas
um flor.

A flor
banha-se
ao sol
coberta de fuligem.

A flor
é uma cabana
de perfumes
a abrigar besouros e abelhas.



A flor
é um órgão genital
vegetal.

A flor
é escrita Die Blume
em alemão.

A flor
girassol
de Van Gogh
na verdade
é Sonnenblumen.

A flor
no cabelo da jovem hippie
é mais do que uma flor.

A flor
é uma declaração
de amor.

A flor
é um símbolo
da flor.

A flor
insemina
uma outra flor
na pata da abelha.

A flor
organiza a primavera
do sindicato das flores.

A flor
é branca é amarela
é roxa é furta-cor.

A flor
desbota-se
ao sol
e à chuva.

A flor
vive a discutir
com o espinho.

A flor
deita-se
sob as carícias da brisa.

A flor
é um sorriso aberto
em campo aberto.

A flor
deixa marca
na página do livro.

A flor
habita
um vaso de vidro
de sexta a domingo.

A flor
é um produto
de exportação.

A flor
não merece
ser comparada à mulher.

A flor
no quadro no museu
é uma obra de arte.

A flor
da floricultura
é uma mercadoria à venda.

A flor
no caderno da menina
é um passatempo.

A flor
pede licença
para furar o asfalto.


29mar10


leonardo de magalhaens



poema dedicado ao
poetaator
Wilmar Silva.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Trilogia Semiótica - II. O Luar



Trilogia semiótica

II

O Luar

O luar
banha de luz
os casais na avenida
e no cais.

O luar
é a musa dos violeiros
seresteiros.

O luar
é uma imagem
nos poemas do Bilac.

O luar
é um holofote indiscreto sobre
o beijo dos namorados.

O luar
é apenas o reflexo
da luz solar na superfície lunar.

O luar
contagia
os poetas e os lobisomens.

O luar
apaga
as estrelas do cinturão
de Orião.

O luar
projeta
a silhueta da árvore
na face do taxista.

O luar
ilumina as ruas becos
escuros de corpos morenos.

O luar
é um tema musical
do magistral Debussy.

O luar
revela
um jorro de porra
ou de sangue.

O luar
assombra
um quadro romântico
de Caspar David.

O luar
derramado
sobre amores e olhares.

O luar
mergulha
no mar.

O luar
escorrega
da suspensa bolacha de luz
fatiada
pelos fios de
alta-tensão.

28mar10

Leonardo de Magalhaens

sábado, 17 de abril de 2010

Trilogia Semiótica - I. O Mar




Trilogia semiótica

I

O Mar

O mar
é uma foto
na internet.

O mar
de azul
da cor do mar.

O mar
na imagem panorâmica
de uma página da wikipedia.

O mar
de ondas e espumas
de memórias e marés
é uma imagem poética de
Walt Whitman.

O mar
é um ente televisivo
do horário nobre.

O mar
é um cartão-postal
com palmeiras água de coco
e garotas de biquini.

O mar
é o seio da vida
e o esgoto final dos dejetos.

O mar
é irmão pequeno
do oceano.

O mar
é um grande lago
de sal.

O mar
habita os sonhos
de poeta do mar de morros.

O mar
reverbera
numa antologia de metáforas.

O mar
espelha um sol agonizante
num arrebol de mar.

O mar
brilha azul-breu
ensopado de óleo
de mil petroleiros.

O mar
banha de sal as carcaças
de milhões de naufragados.

O mar
é uma líquida emulsão
de algas e lágrimas.

O mar
é um cartão postal
de viagens futuras.

O mar
é céu azul
antes da tormenta.

O mar
em miniatura
num fundo blue de piscina.

O mar
é um mosaico de
gaivotas de velas brancas
de naus e de ossuários.

O mar
banha a terra de covas
e embalsama os mortos insepultos.

27mar10

Leonardo de Magalhaens
.

sábado, 10 de abril de 2010

sobre 'Reversión' de Javier Galarza



Sobre “Reversión” (Anome / Tropofonia / 2010)
poemas de Javier Galarza (Argentina)

Diante da Seriedade da Poesia

A Recepção

Em épocas de ironias e auto-ironias, quando a Expressão Poética serve aos imperativos da fugacidade, da futilidade e do entretenimento, encontramos afortunadamente uma Voz dissonante que procura lembrar a Seriedade do fazer poético.

Encontramos nos poetas de língua hispânica uma seriedade que vem a faltar nos poetas de outras línguas – principalmente inglês, francês e alemão – depois das revoltas de 1968. A Poesia tornou-se auto-referente e irônica. Nada é levado mais à sério. A futilidade tomou conta em nome da 'liberdade de expressão' e da 'tolerância' diante da 'pluralidade'.

A auto-referência da Poesia (falar de si mesma) é na verdade um esvaziamento do discurso. A queda das ideologias e a sutilidade da hegemonia, o império do Capital e a idolatria do Mercado, tudo podem seduzir e contaminar (“qual é o teu preço?”) no rodízio de consumo de mercadorias e serviços, onde a Poesia é mais um item no catálogo.

Assim, é essencial o surgimento de Poetas que venham renovar o próprio processo de fazer poesia – não somente estética, mas a recepção. (Importante: entre a estética e a recepção há algo fundamental: a divulgação. Publicar, distribuir, vender. Mas aí o Poeta improvisa: cópia em mimiógrafo, cópia em xerox. Ou impressão doméstica e distribuição mão a mão.)

Continuando: a estética se realiza na Escrita, e a recepção na Leitura. A Linguagem que sofrerá a interpretação (co-enunciação) na simbiose Autor-Leitor. Deste diálogo teremos a recepção – como o Leitor 'se apoderou' da Obra do Autor, e passa a re-criar a Obra no processo de ler. Aqui a Linguagem é fundamental. E a Linguagem poética é construída de palavras de um dado idioma (ou um mosaico de idiomas, se lembramos de “Finnegans Wake”...)

A Língua de Reversión

A solenidade do español, a nobreza da fala castellana, é perceptível pela tonalidade fonética, pela fluidez das palavras, pela densidade discursiva, com as características que tornam a língua hispânica uma singularidade. Nenhuma língua é igual a outra. Todo conjunto de sons e significados – fonética e semântica – de um idioma o 'individualiza' perante os demais. Mesmo quando ocorrem níveis de 'dialetização' – dialetos internos ou próximos. Assim o español próximo ao catalão, ou o português em relação ao galego.

Por mais que português e español se aproximem, sempre haverá distanciamentos. Se o português é plástico – isto é, entendemos bem, mesmo quando se fala 'errado' – se o alemão é formal e até áspero; se o italiano é melódico e até lírico; se o inglês é bárbaro; se o francês é elegante; se o russo soa épico, pungente; o español soa nobre, solene, denso. Um poeta em español deve se levar à sério mesmo quando ironiza, pois deixa uma amargura nas entrelinhas, na própria seleção das palavras.

Mesmo a figura cômica de Don Quixote é triste – 'cavaleiro da triste figura' – com toda uma profunda tristeza de ousar ser o 'protetor' dos humilhados e ofendidos (imagem de Dostoiévski), ao assumir seu delírio de cavaleiro andante. A comédia espanhola tem algo de angustiante, não é cômica ou satírica ao nível da inglesa ou norte-americana. Há algo de doloroso.

A seriedade da Poesia em español reflete a peculariedade da Língua? Digamos, a seriedade ou nobreza da poesia de Octavio Paz ou Gabriela Mistral, quando ousam um resgate da 'fala primordial' (O Paz) ou da 'voz lírica' (G Mistral). São poetas que falam seriamente, tematizam problemas humanos, e não se destacam por jogos de palavras ou sátira. São poetas que dialogam com o leitor e se fazem respeitar.

O Poeta enquanto Leitor

Em “Reversión”, do poeta argentino Javier Galarza, encontramos esta seriedade. Um intercâmbio com o leitor, numa relação de confidências, construída com respeito. Mas o Autor solicita o mesmo nível de profundidade ou de sutileza por parte do Leitor.

Galarza é Poeta Leitor para outros Poetas Leitores. Toda uma Poética impregnada de leituras – e digestão de leituras. A realizar a antropofagia (no bom sentido dado por Oswald de Andrade) dos Clássicos . A dizer em relação aos Clássicos – e assim re-posicionar o que seja 'clássico'. Característica que encontramos num argentino – Borges – e num italiano – Calvino – que demasiadamente Leitores se arriscam a ser Escritores. Sofrem terrivelmente aquela “síndrome [ou angústia] da influência”, diagnosticada pelo scholar Harold Bloom.

As palavras nos poemas de Galarza estão impregnadas pela Alteridade, pela Intertextualidade, pelo Dialogismo. Quando o Poeta escreve 'desamparo' já pensamos em Freud; quando escreve 'poemas mínimos' lembramos de Emily Dickinson e Paul Celan, quando usa 'imagens mitológicas', lembramos de Hölderlin, Novalis; quando ele escreve em caracteres minúsculos lembramos de e. e. cummings.

As vastas e diversas leituras do Poeta recriam na Escrita o experimento da Leitura. Clássicos espanhóis lado a lado com poetas chineses da Dinastia Tang. Ou Poeta italiano ao lado de Psicanalista francês. Ou Filósofo grego pré-socrático e Poeta de fala alemã nascido em Praga. Tudo dialoga num mosaico de referências que a partir da Leitura desembocam na Escrita.

Assim, podemos dizer que os poemas de Galarza se equilibram numa fina lâmina entre o dentro e o fora, entre o intrínseco e o mundo exterior, entre o que o poema é em si mesmo e o que o poema é enquanto leitura/reescrita de outro poema. Precisamos de uma leitura centrípeta e também de uma centrífuga (para citarmos N. Frye), ou seja, ora do texto, ora do texto para o mundo.

A vertigem de imagens possibilita este equilíbrio. Pode soar como paradoxo, mas é sério. As imagens estão no Texto e estão no Mundo. Estão DENTRO do poema e estão na Tradição. As imagens que são mitológicas, tanto quanto representativas. A identidade é simbolizada em Narciso; o abandono em Eurídice, a enamoramento em Eco; todos a reevocarem imagens primordiais, ditas 'arquetípicas', da condição humana.

Sendo as imagens 'humanas, demasiadamente humanas' (para citarmos Nietzsche) não podem existir independemente da emoção. A imagem se explica por si mesma (aqui, O. Paz) e dispensa paráfrases.

guarnecer un secreto. guardado y resguardarlo. manternerlo
como un sussurro en la mansión del silencio.
(guarnecer um segredo. guardá-lo e resguardá-lo. mantê-lo
como um sussurro na mansão do silêncio.)

ou

ventanas húmedas permeables al anuncio de tormentas
el Todo es la dicción pura de uma interioridad
(janelas úmidas permeáveis ao anúncio de tormentas
o Todo é a dicção pura de uma interioridade)

As imagens DENTRO do poema são belas, visto inexplicáveis. São sentidas (de modo sinestésico) e não apreendidas pelo intelecto (usado apenas para 'decodificar' o idioma, a ligação gramatical, a semântica). Mas estão FORA do poema quando tecem referências aos temas mitológicos, filosóficos, psicanalistas, culturais. É um rede que envolve o Leitor que não lê um poema – mas um elo de corrente.

Sem conhecer o drama de Eurídice como sentir todo o peso trágico de “Monólogo de Eurídice”? Quem é /foi Eurídice? A Wikipédia que nos socorra! (http://es.wikipedia.org/wiki/Eurídice ) Enamorado pela ninfa Eurídice, o grande músico Orpheu (aquele mesmo destinatário dos sonetos de R M Rilke) desce aos Infernos para resgatar a amada – encantando todos os grotescos seres com a força poética de sua lira – o que conseguiria desde que não contemplasse o rosto da ninfa, mas no momento de deixar o Hades, ele se volta, olha para trás – a duvidar – e perde aquela que tanto ama.
Aqui, no poema, é Eurídice – e não Orpheu – quem se pronuncia,

quisiera encantarme uma vez más en las melodias
de tu condenada lira
...
cómo sostendré entre mis brazos las dimensiones
de esta sombra que soy


(gostaria de encantar-me outra vez com as melodias
de tua lira condenada
...
como sustentarei entre os meus braços as dimensões
desta sombra que sou)


Voilà! A tensão aí está. Se não conhecemos o objeto da referência – o mito grego – perdemos 90% da imagem (ainda que os 10% que sobrem sejam perfeitamente poéticos) Desculpem-me, o tom contabilista e estatísitco, mas um Poeta Leitor exige muitos dos seus Leitores. Ainda mais quando um poema dialoga com outros. Quem é Höderlin? Quem é Lacan? Quem é Li Po? Quem é Antonio Porchia? Quem é Natalia Litvinova? (Pode soar pedante, mas quem julgaria, p.ex., Borges pedante? O erudito Borges que não apenas citava autores, como também inventava autores!)

Daí, usar o termo 'equilíbrio'. Se as imagens não criassem uma beleza em si mesmas, teríamos tão-somente um poeta beletrista que soaria pedante, enciclopédico, a citar meio mundo de outros literatos. Seria um chato igual ao Pound ou ao Eliot. Iguais aos nossos professores de Literatura. Que falam de Goethe como se fosse o jornaleiro da esquina.

A Escrita enquanto re-Leitura

Em “La Guardia en Elsinor” encontramos o ato ousado de Galarza em se apropriar de cenas de Hamlet é também sua superação. Pois, não se incomoda Shakespeare em vão. H. Bloom que o diga. Pairando no terraço do castelo da nevoenta Elsinore, na Dinamarca, o fantasma de Hamlet pai assombrou (e assombra) miríades de autores – que recriam o tema em tragédia [vide o Hamlet na pele de Laurence Olivier] ou em comédia [vide o “Hamlet em quinze minutos” de T. Stoppard] – mas sempre precisam manter a tensão inicial: há um crime, há um criminoso, e alguém precisa desvelar o crime e punir o criminoso.

O filho precisa vingar a morte do pai, que ainda por cima é um Rei. E o filho hesita, perde-se em filosofias, monológos, futilidades, e nada de agir! Esta tensão – será Hamlet um idiota? Será Hamlet mais sábio que todos nós juntos? Será Hamlet o autor de Shakespeare? [J Joyce adorava brincar com essas questões. Vide “O Retrato do Artista quando Jovem” e “Ulisses”.] Diante do fantasma do próprio pai, Hamlet se perde em meditares funestos. Será obra do demônio? Será mesmo a alma penada do rei assassinado?

vamos. las preguntas nos agobian en el terraplén.
a qué oscuro designio obedece tu presencia?
somos peones de un juego cuyas reglas desconocemos
y nuestro reino es todo el mundo.
habla con tua boca de sepulcros
con tua furia insepulta
porque nuestro amigo está triste y sólo tú tienes las
respuestas
qué há profanado tu descanso?
(vamos. as perguntas nos agoniam no terraço.
a qual obscuro desígnio obedece tua presença?
somos peões de um jogo cujas regras desconhecemos
e nosso reino é todo o mundo.
fale com tua boca de sepulcros
com tua fúria insepulta
porque nosso amigo está triste e somente tu tens as
respostas
o que terá profanado teu descanso?)

O problema de Hamlet filho e Hamlet pai é um problema freudiano, digo, edipiano? Ou um problema metafísico: os mortos interferem na vida dos vivos? Ou sobrenatural: os mortos adoram assombrar os vivos? Ou de comunicação: como podem dois interlocutores em níveis diferentes (um morto, outro vivo) estabelecer alguma co-enunciação?

O problema de comunicação nos interessa aqui. Seja enunciação de imagens ou de palavras, seja interlocução de semânticas ou de corpos. Como assim? Há toda uma problemática do Corpo na comunicação. Gestos, mímicas, sorrisos, lágrimas. O corpo comunica. Somos o corpo e mais do que o corpo. Corpos que hesitam em se aceitar na condição de corpos.

Gestualidade Corporeidade Sensualidade

Corpos que seduzem e fascinam – e são atirados às fogueiras da inquisição (“Salem”). Ou corpos que se distanciam incomunicáveis (“Lejos”, “Distancia Cuerpos Luz”). Ou corpos que precisam do carinho de uma ama (“Nurse”),

ya ama, ten mis drogas prestas
abre la ventana a las tormentas
tiende las constelaciones
pues puedo sedarme en tu palidez
(oh ama no me dejes)

(agora, ama, tenha prontas as minhas pílulas
abra a janela às tormentas
estenda as constelações
pois posso sedar-me em tua palidez
(ó ama, não me abandone))

Os corpos se estranham! A incapacidade de se aceitar enquanto corpo contamina sensações e relações, cria muros de incomunicabilidade. Nem corpos e muito menos 'almas' se entregam ao diálogo. (E pensar que o poeta Manuel Bandeira dizia 'se as almas não se entendem, que ao menos os corpos se entendam'...! “As almas são incomunicáveis. /Deixe o teu corpo entender-se com outro corpo,/ porque os corpos se entendem, as almas não.”, Arte de Amar)
2.
¿aún hablaríamos si supiéramos acariciarnos?
3.
perpetramos contra el sumo poder del silencio
por esta necessidad de hablar los cuerpos acechados
(2.
ainda falaríamos se soubéssemos nos acariciar?
3.
perpetramos contra o sumo poder do silêncio
por esta necessidade de falar os corpos espreitados)

A corporeidade está presente em toda a Obra neste emaranhado de gestos e enunciações, que podem ou não seduzir. Igual a própria poesia que pode fascinar uns e deixar outros na plena indiferença. A presença de um corpo é mais do que a constação de uma 'coisa' – não somos uma coisa! - , é mais que um conjunto de enzimas e hormônios – não somos enzimas e hormônios! - mas um universo outro que podemos (ou não) ter acesso. O desejo de posse física no ato sexual nada mais é do que esse 'acesso' ao Outro – desejar e ser desejado.

4.
cuerpo. enigma a descifrar bajo uma amenaza
permanente: la aniquilación
5.
¿qué puede hablar un cuerpo sino violencia e desnudez?
¿qué lo constituye sino fluidos de dulzura e río alguno y
cataclismos?
(4.
corpo. enigma a decifrar sob uma ameaça
permanente: a aniquilação
5.
o que pode falar um corpo senão de violência e nudez?
o que o constitui senão fluidos de doçura de algum rio e
cataclismas?)

É inutil a divisão da Obra Reversión em temáticas estanques – corpo, neogótico, disposição & advento, poemas mínimos – pois a poética não se divide, mas se interpenetra, em reverberações cria e re-cria as temáticas dentro de outras, em interdiscursos – que provam a impossível 'depar-tamentalização' da Poesia. Em Reversión [reversão] podemos ler o final e aí re-encontrar o início, tal o rio que flui em Finnegans Wake, mais próximo da poesia do que da prosa, em seu fluxo circular onde o fim re-vém, reinicia. Em versos e reversos a Poesia apresenta o quão séria é a nossa trajetória de tentativas e vitórias, quedas e redenções, mortes e recomeços.

mar/10

quarta-feira, 7 de abril de 2010

sobre MUSICACHA - Gilberto Mauro / Wilmar Silva




sobre o CD “Musicacha/ Cachaprego” (2010)
de Gilberto Mauro / Wilmar Silva

Quando a Poesia se liberta do papel

Quando CACHAPREGO, a obra protopoética, visceral, agroLírica do
poeta e ator Wilmar Silva, foi lançada em 2004, nos jardins internos
do Palácio das Artes /BH, poucos se atreveram a desbravar esta selva de
signos no cipoal hermético.

Este crítico confessa que – humilhado, assustado – deixou o volume
(presenteado pelo próprio poeta!) resguardado no olvido da estante pelo
período cósmico de três translações. A leitura de CACHAPREGO somente
foi ousada em 2007, após o lançamento da obra-prima Estilhaços no Lago
de Púrpura
(obra que consumou a sedução).

Afinal, CACHAPREGO não é leitura 'popular', não é tampouco 'hermética'.
Não. A Obra – não poema, não uma fragmentação de poema – mas uma
Escrita = Oralidade sem outro parâmetro que a Ruptura com o 'estado de
dicionário', o pensar gramatical que 'engessa' a fala poética. Trata-se mais
de uma 'subversão' rumo a uma reconstrução, a exigir do Leitor a pulsão
que moveu o Autor: a OUSADIA.

A incapacidade de Leitura não é apenas fruto (ou erva daninha) da ausência
de decodificação (num país de analfabetos totais e funcionais) mas princi-
-palmente do desinteresse, da falta de força de vontade, da esgotada ousadia
de ler. A leitura não extamente como 'informar-se' sobre o mundo OU
'fantasiar' sobre um mundo outro. Leitura como forma de 'deglutir e digerir'
a Escrita e absorvê-la no cerne vital de quem lê. A Leitura é participativa –
re-cria a Escrita, re-vivifica o/a Autor/a.

Há toda uma 'indústria cultural' montada em torno da leitura – best-sellers
em megastores, bookstores e bienais – mas ainda maior é a indústria
montada em torno do não-gostar-de-ler, com milionárias campanhas para
cinema, ou TV, ou shows musicais (de preferência, bandas gringas). Para
que ler o livro, se você pode ver o filme? (Quem não conhece a Alice-que-
-correu-atrás-do-coelho-apressado basta ir ver o novo filme do Tim Burton...)

Livro é outra mercadoria? Mas, e o 'conteúdo' do livro? O Conteúdo não
é 'algo' à venda – o conteúdo (o enredo, como queiram) é fruto de uma
interação entre a Escrita e a Leitura (ou mais fisicamente, entre o/a Autor/a
e o/a Leitor/a) através do ato de despertar as ideias do estado de dicionário,
do conjunto de caracteres numa folha impressa. Assim, repito, a Leitura é
o outro-lado da Escrita. Moedas têm cara e coroa, coins have heads and tails,
o Livro tem Autor e Leitor. (Um nome científico? Pois bem, 'Simbiose'.)

Ok, agora para aqueles que não ousam se aproximar de certos livros – ou
porque não 'têm tempo' (time is money!) - a indústria cultural já solucionou
o problema (que nós mesmos criamos) com a figura do áudio-livro, audiobook,
livros para ouvir, em MP-3 etc. É mais fácil e cômodo ouvir “Guerra e Paz
do que sentar para ler mais de mil páginas.

E para quem não ousava se aproximar – ou se entregar – a força agroLírica
de CACHAPREGO, não há mais desculpas. Recentemente lançado – no
evento literário VERÃO POESIA, em fevereiro deste ano, no Palácio das
Artes, BH, o CD Musicacha Cachaprego, com composição/ produção
musical de Gilberto Mauro e voz/ interpretação de Wilmar Silva.
Não há mais desculpas, caro Leitor, cara Leitora. “É só se não quiser”. O
lance está todo 'mastigado', é só engolir. Como assim? Se você não gosta
de livro (oh mein Gott!) pode ouvir os trechos em redemoinhos em arrepios
no seu moderno CD player.

E Musicacha merece elogios – como raramente tenho oportunidade de elogiar.
[Não que eu esteja poupando elogios para investir na minha velhice, mas é
que vou elogiar o quê?] Aqui Musicacha se destaca como um empreendimento
artístico de rara beleza, a ousar resurgimento da fala poética além do texto
em papel. Não é apenas um poeta a declamar poemas (coisa aliás um tanto
quanto comum), mas uma Poesia que volta a ser o que sempre foi – Música.
Se o texto 'engessa' a expressão poética, a declamação, a atuação da fala faz
reviver o ciclone lírico em toda a sua plenitude. De forma que – pra mim –
' poesia sonora', 'Biopoesia', 'poesia biosonora' é tudo pleonasmo. Poesia é o
som das palavras – não caracteres numa página de livro. [Poesia 'visual'?
Um momento. Não trataremos aqui de artes plásticas...]

Nesse sentido pode se aceitar a provocação de Wilmar Silva - “poesia não é
literatura” - no propósito de ver a Poesia ALÉM da forma literária, a considerar-
-se sua forma-mor, a Escrita. A ser revisada, publicada, resenhada. A Poesia
é para ser 'explicada' mas avaliada pelos órgãos dos sentidos em toda a
plenitude (nome técnico: Sinestesia)

Wilmar Silva (que julgamos conhecer) apresentou-me a figura ímpar de
Gilberto Mauro, numa mesa de café, enquanto debatíamos o sentido da
existência e os ditos 'experimentalismos' que assombram o mundo da música
(principalmente o 'pop'), enquanto Gilberto rememora lances de sua leitura
(ou audição) de mundo, nas ondas de influências de prog rock, soundtracks
de filmes clássicos, Mancini, Legrand, Morricone, diálogos com o
Clube da Esquina, Kraftwerk, etc para trabalhar justamente este 'resgate'
da Sinestesia. Assim, não sendo 'poema' mas 'proto-poema', não sendo
'obra' mas ruptura', CACHAPREGO foi fagocitado em ritual antropofágico
até gerar este Musicacha.

Trata-se de uma 'outra oportunidade' dada à obra de WS, para abrir 'novas
frentes', e conquistar os leitores a procura de um Autor. É possibilitar um
acesso à musicalidade dos longos versos ásperos emaranhados de
CACHAPREGO. Selva que Gilberto desbravou, segundo diz, ao buscar
“um acesso ao poema” antes “de fazer a música”. Música aqui além de
conceitos. Estamos a falar aqui de 'ambiências sonoras', 'atmosferas acústicas',
'efeitos sonoros', samplers, colagens, edições, vozes e vozes sobrepostas.

Eu só escarevo quando esqueço que escarevo...” uma voz que ecoa a si mesma
tal um corte áspero a retalhar um cortejo fúnebre, o poeta exaltado atentando
contra o tom melancólico de um violino sampleado. Ou a voz ecoando
redizendo ora pausada ora frenética, ao som do que seria uma toada de viola
caipira, cada sílaba “rolada a céu aberto”, onde os efeitos de vozes sobrepostas –
os poemas foram gravados até dez vezes! com 'ritmos' e 'interpretações' diversas! -
-criam um algo de 'esquizofrênico', de 'bipolaridade', onde vozes recobrem a voz
até com a própria voz invertida! Ressoando num fundo de caverna (aqui seria
o B.G.), a desafiar, “e você que diz esconder mil medusas na pele”, a golpear
com a aridez de cada sílaba.

Efeitos que soam psicodélicos viajantes sonoridades de Emerson Lake & Palmer
Pink Floyd Yes, Alan Parsons Project
na vastidão de um campo aberto, um
símbolo do idílico e do bucólico, onde a voz caipira de WS ressoa como um
estranho Arcadista ou pré-Romântico a entoar imagens poéticas enquanto
vem e vai a capinar o chão de pó e pedra, “uma mistura de enxadadinha que
trabalha bem
”, que vem e vai a reverberar reverberando.

Turbilhão de voz/es que se confudem num piano jazz ora degustando o
clássico ora se arranhando no áspero, na poeira levantada por “cavlaos
selvagens que indóceis e indomáveis
” atravessando a planície pedregosa,
a estepe tempestuosa do poema (ou 'não-soneto'), costurando as imagens tecidas
meio aos insetos esvoaçantes e vozes avoantes, tudo pronunciado por uma eco-
reverberante “umabocacarnuda” a gênese da própria fala.

Eu que venho sorvendo os floemas de meus poemas” a voz a rasgar a
distorção, ou invadir a percussão áspera a la Uakti, a la Babilak Bah, não
exatamente uma “orquestra de enxadas”, mas – segundo o Músico – o bater
de um colher num corpo de botijão – a trilha sonora ideal para uma voz
exaltada revoltada revoltosa a desabafar “é minha ador que habita eme meu
peitoi e só eu hei delevar adiante
” na figura do poeta que tal um cristo sofre
solitariamente a sua crucificação. A sina sofrida do poeta serve assim aos
propósitos de instrução (e entretenimento) da massa de leitores.

Um delírio sensual, de sexo selvagem percorre a enxurrada de sílabas
silabações numa atmosfera de piano elétrico onde o lirismo abafa o eu-que-
-fala, não mais uma interpretação mas a confissão da máscara, “a origem do
xamam que diz sexo em minhas orelhas
” onde o ritual recria o místico e o
sexo é lembrado como o que sempre foi: origem da vida.

sou este cio que vem do véu de relvas” quando após o gozo voltamos ao tom
algo melancólico do início – num movimento de ária – onde a 'depressão
pós-coito' deixa os finalmente de 'não mais desejos', 'no more desires', a
melancolia Romântica a percorrer as geografias do ser amado, idealizado ou
possuído, para perder o fôlego faltante resfolegante do eu na selva de sinestesias
'floresta de símbolos' onde “íris que irizem peixes e pirilâmpados iluzminem eus”.

Tão-somente 10 faixas, 22:14'', mas a trilha sonora de uma existência inteira,
a companhia certeira para uma noite de solidão, um interlocutor a monologar
nossas próprias inquietações, uma voz plural de Eus cambiantes que fluem
com o discurso assim pianos dissonantes em sinfonias bucólicas ou árias rurais,
pastorais de “uma ovelha longe das ovelhas” (ELP)

Assim é Musicacha, um 'trabalho instigante' para “entrar nos poros”,
sem 'experimentalismos' (ainda que o Artista se confesse experimental)
mas 'concretizações' a ousar e assumir a 'ruptura' com a mesmice e
avançar rumo a reCriação – que é o antídoto para a Repetição.

Gilberto Mauro pode ter a certeza de 'estar fazendo a coisa certa'.
E Wilmar Silva, a oportunidade de ser redimido e apreciado pelas
'massas'. E os leitores, bem, quanto aos leitores, digo, Ouçam o Musicacha.
Façam-me o favor!

Abr/10