sábado, 17 de abril de 2010

Trilogia Semiótica - I. O Mar




Trilogia semiótica

I

O Mar

O mar
é uma foto
na internet.

O mar
de azul
da cor do mar.

O mar
na imagem panorâmica
de uma página da wikipedia.

O mar
de ondas e espumas
de memórias e marés
é uma imagem poética de
Walt Whitman.

O mar
é um ente televisivo
do horário nobre.

O mar
é um cartão-postal
com palmeiras água de coco
e garotas de biquini.

O mar
é o seio da vida
e o esgoto final dos dejetos.

O mar
é irmão pequeno
do oceano.

O mar
é um grande lago
de sal.

O mar
habita os sonhos
de poeta do mar de morros.

O mar
reverbera
numa antologia de metáforas.

O mar
espelha um sol agonizante
num arrebol de mar.

O mar
brilha azul-breu
ensopado de óleo
de mil petroleiros.

O mar
banha de sal as carcaças
de milhões de naufragados.

O mar
é uma líquida emulsão
de algas e lágrimas.

O mar
é um cartão postal
de viagens futuras.

O mar
é céu azul
antes da tormenta.

O mar
em miniatura
num fundo blue de piscina.

O mar
é um mosaico de
gaivotas de velas brancas
de naus e de ossuários.

O mar
banha a terra de covas
e embalsama os mortos insepultos.

27mar10

Leonardo de Magalhaens
.

sábado, 10 de abril de 2010

sobre 'Reversión' de Javier Galarza



Sobre “Reversión” (Anome / Tropofonia / 2010)
poemas de Javier Galarza (Argentina)

Diante da Seriedade da Poesia

A Recepção

Em épocas de ironias e auto-ironias, quando a Expressão Poética serve aos imperativos da fugacidade, da futilidade e do entretenimento, encontramos afortunadamente uma Voz dissonante que procura lembrar a Seriedade do fazer poético.

Encontramos nos poetas de língua hispânica uma seriedade que vem a faltar nos poetas de outras línguas – principalmente inglês, francês e alemão – depois das revoltas de 1968. A Poesia tornou-se auto-referente e irônica. Nada é levado mais à sério. A futilidade tomou conta em nome da 'liberdade de expressão' e da 'tolerância' diante da 'pluralidade'.

A auto-referência da Poesia (falar de si mesma) é na verdade um esvaziamento do discurso. A queda das ideologias e a sutilidade da hegemonia, o império do Capital e a idolatria do Mercado, tudo podem seduzir e contaminar (“qual é o teu preço?”) no rodízio de consumo de mercadorias e serviços, onde a Poesia é mais um item no catálogo.

Assim, é essencial o surgimento de Poetas que venham renovar o próprio processo de fazer poesia – não somente estética, mas a recepção. (Importante: entre a estética e a recepção há algo fundamental: a divulgação. Publicar, distribuir, vender. Mas aí o Poeta improvisa: cópia em mimiógrafo, cópia em xerox. Ou impressão doméstica e distribuição mão a mão.)

Continuando: a estética se realiza na Escrita, e a recepção na Leitura. A Linguagem que sofrerá a interpretação (co-enunciação) na simbiose Autor-Leitor. Deste diálogo teremos a recepção – como o Leitor 'se apoderou' da Obra do Autor, e passa a re-criar a Obra no processo de ler. Aqui a Linguagem é fundamental. E a Linguagem poética é construída de palavras de um dado idioma (ou um mosaico de idiomas, se lembramos de “Finnegans Wake”...)

A Língua de Reversión

A solenidade do español, a nobreza da fala castellana, é perceptível pela tonalidade fonética, pela fluidez das palavras, pela densidade discursiva, com as características que tornam a língua hispânica uma singularidade. Nenhuma língua é igual a outra. Todo conjunto de sons e significados – fonética e semântica – de um idioma o 'individualiza' perante os demais. Mesmo quando ocorrem níveis de 'dialetização' – dialetos internos ou próximos. Assim o español próximo ao catalão, ou o português em relação ao galego.

Por mais que português e español se aproximem, sempre haverá distanciamentos. Se o português é plástico – isto é, entendemos bem, mesmo quando se fala 'errado' – se o alemão é formal e até áspero; se o italiano é melódico e até lírico; se o inglês é bárbaro; se o francês é elegante; se o russo soa épico, pungente; o español soa nobre, solene, denso. Um poeta em español deve se levar à sério mesmo quando ironiza, pois deixa uma amargura nas entrelinhas, na própria seleção das palavras.

Mesmo a figura cômica de Don Quixote é triste – 'cavaleiro da triste figura' – com toda uma profunda tristeza de ousar ser o 'protetor' dos humilhados e ofendidos (imagem de Dostoiévski), ao assumir seu delírio de cavaleiro andante. A comédia espanhola tem algo de angustiante, não é cômica ou satírica ao nível da inglesa ou norte-americana. Há algo de doloroso.

A seriedade da Poesia em español reflete a peculariedade da Língua? Digamos, a seriedade ou nobreza da poesia de Octavio Paz ou Gabriela Mistral, quando ousam um resgate da 'fala primordial' (O Paz) ou da 'voz lírica' (G Mistral). São poetas que falam seriamente, tematizam problemas humanos, e não se destacam por jogos de palavras ou sátira. São poetas que dialogam com o leitor e se fazem respeitar.

O Poeta enquanto Leitor

Em “Reversión”, do poeta argentino Javier Galarza, encontramos esta seriedade. Um intercâmbio com o leitor, numa relação de confidências, construída com respeito. Mas o Autor solicita o mesmo nível de profundidade ou de sutileza por parte do Leitor.

Galarza é Poeta Leitor para outros Poetas Leitores. Toda uma Poética impregnada de leituras – e digestão de leituras. A realizar a antropofagia (no bom sentido dado por Oswald de Andrade) dos Clássicos . A dizer em relação aos Clássicos – e assim re-posicionar o que seja 'clássico'. Característica que encontramos num argentino – Borges – e num italiano – Calvino – que demasiadamente Leitores se arriscam a ser Escritores. Sofrem terrivelmente aquela “síndrome [ou angústia] da influência”, diagnosticada pelo scholar Harold Bloom.

As palavras nos poemas de Galarza estão impregnadas pela Alteridade, pela Intertextualidade, pelo Dialogismo. Quando o Poeta escreve 'desamparo' já pensamos em Freud; quando escreve 'poemas mínimos' lembramos de Emily Dickinson e Paul Celan, quando usa 'imagens mitológicas', lembramos de Hölderlin, Novalis; quando ele escreve em caracteres minúsculos lembramos de e. e. cummings.

As vastas e diversas leituras do Poeta recriam na Escrita o experimento da Leitura. Clássicos espanhóis lado a lado com poetas chineses da Dinastia Tang. Ou Poeta italiano ao lado de Psicanalista francês. Ou Filósofo grego pré-socrático e Poeta de fala alemã nascido em Praga. Tudo dialoga num mosaico de referências que a partir da Leitura desembocam na Escrita.

Assim, podemos dizer que os poemas de Galarza se equilibram numa fina lâmina entre o dentro e o fora, entre o intrínseco e o mundo exterior, entre o que o poema é em si mesmo e o que o poema é enquanto leitura/reescrita de outro poema. Precisamos de uma leitura centrípeta e também de uma centrífuga (para citarmos N. Frye), ou seja, ora do texto, ora do texto para o mundo.

A vertigem de imagens possibilita este equilíbrio. Pode soar como paradoxo, mas é sério. As imagens estão no Texto e estão no Mundo. Estão DENTRO do poema e estão na Tradição. As imagens que são mitológicas, tanto quanto representativas. A identidade é simbolizada em Narciso; o abandono em Eurídice, a enamoramento em Eco; todos a reevocarem imagens primordiais, ditas 'arquetípicas', da condição humana.

Sendo as imagens 'humanas, demasiadamente humanas' (para citarmos Nietzsche) não podem existir independemente da emoção. A imagem se explica por si mesma (aqui, O. Paz) e dispensa paráfrases.

guarnecer un secreto. guardado y resguardarlo. manternerlo
como un sussurro en la mansión del silencio.
(guarnecer um segredo. guardá-lo e resguardá-lo. mantê-lo
como um sussurro na mansão do silêncio.)

ou

ventanas húmedas permeables al anuncio de tormentas
el Todo es la dicción pura de uma interioridad
(janelas úmidas permeáveis ao anúncio de tormentas
o Todo é a dicção pura de uma interioridade)

As imagens DENTRO do poema são belas, visto inexplicáveis. São sentidas (de modo sinestésico) e não apreendidas pelo intelecto (usado apenas para 'decodificar' o idioma, a ligação gramatical, a semântica). Mas estão FORA do poema quando tecem referências aos temas mitológicos, filosóficos, psicanalistas, culturais. É um rede que envolve o Leitor que não lê um poema – mas um elo de corrente.

Sem conhecer o drama de Eurídice como sentir todo o peso trágico de “Monólogo de Eurídice”? Quem é /foi Eurídice? A Wikipédia que nos socorra! (http://es.wikipedia.org/wiki/Eurídice ) Enamorado pela ninfa Eurídice, o grande músico Orpheu (aquele mesmo destinatário dos sonetos de R M Rilke) desce aos Infernos para resgatar a amada – encantando todos os grotescos seres com a força poética de sua lira – o que conseguiria desde que não contemplasse o rosto da ninfa, mas no momento de deixar o Hades, ele se volta, olha para trás – a duvidar – e perde aquela que tanto ama.
Aqui, no poema, é Eurídice – e não Orpheu – quem se pronuncia,

quisiera encantarme uma vez más en las melodias
de tu condenada lira
...
cómo sostendré entre mis brazos las dimensiones
de esta sombra que soy


(gostaria de encantar-me outra vez com as melodias
de tua lira condenada
...
como sustentarei entre os meus braços as dimensões
desta sombra que sou)


Voilà! A tensão aí está. Se não conhecemos o objeto da referência – o mito grego – perdemos 90% da imagem (ainda que os 10% que sobrem sejam perfeitamente poéticos) Desculpem-me, o tom contabilista e estatísitco, mas um Poeta Leitor exige muitos dos seus Leitores. Ainda mais quando um poema dialoga com outros. Quem é Höderlin? Quem é Lacan? Quem é Li Po? Quem é Antonio Porchia? Quem é Natalia Litvinova? (Pode soar pedante, mas quem julgaria, p.ex., Borges pedante? O erudito Borges que não apenas citava autores, como também inventava autores!)

Daí, usar o termo 'equilíbrio'. Se as imagens não criassem uma beleza em si mesmas, teríamos tão-somente um poeta beletrista que soaria pedante, enciclopédico, a citar meio mundo de outros literatos. Seria um chato igual ao Pound ou ao Eliot. Iguais aos nossos professores de Literatura. Que falam de Goethe como se fosse o jornaleiro da esquina.

A Escrita enquanto re-Leitura

Em “La Guardia en Elsinor” encontramos o ato ousado de Galarza em se apropriar de cenas de Hamlet é também sua superação. Pois, não se incomoda Shakespeare em vão. H. Bloom que o diga. Pairando no terraço do castelo da nevoenta Elsinore, na Dinamarca, o fantasma de Hamlet pai assombrou (e assombra) miríades de autores – que recriam o tema em tragédia [vide o Hamlet na pele de Laurence Olivier] ou em comédia [vide o “Hamlet em quinze minutos” de T. Stoppard] – mas sempre precisam manter a tensão inicial: há um crime, há um criminoso, e alguém precisa desvelar o crime e punir o criminoso.

O filho precisa vingar a morte do pai, que ainda por cima é um Rei. E o filho hesita, perde-se em filosofias, monológos, futilidades, e nada de agir! Esta tensão – será Hamlet um idiota? Será Hamlet mais sábio que todos nós juntos? Será Hamlet o autor de Shakespeare? [J Joyce adorava brincar com essas questões. Vide “O Retrato do Artista quando Jovem” e “Ulisses”.] Diante do fantasma do próprio pai, Hamlet se perde em meditares funestos. Será obra do demônio? Será mesmo a alma penada do rei assassinado?

vamos. las preguntas nos agobian en el terraplén.
a qué oscuro designio obedece tu presencia?
somos peones de un juego cuyas reglas desconocemos
y nuestro reino es todo el mundo.
habla con tua boca de sepulcros
con tua furia insepulta
porque nuestro amigo está triste y sólo tú tienes las
respuestas
qué há profanado tu descanso?
(vamos. as perguntas nos agoniam no terraço.
a qual obscuro desígnio obedece tua presença?
somos peões de um jogo cujas regras desconhecemos
e nosso reino é todo o mundo.
fale com tua boca de sepulcros
com tua fúria insepulta
porque nosso amigo está triste e somente tu tens as
respostas
o que terá profanado teu descanso?)

O problema de Hamlet filho e Hamlet pai é um problema freudiano, digo, edipiano? Ou um problema metafísico: os mortos interferem na vida dos vivos? Ou sobrenatural: os mortos adoram assombrar os vivos? Ou de comunicação: como podem dois interlocutores em níveis diferentes (um morto, outro vivo) estabelecer alguma co-enunciação?

O problema de comunicação nos interessa aqui. Seja enunciação de imagens ou de palavras, seja interlocução de semânticas ou de corpos. Como assim? Há toda uma problemática do Corpo na comunicação. Gestos, mímicas, sorrisos, lágrimas. O corpo comunica. Somos o corpo e mais do que o corpo. Corpos que hesitam em se aceitar na condição de corpos.

Gestualidade Corporeidade Sensualidade

Corpos que seduzem e fascinam – e são atirados às fogueiras da inquisição (“Salem”). Ou corpos que se distanciam incomunicáveis (“Lejos”, “Distancia Cuerpos Luz”). Ou corpos que precisam do carinho de uma ama (“Nurse”),

ya ama, ten mis drogas prestas
abre la ventana a las tormentas
tiende las constelaciones
pues puedo sedarme en tu palidez
(oh ama no me dejes)

(agora, ama, tenha prontas as minhas pílulas
abra a janela às tormentas
estenda as constelações
pois posso sedar-me em tua palidez
(ó ama, não me abandone))

Os corpos se estranham! A incapacidade de se aceitar enquanto corpo contamina sensações e relações, cria muros de incomunicabilidade. Nem corpos e muito menos 'almas' se entregam ao diálogo. (E pensar que o poeta Manuel Bandeira dizia 'se as almas não se entendem, que ao menos os corpos se entendam'...! “As almas são incomunicáveis. /Deixe o teu corpo entender-se com outro corpo,/ porque os corpos se entendem, as almas não.”, Arte de Amar)
2.
¿aún hablaríamos si supiéramos acariciarnos?
3.
perpetramos contra el sumo poder del silencio
por esta necessidad de hablar los cuerpos acechados
(2.
ainda falaríamos se soubéssemos nos acariciar?
3.
perpetramos contra o sumo poder do silêncio
por esta necessidade de falar os corpos espreitados)

A corporeidade está presente em toda a Obra neste emaranhado de gestos e enunciações, que podem ou não seduzir. Igual a própria poesia que pode fascinar uns e deixar outros na plena indiferença. A presença de um corpo é mais do que a constação de uma 'coisa' – não somos uma coisa! - , é mais que um conjunto de enzimas e hormônios – não somos enzimas e hormônios! - mas um universo outro que podemos (ou não) ter acesso. O desejo de posse física no ato sexual nada mais é do que esse 'acesso' ao Outro – desejar e ser desejado.

4.
cuerpo. enigma a descifrar bajo uma amenaza
permanente: la aniquilación
5.
¿qué puede hablar un cuerpo sino violencia e desnudez?
¿qué lo constituye sino fluidos de dulzura e río alguno y
cataclismos?
(4.
corpo. enigma a decifrar sob uma ameaça
permanente: a aniquilação
5.
o que pode falar um corpo senão de violência e nudez?
o que o constitui senão fluidos de doçura de algum rio e
cataclismas?)

É inutil a divisão da Obra Reversión em temáticas estanques – corpo, neogótico, disposição & advento, poemas mínimos – pois a poética não se divide, mas se interpenetra, em reverberações cria e re-cria as temáticas dentro de outras, em interdiscursos – que provam a impossível 'depar-tamentalização' da Poesia. Em Reversión [reversão] podemos ler o final e aí re-encontrar o início, tal o rio que flui em Finnegans Wake, mais próximo da poesia do que da prosa, em seu fluxo circular onde o fim re-vém, reinicia. Em versos e reversos a Poesia apresenta o quão séria é a nossa trajetória de tentativas e vitórias, quedas e redenções, mortes e recomeços.

mar/10

quarta-feira, 7 de abril de 2010

sobre MUSICACHA - Gilberto Mauro / Wilmar Silva




sobre o CD “Musicacha/ Cachaprego” (2010)
de Gilberto Mauro / Wilmar Silva

Quando a Poesia se liberta do papel

Quando CACHAPREGO, a obra protopoética, visceral, agroLírica do
poeta e ator Wilmar Silva, foi lançada em 2004, nos jardins internos
do Palácio das Artes /BH, poucos se atreveram a desbravar esta selva de
signos no cipoal hermético.

Este crítico confessa que – humilhado, assustado – deixou o volume
(presenteado pelo próprio poeta!) resguardado no olvido da estante pelo
período cósmico de três translações. A leitura de CACHAPREGO somente
foi ousada em 2007, após o lançamento da obra-prima Estilhaços no Lago
de Púrpura
(obra que consumou a sedução).

Afinal, CACHAPREGO não é leitura 'popular', não é tampouco 'hermética'.
Não. A Obra – não poema, não uma fragmentação de poema – mas uma
Escrita = Oralidade sem outro parâmetro que a Ruptura com o 'estado de
dicionário', o pensar gramatical que 'engessa' a fala poética. Trata-se mais
de uma 'subversão' rumo a uma reconstrução, a exigir do Leitor a pulsão
que moveu o Autor: a OUSADIA.

A incapacidade de Leitura não é apenas fruto (ou erva daninha) da ausência
de decodificação (num país de analfabetos totais e funcionais) mas princi-
-palmente do desinteresse, da falta de força de vontade, da esgotada ousadia
de ler. A leitura não extamente como 'informar-se' sobre o mundo OU
'fantasiar' sobre um mundo outro. Leitura como forma de 'deglutir e digerir'
a Escrita e absorvê-la no cerne vital de quem lê. A Leitura é participativa –
re-cria a Escrita, re-vivifica o/a Autor/a.

Há toda uma 'indústria cultural' montada em torno da leitura – best-sellers
em megastores, bookstores e bienais – mas ainda maior é a indústria
montada em torno do não-gostar-de-ler, com milionárias campanhas para
cinema, ou TV, ou shows musicais (de preferência, bandas gringas). Para
que ler o livro, se você pode ver o filme? (Quem não conhece a Alice-que-
-correu-atrás-do-coelho-apressado basta ir ver o novo filme do Tim Burton...)

Livro é outra mercadoria? Mas, e o 'conteúdo' do livro? O Conteúdo não
é 'algo' à venda – o conteúdo (o enredo, como queiram) é fruto de uma
interação entre a Escrita e a Leitura (ou mais fisicamente, entre o/a Autor/a
e o/a Leitor/a) através do ato de despertar as ideias do estado de dicionário,
do conjunto de caracteres numa folha impressa. Assim, repito, a Leitura é
o outro-lado da Escrita. Moedas têm cara e coroa, coins have heads and tails,
o Livro tem Autor e Leitor. (Um nome científico? Pois bem, 'Simbiose'.)

Ok, agora para aqueles que não ousam se aproximar de certos livros – ou
porque não 'têm tempo' (time is money!) - a indústria cultural já solucionou
o problema (que nós mesmos criamos) com a figura do áudio-livro, audiobook,
livros para ouvir, em MP-3 etc. É mais fácil e cômodo ouvir “Guerra e Paz
do que sentar para ler mais de mil páginas.

E para quem não ousava se aproximar – ou se entregar – a força agroLírica
de CACHAPREGO, não há mais desculpas. Recentemente lançado – no
evento literário VERÃO POESIA, em fevereiro deste ano, no Palácio das
Artes, BH, o CD Musicacha Cachaprego, com composição/ produção
musical de Gilberto Mauro e voz/ interpretação de Wilmar Silva.
Não há mais desculpas, caro Leitor, cara Leitora. “É só se não quiser”. O
lance está todo 'mastigado', é só engolir. Como assim? Se você não gosta
de livro (oh mein Gott!) pode ouvir os trechos em redemoinhos em arrepios
no seu moderno CD player.

E Musicacha merece elogios – como raramente tenho oportunidade de elogiar.
[Não que eu esteja poupando elogios para investir na minha velhice, mas é
que vou elogiar o quê?] Aqui Musicacha se destaca como um empreendimento
artístico de rara beleza, a ousar resurgimento da fala poética além do texto
em papel. Não é apenas um poeta a declamar poemas (coisa aliás um tanto
quanto comum), mas uma Poesia que volta a ser o que sempre foi – Música.
Se o texto 'engessa' a expressão poética, a declamação, a atuação da fala faz
reviver o ciclone lírico em toda a sua plenitude. De forma que – pra mim –
' poesia sonora', 'Biopoesia', 'poesia biosonora' é tudo pleonasmo. Poesia é o
som das palavras – não caracteres numa página de livro. [Poesia 'visual'?
Um momento. Não trataremos aqui de artes plásticas...]

Nesse sentido pode se aceitar a provocação de Wilmar Silva - “poesia não é
literatura” - no propósito de ver a Poesia ALÉM da forma literária, a considerar-
-se sua forma-mor, a Escrita. A ser revisada, publicada, resenhada. A Poesia
é para ser 'explicada' mas avaliada pelos órgãos dos sentidos em toda a
plenitude (nome técnico: Sinestesia)

Wilmar Silva (que julgamos conhecer) apresentou-me a figura ímpar de
Gilberto Mauro, numa mesa de café, enquanto debatíamos o sentido da
existência e os ditos 'experimentalismos' que assombram o mundo da música
(principalmente o 'pop'), enquanto Gilberto rememora lances de sua leitura
(ou audição) de mundo, nas ondas de influências de prog rock, soundtracks
de filmes clássicos, Mancini, Legrand, Morricone, diálogos com o
Clube da Esquina, Kraftwerk, etc para trabalhar justamente este 'resgate'
da Sinestesia. Assim, não sendo 'poema' mas 'proto-poema', não sendo
'obra' mas ruptura', CACHAPREGO foi fagocitado em ritual antropofágico
até gerar este Musicacha.

Trata-se de uma 'outra oportunidade' dada à obra de WS, para abrir 'novas
frentes', e conquistar os leitores a procura de um Autor. É possibilitar um
acesso à musicalidade dos longos versos ásperos emaranhados de
CACHAPREGO. Selva que Gilberto desbravou, segundo diz, ao buscar
“um acesso ao poema” antes “de fazer a música”. Música aqui além de
conceitos. Estamos a falar aqui de 'ambiências sonoras', 'atmosferas acústicas',
'efeitos sonoros', samplers, colagens, edições, vozes e vozes sobrepostas.

Eu só escarevo quando esqueço que escarevo...” uma voz que ecoa a si mesma
tal um corte áspero a retalhar um cortejo fúnebre, o poeta exaltado atentando
contra o tom melancólico de um violino sampleado. Ou a voz ecoando
redizendo ora pausada ora frenética, ao som do que seria uma toada de viola
caipira, cada sílaba “rolada a céu aberto”, onde os efeitos de vozes sobrepostas –
os poemas foram gravados até dez vezes! com 'ritmos' e 'interpretações' diversas! -
-criam um algo de 'esquizofrênico', de 'bipolaridade', onde vozes recobrem a voz
até com a própria voz invertida! Ressoando num fundo de caverna (aqui seria
o B.G.), a desafiar, “e você que diz esconder mil medusas na pele”, a golpear
com a aridez de cada sílaba.

Efeitos que soam psicodélicos viajantes sonoridades de Emerson Lake & Palmer
Pink Floyd Yes, Alan Parsons Project
na vastidão de um campo aberto, um
símbolo do idílico e do bucólico, onde a voz caipira de WS ressoa como um
estranho Arcadista ou pré-Romântico a entoar imagens poéticas enquanto
vem e vai a capinar o chão de pó e pedra, “uma mistura de enxadadinha que
trabalha bem
”, que vem e vai a reverberar reverberando.

Turbilhão de voz/es que se confudem num piano jazz ora degustando o
clássico ora se arranhando no áspero, na poeira levantada por “cavlaos
selvagens que indóceis e indomáveis
” atravessando a planície pedregosa,
a estepe tempestuosa do poema (ou 'não-soneto'), costurando as imagens tecidas
meio aos insetos esvoaçantes e vozes avoantes, tudo pronunciado por uma eco-
reverberante “umabocacarnuda” a gênese da própria fala.

Eu que venho sorvendo os floemas de meus poemas” a voz a rasgar a
distorção, ou invadir a percussão áspera a la Uakti, a la Babilak Bah, não
exatamente uma “orquestra de enxadas”, mas – segundo o Músico – o bater
de um colher num corpo de botijão – a trilha sonora ideal para uma voz
exaltada revoltada revoltosa a desabafar “é minha ador que habita eme meu
peitoi e só eu hei delevar adiante
” na figura do poeta que tal um cristo sofre
solitariamente a sua crucificação. A sina sofrida do poeta serve assim aos
propósitos de instrução (e entretenimento) da massa de leitores.

Um delírio sensual, de sexo selvagem percorre a enxurrada de sílabas
silabações numa atmosfera de piano elétrico onde o lirismo abafa o eu-que-
-fala, não mais uma interpretação mas a confissão da máscara, “a origem do
xamam que diz sexo em minhas orelhas
” onde o ritual recria o místico e o
sexo é lembrado como o que sempre foi: origem da vida.

sou este cio que vem do véu de relvas” quando após o gozo voltamos ao tom
algo melancólico do início – num movimento de ária – onde a 'depressão
pós-coito' deixa os finalmente de 'não mais desejos', 'no more desires', a
melancolia Romântica a percorrer as geografias do ser amado, idealizado ou
possuído, para perder o fôlego faltante resfolegante do eu na selva de sinestesias
'floresta de símbolos' onde “íris que irizem peixes e pirilâmpados iluzminem eus”.

Tão-somente 10 faixas, 22:14'', mas a trilha sonora de uma existência inteira,
a companhia certeira para uma noite de solidão, um interlocutor a monologar
nossas próprias inquietações, uma voz plural de Eus cambiantes que fluem
com o discurso assim pianos dissonantes em sinfonias bucólicas ou árias rurais,
pastorais de “uma ovelha longe das ovelhas” (ELP)

Assim é Musicacha, um 'trabalho instigante' para “entrar nos poros”,
sem 'experimentalismos' (ainda que o Artista se confesse experimental)
mas 'concretizações' a ousar e assumir a 'ruptura' com a mesmice e
avançar rumo a reCriação – que é o antídoto para a Repetição.

Gilberto Mauro pode ter a certeza de 'estar fazendo a coisa certa'.
E Wilmar Silva, a oportunidade de ser redimido e apreciado pelas
'massas'. E os leitores, bem, quanto aos leitores, digo, Ouçam o Musicacha.
Façam-me o favor!

Abr/10

sexta-feira, 26 de março de 2010

Los Cuerpos/ Os Corpos - Javier Galarza



JAVIER GALARZA


(Buenos Aires/ Argentina)

(in: Reversion / Anome Livros / Tropofonia Editorial / 2010)

LOS CUERPOS Os corpos

(trad. LdeM)

(esta cartografia desesperada que somos, o relevo destes
mapas trêmulos, estes pulsares, esta precipitação de
verdades, estes silêncios que contêm e nos dizem)

1.
falamos para entender o corpo
única certeza palpável

1.(bis)
falamos por perder o corpo
única certeza palpável

2.
ainda falaríamos se soubéssemos nos acariciar?

3.
perpetramos contra o sumo poder do silêncio
por esta necessidade de falar os corpos espreitados

4.
corpo. enigma a decifrar sob uma ameaça
permanente: a aniquilação

5.
o que pode falar um corpo senão de violência e nudez?
o que o constitui senão fluidos de doçura de algum rio e
cataclismas?

6.
há, é dizer HÁ, um milagre em movimento, a promessa de
um voo
que haverá de claudicar e um destino de sombras?

7.
e o que é o coração senão assento de magias e pesadelos
onde todas as certezas se desvanecem?

8.
um corpo de pudores e frios e ternuras e incubações

9.
que dirá o corpo senão sua autoconvocação à mutação
das peles?

10.
um desenho gestual, uma festa de caretas

11.
se crê ou se ama desde a morte contra a morte
para afirmar-se na beleza de cada indiferença possível
enquanto nos durar este sangue

12.
palavra que treme e se desnuda para descobrir-se

13.
adjetivar quando somente o ato de olhar já é um
prejuízo

14.
desde aqui resistimos e lutamos
por todos os corpos arrebatados ao amor

15.
entre pressas e ternuras
os corpos preparam seu silêncio

16.
oh cubra-me
nome meu nome apaga este silêncio
já cresçam minhas mãos ao vazio dos dias
rumo a onde a chuva jamais saberá de mim

(in: Reversion / Anome Livros / Tropofonia Editorial / 2010)

mar/10

trad. Leonardo de Magalhaens
blogs do Javier Galarza::::::::::::::::::::

sábado, 20 de março de 2010

Manual de Autoajuda e outro contos (J C Valencia)



tropofonia..............................................................................................................

Juan Carlos Valencia

Manual de Autoajuda e outros contos chinos*

Capítulo 1: Segure a raiva
Não permita a invasão da raiva. A raiva te é estranha; é do país da ira, por tanto, deixe-a para os irados, não seja invejoso. Conforme-se com os impulsos tradicionais de agressividade intrafamiliar, coisa nossa.
Capítulo 2: Cuidado com o estresse
Tenha muito cuidado com o estresse, conforme-se com as práticas sexuais tradicionais.
Capítulo 3: A busca da aprovação alheia

Não mendigue a aprovação dos demais; exija-a. E se, ainda assim, não o aprovam, golpeie-os. Se o merecem. Somente um imbecil não valorizaria suas virtudes. E, se é você quem não valoriza suas virtudes, golpei-se, no máximo o imbecil não lhe poupa ninguém.
Capítulo 4: Eleve onze sua autoestima
Uan sua autoestima, tu sua autoestima, tri sua autoestima, for sua autoestima, faive sua autoestima, six sua autoestima, seven sua autoestima, eit su autoestima, naine sua autoestima, ten sua autoestima, ELEVE ONZE SUA AUTOESTIMA

... simples

Capítulo 5: A Culpa

Não há sentimento mais pernicioso que a culpa, esta o deixa patologicamente inseguro e incapaz de sentir prazer.

O prazer é algo bom e saudável e há coisas que o provocam com radical efetividade, (além do sexo e de um bom baseado, é claro) não se prive de fazê-las e de fazê-las sem culpa alguma, você tem direito de ser feliz, não se limite por sentimentos de culpa introduzidos na sua cabeça por séculos de repressão cristã.

Faça as coisas sem pensar, desterre a culpa, no mais, o que está feito, está feito. Não se prive das seguintes coisas cujo efeito positivo e prazeroso está cientificamente comprovado e que, segundo um estudo da Universidade de quef-sef-yof-pues todo mundo, alguma vez, desejou fazê-las.
1. Esvazie o ar de um pneu de carro estacionado, melhor ainda de madrugada; desenrosque a tampa da câmara de ar do pneu, introduza uma pedrinha do tamanho próprio e volte a enroscá-la, posteriormente sente-se a uma distância prudente e observe como o pneu vai murchando, se você tiver sorte e paciência poderá observar o dono lançando impropérios ao vento da noite enquanto uma careta divertida se esboça em seu rosto.
2. Toque repetidamente a campainha numa casa onde mora uma velhinha sozinha e com problemas para andar e, de imediato, comece a correr.
3. Toque, de novo, a mesma campainha.
4. Insulte as pessoas por telefone e com ofensas grosseiras.
5. Baixe as calças do nerd da sala na hora da apresentação no pátio na hora de cantar os hinos (no mais, quando ele for milionário, sentirá pena por você, e assim, recordar disso, é bom, vá no capítulo # x)
6. Arranhe com um estilete ou um prego os carros novos ou recém-pintados que estão estacionados no quarteirão
7. Volte a tocar a campainha da velhinha.
8. Quebre a pedradas as janelas recém-instaladas de um edifício em construção (no mais, se eles têm grana para construir tremendos edifícios, também têm grana para repor as janelas. Além disso, algumas construções desse tipo contam com seguros contra vândalos)
9. Escreva graffitis obscenos na parede branca de um colégio de mocinhas e dirigido por monjas.
10.Volte a escrever o graffiti sobre a pintura fresca.
11. Cruze a rua fingindo ser aleijado e quando o veículo tiver reduzido a velocidade, volte para ver o motorista com olhos de gratidão e, depois, comece a correr.
12. Complete a gradução com teses plagiadas.
13. As bolas que caírem na sua casa, por caisa do jogo dos meninos da vizinhança, vá devolvê-las, porém furadas (se são meninos pobres devolva duas bolas... igualmente furadas).
As possibilidades são enormes, utilize a imaginação.
(*)chino – pode referir ao povo chinês, por extensão, a porcelana chinesa, e assim, algo delicado, artigo fino; e também pode se referir a descendentes de indígenas, p.ex. 'chinoca' no sul sulamericano para designar a moça com traços indígenas.
trad. Leonardo de Magalhaens
Juan Carlos Valencia . Quito, Equador.
Diretor de teatro, palhaço, poeta,
dirige a Casa de la Expressión, la Cultura y el Arte (La Ceca)
em Tumbaco, Equador.


fonte: Tropofonia revista II 2010 n 5

domingo, 14 de março de 2010

sobre O Médico e o Monstro / Dr. Jekyll & Mr. Hyde





sobre “O Médico e o Monstro
(The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, 1886)
do escritor escocês R L Stevenson (1850-1894)

parte 4 de A Literatura enquanto Alegoria/Parábola

Convivendo intimamente com médicos e monstros

Uma novela de terror alegórico nascida de um pesadelo com o 'bicho-papão'– segundo testemunham os parentes de R L Stevenson – onde o que aterroriza está oculto pelas aparências. O nobre médico, erudito e filantropo, às voltas com experiências com o 'lado sombrio' da mente. Um terror que está por detrás das portas sempre mantidas fechadas, lacradas, seladas por séculos de 'repressão' e 'ressentimento'.

A dupla face Jekyll – Hyde mostra que o ser humano não é 'íntegro', mas 'fragmentado', é igual a Divindade de três faces, a Trindade cristã, é um ser-três-em-um, segundo a célebre teoria de S Freud, sobre sermos um conjunto de Id, Ego e SuperEgo. Instâncias psicológicas do indivíduo – não tão 'indivisível assim' – que sobrevie a todo um conflito entre o Id – primitivo e animal – e o SuperEgo – o processo civilizatório 'introjetado'. Isto é, o ser humano carrega dentro de si um 'animal enjaulado' à espera de um momento – um deslize do SuperEgo – para entrar em ação e esbravejar, pisotear, violentar, assassinar. A civilização do ser humano assim não passaria de 'verniz fino' sobre a 'besta-fera' trajada com fibras sintéticas e usando aparelhos de última tecnologia.

(Aliás, a própria tecnologia estaria nas mãos das 'bestas' – basta a ver a destruição causada pelas 'máquinas bélicas' – Guernica, uma cidadezinha espanhola, na região basca, arrasada pela aviação, ou Stalingrado, uma cidade indutrial moderna, reduzida a escombros por ondas e ondas de bombardeios de aviação, ou Hiroshima e Nagasáki, cidades japonesas devastadas e polverizadas pelas bombas atômicas, ou os submarinos que carregam, nas entranhas do mar, mísseis com ogivas que podem atingir e destruir países inteiros)

A esquizofrenia seria a 'fragmentação' manifesta do Eu em múltiplas personalidades, uma vez que os esquizofrênicos manifestam uma 'identidade dissociativa', segundo mostram os estudos do psiquiatra suiço P. E. Bleuler (1857-1939) sobre a 'mente dividida' (squizo + phrene, em grego), não apenas de 'dupla personalidade, pois existiam (e existem) pacientes com 'múltiplas' personalidades. Sobrepostas, paralelas, em paz ou em conflito, se manifestando em ocasiões de crise, ou quando do uso de certos medicamentos.

Simbolicamente (para deixarmos o terreno médico, psiquiátrico) poderíamos dizer que um artista múltiplo seria 'esquizofrênico'? Um ator a interpretar apaixonadamente vários papéis? Um artista ventríloquo num teatro de marionetes seria um 'esquizofrênico'? O poeta lusitano Fernando Pessoa era um 'esquizofrênico' ao se 'fragmentar' em tantos heterônimos? Afinal quem era F Pessoa(s)? O Bernardo Soares, o Álvaro de Campos, o Ricardo Reis, o Alberto Caeiro, etc? Quem era o 'cidadão' que assinava o nome de batismo “Fernando Pessoa”?

Não bastasse isso, além do fenômeno da 'dupla personalidade', há uma outra questão: se o indivíduo seria 'bom' ou 'mau'. Se houvesse uma 'segmentação psíquica', haveria uma 'divisão moral', um 'lado bom' separado do 'lado mau'? O ser humano é 'bom' ou é 'mau'? Nasce 'bom' – o bom selvagem, segundo Rousseau – e depois é acorrentado pela sociedade (a civilização) ou é um animal – uma besta – e a sociedade o domestica (segundo Freud) ?
Já o pensador alemão Nietzsche, sempre polêmico, defende que devemos pensar 'além do Bem e do Mal', que seriam abstrações criadas pela 'moral' no propósito de 'domesticar' os instintos humanos. A 'moral' que 'criminaliza' o forte e 'redime' o fraco, enquanto, para o pensador, o 'mau', na verdade, é tudo aquilo que enfraquece e o 'bom' é tudo aquilo fortalece. O pensamento judaico-cristão seria a 'moral do escravo' (Sklavenmoral), onde o fraco se protege do forte, 'apaziguado' pela culpa e pelo ressentimento.

Vários outros pensadores de outrora já meditaram sobre semelhante problemática. Exemplos são Montaigne e Pascal, os ensaístas pensadores franceses do século 17. Enquanto Montaigne acusa os humanos de 'loucura idealizante', Pascal vê muita pretensão quando se proclama um ser capaz de 'bondade'.

“Nosso espírito ainda não tem voluntários prontos ao que pretendem, sem dissociar-se do corpo no curto espaço de sua necessidade. Desejam colocar-se fora de si mesmos, escapar ao humano. É loucura: pois não se tornam anjos, mas, ao contrário, em feras; e não se elevam, acabam decaindo.” (Montaigne, ensaio “Da Experiência”/ De l'Experience)(“Nostre esprit n'a volontiers pas assez d'autres heures, à faire ses besongnes, sans se desassocier du corps en ce peu d'espace qu'il luy faut pour sa necessité. Ils veulent se mettre hors d'eux, et eschapper à l'homme. C'est folie : au lieu de se transformer en Anges, ils se transforment en bestes : au lieu de se hausser, ils s'abbattent.”)

“O homem não é anjo nem fera, e a infelicidade é que aquele que gostaria de agir como anjo age como fera”. (Pascal, pensée 358) (L'homme n'est ni ange ni bête, et le malheur veut que qui veut faire l'Ange fait la bête )

E quanto mais se reprime um dos lados – a 'bondade' e a 'maldade' mais se divide a 'vontade humana', mais se avoluma o 'recalque' (Verdrängung) que pode 'emergir' a qualquer momento. O que a 'moral' coletiva – de rebanho, como queiram – definiria como 'princípio' seria uma 'repressão' de um desejo individual que poderia incomodar o bem-estar coletivo. Se o sexo fora do casamento é um desejo de muitos, se coletivizado teríamos a implosão das famílias com a praga do adultério, etc.

Assim, o que não é permitido pela 'moral', é classificado como 'perversão'. Mas o tiro sai pela culatra... A perversão é aquilo que 'sendo proibido' daria maior prazer! Daí lembrarmos do sadismo, da violência sexual, das orgias fantasiadas e realizadas, até com a exploração de menores de idade (o que é caracterizado como 'crime de pedofilia', em nossa civilização) (n.b. Digo 'nossa civilização', pois existem povos que assim que a menina menstrua, logo é entregue a um homem, ou o próprio pai, ou parente próximo, a deflora... Logo não há tal conceito de 'pedofilia')

Jogando com o 'desconhecido', o 'perverso' (nada mais que o “unheimlich”, o 'sinistro', o 'estranho', o 'inquietante', o 'não-domesticado', nas teorias de Freud), em “O Médico e o Monstro”, a narrativa se constrói a partir de relatos, informações vagas, visitas, testamentos, cartas não-abertas, criando uma ambiência de 'incompletitude' que somente será solucionado no terrível final. Os amigos do respeitado médico Dr. Henry Jekyll se recusam – até o drama final – a acreditarem que tão eficiente profissional possa estar envolvido em crimes tão funestos. Mas então por que ele protegeria tanto um certo Sr. Edward Hyde?

Mas o Dr. Jekyll sofre pelos moralismos, pela castração de seus desejos, assim deseja deixar livre seu 'lado perverso' e não se preocupar em reprimi-lo. O nobre doutor deseja entregar-se às luxúrias e volúpias sem sentir 'culpa' – assim cria semelhante 'dissociação' – separa de si o 'lado perverso'.

Porém, o 'mal toma conta' – uma vez libertada a 'personalidade má' (Sr. Hyde) começa a fugir ao controle, sendo repugnante, anti-social, violento, homicida. Sofre pelo medo – a culpa (segundo encontramos em Raskólnikof, o criminoso atormentado, em “Crime e Castigo”, de Dostoiévski) que o deixa ainda mais violento (o medo de punição aumenta sua raiva contra as leis e os tabus... quanto maior o medo, mais incontrolável se mostra )

A questão do 'vício' – começa como uma experiência e torna-se uma prisão. Seja vício por droga, por sexo, por objetos de consumo... e quando não se perpetua o vício, emerge a 'dor da abstinência', o viciado sofre por não ter o objeto do vício (a droga, o ato sexual, os objetos de consumo, etc) Jekyll precisa de uma certa droga para ser Hyde e deixar de ser Hyde – mas as dosagens não são suficientes, ele perde o controle, ora percebe-se a transmutar-se em Hyde, ou então adormece sendo Jekyll e acorda tendo sido Hyde, a praticar sabe-selá que crimes...! (é quando o 'monstro' rebela-se e assume o poder sobre o 'médico')

Outro exemplo de prisioneiro dos próprios vícios: o artista e boêmio Dorian Gray (do romance de Oscar Wilde) querendo se divertir com a baixeza humana, com os instintos, e conservando (ao mesmo tempo) sua beleza e candura de adolescente! Assim, transfere o 'horrror' ao primoroso quadro e segue sua vida de 'eterna juventude'... A feiúra do viciado é que 'denunciaria' suas faltas e excessos. Assim o quadro vai se tornando cada dia mais feio enquanto Dorian mantem-se belo e elegante.

Assim também com a dupla Jekyll e Hyde, pois o médico mante-se o bom profissional – ainda que um tanto afetado e introvertido – enquanto o 'monstro' torna-se cada vez o mais o que é: um monstro. Sua figura é assustadora, segundo o relato do Sr. Enfield ao Sr. Utterson, quando passam diante de uma porta fechada, numa rua escura. Lá um estranho personagem havia pisoteado uma menina, que ao chorar atraiu os familiares,

“Eu nunca vi um círculo de faces tão cheias de ódio; e lá estava um homem, no meio delas, uma espécie de sombria e carrancuda frieza – também assustado, eu podia ver – mas mantinha tal frieza, senhor, igual ao próprio Satã.” (trad. LdeM)

I never saw a circle of such hateful faces; and there was the man in the middle,
with a kind of black, sneering coolness--frightened too, I could see that--but carrying it off, sir, really like Satan
.

A cada descrição, a sombria personagem vai se delienando, a ponto de justificar a investigação do Sr. Utterson, que é o advogado – e amigo - do Dr. Jekyll, para saber qual exatamente seria a 'ligação' entre o médico e o 'monstro'. Poderia um respeitável cidadão estar 'protegendo' um vilão covarde que não hesita em maltratar as crianças? As fronteiras entre 'proteção' e 'cumplicidade' vão se desvanecendo, e surge um terrível mistério.

O fato de Jekyll haver declarado, em seu testamento, a herança de seus bens – em caso de seu 'desaparecimento' – integralmente para o Sr. Hyde (“amigo e benfeitor”), faz o Sr. Utterson suspeitar que o 'monstro' está chantageando/constrangindo o 'médico'. Afinal, por que Jekyll faria uma 'loucura' dessas? Deixar a fortuna para um vilão tão repugnante...

O Sr. Utterson vai visitar o Dr. Lanyon, médico, colega e amigo do Dr. Jekyll, mas que suspeita que o amigo está envolvido com coisas enigmáticas, restrito à atmosfera sombria do laboratório. Lanyon acha que Jekyll está exagerando em tanto 'interesse científico', assim como vários colegas alertavam o jovem Dr. Victor Frankenstein, na obra de Mary Shelley. O médico-cientista que começa a se envolver com 'enigmáticas experiências', tal um alquimista medieval, a manipular forças que logo fogem ao controle. Assim, tanto Lanyon quanto Utterson começam a ser assombrados por algo que desconhecem... o sinistro, o Unheimlich que perturba.

(Assim também o Dr. Fausto – na obra de Goethe – que perdia o controle sobre Mefistófeles, espírito demoníaco que antes o médico havia invocado e constrangido com sua magia... Esta figura do cientista que - tal um mago desastrado – cria 'monstros' está no cerne de muitas obras de terror e de ficção científica, como veremos em ensaios futuros)

A carta final do Dr. Jekyll – lida pelo Sr. Utterson – mostra todo o desespero do médico ao ver-se dominado pelo 'monstro', “Os poderes de Hyde aumentaram com a doença de Jekyll. E, sem dúvida, o ódio que a eles divide é igual em cada um. Com Jekyll, era uma questão de instinto vital. Ele tinha visto a completa deformidade daquela criatura que havia compartilhado com ele o fenômeno da consciência, e era co-herdeiro com ele até a morte: e além dessas relações comuns, que era a parte mais pungente de todo o seu desespero, ele pensava sobre Hyde, com toda aquela energia de vida, como algo não apenas infernal mas inorgânico. Eis o que era chocante: que o lodo do fundo do poço parecia vociferar e chorar; que a areia sem forma gesticulava e cometia pecados; que o que estava morto, e não tinha forma, usurparia os encargos da vida.” (trad. LdeM)

The powers of Hyde seemed to have grown with the sickiness of Jekyll. And certainly the hate that now divided them was equal on each side. With Jekyll, it was a thing of vital instinct. He had now seen the full deformity of that creature that shared with him some of the phenomena of consciousness, and was co-heir with him to death: and beyond these links of community, which in themselves made the most poignant part of his distress, he thought of Hyde, for all his energy of life, as of something not only hellish but inorganic. This was the shocking thing; that the slime of the pit seemed to utter cries and voices; that the amorphous dust gesticulated and sinned; that what was dead, and had no shape, should usurp the offices of life.

Mas encerremos aqui, sabendo que o nosso objetivo não é resumir o enredo – aliás muito bem enredado, ora analítico, ora sugestivo, quase beirando ao gótico, quando o vulto sombrio do Sr. Hyde perambula pelas ruas nevoentas de London (Londres) com sua bengala ameaçadora, transformando em vítima a primeira pessoa que ele encontrar pela frente, basta apenas um tropeção e eis um homicídio. Tétrica silhueta a espalhar sombras disformes sob os lampiões enevoados numa noite de lua fosca. Eis a atmosfera assustadora de “O Médico e o Monstro”. (Em breve trataremos dos romances góticos e de terror. Aguardem.)

jan/fev/10

Leonardo de Magalhaens

The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde
(Robert Louis Stevenson)
(online)
http://www.gutenberg.org/catalog/world/readfile?pageno=6&fk_files=34703

domingo, 7 de março de 2010

The Bells / Os sinos dobram - E A Poe



EDGAR ALLAN POE


The bells

Os sinos dobram
I


Ouça os trenós com o dobrar -
de sinos de prata a dobrar!
Que mundo de júbilo o som redobra!
Como tangem, tangem, tangem,
No frio ar da noite!
Enquanto o céu estrelado se desdobra
Todo o céu se assombra
Com alegrias cristalinas;
Marcando tempo, tempo, tempo,
Tal um ritmo de antigo tempo,
E soamressoam em música ressoam
Dos sinos que dobram, dobram, dobram,
Dobram, dobram, dobram -
Ressoam e tangem os sinos dobram.

II

Ouça os sinos em núpcias dobram,
Dourados sinos dobram!
Que mundos de alegria em harmonia redobram!
No perfumado ar da noite
Eles ressoam com alegria!
Em notas de derretido ouro
E em tal melodia
Em simples sons flutua,
Às pombas que ouvem, então gorjeiam
No luar!
Oh, de espaços ressoando,
Que jorro de euforia se avolumando!
Como dobram
Como redobram
Ao futuro! Como soam
Em encantos que ressoam
Ao soante e ressonante dobrar
Dos sinos que dobram, dobram, dobram,
Dobram, dobram, dobram -
No ritmo e rima os sinos dobram!

III

Ouça: em alto som os sinos dobram
De bronze os sinos dobram!
Que conto de terror em clamor redobram!
Os alarmados ouvidos da noite
Como eles gritam de susto!
Muito horrizados para falar,
Ficam a gritar, a gritar,
Sem sintonia,
Em clamoroso apelo à piedade ao fogo,
Em louco protestar contra o surdo fogo,
Saltando acima, acima, acima
Que o desespero anima,
Em resoluto esforçar,
De agora ou nunca
Junto a face pálida da lua!
Oh, os sinos dobram, dobram, dobram,
Num relato do terror redobram
De desespero!
Como eles soam, tangem e bradam
Que horror eles vertem
No seio do ar palpitante!
Ainda de ouvir pode se saber,
Em dobrares
E em redobrares,
Como o perigo vai e vem:
Ainda ao ouvido dobram,
Assim tangem
E assim bradam,
Enquanto o perigo sobe e desce,
E ao subir e ao descer na fúria dos sinos que dobram,
Os sinos dobram,
Dobram, dobram, dobram, dobram,
Eles dobram, dobram, dobram -
No clamor e no ardor os sinos dobram!

IV

Ouçam: os sinos dobram-
De ferro os sinos dobram!
Que mundo de solenidade a monofonia redobra!
No silêncio da noite
Trememos de pavor
Da melancólica ameaça deste tom!
Para cada som que flutua
Das goelas em ferrugem atua
Um gemido!
E as pessoas – ah, as pessoas -
Que habitam nas cúpulas,
Tão sozinhas,
E que tocam, tocam, tocam,
Em abafada monotonia,
Glorificados quando rolam
As pedras sobre nossos corações!
Eles não são homens nem mulheres,
Não são bestas nem são humanos,
São espectros:
E o rei deles é quem soa,
É ele quem ressoa, ressoa, ressoa,
E redobra
Os louvores que os sinos dobram!
E os seus peitos se atordoam
Com os louvores que os sinos soam;
E ele dança e ele urra;
Marcando tempo, tempo, tempo,
Num tipo de rima de antigo tempo;
Aos louvores que os sinos dobram,
Marcando tempo, tempo, tempo,
Ao golpear dos sinos que dobram -
Dos sinos que dobram, dobram, dobram -
Ao soluçar dos sinos que dobram;
Deixando tempo, tempo, tempo,
Quando ele ressoa, ressoa, ressoa,
Numa feliz rima de antigo tempo,
Ao rolar dos sinos que dobram,
Dos sinos que dobram, dobram, dobram,
Do badalar dos sinos que dobram,
Dos sinos que dobram, dobram, dobram,
Que eles dobram dobram, dobram -
Assim lamentosos e gementes eles dobram!

fev/10

Trad. livre by Leonardo de Magalhaens